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Nos episódios anteriores: Tomás descobre que Lucas é o promotor do caso do acidente de Vitória. Carol está preocupada com a sua volta para São Paulo e com sua relação com Larissa. Sara e Fernando andam distantes e magoados demais um com o outro. Sérgio e Carlos tiveram pequenas desavenças. Nora começa a deixar sua inspiração fluir e escreve alguns textos. Júnior vai para reabilitação. Rebeca toma sua decisão sobre a herança.

01. INTERNA – DIA – LIVRARIA PAPIER

Sara e Tomás estavam no corredor do lado de fora da sala do presidente da Papier, e olhavam receosos um para o outro.

Tomás: Mas foi tão de repente isso…

Sara: Eu sei… Mas eles têm pressa, ou é agora ou nunca.

Tomás: Isso é o melhor a se fazer, não é?

Sara: Espero que sim. Vamos? – pergunta, e os dois entram na sala.

Na sala estavam, além de Saulo e o presidente da Papier, mais alguns funcionários do alto escalão executivo da empresa, entre eles Edízio e Samara, os responsáveis por negociar com a Andanças. O presidente aproxima-se de Sara e Tomás e cumprimenta-os.

Presidente: Bom dia, Andrades! Prontos para se juntar a família Papier?

Sara: Estamos aqui para isso, Sr. Sérvulo – responde simpática, devolvendo o cumprimento.

02. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES

[¯Rock’n’roll Razorblade, Hanson]

Alguns dias já tinham se passado desde que a Andanças fechara o contrato de fusão com a Papier.

Nora estava sentada em frente a um computador no escritório que um dia foi de Guilherme. Ela mexia em sites da internet e demonstrava estar bem impaciente com a tecnologia. De repente, ela ouve gritos de susto dos gêmeos vindo do jardim, onde a CBGB, banda de Gabriel, ensaiava.

Quando Nora chega ao jardim, Rafaela corre em direção a avó e abraça-a com força. A garota estava amedrontada. Eduardo, apesar de não parecer muito seguro, permanecia perto da banda.

Nora: O quê está acontecendo aqui?

Gabriel: Nada… – adianta-se, rindo zombeteiro.

Nora: Rafa, o quê houve? – abaixa-se e encara a neta de frente.

Rafaela: O Gabs tá nos fazendo medo – responde chorosa.

Nora lança um olhar questionador para Gabriel.

Gabriel: Ah, vó, a gente só estava tocando Sympathy for the Devil, dos Stones – responde com normalidade, fazendo os amigos darem alguns risinhos abafados.

Nora: Sua mãe e seu tio Tomás inventavam histórias de terror para assustar seus outros tios, agora você toca músicas demoníacas para assustar seus irmãos?! Por deus! – diz repreensiva, enquanto ainda tentava acalmar Rafaela.

Bruno: Podia ser pior… – fala baixo.

Bernardo: É, podia ser Black Sabbath – cita, fazendo os outros rirem.

Caio: Ou Bad Religion! – os quatro divertiam-se com aquilo.

Gabriel: A gente devia era tocar Raul! “O diabo é o pai do rock…” – cantarola a última frase.

Nora: Engraçadinhos! – repreende-os mais uma vez – Olha, eu aceitei que vocês ensaiassem aqui em casa, mas sem zona.

Gabriel: Vó, a senhora fica engraçada falando “zona” – ri, e os amigos riem junto.

Nora: Ok, Gabriel, hoje você tá piadista, entendi… – ironiza –Vou levar seus irmãos lá para dentro. Comportem-se.

Eduardo: Eu quero ficar.

Nora: Mesmo, Dudu? – pergunta gentil.

Eduardo balança positivamente a cabeça.

Bruno: Dudu é do rock! Bate, mestrinho! – levanta a mão para o menino bater.

Nora avalia por uns instantes a situação.

Nora: Tá bom… Mas nada de vocês infernizarem o menino, ok? – avisa séria – Vamos, Rafa – sai caminhando de volta para casa.

Gabriel: Espera, vó, quero falar um lance com a senhora – diz levantado-se do banquinho da bateria e acompanha a avó e a irmã.

03. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

Nora: Diga. – fala pro neto quando eles chegam ao escritório.

Gabriel: Eu meio que estava precisando de sua ajuda…

Nora: E como eu poderia “meio” que te ajudar?

Gabriel: Eu queria que a senhora me ajudasse a convocar e fazer todos irem à festa da escola que a gente vai tocar – diz um pouco sem jeito.

Nora: Por todos, você quer dizer seus tios?

Gabriel: Exato!

Nora: Ah, boa sorte com isso, então. Nunca vi seres mais anti eventos familiares.

Gabriel: Mas não é bem um evento familiar…

Nora: É a festa da escola de vocês, seus pais vão, eu vou. Pronto, isso já faz do evento familiar.

Gabriel: Certo, mas a senhora vai me ajudar nessa missão impossível, né? Eu faço o que a senhora quiser! – implora.

Nora pensa por uns instantes.

Nora: Tá bom. Para começar, me prometa não tocar essas músicas infernais na festa.

Gabriel: Ok, feito! Qual será nossa estratégia de convocação? Alguma chantagem emocional? – anima-se.

Nora: Calma aí! Ainda não acabei minhas reivindicações. Acho que você pode me ajudar em uma coisa – diz sentando-se e ligando a tela do computador – Eu quero fazer um blog.

Gabriel: Um blog? A senhora? – incrédulo.

Nora: Sim, eu – responde insatisfeita – Eu tenho alguns textos que queria publicar, daí vi uma reportagem que falava desses tais de blogs e você mexendo no seu… Mas assim, eu quero ter um pseudônimo. Você sabe fazer isso?

Gabriel: Claro, né, vó! – fala em tom de obviedade – Deixa comigo – senta-se ao lado de Nora, e vira a tela e o teclado para si.

Nora: Mas antes do senhor começar, – segura as mãos de Gabriel, impedindo que ele continue a digitar – tem que me prometer que não vai contar pra ninguém! Principalmente para os seus consangüíneos!

Gabriel: Já é!

04. INTERNA – DIA – SEDE JORNAL ÁGORA NO RIO DE JANEIRO / ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO RIO DE JANEIRO

Carol estava no Jornal apenas para participar de uma reunião. Desde que seu editor de São Paulo lhe dera alguns dias de folga, ela só ia à redação para algumas reuniões de pauta. Ela olhou para o relógio da sua mesa e resolveu fazer uma ligação. Roberto, distraído, atende ao telefonema caminhando pelos corredores da Assembléia Legislativa.

Roberto: Olá Carol – fala um tanto quanto afobado e formal.

Carol: Oie! Estou ligando para saber quais são seus planos para hoje à noite? – diz sedutora.

Roberto: Fazer as malas… – fala para Carol, em seguida tampa o bocal do celular e diz para um homem que cruzou seu caminho: – Henrique, o projeto já está revisado? Vou precisar dele urgentemente… Faça algumas cópias e peça para Karen enviar para minha casa até hoje à noite. – o homem faz sinal de positivo, e Roberto entra no seu escritório.

Carol: Malas? Pra quê?

Roberto: Viajo amanhã cedo. Reunião do partido em Brasília. Soube agora… – senta-se e começa a procurar por algo na sua mesa.

Carol: Nossa, você não pára mesmo, hein! Pensei que tivesse uma folga depois das eleições…

Roberto: Como você bem sabe, elas não terminaram muito bem pro meu lado… É preciso avaliar a situação.

Carol: Sim, claro. Você volta quando?

Roberto: Não sei, devo ficar mais um dia, tenho alguns negócios pendentes por lá e quero visitar um amigo também – ele falava enquanto lia e separava alguns papéis em sua mesa.

Carol: Que amigo?

Roberto: O Marcos, irmão da Mariana – fala ainda distraído com os documentos em sua mão.

Carol: Mariana, a mãe da Larissa?

Roberto: A própria… Por falar nisso, você ainda quer me dizer mais alguma coisa? Tenho que ligar para Lílian para saber se ela pode ficar com Lissa esses dias.

Carol: Não, tudo bem… Boa viagem.

Roberto: Obrigado… Te ligo depois, ok? Beijos! – despede-se rapidamente e desliga o telefone antes de Carol responder.

Carol olha incrédula e injuriada para o telefone e joga-o com força na mesa.

Débora: E aí, Carolzita, já sabe quando vai voltar para Sampa? – uma serelepe estagiária pergunta, sentando-se, folgadamente, na mesa de Carol, que respira fundo e revira os olhos impaciente.

Carol: Estou trabalhando nisso… E você? Terminou seus clippings?! – pergunta irônica e com um ar superior.

05. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES / ANDANÇAS / ESCRITÓRIO BARBOSA & LIMA / RUA DO RIO DE JANEIRO

Gabriel: Não entendi, vó, porque você quer ligar para todos eles ao mesmo tempo? Sempre ouvi dizer que a estratégia de guerra era “dividir para conquistar”.

