1. EXTERNA – DIA – RIO DE JANEIRO – RODOVIÁRIA

Júnior está colocando as malas da irmã, Carol, no bagageiro do carro.

Carol: Obrigada Agradece entrando no carro.

Júnior: Você sabe que teria poupado muito do meu e do seu tempo se você tivesse vindo de avião, não é?

Carol: Você não precisava ter vindo… Eu podia ter pegado um táxi. É realmente cedo demais, mas só pude viajar a essa hora – diz seca.

Júnior: Sem problemas. Eu não tenho nada o que fazer mesmo. – abre um sorriso e descontraí o clima. Em seguida, dá a partida do carro. –Como foi a viagem? – puxa um novo assunto.

Carol: Longa, cansativa e desconfortável, mas a vantagem foi que aproveitei para adiantar o trabalho.

Júnior: Voando você também poderia ter feito isso. Teria menos tempo, mas seria bem mais agradável – fala casualmente.

Carol olha séria para Júnior, depois abaixa a cabeça.

Carol: Não sei quando serei capaz de entrar em um avião depois de…, você sabe

Júnior engole seco e faz que “sim” com a cabeça. Em seguida, os dois ficam em silêncio.

2. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA – SALA

Rafaela, filha de Sara, está sentada comportada no sofá esperando para ir à escola, mas Eduardo, seu irmão gêmeo, ainda não está vestido e corre de um lado pro outro atrás de uma bola. Fernando, marido de Sara, tenta controlar o filho.

Fernando: Dudu, vamos! – diz puxando o seu braço, mas o garoto se livra das mãos do pai e continua chutando a bola.

Sara: Menino, você vai ficar todo suado! – ela chega gritando e toma a bola dele – Vá se arrumar, filho, vá! Vocês vão se atrasar… diz numa voz mais branda.

Eduardo: Escola é para os fracos! – resmunga.

Sara: Onde ele aprende essas coisas? – pergunta se virando para o marido e revirando os olhos.

Fernando: Não sei… – ele dá de ombros e entrega o uniforme a Eduardo.

Nesse momento, Gabriel, o filho mais velho do casal, chega à sala, com cara de sono e, praticamente se arrastando, desaba no sofá, encostando-se na irmã que o empurra de leve.

Sara: Gabs, você pode ajudar seu irmão a se vestir? – ela diz indo para cozinha e fazendo sinal com os olhos para Fernando acompanhá-la, ele capta e a segue. Gabriel suspira contrafeito, resmunga alguma coisa, mas vai ajudar o irmão.

3. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA – COZINHA

Sara: Bom dia! – diz radiante ao chegar à cozinha e abraça o marido, beijando rapidamente seus lábios.

Fernando: Oook, bom dia! – diz surpreso – Dormiu bem? – pergunta a encarando maliciosamente.

Sara: Foi uma noite muito boa. – ela diz lhe lançando um olhar cúmplice e provocante.

Fernando: Ótima! – concorda mordendo os lábios devagar e como se lembrasse de algo realmente agradável.

Sara: Ferdi, você pode buscar os meninos na escola? Tem como? – faz cara de “cachorro pidão”, o marido ri, negando o pedido com a cabeça – É que a Carol chega hoje e quero almoçar com ela. – implora.

Fernando: Hum, tá certo… Sabia que vinha algum golpe – brinca – Embora hoje seja um dia puxado no escritório – fala se aproximando dela e a beija com vontade na boca, enquanto acaricia suas costas – Bom dia, né? – fala no fim do beijo sorrindo malicioso e se distancia um pouco dela.

Sara: Uau! Bom dia… – sorri sem fôlego – Tomaram café?

Fernando: Tomamos, sim senhora! – brinca fazendo sinal de sentinela.

Sara: Bom, bom… Vai para academia?

Fernando: Você vai?

Sara: Nãã – nega desempolgada.

Fernando: Então, não. – ri.

Sara: Ai, como temos força de vontade! – ironiza – Há séculos que não vamos; essa academia só lucra a nossas custas.

Fernando: Séculos que você não vai, né? Eu parei de ir sozinho, porque sem você me torno alvo das fofocas. – levanta as sobrancelhas.

Sara: Qual era mesmo a teoria deles?

Fernando: Quando chegamos separados ou ficamos distantes durante os exercícios é porque, obviamente, estávamos brigados. – diz irônico.

Sara: Agora devem estar achando que nos separamos. – os dois riem.

Fernando: Provavelmente, ou que me tornei um viúvo – Sara bate três vezes na porta da geladeira – Daqui a pouco vão começar a me dar os pêsames. E não sei se vidro serve como isolador nesse caso. – ela o olha com cara de desdém.

Rafaela: Paiê! Vamos! – grita da sala.

Fernando: Até mais tarde! – pisca e acena para esposa indo em direção a sala.

Sara: Inté!

Fernando pára na porta, dá meia volta e caminha em direção a Sara, ela o olha intrigada. Ele a abraça pela cintura, beija o seu pescoço e, carinhosamente, tira os seus cabelos que caiam no rosto, ainda molhados do recente banho. Em seguida, a beija apaixonado.

Sara: Agora só falta dizer que me ama para completar a cena de comercial de margarina para adultos. – brinca, olhando-o fixamente, e agora com as mãos ao redor de seu pescoço.

Fernando: Eu gosto de comercial de margarina – diz ainda abraçado a ela.

Sara: Eu também.

4. EXTERNA – DIA – RUAS DO RIO DE JANEIRO

Carol e Júnior continuam seu trajeto. Júnior liga o rádio do carro e os dois disputam em silêncio a escolha da estação. Júnior sintoniza uma, ela muda. Ele vai lá e volta para dele, ela o encara com um jeito intimidador e sem tirar os olhos dele, muda novamente, ele sorri e se rende.

Júnior: Só porque você é visita aqui, eu deixo, ok? – brinca.

Carol: Então, como anda a vida do filho preferido da Dona Nora?

Júnior: Ah, você sabe… – a irmã o encara – Ok, você não sabe, mas você é garotinha do papai, então, estamos quites.

Carol: Você dormiu essa noite? – pergunta após observar as pupilas dilatadas do irmão.

Júnior: Não o suficiente, mas tenho certeza que posso compensar a tarde. Minha agenda permite. – pisca triste para irmã, e seu celular começa a tocar. – Alô? (…) Ok! É para você. – diz entregando o celular a irmã que o olha confusa. – Sara – sussurra em resposta ao olhar de questionamento de Carol.

Carol: Oi Sara!

Sara: Oh, ainda lembra de mim! – Sara está caminhando por uma livraria enquanto fala ao telefone.

Carol: Claro. Amnésia ainda não é uma de minhas enfermidades.

Sara: Sei lá, três meses sem uma visita sua, tudo poderia acontecer, desde uma amnésia até uma gravidez.

Carol: Não se preocupe, eu também não estou grávida, mamãe. ironizou o jeito de falar de Sara parecido com o da mãe – Só estou com os mesmos problemas de sempre, gastrite, dor de cabeça, e agora dor nas costas por causa da viagem…

Sara: Enfim, estou ligando para almoçarmos juntas hoje. Pode ser? – interrompe o relato hipocondríaco da irmã.

Carol: Certo, só preciso deixar as malas no hotel, daí posso te encontrar na livraria.

Sara: Ah, sim, o hotel… Bom, hoje eu estou na livraria central. Vim ajudar o Tomás com o estoque. Sem o papai, ele ainda fica perdido. Vamos nos encontrar logo no restaurante aqui perto mesmo.

Carol: Não sei por que inventaram esse momento lua-de-mel.

Sara: Não é lua-de-mel. Mamãe queria ir antes para organizar tudo pro almoço de domingo, e soube que a vovó já foi lhes fazer companhia! .

Carol: Nossa, agora até sinto pena deles, mas, afinal de contas, por que um almoço de domingo num sábado?

Carlos: É porque sábado é o dia que eles fazem 40 anos de casados, 22 de março, verão de 1968, o ano que não terminou, lembra?! – Carlos está falando do telefone de seu escritório de advocacia, sentado em sua mesma e respondendo impacientemente o questionamento da irmã.

Carol: Eu sei, mesmo assim… – Carol já estava falando ao telefone com outro de seus irmãos.

Júnior: Chegamos – Júnior anuncia estacionando o carro em frente ao Hotel Bellini.

Carol: Ok, a gente se vê daqui a pouco.

Carlos: Bom falar com você no mesmo código de área.

Carol: Também gostei – sorri, desliga o telefone e desce do carro para ajudar Júnior com as malas – Aparentemente todos querem almoçar comigo. Tenho medo disso.

Júnior: Eu também posso ir, não estou fazendo nada mesmo.

Carol: Isso está ficando muito repetitivo, sabia?

5. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – COZINHA.

Diva, mãe de Nora, está em frente a uma mesa cheia de sacolas. Nora chega sonolenta esfregando os olhos e se surpreende com a cena.

Diva: Finalmente acordou. – diz seca.

Nora: Mãe?! Como isso tudo brotou na mesa?

Diva: Não seja tonta, Nora! Trouxe comigo, claro. Achei que precisaria para o almoço.

Nora: Sem eu perceber? Trouxe escondido? Nem quero saber como… – balançou a cabeça como se afugentasse um pensamento – E, que eu saiba, não está faltando nada, já cuidei de tudo. .

Diva: Você sempre esquece algo, minha filha Ainda bem que você ainda tem sua velha para mãe aqui… – critica.

Nora: Está melhor? – ignora o comentário.

Diva: Não, acordei pior do que quando fui dormir, mas eu já sou uma velha, você sabe…

Nora: Então não precisa se preocupar, eu ajeito tudo sozinha.

Diva: Não seja mal agradecida! Estou aqui passando mal, mas ainda posso ajudá-la, não sou uma inválida. – Nora a olha impaciente.

Nora: Mas a senhora está sempre passando mal, mamãe. Já sei até de quem Carol puxou os ataques hipocondríacos e de autocompadecimento.

Diva: O que você quer dizer com isso?

Nora: Nada, mãe, é bom ter a senhora aqui para ajudar sorri cínica.

Diva: É, aproveita enquanto ainda tem esse caquinho para se apoiar, não devo durar muito tempo – Nora revira os olhos e pega um bule – O quê você está fazendo? – Diva pergunta perplexa.

Nora: Café, mãe. – fala em tom de obviedade.

Diva: Não, senhora. Antes precisamos separar tudo que vamos usar para o almoço de amanhã. – Nora cede a contragosto.

6. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS CENTRAL – ESCRITÓRIO

Tomás e Sara estão em voltas de papéis e caixas de livros.

Tomás: Eu poderia fazer isso sozinho.

Sara: Não, não poderia, você sabe.

Tomás: Eu tenho as mesmas credenciais e, inclusive, os mesmos genes que você.

Sara: Para você ver que diploma e genética não é tudo. – sorri irônica.

Tomás: Isso não é hora para os seus Andrades Express, engraçadinha. – lança um olhar sério a irmã

Sara: Isso está uma bagunça! – ela diz se referindo aos papéis que tinha em mãos.

Tomás: Fazer tabelas, planilhas, grande coisa, Sara. Papai não precisava pedir para você vir aqui.

Sara: Ele não pediu… Acho que tem algo errado com esses números – diz preocupada, analisando os dados escritos em um dos documentos que carregava. – Vou conferir no computador se batem – Encaminha-se para mesa, onde fica o computador da sala.

Tomás: Deixa eu ver… – Pega os papéis da mão da irmã – Mas são os mesmo dados dos últimos meses.

Sara: Então, o problema é maior do que eu imaginava.

Tomás: O que você quer dizer? – começa a se preocupar.

Sara: Ainda não sei… – responde vagamente, concentrada na tela no computador. Seu celular começa a tocar, olha o visor e não reconhece o número. – Atende para mim? – pede passando o aparelho para o irmão e volta a se concentrar nas planilhas. a

Tomás: Alô? (…) Não, é o irmão dela. (…) Mesmo?! (…) Sei, ok. (…) Não, vou passar para ela. – vai dizendo enquanto caminhava em círculos pela sala – É da escola dos meninos. – anuncia devolvendo o celular para irmã.

Sara: Diga – atende já preocupada. (…) Os dois? Eles estão bem? (…) Ai, nossa, ok, darei um jeito, obrigada. – Desliga e disca um novo número, se levantado da cadeira – Meu Deus, o Fernando não atende! Para quê uma pessoa quer um celular se não o atende?! – fala nervosa.

Tomás: Acalme-se, eles estão bem. – tenta tranqüilizá-la.

Sara: Acho que vou ter quer ir buscá-los, não vai dar para almoçar com a Carol. Você explica a eles?

Tomás: Claro, pode ir!

7. EXTERNA – DIA – RESTURANTE – CALÇADA

Carlos e Tomás já estão na mesa, no espaço externo do restaurante, quando Carol e Júnior chegam. Cumprimentam-se rapidamente e sem muita formalidade

Carol: Tomás, nós não estávamos brigados? – ela pergunta aparentando seriedade.

Tomás: Isso foi há três meses, Carol, supera isso. Eu nem lembro mais o que era – responde descontraído.

Carol: Eu prometi a mim mesma que nunca mais falaria com você, mas não me lembro bem por que… – fala pensativa.

Carlos: Você está sempre nunca mais querendo falar com alguém. – meteu-se na conversa.

Carol: Você quer ser o da vez? – perguntou em tom de desafio.

Carlos: Não seria uma má idéia. Poupar-me-ia de muito falatório tucano. – ironiza.

Júnior: Ai, não, política a essa hora, não! – reclamou em tom de brincadeira.

Carol: Mas, Tomás, a gente ficou os últimos três meses sem se falar, sério?! – ignorou o comentário de Carlos.

Tomás: Parece que sim.

Carol: Estranho, a gente vivia brigando, mas fazia as pazes minutos depois.

Carlos: Isso foi antes de você fugir para São Paulo, fazendo esse tempo aumentar consideravelmente. Já que não somos obrigados a agir civilizadamente quando nos cruzamos nos eventos da família.

Carol: Então, cadê a Sara? – Ignorou-o de novo.

Tomás: Rafa e Dudu brigaram no colégio, ela teve que ir até lá.

Carol: Os dois? Um com o outro?

Tomás: Não sei…

Carlos: Como não? Você não estava com ela? – preocupa-se.

Júnior: Acho que eles montaram uma gangue de gêmeos e atacaram a sala. – Ele e Carlos falaram quase ao mesmo tempo.

Tomás: Carlos, eu não entrei em mais detalhes. Júnior, seu sobrinhos, graças a Deus, não são da sua laia, se conforme. – ironiza e Júnior o encara magoado e com uma expressão raivosa.

Júnior: Qual é, Tomás?! – diz irritado.

Carol: Ok, meninos. – ela faz sinal para eles se acalmarem. – Esse almoço tem alguma intenção escusa, eu sei, então, desembuchem logo.

Faz-se um breve silêncio na mesa.

Carlos: A Sara é quem devia estar aqui para falar. Fala você, Tomás.

Tomás: Eu não, fala você!

Os dois continuam discutindo para ver quem devia falar, e Carol olha para Júnior buscando alguma resposta.

Júnior: Eu não falo, porque eu não sei do que se trata – dá de ombros – Aliás, eu nunca sei de nada importante nessa família. – diz sentido.

Tomás: Se passasse mais tempo sóbrio e em casa em vez de doido e na rua, saberia. – volta a provocar o irmão.

Carlos: Ok, eu falo. – Resolve falar para evitar uma eminente briga entre Tomás e Júnior. – Você tem que ficar na casa da mamãe, Carol.

Carol: Não, não tenho. – responde veemente.

Tomás: Claro que tem, Carol! – diz impaciente.

Júnior: Eu não me importaria… – ri, mas nota que todos o repreendem com o olhar, então, cala-se.

Tomás: Você já parou para imaginar como ela ficaria sentida se você se hospedasse num hotel? A duas quadras de casa, ainda por cima!

Carol: Mas o jornal vai pagar tudo…

Carlos: E o que isso tem a ver?

Tomás: Depois de tudo, acho que você deve isso a ela.

Carol: Tudo o quê, pelo amor de deus? Eu sou a vítima nessa história! – explode.

Tomás: Vítima?! Poupe-me, Carol! – fala irônico e aborrecido.

Carlos: Não custa nada, Carol, faça isso, pelo bem da sanidade dos seus irmãos, por favor. – Carlos parte para uma estratégia mais moderada para convencê-la.

Carol: Ok, ok. Prometo pensar no caso. Por você! – diz e olha feio para Tomás. – De repente, entendo porque estávamos sem nos falar – Tomás apenas sorri em provocação a irmã.

Carlos: Pensará com carinho? – pede com cara de cachorro abandonado.

Carol: Com carinho. – cede ao pedido do irmão.

Carlos: Outra coisa, você fará o discurso das Bodas de Rubi amanhã. – diz tomando um gole de sua bebida.

Carol: Ah, isso não, uma coisa ou outra! – nega energeticamente.

Carlos: Ok, sendo assim, você irá, imediatamente após nosso almoço, levar suas malas para seu antigo quarto. Estamos combinados? – sorri satisfeito com sua tacada de mestre.

Júnior: Fechado! Pegamos as malas e eu te levo até lá! – fala para irmã.

