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Nos episódios anteriores: A Andanças recebeu uma proposta de fusão com outra livraria. Vera resolveu abrir seu próprio negócio. O resultado do DNA saiu e foi constatado que Rebeca é uma Andrade. Júnior foi para uma clínica de reabilitação. Carol começa a namorar Roberto. Carlos começa um relacionamento mais sério com Sérgio. Vitória sofre um acidente, fica paraplégica e perde o filho. Sara e Fernando estão tendo problemas em seu casamento.

01. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES

Carlos e Sérgio estão sentados na sala conversando e esperando o início do debate com os candidatos à prefeitura da cidade. Gabriel, sentado no chão, termina o dever da escola e os gêmeos se divertem. Nora termina de arrumar a cozinha antes do inicio do debate, com a ajuda de Sara.

Nora: Como está seu irmão, filha?

Sara: Qual deles? – vendo o olhar sério da mãe ela se arrepende da brincadeira – Ah mamãe, sabe como é o Tomás, sempre fechado, não conversa muito.

Nora: Ele disse que viria hoje, mas ainda não chegou. Por falar nisso, cadê o Fernando?

Sara: Onde mais poderia estar? Em algum show com essa banda que ele está tocando. – ela responde com a voz cansada.

Nora: Você não está de acordo com ele voltar a tocar?

Sara: O problema não é só esse, mas ele fica fora de casa a maior parte das noites, chega tarde.

Nora: Ele está trabalhando Sara. – Vendo a cara que a filha faz ela fica preocupada – Você acha que ele está…

Sara: Não mamãe. A gente já não vinha muito bem, o bebê, ele perder o emprego, os problemas na livraria. Tudo isso causou problemas entre a gente.

Nora: Eu sinto muito. Se vocês precisarem de alguma coisa, pode contar comigo.

Sara: Vamos ver mamãe. – Ela hesita – Eu cogitei terapia de casal…

Nora: Talvez seja uma boa idéia. Você acha que o Fernando vai aceitar?

Sara: Não sei mamãe, mas a gente precisa começar a acertar nossas diferenças.

Na sala Sérgio e Carlos se divertem com as atitudes dos gêmeos quando a campainha toca. Gabriel vai atender.

Gabriel: Oi tio Tomás. Cadê a tia Vitória?

Tomás: Ela estava cansada por causa da fisioterapia e decidiu dormir mais cedo. Já começou o debate?

Gabriel: Ainda não. O tio Carlos que tem novidade. Trouxe o namorado para assistir o debate com a família.

Tomás: Verdade? Já vi que herdou o gene da fofoca dos Andrades.

Gabriel: A melhor qualidade da família, nenhum segredo está a salvo.

Os gêmeos correm para cumprimentar o tio. Nora, que vinha da cozinha, abraça o filho.

Nora: Como está tudo meu filho?

Tomás: Difícil, mas a vida segue, não é isso que você sempre disse?

Nora: É isso mesmo. Está com fome?

Tomás: Não, estou bem. Teve alguma notícia do Júnior?

Nora: Ainda não, e eu não gosto de ficar sem notícias.

Carlos: Ele está se tratando mamãe. Quando ele puder ligar, tenho certeza que será para você.

02. INTERNA – NOITE – ESTÚDIO DA TV PÓLIS

Roberto termina de se preparar para o debate. A maquiadora termina os últimos retoques na maquiagem dele. Carol entra silenciosa e dá um beijo no rosto dele.

Roberto: Não que eu esteja reclamando, mas qual o motivo desse beijo?

Carol: Para desejar boa sorte.

Roberto: Esse não valeu, quero um beijo de verdade.

Roberto puxa Carol para junto de si e os dois se beijam. Carol logo se afasta.

Carol: E se alguém entrar?

Roberto: Só entra aqui as pessoas que trabalham para mim.

Carol: Então, imagina se um dos seus assessores entra e nos encontra numa posição comprometedora.

Roberto: Por quê? Você pretendia fazer alguma coisa antes do debate?

Carol: Eu estou falando sério, Roberto.

Roberto: Eu também. – ele ri mais ainda vendo as bochechas de Carol ficarem rosadas – Tudo bem, eu já parei.

Ele abraça Carol quando Lílian e Karen entram no camarim.

Lílian: Ei, vocês dois. Já está quase na hora do debate.

Roberto: A Carol veio só me desejar boa sorte.

Carol: Isso mesmo. – ela fala embaraçada.

Karen: Eles já estão chamando para ocupar seu lugar.

Carol: Eu vou voltar pro meu lugar também. Boa sorte.

Roberto: Depois eu te dou uma entrevista exclusiva.

Carol: Eu não estou mais cobrindo sua campanha.

Roberto dá uma piscadela para ela que sorri e vai embora. Roberto pega o papéis com perguntas e anotações para serem utilizados durante o programa.

03. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Todos os reunidos para assistir o debate entre Roberto Pelegrini e Sebastião Marques estão conversando, divididos em grupos.

Gabriel: Vai começar! Vai começar! – Todos fazem silêncio e voltam sua atenção para a TV.

O intermediador do debate cumprimenta os adversários e faz a primeira pergunta, que foi sorteada dentre perguntas escritas pela platéia: Qual método os senhores usarão para combater a violência urbana? O primeiro a responder seria Roberto.

Roberto: Bom, o primordial quando se fala em violência urbana é vigilância. Acho importante potencializar as rondas policiais em pontos estratégicos da cidade, como a orla, por exemplo, e também considero fundamental que a população confie na polícia, mas para isso é necessário haver fiscalização dos policiais. Creio que isso seja a base da minha proposta de governo dentro deste assunto. – O apresentador passa a palavra a Sebastião.

Sebastião: Enquanto o senhor Pelegrini tenta maquiar a violência com fiscalização e vigia, ela acontece bem perto de nós, com foco nos morros. É por essa razão que eu defendo um melhor treinamento da polícia para que haja movimentos estratégicos nos morros problemáticos da nossa cidade. É claro que a violência também vem do asfalto, mas nele, os policiais conseguem chegar. Quem sabe agindo com eficiência nesses lugares impenetráveis, nós consigamos garantir paz aos habitantes de toda Rio de Janeiro, principalmente aos dessas regiões. – Carlos bufa de desgosto e o apresentador concede a réplica a Roberto.

Roberto: Senhor Marques, com as invasões que o senhor tanto defende; sim, porque são invasões, independentemente de como você as chame; haverá apenas mais problemas e caos para as pessoas de bem que vivem em volta. Causará apenas mais batalhas na guerra civil que já estamos vivendo.

Sara: Dá-lhe, Roberto! – Ela diz, sacudindo os braços e sendo seguida por um coro.

Tomás: Fala bem ele, né?

Depois disso, Sebastião preferiu abdicar da tréplica. Outros assuntos foram discutidos como saúde, educação e turismo. As idéias de Roberto continuaram a contradizer as de Sebastião. Nora, Carlos, Sérgio e Sara continuaram a aplaudir Roberto. Tomás também o elogiava, uma vez que seu candidato não estava concorrendo ao segundo turno das eleições.

Intermediador: A próxima pergunta é: Quais suas idéias para melhorar a tolerância à diversidade no Rio de Janeiro? Com a palavra, Sebastião Marques.

Sebastião: O meu plano de governo não inclui realmente este tema, mas creio que manterei as coisas como estão, ou até controlá-las, em prol da sociedade, que não precisa aturar certas coisas. Creio que o senhor Pelegrini tenha mais a falar sobre esse assunto, uma vez que sua irmã, Lílian, é lésbica e namora uma mulher há muito tempo.

Sérgio: O quê?

Nora: Que falta de caráter fazer isso em público!

Tomás: Ele deve estar blefando.

Carlos: Shh, vamos ouvir a resposta!

Roberto: Bom, meus planos dentro deste assunto… hmm, são… – Ele para, coloca a mão na testa e olha para o lado. Vê sua irmã saindo do auditório e Carol indo atrás dela. – Perdão. Bom, eu acredito no respeito. Considero-o importantíssimo. Logo farei o possível para que as pessoas compreendam que os grupos precisam se respeitar mutuamente. Sejam essas diferenças religiosas, sexuais, raciais, de atitude…

Sara: Coitado. Ele ficou tão abalado.

Carlos: Esse Sebastião é ridículo!

Tomás: Ele me enoja.

Depois de algumas considerações finais, o debate acabou. E todos na casa dos Andrades continuaram indignados com a atitude do adversário de Roberto.

