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Nos episódios anteriores:

Guilherme teve uma briga generalizada com os filhos, em especial com Carlos, por não aceitar bem sua orientação sexual. Carol voltou a sua vida agitada em São Paulo. Júnior e Rebeca andam de paquera, e Vera anda incomodada com isso. Tomás só quer saber de curtir a gravidez de sua esposa. Fernando perde o emprego. Sara descobre que está grávida.

1. INTERNA – NOITE – HOSPITAL

Após passar mal em casa, Sara é levada pelo marido ao Hospital. No momento em que ela era atendida, Fernando a aguardava nervoso na sala de espera, sem saber o que estava acontecendo com a esposa.

Fernando: Por gentileza, minha esposa está sendo consultada, o nome dela é Sara Andrade Viana. – vai até a recepção em busca de informações.

Recepcionista: Pois não, senhor – começa a procurar algum registro no computador – Desculpe, como o senhor se chama?

Fernando: Fernando Viana. Alguma informação,… – olha no crachá da recepcionista – Janete?

Janete: Sua esposa terminou a consulta neste instante. Pelo registro aqui no sistema, foram solicitados dois exames, Sr. Fernando. Preciso que preencha este formulário – apresenta uma ficha e uma caneta.

Fernando: Pois não. – começa a preencher.

Janete: Se Deus quiser, vai ficar tudo bem com o filho de vocês.

Fernando para de preencher e olha surpreso para a recepcionista.

2. INTERNA – DIA – REDAÇÃO DO ÁGORA

Carol desliga o telefone e procura alguma informação entre inúmeras folhas de papel. Seu editor chega e senta–se ao seu lado com uma expressão preocupada.

Carol: Cheguei atrasada, mas já está tudo em ordem. A reportagem sobre o desvio das verbas da saúde está pronta. – fala apressada, mas olha para Frank e percebe sua expressão, então, pergunta – Algum problema?

Frank: Carol, a Mara, apresentadora do quadro Entrevista do Dia, está doente.

“Entrevista do Dia” era um dos programas da TV Pólis, que fazia parte do mesmo conglomerado de comunicação do Jornal Ágora.

Carol: Nossa, o que ela tem? – pergunta após analisar por uns instantes a expressão do chefe.

Frank: Eles estão querendo alguém que entenda de política para substituí-la…. – ignorando a pergunta de Carol – Eu preciso que você apresente a entrevista hoje à noite. – vai direto ao ponto.

Carol leva um susto.

Frank: A entrevista é com o Senador Robson Medeiros. Aqui estão alguns pontos a se abordar… Posso contar contigo, certo? – sorri.

Carol: Você ainda pergunta. Claro que pode! Você não vai se arrepender! – recuperando–se do susto e aparentando naturalidade.

Frank pisca para Carol e sai pelo corredor.

3. INTERNA – DIA – ORFANATO SANTA CLARA

Nora esta agachada, guardando livros e brinquedos. A diretora do orfanato entra na sala.

Walquíria: Como é bom este silêncio de vez em quando.

Nora: Também gosto de silêncio de vez em quando – frisa as últimas palavras – Em casa, a coisa mais rara é termos momentos de silêncio. Família grande, muito barulho, agitação, você pode imaginar como é…

Walquíria: Posso sim. Aqui a agitação também é grande. As crianças não param um minuto. Têm muita energia.

Nora: Elas são elétricas! Dá trabalho controlar este batalhão! – sorri.

Walquíria: Tem razão. Educar estas crianças, passar para elas valores de união, iniciativa e responsabilidade, é uma tarefa dura, mas prazerosa. Ver algumas das crianças que passaram por aqui, com um trabalho, tomando uma direção na vida, ou mesmo quando alguma delas consegue uma família para recebê-las, compensa todo o esforço.

Nora: Você faz um excelente trabalho, Walquíria.

Walquíria: Obrigada. – sorri – Nora, gostaria de lhe fazer uma proposta. Você vem nos ajudando já há algum tempo como voluntária e tem uma excelente formação também. Teria interesse em fazer parte de nossa equipe, aqui no orfanato?

Nora olha surpresa para Walquíria.

Walquíria: As crianças gostam muito de você. Além disso, precisamos de mais pessoas para ajudar, nosso quadro está super-reduzido, pensei que talvez tivesse interesse em ser professora de Português aqui, ajudar principalmente com redação, eles têm dificuldade pra escrever… Você já vem ajudando muito os incentivando com a leitura, mas quem sabe um trabalho mais focado e constante. O que acha?

Nora: Seria maravilhoso! Em todo caso, preciso pensar com calma.

Walquíria: Não se preocupe. Posso aguardar.

Nora: Ok, te respondo o mais breve possível.

Nora despede-se, pega sua bolsa e sai.

4. EXTERNA – DIA – RESTAURANTE

Tomás chamou os irmãos e o tio para almoçarem, queria continuar dando força para Carlos após a briga com o pai e demonstrar para Júnior que também estava o apoiando no novo trabalho. Chamou Saulo porque antes teve que passar na filial da Livraria Andanças que o tio gerencia. Carlos chega ao restaurante falando no celular, mas sem conseguir escutar direito porque o local estava muito barulhento.

Tomás: Quem era?

Carlos: Carol. Pude entender metade do que ela disse. – responde sentando-se – Não poderia ter escolhido um restaurante menos bolsa de valores? – pergunta a Tomás com sarcasmo.

Tomás: Ei, foi o melhor que eu pude. Era um ponto estratégico para todos nós. Meio termo entre a livraria, a Riachuelo e a casa da mamãe. – diz a última parte em tom de ironia, não consegue não provocar Júnior.

Júnior: O que a Carol queria? – ignora o comentário do irmão.

Carlos: Contar que vai apresentar uma entrevista no jornal hoje à noite… na TV! Se é que eu escutei bem… – levanta as sobrancelhas em dúvida.

Saulo: Que bacana! Ao vivo?

Carlos: Pelo que eu entendi, sim!