Carol respira fundo tentando falar algo, mas não consegue. Carlos e Tomás sorriem vitoriosos.

Carol: Vou ligar pra Sara, ela vai me apoiar nisso – anuncia depois de um tempo.

Carlos: Ótimo, aproveite e diga que ela fará o discurso.

Tomás: Isso, seja a portadora da boa nova. – sorri sarcástico.

Carol, então, desliga o celular, desistindo de fazer a ligação. Cruza os braços e faz bico, aborrecida.

8. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS CENTRAL

De volta a livraria, Tomás transita pela loja, supervisionando seu andamento. Enquanto ele conversa com um dos funcionários, uma mulher loira e vistosa, de meia-idade e com grandes óculos escuros, entra. Tomás a reconhece e vai até ela.

Tomás: Olá Vera! – a cumprimenta com dois beijinhos no rosto.

Vera: Olá Tomás! Como vai?

Tomás: Bem, bem. E você?

Vera: Estou ótima. Vim, hum, conferir os lançamentos.

Tomás: Acho que não tem nada do seu agrado, a não ser… – caminha em direção a uma das seções.

Vera: Ah, ok – diz o seguindo – Seu pai está por aqui?

Tomás: Não, foi a Petrópolis.

Vera: Petrópolis, hum. – Vera fica surpresa, mas finge não está muito interessada no assunto.

Tomás: É, aniversário de casamento dele e da mamãe, evento familiar, você sabe… Aqui! Já leu esse? Chegou hoje uma nova edição – diz lhe passando o livro “Ai que Loucura”, da socialite Narcisa Tamborindeguy.

9. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – COZINHA

Sara está com os cotovelos apoiados no balcão de mármore, tapando os olhos com as mãos. Ela passa, sucessivamente, a mão dos olhos para o cabelo como um gesto de angustia. Fernando entra no recinto.

Fernando: O que foi? – pergunta gentil.

Sara: Seus filhos.

Fernando: Nossos.

Sara: Brigar no colégio era o que me faltava!

Fernando: Sá, não foi nada grave e foi por uma boa causa. Eu até achei bonitinho e heróico Dudu defender a irmã. Essas crianças podem ser muito cruéis, atormentá-la só porque ela não pode comer doce?! – disse tirando algo do armário.

Sara o observava incrédula.

Sara: Heróico? Eu ouvi bem? Isso não é brincadeira, Fernando. – fala num tom aborrecido.

Fernando: Você está fazendo tempestade em copo d’água, amor. – fala cuidadoso.

Sara: Eu já tenho muito com que me preocupar, certamente isso podia muito bem ser a gota que faltava para a tsunami.

Fernando: Ei, ei, ei! – falou, deixando o pacote de macarrão que tinha pegado na mesa e se aproximando dela, a abraçando por trás. Ela se acalma. – Vou conversar com eles, ok? – beija carinhoso o rosto de Sara e se afasta.

Sara: Eu já conversei…

Fernando: Imaginei, mas, você sabe, eles me levam muito mais a sério. – brincou, recebendo um tapinha de leve de Sara, que deu um breve sorriso. Ele a observa por instantes e pergunta: Qual é o problema? Não é só por causa de uma briguinha de criança, né?

Sara: Coisas da livraria – deu de ombros.

Fernando: Hum, business, sempre business, relaxe, minha Donald Trump! – beija o alto da sua cabeça.

Sara: Argh, você já foi melhor de referências, Ferdi… Espero que não seja uma crítica ao meu cabelo. – arruma o cabelo.

Fernando: Não ousaria, eu amo seu cabelo! – fala e volta a se dedicar à preparação do jantar.

Sara: Esse comentário foi meio gay, mas eu gostei.

Fernando: Mas talvez um topete lhe caísse bem. – ri e deixa a panela cair.

Sara: Deixa comigo, você está despedido! – levantou-se para ajudá-lo com o jantar – Você poderia aplicar a insulina na Rafa? – ela pede.

Fernando: Ok, mas não demora, vamos já começar a ver o filme.

Sara: Então, podemos deixar a macarronada para lá? Demora demais, vou fazer pão de queijo, humm. – fala já indo pegá-los na geladeira.

10. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – SALA DE JANTAR

Diva, Nora e Guilherme estão jantando em silêncio. Nora e Diva travam uma pequena batalha com olhares.

Guilherme: Essa carne está um pouco salgada, não? – quebra o silêncio.

Diva: Eu falei para você. – diz para Nora.

Nora: Não, mãe, você falou que eu não sabia cozinhar.

Diva: Eu não disse isso. Oh, Jesus! – respira fundo e Nora também.

Guilherme: Calma. – diz tranqüilo – Agora entendo o silêncio… A carne está boa, Nora, só um pouco salgada, mas boa.

Diva: Mas tinha que reclamar – resmunga e Nora a fita com um olhar reprovador.

Guilherme: Com licença – diz saindo da mesa para atender seu celular que começara a tocar. As duas continuam a se encararem de maneira nada cordial.

Nora: Você nunca vai deixar de implicar com ele?! Porque comigo, eu já perdi as esperanças. – fala quando o marido deixa o recinto.

Diva: Não se preocupe, eu não durarei muito tempo. – coloca uma colher de comida da boca e mastiga – E eu não implico com ninguém. – completa.

Nora: Imagina, mãe. – ironiza – Eu pensei que em 40 anos, a senhora tivesse pelo menos cansado disso.

11. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – VARANDA.

Guilherme: Eu telefono para você no domingo, segunda eu passo aí para vê-la (…) agora não posso falar, entenda (…).

Guilherme conversava com alguém ao telefone, enquanto a esposa e a sogra continuavam a discutir no cômodo ao lado. Após desligar o telefone, ele respira fundo e volta para o campo da batalha doméstica.

12. INTERNA – NOITE– CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

Sentada numa poltrona com o laptop entre as pernas, Carol digitava algo, super concentrada. O escritório era lotado de estantes abarrotadas de livros. O telefone do escritório começa a tocar, e ela se estica para alcançá-lo.

Carol: Alô!

Carlos: Oi! – Carlos responde do outro lado da linha, no seu apartamento e deitado em sua cama.

Carol: Fala manipulador!

Carlos: Adoro lhe encontrar nos seus melhores dias. – diz irônico.

Carol: Então, está com sorte, estou com TPM, com cólica, enjoada e na casa dos meus pais, ou seja, tudo perfeito – também é irônica.

Carlos: Então, talvez esse não seja o melhor momento de lhe fazer esse pedido.

Carol: Você não tem mais direito nenhum de me pedir alguma coisa hoje, nem nos próximos anos!

Carlos: Ok, mas você vai ficar curiosa para saber o que é.

Carol: Você não pode pedir, mas pode contar o pedido.

Carlos: Só peço se você prometer que vai, pelo menos, avaliar a questão.

Carol: Tudo de mau que falam dos advogados é puramente verdade, vocês são manipuladores egocêntricos..

Carlos: Opa, comentário à la Andrade Express!! – Carol fica sem entender a expressão – Pois bem, tudo que falam dos jornalistas também, são fofoqueiros a espera de uma nova vítima. Por falar nisso, você está trabalhando agora, né? A essa hora, certo? Eu te conheço, não tente me enganar. Já posso até te ver no escritório do papai, de pijamas, digitando que nem uma louca, com paradas reflexivas de dez em dez minutos.

Carol faz cara de indignada.

Carol: Ok, você, por acaso, está certo. – olha ao redor – Esses livros, os que li, e, estranhamente, principalmente os que nunca li, de alguma maneira me inspiram. Sinto-me a vontade aqui.

Carlos: Tão poética e tão previsível.

Carol: Ok, conta.

Carlos: O quê?

Carol: O pedido.

Carlos: Ah! Seu prazo prescreveu, se quiser saber agora, tem que aceitar fazer, mas ganha uma carona de graça amanhã, hein? Hein?

Carol: Fala logo, Carlos!

Carlos: Você não pode deixar a mamãe saber o que você veio fazer no Rio.

Carol: Ah, Deus! Você ainda muito protetor com ela!

Carlos: Porque é em mim que recaem todos os ressentimentos dela por causa de vocês.

Carol: Drama queen!

Carlos: Workaholic!

Júnior: Vocês já têm mais de trinta anos, sabia? – Júnior se intromete na ligação pela extensão.

Carol: É por isso que AMO essa minha família, respeitam tanto a privacidade alheia. – ironiza.

13. EXTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – CALÇADA

Carlos buzina impaciente dentro do carro a espera dos irmãos.

Carol: Calma, estamos indo! – grita de dentro da casa.

Carlos: Lembre-se que o propósito é chegar para o almoço! – grita de volta.

