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Nos episódios anteriores: Carlos e Sérgio brigaram devido à traição de Carlos. Pâmela revela a Sérgio que Carlos não dormiu com ela. Saulo se despede da Andanças para abrir uma editora com Vera. Sara cogita a vida acadêmica e equilibra sua profissão com a vida de mãe separada. Júnior está nos passos finais da reabilitação e faz uma amiga. As dores que Tomás vem sentindo se intensificam cada vez mais. Diva briga com Saulo e se muda para a casa de Nora, que começa a respeitar a relação do irmão com Vera. Rebeca se reaproxima da mãe. Carol volta para o Rio e muda de editoria. Roberto diz que há a chance de descobrir algo sobre o irmão perdido de Nora.

01. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA DE JANTAR

Nora termina de servir a sobremesa e o café para a família. O almoço daquele domingo tinha sido tranqüilo, coisa que não era comum.

Nora: Então, vocês já sabem o que vão fazer durante o carnaval?

Tomás: Nós vamos ficar aqui no Rio mesmo. – ele responde por ele e Vitória.

Sara: O Ferdi vai levar os gêmeos para Rezende. Casa de uma prima dele, assim o Dudu e a Rafa vão ter outras crianças para brincar.

Carol: Ele não vai levar o Gabriel?

Sara: Ele queria, mas o Gabs prefere ficar em casa, onde ele tem o computador, a bateria. Os amigos da banda também vão ficar por aqui. E você, Carol?

Carol: Ainda não sei. Nenhum plano definido. Será que o Júnior vem pra casa?

Diva: Se nós ainda tivéssemos a casa de Petrópolis, todos já teriam planos.

Carlos: Esquece isso, é passado, morto e enterrado.

Nora: Não fale assim. Essa família teve muitos momentos divertidos lá, Carlos. Não vamos esquecer.

10 de Fevereiro de 1986

02. FLASHBACK – EXTERNA – DIA – CASA DE PETRÓPOLIS – ÁREA DA PISCINA

Nora preparava o almoço e olhava os filhos se divertindo na piscina. Ela e Guilherme sempre quiseram um canto para passar os feriados com a família, longe do Rio. E aquele era o primeiro carnaval naquela casa.

Sara: Carlos e Carol, para de espirrar água em mim, não vê que estou tomando sol?

Carol: Ai, por favor. Só vai ficar mais vermelha.

Carlos: É uma chata mesmo!

Tomás: Carol, Carlos. Vamos jogar vôlei.

Carlos: Eu sou o Renan, posso?!

Tomás: Claro, eu sou o Bernard.

Carol: Eu, a Vera Mossa!

Sara: Isso mesmo, vão lá brincar e me deixem aqui.

Nora dava risada das idéias das crianças. Ela estava mito feliz. Júnior, com quatro anos recém completados veio correndo de dentro de casa, com as bóias no braço e pulou na piscina, molhando Sara quase que completamente.

Tomás, Carlos e Carol davam muitas risadas da irmã.

Sara: JÚNIOR!!!!!

Júnior: Sá, vem brincar comigo.

Sara: Você me molhou toda!!

Guilherme foi para junto de Nora e olhava o sorriso no rosto dela.

Guilherme: O que passa nessa cabecinha?

Nora: Nada demais. Comprar esse terreno e construir a casa foi a melhor coisa que a gente fez, não acha?

Guilherme: Sim, tem razão. As crianças estão crescendo. Daqui uns anos vêm os netos.

Nora: Espero que não tão cedo! Sara ainda nem terminou o segundo grau, e Júnior tem só quatro anos.

Guilherme: O tempo passa rápido minha querida. Sara vai fazer 17 anos em uma semana.

Nora não teve tempo de falar, o telefone tocou e Guilherme foi atender.

03. EXTERNA – DIA – CENTRO DE REABILITAÇÃO RENASCER – JARDINS

Júnior estava sentado em um dos bancos, pensando. Nora havia lhe ligado há alguns dias sobre um policial que havia ido até sua casa e mencionado um acidente. Júnior sabia que só poderia ser o acidente que havia atropelado Vitória, cometido por Betão e do qual ele fora cúmplice. Estava ficando sem opções. Teria que contar tudo para a família, ir até a polícia, prestar depoimento e encarar Tomás e Vitória. E receber toda a culpa que merecia. Tudo que ele queria naquele momento era um gole de bebida alcoólica e um comprimido.

Bianca passa pelos jardins, avista Júnior e senta-se ao seu lado.

Bianca: Oi!

Júnior: Ah, oi. – Ele faz um esforço para sorrir. Olha para o lado oposto ao da menina para enxugar as lágrimas que quase caíam e volta o olhar. – Está melhor?

Bianca: Sim, pronta para outra. – Ela sorri.

Júnior: Não fala isso nem brincando.

Bianca: Desculpa, é lógico que não estou pronta para outra. Nem quero outra. Quero me curar, bom, você sabe. – Ela sorri. – Eu falo demais. E você, tá bem? Tá com uma cara tão para baixo.

Júnior: Estou sim. Só tenho pensado bastante, sabe?

Bianca: Ah, se sei. É só o que eu faço aqui. – Ela faz uma pausa. – Aliás, posso fazer uma pergunta que já está na minha cabeça faz um tempo?

Júnior: Lógico.

Bianca: Quando você começou com o vício?

25 de Novembro de 2003

04. FLASHBACK – INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

[♫ – Drive, Incubus]

Com exceção de Júnior, os Andrades estavam todos reunidos na sala. Inclusive Fernando, Vitória, Saulo, Diva e Gabriel, que na época tinha sete anos.

Sara: Por que o Júnior tá demorando tanto?

Nora: Ele disse que queria fazer um anúncio para a família. E que fazia questão de que todos estivessem presentes.

Carlos: Eu fui lá em cima agora a pouco, e ele já está descendo.

Guilherme: O negócio é esperar, então.

Pouco tempo depois, Júnior desce as escadas. Está arrumado e tem a guitarra em mãos. Ele arruma a aparelhagem, puxa uma cadeira e se senta, de modo que todos possam vê-lo e vice-versa.

Nora: O que está acontecendo? – Diz entre risos.

Tomás: Júnior Andrade apresenta seu novo CD: MTV Acústico. – Diz imitando locutor de rádio. – É isso?

Carol: Já vejo isso como a principal notícia da editoria de Cultura!

Diva: Deixem o menino falar! Diga, meu filho! O que está acontecendo?

Júnior: Obrigado, vó. – Ele sorri para ela. – Estou aqui para lhes contar uma notícia importantíssima na minha vida. Mas antes, eu preciso tocar uma música. – Todos o olham com dúvida. Júnior está sorrindo. – Vai ajudar vocês a entender.

Júnior começa a tocar Drive, da banda Incubus. Ele canta junto com a música.

Às vezes, eu sinto o medo da incerteza me incomodar.
E eu não posso fazer nada alem de me perguntar por quanto tempo
Eu vou deixar esse medo assumir o volante e me guiar
Ele já me guiou antes,
E parece ter uma vaga atração maciça assustadora.
Mas ultimamente eu tenho começado a achar que
Eu deveria estar atrás do volante

O que quer que o amanhã traga, eu estarei lá
De braços e olhos abertos, sim.
O que quer que o amanhã traga, eu estarei lá
Eu estarei lá

Quando acaba, todos aplaudem. Júnior agradece se curvando para frente. Carol fica séria.

Carlos: Olha, tá ficando metido! Acha que é músico! – Alguns riem. Júnior continua sorrindo.

Júnior: Acho, não, sou.

Carlos: É claro que é. Você toca muito bem. Eu quis dizer músico profissional.

Júnior: Eu também.

Sara: Do que você está falando?

Júnior: É como na música, Sara. Está na hora de eu mesmo dirigir minha própria vida. Eu não presto pra Administração. Vou largar a faculdade. – Ele diz sorrindo. Diva solta um gemido de surpresa. Sara, Tomás e Carlos ficam chocados. Carol, preocupada. Nora, tensa e Guilherme, irado.

Guilherme: Como assim largar a faculdade? Você acha que a vida funciona assim? Pelo amor de Deus, Júnior, você já tem 21 anos! Esperava uma maturidade maior vinda de você! Ainda diz isso com um sorriso no rosto! Como se fosse a maior alegria!

Diva: Olha como fala com seu filho, Guilherme! É só uma fase. Não precisa ser grosso.

Nora: Com certeza é uma fase. Tomás já quis ser jogador de voleibol, lembram-se? – Tomás demonstra um certo desconforto.

Júnior: Não é fase nenhuma! Eu nunca quis entrar em Administração. Mas vocês me convenceram a ficar por um tempo. Não dá mais.

Nora: Júnior, você está se ouvindo? Você ficou três anos nessa faculdade para abandoná-la assim? De jeito nenhum! Em Fevereiro você volta pra lá!

Guilherme: Exatamente o que sua mãe disse! Não vou ver você jogar sua vida fora! Eu gastei muito com mensalidades e livros, eu dediquei meu tempo, sua mãe, para você se tornar um profissional. E não diga que isso é nossa culpa! Você escolheu Administração, nós te demos toda a liberdade para escolher outro curso. – Júnior o interrompe.

Júnior: Menos Música.

Nora: É porque nós temos mais experiência do que você. É muito difícil viver de música!