Nora: Mas nós vamos dividir! Se ligarmos para cada um separadamente, entre uma ligação e outra, eles se comunicam, se articulam e armam um jeito de escaparem. Não podemos deixar espaços para isso. Temos que encurralá-los. Vai por mim. – Gabriel acata balançando a cabeça – Você liga do seu celular para a Carol, porque ela geralmente ignora minhas ligações. Liga pro Carlos também, e os coloca em conferência… Não sei fazer isso… Eu ligo pro Tomás. Daí colocamos eles no viva-voz, certo?

Gabriel: Certo – responde fazendo sinal de sentinela.

Nora: Rafa e Dudu, já sabem o que fazer, né? Prestem atenção ao meu sinal – diz estalando os dedos.

Os gêmeos balançam a cabeça positivamente e entusiasmados.

Nora: Um, dois, três e já!

Gabriel disca um número, e Nora faz o mesmo. Tomás atende.

Tomás: Oi mãe! Estou ocupado agora, já…

Nora: Não, senhor. Espere um minuto aí. – coloca o celular na mesa.

Enquanto isso, Carol, afobada, pára o carro no encostamento para atender ao telefone que berrava dentro de sua bolsa.

Carol: Gabs?! – estranha a ligação – Tá tudo bem?

Gabriel: Tá sim, tia. Espera um instante – também coloca o celular na mesa, já com Carlos na outra linha.

Nora: Alô, Carlos.

Carlos: Ah, mãe, é a senhora. – lamenta.

Nora: Sim, filho, sou eu! – briga com ele – Presta atenção, você tá no viva-voz, estou aqui com seus sobrinhos e estou também na linha com a Carol e o Tomás.

Carlos: Ih, lá vem… – resmunga.

Carol: Ãh? De quem é essa voz? Mamãe também taí? Me livra dessa, Gabs!

Nora: Carol, estou lhe ouvindo!

Tomás: Alguém pode me explicar essa bagunça?

Nora: Silêncio, todos vocês, que o Gabs, o Dudu e a Rafa têm um convite para fazê-los. – faz sinal para Gabriel falar.

Gabriel: Tio Carlos, tio Tomás e tia Carol, nós gostaríamos de convidá-los para nossa festa de final de ano.

Tomás: Que festa de final de ano?

Rafaela: A da nossa escola – adianta-se.

Carol: Com crianças? – interessa-se.

Carlos: Não, antropólogos.

Carol: Esse só pode ser o chato do Carlos.

Nora: Sim, a banda do Gabriel vai tocar, e vai ser também a formatura do ABC dos gêmeos. Eles querem a presença de vocês lá.

Tomás: Pra quê?

Nora: Ora mais, Tomás, para prestigiá-los e apóia-los! Quantas vezes eu não fui ver seus jogos de vôlei?!

Carlos: Bom, eu nunca joguei vôlei, estou fora dessa…

Carol: É, mas fazia a gente assistir suas apresentações caseiras, com escova-microfone e vassoura-guitarra!

Todos riem.

Carlos: A vassoura-guitarra era da Sara, ok? E de qualquer forma, estarei ocupado demais com o trabalho – fala abusado.

Nora: Qual é seu trabalho numa sexta à noite, Carlos?

Carol: Gogoboy, no mínimo.

Carlos: Fica na tua, primeira-dama que tem medo de crianças!

Gabriel: Tia Carol, você tem medo de abraçar as crianças nos comícios?! – fala rindo.

Tomás: Como assim? Ela ainda anda fazendo campanha populista pro namorado? Não tô entendendo nada dessa conversa – reclama, já que não estava ouvindo direito o que Carlos e Carol falavam.

Carlos: Não, agora ela só tá querendo conquistar o apoio da enteada. – fala em resposta a Gabriel e quase ao mesmo tempo em que Tomás.

Nora: Carol nunca teve jeito com crianças mesmo.

Carlos: Pois é, Bruxa do 71! – implica.

Carol: Não sou nenhuma bruxa! – estava possessa de raiva.

Nora: Ok, chega. Então, todos vão à festa, certo?

Carol: Pra quê? As crianças me odeiam… – diz ressentida.

Nora: Carol, pode ser uma oportunidade de reverter isso. Você pode levar a filha do Roberto e tentar se aproximar dela.

Carol: É, pode ser… – diz pensativa.

Nora: Carlos? Tomás?

Tomás: Ah, não sei não, mãe…

Carlos: Não vai dar para mim…

Os dois começam a esquivar-se, e Nora estrala os dedos em sinal para os netos mais novos.

Rafaela: Por favor, titios! – diz chorosa.

Eduardo: Vai ser muito legal, a gente quer muito que vocês nos vejam.

Rafaela e Eduardo: Por favor, por favor, por favoooooor! – imploram.

Carlos respira fundo.

Carlos: Tá bom, tá bom, eu vou, mas não prometo ficar muito tempo.

Tomás: Ok, vou ver se dá para eu ir. Vou falar com a Vitória.

Os quatro (Nora, Gabriel e os gêmeos) comemoram em silêncio.

Gabriel: Valeu, tios!

Rafaela: A gente ama vocês!

Nora: Olhe lá, vocês três, não vão decepcionar seus sobrinhos! Eles já estão contando com isso!

Carlos, Tomás e Carol: Ok, mãe… – resignados.

Nora: Certo, agora vão, podem voltar aos seus afazeres. Amo vocês!

Nora desliga o telefone e em seguida começa a comemorar entusiasmadamente o feito com os netos.

06. INTERNA – DIA – ANDANÇAS CENTRAL / CASA DOS ANDRADES

O dia mal amanhecera, e Sara já estava trabalhando feito louca. Com a fusão eminente, havia muito o quê se fazer e organizar na Andanças, por isso ela e Tomás estavam fazendo uma força tarefa juntos na sede central da empresa.

Tomás entra na sala segurando um pequeno buquê de tulipas lilás. Sara levanta a cabeça surpresa com aquela cena.

Tomás: Me entregaram por engano, mas é para você – passa o buquê para irmã – Quem diria, nessa idade e ainda com admiradores secretos! – brinca, e Sara lê o cartão reconhecendo o remetente – Ok, nem tão secretos assim – ele conclui.


Sara: Está dando os parabéns pelo o acordo com a Papier e lamentando que não seremos colegas de trabalho, mas diz que isso pode ser bom… – revira os olhos, mas sorri de leve.

Tomás: Esse Daniel Motta é muito cara de pau… Ele sabe que você é casada, né? – Sara balança a cabeça positivamente – O que acontece que ninguém mais respeita isso – diz mostrando a sua aliança do dedo, e Sara dá de ombros, pensativa.

Sara: Já cruzou com alguém da Papier hoje? – muda de assunto.

Tomás: Brevemente… eles são… diferentes – ri de leve, Sara também.

Sara: É cedo para falar alguma coisa. E é questão de costume também. É estranho ter que trabalhar com tanta gente nova, diferentes…

Tomás: Ah, minha irmã, eles que são estranhos… Aquele Marcus Vinícius parece que anda com um colete ortopédico – diz, imitando o jeito de andar travado do homem. Sara ri.

Sara: E a Simone que não sabe argumentar sem ter que citar milhões de estáticas:“Porque 70% dos leitores isso, porque 45% das editoras aquilo”… irritante. – imita a mulher, rindo.

Tomás: Só não é pior do que as piadas dela… Sério, não tem a menor graça e às vezes são até cruéis.

Sara: É, acho que ela é do tipo de pessoa que tem que rebaixar o próximo para se sobressair.

Tomás: Como se ela precisasse de algo pra chamar a atenção pra si… – diz, fazendo gesto de que a mulher tinha peitos enormes. Os dois gargalham.

Sara: Aí, Tomás, maldade! – fala, tentando parar de rir – Mas vai, eles são competentes, e o Fred parece ser normal… e gente boa também.

Tomás: É, ele sim… Esse escapa! – ri, e faz menção de sair da sala, mas volta – Diga pro Nando se ele precisar de reforços para dar uma lição nesse Daniel, pode contar comigo – diz, apontando para o buquê e, em seguida, sai da sala piscando para irmã, que lhe sorri.

Sara imediatamente pega o telefone e disca um número

Carol: Oi Sara.

Sara: Carol, preciso falar algo com você.

Carol: Fofoca já tão cedo?

Sara: Não, não é isso… – pausa – Mana… – começa a fazer manha.

Carol: O que você quer, Sara?

Sara: Vai fazer algo essa noite?

Carol: Bem que eu queria…

Sara: Ótimo! Você pode ficar com os meninos, então? Estou precisando ficar a sós com o Fernando, e a mamãe já teve que agüenta-los a semana toda. Se você puder ajudar, não quero deixá-los sozinhos…

Carol: Ok, mas fique ciente que ontem sua mãe me acusou de não ter jeito com crianças.

Sara: Estou ciente disso, mas vou correr o risco – brinca.

07. INTERNA – DIA – RESTAURANTE LE PETIT MARCEAU

[¯Quase Um Segundo, Cazuza]

Carlos e Sérgio almoçavam juntos num canto reservado do restaurante, onde Sérgio trabalhava como barman.

Carlos: Se for querer sair sexta à noite, tem que ser depois das dez, fui intimado para festa da escola dos meus sobrinhos.

Sérgio: Tudo bem, não ia poder sair mesmo, e nem nas próximas muitas noites – fala não escondendo um sorriso.

Carlos: Por quê? – estranha.

Sérgio: Fui promovido a Chef!