Carol: Que motorista mais abusado nós fomos arranjar – diz para Júnior ao se aproximarem do carro.

Júnior: Eu poderia ir dirigindo.

Carlos: Não, não poderia. A não ser que quisesse que os dois morressem de ataque cardíaco bem no dia que fazem 40 anos de casados. – Júnior o olha chateado – Seria trágico, mas até que romântico, na verdade. – completa brincando.

14. EXTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – PISCINA

Fernando está cuidando das crianças, enquanto Sara ajuda Nora com os últimos preparativos. Os familiares que já chegaram se dividem entre a piscina, a churrasqueira e a televisão, que passava o treino da Fórmula 1. Guilherme se aproxima do genro e puxa papo, sentando-se ao seu lado na borda da piscina, enquanto Rafaela e Eduardo estão nadando.

Guilherme: Nando, você que é especialista, me diga: a voz não é algo louvável no Chico Buarque, é? – Fernando estranha a pergunta.

Fernando: Eu até gosto, mas, com certeza, ele se sobressai mesmo é em outras áreas. – Guilherme o olha desconfiado Compondo, eu quero dizer… completa apressado para evitar qualquer mal entendido.

Guilherme: Concordo. – falou e ficou pensativo por uns segundos – Eles estão crescendo rápido, não? Cuidado que daqui a pouco estão que nem alguns dos meus: apenas forasteiros em sua própria família – disse nostálgico.

Fernando: Sei como é! Logo só vão me querer para pagar as contas.

Guilherme: Não, logo não vão mais precisar de você nem para pagar as contas! – fala e ri alto. Fernando apenas sorri e se adianta um pouco para ajudar Rafaela a sair da água e colocar o roupão. Guilherme tira a camisa, se joga na piscina de maneira desajeitada, propositalmente para molhar Rafaela e fazer Dudu rir.

Nora: Guilherme, por favor! – Nora chega apressada e repreendendo o marido – Você não pode atender os convidados todo molhado desse jeito.

Nora abaixa-se para ajudá-lo a sair da piscina, mas ele a puxa e ela cai na água também.

Nora: Seu, seu…! – diz irritada batendo de leve nele.

Os netos e Fernando riem da situação. Diva olha com reprovação. Guilherme puxa Dudu para perto dele, de modo que o garoto se torna seu escudo contra o ataque de Nora.

15. EXTERNA – DIA – ESTRADA PARA PETRÓPOLIS

Carlos e Carol, nos bancos da frente, e Júnior, no banco de trás, conversam durante o trajeto para Petrópolis, onde ocorreria o almoço das Bodas de Rubi.

Carol: Nem deu tempo de eu sentir saudade das estradas esburacadas desse país e eu já estou de volta a elas. Isso cansa, sabia?

Carlos: Existe avião, sabia?

Carol: Existe apagão também. Além do que, ainda não me sinto pronta para voltar a andar de avião depois do acidente. – diz num tom mais baixo. Carlos a olha preocupado, avaliando a situação.

Carlos: Você é insegura demais para uma especialista em política. – resolve descontrair o clima.

Carol: Você é homem demais para um gay. – dá o troco.

Carlos: Ui! Essa doeu! – fala desmunhecando, fazendo ela e Júnior rirem.

Júnior: Então, Carol, como vai ser seu trabalho aqui mesmo? – puxa o novo assunto.

Carlos: Melhor nem saber! Confie em mim!

Júnior fica sem entender nada e Carol olha aborrecida para Carlos.

Carol: Vou entrevistar o Rodolfo Antunes.

Júnior: O Rodolfo Antunes, Rodolfo Antunes?! Sério? – surpreso.

Carlos: Sim, esse mesmo. Eu disse que você não iria querer saber.

Carol: Não sei por que tanto drama. É apenas meu trabalho… Eu vou também começar algumas pesquisa para eleições municipais, já fui escalada para cobri-las a partir de agosto. – os irmãos se interessam pela conversa Acho que vou começar levantando a ficha dos aspirantes à prefeitura. Aliás, vou começar pelo idolatrado candidato de vocês. – provoca.

Carlos: Ele seria um bom prefeito. E ele é lindo, aliás.

Carol: Vou precisar de mais do que adjetivos vagos e vindo de fonte suspeita. – sorri sarcástica, recebendo uma cara de desdém de Carlos.

Júnior: Sabe, às vezes vocês fazem política ficar tão divertida. – Vira-se para o irmão apoiando-se entre os dois bancos da frente – Carlos, isso que a Carol falou merece um Andrade Express, hein!

Carlos: Eu sei. Aguarde e confie! – ele responde maldoso e misterioso e Carol fica, mais uma vez, sem entender nada. Quando Júnior faz menção que vai explicar o termo, Carlos faz sinal para ele se calar, e Carol o olha injuriada, Carlos apenas sorri cínico.

16. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – COZINHA/CORREDOR/SALA

Sara está sozinha na cozinha. Já não sabendo mais em que poderia ajudar, Sara saiu em busca da mãe para receber novas instruções. Enquanto se dirigia pra sala, se deparou com a mãe, um tanto quanto molhada, conversando com Diva e Tia Maíra (irmã de Guilherme).

Maíra: Então, Júnior não voltará mais a faculdade mesmo?

Diva: Creio que não. – dá de ombros e olha para Nora como se fosse culpa dela.

Nora: É, não no momento. Gostaria, mas… – é interrompida por Maíra.

Maíra: Você não acha que Fernando, de alguma forma, influencia negativamente o Júnior? Você sabe, achar que vai viver de música… Ele não tem mais quinze anos. – fala maldosa.

Sara se contorce no seu lugar, adentrando a sala antes que Nora pudesse dizer algo a respeito.

Sara: Mãe, tem mais alguma coisa em eu que eu posso ajudá-la? – olha de canto de olho para tia, e a cumprimenta rapidamente com a cabeça e de cara fechada. Sorri brevemente para a avó.

Nora: Não, filha, já está tudo sob controle, obrigada! – sorri maternal – Ah, Sara, mostre para sua tia como Dudu e Rafa já estão começando a ler. – abre um sorriso.

Sara: Mãe, acho que ela não estaria interessada… Sabe, vê-los tentando formar palavras, gaguejando ainda, é cansativo e chato quando não é com filho da gente.

Diva: Que é isso, Sara! Claro que sua tia está interessada. Eles são uma graça, Maíra.

A tia já demonstrava está um pouco sem graça.

Nora: E precoces! – Nora completa orgulhosa.

Sara: Bom, de qualquer forma eles estão com o pai agora, e, talvez, eles não estejam interessados na atividade no momento. – faz menção em se retirar, mas retorna um pouco – Aliás, Fernando é um pai e um marido maravilhoso. – diz, sorri cínica para tia e depois sai da sala.

Diva: Desculpe, os filhos de Nora são insolentes às vezes.

Nora fecha cara para mãe e sorri sem graça para Maíra que sorri mais sem graça ainda de volta.

17. EXTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – JARDIM

O carro de Carlos estaciona, Guilherme se aproxima para recepcionar os filhos, abrindo os braços e um enorme sorriso.

Guilherme: Oh, meu anjo! Que saudades! – abraça Carol com vontade.

Carol: Também senti, pai – ela o beija no rosto.

Guilherme: Oi rapazes! – cumprimenta Carlos e Júnior, respectivamente com um aperto de mãos. Na vez de Júnior, ele aproveita o aperto de mão para puxá-lo mais pra perto de si e o abraça. – Vocês demoraram!

Carol: Aí, preciso ir ao banheiro, estou há horas querendo fazer xixi, mas Carlos não quis parar – diz e se apresa para dentro de casa. Guilherme lança um olhar repressor para Carlos.

Carlos: Em minha defesa, posso garantir que ela já tinha nos atrasado o bastante. – defende-se um pouco irritado.

Pouco tempo depois, Nora se aproxima dos filhos (Carlos e Júnior) e de Guilherme que junto de outros parentes conversavam perto da TV.

Nora: Até que enfim vocês chegaram! Já estava pensando que tivesse acontecido alguma coisa – fala abraçando os filhos.

Carlos: Todo dia você mata a gente, mãe, cuidado que um dia você acerta. – eles riem, mas Nora não gosta da brincadeira.

Nora: Não zombem de mim por eu me preocupar com meus filhos. – diz um pouco chateada – Onde está a irmã de vocês?

Júnior: A Carol? Foi ao banheiro.

Nora: Espero que não esteja fugindo de mim – diz irônica.

Carlos: Claro que não, mãe.

Júnior: Está sabendo que ela vai entrevistar o Rodolfo Antunes? – fala em tom casual para mãe, que recebe chocada a notícia.

Carlos: Júnior!! – repreende o irmão.

Júnior: Que foi?! – diz assustado.