Júnior: Eu vou conseguir!

Guilherme: É, vamos ver. – Todos ficam em silêncio.

Carlos: Ju, pensa bem.

Sara: É, escuta a mamãe e o papai. Termina a faculdade e depois você decide o que quer fazer. Se quer virar músico, trabalhar como administrador, abrir seu próprio negócio… Dá para conciliar os dois. E assim, pelo menos você terá isso no currículo. – Ela diz apaziguadora, quebrando o silêncio.

Saulo: É, você pode vir trabalhar comigo numa das filiais da Andanças.

Júnior: Obrigado. Mas não dá mais. Já agüentei demais!

Tomás: Vem com essa!

Júnior: O que foi, Tomás?

Tomás: Não pode agüentar mais um ano, Júnior? Faça-me o favor! Para quem já ficou três? – Ele diz irônico. – Isso é preguiça mental. Coisa de gente mimada.

Vitória: Tomás!

Júnior: Eu tava esperando seu apoio, Tomás. Se não vai ajudar, não atrapalha. Não pedi sua opinião. É óbvio que você não entende, é todo recalcado! – Tomás se levanta e se inclina em direção de Júnior, apontando o dedo, bravo.

Nora: Seus irmãos têm razão, filho. Termina a faculdade e depois conversamos.

Júnior: Já ouvi isso antes.

Nora: Eu não vou deixar você fazer essa idiotice! – Ela se levanta. Está com o rosto vermelho. Guilherme está sentado com a mão na testa.

Júnior: Eu não esperava essa reação. De todos, só a Carol me apoiou.

Carlos: O quê? Eu bem que percebi que você ficou muito quieta.

Nora: A sua irmã fez o quê?

Júnior: Eu conversei com ela antes de tomar essa decisão.

Nora: Não acredito! Você o induziu a isso? – Ela se vira para Carol.

Tomás: Sinceramente, Carol!

Júnior: Ela não me induziu a nada. Não sei se vocês já perceberam, mas eu penso por mim mesmo!

Carol: Eu só disse a ele aquilo que eu acredito.

Nora: Ah, e o que é isso? Frustração? Pobreza? Amargura?

Carol: Não! Acredito na busca da felicidade, no talento, dom natural. E isso tudo o Júnior tem e deveria seguir.

Sara: É o que eu disse, ele pode esperar um pouco! Manter como hobby. Olha o Ferdi, ainda toca de vez em quando. – Ela coloca a mão no braço do marido, sorrindo. Ele sorri de volta, meio constrangido.

Carol: Mas se ele acha que não dá mais, não dá mais, gente! Ninguém mais pode saber o que ele está sentindo se não ele. Eu acho que vocês todos deveriam ser mais compreensivos com o Júnior.

Júnior: Obrigado.

Nora: Eu estou pensando no futuro dele. Não vou deixá-lo jogar no lixo. Você não tinha o menor direito de fazer isso, Ana Carolina! – Guilherme levanta-se.

Guilherme: Chega! – Ele diz alto e todos param de falar. – Se o Júnior que jogar a vida dele no lixo, que jogue. Ele parece bem seguro do que quer. – Ele se vira para Júnior. – Eu sou seu pai. Estarei aqui para você em qualquer situação e espero que você se dê bem na opção que fez. Porém, quando algo der errado nela, e você vier pedir alguma coisa para mim, o mínimo que espero é que se dê conta do erro que cometeu e o admita, como um homem. – Júnior concorda com a cabeça.

10 de Fevereiro de 1986

05. FLASHBACK – INTERNA – DIA – CASA DE PETRÓPOLIS

Nora foi até a cozinha pegar alguns temperos para terminar o almoço. Guilherme já tinha ido atender ao telefone há quase meia hora e ela resolveu perguntar se tinha um problema. Ela chegou até a biblioteca e viu a porta entreaberta.

Guilherme: Você sabe que eu estou passando o carnaval com minha família. Te pedi que não ligasse.

Nora não sabia de quem tratava, e pela voz de Guilherme ele não estava contente com aquele telefonema.

Guilherme: Eu sei que prometi passar aí antes de vir, mas não tive tempo. Eu deixei bem claro como tudo seria, não foi?

Ela ficava cada vez mais curiosa para saber com quem ele estava falando ao telefone. Ela não gostava de escutar conversas do marido, ele era um homem honesto e fiel, ela tinha certeza.

Júnior: MAMÃE!! Tô com fome!!

Nora se assustou com o grito do filho mais novo e saiu de perto da porta.

14 de Março de 2004

06. FLASHBACK – INTERNA – NOITE – CASA NOTURNA VAMBORA

Júnior está no palco com sua banda. Ele tocava guitarra enquanto outros garotos da sua idade se dividiam em tocar baixo, bateria e cantar. Nora, Carol, Sara, Fernando e Carlos estavam na platéia. O show acaba e Júnior vai falar com os parentes.

Júnior: E aí? Gostaram? – Ele diz ansioso, pois aquele era seu primeiro show num lugar grande e por isso havia chamado a família inteira, porém Tomás e Guilherme não havia ido.

Nora: Foi ótimo, querido! – Ela, assim como todos, estava sorrindo.

Sara: Muito bom, Ju!

Carlos: Dá-lhe Júnior!

Fernando: Como músico, posso dizer que você mandou muito bem, garoto!

Carol apenas sorri para ele e lhe abraça. Júnior sorri, contente pelos elogios da família, mas triste pela ausência de seu pai e seu irmão.

10 de Fevereiro de 1986

07. FLASHBACK – INTERNA – DIA – CASA DE PETRÓPOLIS

Nora observava Guilherme juntar suas coisas para voltar ao Rio.

Nora: Se é tão importante assim que volte, é melhor irmos todos embora.

Guilherme: Não seja boba. As crianças estão se divertindo. Sara já combinou com as outras garotas de irem até o baile do clube.

Nora: O Saulo não pode resolver esse problema por você?

Guilherme: Não, só eu. Eles precisam da assinatura do dono.

Nora: Eu pensei que esse feriado seria pra família inteira ficar junta.

Guilherme: Se não quiser, eu não vou. Mas eu vou perder um negócio importante para a livraria. Não esqueça que é de lá que vem o sustento da nossa família. Mas você decide. – Ele diz sem dar realmente margem de escolha.

Nora: Pode ir. Não quero atrapalhar seus negócios. Mas se as coisas estão assim, eu deveria voltar a trabalhar.

Guilherme: Não, de jeito algum. Você já tem trabalho o suficiente com nossos filhos e a casa. A livraria vai bem, só não podemos nos dar ao luxo de perder um grande negócio, não com essa economia difícil.

Guilherme despediu dos filhos e deu um beijo suave nos lábios de Nora.

Guilherme: Quarta feira eu venho cedo para pegar vocês.

Enquanto o carro se afastava, Nora segurou as lágrimas que queriam cair.

Sara: Está tudo bem, mamãe? – ela pergunta dando um abraço na mãe.

Nora: Claro, filha, não se preocupe, são somente negócios.

Sara: Então vamos entrar. Meus irmãos estão doidos para começar o jogo de mímicas.

08. EXTERNA – NOITE – ARPOADOR

Vera estava de pé nas pedras do Arpoador. Ela apreciava o final de tarde quente do Rio. Aquele lugar era especial para ela. Várias vezes ela e Guilherme passearam por ali. Mas ela nunca esqueceria a primeira vez que os dois estiveram ali, uma terça feira de Carnaval. Ela sorriu triste, recordando o passado feliz ao lado de Guilherme e torcendo para que ela pudesse ser feliz ao lado de Saulo.

14 de Março de 2004

09. FLASHBACK – INTERNA – NOITE – CASA DE ALGUÉM

[♫ – Elevation, U2]

Júnior estava sentado a uma mesa com alguns amigos, bebendo e conversando. Alguns fumavam. Depois de algumas doses, um outro jovem sentou-se ao lado de Júnior. Ele estava agitado.

Betão: Opa! Sou o Betão. Você é o Júnior, né?

Júnior: Isso aí! Como você sabe?

Betão: Eu sou amigo de um amigo do Renato. E ele já falou da banda e quem era quem e tal. Eu sou bom de memória, sabe?

Júnior: Hmm. – Fez ele, achando graça de tudo aquilo. – E aí, Betão, qual é a tua?

Betão: Tô fissurado, cara!

Júnior: Ah é? Em quem? – Betão ri alto.

Betão: Você é engraçado, né? Tô fissurado em mulher nenhuma não, cara! Bom, não agora. – Ele ri e mostra um vidrinho. – É a anfetamina, cara!

Júnior: Ah, to fora. Valeu.

Betão: Fala sério! Você vai ficar só no drinkzinho? Isso é bom, cara! Te deixa feliz!

Júnior: Feliz? Eu já sou feliz.

Betão: Cara, ninguém é feliz. Duvido que você não tenha problemas com mulher, amigos, família. – Júnior fica afetado pela última palavra. – Alguma frustração de vida, sonhos que não foram realizados.

Júnior: Isso vicia?

Betão: Lógico que não! Nem faz mal a você, cara! Se não, eu não estaria tomando! Não sou louco! – Eles ficam em silêncio. Betão não consegue ficar quieto. – Toma aí! Um só!

Júnior hesita, mas aceita.

Júnior: Um só! – Ele coloca o comprimido na boca e engole com o drink que bebia.

10. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO ROBERTO – SALA

[¯– Moment of Surrender, U2]

A mesa de jantar ainda tinha alguns resquícios da pizza que Roberto, Carol e Larissa tinham acabado de comer. Carol terminava de recolher suas coisas quando Roberto chega à sala.

Roberto: Dorme aqui essa noite.

Carol: Não posso…

Roberto: Por quê?

Carol inclina a cabeça em direção o que seria o quarto de Larissa.

Roberto: O quarto dela é do outro lado… – ri – E não tem problema, ela sabe que a gente namora e tudo… Tenho até permissão pra trazer namorada em casa – brinca.

Carol: Ah, não me sinto à vontade sabendo que ela estar no quarto ao lado… Lembra daquela vez? – esquiva-se envergonhada. Roberto balança a cabeça, jocosamente reprovativo – Prefiro assim, entenda.

Roberto: Tá bom, nem vou tentar usar dos meus métodos infalíveis para te convencer do contrário… – aproxima-se dela, retirando os fios de seu cabelo que caiam pelo ombro, e suspira no pescoço de Carol, provocando-a – Mas é uma pena – fala e afasta-se contendo o riso, Carol respira fundo.

Carol: Eu sou forte! – fala determinada e coloca sua bolsa no ombro, preparando-se para retirar-se.

Roberto: Espera um pouco, quero falar uma coisa para você – Carol detém-se, prestando atenção no namorado, que matinha uma postura séria, mas parecia empolgado.

Carol: Fale – curiosa.

Roberto: Seguinte, desde que você me contou sobre a história do seu tio que sumiu na ditadura, eu me interessei… – Carol parecia surpresa e estava cada vez mais atenta as palavras de Roberto –  E fui atrás de mais informações com um amigo do Marcos que já trabalhou com casos do tipo e já encontrou o paradeiro de muitos presos políticos… Enfim, pelos dados que você me passou, eu cruzei informações com ele e acho que temos algo.

Carol: Como assim? Você sabe o paradeiro dele?

Roberto: Não, nada de concreto ainda…  Mas, segundo ele, podemos descobrir quais foram os passos dele depois que foi preso e, quem sabe, tentar saber o que aconteceu com ele… Imagino que esse seja o desejo da sua família.

Carol: Sim, é! É sério isso? Nossa… Não acredito que você fez isso… Deve ser complicado…

Roberto: Sim, mas por uma boa causa – sorri.

Carol: Obrigada, obrigada mesmo… – Carol abraça Roberto – Nossa minha mãe não vai acreditar… e minha avô, então! – Anima-se.

Roberto: Calma, Carol, não se empolgue ainda. Pode não levar a nada também…

Carol: Mas pode levar!

Roberto: Que bom que está confiante. Vou precisar da sua ajuda.

Carol: Claro! O que eu posso fazer?

Roberto: Bom, vamos para Brasília, vou marcar com esse amigo do Marcos… E ele precisa de mais detalhes, que você pode fornecer, certo?

Carol: Alguma coisa, mas posso me informar mais…

Roberto: Ótimo. A idéia é mesmo bancamos os detetives – ri.

Carol: Elementar, meu caro Watson!

Roberto: Ei, eu sou o Sherlock Holmes!

Carol: Hum, veremos… – desafia – Nossa, e se ele ainda estiver vivo?

Roberto: Melhor não criar expectativas…

Carol: Claro.

Roberto: Então, já posso marcar com ele e pedir a Karen para já pesquisar as passagens para Brasília?

Carol: Vôo? – fica contida de repente.

Roberto: Desculpa, Carol, mas temos que ir de avião, não posso me ausentar por muito tempo, nem você, imagino…

Carol fica calada e temerosa.

Carol: Ah, não… não sei, não… – fica nervosa.

Roberto: Carol… – aproxima-se dela com cuidado e carinho – Você nunca me contou o que aconteceu exatamente. – fixa-se seu olhar no dela – Algo me diz que foi mais sério do que parece.

Carol fita Roberto. Pensativa, ela senta-se no sofá. Roberto senta ao seu lado, tentando passar confiança. Ela encara-o.

17 de julho de 2007

11. FLASHBACK – INTERNA – DIA – AEROPORTO SANTOS DUMONT

Carol estava impaciente. Dentro do avião, ela tentava concentrar-se na leitura de uma revista. Seu celular toca, ela sorri ao ver de quem era a chamada.

Carol: Oi fotografo!

Victor: Oi jornalista! Já em Sampa?

Carol: Não, dentro de um avião no Rio. – revira os olhos.

Victor: Atrasou… – consternado.

Carol: É! Se eu soubesse tinha ficado para almoçar, agora tenho que me virar com essas insossas comidas de avião. – lamenta-se irritada – Como está Gramado?

Victor: Fria… em todos os sentidos. Lembrar de nunca mais vir aqui sem uma namorada… Cidade romântica, sabe?

Carol: Uma namorada? Artigo indefinido?

Victor: Sem “A” namorada, artigo definido, único e irresistível – corrige-se galanteador.

Carol: Oh, aí deve mesmo inspirar o romance. Te deixou até sentimental.

Victor: Eu sou…

Carol: Como um bloco de gelo… – brinca.

Victor: Carolina, não me subestime… Aliás, – parece lembrar-se de algo – quando você chegar ao seu apartamento, você vai encontrar uma surpresa…

Carol: Mesmo? Não é nada brega como pétalas de rosa na minha cama, né? Isso dá um trabalho enorme pra limpar… – continua em tom de brincadeira.

Victor: Ah, Carol… – desanima.

Carol: Ai, não acredito, era isso?! – preocupa-se.

Victor: Capaz… Sou muito além desses clichês – brinca – Não é nada chamativo, é bem simples e, hum, verdadeiro… – diz envergonhado – Bom, vou dizer logo, não me dou bem com surpresas: é um bilhete que escrevi no último dia que estive lá, antes de viajar, mas não tive coragem de te entregar, e como você não achou por conta própria até hoje, resolvi te dar o toque.

Carol: E onde tá?

Victor: Ah, vai ter que procurar.

Carol: Alguma dica?

Victor: É um óbvio ululante!

Carol: Essa é a dica?

Victor: Sim!

Carol: Um tanto vago, não acha?

Victor: Tá na cara! Pense! – ele olha o relógio preocupado com horário – Daqui a pouco sai o ônibus para POA e eu ainda tenho que tirar umas fotos por aqui.

Carol: Muito trabalho? Ou deu pra matar as saudades da família?

Victor: Ah, só vim pra Gramado anteontem, né, deu pra curtir a família, fiquei dois dias em Nova Prata, o máximo que agüento no mesmo ambiente que meus parentes – brinca – E como foi com a máfia Andrade?

Carol: Tenso, nostálgico e dramático como sempre.

Victor: De uma maneira boa?

Carol: Depende do ponto de vista…

Victor: Indo direto ao ponto: Virei assunto?

Carol: Depende do ponto de vista…

Victor: Como assim?

Carol: Não entrei em muitos detalhes, mas deixei algo no ar. Falei que estava saindo com alguém para minha irmã também. Mas se bem conheço a velocidade de propagação de fofoca na família…

Victor: Pois você quase virou atração em Nova Prata.

Carol: Como assim?

Victor: Cidade pequena, família grande, sabe como é…

Carol: Sei, como você diz, na sua cidade até os taxistas se recusam a fazer corrida, porque é tudo muito perto.

Victor: Exato! Daí você deve imaginar que a velocidade de propagação de lá é bem maior…

Carol: Não subestime minha família… Mas o que você andou falando por lá?

Victor: Segredo… – mantém o ar de mistério – Mas não se preocupe, fiz bem seu filme, mamãe já é sua fã.

Carol sorri pra si mesma. A aeromoça começa a sinalizar.

Carol: Aleluia! O avião vai decolar! Boa viagem! Até mais! Saudades!

Victor: Também tenho que ir… Te vejo em breve, Carolina! Beijos!

12. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS – QUARTO

Vitória e Tomás estavam deitados na cama, lendo. Tomás pára sua leitura, senta-se e procura um remédio na gaveta do criado-mudo.

Vitória: Outro? Você tomou um agora há pouco.

Tomás: Está doendo. – Ele engole.

Vitória: Qual foi a dosagem que o médico deu?

Tomás: Eu não fui. – Diz deitando-se novamente.

Vitória: Tomás! Eu te disse para ir! Essas dores estão durando há muito tempo!

Tomás: Tá bom, tá bom. Eu vou, Vi. Pode deixar. Agora vem cá. – Ele diz se aproximando dela. – O que você está lendo?

Vitória: Mulheres Não Precisam de Homens Para Ter Sucesso. – Ela diz rindo.

Tomás: Nossa. Forte, né? Essa literatura neo-feminista me surpreende de vez em quando. – Ele ri e a beija. – Mas precisam de homens para outras coisas. Tenho certeza.

Ambos riem e se beijam novamente. O beijo se intensifica e eles deixam os livros de lado. Tomás ia avançar, mas Vitória o pára.

Vitória: E as suas costas?

Tomás: Eu acabei de tomar o remédio.

Vitória: Ah é, e ela pára de doer imediatamente quando você engole a pílula? – Ele volta para o seu lugar quieto. – Que foi?

Tomás: Você estragou o clima.