04. INTERNA – NOITE – ESTÚDIO DA TV PÓLIS

Carol foi atrás de Lílian, ela não sabia que Lílian era homossexual e estava em um relacionamento. Ela sabia que ter sua vida privada tornada pública não era fácil. Carol encontrou Lílian sentada no sofá com a cabeça abaixada e apoiada nas mãos.

Carol: Eu sinto muito. O que houve lá dentro foi um absurdo.

Lílian: Eu estraguei a campanha do Roberto. – ela começa a chorar.

Carol: Ei, não estragou nada. Não fala isso. Se ele chegou longe foi com sua ajuda.

Lílian: E meus pais? Eles devem estar chocados.

Roberto entrou feito um raio no camarim, e encontra Lílian sendo consolada por Carol.

Carol: Uma coisa que eu aprendi é que a verdade é sempre melhor. É claro que a maneira como aconteceu não é agradável, mas quando a surpresa passar, você se sente melhor.

Roberto: A Carol tem razão, como você está?

Lílian: Péssima, nunca imaginei que eu poderia afetar sua campanha dessa forma. Acho melhor você me afastar da sua campanha.

Roberto: De jeito nenhum, você vai comigo até o final. Você é competente, excelente profissional, não tenho motivo nenhum para te demitir.

Lílian: Mas o partido não vai aceitar.

Roberto: Você trabalha pra mim e não para o partido, e eles não podem fazer nada, ou podem ser acusados por preconceito.

O celular de Lílian começa a tocar e ela olha quem é.

Lílian: É a Luísa, eu vou atender.

Lílian se afasta e Roberto senta no sofá do lado de Carol.

Carol: Como você está?

Roberto: Chocado com esse golpe baixo. Atacar minha irmã? Eu posso agüentar tudo que ele fala de mim, mas da minha família?

Carol: Política é assim. Não estou defendendo, mas já vi tanta coisa, que nem me surpreendo.

Roberto: Logo veremos se esse jogo sujo afetou ou não minha campanha.

05. EXTERNA – NOITE – CARRO DO CARLOS

Carlos e Sérgio estão dirigindo de volta para o apartamento de Carlos.

Carlos: Que coisa essa da irmã do Roberto Pelegrini, não?

Sérgio: Pois é. Achei uma falta de caráter absurda do Sebastião Marques fazer esse tipo de coisa. Espero que isso não diminua o número de eleitores do Roberto.

Carlos: Sem dúvida. Expô-la assim na mídia. Já deve ter sido ruim o suficiente ficar se escondendo por causa da candidatura do irmão.

Sérgio: É, mas mesmo fora desse esquema de pessoa pública, é complicado viver abertamente. Não sei quanto a você, que é um advogado super conceituado e bem-sucedido, – Sérgio fala brincando e Carlos lhe faz uma careta – mas no restaurante as coisas não são muito boas não. Começando pelo fato de que eu sou um barman quando deveria estar atrás do fogão…

Carlos: Hm… Adoro homem de avental. – Ele diz fazendo uma cara safada e os dois riem.

Sérgio: Sério, além disso ainda tem bastante preconceito, acredita? Alguns clientes, mas a maioria do pessoal de lá de dentro mesmo. Até porque os clientes não têm muito como saber.

Carlos: Nossa, por essa eu não esperava. Restaurante não é exatamente o lugar mais másculo do mundo… Se você ainda fosse peão de obra.

Sérgio: Daí eu não seria eu. – Ele sorri – Ei, já parou pra pensar que o Roberto Pelegrini, candidato a prefeito do Rio de Janeiro, é seu cunhado?

Carlos: É mesmo! E seu também, né?

Sérgio: Que chique. – Os dois trocam um beijo. Carlos fica com aquela conversa na cabeça.

06. INTERNA – DIA- CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

Nora junta o material para as aulas do dias quando o telefone toca.

Nora: Alô?

A pessoa do outro lado da linha não respondeu, ela só escutou o som da respiração.

Nora: Júnior, é você?

Rebeca: Uhm… Dona Nora? Nora Andrade?

Nora: Sim, sou eu, quem tá falando?

Rebeca: É a Rebeca… Santos.

Nora: Ah você.

Rebeca: Se a senhora não estiver ocupada, eu queria saber notícias do Júnior.

Nora: O Júnior não está em casa.

Rebeca: Sim eu sei, ele me falou que estava indo pra clínica, se tratar. Eu só queria saber como ele estava.

Nora: Espera, desculpa, você me pegou de surpresa. Eu ainda não tive notícias dele também, mas imagino que esteja bem.

Rebeca: Ah que bom, eu só liguei pra isso mesmo.

Nora: Rebeca, espera um pouco. Eu preciso agradecer a você, que conversou com ele e sugeriu que ele se tratasse.

Rebeca: Não precisa agradecer, é o melhor pra ele. E o Júnior é meu amigo, a gente conversa bastante, então foi mais fácil para ele ouvir de mim.

Nora: Mesmo assim, depois de tudo que ouviu desta família. Sua família.

Rebeca: Desculpa, dona Nora, eu não faço parte da sua família.

Nora: Você é filha do Guilherme, então você é sim uma Andrade. E mais importante, não tem nada a ver com os erros do Guilherme ou da sua mãe. – Rebeca fica em silêncio. – Por que você não passa aqui em casa hoje de tarde? Pra gente conversar.

Rebeca: Eu não sei.

Nora: Podemos conversar sobre qualquer coisa que quiser. Eu só quero conhecer a moça que se tornou a amiga do meu filho e ajudou ele a tomar a decisão certa de se tratar.

Rebeca: Tudo bem, eu aceito. Que horas eu devo chegar aí?

Nora: Que tal às cinco?

Rebeca: Ok, obrigada pela notícia e pelo convite. Se falar com o Júnior, diga que estou torcendo muito pra que dê tudo certo.

07. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO TOMÁS – COZINHA

Tomás olha para o corredor e percebe que Vitória ainda não terminou de se arrumar e decide ligar para saber como estão as investigações sobre o acidente dela.

Tomás: Bom dia, detetive Mário Gonçalves? Aqui é Tomás Andrade.

Mário: Senhor Andrade, bom dia. Como vai?

Tomás: Já tem alguma novidade no caso?

Mário: Senhor Andrade, como eu disse, estamos investigando, mas nenhuma testemunha apareceu.

Tomás: Esse acidente não pode ficar impune, minha mulher está em uma cadeira de rodas e o bebê morreu em conseqüência do acidente.

Mário: Estamos fazendo o possível. – Ele diz mexendo em alguns papéis.

Tomás: Isso não está sendo suficiente não é mesmo? – ele responde atrevido – Qualquer coisa me liga imediatamente.

Tomás não espera resposta e desliga. Quando ele vira, vê Vitória na entrada da cozinha.

Tomás: Vamos tomar o café juntos?

Vitória: Por que você continua fazendo isso?

Tomás: Eu não fiz nada.

Vitória: Já pedi para deixar a polícia fazer seu trabalho.

Tomás: Eu só queria saber se tinham alguma novidade sobre o caso.

Vitória: Todo dia você liga Tomás. Está ficando neurótico e obcecado.

Tomás: Eu só quero que quem cometeu esse crime contra você, pague por ele.

Vitória: E ficar ligando ajuda em que? Você acha mesmo que vão conseguir encontrar o culpado?

Tomás: Eles precisam encontrar quem fez isso a você e ao nosso filho. Eu nunca vou esquecer o que aconteceu.

Vitória: E você acha que eu vou? Sou eu quem está presa a uma cadeira de rodas para sempre Tomás. Eu que perdi minha independência para ir a todos os lugares a hora que quiser. Eu que segurei nosso filho enquanto ele morria.

Tomás ficou calado vendo sua mulher falando e chorando toda a dor ainda presente.

Vitória: Cada ligação dessas, cada resposta negativa da polícia, torna essa dor maior. Eu sei que você faz isso com a melhor das intenções, e se quer acompanhar as investigações, eu só peço que não faça isso daqui de casa. – Ela vai para o quarto.

08. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – QUARTO

Fernando entra no quarto e Sara está lendo um livro.

Fernando: Boa noite. – Ele diz se despindo e pegando um pijama.

Sara: Ferdi, preciso falar com você. – Ela deixa o livro de lado. Ele se senta meio a contragosto.

Fernando: Fala rápido porque eu estou morrendo de sono.