Carlos: Não era para falar isso para mãe – diz agoniado.

Júnior: Eu não sabia que era segredo… – desculpa-se.

Nora: O quê? Iam esconder isso de mim?! – olha intimidadoramente para Carlos – Se a irmã de vocês vai entrevistar a pessoa que acabou com a vida do meu irmão, eu devia ser a primeira a saber. – avisa consideravelmente irritada, e, em seguida, se retira, indo em direção a casa.

Carlos olha para Júnior decepcionado, balançando a cabeça.

18. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – PORTA DO BANHEIRO.

Carol está saindo no banheiro e esbarra na mãe.

Carol: Ops…

Nora: Lavou as mãos?

Carol: Claro!

Nora: Porque você não lavava quando era pequena. – Carol suspira.

Carol: Olá mãe! – tenta recomeçar a conversa.

Nora: Olá! Como vai, Carol? Fico feliz que tenha podido comparecer a Bodas de Rubi de seus pais.

Carol: Mãe…

Nora: Não, sério, me sinto honrada, afinal você é tão ocupada. Cheia de entrevistas importantes – diz sarcástica e Carol a olha desconfiada.

Carol: Parabéns de qualquer forma… Não vamos brigar hoje, ok? Pelo papai. – e sai antes que a mãe fale algo. Nora fica p. da vida.

Nora: Volte aqui, menina, que arrogância! Ana Carolina!

Carol pára e se vira.

Carol: Que foi? – pergunta impaciente

Nora: Soube que você vai conversar com Rodolfo Antunes – fala em tom de acusação.

Carol: Entrevistar.

Nora: Que seja… – lança um olhar triste para filha – Isso vai acabar com sua avó.

Carol: É meu trabalho, mãe. Não estou fazendo isso para atingir ninguém.

Nora: Como sempre você não pensa nas conseqüências de seus atos, sempre escolhe o lado errado. – critica.

Carol: Lado errado? – parece confusa.

Nora: Incentiva o próprio irmão a abdicar de seu futuro largando a faculdade não foi… – é interrompida por Carol.

Carol: Pelo amor de deus, mãe! De novo esse assunto… Não agüento mais, me dá licença. – sai de vez, deixando a mãe irritada.

♫ 19. EXTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – JARDIM

Guilherme, Júnior, Carlos e agregados continuam conversando enquanto na TV ainda passava as considerações finais do treino de Fórmula 1. Fernando se aproxima deles, carregando um violão e com os gêmeos o seguindo.

Guilherme: Fernando, o que você acha desse Felipe Massa?

Fernando: Bom, pelo menos ele parece ter mais sorte que o Rubinho, o que, também não é grande, até eu tenho mais sorte do que ele. – diz sem muito interesse de permanecer na conversa e sai atrás dos gêmeos que correram para perto do viveiro de pássaros.

Guilherme: Ele conseguiu a pole, acho que ganha amanhã – vira-se para Júnior e Carlos esperando concordância.

Júnior: Também acho, não é? – fala, não muito confiante e fita Carlos que está com cara de entediado.

Guilherme: E ele começou bem o campeonato, tem tudo para ser o grande campeão.

Nesse momento Tomás chega com a esposa, Vitória, e cumprimentam os presentes.

Carlos: Até que em fim você chegou! Se eu ouvir papai falar de F1 por mais dois segundos, acho que me jogo na churrasqueira – fala entre os dentes ao abraçar Tomás, de modo que só o irmão pudesse ouvi-lo – Antes fosse futebol, pelo menos disso eu entendo. – resmunga.

Guilherme: Oi, meu filho – abraça Tomás – Estava aqui conversando com seus irmãos sobre o Felipe Massa. Acho que podemos ir ver o GP do Brasil, será em novembro, o que acha? – Carlos revira os olhos.

Tomás: Ótimo, pai, vamos sim. Temos grandes chances esse ano!

Guilherme: Exato, é o que eu estava dizendo! – anima-se.

Tomás, então, olha para Júnior, que estava com uma garrafa de cerveja na mão, como se reprovasse aquela atitude do irmão. Júnior percebe, mas não se manifesta.

Tomás: Começou cedo, hein – fala para Júnior em tom provocativo.

Júnior: Não enche. – fecha a cara.

Tomás desfia o olhar de Júnior e passa ignorá-lo no decorrer da conversa.

Carlos começa a se entediar e sai. Ao ver que sua mãe e sua avó já iam começar uma nova discussão por causa do estado do jardim, ele se intromete.

Diva: Nora, minha filha, gosto se discute sim. Olhe para essas begônias! Olhe!

Nora: Eu gosto do jardim do jeito que está, mãe!

Diva: É você mesmo quem gosta ou é seu marido? Hein?

Carlos: Vovó! – beijam-se na bochecha – Eu sei! Esse jardim está horroroso, não? – dá uma piscadela para a mãe – Eu tive umas idéias para melhorá-lo, deixa eu te mostrar… – Nora faz um obrigado com os lábios e Carlos sai com Diva.

Diva: Concordo plenamente com você! Você tem muito bom gosto! Como eu! – e ri com vontade – Todos sabem que crisântemos são mais bonitos que begônias. E de quem foi a idéia de colocar esses heliantos horrorosos? – E continuou a divagar.

Carlos: Vó, está com sede?

Diva: Sempre o meu cavaleirinho! Não sei como ainda está solteiro! Traga-me um carbernet-sauvingnon, s’il vou plait.

Carlos serve as bebidas e volta para a companhia da avó.

Diva: Mas então, conte-me, Carlos, querido, está namorando? Alguém charmoso como você deve ser cheio de pretendentes…

Carlos: Bem, vó, eu estou solteiro. Tenho trabalhado muito, pois quero ser promovido – Carlos tenta mudar de assunto.

Diva: Querido, trabalho não é desculpa! Você já tem quase 35! Não pode se dar ao luxo de perder tempo!

Carlos divaga sobre o que seria pior: falar de F1 com o pai ou discutir relacionamentos com sua avó que não sabe que ele é gay.

Carlos: Vovó, vou ajudar no término dos preparativos. Nos falamos depois. – E sai dali.

♫ 20. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – ÁREA

Sentada em uma cadeira de balanço, Sara observava os filhos de longe. Carlos se aproxima carregando uma grade de cerveja.

Carlos: Papai disse que o freezer da casa é mais potente – explicou tentando equilibrar a grade. Seu celular começa a tocar e ele se aproxima de Sara, fazendo menção para ela pegá-lo em seu bolso. A irmã pega e o atente.

Sara: Pronto.

Carlos: Droga! Não era para atender! Era para segurá-lo para mim! Droga! – reclama alterado e dá um jeito de soltar a grade em uma das cadeiras.

Sara: C.A? Não esse celular é do Carlos! – ela estende o braço esquerdo para manter Carlos a certa distância, enquanto fala com alguém no outro lado da linha.

Carlos: Sou eu! Me dá! – ele toma na sua mão e se afasta para conversar com privacidade.

Sara pega uma das cervejas da grade, analisa a temperatura e resolve bebê-la. Carlos retorna em seguida.

Carlos: Traça quente assim mesmo?

Sara: Não está tanto… Mas, hum, C.A.? De Carlos Andrade, certo? – ele faz que sim com a cabeça – Então, é esse seu nome na noite?

Carlos: Não! Esse é meu nome na… internet. – explica encabulado.

Sara: Ãh? – faz cara de surpresa.

Carlos: Encontros on-line…– diz e Sara tenta conter o riso – Não, não me olhe assim. Você é casada, não sabe o que é ter uma mãe querendo arrumar encontros para você. Melhor se submeter aos sites da internet do que às conversas constrangedoras com Dona Nora, ou com a mãe dela – revira os olhos.

Sara: Não tenho tanta certeza que ser casada me traga alguma vantagem nesse quesito.

Neste momento Carlos deixa a área, cruzando com Carol na porta.

Carlos: Você! – ele fala para Carol – Você que a mãe deveria atormentar por causa de namorados, afinal, já é uma balzaquiana! Uma balzaquiana!

Carol: O que deu nele? – pergunta a Sara.

Sara: Minha cara, você não é a única privilegiada das garras amáveis de Dona Nora.

Carol: Sei que não, só sou o principal alvo. – sentou-se ao lado da irmã.

Sara oferece cerveja à irmã que nega com a cabeça.

Sara: Se eu tivesse seu corpo, me entupiria de bebida e comida.

Carol: O Carlos agora deu para controlar todos os meus atos, segundo ele para proteger a mãe. – reclama.

Sara: Dieta não combina com filhos pequenos e com marido em forma. Eu lá na saladinha, e meus filhos fazem cara feia. – reclama também.