Carlos: Sério? Você conseguiu! Parabéns!

Sérgio: Bom, serão três meses de experiência, daí se eu me sair bem, eles me contratam. Vou fazer o que tanto quero há tempos e ainda vou ganhar muito bem! Acho que melhor do que você… Serei o homem do relacionamento – brinca.

Carlos: Um chef de cozinha ganhando mais que um advogado? Interessante… – diz em tom de brincadeira, mas arrogante.

Sérgio: Você se surpreenderia com o mundo da culinária se você o conhecesse melhor. – diz ressentido.

Carlos: Não, obrigado – continua em tom de gozação.

Sérgio: Claro, para você eu não passo de um cara que gosta de cozinhar.

Carlos: Ué, é isso que você é, né? Cozinheiro.

Sérgio: Carlos, eu sou um chef de cozinha – chateado.

Carlos: E o que eu disse?

Sérgio respira fundo.

Sérgio: Você tá sendo arrogante. Advogado não é profissão mais importante do mundo.

Carlos: Bom, é mais do que a maioria.

Sérgio: Você tá falando sério?! Não acredito nisso! Carlos, você nem consegue ficar feliz por mim? Só porque eu consegui algo sem a sua preciosa ajuda?

Carlos: Eu estou feliz! Você é que começou com essa história de competir salário e prestígio profissional… – desdenha.

Sérgio: Só não continuo essa ingrata conversa, porque estou no meu local de trabalho e prezo muito por ele. – fala e retira-se da mesa magoado.

08. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Carol estava na sala de casa com os sobrinhos. Ela estava tentando socializar com eles.

Carol: Então, Gabs, o que uma pessoa da sua idade gosta de fazer, de conversar, hein? – pergunta fazendo cara de interessada.

Gabriel olha intrigado para tia, que mantém a postura séria.

Gabriel: Isso é sério? – pergunta rindo, enquanto ligava seu videogame na televisão.

Carol: Você não imagina o quanto… – revira os olhos – Os próximos rumos da minha vida dependem disso.

Gabriel: Nossa, que drama…

Nesse instante o celular de Carol toca, e ela se retira para atendê-lo. Enquanto isso, Gabriel liga a TV e começa a jogar Guitar Hero. Instantes depois, Carol volta com uma expressão alarmada.

Carol: A Lílian tem que ir urgentemente a uma apresentação da Luísa e pediu para Larissa passar a noite aqui – fala afobada.

Gabriel: Ok, quem é Lílian, Luísa e Larissa? Não me diga que são trigêmeas…

Carol: Lílian é a irmã do Roberto. Luísa é a namorada DJ dela. E a Larissa é a filha do Roberto.

Gabriel: Ah, certo… – assimila – Ih, deve ser a maior patricinha…

Carol: Na verdade, não – desaba no sofá, ainda tensa – Ela é assim como você… com essas coisas – aponta para o controle-guitarra que o menino segurava – Por isso eu estava te perguntando aquilo tudo.

Gabriel: Ah, agora entendo… Mesmo assim ainda não faz sentido – zoa.

Carol segura-o pelos ombros, e fala séria:

Carol: Gabriel, você vai ter que me ajudar! Essa menina tem que gostar de mim. Tenho que ser a tia mais bacana de todas, tá entendido? – Gabriel, meio assustado, faz sinal de rendido.

09. EXTERNA – NOITE – LAGOA RODRIGO DE FREITAS

[¯Cama, Mesa e Banho, Sérgio Britto]

Nora estava sentada em uma das mesas de um quiosque e aguardava alguém. Enquanto isso, ela admirava a paisagem noturna na Lagoa Rodrigo de Freitas. Instantes depois, Rebeca chega.

Rebeca: Oi, Dona Nora! – cumprimenta-a – Está aqui há muito tempo? – diz sentando-se.

Nora: Não, não muito, querida. Aqui é lindo, não? – aponta com a cabeça a lagoa, e Rebeca concorda – Só não sei por que você não foi lá em casa. Sabe que é bem-vinda.

Rebeca: Pela senhora sim, mas eu ainda me sinto desconfortável… Desculpa…

Nora: Tudo bem, eles são mesmo difíceis. Mas sobre o quê você queria conversar?

Rebeca respira fundo.

Rebeca: Hum, isso é complicado… – insegura.

Nora: Apenas fale.

Rebeca: Eu… Eu resolvi entrar como herdeira no processo do Guilherme.

Nora: Bom, bom, é um direito seu… Você é filha do Guilherme, assim como os meus cinco – abre um breve sorriso – Mas talvez você herde mais dívidas do que qualquer coisa – ri, e Rebeca fita-a surpresa – A Andanças estava com dificuldades, mas isso já está sendo resolvido. Não se preocupe, estava brincando.

Rebeca: Tem outra coisa que acho que a senhora deveria saber.

Nora: Aproveite o ensejo… – encoraja-a a continuar.

Rebeca: Minha mãe, antes mesmo de eu decidir virar herdeira, consultou alguns advogados, mas quero deixar claro que eu não tenho nada a ver com isso e, por minha vontade, nada que eu receber vai para ela. Nada! Ela não merece!

Nora reflete uns instantes, absorvendo a notícia.

Nora: Rebeca, ela é sua mãe… Não importa os erros dela no passado, ela é sua mãe. Pelo o pouco que sei, ela sempre buscou o melhor para você, mesmo por vias duvidosas, mas mesmo assim, sempre tentando te proteger…

Rebeca: Não sei como depois de tudo a senhora ainda consegue falar dela assim.

Nora: Talvez eu já tenha acumulado raiva e rancor demais durante todos esses meus anos. Não preciso de mais.

10. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Larissa já estava interagindo muito bem com o Gabriel, e os dois jogavam animadamente Guitar Hero. E apesar da garota estar um pouco desconfortável, Carol estava nitidamente bem mais. Carol, então, olha fixamente para Gabriel, e aproxima-se dos dois.

Carol: A próxima sou eu, hein! – fala animada.

Gabriel: E desde quando a senhora joga videogame? – diverte-se.

Carol: Primeiro, senhora está no céu… E pára com isso, Gabs! Eu adoro esses seus joguinhos – fala tentando parecer simpática, e bate de leve na perna do sobrinho, que entende o recado.

Gabriel: Ah, é porque esse, particularmente, é pouco mais complicado.

Larissa: Deixa ela tentar, Gabriel… – fala com um sorriso suspeito.

Gabriel dá de ombros, e passa o controle-guitarra para tia, que o segura sem jeito, revelando sua total falta de experiência com o objeto.

Gabriel: Tia, vou escolher uma fácil para você.. Que tal Ramones? I Wanna Be Sedated? – sugere.

Carol: Sedated? Dopada? Não, de jeito nenhum – fala veemente – Quero essa: Sweet Child O’ Mine – aponta a música na tela.

Larissa: Guns? Sério?

Carol: Por quê? Você quer outra?

Larrissa: Não… pra mim tá ótimo.

Gabriel: Tia, quer que eu te explique algo? – pergunta baixinho.

Carol: Não, não precisa!! – fala veemente.

Gabriel levanta as mãos, rendido, retirando-se do meio das duas. A música começa, e Carol logo se atrapalha com os botões, tocando a guitarra do lado errado. Gabriel vai lá e desvira, mas mesmo assim não foi de grande ajuda, já que quanto mais a música rolava, mais nervosa e desorientada Carol ficava, tocando tudo errado. Larissa, por sua vez, manejava com maestria o controle-guitarra. Carol, então, tentou apelar para a performance corporal, fazendo caras e bocas, na tentativa de posar como guitarrista.

Gabriel: Oh, oh, sweet child o’ mine. Oh, oh sweet love o’ mine, where do we go? Where do we go now? – Gabriel cantarolava a música, enquanto tentava disfarçar que estava rindo das poses da tia.

Nora chega em casa e não consegue acreditar no que vê.

Nora: Carol, minha filha, você chegou ao seu limite! – ri.

Carol: Mãe!! – assusta-se, e tenta esconder o controle-guitarra.

Nora: Vejo que a veia musical da família passou longe da senhorita – continua se divertido com a situação da filha. Larissa ri, e Carol senta-se desanimada no sofá, desistindo da brincadeira. – Quem essa menininha linda? – Nora pergunta referindo-se a Larissa.

Larissa: Larissa. Sou filha do Roberto. – apresenta-se educadamente.

Nora: Prazer, querida. Você já jantou? – Larissa balança a cabeça negativamente – Carol, não acredito que você vai deixar a menina passar fome!

Carol: Eu… Eu não sabia… Vou… vou preparar algo para você.

Nora: De jeito nenhum que eu deixarei você fazer isso.

Larissa, Gabriel, Eduardo e Rafaela riem.

Carol: Mãe! Eu sou plenamente capaz de preparar um lanche.

Nora: É, talvez o seu talento para cozinha esteja melhor do que o seu para música, mas deixe pelo menos eu ajudá-la. Para garantir – fala e pisca para Larissa.

Carol deixa a sala bufando em direção a cozinha, e Nora acompanha.

Larissa: A avó de vocês é engraçada… Não mais que sua tia, claro – brinca.