Vitória: Deixa de ser bobo! Eu só queria te contar uma coisa. Depois, se você ainda estiver disposição… – Ela ri, nervosa. Batia os dedos no livro fechado, criando uma melodia.

Tomás: O que é?

Vitória: Bom, não quero que você se anime muito nem nada, mas… não desceu esse mês.

Tomás: O que não desceu? – Ele pergunta confuso.

Vitória: Eu não menstruei, Tomás! – Eles sorriem.

Tomás: Então, quer dizer que você está grávida de novo!

Vitória: Você sabe como eu engravido fácil. Mas não dá pra ter certeza ainda. Eu fiz o teste e estou esperando dar a hora para ver o resultado. – Ambos ficam em silêncio, contentes e refletindo. De repente, o clima fica mais tenso. Ambos pensam na mesma coisa. Os olhos de Vitória se enchem de lágrimas. – Eu acho que seria uma ótima coisa. Recomeçar. O Tiago ficaria feliz, se tivesse um irmãozinho. – Ela sorri triste e sente o corpo arrepiar. Tomás retribui o sorriso e abraça. Eles ficam em silêncio por um tempo. Tomás sai para pegar um copo de água.

10 de Abril de 2002

13. FLASHBACK – INTERNA – NOITE – IGREJA SANTO ANTÔNIO

Vitória estava vestida com seu vestido de noiva. Ela e Tomás estavam no altar, de mãos dadas, de frente para o padre. Ao seu lado, Nora e Guilherme e Regina e Antônio, pais de Vitória. Também estavam no altar, Sara e Fernando, Carol arrumada com Lucas, Carlos com a irmã de Vitória e Júnior com uma amiga dela.

Padre: Você, Vitória Passos Andrade aceita Tomás Novaes Andrade como seu legítimo esposo?

Vitória: Sim. – Ela diz chorando e sorrindo, para o marido.

Padre: E você, Tomás Novaes Andrade, aceita Vitória Passos Andrade como sua legítima esposa?

Tomás: Sim. – Os dois se beijam. Nora e Vitória estavam aos prantos. Todos sorriam. Eles caminham para fora, onde Tomás e Vitória recebem uma chuva de arroz.

O olhar de Lucas cruza com o olhar de Tomás. Lucas era o único que não sorria. Quando percebe que o noivo o observava, Lucas sorri amarelo. Tomás vira-se para frente.

Vitória: Alguma coisa errada, amor?

Tomás: Nada! Tudo perfeito! – Ele diz sorrindo e a beijando.

14. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE CARLOS ANDRADE – SACADA

Carlos estava sentado no sofá, mirando o vazio, ouvindo música com fones de ouvido. Um barulho de chave abrindo a porta inundou o ambiente, mas Carlos não ouviu. Nora e Diva entraram na casa.

Nora: Carlos?! Carlos?! – gritou. Ela o encontra no sofá. – Você me assustou! Estávamos tocando a campainha há horas… – Carlos a olhava, mas sem ouvi-la. Nora vai até ele e tira os fones dos ouvidos. – Você quer ficar surdo, é?

Carlos: Não.

Nora: Está tudo bem, meu filho?

Diva: É claro que não está! Olhe a cara dele! Está apático.

Carlos: E por que você se preocupa? – pergunta à Diva.

Nora intervém.

Nora: Ela se preocupa sim. É sua avó, oras – Diva olha para Nora, nervosa. – Vou deixar vocês sozinhos. Pelo visto você não almoçou ainda. Vou nos preparar alguma coisa.

Nora sai e deixa Diva e Carlos sozinhos.

Diva: E então?

Carlos: Então o quê?

Diva: Não quer contar o que o deixou tão apático?

Carlos: Você está mesmo agindo como se nada tivesse acontecido?

Diva fica desconfortável.

Diva: Eu achei que seria melhor assim… Pelo visto, você, não. – Carlos não olhava para ela. – Mas eu acho que é a coisa certa a se fazer.

Carlos olha para ela.

Diva: Eu não entendo a sua… situação. E, provavelmente, não vou entender. Deus sabe quanto tempo ainda me resta. E todo esse problema com a Nora e o Saulo e aquela… Minha família precisa de mim. Você é minha família também. E está na cara o quanto aquele jovem gosta de você. Eu percebi que eu não preciso entender, ou aceitar… Eu só preciso ser sua avó.

Ela abre a bolsa e retira um embrulho.

Diva: Eu devia ter dado isso a você no seu aniversário. É só uma lembrancinha.

Carlos abre e vê que era uma gravata.

Nora: Fiz uns sanduíches!

Carlos: Obrigado, vó. – Carlos pega um sanduíche.

Diva: Eu tomei a liberdade de comprar alguma coisa para o…

Carlos: Sérgio?

Diva: É. Não sou mais tão boa com nomes. – Nora revira os olhos. – É bem genérico, já que eu não o conheço… direito – apressa-se em complementar. – Sua mãe me ajudou a escolher.

Carlos pega o novo presente. Era uma caneta.

Carlos: Ele vai ficar muito feliz. Obrigado, vó.

Nora: Vocês não têm noção de como eu estou feliz agora!

Nora sorri contente e Diva parecia estar aliviada. Carlos deu um sorriso amargo.

Nora: Carlos, está tudo bem?

Carlos: Eu terminei com o Sérgio. Na verdade, ele terminou comigo.

Nora: Oh, Carlos. – Nora o abraça.

Carlos: Está tudo bem.

Diva: Como assim está tudo bem? Você vai desistir, assim, sem tentar, sem lutar? Ah! Sangue ralo assim só pode vir do outro lado da família! Você não é só um Andrade! Você é um Novaes! Agora levanta e vai mostrar para ele quem Carlos Augusto Noaves é! Vai mostrar o que ele vai perder se não ficar com você!

Carlos e Nora se espantam com o discurso de Diva.

Carlos: Mãe, tô com medo – sussurra para Nora.

Nora: Sh.

21 de Outubro de 2006

15. FLASHBACK – INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS – SALA

Carlos: Foi tão ruim assim? – pergunta rindo.

Carlos conversava com Fábio, seu namorado, à época.

Fábio: Foi! Você não faz idéia! Pára de rir! – e ri também. – Eu nunca fiquei tão nervoso assim na minha vida.

Carlos: Mas deu tudo certo, não deu? Então, vamos comemorar sua primeira vitória!

Carlos foi até a cozinha e trouxe uma garrafa de vinho e duas taças.

Fábio: Você nunca me contou como foi a sua primeira vitória… ou derrota.

Carlos: Nunca?

Fábio: Nunca.

Carlos serve vinho para os dois e senta-se à mesa de centro, de frente para Fábio.

Carlos: Bem, foi num caso pequeno. Eu também estava incrivelmente nervoso e – ele ri – suava feito um porco – Fábio ri também. – Quando eu fui interrogar o réu, eu comecei a gaguejar!

Fábio: Tadinho!

Carlos: É! E eu tinha que repetir a pergunta porque a juíza não entendia e isso ia me deixando cada vez mais nervoso, o que me fazia gaguejar mais!

Fábio: Que fofo! – os dois se beijam. – Mas você ganhou ou perdeu?

Carlos: Ganhei. O júri deve ter ficado com pena de mim.

Os dois riem juntos e Fábio começa a encarar Carlos em silêncio.

Carlos: O quê?

Fábio: Nada não.

Carlos: Ah, agora fala.

Fábio: Nada, já disse.

Carlos: Fala! – insiste.

Fábio: Não é nada – desconversa.

Carlos: Se eu soubesse dar o olhar da minha mãe, você não iria resistir e me contaria.

Fábio: O seu foi difícil de resistir…

Carlos: Sério?! – diz, empolgado.

Fábio: Aham.

Carlos: E mesmo assim você não vai falar? – Fábio faz que não com a cabeça e senta-se.

17 de julho de 2007

16. FLASHBACK – INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CAROL – SALA

[¯– Moment of Surrender, U2]

Carol coloca sem jeito sua mala no sofá e parte para a busca do bilhete de Victor. Durante o vôo, lembrou do livro Obvio Ululante, de Nelson Rodrigues. Victor adorava o dramaturgo, inclusive dera de presente para Carol o livro A Vida Como Ela é…, e foi diretamente nele que Carol foi quando chegou à estante. Folheou-o ansiosa. E lá estava uma pequena folha de caderno dobrada e marcada pela caligrafia de Victor. Carol lê.

Querida Carolina,

Se está lendo isso significa que finalmente você encontrou ou eu tive coragem de te contar onde estava. Não faço idéia se já se terá passado uma semana ou um mês, ou até, quem sabe, anos.  Não importa. Tudo aqui escrito ainda estará valendo. “Já diria Nelson Rodrigues: ‘Todo amor é eterno, se não é eterno, não era amor’”. Essas foram as primeiras palavras que ouvi da sua boca. Uma repórter política comentando de mais uma separação de um casal de celebridades no refeitório de um grande jornal. Eu, um fotografo terceirizado, descrente, errático e cínico, não consegui ignorá-la. Gamei!

(E isso era pra ser um bilhete e já está virando uma carta cafona de amor. Porém, citando outro, o Pessoa: “Toda carta de amor é brega, se não é brega não é uma carta de amor”. Continua… )

Seguindo a mesma lógica de raciocínio, Carol procurou pelo único livro de Fernando Pessoa que tinha, Mensagem. E lá estava a segunda parte da carta de Victor. Carol continuou, emocionada, sua leitura.