Júnior: Uau! Carol vai ficar famosa – ironiza – Assim pelo menos ela se anima. Ela estava muito abatida quando saiu de casa para a rodoviária.

Tomás: Tem razão. Além da bronca da vovó e da Dona Nora, ainda teve a discussão com o papai… Realmente, foi um fim de semana e tanto para ela.

Carlos: Para todos nós! – responde emburrado.

Saulo: Ela discutiu com o Guilherme também?

Júnior: Tio Saulo, nem vale a pena começarmos este assunto.

Carlos: É isso aí, Júnior! – desconversa.

Tomás: Mudando de assunto, como vai o trabalho, Júnior? – tenta se redimir.

Saulo: Júnior trabalhando? Não acredito! Essa é boa!

Júnior: Não é bem um trabalho, tio, é só um ‘freela’. fala para Saulo usando gírias, como de costume, querendo dizer que é apenas um trabalho free lancer.

Carlos: Tomara que você tome gosto. – ironiza.

Júnior: Se eu conhecesse uma gatinha, como a assistente deste trabalho, tomava gosto bem mais rápido. – ri.

Carlos: Você não muda mesmo! Como é o nome dela?

Júnior: Rebeca, mas ela tá se fazendo de difícil.

Tomás: Já parou para pensar que talvez ela não esteja a fim de você?

Júnior: Impossível!

Todos riem juntos.

5. INTERNA – TARDE – ANDANÇAS – ESCRITÓRIO DO GUILHERME

Guilherme terminava uma conversa pelo telefone quando Vera entrou em seu escritório. Ela parecia nervosa. Ele encerrou a ligação e levantou para cumprimentá-la.

Guilherme: Você por aqui hoje? Algum problema?

Vera: Um problema enorme, você nem imagina.

Guilherme: O que foi? É a Rebeca?

Vera: Sim. Ela e seu filho mais novo, Júnior.

Guilherme: O que tem o Júnior?

Vera: A Rebeca e o Júnior estão trabalhando no mesmo lugar, e eles se conheceram. E outro dia, ele foi levá-la até em casa, de noite, e tentou beijá-la.

Guilherme: O que você fez?

Vera: Como assim o que eu fiz? Eu acabei de descobrir e estou vindo te contar.

Guilherme: Então você vai proibir a Rebeca de sair com o Júnior.

Vera: Por que você não fala com seu filho, e o proíbe de sair com a Rebeca?

Guilherme: Qual motivo eu vou dar para afastar ele da Rebeca? Ela é uma moça linda, inteligente, responsável. Além disso, eu estou brigado com ele, na verdade com todos.

Vera: Você brigou com seus filhos? – ela mudou a conversa surpresa com aquela notícia.

Guilherme: Eu briguei com o Carlos, e os outros todos foram em defesa do irmão e acabamos todos brigados.

Vera: Já falei pra você largar esse preconceito de lado.

Guilherme: Eu não quero falar disso agora. Você precisa falar com a Rebeca, não importo qual desculpa você use, mas sabe que é necessário.

Vera: Tudo bem, vou pensar um jeito de afastar os dois. Mas você fica de olho, qualquer suspeita dos dois saindo juntos, me avisa.

Guilherme: Certo, manterei os olhos e ouvidos atentos.

Vera foi até ele e o abraçou. Eles deram um beijo e combinaram de se verem outro dia na semana. Guilherme sentou em sua cadeira, suspirou e passou as mãos pelos olhos, com mais aquele problema para se preocupar.

6. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Nora conversa com Carol pelo telefone.

Nora: Hoje à noite?

Carol: Sim, mãe, daqui a pouco!

Nora: E você só me avisa agora? Tenho que pedir ao seu irmão para programar a gravação. Não comprei essa TV cara à toa!.

Carol: Não, senhora, nem pense em gravar isso.

Nora: Sou sua mãe, é isso que as mães fazem.

Carol: Mãe, estou com medo… – diz depois de um momento de silêncio.

Nora: De que, filha?

Carol: De não conseguir fazer isso.

Nora: É claro que você consegue. Você se articula bem demais, eu que o diga.

Carol: Ai, a senhora acha mesmo?

Nora: Claro, filha, fique tranqüila. Na hora tudo vai fluir naturalmente.

Carol: Tomara… – diz já se sentido mais segura.

Nora: Quem você vai entrevistar?

Carol: O Senador Robson Medeiros.

Nora: Carol, por favor, não fale nenhuma das suas opiniões equivocadas.

Carol: Mãe, ele concorda com as minhas “opiniões equivocadas” – frisa as últimas palavras, e Nora revira os olhos no outro lado da linha.

7. INTERNA – NOITE – REFEITÓRIO DA LIVRARIA

Tomás entra, e Guilherme está sentado em uma das mesas.

Tomás: Estava procurando o senhor. O que está fazendo aqui no refeitório dos funcionários sozinho?

Guilherme: A entrevista da Carol vai começar em alguns instantes.

Tomás: Hum… mamãe te avisou – Guilherme faz que sim com a cabeça – Bom, então como está tudo tranqüilo, acho que vou voltar para minha esposa.

Guilherme: Aguarde mais um pouco por aqui. Vamos assistir a entrevista juntos… Vai já começar, você não vai querer perder, não é?

Tomás o analisa por uns instantes, estranhando o convite.

Tomás: Ok…

8. INTERNA – NOITE – ESTUDIO TV PÓLIS

Carol nervosa, com alguns papéis no colo, com a assistente retocando sua maquiagem e o entrevistado sentado na poltrona ao lado.

Diretor: 15 segundos!

O celular de Carol toca, ela vê que é o irmão mais novo pelo visor.

Carol: Júnior, não posso falar! Beijos! – desliga e bate com a mão no braço da assistente, que acerta o rímel em seu olho.

Carol: Ai, meu olho!

Assistente: Desculpe! – desespera–se.

Diretor: 10 segundos.

Carol: Não consigo enxergar, minha lente está fora do lugar! – Começa a piscar.

Diretor: Carol, você precisa fazer alguma coisa! Estamos entrando no ar! 5… 4… – todos saem do cenário correndo – 3… 2…. 1…. no ar!

9. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – QUARTO

Fernando entra no quarto com o telefone na mão e encontra a esposa deitada, com os olhos baixos, aparentando cansaço.

Fernando: Como se sente, Sá?

Sara: Estou bem.

Fernando: Sua mãe quer falar com você – avisa passando o telefone para ela – Eu contei que você não estava muito bem, mas ela insistiu – Sara faz cara de “é claro” para o marido.

Sara: Oi mãe. Estou bem – se adianta.

Nora: Oi filha, como você está?

Sara: Bem, mãe, foi só o mal estar. Acho que estou com gripe… das fortes – completa triste e olha rapidamente para Fernando, que tem uma expressão de dúvida no rosto.

Nora: Cuidado, Sara, pode ser dengue.

Júnior: Só se for dengo – brinca se aproximando da mãe, que faz sinal para ele se calar.

Sara: Não é, mãe, pode ficar tranqüila, fui ao médico.

Nora: Você foi ao médico? Você? Você que odeia hospital… Quão grave é essa gripe, Sara?

Sara: Mãe, foi o Ferdi que insistiu… – olha pra ele que agora está a observando com uma expressão séria.

Nora: O Nando é outro que só pisa em hospital em caso de vida ou morte… – continua a estranhar – Minha filha, você está bem mesmo? – fala preocupada.

Sara: Estou mãe, só vou precisar ficar alguns dias em casa… para me recuperar – completa num suspiro.

Júnior: Mãe, o programa vai já começar… – chama a atenção.

Nora: Tá bom, então, melhoras, e qualquer coisa, pode contar com sua mãe, viu? Bem, eu liguei só para avisar que a sua irmã vai aparecer na TV daqui a pouco. Ela disse que tentou falar com você o dia inteiro, mas você não atendia o celular.

Sara: A Carol? Sério? Como assim?

Nora: Parece que teve que substituir alguém com urgência… É na TV Pólis, liga aí.

Sara: Ferdi, liga a TV rápido, a Carol vai aparecer!

Fernando liga a TV do quarto e a chamada do programa aparece.

Todos, de onde estavam, passam a assistir Carol na televisão. Carol aparece na tela, piscando descontroladamente.

Carol: Boa noite! Er… Eah… Est… Estamos aqui… – gagueja e continua piscando.

Nora olha perplexa para a televisão.

Carlos: O que é isso?! – pergunta rindo. Ele também assistia ao programa na casa dos pais.

Nora: Ah, meu Deus! – diz preocupada.

Sara: Eu não acredito! – Começa a rir também, ainda estava com a mãe pelo telefone.

Carlos: Eu preciso ligar pro Tomás! – diz animado.

10. INTERNA – NOITE – ESTÚDIO TV PÓLIS

Carol tenta contornar a situação, visivelmente perturbada.

Carol: Desculpe. Estamos aqui com o Senador Robson Medeiros. Boa noite, Senador!

Robson: Boa noite – controlando o riso.

Carol ouve o diretor gritando no ponto: Chame o break, chame o break!

Ela continua piscando e com uma das mãos na altura da orelha, segurando o “ponto”, transparece que estão gritando em seu ouvido.

Carol: Voltamos após os comerciais. – tenta sorrir.

Diretor: Corta! – grita.

Carol: Preciso de soro fisiológico! Urgente! – corre para o camarim, seguida pela assistente.

Diretor: Carol, você tem 2 minutos!

11. INTERNA – NOITE – ANDANÇAS – REFEITÓRIO

Tomás conversava com o irmão Carlos pelo telefone enquanto via junto com o pai, a irmã pela televisão.

Carlos: Você está vendo isso?!

Tomás: É claro! – ri – A pergunta é: vocês estão gravando isso?

Carlos: Sim, mamãe achou que seria um grande momento na carreira da filha… Só não imaginava o quanto! – ironiza.

Guilherme: Coitada da Carol! – inconsolado – Como isso foi acontecer com tua irmã? – começa a mexer no celular.

Tomás: De todas as gafes da Carol, esta entra para o “Top Five”, fácil! – fala pro pai e para o irmão ao mesmo tempo.

Guilherme: O celular dela só chama.

Tomás: Claro, né, pai, ela está ao vivo na televisão!

Carlos: Ah, seu pai também está aí… – fala ressentido.

Tomás: Nosso… – corrige.

O celular de Tomás bipa em sinal de outra ligação. Ele vê o nome da esposa no visor e atende.

Tomás: Peraí, Carlos, a Vitória tá me ligando… – avisa o irmão e atende a esposa Diz amor!

Vitória: Você está vendo a Carol na TV?

Tomás: Claro! Como ia perder? Será o assunto do mês!

Vitória: Ela deve estar super nervosa, coitada!

Tomás: Ela é sempre super nervosa… Está tudo bem com você?

Vitória: Tudo ótimo, só liguei pra te avisar do programa. Deixa eu voltar pra perto da TV, não quero perder nada. Beijos. – desliga.

Guilherme: Vamos ligar pra Sara? – propõe com um certo tom de ansiedade na voz – Será que ela foi avisada do programa? Fiquei sabendo que ela não apareceu hoje pra trabalhar…

Tomás: Hum… – continua estranhando essa tentativa de aproximação do pai – Não sei… Parece que ela tá doente.

Guilherme: Doente? Vou ligar pra ela.

12. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – QUARTO

Sara e Fernando assistiam ao programa em silêncio, nenhum se atrevia a tocar no assunto que rondava seus pensamentos. O telefone volta a tocar.

Fernando: Alô! – atende – Oi! Tudo bem com o senhor? – diz ao perceber que era Guilherme – É seu pai. Quer falar com ele? – diz para esposa tampando o bocal do telefone. Sara franze a testa e faz uma expressão de que não estava a fim, mas acaba pegando o telefone.

Sara: Alô. – seca.

Guilherme: Oi querida, você está melhor?

Sara: Sim. – ainda seca.

Guilherme: Que bom. Está vendo sua irmã?

Sara: Sim.