Rafaela: Se a tia Carol casar com o pai dela, nós seremos primos? – pergunta a Gabriel, e Larissa sente-se desconfortável com aquilo.

Gabriel: É… tecnicamente. – responde vago para não estender o assunto.

11. INTERNA – NOITE – BOATE VENTO NOTURNO

[¯Sail Away, The Rasmus]

Sara estaciona o carro em frente à grande boate que ficava na avenida da Praia do Flamengo. Fernando estava tocando por lá todas as terças e quintas-feiras, portanto, ela resolveu, mais uma vez, lhe fazer uma surpresa e assistir a sua apresentação naquela noite de quinta.

Ela entra no recinto e constata feliz que o show ainda não havia começado, então, ela vai procurar Fernando. Ao chegar à porta que dava para o backstage, ela o vê parado no corredor conversando com uma moça. Ao dar mais alguns passos, Sara pára e percebe o quão próximo os dois estão. Fernando estava de costas para Sara e falava quase no ouvido da moça, que em resposta lhe lançava alguns risinhos. Quando Fernando tira um fio de cabelo do rosto da moça e coloca-o atrás de sua orelha, Sara dá um passo firme para frente, como se fosse correr na direção dos dois, mas depois respira fundo e recua, no entanto, continua olhando fixo para aquela cena. Alguns homens se aproximam, e Fernando cumprimenta-os animado e, em seguida, abre uma porta, dando passagem para que todos entrassem, entrando também logo depois. Sara resolve sair dali.

12. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES

As crianças riam de algo, mas todos ficaram em silêncio quando Carol chegou à sala com algumas guloseimas, deixando-a intrigada. A campainha da casa toca, e Carol sai correndo para atendê-la. No outro lado da porta está uma nervosa Lílian.

Lílian: Oi, Carol.

Carol: Ué, já voltou? Pensei que a Larissa fosse dormir aqui.

Lílian: Mudanças de planos – Carol ainda olha sem entendê-la – Briguei com a Luísa, saí antes mesmo da festa começar – explica.

Carol: Ah, ok, entra. Ela tá ali…Você tá bem? – Lílian dá de ombros, e Carol continua a falar compulsivamente: – Olha, eu queria ver contigo, se a Larissa pode ir amanhã à festa dos meus… – é interrompida por um barulho de freio de um carro que estacionava em frente a casa – Sara?! Você também? Ok, a mãe ligou para vocês dizendo algo?! – fala cruzando os braços, e Sara sai do carro, tentando se recompor.

Sara: Não, só a noite que não tá como eu queria…

Carol: Você brigou com o Nando?

Sara: Não exatamente… – respira fundo – Mas não estou querendo falar disso agora… Meus filhos ainda estão vivos e sãos? – tenta descontrair.

Carol em resposta lhe lança um olhar descontente, abrindo passagem para irmã entrar.

13. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA

[¯Moment of Surrender, U2]

Ao chegar em casa, Sara deixa os filhos na sala ainda intrigados com aquela atitude de supetão da mãe e dirige-se até a cozinha. Lá ela encontra uma pizza que tinha deixado pronta para pôr no forno para que ela e Fernando comessem naquela noite. Olha-a com tristeza e, quando vai guardá-la, Eduardo chega.

Eduardo: Huummm, pizza!!! – comemora – De que é? – pergunta entusiasmado, e o próprio verifica: – Franco catupiry, a preferida do papai… A gente vai ter que esperar por ele? – fala perdendo um pouco do ânimo.

Gabriel e Rafaela chegam à cozinha, e também ficam na expectativa da pizza.

Sara: Definitivamente não. Mas vocês não vão comê-la hoje. – olha para os filhos, que nesse momento fazem cara de desolados, e sorri de leve – Mas vocês podem dormir com a mamãe hoje – os gêmeos comemoram – Você também, Gabs… A gente coloca um colchão no guarto e...

Gabriel: Ah, não, mãe… Pra quê?

Sara: Por favor, só hoje.

Gabriel: E o papai?

Sara: Não sei dele… mas quando e se ele chegar, pode dormir no seu quarto ou no sofá. – fala, desviando o olhar do filho.

Gabriel estranha aquele comportamento da mãe, mas concorda. Sara termina a noite na sua cama com os dois filhos mais novos ao seu redor. Ela estava abraçada por Eduardo e segurava a mão de Rafaela. Gabriel dormia no colchão ao lado da cama.

14. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO / SALA

[¯Mamãe Disse… Papai Disse…, Paulo Miklos]

Nora estava passando para o computador os textos que já havia escrito a mão e, tentando seguir as instruções de Gabriel, volta e meia ela maldizia o aparelho a sua frente. Essa briga entre ela e computador durou até a campainha da casa soar. Ela, então, larga os papéis e vai correndo atender a porta. Quando chega lá, abre-a, mas não encontra ninguém. Quando se vira, dá de cara com Júnior. Nora grita assustada.

Nora: Menino, pela graça! Quer me matar do coração?! – diz ainda afobada e dando tapinhas no ombro do filho. Júnior apenas ri – O que você tá fazendo aqui? – pergunta preocupada.

Júnior: Soube que vai ter um evento familiar sem álcool. Essa eu não poderia perder! – responde ainda rindo.

Nora: Você fugiu da clínica?! – alarmada.

Júnior: Não, mãe, claro que não! Eles me liberaram esse final de semana. Sara tá como minha responsável.

Nora: Já vi que o Gabs tá mesmo empenhado que toda a família veja sua performance musical.

Júnior: Acho que minha presença era essencial, né? Fui eu que o apresentei à bateria. Se dependesse do Nando, teríamos mais um guitarrista… Júnior cala-se diante do olhar fixo e avaliador da mãe em sua pessoa. – Mãe? Tá tudo bem?

Nora: Você tá pálido! Mas parece tão melhor, meu filho! – diz sorrindo satisfeita e, em seguida, abraça-o – Só não deve tá comendo direito…

Júnior: Mãe, tá louca? Eu até engordei, lembra?! – fala rindo.

Nora: Não, senhor. Vamos, eu preparo seu almoço.

Júnior: Mas eu já… – Nora lhe lança um olhar intimidador, e Júnior não termina a frase – Ok, vamos lá. Estou mesmo com saudades do seu tempero.

15. INTERNA – DIA – SALÃO DE BELEZA

Diva estava arrumando o cabelo para a festa de logo mais. Enquanto esperava a sua vez, ela engatou uma conversa com um senhor mais ou menos da sua idade, que também esperava ser atendido.

Heitor: Desculpe a indelicadeza, mas a senhora é casada? – pergunta após um tempo que eles já conversavam sobre banalidades cotidianas.

Diva: Não, sou viúva. Há 26 anos. E o senhor?

Heitor: Casado há quase 60 anos, viúvo há 4… Você deve sentir muita falta do seu esposo.

Diva: Sim, meu marido era muito bom para mim. Já meu genro deixou a família em dívidas.

Heitor: Que absurdo! E como sua filha está?

Diva: Ela tá indo bem, eu acho. Ela é muito fechada… Meus netos e meu filho mais novo tomam contam do negócio falido que o marido dela deixou. Estão fazendo o bom trabalho, diante das condições. E as crianças são até competentes… Também com todo dinheiro que foi gasto na educação deles!

Heitor: Educação é fundamental.

Diva: Com certeza!

Heitor: A senhora é formada?

Diva: Não, meus pais não me deixaram continuar os estudos. Minha mãe dizia que faculdade masculinizava a mulher.

Heitor: Mas o que nos forma é o tempo, não concorda?

Diva: Sem dúvidas, sem dúvidas… Mas hoje as coisas são diferentes também. Todas as minhas netas são muito bem formadas. A que toma conta do negócio da família é formada em Administração. E a outra é jornalista e até já apareceu na TV!

Heitor: Que bom, que bom… Tenho uma neta que tá estudando Direito.

Diva: Direito? Meu neto Carlos é um advogado bem-sucedido. Tenho muito orgulho dele… Mas essa sua neta tem quantos anos?

17. INTERNA – NOITE – COLÉGIO – PÁTIO

A festa de final de ano da escola dos filhos de Sara tinha como tema os Anos 70, por isso todo o pátio estava decorado com motivos hippie, enquanto a quadra esportiva, onde ficava o palco para as apresentações, exibia uma decoração estilo discoteca.

Naquele momento, perto da mesa de bebidas, Carol estava apresentando Larissa e Lílian a Carlos e Sara quando Gabriel aproximou-se deles.

Gabriel: Oi pessoas – cumprimenta rapidamente – Mãe, o papai ainda não chegou? – diz um pouco apreensivo.

Sara: Não… Mas deve tá a caminho – tenta passar confiança ao filho.

Gabriel: Já, já é a vez da Rafa e do Dudu… E eu agora tenho que ir ajeitar os últimos detalhes do som…

Sara: Certo, filho. Vai lá – beija o alto da cabeça de Gabriel, que se esquiva envergonhado do carinho explicito da mãe. Sara ri e acrescenta: – Leva a Larissa para conhecer o pessoal… – sugere a ele.

Gabriel: Você quer ir? – pergunta com certa expectativa.