17. INTERNA – NOITE – KAOS ROCK & BLUES

[¯–Sail Away, The Rasmus]

[¯– Eu e Ela, Titãs]

É começo de noite de segunda-feira. Sara estaciona o carro em frente ao clube. Rafaela e Eduardo estão no banco de trás vestidos com uniforme do colégio. Sara libera as portas, e os dois saem afoitos do carro.

Sara: Ei, ei, senhores! Parem! – Os dois param, e Sara tira do carro uma mochila, passando em seguida aos filhos – Segurem.

Os três seguem para dentro do estabelecimento. O clube ainda não estava funcionando. Dentro, apenas alguns músicos que passavam o som, entre eles, Fernando, observado de perto por Gabriel. Fernando dedilhava no violão uma canção e a cantava baixinho, passando as notas e o tom para o restante da banda.

Fernando (cantando): Escrevo as últimas palavras, estendo a mão sem dar um beijo. Espelho meu, desiste dessa cara. Entrego a ela todos os segredos. Ela que era tudo para mim. Foi tudo para mim…

Sara vacila por um segundo ao ouvi-lo cantar. De onde estava, sem ousar dar mais nenhum passo, ela chama por Gabriel. O garoto e Fernando viram-se em direção a Sara. Fernando cumprimenta-a com cabeça, Sara responde da mesma forma. Gabriel vai até a mãe. Os gêmeos correm até o pai. Enquanto Sara conversa com Gabriel, Rafaela e Eduardo conversam com Fernando.

Sara: Você já está pronto? – Gabriel assente – Então, me ajude com seus irmãos… Vou deixá-los na festa e ir direto para minha reunião.

Gabriel: Sério que eu vou perder o show do papai aqui no Kaos para ir ao aniversário de um pivete que eu nem conheço?

Sara: Ossos de ofício de irmão mais velho – Sara pisca para ele – Te deixo aqui após a festa… Isso não deve começar antes das dez horas, né? Festa de pivete termina cedo… – passa a mão na cabeça do filho.

Gabriel desvia e dá de ombros, resignado.

Fernando: Hey, o que vocês ainda estão fazendo de uniforme?

Eduardo: A gente ficou na vovó depois da aula.

Fernando: Ah, tá…

Rafaela: Mas a gente tomou banho… Olha como eu estou cheirosa! – aproxima-se do pai, fazendo-o sentir o cheiro de seu cabelo.

Fernando: Hum, linda e cheirosa! – beija a filha – E essa bolsa?

Eduardo: Roupa para gente trocar e ir para festa do Kinkas.

Fernando: Ah… E o Gabs vai também?

Eduardo: Vai. A mamãe tem uma reunião e não pode ficar com a gente lá, nem você, né? – Fernando assente.

Sara: Olá, boa noite! – Sara aproxima-se e cumprimenta formalmente os músicos que estavam com Fernando, que respondem ao cumprimento – Fernando, onde é o banheiro daqui?

Fernando: No mesmo lugar de sempre, Sá – Sara abaixa a cabeça, desviando o olhar.

Sara: Vamos, meninos! – ela chama pelos gêmeos.

Sara segue com os filhos, e Fernando vira-se, voltando a tocar e cantar. Sara vira o rosto rapidamente em direção a Fernando, depois passa levemente o dedo pela aliança de ouro branco, que tanto ela quanto Fernando ainda usavam.

16 de Julho de 1994

18. FLASHBACK – INTERNA – NOITE – KAOS ROCK & BLUES

[¯–Should I stay or should I go, The Clash]

Sara chega ao clube onde naquele momento ensaiava a banda de Fernando. Ela trajava calça jeans e uma camisa branca larga com a imagem da Janis Joplin estampada. Seu cabelo era longo e um tanto quanto repicado, mas estava preso num rabo de cavalo, de modo que só algumas mechas da franja ficavam soltas e caídas no rosto. Ele estava de jeans meio surrado e blusa larga preta escrita “Are you listening?” e ornamentada por desenhos estilizados de guitarras e notas musicais. Seus cabelos desarrumados combinavam com o sorriso descompromissado e genuinamente feliz ao cruzar seu olhar com o de Sara. Ela sorria de volta, também sincera, embora mais contida.

Entusiasmada, a banda finaliza Smells Like Teen Spirit, do Nirvana. Eles dão uma pausa no ensaio. Sara aproxima-se, cumprimentando todos com animação, fazendo-os rir de suas observações. Em silêncio, Fernando a acompanhava com o olhar até que Sara também o fita. Fernando larga a guitarra e pega o violão, partindo em direção a Sara. Cumprimenta-a com um rápido, porém forte beijo na boca. Sara abre a boca para perguntar algo, mas antes que ela pudesse emitir algum som, Fernando a puxa pela mão, pede licença aos amigos e a leva para dentro do camarim.

Sara: O que é isso? – surpresa com a atitude dele, que parecia cada vez mais nervoso e empolgado.

Fernando passa a mão na barriga de Sara e sorri para ela.

Sara: Três meses, Ferdi, ainda não dá para sentir nada… A barriga nem começou a crescer direito. – Diz também acariciando sua própria barriga, Fernando apenas sorrir.

Em seguida, senta-se em um banco e posta o violão para começar a tocar.  Então, ele começa a cantar Should I Stay or Should I Go, do The Clash, em sua versão original. Sara ainda não entende o ato. Aos poucos o ritmo vai diminuído, ficando menos punk e mais melódico. É aí que ele começa a cantar sua própria versão da música e em português.

Fernando (cantando): Sá, você tem que me dizer: Devo ir ou devo ficar? Se você disser que quer ser minha, eu serei seu até o fim. Você tem que me dizer: Devo ir ou devo ficar?

Sara ri.

Fernando: É sério! – avisa também tentando conter o riso. Fica sem jeito, mas toma coragem para continuar cantando.

Sara: O que é isso, Ferdi?! – exige saber, já meio nervosa, mas não consegue deixar de sorrir bobamente emocionada.

Fernando (cantando): Sempre linda, linda e mandona! – enfatiza – Você fica feliz se eu ficar de joelhos – ajoelha-se próximo a Sara, e começa a ser mais preciso e romântico na pronuncia das palavras, focando seu olhar no de Sara – Se você me quer longe, eu não quero nem saber. Eu quero ficar, eu quero ser seu. Devo ir ou devo ficar? – Sara já tinha os olhos cheios de lágrimas e, embora surpresa e tensa, sorria emocionada para Fernando – Se eu for, haverá confusões e se eu ficar, haverá muito mais. Então, você vai ter que me responder… – faz uma pausa, pára de tocar, tira uma aliança de ouro branco do bolso e segurando a mão de Sara com sua mão livre, finaliza a canção a capela – Você quer viver para sempre comigo?

10 de Abril de 2002

19. FLASHBACK – INTERNA – NOITE – BUFFET LA FIESTA

A festa já estava acontecendo há certo tempo. Os noivos já haviam inclusive cortado o bolo e feito o brinde. Agora as mulheres se reuniam para tentar pegar o buquê jogado por Vitória.

Sara: Vai lá, Carol! Eu não posso ir e alguém tem que representar os Andrades! Te garanto que se você não for agora, o Carlos vai. – Ela diz empurrando a irmã para junto às outras mulheres.

Carol: Tá, tá. Mas com a minha sorte na vida amorosa, mesmo que eu consiga encostar no buquê, vou pegar uma alergia com as flores, espirrar e deixá-lo cair no chão, para outra qualquer pegar.

Carol se posiciona entre a irmã de Vitória e uma de suas amigas. Vitória ameaça jogar o buquê algumas vezes e finalmente o arremessa para trás. Carol pula como as outras e pega o buquê.

Carol: Rá! Peguei! – Diz alto, comemorando. Depois complementa, baixinho. – Que irônico!

Enquanto todos voltam a dançar e conversar depois de constatar quem pegou as flores, Tomás corre até Vitória com um sorriso no rosto.

Tomás: Pronto! Agora que a gente já fez tudo que o protocolo pede, vamos embora?

Vitória: Tá. – Ela sorri também. – Mal posso esperar! Deixa só eu ir falar com a minha mãe, tá? – Ela sai.

20. EXTERNA – NOITE – PRÉDIO DE CARLOS – GARAGEM

Carlos está saindo com seu carro da garagem, quando vê Pâmela entrando no prédio a pé, com algumas sacolas na mão. Ela evita a vizinha e engole seco, com seu objetivo bem definido: o apartamento de Sérgio.

23 de Outubro de 2006

21. FLASHBACK – INTERNA – DIA – PRÉDIO DE CARLOS ANDRADE – CORREDOR

Carlos estava chegando em casa. No corredor do seu andar, uma mulher estava carregando uma caixa para o apartamento dela. Carlos resolve cumprimentá-la.

Carlos: Oi. É nova aqui?

Pâmela: Sou sim. Sou Pâmela, muito prazer.

Carlos: Carlos. Do 11B – os dois apertam as mãos. – Quer ajuda com essas caixas?

Pâmela: Se não for incômodo… Os funcionários do caminhão foram deixando elas aí. Vê se pode?!

Carlos pega uma das caixas e entra no apartamento com ela.