Guilherme: Sabe falar além de monossílabas? – Sara respira fundo.

Sara: Posso tentar, se o senhor acha que posso falar. – provoca.

Guilherme: Desculpa, filha, eu estava nervoso na outra noite, não queria falar daquele jeito com você, ok? – fala devagar como se procurasse as palavras certas.

Sara: Tudo bem, pai, passou… E você deve desculpas ao Carlos, não a mim. – o pai permanece calado e pensativo – Olha o programa vai voltar – sente-se aliviada com aquilo.

Guilherme: Certo… Fique bem, viu? Cuide-se. – fala protetor.

Sara desliga o telefone. Fernando se aproxima dela na cama e a olha. Sara mantém um olhar perdido na TV.

Fernando: Como você se sente?

Sara: Não sei dizer. Uma sensação estranha, um vazio.

Fernando: Estou aqui. – alisa seu braço de leve, mas com um certo receio, mantendo distância. Sara fica em silêncio e continua olhando para a TV inexpressiva. Na televisão, Carol continuava sua entrevista.

Carol: Senador, no período em que o senhor era Ministro, qual a política o senhor adotava para repreender fraudes no sistema de saúde?

Robson: Bom, eu fui Ministro do Trabalho, mas lá também tivemos que lidar com alguns episódios parecidos… – Carol fica roxa de vergonha e não consegue se concentrar na resposta do político.

Sara fica com pena da irmã, Fernando também fica apreensivo. De repente o som da TV é interrompido por um som de prato de bateria. Fernando se levanta da cama nervoso.

Fernando: Deve ser o Gabriel… – sai em direção ao quarto do filho.

13. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – QUARTO DO GABRIEL

Fernando entra nervoso no quarto do filho, que está tocando bateria enquanto escuta música no fone de ouvido.

Fernando: Gabriel! – chama a atenção do filho num tom mais alto. Gabriel percebe a presença do pai e tira os fones.

Gabriel: Oi! – responde.

Fernando: Sua mãe está no quarto tentando descansar, lembra? – briga.

Gabriel: Desculpa, pai… exagerei, né? – o pai concorda balançando a cabeça – Ela está melhor? – preocupa-se.

Fernando: Vai ficar… – diz não querendo prolongar o assunto. Fernando fita a camisa do filho e ler os dizeres dela: “Drummers do it with rhythm”Boa, gostei! Os guitarristas também, viu? – comenta sobre a frase, e Gabriel ri – O que você estava tocando? – se aproxima do filho, pegando os fones de ouvido para escutar – Franz Ferdinand?!

Gabriel: É… “Take Me Out”, estava vendo se pegava umas viradas. – fala movimentando as baquetas.

Fernando balança a cabeça negativamente, faz sinal pro filho esperar e sai do quarto. Vai até a sala e pega um CD, voltando em seguida.

Fernando: Toma, comece com os clássicos – fala entregando ao filho um CD do The Clash – Toque “Should I Stay, Should I Go”, e eu viro seu fã. – brinca.

Gabriel: Pai, eu conheço o Clash.

Fernando: Mas nunca é demais… E a gente precisa providenciar um reforço nesse revestimento acústico aqui. – fala deixando o quarto.

14. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Carlos: Tentei ligar milhões de vezes, mas a Carol não atende!

Júnior: Ela deve ter visto que era você e preferiu não ouvir suas piadas idiotas.

Carlos: Deve ter visto? Visto o que? Ela não consegue enxergar nada neste estado! – solta uma gargalhada. Nora lança um olhar de repreensão. – Ok, confesso que fiquei com dó dela depois da pergunta sobre a saúde.

Diva, que chegara à casa da filha no meio do programa, estava preparando um suco para os netos.

Nora: Eu estou preocupada com a Sara. – comenta de repente.

Carlos: Ah, mãe, relaxa, é só uma indisposição.

Diva: Também, só trabalha, não descansa, aquelas crianças que não dão sossego… e o Fernando, né, que é outra criança. – Nora não gosta do comentário.

O celular de Carlos toca.

Carlos: É a Carol!

Diva: Diga que apesar do cisco no olho e de tudo que ela fez, ela estava linda! Minha neta na TV!

Carlos: O que foi aquilo!!!??? – atende e caminha para a sala.

Carol: Um desastre – responde choramingando.

Carlos: Foi hilário!

Carol: Ai Carlos, por favor! Estou precisando de apoio, não de piadas.

Carlos: Ah, o bom é que a audiência amanhã será bombástica! Todo mundo na expectativa de mais um deslize teu.

Carol: O foco deveria ser o entrevistado, não minha lente de contato.

Carlos: Bom, você treina roubar a cena desde a primeira série.

Carol: Ok, já chega! Já cansei de você.

Carlos: Também te amo!

Os dois desligam simultaneamente.

15. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – QUARTO

Fernando entra no quarto devagar, ele estava pensativo. Senta-se na cama e olha para esposa, que, deitada, ainda assistia televisão.

Fernando: Sara, preciso te perguntar uma coisa que não sai da minha cabeça.

Sara: O que foi? – vira para ele.

Fernando: No hospital, a recepcionista me disse que você estava grávida, antes mesmo de concluírem os exames. – Sara olha intrigada para Fernando.

Sara: O que você quer dizer?

Fernando: Você já sabia que estava grávida? – Sara fica em silêncio, se entregando por sua expressão facial – Sabia! – respondendo a própria pergunta – Por que não me contou?

Sara: Estava esperando a hora certa. Não era o momento, Ferdi…

Fernando: Você deveria ter confiado em mim. Sara respira fundo e permanece em silêncio, Fernando bufa descontente E para sua família, você também não vai contar?! – pergunta num tom chateado – Vai continuar dizendo que está gripada? Acha que vai conseguir esconder algo como perder uma criança deles? – fala com dificuldade e medindo as últimas palavras.

Sara: Eu estou cansada, Fernando… Depois conversamos. – se vira fechando os olhos.

16. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE CAROL

Carol chega em casa exausta, joga os papéis que carregava em cima de uma das cadeiras e sente seu celular tocar na bolsa, antes de lançá-la também.

