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Nos episódios anteriores: A livraria está diante de uma venda unilateral iminente. Sara vê seu casamento desmoronar pouco a pouco. Vitória fica paraplégica. Rebeca e Nora se aproximam. O relacionamento de Carol e Roberto se intensifica.

01. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS

Rebeca estava precisando comprar um livro para fazer um trabalho da faculdade. Como naquele dia ela só teria aulas à tarde, ela aproveitou a manhã livre para visitar livrarias. Rebeca fora em todas as três livrarias e não encontrou o livro que procurava. Ela entrou no shopping e viu que a livraria que tinha logo na entrada havia fechado. Resolveu, então, procurar na Andanças.

Ela andava apreensiva por entre as estantes, com medo de encontrar com Tomás ou Sara, que ela sabia que trabalhavam na livraria. Mas o medo se estendia a encontrar qualquer membro da família Andrade, com exceção de Júnior.

Ela vê Sara passando, régia e veloz. Ela se abaixa, escondendo-se atrás da estante. Embora ela tenha sido tratada “cordialmente” na última vez em que se encontraram, Rebeca ainda intimidava-se diante da presença dela. E achava importante não dar motivos para que Sara não gostasse dela. Uma voz conhecida, porém, chama seu nome.

Saulo: Rebeca?

Rebeca: Saulo?! Oh, que saudades! – Sara já havia saído. Eles se abraçam. – Há quanto tempo não nos vemos!

Saulo: Verdade! O que faz aqui? Procurando algum livro? Ou só veio me ver? – Ri.

Rebeca: Comprar um livro, mas passo a comprar um por dia, se for para encontrar com você! – Os dois riem felizes com o reencontro.

Saulo: Como vai a faculdade? E a fotografia?

Rebeca: As duas vão indo, obrigada. Tenho um trabalho enorme para fazer. Para semana que vem e ainda nem comecei.

Saulo: Tem trabalhado bastante, né?

Rebeca: Um pouco, mas ainda dá para levar. – Sorri. Ela lhe diz qual livro procura e os dois começam a caminhar pela livraria.

Saulo: Você está se saindo muito bem, sabia? Não é qualquer um que consegue se manter sozinho além de estudar… Tem falado com sua mãe?

Rebeca: De vez em quando. Nada muito… íntimo, bem formal. As coisas ainda estão meio estranhas entre nós, entende?

Saulo: Entendo. – Ele pára diante uma estante e puxa um livro. – É este?

Rebeca: Sim! Nossa, é pesado. – Ri, e abre o livro para ver o preço. – Pesado demais. – Ela o devolve à prateleira.

Saulo: O que foi? Não vai levar? – Ele retira o livro novamente e consulta o preço.

Rebeca: É um pouco caro. Não estou com tanto dinheiro aqui. – Disfarça. Na verdade, ela não tinha como pagar por ele.

Saulo: Leve. Eu pago.

Rebeca: Saulo, eu… eu não posso aceitar.

Saulo: Eu faço questão, Beca. Leve. Venha, vamos ao caixa.

Eles vão ao caixa, e Saulo paga o livro. Ele a leva até a porta da livraria.

Saulo: “Tenha um bom dia e volte sempre!”. – Rebeca olha-o estranha. – É o que os atendentes falam aos clientes. Era para ser uma piada, esquece. – Rebeca começa a rir. Saulo acompanha.

Rebeca: Foi engraçada. É… obrigada pelo livro.

Saulo: Não há de quê. Sempre que precisar, pode contar comigo, Beca. – Eles se abraçam. – E, Beca! – Rebeca vira-se. – Sua mãe gosta muito de você. Dá uma chance a ela, de recomeçar.

Rebeca acena com a cabeça. Uma parte dela queria muito voltar correndo para a casa de sua mãe, mas a outra ainda estava muito magoada. Ela sabia que Saulo sabia disso. Ele sempre foi tão bom para ela, conselheiro, amigo. Talvez ele tivesse razão.

02. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS CENTRAL – ESCRITÓRIO DE TOMÁS ANDRADE

Tomás revirava vários papéis, desatento. Ao tentar pegar um dos livros-caixa, ele faz com que uma das fotografias em sua mesa caia no chão. Ao ouvir o barulho do vidro partindo, ele dá por falta da foto e levanta-se correndo para recolher os cacos. Ele se livra dos cacos, retirando o retrato com cuidado e guardando a moldura numa gaveta. Ao sentar-se novamente, ficou olhando para a fotografia, nostálgico. Nela, Vitória, ainda grávida, e ele estavam juntos à praia.

Tomás: Nós três… – Suas mãos estavam trêmulas. De repente ouve uma batida à porta. Era Sara, que havia ido conversar com Daniel Motta sobre a contra-proposta que eles apresentaram. – Entra, Sara. – Disse, guardando a foto. – Como foi?

Sara: Eles estão irredutíveis! A proposta deles é inegociável. Só faltaram rir da minha cara.

Saulo bate à porta e ao ver Tomás fazendo sinal para que entrasse, ele assim o fez.

Saulo: Os fornecedores também. Aceitam renegociar parte da dívida, mas precisam ter certeza que temos capital em caixa.

Sara: Razoável, mas é exatamente o que nós não temos. Eu não vejo outra saída.

Tomás: Mas tem de haver, Sara! – Saulo e Sara os olham em silêncio. Alguma que não envolvesse a venda da livraria… Que tal debêntures?

Sara: Títulos de dívida? Nós teríamos de abrir o capital!

Saulo: E o mercado anda instável.

Tomás: As bolsas brasileiras não estão em queda, é a nossa chance! – Diz Tomás, levantando-se da cadeira.

Saulo: Não sabemos por quanto tempo, Tomás!

Sara: E abrir capital leva tempo, é um processo burocrático.

Saulo: O que no Brasil não é?

Tomás: Nós podemos tentar pedir um empréstimo novamente!

Sara: Tomás, você acha que nós já não pensamos em quaisquer outros cenários que não envolvam a venda da livraria? Eu sei que é difícil, mas a venda é real! Temos de nos preparar para isso.

Tomás senta-se. Sabia que seu tio e sua irmã tinham razão.

Tomás: Qual é o prazo de resposta que a Midas te deu?

Sara: Amanhã.

Tomás: O quê?! É muito cedo!

Saulo: Eles já foram condescendentes demais, Tomás. Nos deram bastante tempo. É justo cobrarem uma resposta logo.

Sara: Concordo com você, Saulo. Agora só nos resta contar à família. – Os três se olham. Estavam cansados e ainda não eram onze horas.

03. INTERNA – DIA – JORNAL ÁGORA

Carol corria de um lado para o outro, auxiliando um amigo, levando café para outro, sem, contudo, escrever. Desde que seu romance com Roberto se tornou público, ela fora obrigada a ficar longe dos textos. Cansada, ela se tranca em sua sala e suspira, entediada. Ela pega o jornal daquele dia. A manchete anunciava quem era o novo prefeito do Rio de Janeiro. Não era Roberto. Eles já haviam conversado e se encontrariam mais tarde, à noite. O telefone da sala de Carol toca.

Carol: Alô? Oi, oi, sou eu sim. Tudo bom e você?

Frank: Tudo. Olha, Carol, eu vou direto ao ponto. Eu não estou satisfeito com seu relacionamento com o político.

Carol: Eu entendo, mas saiba que isso não afetou em nada a minha objetividade como jornalista política.

Frank: Eu sei, Carol! Mas entenda que, no momento em que um leitor ver seu nome como autora de uma matéria, ele vai lembrar do seu relacionamento. Você é uma pessoa pública agora. É muito chato ter discutir isso por telefone, mas eu acho que você deveria ficar longe dos textos políticos por um tempo.

Frank: Eu… eu estou… demitida?

Frank: Não! Não, não, não. Demitir você, nunca! Você é uma das melhores e sabe disso. Eu só estou lhe dando umas férias.

Carol: Férias? Mas você sabe que quando eu voltar dessas férias eu ainda vou estar com o Roberto, não sabe?

Frank: É um risco que terei de correr…

Carol: Eu estava pensando em pedir transferência permanente para o Rio…

Frank: Depois das férias nós discutimos isso. Duas semanas. Abraço, Carol. Só não mando beijo porque seria assédio! Rá! É, não foi muito boa, eu sei.

Carol não se mexeu. Pela primeira vez, a menção de São Paulo a deixou assustada. Ela não queria voltar.

04. EXTERNA – DIA – JARDIM DE INFÂNCIA – ENTRADA

Sara aproveitara o intervalo de almoço não para almoçar, mas para buscar seus filhos na escola. Ela havia dispensado o marido da responsabilidade desde o assalto. Gabriel já estava no carro, ouvindo suas músicas quando ela estaciona. Sara termina sua barra de cereal, e vai buscar as crianças. Antes de sair, ela puxa um dos fones de ouvido de Gabriel.

Sara: Eu já volto. Não abra a porta para ninguém. Ninguém.

Gabriel: Eu sei, mãe.

Sara: Eu sei que você sabe, mas não custa lembrar. – Diz, devolvendo o fone.

Alguns minutos mais tarde, Sara volta ao carro com as crianças.

Eduardo: Mãããe, tô com fome! – Diz, depois de receber seu beijo.