Carlos: Uau. É bem bonito.

Pâmela: Obrigada.

Carlos coloca a caixa no chão, perto da outra que Pâmela carregava. Os dois depois trouxeram as últimas caixas.

Pâmela: Eu te ofereceria alguma coisa, mas ainda não fui às compras. Não tenho nem água.

Carlos: Ah, não tem problema.

Pâmela se senta e Carlos a segue. Ao sentar, ele retira a almofada do lugar.

Carlos: Amarelo marca-texto. Legal.

Pâmela: Quer ela para você?

Carlos: O quê?

Pâmela: É. Fica pela água.

Carlos: Valeu. Se você precisar de alguma coisa, é só chamar.

Pâmela: Olha que eu vou, hein.

Carlos sai do apartamento de Pâmela e segue para o seu. No caminho, vê Fábio saindo do elevador com uma sacola.

Carlos: Oi! – Ele se cumprimentam com um beijo. Pâmela deixa cair o copo que estava segurando. O casal olha para ela, e ela disfarça. – O que você está fazendo aqui a essa hora?

Fábio: Tenho uma novidade! Vamos entrar que eu te conto. – Os dois entram.

10 de Abril de 2002

22. FLASHBACK – INTERNA – NOITE – BUFFET LA FIESTA

Vitória: Aproveitarei, mãe! – Ela se despede da mãe e volta para encontrar Tomás, quando Lucas a pára.

Lucas: Oi Vi!

Vitória: Lu! Quase não te vi a festa inteira!

Lucas: Pois é. – Nesse momento Tomás os vê, pois havia ido de encontro a Vitória. Ele se mantém longe.

Vitória: Não dá pra falar muito agora. – Ela diz rindo. – Vou aproveitar o casamento.

Lucas: Calma, eu só queria te dizer uma coisa rápida.

Vitória: Sim?

Lucas: Eu sei que fui seu padrinho e te apoiei na decisão de se casar com o Tomás, mas na realidade, você sabe qual seria meu desejo, né?

Vitória: Qual?

Lucas: Vitória, eu vou ficar te esperando. Um dia, quando você perceber que não fez certo ao se casar com ele, pode me procurar. Estarei aqui pra você.

Tomás: Ah, é mesmo, Don Juan de Marco? – Ele diz se aproximando com firmeza.

Vitória: Tomás!

Tomás: Que pena, parece que ela não se arrepende. – Lucas fica em silêncio, o que irrita ainda mais Tomás. Ele segura Vitória pelo braço, mas sem machucá-la. – Vamos, Vi. Não vale a pena discutir no dia do nosso casamento! – Eles saem.

17 de julho de 2007

23. FLASHBACK – EXTERNA – NOITE – AVENIDA WASHINGTON LUÍS (SÃO PAULO)

[¯– Moment of Surrender, U2]

Comovida pela mensagem de Victor, Carol resolve ir buscá-lo no aeroporto.  Carol ia dirigindo e relembrando de cada linha que Victor havia lhe escrito.

Continuando a mensagem espontânea… É, também não sei o que me deu para escrever isso, desconfio que seja você que tem esse efeito sobre mim. Você, a jornalista séria, conceituada e louca, de um jeito que me faz rir e cantar junto no karaokê da festa da empresa quando te tive pela primeira vez em meus braços.

O vôo de Victor saiu de Porto Alegre às 17h15, ele havia lhe mandando uma mensagem de celular avisando. Portanto, Carol poderia chegar a tempo. De onde estava já podia até enxergar o Aeroporto de Congonhas. Era 18h50, o sinal fecha, Carol ajeita-se no banco impacientemente, olha-se no espelho para checar sua aparência, arruma o cabelo com as mãos e quando retorna seu olhar para pista, antes mesmo de enxergar qualquer coisa, ouve um barulho ensurdecedor.  Depois um enorme clarão próximo ao aeroporto e sente um leve tremor. Carol entra em pânico.

Neurótica, de um jeito que às vezes me faz querer surtar também, mas, incrivelmente, na maioria das vezes, seus surtos, me acalmam. Isso não faz sentido, eu sei.

Tudo de repente estava mais escuro e extremamente quente. Carol não sabia como agir. O trânsito foi interrompido. As pessoas gritavam, corriam e choravam. Desesperadas. Carol liga pro celular de Victor. Nada. Liga de novo. Nada. O fio de esperança vai se afinando cada vez mais com o passar do tempo. Precisa fazer algo. Não pode seguir em frente, não quer retornar na dúvida. Liga pro disk informação, pega o telefone do aeroporto. Liga. As mãos tremem. A linha está ocupada. As notícias gritadas na rua eram as piores. Informações desencontradas. Medo. Pânico. Agonia. Aflição.

24. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS – QUARTO DE TIAGO

Ao voltar para o quarto, Tomás pára e entra no quarto que seria de seu filho sem saber por que. Ele senta-se na poltrona de balanço e começa a imaginar como seria com outro bebê ali. Talvez aquele quarto não ficasse vazio para sempre. Ele se levanta e vai até a janela fechada, abri-la um pouquinho.

Tomás: Pronto. Assim você não morre de calor. Só não deixa sua mãe saber que fui eu, se não ela me mata. – Ele diz sorrindo tristemente para o berço vazio.

22 de Fevereiro de 2008

25. FLASHBACK – INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS – QUARTO

Vitória e Tomás estão sentados na cama, tensos. Eles esperavam o exame de gravidez.

Tomás: O que você acha que vai ser? Menino ou menina?

Vitória: Tomás! A gente nem sabe se eu tô grávida! – Ela fica em silêncio por um tempo. – Menino! Acho que é menino. Eu vou gostar dos dois, mas é a minha intuição de mãe.

Tomás: Eu também acho! Imagina, jogar bola com ele, levar pros lugares. – Ambos sorriem.

Vitória: Quando a gente se casou, você imaginava como seria o nosso futuro?

Tomás: Sim.

Vitória: E como era?

Tomás: Bom, por um tempo eu pensei que o Lucas iria invadir nossa casa, te seqüestrar e te levar de mim. Daí, é claro, eu teria que arranjar um arsenal e partir atrás de você… – Eles riem. – Mas depois eu percebi que ele não seria louco de enfrentar o grande Tomás Andrade.

Vitória: Sério, Tomás!

Tomás: Lógico que imaginava. Acho que eu me baseei nos meus pais pra imaginar meu futuro, sabe? Lógico que não cinco filhos. Nunca iria pedir algo assim para você. Mas quem sabe uns dois, três… Acho que ter irmãos é uma coisa fundamental. A gente moraria numa casa, não necessariamente muito grande, mas com um quintal legal… Enfim, essas coisas.

Vitória: E por que você nunca me contou essas coisas? – Ela diz com os olhos brilhando.

Tomás: Porque você nunca perguntou. – Eles se beijam e ficam um tempo em silêncio, sorrindo um para o outro. Tomás checa o relógio – Já deu o tempo! Corre lá, Vi!

Vitória corre até o banheiro, onde estava o teste de gravidez. Tomás a espera na cama. Ela volta devagar com um sorriso se orelha a orelha.

Vitória: A gente vai ter um filho! – Tomás corre até a esposa, a abraça e beija e os dois saem para comemorar.

26. INTERNA – NOITE – FACULDADE BULEVARES

Sara andava pelo corredor da faculdade procurando pela porta da coordenação do curso de Administração. De repente avista Gabriela sentada num banco.

Sara: Oi amiga! O que você tá fazendo aqui?

Gabriela: Vim te dá apoio moral – sorri.

Sara a encara séria e com as mãos na cintura.

Sara: Gabi, você já fez muito só de me indicar para essa entrevista.

Gabriela: Não, não foi só por isso… Até porque sei que suas chances são grandes, você tem potencial e eles estão desesperados… As aulas já começaram, né? – aponta os alunos andando pela janela – Fui egoísta, na verdade. Pensei em vim e reencontrar as pessoas daqui que tenho saudades, e, confesso, para conversar com você também, de quem tenho mais saudades ainda.

Sara: Mas eu já tô atrasada. Tive que deixar as crianças numa festa de aniversário antes e… – fala apressada. Gabriela interrompe-a.

Gabriela: Não tá, não. A Clara ainda não está na sala, ela sempre se atrasa. Acostume-se com isso. Nós ainda temos alguns minutos, relaxa… Sabe o que eu encontrei dia desses? A caixa com os cartões postais que você me mandava. – Sara fica levemente surpreendida – Lembra, houve uma época que a gente tinha tempo e disposição para viajar e vivíamos enviando cartões uma para outra dos lugares que cada uma visitava?

Sara: Nossa, eu era muito empolgada, mandava até três postais do mesmo lugar!

Gabriela: E quando a cidade de tão pequena não tinha cartão-postal, você fazia o Nando desenhar algum, mas não deixava de me mandar um alô.

Sara: Tempo bom… – suspira saudosa – O Ferdi nunca mais desenhou nada fora projetos arquitetônicos, isso no tempo que ele ainda trabalhava, né? – revira os olhos – Tenho saudades de você, Gabi. Aliás, ando com saudades até de mim mesma. Sem o Fernando em casa, aumentou a correria. Sem contar que o tio Saulo saiu da Andanças – Gabriela abre a boca surpresa – Pois é!! – apóia a reação da amiga – Quero muito essa vaga, mas nem sei se darei conta.