Larissa dá de ombros, olhando para Carol e depois olha para tia esperando uma aprovação. Lílian concorda com a cabeça, e Larissa sai seguindo Gabriel. Carol acompanha os dois com os olhos, distraindo-se da conversa dos outros três, e volta e meia, conferia seu celular.

Carlos: E onde tá o Nando?

Sara: Não quero nem imaginar…

Carlos: Vocês brigaram de novo?

Sara: Antes fosse… A gente não se dá mais nem o trabalho disso. Até porque agora ele mal pára em casa. Eu bem que tento conversar, mas… – dá de ombros, triste.

Carlos: Sérgio também tá evitando meus telefonemas…

Sara e Carlos olham-se cúmplice e falam ao mesmo tempo:

Sara e Carlos: Homens! – balançando a cabeça reprovativamente e bebendo seus refrigerantes, fazendo cara de nojo em seguida.

Carol: Preciso fazer uma ligação – fala mais para si, e retira-se sem se despedir dos demais, que a olham sem entender.

Lílian: Bom, mulheres também não são fáceis… Eu que o diga. A Luísa, minha namorada, está infantilmente me evitando desde ontem – diz retomando o assunto anterior.

Sara: Pelo menos vocês não são casados, ainda há tempo para se salvarem – fala tentando fazer uma brincadeira, mas a frase acaba saindo num tom bem ressentido. Carlos e Lílian percebem, e o clima fica tenso. – Bom, vou dar uma olhada nos meus pequenos, aguardo vocês lá no palco – diz encontrando uma desculpa para se retirar.

18. INTERNA – NOITE – POSTO DE GASOLINA

Tomás e Vitória, a caminho da festa, param em um posto de gasolina. Enquanto reabasteciam o carro, davam continuidade a uma discussão.

Tomás: Não tem pra quê você voltar a trabalhar agora.

Vitória: Ah, você quer que eu seja uma inútil trancada em casa sob sua vigília?!

Tomás: Não é isso… – fica perturbado – Só acho que você precisa de mais um tempo pra se recuperar…

Lucas: Olá! – Lucas chega de repente no lado do carro onde Vitória estava sentada – Estava abastecendo do outro lado… – aponta pro local onde estava seu carro – quando vi vocês. Como você tá, Vi?

Vitória: Tentando convencer o cabeça-dura do meu marido… – chateada.

Tomás: Vitória – repreende.

Lucas: Tomás – fala encarando-o – Você ultimamente anda muito em postos de gasolinas, não é?

Vitória: Como assim? – encara Tomás que encara Lucas.

Lucas: Você deveria saber que eu saberia se você tentasse se envolver no caso – continua falando para Tomás, que aparenta está ficando cada vez mais perturbado – Você não pode sair por todos os postos da região em busca de um motorista embriagado. Interrogatório é trabalho da polícia – diz firme, e Tomás fica calado, mas possesso de raiva.

Vitória: E como você sabe disso, Lucas? – Vitória estava sem entender.

Lucas: Tomás não lhe disse que eu sou o promotor do caso do seu acidente?

Vitória olha incrédula para Tomás.

19. INTERNA – NOITE – COLÉGIO – PÁTIO

Carlos e Lílian tentavam engatar uma conversa em frente à mesa de bebidas. Ela com uma diet coke e ele com um guaraná diet. Ela está claramente impaciente com um falante Carlos. Ele lhe oferece um pastelzinho de carne.

Lílian: Não, obrigada. Sou vegetariana. – Carlos a olha intrigado.

Carlos: Então, como eu estava dizendo, veja bem meu ponto: quando foi que os costureiros viraram estilistas e os cozinheiros, chefs?! É tudo apenas uma questão de semântica, não é mesmo?

Lílian: Claro que não. – responde impaciente – Não são simplesmente novos nomes mais bonitinhos para antigas profissões. É uma transformação cultural, social e econômica. Moda e gastronomia estão super em voga hoje em dia. Nunca ouviu falar do famoso e rico chef Jaime Oliver?

Carlos não reconhece aquele nome e fica perturbado.

Carlos: E o que você sabe? Você não é vegetariana?! – ironiza.

Lílian: Isso não limita meus conhecimentos gastronômicos, pelo contrário, abre um novo leque de possibilidades.

Carlos: Sei, claaaaro – irônico – Aliás, me esclareça uma coisa: Por que restaurantes vegetarianos não têm café? E chocolate? Cacau é carne?! – Lílian o fita incrédula – E batata frita?! Até onde sei, batata é legume!

Lílian: Carol tem razão, você é um pé no saco.

Carlos: É, e sua namorada tem toda razão também…

Lílian: Você nem sabe o que aconteceu…

Carlos: Provavelmente você queria que ela agisse de uma maneira que ela não sabe ou pode agir. É sempre assim… E ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei.

Lílian: Ãh? Por acaso tem álcool nesse seu copo? – diz aproximando seu rosto da bebida de Carlos, que impacientemente a puxa para si.

Diva: Ah, Carlinhos, aí está você! – ela chega acompanhada de uma moça, e Carlos arregala os olhos ao ver que é Pâmela – Quem é você? Veio com Carlos? – Diva pergunta indelicadamente a Lílian.

Lílian: Não!! Aí, não! – responde enfática e olhando repulsiva para Carlos. Em seguida, retira-se de fininho.

Diva: Ótimo… Carlos, deixa eu te apresentar a…

Carlos: Pâmela… – completa desanimado.

Diva: Vocês já se conhecem? – surpresa.

Pâmela: Demais, Dona Diva! Somos vizinhos, né, Carlinhos? – sorri sensual, e Carlos revira os olhos, não acreditando naquela coincidência.

20. INTERNA – NOITE – COLÉGIO – QUADRA

Nora avista o irmão Saulo e vai até ele.

Nora: Se você está aqui quer dizer que a mamãe também está? – fala enquanto cumprimenta-o.

Saulo: Exato. – ri enquanto Nora revira os olhos.

Nora: Júnior também está por aqui – fala abrindo um sorriso – Ele conseguiu permissão da clínica…

Saulo: Eu sei.

Nora: Você já o viu?

Saulo: Não… Rebeca me contou – Nora olha intrigada para ele – Olha, Nora, – parte para um tom mais sério e de confissão – não há maneira fácil de falar isso, então, vou falar logo: Eu e a Vera estamos juntos.

Nora: Juntos? – não entende de imediato – Namorando você quer dizer? – Saulo confirma com a cabeça, deixando Nora sem reação. – Eu… eu não acredito, Saulo. Ela era amante do Guilherme! – altera-se, mas contida, não queria chamar a atenção.

Saulo: Não foi algo planejado… Seja compreensível. – diz calmo, também para evitar chamar a atenção.

Júnior aproxima-se nesse momento, interrompendo a tensão e cumprimentando o tio.

Nora: Certo, Saulo, certo… – pausa – Só não me peça para ter que conviver com essa mulher… Com licença, que agora é a vez dos gêmeos…

Nora retira-se, e Júnior a segue sem entender direito a situação. No caminho, os dois cruzam com Tomás e Vitória. Nora não percebe o casal, e Júnior apenas acena de longe, desconfortável.

Vitória: Lucas tem razão, Tomás, você está muito obcecado.

Tomás: Não acredito que você tá do lado dele…

Vitória: Eu que não acredito que você acha que pode ir atrás dessa pessoa… – engole seco – Pode ser perigoso, Tomás.

Tomás: Olha, para o Lucas é só mais um caso, assim como para todas as outras pessoas que estão trabalhando nele… Para mim não.

Vitória: Tá, e o que você vai fazer com tudo isso? – diz impaciente, e Tomás mantém um semblante sério – Está pensando em fazer justiça com as próprias mãos? – fala irônica, mas preocupada.

Tomás fica surpreso e toma aquelas palavras como ofensa, mas não sabe o que responder.

Tomás: Não fale besteira… – responde inseguro – Vamos, tá na hora – diz empurrando a cadeira de Vitória em direção ao palco.

No palco, uma professora vai até a frente e começa a chamar os nomes dos “Doutores do ABC”, numa espécie cerimônia de formatura simbólica dos estudantes da primeira série, antiga alfabetização, turma da qual faziam parte Eduardo e Rafaela. Na platéia, os Andrades não conseguiam esconder suas insatisfações.

Professora: Eduardo Andrade Viana – ela anuncia, e o menino sobe ao palco para receber o diploma. Ele estava de beca vermelha, com detalhes em branco com o nome “ABC” escrito, e acenou para família, um pouco envergonhado.

Sara emociona-se com a cena, e acena de volta para o filho, orgulhosa. Nora, ao seu lado, sorri para filha. Pouco depois é a vez de Rafaela, que após receber o diploma, faz a pose clássica de movimentar o cordão do chapéu.

Gabriel: Eu que ensinei isso a ela! – diz orgulhoso.

Em seguida, Rafaela segue para tribuna para ler seu discurso, já que tinha sido escolhida como oradora da turma.

Rafaela: (…) Aprendendo a juntar letras, descobrimos um novo mundo. Formando palavras podemos imaginar e criar novos mundos (…) – a menina lia pausadamente.

Sara fixa seus olhos na filha, orgulhosa e comovida. Os demais Andrades também esquecem um pouco de seus próprios problemas e prestam mais atenção na cerimônia. Júnior filmava tudo, enquanto Gabriel tirava fotos dos irmãos.