Sara: Eu também estou com sono. Ou você acha que eu te esperei acordada porque eu estava afim? É a única parte do dia em que dá pra te encontrar. – Ela faz uma pausa. – Podemos conversar? – Ele faz que sim com a cabeça.

Sara: A gente ta enfrentando alguns problemas sérios, você há de concordar. A gente tem nossos intervalos das brigas, e eu sei que eu e você já tentamos ceder, mas está cada vez mais complicado e isso está me desgastando muito.

Fernando: Hmm… A mim também.

Sara: Então, pensei em a gente tentar um outro meio de resolver as coisas…

Fernando: Qual?

Sara: Eu fui indicado a um profissional… um psicólogo. – Fernando se altera. – Você não precisa dizer que sim. Essa é uma decisão na qual nós dois temos de chegar a um consenso. Nós precisamos chegar a um consenso.

Fernando: Não sei, Sara.

Sara: É uma tentativa. A gente já está beirando o divórcio, Fernando. E não sei quanto a você, mas divórcio não é o que eu quero.

Fernando: Acho que nós podemos tentar. – Sara sorri.

Sara: Muito obrigado. – Eles se beijam um beijo rápido.

Fernando: Boa noite.

Sara: Boa noite.

Os dois se viram e apagam a luz.

09. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE VERA – QUARTO

Saulo acorda e Vera está ao seu lado, na cama.

Vera: Bom dia. – Ela diz sorrindo.

Saulo: Bom dia. – Ele se senta e se espreguiça.

Vera: Eu montei a mesa do café-da-manhã para a gente.

Saulo: Hm… Que bom! Tô com fome. Mas eu já vou, só me dá um minutinho para sumir com a preguiça.

Vera: Sabe o que eu tava pensando, Saulo?

Saulo: O quê?

Vera: Aqueles papéis que você ficou de dar uma olhada… Você leu?

Saulo: Dei. Olha, eu acho que se você quer mesmo criar um novo negócio, uma editora é uma boa. Hoje em dia, os leitores não buscam nomes conhecidos, mas os editores buscam. Se você der chance para autores novos, o que não falta, seria uma boa.

Vera: Por que não a gente dar uma chance para autores novos?

Saulo: Vera, já conversamos sobre isso. Eu não posso manter dois negócios, e muito menos sair da Andanças agora nesse momento complicado.

Vera: Tudo bem, mas quando vocês resolverem as coisas, nós conversaremos novamente. – Ele não responde – Estou tão animada! Vou começar a pesquisar preços, locais e tudo, ver se tenho fundos, ou como vou consegui-los… Vou ser dona de um negócio!

Saulo: Vai! E muito bem-sucedido, tenho certeza. – Ele a beija – Agora vamos comer que eu estou faminto.

Os dois se levantam e saem do quarto.

10. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS CENTRAL – SALA DE REUNIÕES

Sara entrega a contra proposta da Midas. Os assuntos a serem ponderados já destacados.

Tomás: Isso é o melhor que eles podem oferecer?

Sara: Eu sei, a longo prazo não é vantajoso para nós. Mas precisamos pensar nos problemas que estão acumulando.

Saulo: A Sara tem razão. Os fornecedores já ligaram e pediram uma parte dos pagamentos ou irão cancelar a entrega de novos pedidos.

Tomás: Isso é uma loucura. Vamos perder qualquer poder de decisão. Se em dois anos eles resolverem modernizar as lojas, nós não podemos negar. E nossos eventos? Vamos perder qualquer independência nessas decisões.

Saulo: Eu entendo sua preocupação Tomás, eu também não gosto disso.

Tomás: E o dinheiro da casa de Petrópolis?

Sara: A imobiliária já recebeu algumas ofertas, mas nenhuma dentro do valor que a propriedade foi avaliada.

Saulo: Com essa crise ninguém quer arriscar gastar dinheiro no momento. E se não acertamos com a Midas, não sei se a Andanças vai sobreviver.

Sara: E mesmo não sendo muito vantajosa, talvez não vamos conseguir outra proposta melhor, não podemos escolher muito.

Tomás: Eu concordo com vocês, mas vamos pelo menos tentar manter alguma independência, com os eventos, que o papai tanto gostava. E talvez uma cláusula no contrato que nenhuma mudança pode ser feita nas lojas sem a aprovação unânime dos Andrades.

Saulo: Não custa tentar. Afinal eles estão pegando uma empresa em dificuldade, mas que tem um nome respeitado no Rio de Janeiro.

Sara liga para Daniel Motta apresentando as duas condições. Ele aceita apresentar o pedido para os sócios da Midas e entrar em contato assim que tiverem uma resposta.

Sara: Pronto, eles vão analisar nosso pedido e darão a resposta.

Tomás: Tomara que dê certo, ou teremos que vender uma das lojas.

11. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES

Nora termina de arrumar a mesa com o lanche que tinha preparado quando a campainha toca e ela vai atender. As duas sorriem uma para outra e Nora percebe que Rebeca está um pouco desconfortável com a situação.

Nora: Oi Rebeca, entra, por favor. Fica à vontade.

Rebeca: Obrigada, dona Nora.

As duas entram e Rebeca logo repara nas fotos que enchiam um móvel da sala. Formaturas, casamentos, aniversários. Guilherme sempre parecia muito feliz e orgulhoso.

Nora: Eu devia ter guardado essas fotos.

Rebeca: Não se preocupe. Eu sabia que o Guilherme tinha uma família, mas nunca perguntei nada sobre vocês. Achei que ele era só um amigo da minha mãe.

Nora: Você não sabia da história deles?

Rebeca: Não, até cheguei a desconfiar de alguma coisa certo tempo, mas minha mãe sempre negou e eu não tinha porque não acreditar nela.

Nora: Eu sinto muito que você tenha sido vítima das mentiras do Guilherme.

Rebeca: Que isso, se alguém tem que se desculpar, sou eu.

Nora: Na verdade nós não precisamos nos desculpar de nada, não somos as erradas nessa história. Eu não pedi que você viesse aqui por isso.

Rebeca: Tudo bem. – ela fala um pouco preocupada.

Nora: O Júnior sempre falou muito bem de você, que é uma boa garota, estudiosa. E você ligar para saber do Júnior, só comprovou tudo que ele falou.

Rebeca: Obrigada dona Nora. O Júnior e eu somos bons amigos, a gente se entende, só isso.

Nora: Você é uma Andrade, e precisamos procurar um advogado para você receber o nome que te corresponde.

Rebeca: Eu nunca quis saber a verdade, só fiz o exame porque a Sara pediu, mas eu não quero nada que tenha qualquer ligação com o Guilherme.

Nora: Não vamos conversar sobre isso agora. Eu pedi que viesse porque queria conversar e te conhecer mais.

Rebeca: Pode perguntar o que quiser.

Nora: Vamos pra sala de jantar, eu preparei um lanchinho pra nós.

Rebeca: O Júnior sempre fala que a senhora cozinha muito bem.

Nora: O Júnior está mal acostumado porque é o único que ainda está em casa, então é sempre mimado. Aliás, ele está bem, até onde sei, ele ainda não pode falar com a gente, vai fazer uma semana que ele se internou.

Rebeca: É, eles passam por um período isolado.

Nora: Ele disse que você que sugeriu ele procurar ajuda. Eu nunca vou ter como te agradecer, Rebeca.

Rebeca: Que isso. O Júnior que teve coragem para enfrentar os problemas dele.

As duas sentam e continuam conversando. Rebeca contando sobre a faculdade, a paixão pela fotografia e Nora dividindo histórias do Júnior. As duas se divertiam tanto que não perceberam quando a porta da frente abriu.

Carol entrou e escutou a voz da mãe e de outra pessoa. As duas davam risadas. Ela parou antes de entrar na sala quando viu que a companhia da mãe era Rebeca. Ela então subiu devagar para o quarto e foi ligar para Carlos.

Carlos: Alô.

Carol: Oi, você está ocupado?

Carlos: Não, Carol, só vendo uns empregos em restaurantes nos classificados.

Carol: O quê? Bom… Adivinha quem tá aqui?

Carlos: Quem?

Carol: A Rebeca!

Carlos: Rebeca, a bastardinha?

Carol: Justamente.

Carlos: O que ela está fazendo aí?

Carol: Tomando um chazinho com a mamãe.

Carlos: Como assim? Que coisa surreal! – Carlos recebe outra ligação – Pera, Carol. Tomás na outra linha. Fala, Tomás.

Tomás: Oi, Carlos. Tudo bom?

Carlos: Tudo ótimo! Você nunca vai acreditar em quem tá na casa da mamãe.