Gabriela: Dará, como você mesmo dizia é só se planejar… Como era mesmo: “O programado não sai caro”? – Sara confirma sorrindo pensativa – E como vai em relação ao Nando? – Sara inquieta-se e respira fundo.

Sara: A questão é que durante um casamento você vai dando muitos nós… E para desatá-los, já viu, né?

Gabriela: Uhum, deve tá sendo… – tenta medir as palavras – horrível.

Sara: Sim, mas a idéia de me separar dele para mim sempre foi algo de vida ou morte, sabe? – faz uma cara de desespero para se expressar – Só que de uns tempos para cá, a coisa estava tão desgastada que vida ou morte era continuar com aquilo.

Gabriela: Nossa, sério? – Sara confirma.

Sara: Mas daí agora, de vez em quando, volta uns pensamentos e uns sentimentos da época que eu acreditava que ficaria para sempre com o Fernando, que não conseguiria viver sem ele…

Gabriela: E você fica na dúvida se a separação é o certo a se fazer ou não?

Sara: O que é isso? Você é minha analista agora?

Gabriela: PSICOanalista – brinca – Acho que é natural isso, vocês têm uma história. A maioria de suas memórias de vida envolvem o Nando, vocês se completavam, se amavam…

Sara: Não era esse conta de fadas todo que todos falam.

Gabriela: Ah, era sim…Todos tinham inveja – Gabriela brinca. Sara permanece calada, desconfortável – Cabe a vocês pesarem os prós e os contras antes de uma decisão definitiva.

Sara: Não, eu não penso em voltar… Não para continuar como estar… E o ponto é: eu sei que vai continuar. – seus olhos se enchem de lágrimas, e ela tenta desviar o olhar de Gabriela – Casamento é um troço complicado, colocar duas pessoas que se amam para morarem juntos e resolverem os perrengues do dia-a-dia. É preciso muita dedicação, comprometimento e concessões… Acho que o cansaço venceu a paixão.

Gabriela: A batalha talvez, mas e a guerra?

Sara: Muito metafórico isso… – ela tenta sorrir – O concreto é que coisas que me faziam amar o Fernando, agora não me dizem nada ou me irritam profundamente, e a recíproca também deve ser verdadeira. – ela pressiona os lábios um no outro e tentar forçar uma expressão confiante ao mudar de assunto – E por falar em coisas concretas: me diga, o que me espera por trás dessa porta?

05 de Dezembro de 1994

27. FLASHBACK – INTERNA – AUDITÓRIO DA UFRJ

[¯–Best Days, Matt White]

Sara estava diante de uma banca de professores, encarregados de avaliarem sua dissertação de mestrado. O pequeno auditório contava com a presença de amigos (entre eles Gabriela) e de parentes. Os Andrades, claro, marcavam presença. Estavam lá: Nora, Guilherme, Tomás, Carol, Carlos e Júnior. Todos estavam na expectativa do resultado que seria pronunciado em breve. O professor, que aparentava ser o mais velho do trio, tomou a palavra.

Professor: Temos o prazer e o orgulho de anunciar que a agora Mestre Sara Andrade Viana teve sua Dissertação aprovada com nota máxima e com louvor.

Muitas palmas soaram pelo ambiente. Sara beija e abraça Fernando que aproveita para beijar a barriga de quase oito meses da esposa. Tudo de forma sutil. Depois Sara se aproxima da banca para cumprimentar e agradecer aos professores. Uma delas levanta-se e demora-se em seu abraço em Sara e em seguida começa a falar.

Lourdes: Espera aí, antes de você falar algo, – diz para Sara – eu quero dizer que foi uma honra ser sua orientadora, caminhar com você nessa jornada. Você é uma pessoa doce e inteligente. Organizada e extremamente responsável. Sempre entregava tudo impecavelmente em dia, mesmo com os enjôos e crises hormonais – riem – Superdedicada e determinada, se daria muito bem na correria da carreira acadêmica, como professora e pesquisadora, mas tenho certeza também que será uma profissional exemplar seguindo pelo caminho que optou. Gerenciar uma livraria também é a sua cara, minha querida. Boa Sorte! – abraça Sara mais uma vez. As duas tinham lágrimas nos olhos.

Sara: Aí, aí… – suspira – Depois disso tudo, eu tenho que falar algo. Primeiro quero agradecer a minha fofa e sábia orientadora. Lurdinha, sem você para descomplicar tudo que eu complicava, nenhuma página disso teria saído. Muito obrigada por isso e por essas lindas palavras, não mereço tanto!

Sara acena para professa e em seguida, vira-se para platéia.

Sara: Quero agradecer também aos meus pais, por acreditarem em mim sempre. Mãe, obrigada por encher minha vida de força e livros. Você é sensacional! – Nora emociona-se – Pai, obrigada por me ensinar e pela oportunidade. Tenho orgulho do que construiu e estou feliz de agora fazer parte da sua empresa. – Guilherme a fita orgulhoso – Aos meus irmãos, que são meus alunos e meus professores do dia-a-dia, ou seja, vivem ou tirando a minha paciência ou pegando no meu pé. – risos gerais – Tomás, obrigada pelo ajuda nas pesquisas, você tem futuro, irmãozinho! – zoa de leve, fazendo Tomás sorrir contrafeito – Carol, pelo apoio emocional e pelas dicas de escrita. Essa domina as palavras como ninguém! – Carol sente-se lisonjeada – Carlos, valeu pelo apoio alcoólico! – mais risadas – Bom, pelo menos até quando eu pude beber – diz segurando a barriga.

Carlos agradece acenando e fazendo sinal de depois, como se marcasse uma ida ao bar, fazendo todos rirem. Quando cessa as risadas, Sara continua.

Sara: Ao caçulinha Júnior por não atrapalhar – as pessoas riem, Júnior olha chateado e surpreso – Ah, brincadeira, obrigada pela torcida, Ju! Talvez você seja meu maior fã – brinca – Aos meus amigos, alguns desde a graduação que já são companheiros de vida, que me servem de inspiração e distração.

Gabriela manda beijinhos para Sara, que sorri em resposta.

Sara: E, por fim, mas não menos importante ao meu marido Fernando – ela olha para ele – Nossa, ainda é estranho, “meu marido”. – ri, depois fica séria – Minha vida mudou tanto esse ano, e pelo visto vai mudar ainda mais, mas graça ao Ferdi, essas mudanças que de início parecia assustadoras, estão sendo a cada dia melhores. Ferdi, meu amigo e amante, sempre presente e sorridente, obrigada por gostar tanto de literatura e de música quanto eu… ou mais, a disputa é acirrada – ri – Obrigada por ser essa pessoa doce e zen, que me mantém sã e me faz acreditar que é possível e até acreditar no impossível mesmo nas minhas maiores crises e surtos… Você é lindo! – Fernando, mesmo sem graça, ri emocionado e apaixonado para Sara – Ah, – ela coloca a mão na barriga – e ao rapazinho aqui também, para quem eu tenho a obrigação de dar os melhores exemplos e a quem eu já amo absurdamente. Aliás, como já amo a cada um aqui… – respira fundo – Enfim, sem mais delongas, obrigada!

28. INTERNA – NOITE – PRÉDIO DE SÉRGIO BRAGANÇA – PORTARIA

Carlos estaciona apressadamente em frente ao prédio de Sérgio e corre para a portaria.

Carlos: Você pode avisar para o Sérgio do nono andar que o Carlos está aqui, por favor?

Porteiro: Seu Sérgio não tá não.

Carlos: Ah, não? – Ele se lembra de uma coisa e começa a procurar algo no bolso.

Porteiro: Eu posso anotar um recado, se o senhor quiser.

Carlos não acha o que procurava e corre para o carro. Começa a procurar no veículo. Abre o porta-luvas e finalmente acha. Volta para a portaria.

Carlos: Eu tenho a chave do apartamento dele. – Ele diz para o porteiro, balançando a chave no ar. O porteiro se assusta um pouco, mas deixa ele entrar. – Ah, só mais uma coisa. Você viu quando ele saiu?

Porteiro: Não, senhor. Meu turno começou agora há pouco.

Carlos: Ok, brigado.

23 de Outubro de 2006

29. FLASHBACK – INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS – SALA

Carlos e Fábio entram no apartamento de Carlos. Fábio deixa a sacola em cima da mesa, e Carlos espia.

Carlos: Hm, vinho? Vamos comemorar o quê?

Fábio: Lembra aquilo que eu hesitei te contar anteontem?

Carlos: Sim! Ainda estou curioso!

Fábio: Então, é porque não tinha nada definido ainda, mas agora tenho. – Ele sorri.

Carlos: Então chega de mistério! – Carlos também sorri.

Fábio: Eu mandei um currículo para a Barbosa-Lima e fui fazer uma entrevista. Daí hoje eles me contaram. Fui contratado! – Ele sorri mais ainda, esperando uma reação de Carlos.

O sorriso espontâneo de Carlos se transforma num amarelo.

Carlos: Parabéns! – Ele beija Fábio.

Fábio: É claro que vou começar sob outro escritório, outra supervisão, mas com o tempo, quem sabe eu não consigo ficar junto contigo? Imagina, a gente poderia almoçar junto todo dia e quem sabe até ir junto para lá. – Carlos concorda com a cabeça, sorrindo amarelo. O telefone de Fábio toca e ele atende.

