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Nos episódios anteriores: Fernando e Sara têm uma conversa final. Rebeca decide virar oficialmente herdeira de Guilherme. Pâmela dá em cima de Carlos. Diva descobre que Carlos é gay. Nora cria um blog para postar seus textos. Tomás está obcecado em descobrir o culpado do acidente de Vitória. Carol pensa em voltar a morar no Rio de Janeiro.

01. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS

Carol: Shiiiii! – Carol fazia sinal de silêncio para Sara e Tomás, enquanto os três adentravam cuidadosamente o apartamento de Carlos.

Tomás: Agora você pede silêncio – sussurra – Se depois do seu escândalo por causa da chave, ele não acordou, ele não acorda mais com nada.

Carol: Culpa sua. Sua única função aqui era conseguir a bendita chave, mas parece que eu tenho que resolver tudo sozinha.

Sara: Silêncio os dois! – fala baixo chamando a atenção dos irmãos para a porta do quarto que estava aberta –Vamos?

Os três, devidamente equipados com seus acessórios surpresas, entram no quarto.

Sara, Tomás e Carol: Feliz aniversário! – os três gritam ao mesmo tempo, fazendo algazarra com seus objetos coloridos e barulhentos, mas logo se calam chocados com o que vêem.

36 HORAS ANTES

02. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE CARLOS

Carlos acabara de chegar do trabalho. Ao se aproximar de sua porta, ele percebe que Pâmela está ali, em pé, olhando para o chão. Ele revira os olhos e continua andando, cansado. Ao chegar mais perto, ele percebe que ela não olhava para o chão, mas sim para um pequeno embrulho.

Carlos: Isso é seu?

Pâmela: Não. Seu “namorado” deixou aí. Pediu que eu vigiasse.

Carlos abre um largo sorriso.

Carlos: E você estava vigiando?

Pâmela: Eu teria jogado fora mas queria saber o que tinha aí dentro. Eu não abri porque senão você ficaria chateado.

Carlos: Bem, obrigado – Carlos faz menção de abaixar para pegar o presente, mas Pâmela o impede.

Pâmela: Deixa que eu pego – Então ela se inclina lenta e sedutora e pega o pacotinho. Ela demora bastante nessa posição e depois se ergue e entrega o pacotinho para Carlos.

Carlos: Obrigado.

Pâmela: Não há de quê, meu bem. Não há de quê. Vamos, abra!

Ele coloca a pasta no chão e abre o pacotinho. Era um relógio. E era caro.

Pâmela: Que relógio horroroso! Cafooona… Espera só até você ver o que eu comprei para você! Mas é surpresa!!! Boa noite!

Carlos: Boa… noite – Pâmela volta para seu apartamento e fecha a porta com uma piscadela, mas Carlos continua ali, parado. Ele olha uma segunda vez para a tampa da caixinha e percebe um recado:

O primeiro de muitos! Você não perde por esperar.

Conte os minutos.

Muitos anos de vida…

Sérgio

03. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA / APARTAMENTO DE CAROL

[♫ – Miss Halfway, Anya Marina]

Sara e Carol conversam por telefone. Enquanto falava com a irmã, Sara preparava um lanche na cozinha.

Sara: Na maioria das vezes não parece que ele saiu de casa. Ele tá todo dia aqui… por causa dos meninos. Diz ele que não consegue ficar muito tempo longe deles.

Carol: Você também não conseguiria.

Sara: É…

Carol: Nossa! É difícil de acreditar, você e o Nando…

Sara: Pois é… – Sara não se sente confortável.

Carol: Quer falar sobre isso?

Sara: Não… Você sabe que não faz meu estilo ficar remoendo… Ainda mais que tornam as coisas mais… reais.

Carol: Mas é real! – Sara permanece em silêncio, então Carol continua – E os meninos como estão com tudo isso?

Sara: O Gabriel já tinha percebido o clima. Embora pareça entender, não quer falar sobre… ou sobre qualquer outra coisa. Vive trancado no quarto agora. Os gêmeos estranham a ausência do pai, mas não sei até que ponto eles entendem o que tá acontecendo…

Carol: Você ainda não conversou com eles?

Sara respira fundo.

Sara: Não…

As duas ficam em silêncio por um tempo.

Carol: Eu queria estar aí…

Sara: Você não vem pro aniversário do Carlos?

Carol: Não, meu tempo de turista terminou… O trabalho aqui tá puxado.

Sara: Nem me fale… – pausa – E se eu casei com o Fernando porque era o mais fácil? – fala de repente – Assim como fazer Administração por causa do papai, ou ficar na Andanças por que era seguro… Se eu deixei apenas a vida me levar?! – Carol fica pensativa enquanto a irmã desabafava.

Carol: Se você quiser conversar sobre isso…

Sara: Ah, Carol… – esquiva-se – Esquece, é só que agora dei para questionar todas as decisões da minha vida… Acho que faz parte.

Carol: Tá bom… Vou ver se apareço aí no final de semana. Se eu conseguir uma vaga no leito sexta à noite, estarei aí no sábado pela manhã.

Sara: Dependente dos ônibus ainda, Carolzinha?

Carol: Cada qual com seus receios, Sara…

Sara: É… – suspira – Tenho que ir agora. Beijos!

Carol: Beijos!

Carol desliga o telefone e começa a mexer impacientemente em alguns livros e papéis que estavam por perto, e percebe que na contracapa do livro Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago, tem escrito algo e lê:

Resoluções para 2008:

Não faça planos, faça escolhas.

Carol: Droga! – resmunga e joga o livro na mesa.

04. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – QUARTO DOS GÊMEOS

Sara entra no quarto dos filhos menores carregando alguns lanches. Eduardo via televisão, e Rafaela mexia em alguns brinquedos no armário.

Sara: Ei, pequenos, sanduíches! – lentamente os dois aproximam-se e pegam um. – Queria conversar com vocês… sobre eu e o papai. – Anuncia, sentando-se próxima aos filhos.

Rafaela: Ele vai dormir em casa hoje? – pergunta esperançosa.

Sara: Não, querida.

Rafaela: Por quê?

Sara: Eu e o pai de vocês estamos precisando de um tempo para pensar.

Eduardo: Papai tá de castigo?

Sara: Não, meu filho. – sorri triste – Só estamos com alguns problemas de adultos. – pausa – Mas seu pai sempre passeia com vocês, não é?

Rafaela: Mas você não vai mais com a gente! – acusa.

Sara: Eu também posso passear com vocês, Rafa.

Rafaela: E o papai vai poder ir também?

Sara: Claro… – responde desconfortável – Mas vejam pelo lado bom, vocês terão passeios em dobro: comigo e com seu pai.

Rafaela: Eu quero ir com os dois!

Sara: Rafa, – olha com cuidado para filha – vai ter momentos que isso não vai ser possível, mas, olha só, você pode me contar tudo que fizer com seu pai depois… Melhor ainda, agora que você aprendeu a escrever, você pode colocar os melhores momentos no seu caderno da Polly – diz pegando o caderno que estava no chão e passando para filha – Depois lê pra mim, hum? – Rafaela interessa-se, mas se mantém recuada – Aliás, vocês dois, né, Dudu? – Sara fala pro filho.

Eduardo: Ah, eu não quero escrever. – Diz manhoso.

Sara: Mas é preguiçoso demais esse meu filho! – diz bagunçando o cabelo de Eduardo, que ri – Então, sabe o que você pode fazer? – Ele olha interessando – Tirar fotos!

Eduardo: A senhora vai deixar eu pegar a câmera?! – Sara confirma com a cabeça – Oba! – Ele comemora.

Rafaela também fica mais animada.

Sara: Olha só, que dupla! Minha jornalista e meu fotografo!

Sara pega um sanduíche e aconchega-se com os filhos, passando a ver TV com eles.

05. INTERNA – DIA – BANCO / LIVRARIA ANDANÇAS CENTRAL

Tomás estava preocupado com Vitória mais que o normal: hoje era o primeiro dia de trabalho dela desde o acidente. E ele não parava de ligar para ela.

Vitória: Oi, amor!

Tomás: Oi, é bom ouvir sua voz – Tomás houve barulhos do outro lado da linha – Está tudo bem?

Vitória caminha para um lugar mais silencioso.

Vitória: Está. Eles fizeram uma festinha pra mim, acredita? De boas-vindas!

Tomás: Uau, Vi, isso ótimo.

Vitória: Não é?! Ai, Tomás – Vitória estava emocionada – eu achei que… eu não acreditei que fosse conseguir, mas… eu consegui! Eu acho que eu, que eu precisava disso. Eu consegui.

Tomás: Que bom. Olha, se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa, é só me ligar. E quando o expediente acabar, me liga que eu te busco, tá?

Vitória: Tá.

Tomás: Então, tchau. Divirta-se na festa.