Sara: Segura um pouquinho só essa fome, tá, Dudu. Já, já a gente chega em casa.

Rafaela: Por que papai não veio buscar a gente hoje?

Sara: É porque o papai anda muito cansado. Ah, falando no papai, o aniversário dele está chegando! Que tal a gente dar um passeio amanhã e comprar um presente bem grande para ele?

Rafaela e Eduardo gritam de alegria e começam a brincar entre si. Sara volta sua atenção à direção e para seus problemas.

05. INTERNA – DIA – ESCRITÓRIO DE SAULO NOVAES

Saulo estava voltando do almoço para a livraria quando passa pela outra livraria, que Rebeca disse que havia fechado. Já havia uma placa dizendo qual seria a futura loja que ocuparia aquele espaço.

Ao chegar em sua sala, Saulo ligou seu computador.

Saulo: Pa-pi-er. – Digitou no Google. E o site da livraria abriu.

06. INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA ADVOGADOS – ESCRITÓRIO DE CARLOS ANDRADE – RECEPÇÃO

Carlos: Fábio, quero esses papéis no fórum até uma e meia da tarde. Urgente. – E lhe entrega um envelope lacrado. – Ligue para Mendonça…

Mônica: O juiz?

Carlos: Ele mesmo. Ligue para ele e diga que eu preciso de um habeas corpus e um mandado de investigação para o caso pro bono. Ele me deve um favor. Se ele disser que não, lembre-o disso e me avise que eu mesmo vou falar com ele.

Sérgio: Influente, hein?

Carlos vira-se surpreso e dá de cara com Sérgio.

Carlos: Sérgio, o que faz aqui?

Sérgio: Você não pode almoçar hoje, então eu trouxe o almoço até você.

Carlos: Fábio, esse é Sérgio, meu namorado. – Diz, um tanto envergonhado.

Fábio: Muito prazer. – Diz, simpático e vira para Carlos: – E senhor, a parceria com as universidades foi firmada e ano que vem é provável recebermos estagiários.

Carlos: Sim, eu recebi o memorando. Isso vai ser um inferno… Obrigado, Fábio. – Diz enquanto conduzia Sérgio a sua sala.

07. EXTERNA – DIA – CASA DE NORA ANDRADE – VARANDA

[¯Modern Nature, Sondre Lerche & Regina Spektor]

Naquela tarde, depois das aulas, Nora convidou suas amigas para um café em sua casa. A mesa estava perto da piscina, servida com pães, biscoitos, bolo e sucos. As quatro estavam falando de Guilhermina, que não havia chegado ainda.

Guilhermina: Chegou a atrasada! – Diz fazendo pose e depois foi cumprimentar Nora e as amigas.

Nora: Finalmente!

Ester: Nora, isso está divino! Juro, você tem que compartilhar isso com o mundo! Já pensou em escrever um livro de receitas? A cozinha dos Anos Dourados! Ãh? – Nora cora, feliz. – Como está Paris, Mina?

Guilhermina: Magnifique! Trouxe fotos!!! – E repassa os álbuns às amigas. – Se tem uma coisa boa em envelhecer é ganhar um tempo só para si! – Todas riem. – Nora, isso está mesmo incrível! – Depois de algum tempo comentando as fotos, bebendo e comendo, o assunto muda. – Nora, como está o caçula?

Nora: Oh, ele está bem. – As outras concordam educadamente com a cabeça. – Foi tão corajoso dele tomar essa decisão por conta própria. Fiquei muito orgulhosa. Hoje mesmo passarei lá para visitá-lo.

Ágata: O meu foi obrigado. – Lembrou com lágrimas nos olhos.

Guilhermina: Mas agora ele está bem, querida. E o Júnior também vai ficar bem também, viu, Nora? – Confortou a amiga com um abraço.

Ester: E a esposa de seu mais velho?

Nora: Que tragédia. Eles se fecharam completamente depois do acidente. Tenho receio de forçar alguma coisa.

Guilhermina: Há alguma chance de recuperação dos movimentos?

Nora: Não…

Ágata: Vamos falar de coisas felizes! – Disse, enxugando as lágrimas. – Nora, querida, conte-nos sobre a escola… – Nora se empolga e ao começar a falar, Guilhermina a interrompe.

Guilhermina: Escola?

Nora: É, Mina, eu estou dando aulas. Naquele orfanato…

Guilhermina: Só você mesmo, Nora Andrade! Depois que se livra dos filhos arruma mais filhos para cuidar! – Diz, rindo. – Mas, se isso te faz feliz, dou todo o meu apoio.

Ágata: Então comece a apoiar, Mina, pois Nora nunca esteve tão bem desde abril.

Ester: Eu só acho que você deveria fazer algo para você. Pelo menos uma vez, Nora.

Nora: Mas isso é para mim.

Ester: Eu sei, Nora, mas… eu me refiro a viver. Veja a Mina! Há dois anos atrás ela nunca tinha saído do Estado!

Ágata: Dêem tempo a ela, meninas. Ela está tentando se encontrar.

Nora: Eu… eu já pensei nisso…

Ágata: Nora, não tenha pressa. É só não ter medo de seguir o vento!

Guilhermina: Ah! Eu a vi!

Todas: Quem?!

Guilhermina: A adúltera! Como ela tem cara de pi… – Ágata lhe dá um chute por baixo da mesa.

Nora: Tudo bem, tudo bem. São águas passadas. Eu já até falei com a menina.

Ester: Nora?!

Ágata: O quê?!

Nora: Ela ajudou meu filho! Era o mínimo que eu podia fazer!

Ester: E daí, Nora! Ela o fez porque se sentia culpada!

Nora: Ela é filha de Guilherme!

Ágata: Mas não é sua, Nora!

Guilhermina: Nora, eu sei que pode parecer que você tenha que fazer isso, mas não tem. Não me entenda mal, ela pode ser uma menina incrível, mas ela é a prova viva do que Guilherme fez. Não a traga para sua família.

Nora: Mas não há coisa certa a se fazer nesse tipo de situação… Esquecer que ela existe…

Ester: Você tem razão, Nora. Não há coisa certa a se fazer. Mas há coisas erradas a fazer. Quando meu filho assumiu sua homossexualidade, eu vi o pai dele o destratar de maneiras das quais não gosto de lembrar. Eu achei que não havia coisa certa a fazer, que esse era o jeito do meu Luís de lidar com as coisas. Hoje, eu me arrependo como nunca me arrependi. Traga essa menina para sua casa, Nora, e esteja preparada para as conseqüências.

Ágata: Vamos falar de coisas mais interessantes? Ele está solteiro, não está, Ester?

Ester: Está! Coitadinho… terminou feio desta vez…

Guilhermina: Ainda bem. Me desculpe, Ester, mas ele tinha uma cara de marginal… Nora, o Carlos está solteiro? Nora?

Nora estava completamente desatenta. Não parava de pensar no que as amigas lhe haviam dito.

08. INTERNA – BARBOSA & LIMA ADVOGADOS – ESCRITÓRIO DE CARLOS ANDRADE

Carlos e Sérgio comiam suas fatias de torta em silêncio.

Sérgio: É impressão minha ou você não gostou…

Carlos: Da torta? Não, ela está muito boa. Você que fez?

Sérgio: Foi, mas eu me refiro ao fato de eu ter vindo aqui.

Carlos: Bem, eu fiquei feliz em te ver, mas não é… apropriado. – Carlos se arrepende ao ver a expressão de Sérgio mudar. – Não, não é isso o que eu quero dizer… É que não é bem visto ter os namorados ou namoradas indo e vindo aqui dentro, entende?

Sérgio: Tudo bem.

Carlos: Que tal a gente sair hoje à noite? Um cineminha?

Sérgio: Eu escolho o filme.

Carlos: Combinado. Escolhe a sessão e me avisa.

Sérgio: Ah, eu ia guardar essa novidade para mais tarde, mas um dos cozinheiros do restaurante saiu. Ele foi abrir seu próprio restaurante. E ele sondou algumas pessoas da cozinha para irem com ele. Quase ninguém foi. Aí eu me ofereci!

Carlos: E?!

Sérgio: Ele disse que queria alguém com mais experiência. Mas aí eu me ofereci também à vaga que ele deixou no Petit Marceau e… não tive retorno ainda.

Carlos: Que incrível! Você já fez entrevista e tudo? Por que não me contou?

Sérgio: Eu não queria criar grandes expectativas… E foi bem difícil. Eu tive que cozinhar dois pratos: um seguindo a receita e outro improvisando.

Carlos: Já contou aos seus pais?

Sérgio: Não. – Ele fica desconfortável. – Ainda não.

Carlos: É, é melhor conseguir primeiro e depois contar. Mas e de mim? Você já contou? – Pergunta, sedutor.

Sérgio demora a responder, muito desconfortável com a pergunta. Carlos o encarava, percebendo o clima desagradável que se instaurou com sua pergunta. Discretamente, ele pega seu celular do bolso e liga para seu telefone no escritório.

Sérgio: Eu… – O telefone de Carlos toca.

Carlos: Só um minuto. Alô? – E começa a fingir uma conversa. Sérgio se levantou e disse que tinha de voltar ao restaurante. Assim que ele sai, Carlos desliga o telefone e segue Sérgio com os olhos, pela porta de vidro.

09. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA ANDRADE

Sara saiu um pouco mais cedo da livraria, pois queria levar seus filhos para comprar um presente para Fernando.

Sara: Crianças, cheguei! – Rafaela e Eduardo correm para ela. – Ei, um de cada vez! – E os abraça. – Seu irmão está aonde?

Rafaela: Na sala.

Sara: E vocês, estavam fazendo o quê?

Eduardo: Vendo tevê.

Sara: E o dever de casa? – Os filhos saem correndo rindo. – Ah-ãh, nada disso.

Gabriel: Eles fizeram tudo. Coloquei eles para fazer e depois os deixei vendo desenho.

Rafaela e Eduardo: Gabs!

Eduardo: Atacaaaar! – Rafaela e Eduardo pulam em cima de Gabriel , lhe atirando almofadas.

Sara: Calma, calma, calma, crianças. Lembram do que mamãe disse hoje? Vamos sair e comprar um presente pro papai? Então vão pegar os tênis que nós já vamos sair. – As crianças sobem as escadas, correndo. – Obrigada, filho. – Vira-se para Gabriel. – Seu pai não voltou ainda?

Gabriel: Voltou, mas os amigos os chamaram de novo e ele saiu.

Sara não consegue esconder sua decepção e se larga no sofá.

Gabriel: Ele anda estranho, né?

Sara: É só uma fase. Vai passar. Você tem sido um anjo, sabia?

10. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO PELLEGRINI

Carol precisava espairecer. Seu dia no jornal não foi dos melhores. Por isso, resolver aparecer mais cedo na casa de Roberto, sem avisar. Ela toca o interfone e acena para a câmera de vigilância. O portão se abre e ela entra com o carro. Ela estaciona o carro e vai até a porta. Antes mesmo de tocar a campainha, a porta se abre e para a sua surpresa, não era Roberto.

Larissa: Oi. Você é a Carol, né?

Carol: Sim, so-sou eu. E você deve ser a pequena Larissa! Ah! – Carol estava nervosa.

Larissa: Entra. – Disse, abrindo a porta.

Carol: Seu papai está aí?

Larissa: Ahn?

Carol: É, seu papai. É que eu sou uma amiga dele e…

Larissa: Então vocês terminaram?

Carol: Terminaram?!

Larissa: É. Você não era namorada dele? – Larissa continua andando. – Pode esperar por ele aí. Eu vou lá em cima chamar.

Carol começa a andar de um lado para o outro, até que vê o bar. Ela só vê whisky.

Carol: Serve! – Ela bebe rapidamente um copo, tampa a garrafa e a guarda no armário.

Roberto: Pode deixar aí fora. Vou me servir também. – Roberto e Larissa a observavam. Ele estava um tanto abatido.

Carol: De onde… de onde vocês saíram? – E dá uma risada nervosa.

Roberto: Então, vejo que já conheceu minha filhota, Larissa?

Larissa: É. – Diz com um sorriso. Carol sorri de volta, apavorada.

Carol: Roberto, eu posso usar o toalete?

Roberto: Sinta-se em casa. Mostre a ela o banheiro, sim, Lissa. Tenho que pegar uns documentos no gabinete.

Carol: Não! Não! Não precisa! Eu acho sozinha. Nasci com um ótimo senso de direção. Deixa ela ver o desenho dela, não é, Lissa? – Carol sai andando, espalhafatosa, mexendo na bolsa.

Larissa: Ela é meio…

Roberto: A gente se acostuma. – E pisca para a filha.

11. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE REBECA SANTOS – SALA

Rebeca digitava freneticamente em seu computador enquanto consultava alguns livros. Em sua mesa, uma pilha de livros, periódicos e papéis em geral jaziam desorganizados. A luz era fria e fraca. De repente a campainha toca.

Rebeca: Já vou! – E continua a digitar, para concluir o pensamento. Ao terminar, vai até a porta e vê através do olho-mágico quem é sua visita inesperada. – Mãe?! Como sabia onde eu moro?

Vera: Bem, eu… sempre soube. Posso entrar? – Diz, séria, porém afável.

Rebeca abre a porta completamente dando espaço para a mãe passar. Vera entra devagar, esquadrinhando cuidadosamente a casa da filha. Ela percebe que a tinta descascava em várias partes da parede. Viu também manchas de infiltração e rachaduras, mas o que lhe chamou mesmo a atenção foram as fotografias: a parede era repleta delas.

Rebeca: É ruim, eu sei. Mas é o que posso pagar…

Vera: Não, eu… eu não quis dizer isso. Na verdade, acho que você fez um trabalho incrível aqui. – Ela vai passando em frente à parede com as fotos e pára em frente uma delas. – Essa está ótima! Você tem mesmo talento. Eu achei que fosse só passageiro, uma fase. – Rebeca cora.

Rebeca: Obrigada. O dia ajudou bastante. O pôr-do-sol no mar estava tão lindo que… – As duas se olham em silêncio. Rebeca fica constrangida. – Então, sempre soube? Como?

Vera: É. Eu segui você.

Rebeca: Você o quê? – Rebeca se altera.

Vera: Minha filha, por favor, eu quero apenas conversar. Como antes. Por favor.

Rebeca: Tá. – Senta-se no sofá.

Vera: Eu te segui. Não vim antes pois não sabia se você agüentaria… se eu agüentaria. Não me orgulho disso, do mesmo jeito que não me orgulho de muitas coisas que fiz. – Rebeca ia se preparar para responder, mas Vera continua: – Eu não vim aqui me justificar. Eu só quero lhe contar a verdade.

Rebeca: É muito simples: você escolheu ser amante por mais de vinte anos de um homem casado.

Vera: Sim, mas há muito além disso.

Rebeca: Ah, é! Você também teve uma filha com ele.

Vera: Filha, por favor. Eu entendo que você esteja com raiva… Eu não vim aqui esperando que você me perdoasse. Eu só quero que você me escute. Eu sempre soube que ele era casado. Eu me apaixonei. Foi errado se deixar levar, eu reconheço. Eu errei. Meu passado é cheio de falhas, Beca, mas a única coisa certa… é você.

As duas lacrimejavam. Rebeca se levanta rapidamente, enxugando os olhos.

Rebeca: Mãe, eu preciso terminar meu trabalho. É para amanhã.

Vera: Claro, claro. – Levanta-se também e começa a rumar até a porta. Rebeca vai atrás dela, devagar, com medo. – Eu só quero ser a sua mãe de novo. Quero que você precise de mim. Se precisar de mim… – E sai.

Rebeca fecha a porta e vai até a cozinha. Ela pega um copo d’água e senta-se à mesa, bebericando a água, perdida. Cada gole lhe fazia lembrar das palavras de Saulo.

12. INTERNA – NOITE – SHOPPING

[¯ Funky town, Lipps Inc.]

Sara e seus filhos caminhavam pelo shopping. Sara estava cheia de sacolas.

Eduardo: Mãe! Tô com fome.

Rafaela: Mãe! A gente pode ir ao cinema?

Sara: Não, amanhã tem aula!

Rafaela/Eduardo: Deixa, mãe, deixa!!!

Sara acaba cedendo, coisa que geralmente não faria.

Sara: O que vocês querem ver? – As crianças escolhem “Viagem ao centro da terra”.

Os quatro se dirigem para a fila da bilheteria que estava enorme. Os pequenos ficaram sentados num dos bancos com as sacolas, enquanto Sara ficava na fila. Em poucos segundos, os gêmeos já estavam brigando e Sara ficou com eles na fila, deixando Gabriel sozinho. Poucos minutos depois, Sara já estava prestes a desistir quando vê um rosto conhecido.

Sara: Carlos? Carlos Andrade, eu te vi, nem adianta se esconder! – Ela pega as crianças pela mão e começa a furar fila em direção a Carlos. – Eu não acredito que você tentou se esconder!

Carlos: Dá para falar mais baixo? Oi, crianças!

Rafaela e Eduardo: Oi, tio Carlos.

Carlos: Como vão vocês? – Diz fazendo cosquinhas. – E a escola? – Carlos brinca com as crianças por um tempo. Ele pega uma no colo e Sara pega outra.

Sara: Só você mesmo para ir ao cinema sozinho.

Carlos: Eu não tô sozinho. Sérgio, você lembra da minha irmã Sara, não lembra?

Sara: Oh, desculpas! Minha cabeça está a mil que nem reconheci você. – Eles se cumprimentam.

Sérgio: Sem problemas.

Sara: Carlos, você compraria os…

Uma mulher na fila ouve Sara e reclama com o namorado, que vai até eles.

Namorado: Moça, seu lugar é no fim da fila.

Carlos: O teu também, então tá fazendo o quê aqui? – Os dois se encaram. – Foi o que pensei, agora volta pro teu lugar, tá?

Sara: Nossa, Carlos…

Carlos: Hunf. Diz logo qual o filme?

Sara: “Viagem ao centro da terra”.

Rafaela: Eu quero sentar perto do tio Carlos!

Eduardo: Não, eu quero!

Sara: Crianças, o tio Carlos vai ver outro filme…

Eduardo: Por quê?