Rafaela: Por tudo isso, queremos agradecer o apoio e os ensinamentos de nossos professores, amigos, colegas, pais e familiares. Obrigada – Rafaela olha sorrindo em direção da família, mas se entristece quando nota a ausência do pai. Sara também fica com um semblante abatido, mas tenta passar confiança aos filhos.

Em seguida, os alunos se juntam, ficando lado a lado numa fileira. Recebendo os aplausos de todos, eles fazem uma referência em agradecimento. Depois os meninos vão para um lado, e as meninas para outro. Todos eles tiram as becas, ficando somente com a roupa que tinham por baixo, revelando seus figurinos no estilo dos anos 70, tema da festa. Uma música começa a tocar e eles começam a dublá-la, atuando e dançando. A música em questão era O Bom, hit da Jovem Guarda.

Meninos (cantando): Meu carro é vermelho. Não uso espelho pra me pentear. Botinha sem meia. E só na areia eu sei trabalhar…

Nora: Que bonitinhos!! – Nora e toda a família estavam encantados com a apresentação dos gêmeos.

Meninos (cantando): Quando eu apareço o comentário é geral.

Meninas (cantando): Elé é o bom, é o bom demais.

21. INTERNA – NOITE – COLÉGIO – QUADRA

Sara aguardava os dois filhos menores saírem do camarim improvisado quando Fernando chegou por trás, beijando seu pescoço. Ela se assusta um pouco, depois se esquiva, fechando a cara.

Fernando: Você é a mãe mais bonita daqui – diz estranhamente enérgico e depois de dar uma rápida olhada no local.

Sara: E você tá bêbado – fala seca.

Fernando: Ih, Sara… – esfrega as mãos nos olhos impacientemente.

Sara: Você sabe que perdeu o momento dos seus filhos, né? – diz sentida, e Fernando abaixa a cabeça – Típico – ela resmunga, entrando com tudo dentro da sala do camarim.

Fernando fica atônito, e sai andando sem direção. Acaba encontrando Gabriel, que estava atrás do palco com Larissa, Júnior e os amigos da banda. Quando Fernando chegou, Júnior tocava violão, com Caio e Bernardo observando-o atentos, Gabriel batucava na própria perna e os cinco cantavam Fuga nº 2, dos Mutantes.

Júnior, Larissa, Caio, Bruno, Gabriel e Bernardo (cantando): Hoje eu vou fugir de casa, vou levar a mala cheia de ilusão. Vou deixar alguma coisa velha esparramada toda pelo chão…

Gabriel: Pai?! – diz surpreso ao vê-lo, e vai até a ele – Você perdeu a formatura dos gêmeos… – acusa.

Fernando: Eu sei… – responde desanimado – Mutantes, hein! – tenta desviar o assunto.

Gabriel: A gente estava vendo se rola de encaixar no setlist… Foi pedido do Júnior… – pára, percebendo o semblante deprimido de Fernando – Mas não fique com inveja, nós vamos tocar a música sua e da mamãe – fala tentando animar o pai, que sorri triste.

22. INTERNA – NOITE – COLÉGIO – PÁTIO

Carlos andava afobado pelo pátio, e sempre com Pâmela na sua cola. Diva e Nora aproximam-se dos dois.

Diva: Vejo que estão se divertindo – Pâmela sorri.

Carlos: De maneira alguma.

Diva: Carlos! – repreende o neto com educação.

Pâmela: Tudo bem, Dona Diva, eu não ligo, Carlos gosta de fazer graça… – diz fazendo charme – E no mais, não há crime sem lei que o defina, não é mesmo, Dr. Carlos? – fala querendo parecer descontraída.

Carlos: Eu não sou doutor… – continua abusado.

Nora: Onde estão seus irmãos? Acho incrível como de uma hora pra outra eles somem… – tenta desviar o assunto.

Diva: Carlinhos, Pâmela te contou que pensa em se tornar juíza? – Diva insiste em aproximar os dois.

Carlos: Jura? – fala irônico e impaciente.

Diva: Sim, o avô me contou tudo sobre ela. E ela vale ouro, meu neto.

Pâmela: Ah, bondade do meu vô…

Carlos: Muita! – continua irônico.

Diva: Que é isso, Carlos?!

Carlos: Que é isso, vó? É a senhora querendo forçar uma coisa que nunca vai rolar.

Diva: Não seja grosso. A moça é um amor de pessoa, e você está sendo mal educado…

Nora: Mãe, pare com isso…

Diva: Nora, Carlos precisa parar de ser ranzinza, é por isso que está solteiro.

Carlos: Eu não estou solteiro.

Nora: Carlos – alerta.

Diva: E quem é essa sua namorada misteriosa? – provoca.

Carlos: Namorado – Diva fica surpresa, e Nora olha preocupada para Carlos – É, vó, isso mesmo, eu sou gay.

Diva: Pare com isso, menino, não tem graça… Está vendo Nora do que eu estou falando? Carlos às vezes é intratável.

Carlos: Vó, eu não estou sendo intratável, eu estou sendo sincero. Como eu já deveria ter sido há muito tempo.

Nora: Carlos, pare – ela pede preocupada com o filho.

Carlos: Não, mãe, isso já foi longe demais… Se eu não sou capaz de assumir o que eu sou e o que eu faço… – respira fundo – Eu sou gay e eu tenho um namorado, que agora deve está me odiando porque eu sempre estrago tudo.

Diva: Eu não acredito no que eu estou ouvindo… Carlos, você é um pervertido perdido?! – fala abalada.

Carlos: Eu vou embora… – diz, saindo imediatamente.

Nora: Peraí, meu filho – Nora vai atrás, mas antes lança um olhar mordaz para Diva.

Carlos: Desculpa por essa confusão, mas eu não estou agüentando mais.

Nora: Vamos conversar – ela pede.

Carlos: Mãe, tá tudo bem, eu só não consigo lidar com isso agora. Eu tenho que ir… Fique calma, certo? Não vale a briga… E obrigado por tudo. – diz beijando a testa da mãe.

Carlos sai, e Nora volta para onde estava Diva e Pâmela, sem conseguir esconder a raiva.

Nora: Lamento que a senhora tenha descoberto dessa forma, mas não tem o mínimo direito de falar assim com meu filho! – ela grita com a mãe.

Júnior: Ei, o Gabs vai tocar agora – chega comunicando e só depois nota o clima – O que tá acontecendo aqui?

Diva: Seu irmão é gay – fala ainda pasma – E sua mãe acha que isso a coisa mais normal do mundo… – acusa Nora.

Júnior: Ih… Nunca chego num bom momento – fala baixo.

Nora respira fundo e puxa Júnior pelo braço, indo em direção à quadra.

23. INTERNA – NOITE – COLÉGIO – QUADRA

A CBGB finalmente entra no palco para fechar a noite. Com Caio nos vocais e guitarra, Bruno no baixo, Gabriel na bateria e Bernado nos teclados e guitarra, eles começam a tocar, com todo vigor punk dos anos 70, a lendária Should I Stay or Should I Go, do The Clash.

Caio (cantando): Darling, you´ve got to let me know: Should I stay or should I go? If you say that you are mine, I’ll be here ‘til the end of time. So you got to let know: Should I stay or should I go?

Fernando e Sara olham um para o outro como se aquela música trouxesse para eles lembranças em comum, mas desviam os olhares rapidamente, covardes com seus próprios sentimentos.

Nora: Fico feliz que eles resolveram não exaltar nenhum demônio… – comenta ainda chateada, e Diva a olha reprovativa.

Diva: Era só que me faltava! Um neto gay e agora um bisneto satanista! – resmunga.

Nora: Eu não acredito que a senhora está colocando as duas coisas no mesmo patamar! – irrita-se, mas recompõe-se, quando sente a mão de Júnior no seu braço, pedindo para ela acalmar-se.

De repente, Gabriel faz uma virada de bateria, finalizando a música antes do previsto, e sorri animado pro pai, que, por sua vez, força um sorriso para filho em resposta.

Caio: Boa noite, galera! Nós somos a CBGB! – fala animado, e recebe aplausos – Valeu! Obrigado! – agradece – O clima anos 70 tá muito bom, mas agora vamos tocar algo mais atual… Vamos revezando, ok? – comunica e começa a soar os primeiros acordes de All Cross The World, do Silverchair.

Na platéia, todos os Andrades e agregados ainda estranhavam-se ou estavam preocupados demais com seus próprios problemas.

Júnior: Eles são bons, hein, afinados, ousados… – fala tentando parecer empolgado e para chamar a atenção da família para o palco.

Caio (cantando): All across the world. There are things we need to forget and forgive. Sometimes we have to try and shed the damage we don’t need. Oh, just shake your head. I’m wasting my time…

Gabriel, animado, aponta a baqueta na direção da família, pedindo pela empolgação deles. E cada um tenta forçar entusiasmo, embora todos estivessem tristes ou chateados com algo. Animada mesmo, só Larissa.