Carol: Mas, ele não entende que não importa o que eu faça, por mais impecável que eu seja em meus atos, mamãe sempre achará algo para reclamar.

Sara: Verdade! Não entendem… Daí o Fernando ainda fala: “Se você prefere comer isso, não tem problema eu peço uma pizza pra gente”. – diz forçando a voz – Ele não entende que não é uma questão de preferência…

Carol: E o pior que por mais que eu sinta raiva dela, e, digamos, que não precise de sua aprovação para nada, parte de mim queria ouvir de vez enquanto um “Boa menina, Carol”.

Sara: Sem contar os biscoitos recheados, salgadinhos, batata frita e outras guloseimas do lanche dos meninos. É muita tentação para um pobre mortal em dieta como eu.

Carol: A bem da verdade é que a mãe tem o incrível poder de me tirar do sério, e eu normalmente sou tão paciente – diz balançando as pernas freneticamente.

Sara: Pelo menos o Ferdi me acompanha na academia… Mas é um ato de muita força de vontade, além de humilhação, porque, pense bem, que trajes mais ridículos a gente veste pra ir à academia. É vergonhoso! Mas não mais do que só encontrar mulheres saradas. E eu me pergunto o que elas estão fazendo ali? Se eu tivesse o corpo delas nem passava em frente a uma academia. – bebe mais um pouco de sua cerveja revirando os olhos.

Carol: E o que o Carlos quer dizer com o balzaquiana?! Aposto que tem o dedo da Dona Nora nisso. – diz emburrada.

Sara: Sei que elas também devem pensar a mesma coisa de mim, só que no sentido contrário… Será que elas não têm emprego e família para se preocupar? – fala indignada e cruza os braços e as pernas

Carol: Exatamente, eu tenho meu trabalho, não me sobra muito tempo para sair à caça…

Sara: E depois de se matar de fazer inúmeros exercícios você chega em casa até com o nariz dolorido É terrível!

Carol: É muito ruim seu irmão gay ter mais sexo que você?!

Sara: E ainda pagamos por isso. Conclusão: É melhor pagar uma terapia pra se aceitar com seus quilinhos a mais. Afinal, o problema não é ter cinco quilos a mais, a questão é que eles são mal distribuídos. Bem que eles poderiam se localizar nos seios, na panturrilha ou no dedão do pé!

Carol: Pois é, exato. É tudo desproporcional…

Nesse momento Sara olha para irmã, como se avaliasse algo.

Sara: Você percebeu o que está acontecendo aqui? Nossa peculiar dinâmica de conversas unilaterais? – balança a cabeça incrédula.

Carol: Uhun, saudades disso. – elas sorriem.

Rafaela se aproxima da mãe e da tia com cara de choro.

Sara: Que foi, querida?

Rafaela: O Dudu está me fazendo inveja com os chocolates.

Sara: Seu pai o deixou comer?! Eu falei que nada de doces para os dois antes do almoço!

Rafaela: Mãe, eu posso comer meu docinho especial? – falou manhosa.

Sara: Ok, Rafa… – ela cede – Peça ao seu pai para ele lhe dar um pouco do seu doce de leito genérico. – Fala se referindo ao doce de leite diet.

Rafaela sai correndo em direção ao pai, que estava com Dudu e mais algumas pessoas numa roda de música, e Sara a observa.

Sara: E pensar que ontem, Dudu foi o herói dela, hoje é seu algoz. – diz a Carol – Às vezes fico pensando como gêmeos são ainda mais complexos que irmãos normais.

Carol: Pois é, mas eles são bem unidos, apesar de tudo.

Sara: É… de uma forma não muito tradicional. – dá de ombros – Ou na tradição Andrade. – completa o raciocínio, fazendo a irmã ri.

Carol: E o Gabriel? Achei ele tão calado, distante… – Carol pergunta sobre o filho mais velho da irmã.

Sara: Ah, ele está naquela fase que os eventos familiares passam a ser um tédio e se tornam oportunidades para ele ser alvo de constrangimentos. – riram.

Carol: Por falar nisso, discurso de Bodas de Rubi já está pronto? – puxou um novo assunto.

Sara: Não, a propósito, me lembre de eu me vingar de você. Te devo pelo menos Andrade Express.

Carol: Aliás, quer me fazer o favor de explicar esse tal de Andrade Express?

Sara: É como chamamos nossas atitudes passivo-agressivas uns com os outros, típica de nós, os Andrades. Frases e atitudes fraternais e ferinas. – explicou.

Carol: Eu passo um tempinho fora da dinâmica e vocês já estão cheios de vocabulários próprios e piadas internas novas.

Sara: Três meses, Carol, três meses! – levanta as sobrancelhas com expressão de obviedade. Isso deixa Carol pensativa.

Naquele momento Gabriel se juntou ao pai e aos demais na cantoria, fazendo aumentar o volume da música.

Fernando, Gabriel e demais (cantando em coro): Pra quê que eu vou cantar se você não vai escutar a voz do coração deste compositor popular – se empolgam.

Sara: Vamos ao escritório? – propõe a irmã querendo fugir do barulho.

Fernando (cantando): Fiz essa canção só pra você, mas pra quê? Se você gosta só de mpb e eu sou puro, puro rock’n’roll. Com meus três pobres acordes, meu bem, acorde, venha ver meu show!! – canta num tom mais alto para chamar a atenção de Sara, que o encara com cara de desdém, mas sorri em seguida, e Fernando sorri de volta.

21. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – ESCRITÓRIO

Carol está sentada na cadeira, com os pés em cima de uma grande mesa de madeira. A sua frente há uma enorme estante com apenas alguns livros. Sara está no outro lado, bebendo outra cerveja.

Carol: Vê? – aponta para estante – Levaram todos os meus livros preferidos daqui. Ela está depenada, coitada.

Sara: Ah, ninguém mais vem aqui mesmo… – deu de ombros – E quem diria que a disléxica da família seria a mais apegada aos livros. – implica.

Carol: Eu já parei de usar a dislexia como desculpa para a minha preguiça, viu?

Sara: Mas era sério, mamãe até contava que você escrevia “Mau é Lula”, ao invés de “Lula é mau”. – riram.

Carol: O Lula ainda não era uma preocupação da minha vida naquela época, vai. – aborrece-se.

Sara: Felizmente pra nós, agora é. – provoca.

Carol: A gente estava indo tão bem evitando assuntos políticos… – lamenta-se em tom de brincadeira.

Tomás adentra o recinto e as pega de surpresa olhando fixamente para estante.

Tomás: Sabia que encontraria vocês aqui, eterno lugar de refúgio.

Sara: Bem-vindo ao clube! – ergue a garrafa de cerveja.

Tomás: Mamãe está furiosa com você, Carol, o que houve? – senta-se ao lado de Sara e toma a cerveja de sua mão, a irmã faz cara de ofendida.

Carol: Muitas coisas… Ela não me perdoa, você sabe, pelo grande mal que fiz ao Júnior…

Sara: Ah, Carolzinha, você não tem nada a ver com isso, você sabe, ela sabe…

Tomás: É o Júnior que é um inconseqüente inveterado. Ninguém iria conseguir mantê-lo numa sala de aula por muito mais tempo.

Carol: De qualquer forma, não é só isso. No fundo ela nunca esquecerá que preferi o baile a viajar para Cuba na minha formatura do colegial. – brincou. – E vai sempre me odiar por eu preferir azul ao vermelho, não ter casado com um cara-pintada e ter mudado para São Paulo, é claro. Bom, a lista é grande. – dá de ombros.

Tomás: Dê uma colher de chá para ela. Você passou muito tempo sem visitá-la.

Carol: Não sei por que todos tocam nesse ponto, nesse pequeno detalhe. Eu estive aqui no Natal, não estive? Cumpro minha função social nessa família.

Sara: E, Tomás, seja mais compressível com Júnior. Ele está passando por uma fase difícil. Todos já passamos por isso.

Tomás: Só que a dele é eterna, né? Vocês são muito condescendentes com ele. – reclama impaciente.

Carol: Você que é duro demais com ele.

Tomás a olha incrédulo.

Tomás: Por favor, né.

Sara: É, verdade, até quando Carlos se assumiu, você foi bem mais amistoso.

Carol: É mesmo, saía até com eles para as baladas gays e tudo.

Sara: Era!! Tinha medo que ele fosse bulinado ou algo do tipo – riram.

Tomás: Ah, mas ele era muito novo, bobinho mesmo. Podiam aproveitar da inocência dele – brinca.

Sara: Você sempre foi ciumento e protetor. Era assim com os meus namorados, eu tinha até pena deles, diante a sua fúria fraternal. Engraçado que com o Fernando você nunca implicou.

Tomás: Ah, mas o Nando mais parecia seu irmão, eu nunca desconfiaria das segundas intenções dele. – riram.