Alguns minutos depois, Carlos, Sérgio, Sara e as crianças estavam entrando na sala para ver “Viagem ao centro da terra”.

Rafaela: Tio, tio, senta aqui, ó.

Carlos: Desculpa, Sérgio.

Sérgio: Tudo bem.

Carlos: Tô indo, Rafa.

Sentaram-se Gabriel, Eduardo, Sara, Carlos, Rafaela e Sérgio.

13. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO PELLEGRINI – BANHEIRO

[¯ Funky town, Lipps Inc.]

Carol estava andando já fazia alguns minutos, sem achar o banheiro.

Carol: Que casa enorme! Ah, achei! – Ela se tranca lá dentro, pega o telefone dentro da bolsa e liga para Carlos. – Atende, atende, atende! – Depois de chamar algumas vezes, o telefone caiu na caixa postal. – Filho da… E por que eu liguei para ele? Sara!

14. INTERNA – NOITE – SHOPPING – SALA DE CINEMA

[¯Funky town, Lipps Inc.]

Sara: Quem era?

Carlos: Carol.

Sara: Desculpa que eu estraguei seu programa com o Sérgio. – Os dois estavam sussurrando.

Carlos: Não tem problema. Mas me diz uma coisa: amanhã eles não têm aula?

Sara: Têm. Eu… Meu telefone! Esqueci de colocar no silencioso. – Algumas pessoas reclamam. – É a Carol. – Ela atende. – Carol, eu tô no cinema. Me liga depois, tá?

Carol: Não, não, pelo amor de Deus, Sara, você tem que me ajudar!

Sara: O que houve?

Carol: O Roberto! A filha dele está AQUI! ELA ESTÁ AQUI!!!

Sara: E qual o problema?

Carol: Eu não sei lidar com crianças, Sara! Me ajuda?

Carlos: O que ela tem?

Naquele momento, um grupo de crianças começa a jogar pipoca em Carlos, que olha de cara feia para trás.

Sara: A filha do Roberto está lá na casa dele e ela…

Carlos: Não sabe o que fazer. – Carlos dá risada.

Carol: Carlos está aí? No cinema com você? Avisa a ele que quando ele me ligar pedindo ajuda, eu vou desligar na cara dele!

Sara: Carol mandou dizer que quando você ligar pedindo ajuda, ela vai desligar na sua cara também.

Carlos: Me dá esse telefone. – Sara lhe passa. – Nossa, Carol, que medo. Mas quem será que está com mais medo? Eu ou a sua enteadinha, Bruxa do 71!

Sara e Carlos dão risada e mais pessoas começam a reclamar.

Carlos: Sh, vocês! – As crianças continuam a jogar pipoca em Carlos e em Sara.

Sara: Carol, vai com calma. Pergunta a idade dela, em que série ela está… – Sara também olha feio para as crianças e para os pais delas.

Carol: Escola, certo. O que mais?

Carlos: Pergunta o que ela gosta de fazer, não é óbvio. Criança é gente que nem a gente, né, Carol?

Lanterninha: Senhores, infelizmente os senhores terão de se retirar. – O rapaz com quem Carlos discutiu na fila estava junto.

Carlos: Por quê?

Lanterninha: Eu já recebi várias reclamações de vocês dois.

Carlos: Que tal mais uma? O pirralho que veio com ele está jogando pipoca em mim desde que eu entrei!

Sara: Carlos, esquece. Senhor, eu prometo que vamos nos comportar.

Lanterninha: Sim, senhora, mas lá fora. Vamos, por favor?

Carlos: Toma isso, pirralho!

Sara: Carlos, não!

Carlos pega seu balde de pipoca e vira em cima da criança, que começa a chorar. O pai do garoto ameaça bater em Carlos. Sérgio se reúne com as crianças, sentando junto delas.

Sérgio: Vamos ficar quietinhos, fingir que não conhecemos. – Eles riem enquanto Carlos e Sara são acompanhados pelo lanterninha.

15. INTERNA – NOITE – SHOPPING – PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO

[¯ Funky town, Lipps Inc.]

Sara: Carlos, eu não acredito!

Carlos: Ele mereceu!

Sara: Quantos anos você tem? Cinco?!

Carol: Alô?

Carlos: Carol ainda tá na linha?

Sara: Ih, é! Carol? Carol? – Sara colocou no viva-voz.

Carol: Vocês foram expulsos do cinema? O que Carlos fez com o pirralho? – Carol estava sentada no vaso sanitário.

Carlos: Não é da tua conta, Bruxa do 71.

Sara: Ele jogou pipoca no menino que estava jogando pipoca nele.

Carol: Depois eu é que não sei lidar com crianças… – Gargalha.

Sara: Mas o Carlos sabe lidar com crianças. Meus filhos adoram ele.

Carol: E… eles não me adoram?

Carlos: Eles me adoram?

Sara: Eu não quis dizer isso, é claro que eles te adoram, mas Carlos passa mais tempo com eles que você, pois você mora em São Paulo.

Carol: Nem me lembre disso.

Carlos: Por quê?

Carol: Porque eu vou ter de voltar. Em breve… E eu não queria voltar.

Carlos: Pede transferência, oras.

Carol: Não é só isso… Mas a criança! Me ajudem com a criança.

Sara: Pergunte do que ela gosta de fazer, que livro ela gosta, música, desenho. Coisas de criança. Ela é criança, né?

Carol: É. Eu acho que é. Doze anos ainda é criança?

Sara: É pré-adolescente, mas as regras ainda são as mesmas. Só não pergunta de desenho.

Carol: Obrigada! Depois eu conto como saiu. Tchau.

Sara e Carlos: Tchau! – Sara suspira cansada, e digita um torpedo para Gabriel, avisando que está na praça de alimentação.

Carlos: Sara, está tudo bem? Você parece estressada.

Sara: Está tão óbvio assim?

Carlos: Aham.

Sara: Ah, Carlos. Tudo na minha vida está desabando. A livraria está enterrada em problemas, o Fernando em crise de meia idade…

Carlos: Ele continua desempregado?

Sara: Pergunta isso a ele que ele vai te dizer que não. Só porque “tem uma banda” e fica tocando em botecos imundos por 20 reais.

Carlos: É só uma fase. Deve passar logo.

Sara: Eu tento me dizer isso todos os dias, mas está cada vez mais difícil.

Carlos: Você já tentou arrumar um emprego para ele?

Sara: Não.

Carlos: Se bem que eu já tentei isso e não deu certo. Faz alguma coisa bacana com ele, viagem no fim de semana…

Sara: Você é melhor que meu terapeuta. E ainda é de graça.

Carlos: Quem disse?

Sara: Obrigada.

Carlos: E a livraria? Enterrada em problemas?

Sara: Você nem imagina…

Carlos: Mas eu achei que ela estivesse bem. Na última reunião Saulo mostrou números…

Sara: Na última reunião, nem nós sabíamos da extensão real do problema.

Carlos: Como vocês não sabiam? Vocês trabalham lá… Espera aí, não foi papai que fez isso, foi? – Sara desvia o olhar. – Sara.

Sara: Foi ele.

Carlos: Mamãe não pode ficar sabendo disso de jeito nenhum.

Sara: Ela vai ter que saber. Carlos, nós vamos ter que vender a livraria.

16. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO PELLEGRINI

Carol saiu do banheiro e estava tentando achar o caminho de volta a sala quando se reencontra com Larissa.

Larissa: Papai pediu que viesse ver se você se perdeu.

Carol: Bem, eu não me perdi, pois estou bem aqui e se eu sei que estou aqui, eu não posso ter me perdido. – Larissa faz cara de que não entendeu. – É brincadeira! Então, Lissa… eu posso te chamar assim, né?

Larissa: Pode.

Carol: Eba! Então, Lissa, você tem doze anos, certo?

Larissa: Faço treze ano que vem.

Carol: Hum, treze anos incompletos. Eu tenho um sobrinho de catorze anos incompletos. Mas, em que série você está? Sexta?

Larissa: Sétima.

Carol: Adiantada! Deve ser bem inteligente. Quais suas matérias prediletas?

Larissa: Eu não tenho, eu acho…

Carol se perde.

Carol: Não tem? Todo mundo tem uma matéria que gosta mais… Ou pelo menos que goste menos.

Larissa: Não, não tenho.

Carol: Você diz isso porque você ainda não estudou Física.

Larissa: É difícil?

Carol: Você nem imagina! E Química então, nem se fala. Mas você, você é bastante inteligente, e só tem doze aninhos.

Roberto: Treze em alguns meses. – Elas já estavam de volta à sala. – Filha, já está na hora de dormir. Amanhã tem aula.

Larissa: Boa noite, pai. Boa noite, Carol.

Carol: Boa noite, Lissa. – Larissa sobe. – Ela é tão inteligente!

Roberto: Puxou ao pai.

Carol: Como você está?

Roberto: Acabado. Passei o dia inteiro dando entrevistas sobre como eu acho que a administração do Paes vai ser, o que praticamente é jogar na tua cara que você perdeu. Maldita mídia. Menos você, você é a mídia boa. – Eles se abraçam.

Carol: Bem, ela pode ser maldita às vezes…

Roberto: O que aconteceu?