Tomás: Quem?

Carlos: A bastarda.

Tomás: Rebeca?

Carlos: Isso mesmo. Calma, a Sara não ta aí, né? Porque se ela descobre…

Tomás: Não, tudo limpo. Mas conta mais, como você sabe?

Carlos: Carol na outra linha. Pelo jeito ela chegou em casa e deu de cara com a Rebeca e a mamãe conversando.

Tomás: Mas como ela foi parar lá?

Carlos: Não sei.

Tomás: Então vá descobrir. Eu espero.

Carlos: Carol, como ela foi parar aí?

Carol: E eu sei? Não troquei uma palavra com elas. Sai de fininho e vim ligar para você. Mamãe deve estar querendo que ela seja parte da família.

Carlos: A mamãe e essas coisas dela! Vou repassar para o Tomás. Espera. – Ele troca de linha – Ela não sabe, mas acha que a mamãe pode estar querendo que ela se sinta parte da família.

Tomás: A mamãe perdeu o juízo. Imagina convidar a Rebeca para a casa dela pra conversar!

Sara bate à porta e entra.

Tomás: Carlos, vou desligar. A Sara chegou e pela cara dela, escutou mais do que devia. – Ele desliga.

Carlos: Carol, sujou. A Sara ouviu a conversa.

Carol: Iih!…

12. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS CENTRAL – ESCRITÓRIO

Sara olha para Tomás e espera ele explicar a conversa que ela tinha acabado de presenciar.

Sara: Então, não vai falar nada?

Tomás: Falar do que? Do fato que você entrou na minha sala sem avisar e escutou uma conversa particular?

Sara: Andrades não tem conversa particular, principalmente quando se trata da filha ilegítima do nosso pai.

Tomás: Por isso mesmo não falamos nada com você.

Sara: Então vocês sabiam que a mamãe ia convidar aquela garota e não me contaram nada?

Tomás: Não sabíamos, ficamos sabendo. A Carol chegou em casa e encontrou as duas conversando na cozinha.

Sara: O que essa garota quer com nossa mãe? Eu vou até lá descobrir o que tá acontecendo.

Tomás: Não vai não. Se a mamãe quisesse nossa presença lá ela teria ligado.

Sara: Eu não gosto nada disso.

Tomás: Nem eu, mas nossa mãe sabe o que faz, e se precisar de ajuda, ela sabe que pode contar com a gente. – mudando o rumo da conversa ele pergunta – E aí já recebeu alguma resposta da Midas?

Sara: Ainda não, mas repassamos nossas condições hoje, pouco tempo para reunir os sócios, deve levar uma semana pelo menos.

Tomás: Estou tão ansioso com essa situação… – Ele põe a mão na testa em sinal de preocupação.

13. INTERNA – NOITE- CASA DOS ANDRADES – QUARTO

Carol lê um livro deitada quando seu telefone começa a tocar. Ela nem olha quem está ligando, concentrada no livro.

Carol: Alô?

Roberto: Ei, como foi seu dia?

Carol: Um pouco estranho. Mas e você? Como está? E a Lílian?

Roberto: Eu estou bem, a Lílian… Bem eu não sei, ela não apareceu no comitê hoje.

Carol: Dê um pouco de tempo pra ela.

Roberta: Você viu a repercussão de ontem?

Carol: Sim. Eu sinto muito.

Roberto: Espero que não afete nos votos.

Carol: Você vai precisar se recuperar no último debate. Sabe como é né? O mais importante e o que define os votos indecisos.

Roberto: Eu não sei, acho que talvez não será dessa vez que eu serei prefeito.

Carol: Nem fale isso. Sebastião Ramos como prefeito não é nada bom. Até você é melhor.

Roberto: Até eu? Você está falando assim comigo?

Carol: Você sabe que eu não concordo com suas visões políticas, algumas delas pelo menos.

Roberto: Eu acho que preciso usar métodos mais eficientes para te convencer.

Carol: E quais seriam esses métodos? – ela pergunta com certo tom de malícia na voz.

Roberto: Vem me ver hoje que te mostro.

Carol dá risada e os dois conversam por mais alguns minutos e despedem-se, Roberto prometendo que convenceria Carol sobre suas visões políticas no dia seguinte.

14. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Já havia passado certo tempo desde que Júnior havia ido para a clínica de reabilitação e Nora havia ligado várias vezes para saber quando poderia visitar o filho, sabendo que isso só seria possível quando a desintoxicação estivesse completa. Ela liga mais uma vez.

Atendente: Clínica Renascer, boa tarde.

Nora: Boa tarde. Aqui é Nora Andrade, mãe do paciente Guilherme Andrade Júnior. Eu gostaria de falar com ele.

Atendente: Sim, senhora. Só um minutinho…

Depois de certo tempo esperando, Júnior responde.

Júnior: Alô, mãe.

Nora: Filho, que saudades! Como você está?

Júnior: Bem, e a senhora?

Nora: Muito bem, com exceção da falta que você faz aqui em casa!

Júnior: Também sinto sua falta, mãe! E de todo mundo. Como eles estão? A Vitória está melhor? E a Carol? Acompanhei o debate na TV. Que canalhice do adversário do Roberto!

Nora: Pois é… A Carol está bem, mas não sei sobre o Roberto ou a pobre da irmã dele. Ah, a Vitória está bem ruinzinha… Mal sai de casa e quando sai é porque o Tomás a obriga. Estou até preocupada.

Júnior: É… – Ele fica em silêncio após a informação sobre Vitória.

Nora: De resto, todos estão bem, ou como sempre estiveram. Mas tenho certeza de que eles lhe contarão melhor quando nós estivermos reunidos aí. Quando isso será possível? Já tem alguma previsão?

Júnior: Andei falando com um pessoal e disseram que daqui há uns oito dias. Não avisei porque eles ficaram de confirmar para mim e para você.

Nora: Ah, que ótimo! Uma semana apenas! – Ela muda o tom de voz – Escute, meu filho, a Rebeca andou ligando aqui atrás de informações sobre a clínica. Eu a convidei para comer um lanche aqui em casa.

Júnior: O quê?!

Nora: Calma… Ela é mesmo uma ótima menina e querendo ou não, ela faz parte dessa família. Eu acho que você deveria ligar para ela e convidá-la para ir conosco aí visitá-lo.

Júnior: Bom, eu ia chamá-la, mas para vir outro dia. O que você acha que a Sara vai achar disso? E os outros?

Nora: Bom, seus irmãos são grandes o suficiente e vão se acostumar com a presença dela. Ela é uma Andrade, afinal.

Júnior: Já que você diz…

15. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA REBECA – SALA

Rebeca: Alô.

Júnior: Beca? É o Júnior.

Rebeca: Ju! Quanto tempo! Eu liguei para a sua mãe atrás de você, mas achei melhor não ligar por enquanto.

Júnior: Ela me contou! E disse que vocês duas tiveram uma conversa e tudo o mais. Aliás, ela me disse para eu te chamar junto com ela e meus irmãos para vir aqui.

Rebeca: Tem certeza? Não é melhor eu ir outro dia?

Júnior: Foi o que eu disse para ela. Mas ela disse que você é uma Andrade e deveria participar com a família.

Rebeca: Não sei… Só espero que a Sara não tente alguma coisa, como me atropelar.

Júnior: Bobagem… Eles vão se acostumar com você, você vai ver…

Rebeca: Vamos todos ver…

16. INTERNA – DIA – BARBOSA-LIMA – ESCRITÓRIO DO CARLOS

Carlos está tendo uma reunião com um cliente.

Carlos: Então o senhor está de acordo com os termos propostos?

Igor: Ah sim, estão bem razoáveis.

Carlos: Ótimo – Igor faz menção de levantar – Senhor Igor… há uma outra coisa que eu gostaria de conversar com o senhor antes de encerrar essa reunião.

Igor: Pois sim?

Carlos: É algo não relacionado com trabalho. Bom, pelo menos não com o meu trabalho. – Ele faz uma pausa. – Eu tenho um grande amigo que é um excelente chef, mas está tendo alguns problemas com o emprego atual. Eu me sinto até mal dizendo isso, mas pensei que uma vez que o senhor é dono de restaurante…

Igor: … Que eu tivesse uma vaga para ele.

Carlos: Justamente.

Igor: Bom, eu não estou realmente contratando no momento, mas vou ver o que posso fazer.