Carol: Com os meus namorados você também nunca implicou. – estranhou.

Tomás: Isso porque você já implicava com eles o suficiente. Eu devia era defender os coitados de você – Ele e Sara riram, já Carol fez cara de quem não gostou da brincadeira.

22. EXTERNA – DIA – DE VERANEIRO DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – JARDIM

Nora tentava juntar a família para bater uma foto.

Nora: Cadê suas irmãs?

Carlos: Tomás não ficou de ir chamá-las?

Júnior: Pelo jeito se perdeu no meio do caminho. – fala em tom de implicância.

Nora: Carlos, querido, faça o favor de encontrá-los. – Carlos sai a contra gosto atrás dos irmãos.

Nora: Filho, vá atrás dele também, só por garantia. Estou achando que todos estão fazendo um motim dos anti-socais. – pede maternalmente a Júnior, depois que Carlos sai. Júnior ri e assente com a cabeça, indo atrás de Carlos.

23. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – ESCRITÓRIO

Carlos entra no escritório e encontra os três irmãos rindo de algo.

Carlos: Qual é a graça, posso saber?

Tomás: Sites de namoro. – fala sério e todos encaram Carlos, contendo o riso.

Carlos: Arr, errr, ah, não acredito, você contou para eles??!! – diz indignado para Sara que dá de ombros, cínica.

Carol: Olha quem fala! Quem foi que disse para mãe que eu vou entrevistar Rodolfo Antunes? – o acusa, e Sara e Tomás a olham interrogativos.

Tomás e Sara: O quê?

Sara: Você vai entrevistá-lo?

Tomás: Você não pode fazer isso! – indigna-se.

Carol: Por favor, gente! – também se indigna Eu não estou comungando com inimigo nem nada disso, eu tenho que fazer isso, é minha fonte de renda, lembram?

Sara: Eu sei, mas acho que dona Diva não pensará dessa forma.

Carol: Mas ela só saberá se alguém der com a língua nos dentes – olha irritada para Carlos.

Carlos: Não fui eu que falei para mamãe da sua entrevista, foi o Júnior.

Tomás: Só podia…

Sara: Aliás, eu acho que Advogado Carioca seja mais persuasivo, sabe, mais status, mas entendo que A.C. não seja tão sonoro quanto C.A. – fala para descontrair. Os três riem, mas Carlos fecha a cara.

Júnior entra no local.

Júnior: O que vocês estão fazendo aqui? Mamãe está louca procurando vocês para tirarmos uma foto.

Carlos olha furioso para os irmãos os coagindo de falar algo.

Sara: Ju, duas letras: C.A!

Carol e Tomás seguram o riso, Carlos bufa e Júnior fica com uma expressão confusa.

Carlos: Agora vocês não vão mais me deixar em paz por isso, é?

Sara: Sim, querido, quanto mais você se importar, mais nós vamos te atormentar. – dá um tapinha no ombro dele – Ju, seu irmão aqui está buscando um amor pela internet, olha que lindo e moderno! – zoa.

Júnior: Sério? Você é a Meg Ryan ou o Tom Hanks?

Carol: Meg é claro, olha esse corpinho. – diz apertando os pneuzinhos da barriga do irmão.

Carlos: Há-há-há, muito engraçado – ironiza irritado, se livrando dos beliscões da irmã – Júnior, você deveria ter trazido mais bebida com você – vira-se pro irmão, procurando algum conforto.

24. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – ESCRITÓRIO

Os cinco irmãos continuam conversando animados. Até que Tio Saulo, abre a porta e dá de cara com a cena.

Saulo: Então, estão todos escondidos aqui! A mãe de vocês já está ameaçando deserdá-los. Está louca que seus filhos são os únicos que não estão apostos para foto. – briga com os sobrinhos, mas em seguida balança a cabeça sorrindo, quando percebe que seu carão não fez efeito algum, já que eles permaneceram onde estavam e não fizeram sequer menção de se levantarem – Minha nossa, parecem crianças!

Júnior: Estávamos matando as saudades, tio. – abre um sorriso, seus olhos estavam brilhando, gostava de estar com os irmãos, mesmo com as implicâncias de Tomás. Além do que, também já estava um pouco “alto” por causa da bebida, e achando tudo ótimo e engraçado.

Saulo: Vamos, vamos logo, se não dona Nora pira de vez. – convoca-os.

E eles finalmente deixam o escritório.

25. EXTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – JARDIM

Os cinco caminham para o local da foto. A movimentação ao redor da piscina e da mesa era grande. Um dos primos estava posicionando todos para tirar o retrato. Aos poucos todos vão se aproximando, por volta de umas vinte e cinco pessoas.

Carlos: Você não tem a impressão que nossa família, os filhos de Nora e Guilherme, já não são o suficiente? – fala para os irmãos diante da multidão que se junta em frente à câmera, os quatro concordam balançando a cabeça afirmativamente.

Carol: Tem duas coisas que odeio na vida: famílias enormes reunidas ao redor de uma mesa e musical. Então, a idéia de inferno para mim é uma família ao redor de uma mesa tendo conversas cantaroladas.

Fernando: Se prepara, então! – alerta chegando com os filhos a tira-colo e passando os braços por cima dos ombros de Sara.

Diva e Nora estavam próximas, paradas lado a lado, esperando pela foto.

Diva: É uma grande dádiva divina ter todos seus filhos aqui com você. Você deve está muito feliz, não é, minha filha?

Nora: Claro, mãe, claro. – diz pensativa.

Cada filho vai se chegando, efusivos, abraçando a mãe, o pai, o marido, a esposa, os filhos. Porém Carol chega discretamente e se posiciona em silêncio. Nora a observa e quando seus olhares se cruzam, ela sorri, Carol sorri de volta. Nora estava feliz de ter novamente todos os filhos reunidos numa ocasião tão especial.

26. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – JARDIM

Várias mesas ao redor da piscina, cada uma com vários parentes. A mesa principal, onde ficavam os pratos de comida também já está posta e todos já se ajeitam em seus lugares para começarem a almoçar.

Tio Saulo está de frente a Sara na maior mesa, onde também estavam todos os demais filhos de Nora e Guilherme. Sara tem Dudu no colo que mexe com os talheres e ela tenta, em vão, fazê-lo parar.

Sara: Tio Saulo… – ela chama sua atenção.

Saulo: Oi! – responde virando-se para ela.

Sara: Sei que não é o momento mais apropriado, mas você sabe se há algo diferente nos contratos com os fornecedores da Andanças?

Saulo: Por que, querida?

Sara: Alguns números… Alguns números que vi no escritório do papai andam me perturbando.

Saulo: Não se preocupe, seu pai tem tudo sob controle. – responde depois de avaliar um pouco a questão.

Sara: Espero... – olha em direção ao pai e o vê paparicando a mãe.

Tomás se levanta da mesa, chamando a atenção de todos.

Tomás: Bom… – olha para a esposa apaixonado e abre um grande sorriso para todos – Antes de qualquer coisa, eu e Vitória – dá a mão para ela se levantar também – Queríamos comunicar a todos que estamos grávidos.

Todos são pegos de surpresa com a novidade e ficam felizes, e levantam-se para cumprimentá-los.

Nora: Oh, meu filho, que maravilha! Isso foi o melhor presente do dia! – o beija emocionada – Depois temos que começar a pensar nos nomes – diz para Vitória.

Vitória: Claro, Nora – ela também estava visivelmente emocionada.

Sara: Cachorro! Como ele esconde isso da gente? – vira-se para Carlos.

Carlos: Posso imaginar por que… – fala ainda aborrecido.

Nora pede a atenção de todos com a mão.

Nora: Quero agradecer a presença de todos vocês aqui, em especial, meus filhos que tanto amo – e fita-os com os olhos cheios de lágrimas – Vamos, se sirvam! Fiquem a vontade! – diz contendo a emoção, antes que começasse a chorar – Temos muito o que comemorar hoje! – ela anuncia o começo da COMERmoração.

27. EXTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES EM PETRÓPOLIS – JARDIM

Todos já se deliciaram com os saborosos pratos de Nora e estavam agora na expectativa do discurso de Sara. Ela, então, se levanta, caminha um pouco, de modo que fique de frente para todos.