Vitória: Tchau. Ah, Tomás…

Tomás: Sim.

Vitória faz uma pausa.

Vitória: Nada.

06. EXTERNA – DIA – RUAS DO RIO DE JANEIRO

Vera passou a manhã toda fora, visitando uma editora. Ela planejava visitar outra, mais tarde. Como já estava na hora do almoço, ela resolveu fazer uma pausa e ligou para sua filha.

Rebeca: Oi, mãe.

Vera: Oi, Beca, tudo bem?

Rebeca: Sim. Tá tudo bem? – Pergunta, estranhando a ligação da mãe.

Vera: É claro que está. Você está ocupada agora?

Rebeca: Não, tô saindo da faculdade. Por quê?

Vera: Você não gostaria de vir almoçar comigo?

Rebeca pensa um pouco.

Rebeca: Olha, mãe…

Vera: Não tocarei “naquele” assunto. Eu estou com saudades suas, Beca.

Rebeca: Tá bem. Onde vamos comer?

Vera: Ótimo. Eu estou no Vide Gula. Pode me encontrar aqui?

Rebeca: Posso sim. Até daqui a pouco.

Vera sorri, satisfeita.

07. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES / APARTAMENTO DE SARA

Enquanto ajeitava algumas coisas na cozinha para o jantar de aniversário de Carlos, Nora usava o computador, algo que tinha virado uma constante em seu dia desde que criara o blog Crise dos 60. Seus posts já começavam a ter comentários, em sua esmagadora maioria de suas amigas, as únicas pessoas para quem ela havia contado sobre a idéia. Também já tinha alguns de amigas das amigas e de amigos de Gabriel, porque o garoto havia divulgado o endereço do blog da avó no seu próprio blog. Os comentários eram positivos, e ela ficava radiante ao lê-los, como estava no momento. De repente ela fica com uma expressão confusa, não estava entendendo muito bem um dos comentários. Imediatamente ela pega o telefone.

Nora: Gabs, o que é ADD, BLZ e BJS? – diz soletrando as letras.

Gabriel: É o quê, vó?!

Nora: Uma pessoa escreveu isso no meu blog…

Gabriel: Ah… Você pode ler o comentário inteiro para eu captar a idéia?

Nora: Certo, peraí – ela ajeita os óculos e começa a ler para Gabs – “Adorei seu blog. Vou te ADD no meu, BLZ? BJS! Kellynha”.

Gabriel: Ah, vó, ela tá dizendo que vai colocar um link do endereço no seu blog no blog dela. Sabe link, aquilo que eu te falei, que você clica e vai para outro site?

Nora: Hum, sei… Então, essas siglas significam isso?

Gabriel: ADD é adicionar, BLZ é beleza e BJS é beijos, entendeu?

Nora: Ah, tá… Que garota simpática!

Gabriel: A senhora devia ir no blog dela e deixar um comentário também, daí ela sempre vai voltar para ler o seu… É assim que funciona. Jogo de interesses, sabe…

Nora: Peraí que eu vou entrar – ela clica e vai parar numa página toda rosa e florida cheia de textos com o típico internetês e miguxêsGabs, não estou entendendo nada, ela não usa vírgula e coloca uma letra maiúscula e outra minúscula sempre… não consigo ler direito.

Gabriel: Ih, vó, melhor sair daí e não voltar mais, vai queimar teu filme!

Nora: Certo, certo… – diz fechando a página – E como você tá, querido?

Gabriel: Tô bem… – responde evasivo

Nora: Tem falado com seu pai?

Gabriel: Uhun…

Nora não se convence muito da resposta, mas acha melhor não pressionar o neto.

Nora: Qualquer coisa sabe que pode contar comigo, né? E obrigada pela ajuda.

Gabriel: Tá, de nada…

Nora: Beijos, querido!

Gabriel: Beijos… tchau, vó!

Nora desliga o telefone e digita outro endereço no computador, indo parar no blog de Gabriel. Então, ela lê o último post do neto. Havia dois trechos de músicas do Cazuza, seguidos de um breve texto escrito pelo próprio Gabriel.

Efeito Dominó

“Tudo bem, você se mandou. Não agüentou o peso da barra. Que é escolher viver de verdade. Se arregou, parou na metade”.

“Sexta-feira: Assunto de família: Melhor fazer as malas e procurar uma nova. Só as mães são felizes.”

Ouvindo Cazuza, coisas que ele sempre me fazia escutar, acabei pegando o gosto pela coisa. Mas agora, como pedras de dominó, as minhas certezas vão caindo uma por uma…

Nora fica preocupada com o que lia, mas antes que ele pudesse pensar em algo, o microondas apita na cozinha, fazendo-a sair do transe.

08. INTERNA – DIA – BISTRÔ VIDE GULA

Quinze minutos depois de terem se falado por telefone, Rebeca chega no bistrô. Ela encontra a mãe sentada numa mesa próxima à janela.

Rebeca: Oi! Você tá bonita hoje!

Vera: Obrigada. Você também.

O garçom apareceu e as duas fizeram o pedido.

Vera: Como você está?

Rebeca: Nossa, eu tô bem. Cansada, mas bem.

Vera: Época de provas, né?

Rebeca: É, semana que vem é a última semana, se eu passar em tudo.

Vera: Isso não me preocupa. É claro que você passa – Vera nota a bolsa de Rebeca. Ela estava meio surrada, com um rasgo pequeno no canto. Ela também notou que ela estava com sua câmera fotográfica consigo. – Tirando muitas fotos?

Rebeca: Um pouco. Quer ver as últimas que tirei?

Vera: É claro!

Rebeca mostra as fotografias para Vera, que as elogia, empolgada.

Rebeca: Ah! Essa daqui é ótima! Minha amiga, Susana, você conhece, né? Então, ela estava correndo feito uma doida – e Rebeca começa a rir e falar ao mesmo tempo.

Vera: Calma! Ri primeiro, depois me conta…

Rebeca: Eu… sei… – diz, ainda rindo.

De repente, Vera vira a câmera e tira uma foto de Rebeca.

Rebeca: O que foi isso? – diz, parando de rir, aos poucos.

Vera: Por essa você não esperava, né?

Rebeca: Não mesmo. – diz rindo. – Deixa eu ver como ficou.

Vera: Ficou ótima!

Rebeca: Olha só a minha cara!

Rebeca, então vira a câmera para a sua mãe e bate uma foto. E as duas assim almoçaram, juntas, se divertindo e tirando retratos uma da outra.

09. INTERNA – DIA – ANDANÇAS CENTRAL

Sara mexia em algumas caixas no alto de uma estante, Tomás observava-a, divertindo-se com o esforço e confusão da irmã. Sara pára e coloca as mãos na cintura, encarando Tomás.

Sara: Tomás, você tá tão bonito hoje! – diz simpática – Não quer me ajudar aqui, não?

Tomás: O quê você tá procurando mesmo? – levanta-se e aproxima-se da irmã.

Sara: Alguns dados sobre nossas ações de marketing, para incluir na apresentação para UFRJ. – diz apontando uma caixa enorme para Tomás – Essa mania do papai de armazenar tudo em papel…

Tomás: Ah, é verdade, a palestra é hoje, né? Preparada?

Sara: Muuuiiito! – responde irônica – Tanto que só lembrei hoje, estou fazendo tudo às pressas…

Nesse instante, Tomás levanta a caixa, e começa a sentir dores e queixa-se baixinho.

Sara: Só não digo que você está ficando velho, porque isso significaria que eu estou mais – fala, indo ajudar o irmão.

Tomás: Bem mais velha…

Sara: Apenas um ano e dois meses, Tomás Andrade! – solta a caixa, fazendo Tomás gemer de dor – Desculpa… – preocupa-se.

Tomás: Tudo bem, essas dores estão constantes, mas com esforço, elas se agravam.

Sara: Você devia procurar um médico.

Tomás: Aqui… – passa alguns documentos para ela – Boa sorte hoje!

Sara: Obrigada, vou precisar.

Tomás: Sara… – ele chama a irmã, que se vira, Tomás olha-a com cuidado – Você tá bem? – Sara balança a cabeça em sinal de “mais ou menos” – E o Nando?

Sara: Suas coisas ainda estão lá e suas visitas são constantes… – fala vagamente.

Tomás: Hum, mas ele tá lidando bem com isso?

Sara dá de ombros.

Tomás: Se bem o conheço, deve tá isolado do mundo.

Sara: Ou não… – diz e retira-se da sala, deixando Tomás intrigado.

10. INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA ADVOGADOS – ESTACIONAMENTO / RESTAURANTE LE PETIT MARCEAU

Carlos andava pelo longo estacionamento com um embrulho em mãos: era outro presente que Sérgio tinha deixado em sua sala. Ele praticamente corria, pois estava atrasado. Sérgio liga para ele.