24. EXTERNA – NOITE – COLÉGIO – ESTACIONAMENTO

[¯Dessa Vez, Nando Reis]

Carol acompanha Lílian e Larissa na saída do colégio, descontente, ela caminhava em silêncio. Quando chegam ao estacionamento, vêem o carro de Roberto estacionado, e, em seguida, ele saindo de dentro. Larissa apressa os passos, indo praticamente saltitando em direção ao pai, e os dois abraçam-se com força.

Roberto: Nossa, que ótima recepção! – estranha a animação da filha – Senti saudades disso, minha lindinha – beija o alto da cabeça da filha.

Larissa: O senhor sabia que eu estava aqui? – pergunta desconfiada e fitando Carol de canto de olho.

Roberto: Claro! Fui te buscar, e a Luísa disse que todas as minhas garotas estavam numa festa colegial… Tive que conferir com meus próprios olhos! – brinca, e Larissa ri – Seu tio mandou alguns presentes para você, também te trouxe algo, deixei tudo na Lílian… Você quer dormir lá hoje? – pergunta piscando para ela.

Larissa: Entendi… – fala um pouco descontente. Larissa avalia a situação por uns instantes, olha para Carol e caminha em direção a Lílian. Espero que esses presentes sejam muito bons mesmo! – sorri de leve para o pai, que agradece com outra piscadela.

Lílian cumprimenta Roberto, depois sai com Larissa. Carol permanecia parada e em silêncio. Roberto aproxima-se dela devagar.

Roberto: Recebi sua mensagem na caixa postal do celular… Acho que a gente precisa conversar – fala com uma expressão séria.

25. INTERNA – NOITE – RESTAURANTE LE PETIT MARCEAU

[¯Quase Um Segundo, Cazuza]

Carlos chega ao restaurante procurando por Sérgio, que ao ser avisado da presença do namorado, vai até ele e arrasta-o para o corredor da cozinha. Lá, Sérgio lança-lhe um olhar irritado e questionador.

Carlos: Eu não estou bêbado. Só se for de guaraná diet. – ri nervoso.

Sérgio: E o que você tá fazendo aqui? – continua não-receptivo.

Carlos mostra um livro de culinária do Jaime Oliver que ele mantinha escondido nas costas.

Carlos: Por favor, me diga que você ainda não tem esse – fala entregando o livro a Sérgio, que apenas olha-o, mas não o pega, e encara Carlos sério – Se você não entendeu, isso é um pedido de desculpas – Carlos esclarece o óbvio, meio sem jeito.

Sérgio: Você não pode sempre fazer isso… – Sérgio interrompe, e Carlos fica sem entender – Isso que você faz: estraga tudo, depois vem todo fofo pedir desculpas – Sérgio explica irritado.

Carlos: Você também não pode ser assim – altera-se – É sempre tudo ou nada. Você reclama que eu sou lerdo para relacionamentos, mas você é que afoito demais – Sérgio fica sem entender – Você sempre coloca o carro na frente dos bois. A gente saiu uma vez, e na semana seguinte você já estava almoçando lá em casa. E também... – Carlos desabafa, mas é interrompido por Sérgio.

Sérgio: Há quanto tempo você tá guardando isso? Você acha que eu te pressiono? – pergunta incrédulo e chateado.

Carlos: Não, eu só não acho que eu… que nós não estamos no mesmo ritmo.

Sérgio: Ah, então você assume que tem medo de se comprometer ou que se sente coagido com a possibilidade de eu ganhar melhor que você? – sarcasticamente ácido.

Carlos: Não é nada disso! – respira fundo – Olha, eu vim aqui para gente ficar bem, não para brigarmos ainda mais.

Sérgio: Muito fácil falar… Você às vezes é tão, tão… egocêntrico e egoísta.

Carlos: Sérgio, não complica! Já não tá sendo uma noite fácil pra mim…

Sérgio: Eu tenho que trabalhar… – esquiva-se.

Carlos: Quem é que tá sendo egoísta agora? – Sérgio lhe mostra o avental em sinal de que estava falando sério quanto o trabalhar – Ok, esse não é o melhor momento para isso – Carlos conclui.

Sérgio: Não, não é… E ajudaria muito se você entendesse e respeitasse isso. Você também não ia querer que eu chegasse assim no seu escritório.

Carlos: É, tem razão… Eu sou sempre o culpado – fala um pouco irônico.

Sérgio: Não, nem sempre… Temos que encontrar um equilíbrio – fala mais gentil e pegando o livro das mãos de Carlos – E obrigado, eu não tinha. – agradece sorrindo de leve, saindo em seguida. Carlos continuou abalado, mas agora estava se sentido um pouco melhor.

26. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO ROBERTO – SALA

[¯Dessa Vez, Nando Reis]

Roberto e Carol entram no apartamento. Roberto faz sinal para que Carol sente-se no sofá. Ela acata em silêncio.

Roberto: Ok, – olha para ela intrigado – o fato de você está calada desde que saímos do colégio me preocupa mais do que as coisas que você disse no recado.

Carol: Eu não sei o que dizer… – fala sem jeito e nervosa – eu não devia ter te ligado e dito tudo aquilo, não sei o que me deu… A gente não precisa falar disso… Não vamos falar disso! – fala freneticamente.

Roberto: Não, uma hora a gente teria que ter essa conversa. Só não imaginei que seria nesse contexto – sorri de leve, e Carol olha para ele séria – Relaxa, Carol… – senta-se ao lado dela, segurando sua mão, esperando por alguma iniciativa dela.

Ela permanece calada e esquiva-se um pouco, tirando sua mão da dele.

Roberto: Certo, eu falo, então… Vejamos, por onde começar? – ele olha ao redor, pensativo – Sim, eu e a Mariana moramos aqui quando éramos casados, – respira fundo e encara Carol – mas você é a primeira mulher que eu trouxe para dormir aqui comigo depois que ela morreu… Você é a única que mexeu com meus sentimentos empedrados… – engole seco.

Carol parece se emocionar com aquelas palavras.

Carol: Como… como era seu relacionamento com ela? – toma coragem para perguntar, e Roberto a fita por um momento, refletindo.

Roberto: Era bom, não perfeito. A gente se amava muito, mas nos magoávamos muito também, com tempo fomos aprendendo a lidar melhor com nossas imperfeições e diferenças. Um casamento, enfim. – pára por uns instantes – Mariana era uma pessoa incrível que eu amei bastante… Ela e toda sua família foram e são muito importantes para mim, pessoalmente e profissionalmente. Seu irmão, o Marcos, foi quem me fez se apaixonar pela política e é um querido amigo e um tio incrível para Lissa… – hesita – A morte da Mariana foi um grande trauma para mim… e para a Larissa, claro. O primeiro ano foi extremamente difícil, eu me fechei, só vivi para o trabalho e para minha filha, e ela para mim. Foi a forma que encontramos para tentar superar…

Carol: Entendo… Vocês são bem próximos mesmo.

Roberto: Sim, somos… E por falar nela… A Larissa não te odeia, pelo contrário, acho que tem uma grande simpatia por você… Não é por qualquer um que ela iria a uma festa de colégio – ri, mas Carol permanece compenetrada. Vocês duas só precisam de um tempo para se conhecerem melhor. Eu não a tinha te apresentado antes, não porque achasse que você “não fosse boa o bastante para ela”, – imita a voz de Carol – mas porque achei que não estivessem preparadas. As duas – enfatiza – Lissa tem que entender que você agora é parte importante da minha vida e, portanto, também fará parte da vida dela. Às vezes pode não parecer, mas ela tem apenas 12 anos! – ri – E você, bem, não tem mais 12 anos, mas imagino que também não seja simples… Jogar Guitar Hero não é para qualquer um, eu também sou uma lástima – brinca, mas volta imediatamente a falar sério – Mas vocês podem tentar fazer coisas que as duas gostem. A Lissa é de fácil manutenção, e eu prometo tentar ajudar no que for possível nessa aproximação, eu só não sei até que ponto você quer se envolver na vida dela, é algo que não depende só da minha vontade. – pausa – Você realmente quer se envolver na vida dela?

Carol: Eu quero, Roberto. É claro que eu quero.

Roberto: Bom saber – abre um sorriso terno, depois volta a ficar sério – Já que estamos sendo sinceros aqui, às vezes é difícil adivinhar o que você sente, você se sai muito bem escondendo seus sentimentos…

Carol: Até eles explodirem na sua cara – ri nervosa.

Roberto: É, mas aí já pode ser um pouco tarde demais, abre precedentes para muitos mal entendidos. Você estava achando que eu não queria mais nada com você quando estava apenas ocupado.

Carol: Desculpa… – fala envergonhada.

Roberto: Tudo bem… Mas ainda falta o último ponto da sua mensagem: São Paulo.

Carol: Vamos deixar isso para lá…

Roberto: Carol… – repreende – Se isso tá te incomodando, você tem que falar sobre.

Carol: E o que você acha?

Roberto: O que eu acho?! Essa não é uma decisão minha…

Carol: Eu sei que não, não foi isso que eu quis dizer… Eu quero saber, do seu lado, o que você pensa sobre tudo isso, eu voltando para lá, a gente…

Roberto: Da minha parte, posso garantir que eu preferiria que você não tivesse que voltar, claro. Mas, apesar de incrivelmente surtada e direitista, ri, mas volta a ficar sério você é importante para mim, e não vai ser a ponte-aérea que vai me fazer desistir da gente.