Carlos: Muitíssimo obrigado. – Ambos levantam-se e cumprimentam-se. Igor vai embora e Carlos se senta contente.

17. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – SALA

Fernando entra e vê a luz de abajur acesa. Sara está sentada no sofá.

Fernando: Boa noite. Aconteceu alguma coisa?

Sara: Eu marquei a nossa terapia de casal.

Fernando: Pra quando?

Sara: Amanhã de tarde. Ele vai falar primeiro com um e depois com outro, para nos conhecer melhor. Depois, na outra semana, será com os dois juntos.

Fernando: Que cedo. Você podia ter marcado com mais antecedência.

Sara: Desculpa.

Fernando: Tudo bem. – Ele dá um tempo. – Estou morrendo de sono. Até amanhã.

Sara: Até. Boa noite.

Ele vai para o quarto.

18. INTERNA – DIA – DELEGACIA DE POLÍCIA

Tomás entrou na delegacia correndo. Uma ligação do delegado com novidades sobre o caso. Ele só parou quando viu o delegado e Lucas apertando as mãos se cumprimentando.

Delegado: Senhor Andrade, que bom que chegou.

Tomás olhou para Lucas e cumprimentou o delegado.

Delegado: Senhor Andrade quero te apresentar o novo promotor do caso da sua esposa.

Tomás: Lucas?

Delegado: Vocês se conhecem?

Lucas: Sim, eu e a esposa do senhor Andrade somos amigos de muitos anos.

Tomás: Como você ficou responsável pelo caso da Vitória?

Lucas: O promotor responsável estava com muitos outros casos e me repassou esse. Só fui descobrir que era o caso da Vitória quando cheguei aqui.

Tomás: Sei…

Delegado: Senhor Andrade, qualquer dúvida ou novidade com o caso da sua esposa, você vai entrar em contato com o Doutor Gomes.

Tomás: Ah que maravilha. Aposto que você ficou muito feliz com isso não é Lucas?

Lucas: Eu só quero ajudar a Vitória.

Tomás: E eu quero ganhar na mega-sena. Não ganhei, ganhei?

Lucas: Não perca a cabeça, Tomás. Eu só quero ajudar. E se você for sensato, ficará longe disso.

Tomás: Outra coisa que você quer e que não vai acontecer. – Ele sai andando.

19. INTERNA – DIA – CONSULTÓRIO DE PSICOLOGIA

Fernando e Sara chegam ao consultório e Fernando vê o nome do terapeuta na porta: Ricardo Andrade.

Fernando: Andrade? O sobrenome dele é Andrade e você não me contou?

Sara: O que tem? Andrade é um sobrenome comum.

Fernando: Eu vou me sentir conversando com um dos seus irmãos. Não vou conseguir me abrir sobre meus problemas com você para um de seus irmãos.

Sara: Acontece que ele não é meu irmão. – Ela faz uma pausa. – Bom, não que eu saiba, mas sabe-se lá com o meu pai, né? Pára com essa bobagem.

Ricardo: Oi. – Ele diz abrindo a porta. – Entrem. Sara e Fernando, certo?

Sara: Isso. – Os três caminham até a sala de atendimento e Sara e Fernando se sentam em um divã e Ricardo se senta em uma poltrona.

Ricardo: Ok, como vão? – Os dois respondem que bem e ele continua. – Bom, por quem começamos? Quem foi que teve a idéia de me consultar?

Sara: Eu.

Ricardo: Comecemos com você então. Fernando, se não se importar, pode esperar na sala de espera. Já já te chamo.

Fernando sai e Ricardo volta a atenção para Sara.

Ricardo: Então, me fale sobre a relação de vocês. – Sara começou a resumir sua relação com Fernando para o psicólogo.

20. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE VERA – SALA

Vera está colocando a mesa para jantar sozinha quando a campainha toca e ela vê Rebeca.

Vera: Filha! Que visita boa!

Rebeca: Oi, mãe. – Ela diz entrando.

Vera: Tudo bem? Você já comeu?

Rebeca: Tudo bem e acabei de jantar. – Ela toma um tempo antes de continuar – Mãe, tem uma coisa que eu queria te perguntar.

Vera: O quê?

Rebeca: Você já sentiu arrependida por ter tido um caso com o Guilherme?

Vera: Assim, do nada?

Rebeca: Bom, desde que o resultado saiu, aconteceram algumas coisas. Então?

Vera: Já, principalmente no começo. Mas depois passa.

Rebeca: Foi o que pensei… Eu vou indo agora. Vim só pra isso mesmo.

Vera: Calma! E agora?

Rebeca: E agora o quê?

Vera: O que você vai fazer? Vai arranjar um advogado, certo? Para ganhar uma parte da Andanças e do dinheiro dele. Quer dizer, Saulo disse que eles estão com alguns problemas financeiros, mas dada a situação, os prós são maiores que os contras.

Rebeca: Eu não vou fazer nada disso! Imagina! Nora foi tão simpática comigo, nunca faria isso com ela. Além do que, não vejo por que.

Vera: Você se encontrou com a Nora? Ah, que ótimo! Agora ela está tentando te seduzir e te integrar à família Buscapé.

Rebeca: Eu to indo embora! – Ela abre a porta e vai para o elevador.

Vera: Você não é uma Andrade, ouviu? Não importa quem é seu pai, fui eu que te criei. Você é uma Santos!

Rebeca entra no elevador e desce.

21 – INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA SARA – QUARTO

Fernando ainda dormia quando Sara sai do banheiro já pronta para começar seu dia.

Sara: Ferdi, acorda.

Fernando: Uhm, ainda tá cedo.

Sara: Hoje é dia de visita na clínica que o Ju está se tratando. Então eu não posso pegar os gêmeos na escola hoje. – ela espera ele responder, como ele não fala nada ela insiste – Ferdi, tá me ouvindo?

Fernando: Claro, pegar os gêmeos na escola. Já sei!

Sara: Você não quer tomar o café da manhã comigo e com as crianças?

Fernando: Eu já vou, cinco minutos.

Sara: Tudo bem. Vamos te esperar.

22. EXTERNA – DIA – CLINICA RENASCER – JARDIM

Júnior estava sentado em uma das mesas lendo um livro, enquanto espera suas visitas chegarem. Quando ele percebe um agito e muita conversa, ele levanta a cabeça e vê Carlos e Carol discutindo alguma coisa e acena para os dois.

Carol: Ju, que saudade. – ela fala abraçando o irmão e depois segurando o rosto dele entre as mãos – Como vai tudo? Está comendo direitinho? Dormindo? Acha que a clínica está ajudando?

Carlos: Nossa, eu deveria ter contrabandeado uma garrafa de vinho para agüentar essa inquisição.

Carlos recebe alguns olhares assustados dos outros visitantes e decide se corrigir.

Carlos: Mas é claro que eu não iria fazer isso, já que é uma clínica para pessoas se livrarem do vício.

Júnior dá risada e abraça o irmão.

Júnior: Que saudade dessas suas mancadas. Como vai o namoro?

Carlos: Já? Por que não pergunta pra Carol antes?

Júnior: A pergunta é para os dois. Então quem responde primeiro?

Carlos: Como eu sou muito educado, primeiro os mais velhos.

Carol: Ei!!!

Carlos: Ok, então as damas, primeiro.

Júnior: Você dois não tem jeito. Carolzinha, pode começar, porque do Carlos imagino que o namoro não vai longe, já que ele sempre acaba com os namoros antes mesmo de começar.

Os três conversavam animados quando Sara e Tomás seguem até a mesa onde eles estavam.

Sara: Irmãozinho, como você está? – ela pergunta abraçando o irmão caçula.

Júnior: Estou bem. Já me divertindo com Carlos e Carol.

Tomás: Imagino. – ele fala dando um abraço no irmão – A Vitória mandou um abraço, ela está na fisioterapia agora.

Júnior: Ela está? E você?

Tomás: Tentando me ajustar a nova situação. Ah não vai acreditar na última que aconteceu.

Carlos: Tomás fofocando? O mundo está acabando.

Tomás: O Lucas é o promotor do caso da Vitória.

Júnior: O Lucas que você…

Tomás: O próprio.

Carlos: Como o mundo dá voltas não é mesmo?

Tomás: Se for pra fazer piadinhas, pode ficar de boca fechada.

Sara: Vocês dois podem parar, não é lugar para discussão.

Júnior: Cadê a mamãe?

Carol: Disse que tinha que pegar uma surpresa pra você.