Carlos: Eu ia te ligar agora. Acabei de achar o segundo presente!

Sérgio: Gostou?

Carlos: Não abri ainda. Eu já estou indo para o carro.

Sérgio: Ainda? Você vai se atrasar…

Carlos: Eu sei, desculpa. Eu tive que resolver um monte de coisas aqui.

Sérgio: Carlos… eu queria você aqui, do meu lado.

Carlos percebe que Sérgio está com medo de reencontrar os pais. Ele estava em pé, ao lado de seu carro.

Carlos: Não se preocupe. Vai dar tudo certo. Vou tentar chegar aí o mais rápido possível.

Sérgio: Ah, não. Eles acabaram de chegar.

Carlos: Boa sorte! – e desligam. Carlos entra no carro, coloca a pasta no banco traseiro e nota que há um presente ali. – Três!

Ele abre os dois pacotes. O segundo era um par de óculos escuros caros e o terceiro era um par de ingressos para um show.

No restaurante, Sérgio se levantou para cumprimentar seus pais, Augusto e Elisa Bragança.

Elisa: Meu filho! – Os dois se abraçam.

Augusto: Sérgio! – Os dois se abraçam também.

Os três sentam-se, porém ninguém fala nada. Eles ficam se encarando por poucos minutos, mas pareceu uma eternidade para Sérgio.

Elisa: Você tem noção de como você nos deixou preocupados? Sem notícias suas por meses…

Augusto: Elisa, calma.

Sérgio estava nervoso e consultava o relógio a cada instante.

Elisa: Não me peça para ficar calma, Augusto. Eu tenho todo o direito de…

Sérgio: Desculpa, mãe. Desculpa.

Elisa: Desculpas não corrigem o que você fez, Sérgio!

Augusto: Elisa!

Elisa pára de falar, contrariada, e passa a respirar com força. Sérgio olhava de seus pais para seus joelhos.

Augusto: Sérgio, explique-se.

Sérgio: Mãe, pai… vocês têm motivos para…

Elisa: Nós só queremos entender!

Sérgio: Eu… eu trabalho aqui.

Augusto: Aqui onde?

Sérgio fica ainda mais nervoso. Ele limpa o suor da testa, olhando desesperado para a entrada do restaurante.

Sérgio: Aqui – diz com a voz embargada.

Elisa: Aqui, “aqui”?

Sérgio estava a ponto de passar mal. Naquele momento, Carlos chega.

11. INTERNA – DIA – GRUPO EDITORIAL

Visitando sua segunda editora, após o almoço com sua filha, Vera observava tudo com minuciosa atenção, enquanto um funcionário à guiava.

Guia: Se a senhora me acompanhar aqui, à esquerda, poderá observar nossa sala de impressão.

A sala estava fechada, mas Vera podia enxergar tudo pela porta de vidro.

Vera: São pouquíssimos funcionários… Tudo automatizado.

Guia: Correto, senhora.

Vera: Eu poderia entrar?

Guia: Infelizmente, não, senhora. As impressoras estão funcionando. Se a senhora entrasse, poderia ver o conteúdo dos livros antes da publicação.

Vera: Oh, é verdade – os dois prosseguiram com a visita – Ah, eu gostaria de conseguir também os balanços patrimoniais e outras demonstrações obrigatórias, se possível.

Guia: Sim, senhora.

12. INTERNA – DIA – RESTAURANTE LE PETIT MARCEAU

Sérgio: Carlos!

Augusto: Quem é Carlos?

Carlos andava pelo restaurante em direção a mesa de Sérgio.

Sérgio: Mãe, pai, esse é meu namorado, Carlos. Carlos, esses são Elisa, minha mãe, e Augusto, meu pai.

Carlos: Muito prazer.

Elisa: O prazer é nosso, Carlos.

Carlos: Não esperava por uma recepção tão… boa. Sérgio disse que vocês aceitavam bem, mas eu não achei que fosse tanto.

Augusto: Foi um pouco complicado no começo, mas…

Elisa: Nas primeiras semanas, apenas. Nós tínhamos medo pois nós conhecíamos um Sérgio e de repente, um outro Sérgio aparece na nossa frente! Mas não era um novo Sérgio. Ele sempre fora assim.

Augusto: Não foi assim na sua família, Carlos?

Carlos: Bem…

Elisa: Carlos, eu e Augusto adoraríamos te conhecer melhor, mas precisamos resolver nossas pendências com Sérgio. Sérgio, eu quero uma explicação! Eu “mereço” uma explicação!

Carlos se assusta com o comportamento de sua nora. Sérgio estava atônito e não sabia o que responder.

Augusto: Elisa, calma!

Elisa: Eu estou calma.

Carlos: Porque não começamos pelas coisas primeiras? Sérgio…

Sérgio começou a falar, mas ele estava gago. Carlos o observava com pena.

Carlos: Sérgio acabou de ser promovido.

Augusto: Promovido?! Mas isso é excelente, não é, Elisa?

Elisa: É, realmente.

Carlos: Sérgio?

Sérgio: Eu não fui, bem, “promovido”. Eu trabalhava como barman, aqui.

Elisa: Aqui no restaurante?

Sérgio: É.

Carlos, ao perceber que Elisa e Augusto iam começar a falar, interrompe-os.

Carlos: Mas o Sérgio agora é chef! – E vira-se para Sérgio. – Diga a eles.

Sérgio: Eu… eu preciso ir ao banheiro.

Sérgio sai. Carlos nunca o viu tão intimidado. Os três, ainda à mesa, trocam olhares um tanto constrangidos.

Elisa: Você é muito bonito. Há quanto tempo estão juntos?

Carlos: Quase dois meses. – Carlos hesita. – Olhem, me desculpem, mas eu tenho que perguntar: ele sempre fica tão… intimidado quando está perto de vocês?

Elisa: Eu não entendi…

Carlos: Eu acho que eu fui bem claro. Tudo o que Sérgio faz ele faz pensando em agradar vocês. Não sejam tão duros com ele.

Augusto: Mas nós não somos…

Carlos: Só tentem ser mais… delicados.

Sergio estava voltando do banheiro. Ao se sentar, visivelmente mais calmo, ele nota a sua mãe o encarando.

Elisa: Filho, querido, então você é chef aqui. Como é o dia-a-dia de um chef?

Sérgio sorri e começa a discorrer sobre seu dia.

13. INTERNA – DIA – JORNAL ÁGORA SÃO PAULO

[♫– Miss Halfway, Anya Marina]

Carol revisava uma matéria em sua mesa quando um colega interrompe sua concentração.

Ícaro: Já viu o jornal de hoje? – Pergunta a Carol, apontando pro jornal.

Carol: Claro…

Ícaro: A coluna social também?

Carol: Por quê? – Intrigada.

Ícaro: Tem algo que lhe interessa, hum, especificamente na página 04. – Informa conferindo no jornal em suas mãos.

Carol tenta demonstrar falta de interesse, mas segundos depois, levanta-se da sua mesa, indo em direção a do colega e arranca o jornal de suas mãos. Então, ela vê uma foto de Roberto ao lado de uma mulher. Ambos estavam elegantes. Em baixo da foto havia a seguinte nota: Deputado Roberto Pelegrini, na foto acompanhado da elegantérrima e simpaticíssima Patrícia Furtado, também foi um dos presentes na festa beneficente da Viva Rio. Boatos afirmam que depois da volta de Carol Andrade para São Paulo, o namoro do deputado com a jornalista esfriou. Será?

Carol: Que absurdo! Eu não estou nem há duas semanas aqui em São Paulo, e já ficam especulando.

Ícaro dá de ombros. Carol volta a sua mesa, e, disfarçadamente, pega seu celular e manda uma mensagem para Roberto. Em seguida, Frank, o editor de Política do jornal, chega. Ícaro passa encará-lo, fazendo gestos e apontando para Carol, lembrando-o de algo referente à colega. Frank capta a mensagem e aproxima-se de Carol, que nesse momento batia ansiosamente com uma caneta na mesa.

Frank: Carol, vamos para minha sala?

Carol sabia do que ele se referia, e levanta-se num salto.

Frank: Eu estive considerando sua situação. – Fala depois que ambos já haviam sentando – Você é alguém que prezo bastante. Competente, responsável, inteligente… – Carol ouvia tudo atenta – Mas, veja bem – hesita –, seu cas… seu relacionamento com um político, nos leva a algumas questões, hum, digamos, sensíveis… Você compreende, não é?

Carol: Claro – confirma insegura.

Frank: Pois bem, não queremos perder uma profissional do seu porte, mas também temos que evitar futuros problemas. – Carol hesita querendo pronunciar-se – Por mais que eu confie na sua ética profissional, – Frank adianta-se – você há de convir que não é uma postura que o jornal incentive.