Carol: Oi pai… – atende desanimada.

Guilherme: Oi, querida! Você foi ótima!

Carol: Menos pai, bem menos…

Guilherme: Sendo a primeira vez em frente às câmeras, você foi muito bem.

Carol: Primeira e última! Depois dessa corre o risco até de eu perder o trabalho no jornal.

Guilherme: Eles não são loucos, você é essencial. E ciscos nos olhos acontecem.

Carol: É, mas trocar cargos não.

Guilherme: Tudo bem, o Senador levou na esportiva… As suas demais perguntas foram muito bem colocadas.

Carol: Ai, isso foi só porque eu estava com a matéria sobre a fraude na saúde na cabeça. Por que eu não sou uma pessoa de natureza conciliadora, hein?

Guilherme: Loira, relaxa, estou muito orgulhoso de você!

Carol sorri para si mesma.

Carol: A propósito, vou praí na próxima semana.

Guilherme: Mal posso esperar, meu amor.

17. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE VERA

Rebeca e Vera chegam do supermercado, deixam as sacolas na mesa em silêncio.

Rebeca: Você esta calada demais hoje. Dirigiu até aqui sem dizer uma palavra.

Vera: Beca, preciso te pedir uma coisa.

Rebeca: Diz.

Vera: Prometa que vai fazer.

Rebeca: Não posso prometer antes de saber o que é, mãe!

Vera: Não quero mais ver você saindo com este Júnior.

Rebeca: Tava demorando para começar a implicar…

Vera: Ele não é boa companhia.

Rebeca: Um motivo.

Vera: Ok, pesquisei sobre ele. E descobri que ele tem passagem pela polícia por dirigir alcoolizado e por uso de drogas.

Rebeca: Como assim?

Vera: É o que você ouviu. Trata-se de um traficante e irresponsável!

Rebeca: De onde você tirou isso?

Vera: Você me conhece. Sabe que eu conheço tudo e todos nesta cidade. Bastou-me o nome e sobrenome, uma ligação e consegui a ficha completa deste marginal. Mas isso não vem ao caso. O que importa é que ele não é boa companhia, não quero que você continue saindo com ele.

Rebeca: Só você mesma para sair com uma história dessas! – irritada – Meu Deus, o que deu em você para ir pesquisando sobre a vida do cara?!

Vera: Rebeca, eu me preocupo com você! E eu não estou inventando nada! Pode procurar. Ou melhor, pergunte para ele! Você vai ver que estou falando a verdade.

Rebeca entra em seu quarto e bate a porta. Vera certifica–se de que ela não está por perto, pega o telefone da sala, disca, aguarda alguns instantes e fala em baixo tom.

Vera: Pronto. Fiz o combinado.

18. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA – SALA

Era domingo, e Sara já estava praticamente recuperada. Ela e Fernando aguardavam o chamado dos filhos no corredor.

Rafaela: Podem vir. – chama os pais.

Sara e Fernando vão até a sala. Gabriel estava sentado no sofá e tinha um pequeno teclado nas pernas. Eduardo e Rafaela estavam à frente, no meio da sala, em pé, segurando escovas de cabelo como se fossem microfones. Sara lança um olhar interrogativo para Fernando quando se depara com a cena.

Fernando: Eu não sei de nada… – dá de ombros rindo. E os dois se sentam no outro sofá.

Gabriel: Senhora e senhor, com exclusividade e em única apresentação: Os Andrade-Vianas! – anuncia dando sinal para os irmãos começarem a cantar, enquanto ele toca o teclado.

Rafaela e Eduardo (cantando): Numa folha qualquer, eu desenho um sol amarelo. E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo. Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva. E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva.

Ao fim da apresentação, Eduardo e Rafaela correm para os braços dos pais. Sara tinha os olhos cheios d’água, e Fernando era o orgulho em pessoa.

Sara: Que lindo, queridos! – diz os abraçando e beijando – Mas, música de propaganda de lápis de cor, Gabs?! – brinca com o filho.

Fernando: E o Clash?! – também brinca.

Gabriel: Ei, foi a única coisa minimamente aceitável que eu consegui fazer que eles apreendessem! – se explica também em tom de brincadeira.

Sara levanta e beija o filho.

Sara: Adorei, foi lindo! Obrigada! – fala pra ele.

Em seguida, Fernando cumprimenta Gabriel tocando na sua mão e puxando-o para um abraço.

Fernando: Muito bom, rapaz! – parabeniza – Bom, mas agora vamos ou nos atrasaremos para o jogo. Eu deixo vocês na casa da sua mãe – fala para esposa.

19. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADE – SALA

Sara entra na casa dos pais e encontra Nora sentada no sofá conversando com Vitória. Rafa corre para o colo da avó para um beijo e um abraço.

Nora: Oi filha, já está melhor?

Sara: Sim, mãe. – ela então vê Júnior e Tomás descendo as escadas e agitando a bandeira do Fluminense. – Vocês dois, é melhor irem logo, o Dudu está inquieto pela primeira ida ao Maracanã.

Júnior: Você finalmente vai deixar o garoto ir ao estádio?

Sara: Só porque o Ferdi resolveu ir junto., Se fossem só com vocês, eu não deixaria mesmo.

Júnior: Bom, então tchau pra quem fica.

Tomás também se despede, dá um beijo na esposa e faz um carinho nos cabelos da sobrinha que já tinha pulado para o colo de Vitória. Sara senta ao lado da mãe rindo dos irmãos.

Guilherme foi até a sala e escutou as risadas e os gritos de “nense” vindo dos filhos. Ele não tinha sido nem questionado se gostaria de ir ao jogo.

Guilherme: Eles nem me convidaram para ir ao jogo. – ele pensa em voz alta.

Sara: Também pudera, não é pai? Depois da discussão de outro dia você queria o quê? Eles estão tentando animar o Carlos.

Nora: Os garotos ainda estão sentidos com o que você falou com o Carlos. Eles são unidos dessa maneira, assim que nós os criamos.