Mal Carol respondeu, Nora chega na clínica e avista sua família junta. Ela nem cumprimenta os filhos mais velhos e vai logo dando um abraço em seu filho caçula.

Nora: Oh meu filho, que saudade. Você parece tão mais novo, bonito! Até engordou um pouquinho. Que bom.

Júnior: Estou me alimentando melhor mãe, dormindo e acordando cedo, praticando atividade física.

Nora: Ah que maravilha, está valendo a pena, apesar da distância e da saudade.

Júnior: A Carol falou que você tinha uma surpresa pra mim.

Nora vira e faz sinal para Rebeca ir até eles. Carol e Carlos ficam chocados, Tomás olha para Sara e vê o pescoço já ganhando uma coloração rosada e a mandíbula tensa.

Júnior: Beca? – ele fala feliz e vai até a amiga dar um abraço – Que bom que você veio!

Rebeca: Eu não iria deixar de vir dar uma força. Estou orgulhosa da sua coragem Ju, e muito feliz que está bem.

Júnior: Quem não ficaria bem nesse lugar?

Rebeca: Tem razão, é lindo.

Carlos cutuca Carol com o cotovelo e faz sinal para ela olhar para Sara, que já não estava mais se agüentando.

Sara: É lindo mesmo. As flores cheiram tão bem e o sol está tão brilhante. – Ela diz ironicamente.

Nora: Sara!

Sara: Não mamãe, ela ir tomar chazinho com você eu posso até deixar passar, mas isso é uma visita de família.

Carol: Eu vou concordar com a Sara, mamãe, convidar a filha bastarda não é muito agradável.

Júnior: Vocês duas estão escutando o que estão falando?

Tomás: Ju, o próximo passo é ela dar entrada na herança.

Rebeca se sentiu mal e começou a se recuar. Júnior percebendo o que ela estava tentando fazer, segurou o braço dela, mas antes que falasse algo, Nora foi mais rápida.

Nora: Eu não criei vocês para serem tão deselegantes com uma convidada minha. – ela deixa o choque dos filhos passarem para continuar – Eu chamei a Rebeca para vir comigo. Ela é amiga do Júnior e ligou querendo saber dele.

Sara solta uma risada sarcástica e Carlos ri da atitude da irmã.

Nora: Você já está bem velha para ser impertinente desse jeito Sara. E você, Carlos, já está bem grandinho para rir das atitudes da sua irmã. – ela então se vira para Tomás e Carol e completa – Ninguém aqui está falando de dinheiro. Os problemas dessa família ficam todos fora dessa clínica, o irmão de vocês está tentando se livrar do vício e não precisa ser incomodado.

Carol: Exatamente, e você trouxe o problema dessa família para dentro da clínica.

Júnior: Você também, Carol?

Rebeca: Eu disse que não deveria ter vindo, ou ter vindo outro dia. Seus irmãos não gostam de mim.

Júnior: Nossos irmãos, você quer dizer.

Sara: Júnior?

Nora: O que foi Sara? A Rebeca é irmã de todos vocês. E o quanto antes começarem a aceitar isso, o quanto antes irão perceber como a Rebeca é uma jovem inteligente, esperta, dedicada, estudiosa. Vocês deveriam se orgulhar de ter uma irmã assim.

Todos os filhos ficaram ouvindo Nora dar seu discurso.

Nora: E se querem saber mais, se o Júnior está aqui hoje é graças à Rebeca, que conversou com ele, comentou das opções que ele tinha, que escutou o que ele estava passando. Então sejam um pouco mais gratos.

Júnior: A mamãe tem razão, e pensem um pouco o que a Rebeca passou, cresceu sem saber quem era o pai dela, sem receber o carinho que apoio que nós tivemos do papai. Ela não tem culpa se nosso pai e a mãe dela cometeram um erro, ela é tão vítima da situação quanto nós.

Todos ficam quietos.

Tomás: Obrigado por ter ajudado o Júnior.

Rebeca: Que isso, não foi nada.

Carlos: Não, o Tomás tem razão. A gente sempre viu o Júnior como caçula, sempre passou a mão na cabeça dele, você foi a primeira pessoa que viu ele como um adulto.

Júnior: Eu não sou mais caçula, esqueceu?

Carlos: É tem razão.

Carol não falou nada, só estendeu a mão, o que pra ela já era um grande ato. Sara viu todos seus irmãos se aproximando de Rebeca.

Sara: Me desculpe pelas coisas que disse… todas as vezes.

Rebeca: Desculpas aceitas. Eu também não fui a mais simpática.

Sara: É, não foi. – As duas riem – Eu acho que deixei toda a raiva que estou sentindo refletir em você. Transformei você no alvo. Tenho que reconhecer que você é uma Andrade.

Rebeca: Na verdade não. O Guilherme foi pai de vocês, criou, educou, formou vínculo. Para mim ele não é mais que um amigo da minha mãe, que visitava a gente algumas vezes.

Júnior: Por que a gente não senta e conversa? Acho que isso vai durar algum tempo ainda.

23. EXTERNA – DIA – CENTRO EDUCACIONAL JARDIM AZUL – PÁTIO

Rafaela e Eduardo já estavam inquietos. Nem Sara nem Fernando ainda tinha chegado para pegá-los na escola.

Rafaela: A mamãe e o papai esqueceram da gente?

Eduardo: Claro que não boba, eles estão atrasados, só isso. – ele olha para o portão mais uma vez esperando encontrar alguém quando vê Gabriel passando na rua. Ele estava saindo da sua aula, na unidade em frente à dos gêmeos. – Olha é o Gabs.

Os dois saem correndo até o portão gritando o nome do irmão. Gabriel escuta e vê os irmãos ainda no colégio e estranha.

Gabriel: Rafa? Dudu? O que estão fazendo aqui?

Eduardo: Você não veio buscar a gente?

Gabriel: Não, achei que já estivessem em casa.

Rafaela: Não disse que a mamãe esqueceu a gente?

Gabriel: Mamãe ia visitar o tio Ju, hoje. Ela deve estar atrasada.

A professora vendo os gêmeos na grade conversando com um jovem, foi logo ver o que estava acontecendo.

Professora: Eduardo e Rafaela, não podem conversar com estranhos.

Eduardo: É o Gabs, tia Júlia, nosso irmão.

Professora: Ninguém avisou que você viria pegar os gêmeos.

Gabriel: E não vim, estava passando na rua quando eles me chamaram.

Rafaela: Eu quero ir pra casa, leva a gente, Gabs.

Eduardo: É, vai ser legal só nós três na rua.

Professora: Não, eu só posso liberar as crianças com a permissão de um dos pais.

Gabriel: Eu vou ligar para minha mãe e perguntar se eles podem ir comigo. Você pode até falar com ela, professora.

Eduardo: É tia Júlia, Gabs.

Ele sorriu, já discando para Sara.

24. EXTERNA – DIA – CLÍNICA RENASCER – JARDIM

Todos os Andrades estavam sentados, conversando. Ainda um pouco desconfortáveis com a presença de Rebeca, mas aceitando sua presença ali. O celular de Sara toca e ela sai de perto para conversar no telefone.

Sara: Gabs, filho? Já está em casa?

Gabriel: Ainda não. Estou ligando porque a Rafa e o Dudu ainda estão na escola, você já está chegando?

Sara: Seu pai não pegou seus irmãos? Ele esqueceu?

Gabriel: Não sei, não consegui falar no celular dele, cai em caixa postal.

Sara: Eu ainda estou na clínica. Vou demorar um pouco até chegar aí.

Gabriel: Eu posso levar eles pra casa, são três quarteirões só.

Sara: Você faria isso filho?

Gabriel: Claro mãe. Só fala com a professora, vou passar o telefone pra ela.

Sara: Tudo bem, mas filho, não fala com os gêmeos que seu pai esqueceu de pegá-los, diga que eu estou presa no trânsito.

Gabriel: Pode deixar.

Sara conversa com a professora e confirma que Gabriel pode levar as crianças paras casa. Ela desliga e volta para junto da família.

Sara: Ju, foi muito bom te ver, mas preciso ir.

Nora: Algum problema?

Sara: O Fernando esqueceu de pegar as crianças na escola. O Gabs vai levar os dois, mas eu não quero deixar os três sozinhos em casa.

Júnior: Vai logo, manda um beijo pras crianças.

Sara: Fica bom logo, Júnior, sentimos muito sua falta. As crianças também. – ela vira pra Rebeca e fala com a garota – Passa na livraria um dia desses, a gente pode conversar mais um pouco.