Carol: Nada demais. Hoje é sobre você.

Roberto: Sobre nós, Carol. Somos um casal. Compartilhamos. O que houve?

Carol: Eu terei de voltar para São Paulo. Não agora. Meu editor me deu férias. Praticamente me obrigou a tirá-las.

Roberto: Por minha causa?

Carol: Por “nossa” causa. Somos um casal, lembra. – Ele sorri. – Não me leve a mal, eu estou muito, muito feliz com você. É só que eu não escrevo nada há semanas e nada também nas próximas semanas e quando eu voltar…

Roberto: Quando você voltar?

Carol olhou Roberto. Ele estava ali, derrotado, mas a seu lado. Isso era o que importava agora.

Carol: Quando eu voltar, eu lido com isso.

17. INTERNA – NOITE – CASA DE NORA ANDRADE – GABINETE

[¯Modern Nature, Sondre Lerche & Regina Spektor]

Nora estava no gabinete de Guilherme, consultando o Código Civil enquanto falava com Júnior ao telefone e imprimindo as avaliações que daria na semana seguinte.

Nora: Não é tão difícil de entender isso aqui.

Júnior: Não seria melhor perguntar ao Carlos?

Nora: Eu não acabei de falar que estou conseguindo entender? Mas eu não sei dizer ainda se ela tem direito a herança.

Júnior: Mãe, eu tenho que ir agora, tá. Aqui eles têm hora para tudo, até para dormir.

Nora: Boa noite, filho. Muitas saudades! – E desliga o telefone. Ela recolhe as folhas impressas e as guarda num envelope, quando nota um papel no chão. Era uma redação de um aluno. Nora se senta na cadeira, pensativa. – Eu não quero viajar. – Pensa. – Também não quero um livro de receitas.

Ela se levanta e guarda o Código Civil, quando repara na prateleira de cima uma fotografia de Guilherme com Tomás e Sara ainda crianças. Ela tirara aquela foto. Ela volta à escrivaninha e ao computador e digita o que havia acabado de pensar: “Eu não quero viajar. Também não quero um livro de receitas”. Ela vai além, lembrando sua conversa mais cedo: “Eu quero viver mas não sei quando minha vida começa. Ela já começou. Ela já está finando”. Ela pára e pensa e apaga tudo o que digitou e começa a reescrever.

18. INTERNA – NOITE – CASA DE TOMÁS ANDRADE

Já eram mais de meia-noite quando Tomás chegou em casa. Ele trancou a porta e colocou as chaves no cinzeiro do console quando deu de cara com sua sogra.

Regina: Tomás! Há quanto tempo. Vitória ligou e pediu que viéssemos. Espero que não tenha problema.

Tomás: É claro que não tem, dona Regina. A senhora é sempre bem-vinda. – Ele estava surpreso com a visita.

Antônio: Vitória já está dormindo. Nós já teríamos ido embora, mas ela não queria ficar sozinha.

Tomás: Eu fiquei trabalhando até tarde, hoje.

Vitória: Tomás?

Os três correm para o quarto.

Vitória: Você chegou tarde. – Ela estava deitada, solene, na cama.

Tomás: Desculpa, amor, não vai acontecer de novo, tá?

Regina: Bem, você já chegou e nós já estamos indo. Filha, sempre que precisar, telefone. Boa noite. Boa noite, Tomás.

Antônio: Boa noite.

Tomás os levou até a porta. Ao voltar para o quarto, Vitória ainda estava acordada. Ele se ajoelha ao lado da cama.

Tomás: Vi, você precisou de alguma coisa?

Vitória: Eu só estava meio sozinha. Só queria conversar.

Tomás: Você poderia ter me ligado.

Vitória: Eu não quis atrapalhar.

Tomás se levanta e deita-se ao lado de Vitória, abraçando-a.

Tomás: Você nunca me atrapalha. – E a beija.

19. INTERNA – NOITE – EDIFÍCIO DE CARLOS ANDRADE – ÁTRIO

Carlos e Sérgio haviam acabado de chegar do cinema.

Carlos: Desculpa! Eu juro que mato minha irmã! Juro! – Diz, acenando para o porteiro.

Sérgio: Que é isso, eu me diverti bastante. Os filhos dela são uns amores e o filme foi ótimo. Mas ela parecia não estar muito bem.

Carlos: É, ela está com muitos problemas. – Carlos chamou o elevador.

Sérgio: Eu só achei que você me deixou um pouco de lado. – E dá uma piscadela. Carlos abre um sorriso.

Carlos: Então… – Eles se beijam. – eu acho que sei exatamente o que fazer para te compensar.

Sérgio: É bom que seja… – Eles saem do elevador e Carlos vê uma mulher em frente à porta de seu apartamento.

Pâmela: Carlinhos? Eu sei que você está em casa!

Carlos: Ai meu Deus! Entra, entra! – Empurra Sérgio de volta ao elevador.

Sérgio: O que está havendo?

Carlos: Ela é minha vizinha, Pâmela. Ela é doida por mim.

Sérgio: Como é que é? Doida? Por “você”?

Carlos: Ah, não, ela sabe que sou gay, mas isso não parece ser suficiente para ela.

Sérgio: Uau…

Carlos: É sério! – A porta do elevador se abre e Sérgio sai primeiro, puxando Carlos com as duas mãos.

Sérgio: Eu acredito! – Diz, rindo. – Só acho estranho.

Carlos: Vamos só fazer uma horinha na rua e depois a gente volta. Pode ser?

Sérgio: Dá para dizer não quando você pede com essa cara? – Os dois se beijam. – Ih, esqueci de ligar o telefone. Seis chamadas perdidas… do mesmo número. Se importa se eu…

Carlos: Não, vá em frente.

Sérgio liga para quem havia ligado para ele, mas não consegue concluir a ligação: seus créditos haviam terminado.

Sérgio: Droga.

Carlos: Que foi?

Sérgio: Meus créditos acabaram.

Carlos: Aqui, usa o meu. – Estende o telefone.

Sérgio: Não precisa, eu ligo mais tarde.

Carlos: Que isso, deixa de bobeira. Pode usar.

Sérgio: Não, é sério, eu ligo mais tarde. Ela provavelmente não iria atender, pois não reconheceria o número.

Carlos: Tá bom, então. – Os dois caminharam por mais tempo. Na volta, quando já estavam próximos do prédio novamente, Carlos diz: – Ei, ali vende cartão telefônico.

Sérgio: Estou sem dinheiro aqui. – O porteiro abre o portão do prédio. Sérgio começa a entrar mas Carlos o detém.

Carlos: Eu pago. Anda.

Sérgio: Por que você faz isso?

Carlos: Isso o quê? – Sérgio sai andando, fazendo o oposto. – É só um cartão telefônico, Sérgio. Sérgio!

Sérgio: Não é o cartão, mas o que ele significa!

Carlos: Um telefonema? – Sérgio não gosta da brincadeira. – Por que você faz isso? Tudo o que eu faço para você tem segundas intenções! Eu não posso pagar a entrada do cinema, não posso pagar um cartão telefônico! Um cartão telefônico!

Sérgio: Eu não preciso que você me pague nada!

Carlos: Eu sei que não!

Sérgio: Não parece.

Carlos: Olha, nós estamos irritados. Discutir agora não vai levar a nada.

Sérgio: É claro. – Diz, sarcástico.

Carlos: O que foi agora?

Sérgio: Você sempre foge dos seus problemas.

Carlos: Mas é você que está tornando isso um problema! Só porque eu ganho mais que você! – Sérgio sai ofendido. – Não, espera… É por isso que eu fujo, para não falar besteiras. – Sérgio o ignora e continua andando. – É isso o que eu faço: eu falo o que não devo o tempo todo, eu afasto as pessoas de mim, é assim que eu sou. E com você, eu ando em ovos quando eu estou perto de você porque você é sensível e complicado e eu sou complicado e eu não quero estragar o que a gente tem. – Sérgio pára de andar e vira-se para Carlos. – E você sempre me acusa. Você me acusa o tempo todo: de não gostar de você, de ter vergonha de você, de não querer te apresentar a minha família… Eu não te pedi para conhecer sua família. Você nunca fala deles e na única vez que eu perguntei, você mudou de assunto. Eu deixei passar porque eu sei que, quando e se você estiver pronto, você vai falar dela. Eu respeito o teu ritmo, mas você não respeita o meu! – Carlos pára. – Só para deixar claro: eu só me ofereci para pagar o cartão porque achei que a ligação fosse importante. E quando eu te pago alguma coisa, é porque eu gosto de você. Eu gosto mesmo de você.

Sérgio: Desculpa.

Carlos: É. É melhor você ir. Eu tô irritado agora e vou acabar falando o que não devo.

Sérgio sai, andando lentamente.

Sérgio: Boa noite.

Carlos se volta para o elevador e vê Pâmela o encarando.

Carlos: Oi, Pâmela.

Pâmela: Ele não te entende, né?

Carlos: Hoje não, por favor. – Ele aperta o 18 no elevador e Pâmela, que estava do lado de fora do elevador, vê, entre as portas que se fecham, a feição triste de Carlos.