Guilherme olha pra esposa, dá um sorriso triste e volta para o escritório.

20. EXTERNA – DIA – ESTÁDIO DO MARACANÃ – ÁREA DOS BARES

Logo que entraram no estádio, Ferdi sugeriu que eles encontrassem um lugar nas cadeiras antes que enchesse muito, por causa das crianças. Então foram todos escolher o melhor lugar. Tomás, Júnior e Carlos foram atrás indicando onde deveriam ir e conversando.

Carlos: Papai não estava em casa?

Júnior: Tava, passou o dia trancado no escritório falando pelo telefone. Só saiu pra almoçar.

Tomás: Imagino o que ele tá pensando da gente nem chamá-lo pro jogo. – ele olha pra Carlos que finge indiferença.

Júnior: Foi melhor assim, senão ele iria começar outra briga vendo aquela cara ali encarando o Carlos. – Ele fala olhando para Carlos e acenando a cabeça na direção da pessoa.

Carlos vira discretamente para ver quem estava olhando pra ele, mas a pessoa já tinha virado de costas novamente. Ele vira a cabeça de lado admirando o bom físico do homem. Tomás e Júnior olham entre si e percebem o interesse do irmão.

Carlos: Nossa, até que não é de se jogar fora. Tem umas pernas incríveis e uma comissão de trás bem gostosa.

Tomás: Ah não Carlos, de todos os lugares que você consegue admiradores, o Maracanã é o ápice.

Carlos: Eu não fiz nada, estou na minha, só não posso evitar que outros se sintam atraídos por mim.

Os três riram e voltaram para as cadeiras, onde o resto da família estava sentado.

21. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADE – COZINHA

Nora já estava preparando o lanche para os filhos e netos quando voltassem do estádio. Vitória saiu com Rafa para uma volta no bairro e comprar na padaria o que Nora precisava. Sara ficou em casa com a mãe.

Nora: Estou te achando um pouco abatida. Você está melhor mesmo?

Sara: Sim, mãe, só um pouco cansada. Como você está? Depois da confusão toda de outro dia nem conversamos direito.

Nora: Eu falei com seu pai tudo o que eu achava, mas por enquanto, aquele cabeça-dura não conversou nem com o Carlos, nem com nenhum de vocês.

Sara: Dê tempo ao tempo, ele vai perceber que estava errado e as coisas melhoram. Ele já me pediu desculpas até… – ela levanta as sobrancelhas e Nora recebe como boa surpresa a notícia.

As duas continuaram conversando esperando pelos homens da família voltarem do jogo.

22. EXTERNA – NOITE – ESTACIONAMENTO DO MARACANÃ

Ferdi, Saulo e as crianças foram na frente. Carlos esperava pelos irmãos no carro enquanto os dois iam ao banheiro. Ele estava encostado no carro, quando o homem que ele estava admirando na chegada do estádio se aproximou, para sua surpresa.

Camilo: Ora, se não é o advogado da minha esposa.

Carlos: É extremamente antiético nós dois mantermos qualquer conversa que não seja sobre o caso.

Camilo: Você resolveu mesmo defender minha mulher mesmo depois do que eu falei?

Carlos: Sim, você não me intimida senhor Fontenelle.

Camilo: Eu admiro homens com sua audácia e sua coragem, Carlos Andrade.

Carlos: Você deveria temer, já que essas qualidades vão ganhar o caso para minha cliente.

Camilo: Eu não teria tanta certeza. – ele fala rindo e sai andando deixando Carlos sozinho.

Tomás e Júnior que já estavam chegando, viram o homem indo embora e a cara de surpresa de Carlos.

Tomás: Você não deixa passar um, hein, Carlos? Tá igual ao Júnior!

Júnior: Ei!

Antes que Carlos pudesse explicar a situação para os irmãos, duas torcedoras passam por eles e encaram Carlos, visivelmente admirando seu corpo.

Tomás: Mal sabem elas, que não tem a menor chance! – solta uma gargalhada.

Júnior: Ainda bem, – ele fala e coloca a mão no ombro de Tomás, complementando – ou então a gente não ia conseguir nada.

Carlos: Vocês dois não têm jeito. As garotas, você pode escolher a que quiser pra você Ju. E aquele homem, é o marido da minha nova cliente. Eles estão se divorciando. Ele é um tremendo safado, vocês já devem ter ouvido falar dele, Camilo Fontenelle.

Tomás: Nossa, caso grande esse. Capaz de ter atenção da mídia. É só você não fazer que nem a Carol na frente nas câmeras.

Carlos: Nenhum Andrade Express Ju?

Júnior: Esse homem é casado? – desviando da pergunta de Carlos, que afirma que sim com a cabeça. – Engraçado, ele é o mesmo cara que estava te admirando mais cedo.

Tomás: Você deve ter entendido errado, ele só deve ter reconhecido o Carlos.

Júnior: Não sei não. – ele fala desconfiado.

Os três entraram no carro para voltarem para casa.

23. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Carlos não queria entrar na casa dos pais, com receio de outro confronto com Guilherme, mas Júnior e Tomás o convenceram que dona Nora gostaria de vê-lo. Na sala, eles já foram recebidos pelo falatório de Dudu contando tudo sobre sua aventura no Maracanã.

Júnior: Esse é o mais novo torcedor do Fluminense, agora devidamente batizado.

Sara: Ele já está pedindo pra ir em outro jogo. E a Rafa já decidiu que no próximo, ela também vai. Viu o que vocês fizeram?

Vitória veio com Rafa, que logo foi para os ombros de Tomás. Dudu continuava sua narração, entre gritos de ‘nense’, nos ombros de Júnior. Nora e Saulo vieram da cozinha, ambos felizes, em ver grande parte da família reunida. Guilherme parou na porta do escritório e ficou olhando a cena. Carlos foi o primeiro a ver o pai parado olhando para eles.

Carlos: Ah, foi um domingo divertido, mas eu preciso ir. – ele disse seco.

Todos os irmãos viram o motivo da mudança de atitude de Carlos e ficaram calados. Nora, já começava a protestar, quando Guilherme intrometeu.