Rebeca: Não prometo o dia, mas eu ligo antes.

Sara despede de todos os outros irmãos e da mãe e sai apressada para chegar em casa.

25. EXTERNA – DIA – RUAS DO RIO DE JANEIRO

Gabriel e os gêmeos estão andando pela rua, virando a esquina no quarteirão do apartamento deles, quando vêem um garoto, um pouco mais velho que Gabriel vindo em sua direção. Gabriel pensa em atravessar a rua, mas o fluxo de carros era grande. Ele resolve entrar em uma farmácia e esperar o sujeito mal-encarado passar.

Ele manda os gêmeos entrarem antes e quando vai entrar, sente uma mão lhe segurando pelo ombro

Assaltante: Vai passando o dinheiro e o celular, moleque. – Gabriel fica nervoso e não tem reação. – Vai, moleque! – O assaltante empurra Gabriel. – Que tênis de bacana, hein? Vai tirando!

Um dos atendentes da farmácia onde os gêmeos entraram observa a cena e resolve interferir. Gabriel já está tirando os tênis e os dando ao assaltante.

Atendente: Xispa, moleque! Deixa o garoto em paz. – O assaltante coloca uma mão no bolso, como se fosse sacar algo. – Não adianta, eu sei que tu não tá armado! Vai logo antes que eu chame a polícia! – O assaltante sai correndo. O atendente da farmácia ajuda Gabriel a se levantar.

Gabriel: Brigado.

Atendente: Imagina. Aquele moleque tá sempre por aqui. Mais cuidado da próxima vez. Seus irmãos tão lá dentro. Quer que eu ligue para os seus pais ou algo assim?

Gabriel: Não precisa, brigado. A gente mora aqui nessa quadra mesmo. Brigado mais uma vez.

Atendente: Toma cuidado, garoto. Vai em paz.

Gabriel pega os gêmeos, que estavam super preocupados e os leva para casa, ainda abalado pelo que acabara de sofrer.

26. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA – SALA/QUARTO DE GABRIEL

Sara chega em casa e seus três filhos estão sentados nos sofás da sala, vendo TV.

Sara: Cheguei! – Eduardo e Rafaela saem correndo para abraçar a mãe. – Olha o que eu trouxe para vocês! – Os dois olham dentro das sacolas que a mãe carregava. – Um daqueles sorvetes que o Dudu adora e a tiara que você tava pedindo, Rafa. – Os gêmeos pegam seus presentes.

Ela nota que Gabriel continua vendo TV.

Sara: Tem algo para o meu primogênito super responsável também. – Ela sorri quando ele vira. – Aquele jogo de videogame que você estava querendo.

Ele vai até ela e a abraça sem dizer nada. Ela retribui o carinho.

Sara: Você é um anjo, viu? Agora, por que não sobe para ver se o jogo funciona mesmo? Você sabe que de vez em quando vem arranhado, daí eu vou lá e troco. – Ele sobe. Ela se vira para os gêmeos. – E então? Gostaram dos presentes?

Rafaela: Agora que o Gabs foi pro quarto, a gente pode falar. – Ela diz para o irmão, mas alto o suficiente para a mãe ouvir.

Eduardo: É, ele fez a gente prometer que não ia falar, mas foi muito perigoso.

Sara: Vocês são mesmo Andrades, hein? Fazendo fofoca do seu irmão… Mas o que aconteceu de tão perigoso? – Diz ela não se importando muito.

Rafaela: O Gabs foi roubado.

Sara: Como assim roubado?

Eduardo: A gente estava voltando pra casa, daí um homem mau veio até a gente. O Gabs viu antes e deixou a gente na farmácia. Daí quando ele ia entrar, o bandido pegou ele e bateu e roubou o tênis. Mas o moço na farmácia foi lá e ajudou o Gabs.

Sara: Como assim bateu? – Ela faz menção de ir ao quarto do filho mais velho.

Rafaela: Ele tá bem, mãe. Não tá machucado. Não diz que foi a gente que contou, vai! – Sara vai até o quarto de Gabriel.

Ela entra e ele está sentado na cama, testando o jogo.

Sara: Suas meias tão pretas, né?

Gabriel: Uhum. Sujei.

Sara: Como? Voltando pra casa sem tênis? – Ele fica em silêncio. – Quando você ia me contar isso?

Gabriel: Não ia. E não era praqueles pivetes contarem também.

Sara: Seus irmãos fizeram o certo. Você devia ter contado. Imagina se tivesse sido pior. Você não está machucado, está?

Gabriel: Não. Só assustado. – Ela se senta ao lado dele na cama e passa a mão em seus cabelos.

Sara: Você foi muito corajoso, sabia? Defendendo seus irmãos. – Ele se apóia nela.

Gabriel: Mãe, eu não ia contar porque eu achei que você fosse brigar com o papai. E eu não quero mais que vocês briguem. Por favor, não briga com ele.

Sara: Não posso prometer, filho. O que ele fez hoje foi muito sério. Colocou a vida de vocês em perigo.

Gabriel: Ele não fez por mal…

Sara: Mas fez. – Eles se abraçam.

27. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO TOMÁS – SALA

Tomás chega em casa e encontra o apartamento em silêncio, como se não tivesse ninguém em casa. Ele deixa as chaves na sala e segue para o quarto, pensando encontrar Vitória já deitada, quando percebe a porta do quarto que seria do bebê aberta. Ele para na porta e encontra Vitória, parada lá dentro, passando os dedos pela grade do berço.

Vitória: Essa é a primeira vez que eu entro aqui depois do acidente.

Tomás: Eu sei, não sabia o que fazer com tudo isso, então achei melhor esperar você falar alguma coisa.

Vitória: Ele deveria estar aqui, dormindo no quarto dele. Acordando no meio da madrugada para mamar. – ela enxuga a lágrima que cai – Nós fizemos tanto planos. Foram tantos sonhos.

Tomás se aproxima de Vitória e se ajoelha do lado dela, para tentar confortá-la.

Vitória: Eu não vou conseguir superar isso. Esse silêncio na casa me deixa mais triste. Ele deveria estar aqui, com a gente.

Tomás não falou nada, só abraçou Vitória para dividir com ela a dor que ambos sentiam. Vitória tremia com o choro e Tomás tentava acalmá-la sussurrando palavras de carinho do ouvido dela.

28. INTERNA – DIA – CONSULTÓRIO DE PSICOLOGIA

Sara já está lá dentro sentada com o psicólogo, esperando Fernando. Ele entra.

Fernando: Olá. Ué, eu não estou atrasado, estou?

Ricardo: Não. A Sara se adiantou um bocado. – Ele sorri e Fernando se senta. – Bom, como vocês estão? Alguma novidade desde semana passada?

Sara: Ah se tem! – Ela diz brava.

Fernando: Tudo bem. Por que você está assim, Sara?

Sara: Talvez porque você tenha esquecido de buscar nossos filhos na escola hoje e eles tenham sido assaltados por causa disso? – Fernando põe a mão na cabeça. O psicólogo acompanha.

Fernando: O quê? Eles se machucaram? Estão bem?

Sara: Não, se eles tivessem se machucado, eu não estaria aqui. Mas sinceramente, Fernando! Que ato de irresponsabilidade. Eu trabalho o dia inteiro e pego os dois todo santo dia na escola. Você, que agora resolveu viver seu sonho de rockstar, trabalha só de noite e quando eu te peço uma vez, uma única vez, para pegar os dois porque eu fui à clínica de reabilitação do meu irmão para visitá-lo, você esquece!

Fernando: É isso que você acha, então? Que eu to vivendo um sonho de rockstar?

Sara: É, é sim! Você está sendo imaturo, infantil e agindo como um adolescente. Essa sua idéia é ridícula! Sustentar três filhos com o dinheiro que se ganha fazendo show em barzinho e churrascaria não dá!

Ricardo: Gente, acalmem os ânimos, vamos conversar. – Fernando se levanta.

Fernando: Você está sendo muito injusta, Sara. Você não tem idéia. Música é a minha paixão. Eu não vou virar um obcecado por trabalho como você. Eu, pelo menos tenho tempo para meus filhos.

Sara: Você só tem tempo para seus filhos porque eu me mato de trabalhar. E quer saber, me irrita você não ter um trabalho sério sim. Porque eu me sinto como se só eu me importasse com essa família. Você acha que eu não me sinto mal de perder alguns momentos importantes dos nossos filhos por causa do trabalho? Mas continuo, pois prezo eles, prezo você.