Carol: Entendo, mas o que você quer dizer com isso, Frank?

Frank: Indo direto ao ponto: os superiores – aponta para cima e faz uma referência, fazendo Carol rir de leve – propuseram que você mudasse de editoria.

Carol: Como?

Frank: Eu acho o mais sentado e adequado a se fazer nessas condições… Eu particularmente acho que você nasceu para política, mas acredito no seu potencial.

Carol: Er… obrigada… Eu acho. – Fala insegura – É algo definitivo essa decisão deles? Se eu não aceitar serei demitida?

Frank: Não sei se chegaria a esse ponto, mas provavelmente sofreria alguns boicotes nas suas reportagens ou mesmo alguma pressão externa… Me entende?

Carol: Entendo… – pausa – Mudando de editoria, eu conseguiria ser transferida para o Rio?

Frank: É possível, há vagas e eles também estão dispostos a considerar a questão. Na verdade, eu já ia te falar isso… É essa mesmo a sua vontade? Voltar ao Rio?

Carol: Sim, acho que sim… Se vou ter que mudar de área de qualquer forma, que seja em casa

Frank: Você realmente está gostando do Pelegrini, hein! Espero que ele mereça tudo isso…

Carol: Se ele não merecer, minha família merece.

Frank: Ok, então, cuidarei dos detalhes da transferência. Talvez você ainda possa escrever alguns artigos para gente.

Carol: Será um prazer… Política é minha sina.

Chefe: Sentiremos a sua falta, Carol – sorri carinhoso.

Carol: Eu também – fala retirando-se da sala.

Quando chega a sua mesa, vê que recebeu uma mensagem de Roberto: “Adoro você com ciúmes. Só tive que fazer a social. Ossos do ofício. Saudades”. Isso a deixa mais tranqüila.

14. INTERNA – N0ITE – UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – AUDITÓRIO

Sara estava nervosa diante a platéia formada por estudantes de Administração. Gabriela, sua amiga da época da faculdade e professora do curso, explicava a ela os detalhes dos recursos audiovisuais que Sara usaria na palestra.

Sara: Gabi, nenhum dos seus alunos são gênios precoces que adoram fazer perguntas difíceis para nos deixar de saia justa, né?

Gabriela: Sarita, relaxa, você sempre foi a melhor de nós nos seminários. E agora você só tem que encarar graduandos impressionados ou entediados, não mestres e doutores enjoados e maléficos – riem.

Sara: Não sei se tem muita diferença entre esses dois… – ergue as sobrancelhas, fazendo uma expressão preocupada – Mas o pior é que não tive tempo, nem cabeça para preparar algo descente…

Gabriela: Problemas no paraíso?

Sara respira fundo.

Sara: Longa história, longa história… – esquiva-se.

Gabriela: Como diria Mestre Júlio Alcântara: Quero saber de tudo, principalmente dos detalhes sórdidos! – brinca, fazendo Sara rir de leve – Vamos lá? – diz apontando o local onde Sara ficaria.

15. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE CARLOS

Carlos estava saindo de seu apartamento quando ele encontra com Pâmela.

Pâmela: Feliz aniversário!!! – Pâmela corre e o abraça.

Carlos: Ei, vai com calma! – Diz, rindo.

Pâmela: Espero que goste. – E ela lhe estende um embrulho. – Na verdade, eu espero que seja melhor que os que o “Sérgio” te deu, mas se você gostar eu fico feliz também.

Carlos abre o presente. Era uma camisa azul.

Pâmela: Você fica ótimo de azul! Experimenta?

Carlos: Agora?

Pâmela: Aham! Tira logo essa camisa! – E ela desabotoa o primeiro botão da camisa. – Ah, de camisa por baixo, né? Pode experimentar depois. – E começa a sair.

Carlos: Espera. Obrigado pelo presente. – E Carlos a beija no rosto. Pâmela de repente se acalma e sorri.

16. INTERNA – N0ITE – UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – AUDITÓRIO

Sara: Camila, a gente tenta focalizar todas as estratégias diretamente no leitor, fazendo dele nosso início, meio e fim. – Sara respondia a pergunta de uma das estudantes – O Literofágico, cartão que acumula pontos que podem ser trocados por descontos ou produtos da livraria, reflete bem a nossa intenção de fidelizar o público. Os eventos que promovemos também têm essa missão. Usamos os lançamentos de livros e os sarais para nos aproximamos dos leitores, criarmos um vinculo. Enfim, buscamos tornar a livraria um ambiente aconchegante. Que o leitor se sinta em casa, mas numa casa recheada de cultura e informação.

Todos prestavam muita atenção às palavras de Sara.

Gabriela: Bom, pessoal, a conversa tá boa, mas vamos ter que finalizar por aqui. – interrompe – Queria agradecer minha querida e competentíssima amiga Sara por ter aceitado o convite e ter compartilhado um pouco do seu conhecimento e experiência conosco.

Sara, então, é aplaudida pelos alunos.

17. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Carlos, Sérgio, Tomás e Vitória estavam conversando na sala.

Nora: Não vejo a hora da Sara chegar – diz entrando no recinto.

Carlos: E onde ele está?

Tomás: Ela tinha uma palestra na UFRJ no final da tarde, mas deve tá chegando…

Nora: Por favor, sejam legais com ela… Não é fácil o que ela está passando.

Carlos: Mãe, a senhora é que é pra ter cuidado, ela não quer falar do assunto, e a senhora sempre insiste em conversar sobre esse tipo de assunto. – Fala pausadamente, e Nora lhe lança um olhar irritado – Carol me disse que bem que tentou arrancar algo, mas Sara está relutante em comentar… Então, vamos respeitá-la.

Nora: Quando você falou com a Carol? Ela liga pra você e não liga pra mim?

Carlos: Mãe, hoje é meu aniversário, lembra?

Nora: Ah… Júnior também te ligou?

Carlos: Sim. E está vivo, não se preocupe.

Nora: Afe, Carlos…

Carlos: “Afe”? – Nora o ignora, revirando os olhos.

Tomás: E o Fernando?

Carlos: Mandou uma mensagem no celular. Deve tá querendo também evitar “o” assunto. Mas nada impediu que ele tirasse um pouco com a minha cara… – revira os olhos.

Tomás: Queria ligar pra ele, mas tenho medo de parecer que estou tomando partido.

Carlos: Realmente – concorda.

Nora: Deixem de besteira. Tenho certeza que Sara não quer que a gente se afaste dele… Não importa o que aconteça, Fernando sempre será parte da família.

Vitória: Ele vem hoje?

Carlos: Não… Só falta a Sara e as crianças mesmo pra gente começar.

Tomás: E o tio Saulo e a vovó.

Carlos: Como eu disse, só falta a Sara e as crianças mesmo. Ah, e o tio Saulo.

Nora: Filho, você vai ficar bem? Ela me disse que fazia questão de vir… Mas eu conversei bastante com ela, acho que pode se comportar civilizadamente. – ela olha de canto de olha para Sérgio que permanência calado.

Carlos: Mãe, relaxa… Deixa todo o drama para hora que ela chegar.

A campainha tocou naquele instante.

Nora: Eu antendo!

E sai, andando rápido. Ela volta com Saulo e Diva.

Saulo: Cadê o aniversariante?

Carlos se levanta, vai até Saulo e o abraça.

Carlos: Oi, vó.

Diva olha para Nora, que olha séria para a mãe.

Diva: Oi. – Diz, um tanto ríspida.

Sérgio se levanta e vai até Diva.

Sérgio: Dona Diva, é um prazer conhecer a senhora.

A família Andrade fica apreensiva.

Diva: Quem é você?

Carlos: É o meu namorado, vó.

Diva arregala os olhos, assustada, levando a mão ao peito. Ela olha para Nora e Saulo, que olham de volta com firmeza. Diva, então, sem responder a Carlos ou a Sérgio, pega uma taça de vinho e se senta.

18. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – SALA

[♫ – Dois perdidos, Arnaldo Antunes]

Sara chega apressada em casa, já gritando pelo nome dos filhos, e surpreende-se ao dar de cara com Fernando, que assistia, sossegadamente, à TV com os filhos menores.

Sara: Vocês ainda estão assim? – briga com os filhos, que nem se mexem – Vão já trocar de roupa, deixei tudo pronto na cama de vocês… Tio Carlos está esperando, vão!

Eduardo e Rafaela levantam-se a contragosto e saem, deixando os pais a sós. Fernando e Sara sentem-se desconfortáveis.

Sara: O quê você veio fazer aqui a essa hora, Fernando?

Fernando: Liguei para cá, eles estavam sozinhos, então…

Sara: Não seria a primeira vez, não é? – acusa – Não se faça de pai preocupado agora.