20. INTERNA – NOITE – CASA DE SARA ANDRADE

Sara acabou de chegar em casa com Gabriel, Rafaela e Eduardo e encontra as luzes acesas, mas quando tenta abrir a porta, encontra-a trancada.

Gabriel: Deixa que eu abro para você. – A mãe lhe entrega a bolsa e Gabriel procura pelas chaves quando Fernando abre a porta.

Fernando: Onde você estava?

Sara: Eu saí com as crianças.

Fernando: A essa hora? Sem deixar um bilhete!

Sara percebe que Fernando estava alterado.

Sara: Gabriel, leva seus irmão para cima agora. E não desça. – Gabriel pega os irmãos pela mão e sobe. – Você se importa mesmo? Por que na hora de sair e deixá-las sozinhas a tarde inteira não soa como preocupação.

Fernando: Eu estava trabalhando!

Sara: E também estava trabalhando – Ela faz aspas com as mãos. – quando eles foram assaltados porque você não quis ir buscá-los!

Fernando: Eu já disse que esqueci!

Sara: E só porque você esqueceu o abstém de qualquer conseqüência? Você notou que Gabriel tem passado mais tempo em casa, trancado no quarto dele? Ah, não, você estava enchendo a cara num bar, oh, quer dizer, “trabalhando”.

Fernando começa a fechar o punho com raiva. Sara percebe.

Sara: Seria a última coisa que você faria dentro dessa casa. Pode dormir no sofá. Ou na casa da sua querida Kátia!

21. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS (SEDE) – CORREDOR

Depois de ter deixado as crianças na escola, Sara chegou à livraria e encontra-se com uma das funcionárias.

Sara: Bom dia, Lígia. Saulo já chegou?

Lígia: Não, dona Sara. Ele deixou um recado para a senhora e para o senhor Tomás. Ele pediu que os avisasse que ele chegará mais tarde hoje, bem mais tarde. E que ele é contra. – E lhe entrega um papel assinado por Saulo

Sara: Contra? Muito obrigada, Lígia. E Tomás?

Lígia: Ainda não chegou. Mas o Daniel Motta sim, ele a aguarda na sala de espera.

Sara: Obrigada.

Sara caminha para sua sala, lendo o papel.

Sara: Bom dia, Daniel.

Daniel: Bom dia. – Sara abre a porta, convidando Daniel a entrar. – Como vai?

Sara: Bem, e você?

Daniel: Muito bem, principalmente agora. – Sara mexe nos cabelos desconfortável. – Eu não quis te deixar desconfortável… – Diz aproximando-se.

Sara: A venda está suspensa. Saulo não pôde estar aqui hoje, mas deixou esse documento que sanciona nossa decisão. A Midas não apresentou uma proposta válida que reconhecesse o verdadeiro valor da Andanças.

Daniel: Como?

Sara: Sinto muito.

Daniel: Sara, pense bem.

Sara: Nós já pensamos.

Daniel: Pense mais!

Sara: Eu acho que não há mais nada a se falar.

Os dois se encaram por um tempo.

Daniel: Então… a gente se vê.

22. INTERNA – DIA – SUPERMERCADO

[¯Hotel song, Regina Spektor]

Nora acordara muito bem, como não acontecia há muito tempo. Tomou um banho demorado e resolveu ir ao supermercado.

Nora: Bom dia! – Disse ao funcionário que estava próximo aos carrinhos, e puxou um para si.

Ela caminhava como uma dona-de-casa nos corredores, enchendo o carrinho com suprimentos. Uma hora e meia depois, o carrinho já estava transbordando. Ao se dirigir à fila do caixa, Nora percebeu que todos estavam cheios, com exceção de um, sem fila. Ela ia com um pouco de pressa quando percebe que outra pessoa também ia com um pouco de pressa para aquele mesmo caixa: Vera.

Nora acelera, seguida por Vera, que começa a correr, Nora começa a correr também, quando uma criança passa correndo na sua frente, e ela freia. Vera continua correndo, olhando para Nora, rindo.

Nora: Cuidado!

Tarde demais. O carrinho de Vera bateu em cheio no caixa e virou. Vera acabou caindo também. Nora correu em sua direção.

Nora: Ai meu Deus, você está bem? – Disse ajudando Vera a se levantar. Vera estava vermelha de vergonha. Nora esforçava-se para não rir. Acabou não conseguindo. E Vera começou a rir também. Todos no supermercado olhavam as duas senhoras rindo, enquanto colocavam as coisas de volta no carrinho, ajudadas pela moça do caixa e outros clientes e funcionários.

O gerente chega correndo com um copo d’água.

Gerente: Tudo bem, senhora? Não se machucou?

Vera: Não, está tudo bem. – Ela ainda estava rindo. Enquanto Vera bebia água, Nora pegou seu carrinho e começou a passar suas compras. – É justo.

Nora: É claro que é justo. – Nora saca o talão de cheques.

Vera: Você ainda usa talão? É tão chique, clássico.

Nora: Você não precisa puxar conversa, é sério. Eu ajudaria até um bandido a se levantar se ele tivesse me assaltado e saído correndo. O que não é bem diferente do que você fez.

Vera: Eu só estava tentando ser educada.

Nora: Eu não preciso da sua educação. – Nora ia guardando suas compras nas sacolas e devolvendo-as ao carrinho enquanto Vera passava suas compras. Na hora de pagar, Vera retira um cartão de crédito da carteira.

Nora saiu com o carrinho, deixando Vera para trás. Vera, porém, a alcança e as duas andam lado a lado pelo estacionamento.

Vera: Por favor, não corra agora porque eu não agüentaria cair de novo! – Diz, rindo. Nora fingiu que não ouviu. Vera fica séria. – Eu tinha ciúmes de você, sabia? Ele sempre falava de você. O tempo todo.

Nora: Não ouse falar dele!

Vera: Achei que fosse gostar de ouvir isso. É verdade.

Nora: Bem, ele nunca falou de você. – As duas riem. – A sua filha, ela é incrível. Um amor de pessoa, inteligente…

Vera: Ela me disse que conheceu você.

Nora: Ela lhe disse o que eu disse a ela?

Vera: Não. E nem perguntei. Nós não temos nos falado muito desde que ela saiu de casa.

Nora: Foi por causa do…

Vera: Foi. Não só por isso, é claro. Queria fazer Fotografia, mas eu insisti que fizesse Direito. Não queria que ela dependesse de alguém. Ela começou a se distanciar aí.

Nora chega a seu carro.

Nora: Nunca achei esse estacionamento tão grande quanto hoje.

Vera: É, nem eu.

Para a surpresa das duas, seus carros estavam lado a lado. As duas abrem os porta-malas e colocam ali suas compras e saem sem se despedir.

23. INTERNA – DIA – CASA DE NORA ANDRADE – COZINHA

Nora havia acabado de chegar com as compras. Ao entrar na cozinha, encontra Carol tomando café, e Carlos estirado em cima da mesa.

Nora: Oh, visitas! Tem mais coisas no carro, sim. – Carol levanta-se e vai ajudar. Carlos continua no mesmo lugar. – Hem, hem. Você não tinha que estar trabalhando

Carol: Ele brigou com o Sérgio, mãe. – O telefone de Carol toca. – Oi, amor… Ela gostou de mim? Sério? Isso é maravilhoso! Obrigada, Carlos. – Ela dá um beijo nele.

Nora: Por que eles brigaram?

Carlos: Por que eu sou um insensível e tenho que prestar atenção nos significados dos meus atos.

Nora: Oh, meu filho, não fique assim. É só conversar. Lide com os problemas, peça desculpas. Carlos, agarre-se a esse momento enquanto ele ainda é seu.

Carol: Inspirador.

Carlos: Incrivelmente inspirador. – Diz sentando-se direito.

Nora: Vocês acharam? Esperem aqui! – Nora pára de arrumar as compras e sai da cozinha. Ela retorna com um papel em mãos. – Eu, bem, ai que vergonha…

Carol e Carlos: O que foi?

Nora: Tá legal. Coragem! Eu escrevi uma coisa.

Carlos: Escreveu? Um texto?

Carol: Não, Carlos, foi um “N” bem grande de Nora.

Carlos já ia retrucar quando Nora pediu silêncio.

Nora: É um texto, bem pequeno. Vocês querem ouvir?

Carol e Carlos: Ta.

Nora: Eu fiz bem depressa e não está muito bom, mas…

Carol: Mãe, lê. – Encoraja-a.

Nora: Está bem. – Nora limpa a garganta – “Monarca”. “Ó…” Ah, “Monarca” é o título. “Ó, mamãe, como está gostoso!, ouvia com gosto o filho dizer. Muito, muito!, ouvia com mais gosto ainda o comentário do outro filho. Não por predileção, pois uma boa mãe deveria amar os filhos e o marido igualmente. Mas havia algo naquela dupla adverbialidade que a estimulava, que a excitava.

Após o jantar, e após a elogiada sobremesa, ela colocou os pequenos para dormir, não sem antes, é claro, colocar o disco de músicas clássicas no estéreo. Dormir com música era muito mais relaxante! E você acorda tão… renovado!