Carol: Mas vai ser complicado…

Roberto: Eu não disse que não seria… Mas agora já era – sorri – como eu já te disse, eu te amo – fala distraído, e Carol fica paralisada com o que ouvira – O que foi? – Roberto preocupa-se.

Carol: Você nunca disse isso… – nervosa.

Roberto: Isso o quê?

Carol: Isso aí que você acabou de falar – Roberto pensa por uns instantes e, quando se toca, ri incrédulo.

Roberto: Eu te amo, Carol Andrade. Lide com isso. – Carol emociona-se e abaixa a cabeça.

Carol: Eu também te amo, Roberto Pelegrini – diz erguendo a cabeça, ainda emocionada, Roberto também se emociona.

Roberto: É bom ouvir isso… – fala sorrindo bobamente – Viu? Não foi tão difícil falar, foi? – diz alisando o rosto de Carol, e ela tenta dizer algo, mas ele interrompe – Não responda diz e beija-a. Ao final do beijo, ele completa: – Tente falar mais essas coisas, é realmente muito bom de se ouvir e de sentir que você também está tão nessa quanto eu.

Carol: Mas você sabe disso.

Roberto: Igual você sabia que “se eu estava querendo terminar com você, terminasse logo”?! – diz relembrando uma das coisas que Carol havia dito na mensagem.

Carol: Certo, vou trabalhar nisso… – rende-se.

Roberto: Obrigado… – pisca pra ela – Não fique com raiva, mas sabe uma música que sempre me lembra você?

Carol: Qual?

Roberto: Sozinho, do Caetano – reponde, e em seguida começa a cantarolar alguns versos da canção: – “Às vezes no silêncio da noite, eu fico imaginando nós dois. Eu fico aqui sonhando acordado, juntando o antes, o agora e o depois. Por que você me deixa tão solto? Por que você não cola em mim? Tô me sentindo muito sozinho!” – Carol ri com a desafinação de Roberto – “não sou nem quero ser o seu dono, é que um carinho às vezes cai bem…” – canta fazendo cara de carente. Carol entende o recado, e começa a beijá-lo e acariciá-lo, Roberto retribui enquanto continua sua serenata: – “eu tenho meus desejos e planos secretos, só abro pra você mais ninguém…”.

27. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA – QUARTO

[¯Sail Away, The Rasmus]

Sara estava fazendo a cama quando Fernando entra no quarto.

Fernando: Hum, hoje eu vou poder dormir na minha cama – comenta provocativo. Sara permanece em silêncio – Ótimo! Tratamento do silêncio – ele diz chateado.

Sara: O que você quer, Fernando? – ela diz hostil.

Fernando: Quanta delicadeza… Não quero nada não, Sara, desculpa. – sentido e irônico.

Sara: Não, o que você quer da sua vida? – continua agressiva. Fernando a fita sem entender, e ela passa para um tom mais brando – O que você tá fazendo, Ferdi? É minha culpa. Você deveria ir, descobrir o que quer.

Fernando: Ir?! Ir pra onde? Do que você está falando?

Sara: Eu estou dizendo que você não quer continuar nisso, não faz mais parte disso – gira mão ao redor do ambiente.

Fernando: Entendi… – ri incrédulo e nervoso – Por favor, né, Sara! – altera-se – Quando você vai parar de me condenar por estar fazendo o que eu gosto? O problema é a grana?!

Sara: Não é nada disso! – senta-se na cama, exausta – Eu fui ontem ao Vento Noturno, eu vi você com uma moça…

Fernando: Ah, ciúmes… – ri nervoso.

Sara respira fundo e continua.

Sara: Eu o vi. E você estava feliz… – engole seco – Aqui você está sempre infeliz, nervoso, ausente…

Fernando: E você é um poço de alegria e compreensão – ironiza.

Sara: Não, não sou. Nós não somos mais… nós. – hesita e altera o tom mais uma vez Você não vê? Eu cansei, sinceramente eu cansei de ficar dando murro em ponta de faca… Já tentamos de tudo, e eu nem sei se quero mais tentar… – Fernando fica perturbado.

Fernando: Sara, você não me ama mais?

Sara balança a cabeça incrédula.

Sara: Você não me ama mais? – devolve a pergunta.

Fernando: Por que eu estaria aqui desesperado se não te amasse?

Sara: Então, por que me pergunta isso? É claro que eu ainda te amo. Falta de amor nunca foi o problema da gente.

Fernando: Tá, e você tá sugerindo o quê? Que mesmo assim a gente se separe?!

Sara: Não sei, Fernando, não sei! – responde agoniada – Mas do jeito que está, não dá mais… Talvez a gente precise de um tempo, eu não sei…

Fernando: Tempo?! 25 anos não é suficiente pra você?! – diz nervoso e hesita, mas Sara parecia firme – Antes do Gabriel, você era a única coisa certa da minha vida… – fala terno – Por deus, Sara, você é a pessoa que mais me conhece no mundo… – fala entrando em desespero – me diga, como, como eu… – passa a mão no cabelo, sem conseguir completar e começando a chorar.

Sara puxa-o e faz com que ele também se sente na cama ao seu lado. Sara também já estava chorando

Sara: Eu te conheço. E por te conhecer tão bem, sei que você não vai suportar por muito tempo. Eu também não, você também sabe disso. E eu não quero pagar para ver… Eu não quero acabar destruindo tudo que temos… ou tivemos – Fernando balança a cabeça incrédulo, Sara hesita, mas continua – Você não tem coragem para fazer isso… Alguém tem que ter. Então que seja eu a carrasca da história.

Fernando: Não precisa ser assim…

Sara: Ferdi… – ela respira fundo, e ele engole seco, abaixando a cabeça, derrotado.

Continua…

Trilha Sonora

Cena 02 – Rock’n’roll Razorblade – Hanson

Cenas 07 e 25 – Quase Um Segundo – Cazuza

Cenas 09 – Cama, Mesa e Banho – Sérgio Britto

Cenas 11 e 27 – Sail Away – The Rasmus

Cena 13 – Moment of Surrender – U2

Cena 14 – Mamãe Disse… Papai Disse… – Paulo Miklos

Cenas 24 e 26 – Dessa Vez – Nando Reis

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4 Respostas to “Descompasso”

  1. Carine Dávalos Says:

    Sabe, terminar relacionamentos não é uma coisa muito fácil…
    Mas sim, voltando pra cá… =D
    Vizualizei toda aquela festa, perfect!!!
    Eu achei tão insana a atitude da Carol, ainda bem que o Roberto é compreensível, sorte a dela, né?!
    O Junior voltou, ou quase voltou! É bom saber que ele tá melhor…
    Tomás, Tomás… cuidado com isso, interrogatorio é coisa de polícia!
    Foi tão lindo o Carlos assumir pra avó que ele é gay… *.* Essa relação dele com o Sergio é um passo pra frente e dois pra trás.
    A Nora e seu blog… kekeke. acerteeeeeeei! =D

    Ansiosa pelo próximo!

    o/

  2. Gustavo Says:

    Salve galera.

    O ser humano é um bicho muito complicado, principalmente quando entre em cena relacionamentos…

    Carlos e Sérgio! Não sei quem é o mais cabeça dura. O Sérgio sempre vendo as coisas pelo lado negativo e fazendo pose de ser o dono da verdade. Já o Carlos, como sempre não dando uma dentro, lançando mão de ironias na hora errada. Agora, cá pra nós, nada haver essa história de eu ganhar mais do vc e eu ser o homem da casa. Se eles querem realmente ser um casal, o negócio é dividir tudo e sem essa de ficar discutindo quanto eu ganho ou deixo de ganhar.

    Sara e Fernando! Pelo visto a separação deles é fato consumado. Se for para continuar do jeito que está, é melhor cada um ir cuidar da sua vida. Se existe algum culpado? Sinceridade não sei, pois cada um contribuiu para a situação chegar ao ponto que chegou.

    Tomás e Vitória! A obsessão dele em achar o culpado pelo acidente não vai acabar bem. Se a intenção dele é achar o culpado, por quê não contrata um detetive particular? Ao menos ele não vai estar pessoalmente envolvido na busca.

    Carol e Roberto! Que surto hein. Ao menos são os únicos realmente felizes na trama.

    Bem, é isso.

    Agora é esperar o próximo.

    Bjs e abraços.

  3. Natie Says:

    Uau! Sam, arrasou mais uma vez! Parabéns… 🙂

    O ponto alto foi a festa das crianças… Adorei o fato do Gabriel ter querido reunir a familia toda e praticamente obrigando os tios todos a ir… Fiquei feliz com a volta do Junior!
    hahaha… Adorei a Carol empenhada em agradar a Larissa… Algo me diz q isso ainda renderá bons momentos!!
    Carlos e Lilian tiveram uma das melhores cenas!! A discussao deles foi demais…
    Altas revelações tbm… Saulo contando pra Nora sobre a Vera; Carlos contando a verdade pra vó… Gostei!
    Gostei da conversa final de Sara e Fernando… Não dá mais mesmo!!

    Bjusss!

  4. Laís Says:

    Fala a verdade, vocês criaram a Carol inspirados em mim né?

    * inconformada com meu atraso por aqui, rs.

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