Fernando: Sara… – repreende – Eu sei que estive ausente nos últimos tempos… – abaixa a cabeça – Mas já é difícil o bastante você ter me feito sair de casa, não queira me tirar de vez da vida deles.

Sara: Você tá louco? Nunca que eu ia fazer isso! Mas para quem antes vivia fora de casa, agora quer viver enfiado aqui?

Fernando: O que eu posso fazer? Eu sinto falta deles e eu não posso levá-los para o apê do Viça, lá é uma zona. Eu mesmo estou dormindo num colchão velho…

Sara: É, mas você também não pode ficar vindo aqui o tempo todo, senão esse negócio… – aponta pra si, depois para ele em sinal de “nós dois” – não vai dar certo.

Fernando: A maioria das minhas também coisas estão aqui, lembra?

Sara: Não tem como você ir para sua mãe?

Fernando: Eu ainda não contei pra ela… Achava que não era preciso… – diz engolindo seco, caindo na realidade.

Sara: Você tem que fazer isso, Ferdi – Fernando fica surpreso por ela lhe chamar pelo o apelido. Sara percebe, e os dois ficam um pouco constrangidos.

Fernando: É, eu sei, tenho que contar… Mas estou esperando um bom momento.

Sara: Ela vai me odiar.

Fernando: Ah, não mais que a mim! – brinca, e os dois sorriem de leve – Onde você estava até essa hora? – Puxa um novo assunto.

Sara: Naquela palestra que a Gabi me convidou para dar pra turma dela, lembra?

Fernando: Ah, sim… Você estava toda empolgada. Foi tudo bem?

Sara: Incrivelmente foi sim… Eles estavam atentos, participativos… – empolga-se, mas logo se contém – Foi interessante – finaliza bruscamente.

Fernando: Bom, bom…

Os dois ficam em silêncio, Fernando aproxima-se carinhosamente de Sara, tentando fitar nos seus olhos.

Fernando: Sá… – ele coloca a mão no ombro dela, subindo um pouco pelo pescoço, indo até o rosto, e aproximando seu rosto do dela, ele sente seu cheiro. Sara tende um pouco com a cabeça pro lado, mas logo se afasta.

Sara: Fernando, não!

Fernando: Não o quê?

Sara: Não seja sonso…

Fernando: Eu sinto sua falta, Sara… – tenta aproximar-se mais uma vez.

Sara: Não dificulte as coisas – sentencia, virando-se de costa para ele, e sentando no sofá do lado aposto. Fernando abaixa a cabeça derrotado e constrangido.

Ambos ficam em silêncio por um tempo.

Sara: Gabs já tá pronto? – quebra o silêncio.

Fernando: Não sei, ele não quis sair do quarto…

Sara: Isso anda acontecendo constantemente… Acho que vou lá falar com ele.

Fernando: Hum, deixa, eu vou lá… – adianta-se.

Sara avalia a situação, pensa em reagir contra, mas recua.

Sara: Fernando, vai com calma… Não força nada, ok?

Fernando assente com a cabeça e retira-se.

19. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – QUARTO DE GABRIEL

Fernando adentra o quarto do filho devagar. Gabriel lia um livro deitado na cama, e quando nota a presença do pai, desvia o olhar.

Fernando: Posso… – diz apontando a cama, Gabriel dá de ombros.

Fernando senta-se, permanecendo em silêncio, esperando algum movimento de Gabriel, que não acontece. Então Fernando resolve pronunciar-se.

Fernando: E aí?

Gabriel: E aí o quê?

Fernando: Você anda me evitando ou é impressão minha? – Gabriel não responde, apenas vira a cabeça – Filho, não era assim que eu queria que as coisas estivessem.

Gabriel: Sei… – responde descrente.

Fernando: O problema é só meu e da sua mãe, não tem nada a ver comigo e com você… E é algo temporário, eu vou resolver isso.

Gabriel: Tá bom, pai – diz não querendo continuar a conversa.

Fernando: Mas até lá, você fica com o título de homem da casa.

Gabriel olha incrédulo para ele.

Fernando: O que eu quero dizer que você agora vai ter que cuidar das nossas mulheres.

Gabriel: E do Dudu.

Fernando: E do Dudu – ri – mas, é só deixá-lo jogar videogame que tá resolvido. Só preste atenção se ele tá comendo direito, não deixe ele passar o dia a biscoito de morango e Toddynho, ok?

Gabriel: Ok…

Fernando: Sua mãe nunca vai esquecer, mas tente lembrar da insulina da Rafa, para não sobrecarregá-la. E lembre a sua mãe que não precisa passar a noite vigiando o sono da Rafa, nem que ela precisa parar de comer, ela é linda do jeito que é… – suspira – Sem exageros no regime, mas a incentive a continuar na academia.

Gabriel: Duvido que ela queira ir…

Fernando: Pois é… E tenha paciência e converse com os gêmeos, ouçam todas suas história, mostre interesse, eles ficam tão empolgados… Ah, e coloque sempre uma boa música para eles ouvirem. Precisamos levá-los para o bom caminho, antes que eles se convertam de vez aos High School Musicals da vida.

Gabriel: Farei o possível… – ri de leve – Mas, pai… – Fernando o incentiva a continuar – Cuide-se também.

Fernando sorri e, emocionado, abraça o filho. Gabriel fica sem jeito, mas não o rejeita.

Fernando: Ei, manda meus parabéns pro Carlos, – Fernando recompõe-se, mudando de assunto – diga que eu nunca imaginei que eles chegaria a essa idade ainda com cabelos – fala sinalizando as entradas na cabeça que Carlos esbanjava desde a adolescência – E não esqueça de mencionar suas marcas de expressão.

Gabriel: Ele vai surtar! – os dois riem.

20. INTERNA – NOITE – CASA DE NORA ANDRADE – COZINHA

Nora: Se mamãe ousar destratar o Carlos mais uma vez eu não respondo por mim! – sussurra a seu irmão.

Saulo: Nora, se acalme. Eu já conversei com ela. É que é difícil para ela aceitar…

Nora: Então que não viesse.

Saulo: Nora!

Nora: Tá, tá, desculpa.

Os dois viram uma taça de vinho.

Saulo: Fiquei sabendo que você conversou com a Vera.

Nora: Pelo amor de deus, Saulo, meu dia já está por aqui! – E leva uma das mãos à testa.

Saulo: Está bem – Saulo pega as garrafas de vinho e sai. Nora fica. Ela percebe que ele ficou chateado.

Tomás: Mãe? Tá fazendo o que aí sozinha? Você tem que proteger o Carlos da vovó.

Nora: Não tem graça… – diz dando um tapinha de leve no ombro do filho. – Ainda bem que não convidei a Rebeca.

Tomás: Você ia convidá-la?

Nora: Ia, mas não acreditei que ela viria.

Tomás: Então deixa eu ver se entendi direito: você não aceita o namoro do tio Saulo com a Vera mas queria convidar a filha dela para o aniversário do Carlos?

Nora: São coisas completamente diferentes! A menina não tem culpa de nada.

Tomás: Apontar culpados não serve de nada. Papai não está mais aqui. E se você quiser enfiar a Rebeca na nossa família, não tem como você impedir a mãe dela de entrar também.

Nora: Ela é filha de Guilherme! Eu, eu não posso simplesmente excluí-la!

Tomás: Poder, você pode. Você só não quer.

21. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA DE JANTAR

Todos já estavam reunidos e jantando em volta da mesa.

Tomás: É estranho ver esses lugares vazios, dá a impressão que a família tá diminuindo…

Nora: Ok, acho que agora está na hora do brinde ao Carlos – interrompe o momento nostalgia que se anunciava.

Carlos: Não, mãe, por favor. – rejeita veemente a idéia.

Nora: Ao meu filho Carlos por toda sua coragem e enorme coração – diz erguendo seu copo.

Tomás: Ao Carlos porque ele é poser! – fala fazendo pose.

Todos riem, e Nora mesmo sem entender a expressão, olha feio para Tomás.

Tomás: Ok, ao Carlos por sua inocência! Ele sempre caía nas histórias que eu contava.

Sara: Realmente, até hoje eu não sei como ele acreditou que tinha um irmão gêmeo que foi abduzido por alienígenas. – ri – Lembro que ele até chorou, coitado, tão inocente! – diz apertando as bochechas de Carlos, que se esquiva.

Nora: Isso foi crueldade, Tomás! – repreende novamente.

Sara: Bom, ao meu irmão Carlos por sempre entender as minhas piadas e, principalmente, por me entender. – fala erguendo seu copo em direção ao irmão, e os dois sorriem emocionados um para o outro. E Nora olha para Tomás como quem diz “tá vendo, isso é um brinde de verdade”.

Rafaela: Ao tio Carlos porque ele é bonito! – diz levantando-se, empolgada.