Ó, suspirou, sentando-se no sofá. A louça já estava lavada, era eficiente. O relógio bateu nove vezes. Ele ainda não chegara. Ligou a televisão e, calmamente, trocava aleatoriamente de canais, como se procurasse algo interessante, mas sem o fazer, na verdade. Ó, suspirou novamente. Era tão bom sentir-se cansada. Mas no fundo ela sabia que faz muito não se sentia realmente cansada. Mas o marido, por algum motivo, lhe estava dando motivos para se cansar: Ele deve estar com um amigo, pensou aquém. É, ele não deve estar só, pensou além. O relógio soou dez vezes. Ela não queria se cansar. Ó, como ela tentava!

Altiva e delicada, ela se levantou e foi até o bar, de onde retirou uma garrafa de vinho e duas taças. Posou-as na mesa. Posou a si mesma à mesa, como uma borboleta. O vinho caía da garrafa para o cálice, do cálice para a garganta, reconfortante como uma conversa. Ele vai chegar, disse a si mesma. Ele sempre chega. Ele sempre volta. O relógio bateu mais uma vez.”

Carlos: Uau, mãe.

Nora: “Uau” é bom ou ruim?

Carol: É… bom.

Nora: É claro que não ficou muito bom, afinal, foi meu primeiro, mas… – Nora continua a divagar.

Carol: Você percebeu? – Sussurra.

Carlos: O quê?

Carol: Ela é a mulher do texto!

Carlos: As personagens não tinham nome se você não percebeu.

Carol: Pela amor de Deus! Você fica burro quando fica triste?!

24. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE VERA SANTOS

[¯Come round soon, Sara Bareilles]

Vera chegara do supermercado. Ao adentrar, ela encontra Rebeca sentada.

Vera: Filha, por que você não está na faculdade?

Rebeca: Eu faltei. Entreguei meu trabalho e vim para cá.

Vera: Eu não vou dizer que não estou feliz com a sua visita, mas você não deveria faltar aulas assim.

Rebeca levanta e ajuda sua mãe com as compras.

Rebeca: Não se preocupe, eu recupero as aulas que perdi.

Vera: O trabalho ficou bom?

Rebeca: Mais ou menos. Você está mancando?

Vera: Um acidentezinho, nada demais.

Rebeca: Como foi isso?

Vera: Eu encontrei com a Nora e…

Rebeca: Ela fez isso?

Vera: Não! Eu… nossa, isso é embaraçoso! Eu queria chegar primeiro que ela no caixa vazio e eu perdi o controle do carrinho e caí.

Rebeca começou a rir.

Vera: Eu acho que vi uma criança filmando pelo celular.

Rebeca: Eu não duvido.

Vera: E nós conversamos… Ela falou muito bem de você.

Rebeca: Ela é um doce.

Vera incomoda-se.

Rebeca: Você também é um doce. Uma boa mãe.

Vera: Obrigada, Beca.

Rebeca: Eu quero saber a verdade. Toda a verdade.

Vera: Bem, o que você quer saber?

Rebeca: Como aconteceu? O Guilherme?

Vera: Eu estava num período conturbado na minha vida. Saulo me arrumou um emprego e… me apresentou a um amigo dele, o Guilherme. E foi assim que aconteceu.

Rebeca: Você não sabia que ele era casado?

Vera: Não a princípio. Mas eu descobri cedo.

Rebeca: E você ficou com ele mesmo assim?

Vera: Nós terminamos por um tempo, mas acabamos voltando.

Rebeca: Por quê?

Vera cogitou dizer que era porque ela havia engravidado, mas resolveu omitir o fato da filha.

Vera: Eu não sei te responder essa pergunta. Às vezes, você sabe que está fazendo uma coisa errada, mas se acostuma.

Rebeca: Ele sabia que eu era filha dele?

Vera: Sempre soube. Ele sempre te ajudou, financeiramente.

Rebeca: Ele é quem te bancava?

Vera: Eu tinha meu próprio emprego, você sabe, mas ele me ajudava quando podia. E ele sempre me pagou o talão do INSS.

Rebeca: Obrigada.

Vera: É só isso? – Rebeca confirma. – Quer sorvete?

Ela serve duas taças.

Rebeca: Eu andei pensando e… eu acho que vou aceitar a oferta que a Nora me fez.

Vera: E que oferta foi essa?

Rebeca: A herança do Guilherme.

Vera: Bem, eu já contatei um advogado e…

Rebeca: Você fez o quê?

Vera: Eu apenas consultei um advogado para saber dos seus direitos, Beca.

Rebeca: Eu pedi que você fizesse isso?

Vera: Não, mas…

Rebeca: Você não tinha esse direito!

Vera: Mas não foi nada demais!

Rebeca: Fique sabendo que você não vai ver a cor desse dinheiro, está entendendo?

25. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS ANDRADE

[¯Like a star, Corinne Bailey Rae]

Carlos não foi ao trabalho naquele dia. Ele ligou para sua secretária Mônica e pediu que ela cancelasse e remarcasse todos os seus compromissos. Depois de passar a manhã com Nora e Ana Carolina, ele voltou para casa.

Ao chegar em casa, Carlos tomou outro banho, colocou uma roupa confortável, pegou uma garrafa de vinho e uma taça. Duas taças depois, a campainha toca.

Carlos: Não tô.

Pâmela: Abre, Carlos.

Carlos levanta-se e abre a porta. Pâmela estava com uma bermuda de academia e uma camiseta. Os cabelos estavam presos num rabo de cavalo cuidadosamente relaxado. Ela entra e deixa a porta aberta.

Pâmela: Como você está? Melhorou de ontem?

Carlos: Não. E você não vai ajudar.

Pâmela: Vou sim, quer ver? – Ela derruba uma coisa no chão, sem querer. – Como eu sou desastrada. – E devolve para o lugar. – Vem, senta aqui. – Ela liga a televisão. – Posso ligar, né? Senta aqui. – Ele senta-se ao lado dela. – Isso. – Eles ficam sentados juntos por algum tempo.

Carlos: Como isso vai me ajudar mesmo?

Pâmela: Ah, é! Bem, Carlos, eu não sei o que aconteceu entre vocês mas tudo pode ser consertado. Liga para ele e peça desculpas. Mesmo a culpa sendo dele.

Carlos: Todo mundo anda inspirado hoje.

Pâmela: Eu não entendi o que você quer dizer, então vou tomar isso como um elogio.

Carlos: Foi um elogio.

Pâmela: Obrigada!

Carlos: Quer vinho? – Ele se levanta e vai até a cristaleira, de onde retira uma taça. Pâmela vai com a taça cheia de Carlos e a garrafa até ele.

Pâmela: Ah, não precisa. Vinho a essa hora não me faz muito bem.

Carlos: Nem a ninguém. – Carlos volta e guarda a taça. Pâmela derruba outra coisa no chão. – Deixa que eu pego. – Carlos abaixa-se e pega o objeto.

Pâmela: Nossa, Carlos, você andou malhando?

Carlos: Já dá para perceber?

Sérgio: Dá sim. A porta estava aberta.

Pâmela: Não estava nada.

Sérgio: Estava.

Pâmela: Droga.

Sérgio: Carlos, a gente pode conversar?

Carlos: Claro. – Pâmela continuou lá. – Pâmela.

Pâmela: Ah, tá, já vou. Se precisar de ajuda, grita, e eu coloco ele para fora! Beijos!

Sérgio: É, ela gosta mesmo de você.

Carlos: Gosta.

Sérgio: Carlos, desculpa.

Carlos: Não precisa…

Sérgio: Preciso sim. Você tem razão: eu te acuso. Sempre. É que… você é tão… bom e bem-sucedido, e eu não sou.

Carlos: Mas você ainda pode ser, você só está começando.

Sérgio: Você deve estar me achando um idiota. Meus pais, eu não falo deles porque eu não falo com eles.

Carlos: Eles não te aceitam?

Sérgio: Ah, isso, eles aceitam sim. Eles sempre souberam. Mas meus pais queriam que eu fizesse Medicina que nem eles. Mas eu bati o pé e disse que não ia fazer. Acabei fazendo Ciências Sociais. E você pode ver o sucesso que eu tive.

Carlos: É só por isso?

Sérgio: Idiota, eu sei. Eu nunca dei motivos para eles se sentirem orgulhosos de mim.

Carlos: Senta aqui. – Os dois se sentam abraçados.

Sérgio: Quer fazer alguma coisa hoje? Eu pago. – Brinca.

Carlos: Não. Tenho tudo o que eu quero aqui. – Os dois ficam abraçados vendo televisão.

26. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS (SEDE) – ESCRITÓRIO DE TOMÁS

Sara estava na sala de Tomás, lendo um livro, enquanto Tomás falava com sua mãe.

Nora: Filho, como você está? Faz tanto tempo que não te vejo…

Tomás: Eu sei, mãe. Ando ocupado.

Nora: Tenta passar aqui nesse final de semana. Traz Vitória também.

Tomás: Tá, mãe. Eu tenho que desligar agora. Beijo.

Sara: Faz muito tempo que você não vai lá mesmo, Tomás.

Tomás: Eu disse, ando ocupado.

Sara: Tomás…

Saulo: Posso entrar: Eu tenho uma solução para a livraria. Eu marquei uma reunião com os executivos da Papier.

Sara: Eles tem lojas aqui. Por que eles iriam…

Tomás: A loja deles fechou. Essa semana.