Guilherme: Carlos, não vá ainda. – ele se aproximou e pegou no braço do filho. – Sua mãe, Sara e Vitória prepararam um lanche para todos vocês quando voltassem do jogo. Fica, eu quero ter meus filhos, a maioria deles, na mesa hoje.

Carlos: Eu não sei…

Guilherme: Filho, me desculpa pelo que eu disse no outro dia. – ele fala olhando nos olhos do filho – Eu passei dos limites.

Carlos: Sim, passou.

Guilherme: Eu sou de outra geração, onde tudo é reprimido e escondido, mas quero que você saiba, Carlos, que eu te admiro muito pelo homem íntegro, trabalhador e corajoso que você se tornou. – ele pára e recupera o fôlego antes de continuar – Tenho muito orgulho de você, mesmo que às vezes eu não demonstre. Eu quero que você seja muito feliz, mas eu tenho medo que suas escolhas possam te causar sofrimento, as pessoas, por mais que tenham mudado, ainda são preconceituosas.

Carlos: Pai, eu sei que se preocupa, mas para mim, saber que minha família me apóia e me respeita, é o suficiente. Não me importa o que o resto do mundo pensa ou fale.

Guilherme: Eu quero que quando eu passe dos limites, você me avise. – ele diz sorrindo.

Carlos: Pode contar com isso. – e sorri também.

Os dois se abraçam e Guilherme engole as lágrimas. Quando o abraço termina, ele olha sorrindo para Carlos e emenda.

Guilherme: Eu te amo, meu filho.

Carlos: Eu também pai.

Nora, que tinha o braço do irmão nos ombros, deixou as lágrimas caírem. Tomás, Sara e Júnior, olhavam com orgulho para o pai. Guilherme olhou para os outros filhos e continuou.

Guilherme: Eu devo desculpas a vocês também, estavam defendendo seu irmão, da minha injustiça. Vocês, meus filhos, são a coisa mais importante que eu tenho, e me desculpe se não deixei isso claro nestes últimos dias.

Tomás: Está desculpado pai.

Sara e Júnior acenam a cabeça, confirmando o que o irmão falou. Cada um deles se aproximou do pai e recebem um abraço. Nora vai dividir o momento com a família. O momento foi interrompido com Dudu e Rafa reclamando que estavam com fome. Entre sorrisos, eles foram para a mesa, onde conversas e brincadeiras selaram as pazes entre pai e filhos.

24. EXTERNA – DIA – PRAÇA

Júnior e Rebeca marcaram de se ver. Era a primeira vez que eles se viam desde que Vera conversou com Rebeca sobre o caçula de Guilherme. Os dois caminhavam por uma praça da cidade.

Júnior: É impressão minha ou você quer me dizer alguma coisa?

Rebeca: Não, impressão sua. Só estou calada mesmo.

Júnior: Hum – murmura Júnior, encarando-a.

Rebeca: Ai, tá bom. Eu quero mesmo conversar sobre um assunto delicado com você.

Júnior: Vamos sentar então?

Rebeca: Uhum – assente, sentando com Júnior em um banco.

Júnior: Pode começar!

Rebeca: Olha, eu sei que eu não tenho o direito de te cobrar nada, nós somos apenas amigos, mas é que eu tenho muito pé atrás com homens com fama de galinha.

Júnior: Hã?? – toma um susto.

Rebeca: Ah, Júnior! Você bem sabe da sua própria fama.

Júnior: Foi por isso que você fugiu dos meus beijos aquele dia? – indaga, ríspido.

Rebeca: Uhum

Júnior: Olha Beca, eu curti muito aquela noite. Você é linda, e claro que eu não ia te tratar como eu tratava outras mulheres.

Rebeca: E como você tratava outras mulheres?

Júnior: Ah! Meu Deus!

Rebeca: Viu? É por isso que eu tenho medo. Quem me garante que você não vai me tratar como as ‘outras mulheres’?

Júnior: Eu garanto.

Rebeca fica balançada, mas não hesita em instigar Júnior ainda mais.

Rebeca: Você já foi preso?

Júnior leva um susto de novo.

Rebeca: Já? – insiste.

Júnior: Na.. não. Rebeca, porque você tá fazendo isso?

Rebeca: É porque.. ai Júnior.. me perdoa. Desculpa, eu não queria ter feito isso.

Júnior: Mas fez. Caramba… eu dei algum motivo pra você me encher de pergunta, te deixar totalmente desconfiada ao meu respeito? – diz, chateado.

Rebeca: Me desculpa, por favor.

Júnior: Se for pra começar assim, eu sinto muito, mas a gente pára por aqui. – diz, indo embora.

Rebeca: Droga! – diz, baixinho, vendo Júnior ir embora.

25. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE VERA

Vera está levando uma bandeja com café para a sala.

Vera: Aqui está. Do jeito que você gosta, sem açúcar.

Saulo: Hummm.. o melhor café do Rio de Janeiro.

Vera: Pelo menos um café decente eu sei fazer.

Saulo: Mas e então, a que devo o convite?

Vera: Saulo, o Guilherme comentou alguma coisa com você sobre o filho caçula dele e a Rebeca?

Saulo: Não… não que eu me lembre. Aliás, acho que desse assunto eu lembraria. Mas porque?

Vera: Eles se conheceram.

Saulo: Sério? Quando?

Vera: Acho que em algum trabalho juntos. Enfim, não importa. O que importa é que eles estão saindo.

Saulo: Mas não se preocupe, o Júnior não namora sério.

Vera: Eu sei, mas nós sabemos que eles não precisam namorar sério para algo mais acontecer.

Saulo: Isso é verdade. E o Guilherme? O que fez?

Vera: Nada. Mandou que eu agisse.

Saulo: Como de praxe. Sabe, Vera… você devia começar a se impor. Até quando você vai sempre tomar atitudes? É sempre só você preocupada com a Rebeca, só você que dribla as situações incômodas… é um desgaste que você não precisa passar mais. – diz, instigando Vera.