Carlos: Obrigada, Rafa! Finalmente alguém reconhece minha estonteante beleza…

Gabriel: Ao tio Carlos porque ele é modesto e não se deixa abalar por sua eminente calvície.

Mais uma vez todos riem.

Carlos: Tal pai, tal filho… – resmunga.

Cria-se um breve mal estar na mesa. Sara abaixa a cabeça.

Eduardo: Ao tio Carlos porque ele joga pipoca nas pessoas no cinema! – diz batendo animadamente na mesa.

Sérgio, Sara, Gabriel e Rafaela riem. Nora, Diva, Saulo, Tomás e Vitória ficam sem entender. Gabriel ameaça explicar, mas Carlos mostra o punho fechado para ele, e o garoto recua rindo.

Vitória: Ao Carlos, que me apresentou ao Tomás há muitos anos. Um excelente casamenteiro! – Tomás e Vitória se beijam em meio a suspiros coletivos.

Saulo: Ao meu sobrinho! Que a trinta e cinco anos nos brinda com suas tiradas sarcásticas!

Todos riem. A próxima a brindar seria Diva, que se mantém em silêncio. Nora olha feio para a mãe, e já ia começar a falar, quando Sérgio fez seu brinde.

Sérgio: Ao Carlos! Que me alegra, me estima, me inspira e acredita em mim mais que todos!

Carlos sorri, enquanto os outros batem palmas.

22. INTERNA – NOITE – CASA DE NORA ANDRADE – CORREDOR

Carlos já estava se preparando para ir embora, assim como Saulo, Tomás e Vitória. Sérgio disse a Carlos que esqueceu-se de alguma coisa e foi procurar Diva.

Sérgio: Dona Diva?

Diva vira-se assustada.

Diva: Quer me matar do coração?

Sérgio: Não. Apenas falar com a senhora.

Diva: Eu não tenho nada para falar com você, então, xispa.

Sérgio: Eu gostaria de falar com a senhora, se a senhora puder me escutar.

Diva: Como ousas?!

Sérgio: Eu compreendo que a senhora não entenda a homossexualidade do Carlos. Não importa se por motivos religiosos ou…

Diva: Ele escolheu esse caminho abominável.

Sérgio: Ele não escolheu, Dona Diva, ele nasceu. A senhora é de uma outra época e não tem obrigação de aceitar isso. Mas o seu comportamento no brinde foi infantil e desrespeitoso – Diva não responde. – Sabe, o amor acontece de diversas maneiras. Você escolheu julgar uma delas. – Diva estava lívida. – Tenha uma boa noite, Dona Diva.

23. INTERNA – NOITE – CASA DE NORA ANDRADE – VARANDA

Sara observava os filhos, que brincavam perto da piscina, quando Nora aproximou-se.

Sara: Aí, preguiça de voltar pra casa – fala desabando na cadeira.

Nora: Como você tá minha filha? A gente ainda não teve tempo para conversar…

Sara: Mãe, por favor, eu ainda não quero falar sobre isso.

Nora: É a primeira fase: negação.

Sara olha-a intrigada.

Nora: São cinco fases: Negação, barganha, raiva, depressão e aceitação.

Sara: Essas revistas mulherzinhas que a senhora lê… – fala reprovativa.

Nora: Na verdade, eu li na Internet. – Pausa – Filha…

Sara: Mãe, eu e o Fernando não nos separamos de fato… ainda…

Nora: Como eu disse, negação… – preocupa-se.

Sara: Não, mãe, eu não estou negando nada, pelo contrário, estou encarando o problema de frente.

Nora: Vocês eram Nando e Sara, vocês vão superar isso. O site também dizia que havia a fase superação, onde poderia reatarem.

Sara fica pensativa por uns instantes, respira fundo e prossegue num tom triste.

Sara: Mãe, não sei se uma volta é possível…

Nora: Ok, Sara, estou querendo ser compreensível aqui, te dar um apoio, mas preciso saber o que você realmente quer, o que está sentindo, pensando… Eu ainda não entendo o que aconteceu para vocês chegarem a esse ponto.. – fala já agoniada.

Sara suspira derrotada.

Sara: A questão é que quando lembranças do passado e não algo do presente são as únicas coisas que mantêm um relacionamento, é hora de reavaliar tudo isso, aceitar o problema ou até o possível fim… – suspira – Eu e o Fernando já vínhamos há um tempo nos desentendo, nos evitando, nos magoando e até nos desrespeitamos… Não dava mais, não quero viver assim… – Cala-se tentando evitar o choro.

Nora: Eu não quero tomar partido, nem quero dizer como você tem que agir, nem nada. Sei que você deve estar confusa, magoada, desiludida, tudo isso… Eu falo demais, eu me meto demais, mas eu só quero… – olha para filha com carinho e preocupação – que você saiba que pode chorar, desabafar… faz bem…

Sara: Mãe, não posso pensar nisso toda hora, é dolorido demais.

Nora: Entendo, e você tem esse direito, mas não ache que seus filhos não estão pensando nisso e sofrendo também.

Sara: Eu sei… E isso é o mais difícil.

Nora: Você lê o blog do Gabriel?

Sara: Ás vezes…

Nora: Pois não sei se você viu, mas ele tá escrevendo coisas nele que dá a entender que ele culpa o pai por tudo isso.

Sara: Mas eu nunca…

Nora: Sara… – interrompe – as crianças percebem, e sempre vão tender mais para um lado. Eu não sei, ele deve ter ouvido as brigas de vocês dois quando o Nando voltava tarde pra casa, presumiu que era sempre ele o vilão, e você, a vítima… Ele se preocupa com você

Sara: Não deveria… Esse fardo não é dele. Tento conversar com ele, mas ele anda tão fechado… Aí, porque tudo tem que ser tão difícil?!

Nora: Por que você não escreve um e-mail para ele? É uma forma fácil de se aproximar sem pressioná-lo tanto.

Sara olha intrigada para mãe.

Sara: Deixa eu adivinhar, você também leu isso nesse site?

Nora assente com a cabeça. Sara revira os olhos.

24. INTERNA – NOITE – RUAS DO RIO DE JANEIRO

Depois da festa, Carlos e Sérgio voltavam para casa.

Carlos: Desculpa pela minha avó.

Sérgio: Que isso.

Carlos: Ela ficou sabendo recentemente que eu era gay e ainda não aceitou a situação.

Sérgio: Quem sabe agora ela aceita…

Carlos: Como assim?

Sérgio: Ela me conheceu, não?

Os dois riem.

Sérgio: Brincadeira, é que eu falei com ela.

Carlos: Você o quê?

Sérgio: Espero que não tenha problema. Não foi nada demais.

Carlos: Como ela reagiu?

Sérgio: Bem, eu acho. Ela não respondeu, só ouviu.

Carlos: E seus pais?

Sérgio: Ah, foi maravilhoso! Nós passamos o dia todo juntos!

Carlos: Falando neles, eu queria… bem, não é que eu não tenha gostado, eu gostei, e muito, dos presentes que você me deu…

Sérgio: Sério?

Carlos: Aham, o problema é que… eles são… caros. Demais.

Sérgio: Não precisa ficar com vergonha de aceitar…

Carlos: Não é isso. É que você ainda nem recebeu o seu salário. Não devia gastar tanto assim.

Sérgio: Ah – e dá uma risada sarcástica – e eu achando que nós tínhamos superado isso. Sério, por que eu fiz a mesma coisa que você faz.

Carlos: Da onde você tirou isso?!

Sérgio: Do seu egoísmo. Sinceramente, eu achei que você fosse ficar feliz. Sinceramente, eu esperava mais de você.

Carlos: De novo não…

Sérgio: De novo sim!

Carlos: Eu só quis dizer que você deveria gastar com mais calma!

Sérgio: É, por que eu sou só um cozinheiro e não um “advogado”!

Carlos encosta o carro.

Carlos: Por que você é tão..

Sérgio: Tão o quê? Termina!

Carlos: Seus pais já tem orgulho de você! Não precisa provar mais nada a ninguém!

Sérgio: Eu não sei o que eu estou fazendo aqui.

Sérgio abre a porta e sai do carro.

Carlos: Sérgio!

Carlos sai do carro e vai atrás dele.

Carlos: Volta pro carro, agora! – sussurra.

Sérgio: Some!

Carlos: Você tá fazendo uma cena no meio da calçada! Volta para o carro!

Sérgio: Ah é, tem isso também: você tem vergonha de mim. Por que eu ainda estou alguém que faz questão de me lembrar todos os dias o quanto eu sou um fracasso?

Carlos pára enquanto Sérgio continua a andar, até um ponto de ônibus. Carlos vê Sérgio embarcar e depois o ônibus partir, sem coragem para ir atrás dele.

25. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA

Usando um velho computador que ficava no canto do seu quarto, Sara lia emocionada o blog de Gabriel. Após a leitura, ela resolve seguir o conselho da mãe, e escreve um e-mail para o filho, sem citar o blog, nem fazendo nenhuma relação direta à questão dela com Fernando, mas com várias piadas internas dos dois.

Saudades das conversas aleatórias que eu tinha com meu Gabriel, olhos de mel e coração de papel. Quitéria também manda lembranças.

Beijos,

Mamãe

26. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE CARLOS

Carlos chega em casa de táxi. O taxista chama pelo porteiro, pedindo ajuda: Carlos estava bêbado. O porteiro, então, leva Carlos até o elevador e chama Pâmela.

Pâmela: Muito obrigada, Gilberto. Eu cuido dele agora. – O porteiro sai.

Carlos: Não preciso de ajuda.

Pâmela: Calado. E é melhor você começar a andar, pois eu não consigo te carregar até o banheiro.

Carlos começa a andar sozinho.

Pâmela: Isso, tome um banho frio enquanto eu bato um boldo pra você. Tenho um pezinho na minha janela.

Ao ouvir a palavra boldo, Carlos acelera para o banheiro e vomita. Pâmela retorna a seu apartamento e prepara o chá de boldo. Ao voltar ela vê que Carlos ainda está no banheiro. Ela decide ir ver como ele está.

Pâmela: Carlos? – diz batendo à porta – Tudo bem?

Ela gira a maçaneta e percebe que a porta estava destrancada. Ao entrar, devagar, ela percebe que Carlos estava sentado no chão, ainda vestido, com a água fria caindo.

Pâmela: Ah, Carlos.

Ela corre e tira os sapatos dele.

Pâmela: Toma. Beba tudinho.

Carlos bebeu. Os olhos dele estavam vermelhos. Pâmela senta-se do lado dele, se molhando também.

Pâmela: Quer conversar? Me contar o que aconteceu?

Ela recosta a cabeça de Carlos no seu ombro e começa a enrolar o cabelo dele.

Carlos: Eu… acho que… terminei com o Sérgio.

Pâmela: Vocês brigaram?

Carlos: Não! Eu só bebi metade de um bar porque me deu na telha!

Pâmela se assusta.

Carlos: Desculpa. Você não tem culpa de nada. – Diz mais calmo, olhando nos olhos dela. – Você está sempre por perto quando eu preciso. Obrigado.

Pâmela: De nada.

Os dois continuam se olhando, enquanto a água caía. De repente, Pâmela se inclina e beija Carlos. Ele a afasta.

Carlos: Pâmela…

Pâmela: Desculpa, eu… eu…

Os dois não conseguem falar e ficam se olhando em silêncio novamente.

27. EXTERNA – DIA – ROVIÁRIA DO RIO DE JANEIRO

[♫ – Fire, Bruce Springsteen]

Roberto esperava Carol descer do ônibus. Quando a vê, vai em sua direção. Eles se encontram num abraço e depois se beijam.

Carol: Sempre quis encenar uma cena de comédia romântica assim – brinca.

Roberto: Nossa, saudades de você! – diz abrindo um sorriso e beijando-a mais uma vez – Pra cena ficar completa! – pisca – Aliás, considere isso uma prova de amor. Acordar cedo num sábado para vir te buscar.

Carol faz uma cara de desdém.

Carol: Aproveita a disposição e me ajuda aqui… – diz passando uma bolsa cheia de bugigangas.

Roberto: O quê é isso? – estranha.

Carol: Coisas para surpresa que estou preparando para o Carlos.

Roberto fica intrigado, mas não pergunta nada. E os dois caminham para o estacionamento.

Roberto: Sabia que eu adoro surpresas? – diz quando chegam ao carro.

Carol: Isso foi uma insinuação? – fala encostando ele no carro.

Roberto: Sim, e adorei o ataque surpresa – fala tirando os cabelos dela do ombro e beijando o seu pescoço de leve.

Carol: Muita calma nessa hora, Sr. Pelegrini. – Fala, afastando-se.

Roberto: Você começa e não termina?!

Carol entra no carro.

Carol: Estamos em público… Termino à noite.

Roberto: Ok, vou cobrar… – diz sorrindo e também entra no carro –Você bem que podia cancelar seus planos da manhã para passarmos o dia juntos.

Carol: Você não é o senhor absoluto da minha vida… – brinca – Preciso fazer algo para comemorar o aniversário do meu irmão, já não pude tá no jantar de ontem… Mas a noite é todo sua!

Roberto: Opa! – anima-se.

Carol: Larissa está com os avós esse fim-de-semana?

Roberto: Hum, seus planos para noite são tão inapropriado para menores assim? – insinua-se.

Carol: Não! – Roberto faz cara de decepcionado – Eu pensei em comprar um presente pra ela, o aniversário dela está chegando, não é? – Roberto confirma – Mas não sei muito bem do que ela gosta, então, queria que você me ajudasse a escolher.

Roberto: Tudo bem, mas só ela ganha presentes, é? E eu?

Carol: Bom, para você eu tenho uma novidade – diz ficando um pouco séria.

Roberto: Boa?

Carol: Espero que sim… – suspira – Estou negociando a minha volta ao Rio.

Roberto: Sério? – Carol confirma – Que maravilha! Eles concordaram numa boa?

Carol afirma com a cabeça, não entrando em detalhes como sua mudança de editoria por causa do namoro com Roberto.

28. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

Nora acabara de escrever uma pequena crônica para o seu blog e começa a lê-la em voz alta.

Nora: Assim como uma relação, uma separação tem que ser construída. E tenha certeza, a segunda é extremamente mais difícil e dolorida que a primeira. Pelo princípio básico que é sempre mais fácil juntar algo do que separar, a não ser, claro, que se use a força bruta. Só que quebrar um objeto é uma coisa, jogar um casamento na parede é outra totalmente diferente. Quem vai juntar os pedaços? O que já se destruiu não foi o suficiente?

Nora corrige a última frase e continua a leitura.

Nora: Sem contar que em certos casos, nem apelar para força bruta surte algum efeito. Depois de juntar todos os ingredientes de um bolo e misturá-los numa batedeira, me diga, é possível separá-los de modo que eles voltem a ser como eram antes? Impossível, não é? Casamento também é uma espécie de mistura, ás vezes tão homogênea que fica até difícil distinguir qual foi dos dois que primeiro desandou a receita. Mas ela tá lá, empolada, aguada, dura, sem gosto… E essa não é do tipo que é só jogar no lixo que, pronto, o problema está resolvido. É do tipo que afeta todo o ambiente em volta dos dois ingredientes. São filhos, sogros, cunhados, amigos…

Ela respira fundo, avalia um pouco o texto e volta a ler.

Nora: É por isso que todo o processo tem que ser bem conduzindo, com muitas discussões de relacionamento, entre os dois e entre os atingidos pelos efeitos colaterais da separação. Aqui também ambos têm que ceder, administrando novas rotinas, novas ausências, novas dores, novas pessoas. No final das contas, acaba que de uma separação surgem novas relações e novos tipos de relações, sem terem que necessariamente destruir as que já existiam. – Finaliza a leitura e clica no botão “publicar” na página de edição de seu blog.

29. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA

[♫ –Nada vai mudar isso, Cássia Eller]

Sara lia um e-mail com um sorriso no rosto quando ouviu algumas vozes vindo da sala, presumiu que Fernando já havia chegado para buscar os filhos. Então, ela desliga a tela do computador e dirige-se para sala, mas no caminho cruza com Gabriel.

Sara: Ei!

Gabriel: Ei…

Sara: Colocou toalha? Escova de dente? Câmera? Protetor Solar… – Sara listava os objetos, e Gabriel balançava a cabeça positivamente em resposta.

Gabriel: Mãe… – interrompe – A senhora vai ficar bem? Porque qualquer coisa, eu posso ficar e…

Sara: Tranqüilo, rapaz, pode ir se divertir com seus irmãos e com seu pai. Além do quê, vou ter o final de semana todo para planejar nossa noite de domingo – pisca para ele.

Gabriel: Ah, você já viu o e-mail… Concorda com todos os termos?

Sara: Totalmente. Só os clássicos! Vou pegar hoje na locadora… E você faz a pipoca caramelada, e eu como.

Gabriel: Tenho impressão que tinha escrito o contrário…

Os dois riem.

Sara: Gabriel – ele olha pra a mãe –, não se preocupe comigo, ok? Eu estou bem… na medida do possível. Não quero que você esquente a cabeça com isso, tá certo? – Gabriel assente sem ânimo – Sei que não é fácil, não é o que você gostaria, mas eu e o seu pai estamos buscando o melhor para essa família, e nós sempre seremos uma família, não importa o que aconteça. Ele é seu pai, eu sou sua mãe, e aqueles dois pestinhas são os irmãos mais fofos que alguém poderia ter, fala a verdade!