Sara: Bem… – ela tenta começar, mas se sente coagida por todos aqueles olhares voltados para ela e antes mesmo de propor um brinde ela toma uma grande quantidade da bebida em seu copo – Bem, meus pais estão fazendo 40 anos de casados. Todos sabem, eu suponho. Mas, talvez, não saibam o quanto isso é difícil para mim, digo, isso é triste porque eu lembro que daqui a pouco sou eu que estarei fazendo 40 anos… de vida! – risadas nas mesas – É, eles foram rápido… – mais risadas – 40 anos, poxa, é muito tempo, não é? Merecem um rubi, bodas de Rubi… Não, não era bem isso que eu queria dizer! – Balança a cabeça confusa. Fernando a olha incentivando, os irmãos também fazem o mesmo – Eu sei que todos esperavam a Carol ao invés de mim, afinal, ela sempre foi a melhor com as palavras, eu sempre me atrapalho toda, mas vamos lá! – Respirou fundo e continuou de onde tinha parado.

Sara: A gente bem que tentou comprar o Rubi Rajaratna para vocês, mas as autoridades indianas não aceitaram nossas garantias… – deu de ombros – Tudo bem, nessa minha empreitada, eu descobri que rubis são pedras muito preciosas, porém imperfeitas. E é isso que resume um casamento. Eu e cada um dos meus irmãos, modéstia às favas, somos as provas vivas do quão bem sucedidos vocês foram. – Guilherme e Nora estão lado a lado, de mãos dadas, e olham emocionados para a filha, e, vez ou outra, fitam os outros filhos também – Na verdade, nós somos privilegiados. Mesmo! Nós temos um lindo e corajoso exemplo de casamento e, principalmente, de vida para seguir. – ela faz uma pausa contendo o choro – Vocês são dois impares que se tornaram um par. Vocês são inspirações para nós. Eu amo vocês! Nós amamos vocês! – ergue o copo.

Sara: Pai, você me ensinou muitas coisas nessa vida, desde a regra do impedimento até fazer planilhas de orçamento – alguns riram, todos estavam emocionados – E uma das coisas que você me ensinou foi a história do brinde, que agora vou tentar contar para todos aqui. – fez uma pequena pausa – O brinde surgiu para completar os cinco sentidos do ato de beber. Visão, o ato de ver o copo, obviamente; Tato, sentir a temperatura da bebida; Paladar e olfato, bom, os sommeliers que os digam; E, por fim, a audição veio por meio do nosso tin-tin, então, um brinde a Nora e Guilherme Andrade!

Todos brindaram e em seguida bateram palmas. Nora e Guilherme se beijam sutilmente e recebem os cumprimentos dos convidados. Sara também recebe os parabéns pelo discurso. Então, Guilherme se dirige para o local onde estava Sara.

Guilherme: Obrigada, querida, você foi magnífica! – ele tinha os olhos marejados – Apesar de não ter conseguido o rubi mais valioso do mundo para os seus genitores – brincou – Mas agora devo uma homenagem àquela que me deu os rubis da minha vida. – disse e fez sinal para Fernando, que se levantou da mesa e pegou seu violão – Se tinha algo que me deixava com dúvidas em relação à realização do nosso casamento, esse algo, ou melhor, alguém, era Chico Buarque – as pessoas riram – Nora, minha vida, sei que não tenho aqueles olhos verdes que você tanto admira, mas vou dar o melhor de mim aqui.Lembre-se também que a voz de Chico não é essas coisas – disse sorrindo e a encarando.

Em seguida olhou para Fernando, autorizando-o a começar a tocar e se dirigiu para mais perto dele, pegou o microfone e se preparou para cantar. Nora a olhava encantada e distribuía sorrisos a todos. Quando os primeiros acordes de “Romance” começou, Júnior levantou do seu lugar e, a passos não muito firmes, tentava chegar até o pai.

Guilherme (cantando): Te seqüestrei, vou te reter pra sempre na minha idéia. No teu lugar, talvez... – enquanto ele cantava, os filhos acompanhavam juntos, ao lado da mãe, menos Júnior que ainda vagava meio sem direção – Na minha idéia vives plenamente. És a pessoa com todas as canções. Os momentos bons e as horas más que a memória ecoa…

De repente, a cantoria é interrompida por um baque. Júnior caiu por cima da mesa onde estavam os pratos de comida e parece desacordado. Todos se chocam. Tomás e Carlos, ao se darem conta da gravidade, correm em direção ao irmão, seguidos pelos demais.

Continua…

Trilha Sonora

Cenas 1, 4 e 15: Get back – Cássia Eller e Zélia Ducan

Cenas 3 e 9: Best Days – Matt White

Cena 8: Bete Balanço – Cazuza

Cenas 14, 17 e 25: Teach Your Children – Crosby Stills & Nash

Cena 19: Agridoce – Pato Fu

Cena 20: Fiz Esta Canção – Zeca Baleiro

Cena 27: Romance – Chico Buarque

10 Respostas to “Bodas de Rubi”

  1. Raíssa Says:

    Finalmente, o primeiro capítulo tão ansiosamente aguardado! =)Parabéns a todos os escritores, o Rod, porque é meu amigo, principalmente ;).

    Acho que eu, como não sou lá muito amiga de séries e não tenho muita visão com o formato de roteiro, não sou a melhor indicada pra comentar, mas eu vou dizer que, mesmo com toda minha ‘dificuldade’, eu li até o final e me interessei, então, tá ótimo! =D

    É isso, acho que já estou me alongando demais. Parabéns e que venha o segundo episódio. =)

  2. DiH Says:

    Finalmente o primeiro capítulo!
    Antes de tudo, gostaria de dar os parabéns a toda equipe do site, a proposta é muito bacana e a idéia em torno dessas 6 pessoas que hoje são uma família, é realmente demais. E, tendo em vista que o meu grande amigo Rod está envolvido, tenho certeza que será um grande projeto.

    Eu já me meti por esses caminhos obscuros de roteiros, e até um curso sobre eu já fiz, e posso falar com toda a certeza que o de vocês está perfeito.

    Amo séries e tenho alguns episódios de Brothers and Sisters aqui, mas ainda não os vi. Vocês estão fazendo uma grande série e, um dia, espero poder ver ela nas telinhas.

    Mais uma vez parabéns a todos e que venha os novos episódios!

  3. Carine Dávalos Says:

    Eu quero mais…
    eu visualizei todas as cenas… e estou louca pra saber dos ferimentos físicos e morais do Junior!
    o/

  4. Paloma Says:

    Ah ficou muito legal, adorei. A Polly não deixou ninguém de casa ler antes da estréia. E até mudou o sobrenome(humpf)
    Mal posso esperar pelo próximo

  5. Karen Says:

    Gente!!!

    Adorei!!!

    Essa nova “serie” tem tudo pra dar certo. Qdo iniciei a leitura pensei q nao ia gostar do formato de roteiro mas ficou otimo.
    Adorei a Sara e a Carol…

    ja ansiosa pelo proximo. Bjks!

  6. Amola Says:

    eu quero um autógrafo, por favor!

  7. Natie Says:

    Nossa Sam!! Sério, que talento! hehe…
    Tinha lido seu comentario ontem lá no blog, mas queria deixar pra vir aqui qdo tivesse tempo pra poder ler tudo… E axu q jah comecei a me apaixonar pelos Andrades…
    Perfeito o 1º episodio… Adorei as musicas da trilha… Nao sei se teria paciencia pra fazer tudo isso!! rsrs…
    Beijos e vou add aki lá no blog pra acompanhar as atualizações…

    P.S.: Adorei a Vera ser ex-chacrete… hahah… Já imagino ela lá no programa do Chacrinha dançando!!

  8. Jessi Says:

    Nossa, parabéns! De verdade, está incrível. Eu como uma bela fã de séries fiquei super empolgada ao ler cada fala desse episódio. Além de muito bem escrito, tem todo um charme, um encanto gostoso que envolve a gente. Foi claro o suficiente pra me permitir entender quem era quem e misterioso o suficiente pra me fazer querer ler o próximo episódio o mais rápido possível.

    E claro, um beijo especial pro meu amigo Filipe que tenho certeza que fez e continuará fazendo um excelente trabalho nessa equipe de escritores, hehe.

    Aguardo ansiosa pela continuação 😉

  9. Laís Says:

    Tá, tudo bem, cheguei um pouco atrasada, mas cheguei. Carambolas… Que legal, estou adorando.
    É tão bom saber que em tempos de merdenhas tem gente fazendo da internet um meio para levar coisas positivas, interessantes, e de extrema qualidade, aos internautas. Estou adorando, parabéns.

  10. Evellyn Says:

    Andrades,Parabéns!!
    Bem,não posso dizer que sempre assisti as séries de tV e que sei td sobre elas,mas influenciada pelo meu amigo Filipe,um dos Andrades,comecei a assistí-las e me apaixonei completamente.
    Adorei o capítulo! Deu para entender perfeitamente o perfil de cada personagem,os mistérios que os envolvem,simplesmente perfeito!
    Quero muito ler o próximo capítulo!
    Ah…Lipe,acho que “Em Família” virou mais um vício!
    Parabéns!!

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