Vera: É bom saber que você concorda comigo.

Saulo: Eu acho que o Guilherme está precisando de uma prensa. Das boas, que só você sabe dar.

Saulo encara Vera e vê que ela ficou pensativa.

26. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE VERA

Guilherme entra jogando a chave do carro com naturalidade em cima da mesa de jantar. Vera está sentada no sofá e continua lendo o jornal, mesmo depois que ele entra na sala.

Guilherme: Cheguei.

Vera: Estou vendo.

Guilherme: Ela está aí?

Vera: Não. Saiu. – responde secamente.

Guilherme: Já vi que não está de bom humor.

Vera: Tenho motivo suficiente.

Guilherme: Bom, em primeiro lugar eu não tenho culpa dos dois terem se conhecido. Muito menos de começarem a se envolver.

Vera: Eu muito menos.

Guilherme: Não disse que você tem. Mas você é a mãe dela, precisava fazer alguma coisa.

Vera: A sua responsabilidade para com ele é a mesma que a minha com ela. – levanta-se – Eu estou tão preocupada quanto você. Não pense que esta situação me agrada. De maneira alguma! Agora o que eu não entendo, é porque eu preciso desgastar ainda mais minha relação com a Rebeca, depois de inúmeras discussões que já tivemos, para te poupar de ao menos uma vez na vida, botar limites no irresponsável do teu filho!

Guilherme: Eu vim até aqui para ter uma conversa civilizada.

Vera: Há anos que não conseguimos mais conversar, Guilherme. É impossível conversar com alguém que não cede. Que só faz o que lhe é conveniente.

Guilherme: Vera, tente entender. É melhor que você coloque um ponto final nesta situação, do que eu. São mais pessoas envolvidas, correria o risco de me indispor com a Nora.

Vera: Mais uma vez você traz ela para qualquer discussão, para justificar sua falta de atitude! – altera-se.

Guilherme: Quer parar de bancar a infantil? – grita

Vera: Guilherme, eu fiz o que você mandou. Não vou mais mover uma palha para aliviar. A partir de agora, se eles continuarem se encontrando, quem vai agir é você!

Guilherme: Não tente me colocar contra a parede, Vera!

Vera: Está me ameaçando, Guilherme? – caminha em direção a ele.

Guilherme sai e bate a porta. Ainda consegue ouvir Vera gritando.

Vera: Não me deixe falando sozinha, Guilherme! Volte aqui!

27. INTERNA – NOITE – HALL DO ELEVADOR NO ANDAR DE VERA

Guilherme aguarda o elevador impaciente. Anda de um lado para o outro.

Bate mais uma vez com o punho fechado no botão do elevador, já aceso.

Leva a mão à testa para secar o suor. Faz um dia quente no Rio. Chega o elevador. Ele entra, aperta o botão do subsolo. Volta a secar a testa.

Seu rosto mostra uma expressão preocupada. Olha para baixo. Morde os lábios e leva a mão à axila direita, mantém nesta posição por alguns segundos até tirar o celular do bolso. Sente uma leve tontura. Faz uma expressão de dor, que aos poucos vai transformando–se em desespero.

Antes de conseguir completar a chamada no celular, derruba o aparelho no chão.

28. INTERNA – NOITE – GARAGEM DO PRÉDIO DE VERA

Rebeca estaciona o carro e pega o telefone para se desculpar com Júnior pela discussão. Ela foi até o elevador e apertou o botão. Depois de três chamadas, caiu na caixa postal então resolveu deixar recado.

Rebeca: Júnior, é a Beca. Me desculpe pela discussão. Será que a gente pode conversar?

Enquanto esperava, continuou deixando a mensagem. Ela escuta o sinal do elevador e quando a porta abre, ela se assusta com o homem desmaiado dentro.

Rebeca: Guilherme!

Continua…

Trilha Sonora

Cena 13: Take me out – Franz Ferdinand

Cena 15: Gentileza – Marisa Monte

Cena 18: Aquarela – Toquinho

Cenas 20 e 22: Quero ver gol – O Rappa

Cenas 27 e 28: Everydody Hurts – R.E.M

5 Respostas to “Antes que Seja Tarde”

  1. Carine Dávalos Says:

    Esse suspense do porque a rebeca e junior não poderem ficar juntos tá me matando… >.<
    Pensei que o Guilherme fosse mais chato, crente q ele ia demorar pra se acertar com o Carlos…
    Eu quero mais… Bleh, bleh, bleh!!!
    o/

  2. Natie Says:

    Nossa!! Cada vez melhor, incrivel!
    Adorei a historia da lente da Carol… Tadinha! hehe…
    Eu sabia q ele cara tinha algum interesse no Carlos… Esses maridos ricaços… Só quero veeer!!
    O suspense Junior e Rebeca ta otimo tbm!
    E tadinha da Sara… :/ So o show dos filhos alegrou ela nesse epi!
    Eu quero ver a Nora dando aula!! haha…
    Beijos…

    (lá vai o meu cliche de novo: ansiosa pelo proximo… :D)

  3. Alice Says:

    Comecei a ler o episódio assim que saiu [domingo passado] mas não deu pra terminar!!
    Mas vim aqui depois de assistir “tudo em família” na super cine e lembrar demais de “em família”.. Muito parecidos os irmão: 2 mulheres; 3 homens; a mais nova meio rebelde; a mais velha mãezona e grávida; um filho gay; um mulherengo e outro mais sério
    =))
    Com relação ao episódio, seguindo os outros: muito bom.. E eu aqui esperando Carol falar pro resto da família que tá grávida, o possível romance de Rebeca e Junior e o também possível incesto
    =))

  4. Alice Says:

    Ooooops..Troquei Sara e Carol no comentário acima
    😉

  5. Karen Says:

    Show!

    O lance da lente de contato da Carol…kkk excelente msm, tadinha eu sei o q e isso.
    Muito boa a cena de reconciliacao do Carlos e Guilherme…
    mas e ai? Guilherme vai dessa pra melhor?

    esperando o proximo…bjks!

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