Gabriel dá um meio sorriso.

Gabriel: Quando eles não estão enchendo meu saco, pode ser.

Sara sorri pra ele, e os dois caminham para sala, onde Eduardo e Rafaela já estavam animados e de mochila nas costas, em volta de Fernando, que os ajudava a arrumar alguns brinquedos.

Sara: Você vai trazê-los amanhã à tarde? – pergunta a Fernando, que confirma com um gesto de “positivo” – Não deixem passarem muito tempo na piscina, porque a Rafa tem uma facilidade enorme para ficar resfriada, e o Dudu, queimado. Depois fica emburrado resmungando que tá todo ardido – fala olhando pro filho mais novo.

Fernando: Eu sei disso, Sara, não se preocupe.

Sara faz um gesto para Fernando, ele entende e aproxima-se dela.

Sara: Você já contou pra sua mãe, né? – sussurra.

Fernando: Por cima…

Sara: Por Deus, Fernando… – balança a cabeça reprovativamente – Você resolve levá-los de repente para casa de praia da sua irmã, toda a família vai tá lá, e você nem preparou o terreno? Sabe-se lá o quê eles vão falar da gente… – continua falando baixo.

Fernando: Os meninos vão ficar bem, não vou permitir que façam ou digam nada na frente deles. Fique tranqüila.

Sara: Ok… – diz, virando-se em direção aos filhos – Vocês dois venham aqui – chama pelos gêmeos – Tenham cuidado e obedeçam seu pai e seu irmão, viu? Dudu nada de implicar com suas primas, tá? – Eduardo fica desapontado – E Rafa…

Rafaela: Já sei, se eu sentir algo, eu devo procurar logo pelo papai.

Eduardo: Cadê a câmera, mãe?

Sara: O Gabs tá levando… Gabs, – vira-se para o filho – pode deixar o Dudu usá-la, por minha conta e risco. Ele tá encarregado de registrar tudo para mim, certo, fotografo? – Eduardo balança a cabeça empolgado.

Fernando: Bom, vamos?

Sara beija os dois filhos menores. Gabriel aproxima-se da mãe, também se despedido, e os três seguem com o pai para porta. Sara observa-os deixando o apartamento, com os lábios pressionados um no outro, ela tentava não se emocionar.

30. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS – SAGUÃO DE ENTRADA

Quase correndo, Sara entra no prédio, onde Tomás e Carol já a aguardavam.

Sara: Desculpa, gente, eu estava esperando o Fernan… – antes que ela terminasse a frase, Carol abraça-a com força, emocionada – Calma, Carol, ninguém morreu. – Sara tenta mais uma vez diminuir a dimensão da situação, afastando-se de Carol.

Carol: Certo, mas depois a gente conversa…

Sara: Deus, por que todos querem “conversar” comigo agora?! – Carol faz menção de falar algo, mas Sara adianta-se. – E o quê é tudo isso? – fala apontando para vários acessórios que estavam no chão, como apitos, cornetas, balões, confetes, spray de espuma e cartaz de Feliz aniversário.

Tomás dá de ombro. E faz sinal de que a Carol está louca.

Carol: Ué, se vamos fazer uma surpresa, vamos fazer bem-feito! – diz distribuindo os objetos entre os irmãos.

Sara: Purpurina? Sério? – pergunta incrédula, segurando o cartaz, e Carol continua firme – Ok, desisto… – Sara dá de ombros, resignada.

Carol: Vamos logo! Só vai ter graça se ele ainda estiver dormindo.

Tomás: Pelo tanto que ele bebeu ontem noite, há uma grande possibilidade.

Sara: Só espero que ele não esteja nu…

Tomás faz uma cara de repulsa. E os três entram no elevador.

31. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS

Sara: Silêncio os dois! – fala baixo chamando a atenção dos irmãos para a porta do quarto que estava aberta –Vamos?

Os três, devidamente equipados com seus acessórios surpresas, entram no quarto.

Sara, Tomás e Carol: Feliz Aniversário! – os três gritam ao mesmo tempo, fazendo algazarra com seus objetos coloridos e barulhentos, mas logo se calam chocados com o que vêem.

Sara: Ai meu deus! Isso é uma mulher?!

Tomás: Eis algo que nunca achei que ouviria.

Carol: Eu acho que ela está pelada!

Tomás: Nunca achei que ouviria isso também.

Carol: Ele tá acordando!

Carlos se revira e cai da cama, acordando, e percebe o vulto difuso de três pessoas correndo e se escondendo.

Carlos: Quem é?!

Ele se levanta meio tonto.

Sara: Carlos? É você mesmo?

Carlos: Não, você tem outro irmão! Isso é até plausível… Mas, o que vocês estão fazendo aqui? – pergunta aos irmãos que estavam com cara de quem não está entendendo nada.

Carol: O que “nós” estamos fazendo aqui?

Sara: Por que você não começa contando o que “ela” está fazendo aqui. – e aponta para a cama.

Tomás: Vai, Carlos! Uhuul!

Carlos vira-se para a cama e vê, atônito, Pâmela deitada de bruços.

Continua…

Trilha sonora

Miss Halfway, Anya Marina

Dois perdidos, Arnaldo Antunes

Fire, Bruce Springsteen

Nada vai mudar isso, Cássia Eller

5 Respostas to “Feliz Aniversário”

  1. Carine Dávalos Says:

    Estou procurando meu quiexo ate agora, Edizio e estemunha do escandalo que eu dei quando terminei de ler e… errr… Carlos e Pamela! Vcs sabem! Estou atonita!!!
    Mas o que eu gostei mesmo, foram as tiradas do Tomas e os brindes… kekekeke²²¹
    Bem bem, eu adorei o texto da Nora, bem direta ela escrevendo! Espero que tudo fique bem na familia da Sara, e meio triste ver casamentos se desfazendo e crianças sofrendo!
    Carol e Roberto indo de vento em polpa… estou realmente me realizando com a relaçao deles dois!!!
    Bem,…
    Cheiro…*
    Ansiosa pra ler explicaçoes do Carlos!
    =D

  2. Gustavo Says:

    Salve galera.

    Que aniversário!!

    Essa Pâmela, vou te contar. Gostaria de saber por quê sempre tem alguém que acha que vai conseguir “transformar” um gay em hetero??

    E outra, essa lenga-lenga entre o Carlos e o Sérgio está começando a ficar chata, pois tudo é motivo de brigas agora?? E sempre envolvendo dinheiro?? Será que não existe nada mais importante para eles??

    E o encontro do Sérgio com os pais?? Pelo visto a encrenca ali é a mãe, pois o pai deu a entender que compreende mais o filho…

    Gostei tb das palavras que ele disse para a D. Diva, deixou a “véia” muda. (risos)

    Que bom que a Vitória começou a reagir. Espero que agora o Tomás pare com a caçada dele. Estou na torcida pelos dois.

    Sara e Fernando. Pelo visto o casamento já era… O jeito é bola pra frente…

    Para finalizar, peço “vênia” para utilizar as palavras da Carine: “Ansioso pra ler explicaçoes do Carlos!”.

    Abraços a todos.

  3. Doug Says:

    Tá legal o episódio. Mas acho que vocês estão exagerando no temperamento do Carlos. Nem uma criança agiria como vocês relataram no último episódio. Tudo tem exceção, mas achei que ficou muito infantil, e dois personagens (Carlos e Sérgio) não condizem com essas atitudes. Que o Carlos é insensível, egoísta, tudo bem, mas as atitudes que vocês colocaram para o personagem extrapola isso e deixa ele com idade de pré-adolescente. Não gostei.

    E outra, só espero que ele não vire um Orlandinho da vida… rs. Tô curioso para ver o proseguimento…. não vem me dizer que ele “dormiu” com a Pâmela….

  4. Carine Dávalos Says:

    No meu comentario eu esqueci de dizer que depois da primeira cena eu ja tava piraaaando… adoooooooooooro episodios com flash backs!!! uhu’ \o/

  5. Natie Says:

    hahaha… Primeiramente, a foto combinou mtu com essa cena final!! Quem diria hien, Carlos e Pamela…
    Gostei de Tomas e Vitoria nao terem brigado nesse episodio! Aleluia Senhor! hehe… Queria q eles continuassem assim…
    Carol no RJ!! Que bom! Assim ela fica mais perto dos irmaos gerando mais cenas classicas como essa com as bugigangas… hehe…
    Adorei todas as partes da Sara nesse 1×16! Acho linda a relação dela com os filhos e legal vê-la dando palestra na UFRJ! 🙂
    A Nora tbm ta demais com seu blog… Com textos alias sensacionais.

    Esperando pra ver como se desenrolará essa historia do Carlos…

    Beijooooos!!

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