Saulo: Exato! Em breve eles virão aqui para conhecer as instalações.

27. INTERNA – DIA – CASA DE NORA ANDRADE – VARANDA

No sábado, dois dias depois, todos os Andrades se reuniram a pedido de Saulo, Sara e Tomás. Gabriel estava no gabinete, usando o computador enquanto as crianças brincavam no quintal.

Carol: Tomás não vem?

Nora: Acabou de ligar. Disse que estava com dor nas costas.

Todos comentam o afastamento do Tomás.

Saulo: Com ou sem Tomás, eu e Sara precisamos falar com vocês. A Andanças não se encontra numa situação favorável.

Saulo e Sara desabafam e contam da verdadeira situação da livraria.

Sara: Nós estamos com uma dívida de 517 mil reais.

Nora: Isso é muito, para os padrões da livraria?

Saulo: É bastante, Nora. Bastante.

Carol: E como isso aconteceu?

O olhar de Sara encontra o de Carlos. Sara hesita, sem saber o que dizer.

Nora: Como isso aconteceu, Sara?

Saulo: Guilherme.

Nora: O quê?

Saulo: É uma dívida antiga que ele fez quando construiu a terceira loja. Ele deixou de pagar às editoras e usou o dinheiro para financiar a obra.

Carol: E como vocês não ficaram sabendo disso?

Sara: Papai era quem lidava com os fornecedores e com o banco.

Saulo: Nós já tentamos tudo que estava ao nosso alcance para sanar o problema, mas não foi possível.

Nora: A livraria vai fechar?

Sara: Não, mãe. A solução que nós encontramos é vendê-la.

Nora: Vender? Não há mais nada a se fazer?

Sara: Infelizmente, não, mamãe, a venda é uma realidade.

Saulo: Mas nós estamos procurando um comprador que respeite o valor da livraria. Não venderemos a qualquer um, Nora.

Nora: Mas a livraria vai deixar de ser nossa!

Saulo: Não, Nora, ela continuará sendo nossa, mas também de outras pessoas…

28. INTERNA – DIA – CASA DE NORA ANDRADE – CORREDOR

Depois de ouvir de Sara e Saulo a real situação da livraria, Nora estava calma. Não parecia que ela havia absorvido a notícia. Enquanto Sara e Carlos ainda conversavam na varanda – Saulo já havia se despedido –, Carol foi atrás da mãe.

Carol: Mãe?

Nora: Oi, filha. Não precisa se preocupar, eu estou ótima, apesar de tudo.

Carol: Papai continua nos surpreendendo, não é?

Nora: É. Quando menos se espera. E sabe o que é pior? Eu não consegui ficar triste ou com raiva. Ele me tirou esse direito. Só sinto indiferença. Isso me assusta.

Carol a abraça. As duas ficam assim, no corredor, em silêncio. Elas ouvem risadas do gabinete. Carol bate à porta.

Gabriel: Oi, vó. Oi, tia.

Carol: Olá. Está fazendo o quê?

Gabriel: Postando no meu blog.

Nora: O que é um blog?

Carol: Você tem um blog? Que legal.

Gabriel: Um blog é como um caderno, um diário. Você cria um e escreve o que você quiser. E todo mundo pode ler. Entendeu?

Nora: Mais ou menos.

Gabriel: É como um site. Você abre e lê o conteúdo. A diferença é que o blog é você quem faz. É mais ou menos isso.

29. EXTERNA – DIA – CASA DE NORA ANDRADE – VARANDA

Sara: Crianças, aí não!

Carlos: Conversou com Fernando?

Sara: Não. Nós brigamos de novo. Muito feio. Eu não sei mais o que fazer. Acho que as crianças ouviram.

Carlos: Nem parece.

Sara: Os pequenos não, mas Gabriel. Ele ouviu tudo… E ele anda tão recluso.

Carlos: Por causa das brigas?

Sara: Ele foi assaltado semana passada. – Sara não agüentava mais esconder.

Carlos: Meu Deus!

Sara: Eu sei. Não o machucaram, mas não deixa de ser traumático. E a culpa foi toda do Fernando!

Carlos: Sara…

Sara: Eu não sei mas o que fazer. Ele nem parece mais o meu marido, o meu Fernando.

Sara pousa a cabeça no ombro de Carlos. Os dois ficam vigiando as crianças enquanto elas brincam.

Carlos: Vai ficar tudo bem.

30. INTERNA – NOITE – BAR

[¯Don’t belive in love, Dido]

Sara ainda estava na casa de sua mãe quando decidiu ir atrás de Fernando. Ela ligou para sua casa, mas ninguém atendeu. O celular de Fernando estava desligado. Ela pediu para que a mãe ficasse com as crianças enquanto ela estava fora. Do seu carro ela ligou para Kátia.

Kátia: Alô.

Sara: Kátia?

Kátia: Sim, é ela. Quem é?

Sara: É Sara, a esposa de Fernando.

Kátia: Ah, oi. – Diz, esvaída de toda a simpatia.

Sara: Desculpe incomodar, mas você sabe onde posso encontrar meu marido? Ele está tocando aonde?

Kátia: Olha, Sara…

Sara: Por favor. Eu não falo que foi você quem disse. – Kátia lhe dá o endereço, e Sara ruma para o bar. Ao chegar ela abre o porta-luvas e retira um pequeno embrulho.

Ao entrar no bar, ela vê Fernando tocar. Ela se senta acanhada no fundo do bar, numa cadeira desaparelhada, suja e sem mesa. O lugar era bastante maltratado.

Os olhos de Fernando encontram o de Sara. Ele nota que os pés dela balançam gentilmente com o ritmo da música.

Quando a música acaba, a banda é aplaudida, e Fernando desce do palco improvisado e vai até Sara. Antes que Fernando fale, Sara levanta-se e oferece o presente.

Sara: Feliz aniversário, adiantado.

Fernando reprime o que ia falar. Ele abre o embrulho. Era um relógio. Outra banda sobe no palco e começa a tocar. Fernando coloca o relógio no pulso e deixa o embrulho na cadeira de Sara.

Fernando: Eu adorei. Obrigado. – Ele lhe dá um beijo no rosto. Os dois se abraçam e começam a dançar, lentamente. Eles sabiam que uma hora teriam de resolver seus problemas, mas não seria agora.

Continua…

Músicas do episódio (em ordem alfabética)

§ Come round soon – Sara Bareilles

§ Don’t believe in love – Dido

§ Funky town – Lipps, Inc.

§ Hotel song – Regina Spektor

§ Like a star – Corinne Bailey Rae

§ Modern nature – Sondre Lerche & Regina Spektor

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4 Respostas to “Orgulho Sem Preconceitos”

  1. Alice Says:

    Quando vim aqui ontem, procurei demais o episódio que só saiu hoje.. Pensei que fosse alguma coisa no meu computador!!
    Genteeee.. Totalmente inesperada a reação de Carlos no cinema.. Não vou mentir que ri demais aqui imaginando!!
    Legal a tentativa de apaziguar a situação com o Fernando por parte da Sara.. Mesmo sabendo que eles não resolveram os problemas deles!!
    Poucas cenas de Carol com Roberto e de Vitória essa semana!!
    Nora vai adotar um filho [não respondam.. É só minha hipótese]??
    Sentindo falta do Junior nas reuniões e nos telefonemas dos Andrades!!
    Até dia 30
    =**

  2. Carine Dávalos Says:

    O Junior não tá mais fazendo falta só pros Andrades… =D
    Torcendo muito pra Sara e Fernando se resolverem… Pra Carol se dar bem com a Larissa… e pro Tomás se abrir mais com a família dele, dor nas costas… sei sei, ele mente q nem sente! =/
    O Carlos é meio indelicado, as vezes, mas o romantismo dele me derrete… “tenho tudo que preciso aqui!” oooooooooooonW >.<
    A Nora vai ter um blog?! Que moderno…
    Pensei sinceramente que ela nunca fosse conseguir dividir risos da mesma piada com a Vera, se bem que deve ter sido muito cômico vê-la desabar com carrinho de compras e tudo mais…

    Ahhhh… rachei imaginando o Carlos virar um balde de pipoca na cabeça de um gurizinho chato, confesso que me troco muito com crianças, faria o meeeeesmo!!!

    Até dia 30…
    cheiro…*

  3. Natie Says:

    Aeeeeee!! Voltei ao EF!!! 😀
    Bom, comentando mtuuu atrasado, mas adoreii o episodio…
    Carol e a filha do Roberto foi HILARIO!!! Imaginei a cena!
    E nao sei pq pensei primeiramente na vizinha do Carlos como aquela do filme ‘E Se Fosse Verdade’… hahaha…
    Agora a melhor cena foi a do cinema! Eu adorooo qdo o Carlos faz esse tipo de coisa… rsrrsrss
    Beijoos…

    P.S.: Possivel reconciliamento de Sara e Fernando???

  4. Laís Says:

    Por essas e outras que às vezes fico feliz de não conhecer a filha do meu namorado, que também tem doze anos. Certamente não seria tão simpática quanto a Larissa e eu me atrapalharia tanto quanto Carol.rs

    O Gabs tá ótimo, orgulho !

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