Fernando: Eu valorizo e muito minha família! Você que só sabe me criticar. Parece sua diversão favorita nos últimos meses. Não me apóia em nada. Só critica!

Sara: Não apóio mesmo! Não vou apoiar sua decisão de se tornar um vagabundo! Olha sua situação, pelo amor de Deus! Você tem três filhos, uma mulher, uma casa para manter funcionando! Não se pode dar ao luxo de brincar de Rolling Stone, de Titã.

Fernando: Não era assim antes, era? Você era toda cheia de Ferdi, me toca isso ou Ferdi, me toca aquilo. Ficava posando de mulher de músico, achando o máximo. Super descolado.

Sara: Isso faz anos!

Ricardo: Por que não falamos disso? – Ele tenta intervir.

Fernando: Desculpa se eu não posso ser um Daniel Motta! – Ignora o psicólogo.

Sara: O quê? Da onde você conhece esse nome?

Fernando: Já liguei diversas vezes lá na Andanças e um dos funcionários me dizia que você estava em reunião com esse cara. Depois, achei um cartão dele jogado na sala, escrito a caneta atrás: Espero sua ligação, beijos. Não nasci ontem, Sara!

Sara: Você está vendo coisa onde não tem! Está enlouquecendo, ficando paranóico. Você acha mesmo que eu me envolveria com qualquer um? Nunca te dei motivo pra isso! Já você… Aposto que queria que eu fosse a Kátia Figueiras, sua tiete número um.

Fernando: Ela ao menos me apóia.

Sara: Você quer um fã-clube ou uma família?

Fernando: Eu esperava que os meus familiares fossem meus fãs, assim como eu sou deles. Não posso ter os dois?

Sara: Não.

Fernando: Que pena. – Ele diz, se despede e se desculpa com o psicólogo e vai embora.

Sara fica sentada um tempo, lágrimas surgem em seus olhos, mas não caem.

Sara: Desculpa. Eu acerto com você depois, ok? – Ela diz e se retira.

29. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO CARLOS – SALA

Carlos e Sérgio estão assistindo um filme em frente à TV, quando o celular de Carlos toca. Ele pára o filme e vai atender em outro ambiente. Depois de um tempo, ele volta.

Carlos: Novidade. – Ele diz sorrindo.

Sérgio: Conta!

Carlos: Lembra que você me contou tudo aquilo sobre seu emprego no dia do debate?

Sérgio: Lembro.

Carlos: Então… Um dos meus clientes lá no escritório é dono de um restaurante. – O rosto de Sérgio, que antes estava sorridente, começa a ficar sério – Falei com ele e tcharam: Ele conseguiu uma vaga para você! E na cozinha, não é demais? Digo, não é nenhum restaurante francês ou algo do tipo e você não será o chef principal, mas já é alguma coisa. – Sérgio fica em silêncio. O semblante de Carlos também se torna sério. – O que foi? Não gostou?

Sérgio: Não é isso, Carlos… Eu sei que suas intenções foram boas, mas eu não posso aceitar.

Carlos: Por que não?

Sérgio: Eu não fiz nada para merecer esse emprego! Não fui chamado porque adoraram meu trabalho ou porque me dei bem numa entrevista. Me chamaram porque você mexeu seus pauzinhos.

Carlos: E qual é o problema disso? Eu conheço seu trabalho, sei que você é um excelente profissional e uma ótima pessoa e o meu cliente confia em mim.

Sérgio: O problema é que às vezes eu sinto que você tem vergonha de mim. Eu sei que tudo que você me diz é verdade e que você gosta de mim, mas só entre quatro paredes.

Carlos: Bobagem!

Sérgio: Primeiro você não quer que eu participe de qualquer evento da sua família, depois você quer que eu mude de emprego…

Carlos: Eu não quis nada! Você que reclamou e eu quis agradar!

Sérgio: Eu não reclamei para pedir nada! Reclamei porque confio em você e acho que uma relação precisa de afinidade e cumplicidade, e portanto nós deveríamos poder compartilhar as nossas felicidades e frustrações também.

Os dois ficam em silêncio por certo tempo.

Carlos: Desculpa. Não queria brigar com você, só queria te agradar. – Ele diz se aproximando.

Sérgio: Eu sei. Brigado. – Os dois se abraçam e trocam um beijo rápido, ainda meio ressentido. – Vamos esquecer isso. O filme espera.

Os dois voltam a se sentar e assistir o filme com muitos pensamentos na cabeça.

30. INTERNA – DIA – ADVOCACIA RIACHUELO

Na recepção, uma mulher loira estava sentada em uma poltrona, com as pernas cruzadas e folheando uma revista.

Secretária: Senhora Vera, o senhor Freitas já pode atendê-la. – Vera se levanta e sorri.

Ela entra na sala do advogado e se senta em frente a ela.

Vera: Bom dia, Filipe. Quanto tempo!

Filipe: Muito! Como posso ajudá-la hoje, Vera?

Vera: É sobre a herança da minha filha, Rebeca…

Continua…

Trilha Sonora

Cena 09: Last Request – Paolo Nutini

Cena 22: Rehab – Amy Winehouse

Cena 26: Cold Water – Damien Rice

Cena 27: Sail Away – The Rasmus

Cena 28: Disappear – Hoobastank

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6 Respostas to “Encontros e Desencontros”

  1. Carine Dávalos Says:

    Como disseram os Andrades ao explicar o episódio: “sem grandes surpresas, mas um delineador para o que há por vir”
    Não entendi porque o Sérgio não se motivou com a ajuda do Carlos, odeeeio gente orgulhosa demais!
    Eu me assustei com o Gabs sendo assaltado, >.< …
    Adorei a trilha sonora do episódio, muito interessante…
    Espero q a Rebeca seja bem aceita daqui em diante…
    Aguardando o próximo…
    ;***

  2. Gustavo Says:

    Salve galera.

    Argh!!! Estou com nojo da Vera. Que mulherzinha…

    Sobre o debate, que golpe baixo, mas todos nós sabemos que na política vale de tudo, até mesmo xingar a mãe e colocar dedo no olho. Mas espero que a situação se reverta, ainda mais numa cidade, pelo menos é que demonstra, tão mente aberta, tão diversificada quanto o Rio. Fiquei com pena da Lilian, pois ela me parece ser uma pessoa do bem.

    Será que o povo realmente começou a aceitar a presença da Rebeca ou aquilo tudo foi apenas um “teatrinho”?? Vamos aguardar as próximas cenas.

    Sobre Tomás e Vitória, espero que o amor que um sinta pelo outro aflore e que essas dificuldades iniciais sumam. Espero que o Tomás não fique cego de ciúmes por causa do Lucas. E daí que ele foi namorado da Vitória, isso é passado.

    Coitado do Carlos, não dá uma dentro mesmo. Ele até pode ter tido boas intenções, mas será que não custava ter perguntado antes ao Sérgio sobre um novo emprego??? Como o Sérgio mesmo disso, cadê a cumplicidade, a afinidade? E discordando da Carine, não acho o Sérgio orgulhoso, pois que mal há em querer vencer e conquistar as coisas por mérito próprio? Tá, tudo bem que em certos momentos uma ajudinha é bem-vinda, mas é preciso saber o momento certo…

    E para finalizar, como sempre D. Nora demonstrando a pessoa que ela é. Forte, correta, integra.

    Até o próximo.

  3. Natie Says:

    Finalmente encontro de Rebeca e os irmaos… Gostei deles terem mudado de reação depois da bronca da Nora, mas achei q essa mudança foi mtu rapida… Quero ver como sera o comportamento dos Andrade no proximo epi!!
    Tadinha da Sara… Nem arranjando psicologo da certo…
    Poucas cenas de Carol e Roberto, mas com grandes surpresas!! Filho da p**** do Sebastiao!!!
    Quero ver o q vai dar o lance do Lucas como promotor do caso da Vitoria…
    E q orgulho o do Sergio! Se ele ta mal la no outro emprego, tem q aceitar esse! E o Carlos com ctz so teve a intenção de ajudar…
    E esse final!!! Vera, hate you! haha…

    Beijooos…

  4. Doug Says:

    Legal. A coisa tá esquentando! Tô doido pra ler o próximo episódio!

  5. Laís Says:

    Loiras e ex são um problema e tanto, agora a Vera quer herança? espertinha… E to ficando com muito ódio das K´s dessa história, é que sou uma mistura de Carol com Sara, me identifico, não tem uma K na minha vida, mas loira sim…
    rs

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