Enquanto isso, Carlos tinha uma epifania. Ele se imaginava indo ao escritório no mesmo carro que Fábio, encontrando com ele pelos corredores, almoçando com ele, voltando para casa, para a mesma casa, assistindo o jornal e a novela, o levando para os almoços dos Andrades, tomando conta de Eduardo e Rafaela com o namorado. A idéia de compromisso apavorava Carlos e o deixava neurótico.

Fábio: Carlos, eu vou ter que sair. Era meu pai, aconteceu alguma coisa por lá. Mas eu volto de noite para comemorarmos.

Carlos: Tudo bem. Estarei esperando. – Ele sorri e se despede do namorado. Então, senta-se e liga para Carol, triste. – Carol, eu preciso de um motivo urgente para terminar um namoro.

30. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SÉRGIO – SALA

Carlos abre a porta e observa o ambiente. Vê tudo arrumado, uma foto dele em cima de uma das prateleiras da estante. Ele tem vontade de chorar com a culpa que sente. Ele simplesmente queria voltar no tempo. Ele se senta no sofá e pega um dos livros de culinária de Sérgio, em cima da mesa de centro. Dá uma folheada, verifica outros livros, e fica quieto sentado.

Depois resolve se levantar e vai até o quarto. Lá, ele vê alguns porta-retratos no criado-mudo, com fotos dos pais de Sérgio, só dele, dele com amigos e um porta-retrato em cima da cama, com uma foto dos dois. Carlos tira os sapatos e se deita por cima da cama arrumada. Abraça a foto e fecha os olhos. Acaba pegando no sono.

31. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS – QUARTO

Vitória: Tomás! Tomás! Cadê você? O teste está pronto! – Tomás escuta Vitória chamá-lo e corre até seu quarto.

Tomás: E o que deu? – Pergunta ansioso.

Vitória: Não sei. Ainda não vi. Quero ver com você. – Ela já está sentada na cadeira de rodas, suas mãos tremem

Os dois seguem ao banheiro da suíte. Lá, Tomás se aproxima do balcão da pia antes de Vitória. Na cabeça dos dois, milhões de possibilidades. Não amar esse filho como amaram Tiago, o medo da possibilidade de perder um filho novamente, o medo de arriscar a vida de Vitória novamente… Os dois tremiam. Ele examina o teste por um longo tempo e olha para a esposa.

Tomás: Alarme falso. – Ele diz sacudindo a cabeça, desolado.

Vitória: Mas, mas… Não é possível! Eu estava tão certa!

Tomás: Mas foi, Vitória! Foi possível. Você não está grávida. Ponto final. – Ela se assusta com a atitude do marido. – Seria até perigoso você engravidar agora. Nas condições atuais, seria uma gravidez de risco. E eu não quero arriscar perder você de novo.

Vitória: Tomás… – Ela chorava.

Tomás: Vamos dormir. – Ele volta para o quarto e senta-se na cama. – Desculpa se eu fui grosso com você. Amo você, mas eu quero dormir. Preciso dormir.

Os dois se deitam.

Vitória: Também amo você. – Tomás apaga a luz.

17 de julho de 2007

32. FLASHBACK – INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CAROL – SALA

[¯– Moment of Surrender, U2]

Sem mais saber o que fazer no meio da rua, já que era impossível chegar ao aeroporto, Carol retorna para o seu apartamento e fica atenta às notícias pela televisão enquanto segurava o telefone, fazendo as mesmas ligações de sempre em busca de informações e ainda na expectativa de não ter sido o avião onde estava Victor.

Eu sei que não consigo mais evitar. Já é tempo de anunciar ao mundo que a encontrei. Estou pronto. Isso tá muito patético?

Na televisão alardeava-se o fato: Com dificuldades para frear na sua aterrissagem, uma aeronave da TAM fez uma curva para esquerda e saiu da pista. Após sobrevoar a Avenida Washington Luís, o avião atingiu parte da cobertura de um posto de gasolina e em seguida chocou-se contra um prédio da TAM Express, situado ao lado do posto. E o pior sai da boca da repórter: “A aeronave Airbus A320 da TAM, vôo 3054, saiu do Aeroporto Internacional Salgado Filho em Porto Alegre às 17h16 com destino ao Aeroporto de Congonhas em São Paulo. A bordo do avião estavam 187 pessoas: 181 passageiros, 19 dos quais eram funcionários da TAM, e seis membros da tripulação. Todas as pessoas a bordo da aeronave morreram na colisão. O reconhecimento das vítimas…”.

Ainda agarrada ao telefone, Carol escorregou devagar pela parede até sentar no chão. O choro ainda estava preso na garganta enquanto as lágrimas caiam compulsivamente. De repente, Carol era só prantos, mas silenciosos. Sem alardes, ela chorava desesperadamente.

Só sei que eu não sei mais como eu era antes de você. Já não me imagino fora ou mesmo distante dessa confusão doce chamada Ana Carolina Andrade. Minha Carolina. Beijos, Victor.

33. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Nora estava lendo os comentários que havia recebido sobre seu último texto. Ela estava contente com o retorno que recebia.

Carol: Mãe, está muito ocupada?

Nora: Não, o que foi?

Carol: Eu não quero te deixar chateada, mas é muito importante.

Nora: O que foi agora, Carol?

Carol: Eu comentei com o Roberto sobre o tio Paulo… – ela levanta a mão pedindo um tempo para terminar, antes que Nora pudesse falar qualquer coisa. – Ele ficou interessado na história e falou com o amigo do cunhado dele, quer dizer, ex-cunhado… Qual é o termo apropriado? Cunhado ou ex-cunhado? Nunca procurei saber…

Nora: Carol, pode voltar ao assunto?

Carol: Ah sim, então, esse amigo conseguiu descobrir a história de vários presos políticos do período da ditadura.

Nora: Ele encontrou alguma coisa do meu irmão?

Carol: Não, o Roberto e eu vamos encontrar com ele essa semana. Eu queria mais informações sobre ele, alguma coisa relevante que possa ajudar.

Nora: Ele acha que pode encontrar o Paulo?

Carol: Ele vai tentar. Mas não é pra ter muitas esperanças, mamãe. Então, você se lembra de alguma coisa? Algum detalhe?

14 de Setembro de 1968

34. FLASHBACK – EXTERNA – DIA – PRAÇA

As aulas da manhã tinham terminado e Nora voltava para casa, para terminar o almoço, mas seu irmão, Paulo, a esperava do lado de fora para conversarem. Quando chegaram à praça perto da casa dela, eles sentaram em um banco.

Nora: Você quer me explicar o motivo dessa visita surpresa? Não que eu me incomode, mas poderia ter ido até em casa, almoçava comigo.

Paulo: Eu queria falar com você, em particular.

Nora: Nossa que secreto, o que foi? Fala como um espião dos filmes.

Paulo: Novaes, Paulo Novaes.

A brincadeira gerou risadas dos dois.

Paulo: Falando serio agora. Eu sei que o Guilherme não aprova muito a minha visão política.

Nora: Você é meu irmão, Paulo, pode ir em casa quando quiser. E apesar das diferenças, vocês são amigos.

Paulo: Ele teme por você, Nora, e ele não está errado.

Nora: Você está com algum problema? Precisa de alguma coisa?

Paulo: Não, está tudo bem, eu tomo muito cuidado, mas sabe como é, nesses dias que até paredes têm ouvido, todo cuidado é pouco.

Nora: Você deveria ficar quieto. Deixar a militância de lado e seguir sua vida.

Paulo: Eu não posso, Nora, não posso ver esse país ser tomado por uma ditadura que quer calar os direitos das pessoas. Se todos ficarem com medo e se calarem, onde isso vai chegar?

Nora: E sua família como fica? Seu primeiro sobrinho já está a caminho.

Paulo: É por vocês que eu faço o que faço. Não quero que meus sobrinhos cresçam em um país calado e com medo, sem liberdade. Eu vim por isso, eu quero que escute com atenção e guarde o que eu te falo, Nora.

Nora: Pode falar.

Paulo: Se eu for preso, você procura por Paula Matos, não se esqueça.

Nora: Tudo bem, não me esqueço. Mas me prometa que vai tomar cuidado.

Paulo: Eu sempre tenho cuidado, eu ainda vou brincar muito com todos os sobrinhos que você me der. – ele dá uma piscada para Nora que sorri, preocupada. – E as idéias para seu primeiro livro?

Nora: Não tenho muito tempo para escrever. Entre as aulas e minha casa, o dia passa.

Paulo: Minha irmã, não deixe seus sonhos de lado. Ainda quero entrar numa livraria e perguntar se eles têm o livro da Nora Andrade.

Nora: Você não vai precisar comprar o livro, vai ganhar a primeira cópia, e a dedicatória.

Paulo: Nossa, me sinto até importante.

Nora: Você é, por isso tome muito cuidado.

Paulo: Pode deixar. – Ele dá um beijo do rosto da irmã e se levanta. – Preciso ir andando. Não se esqueça do que te falei.

20 de Setembro de 1968

35. FLASHBACK – INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO PAULO

Nora revirava o pequeno apartamento onde seu irmão morava. Já completava 4 dias desde a sua prisão, e eles não conseguiram permissão para visitá-lo.

Nora: Procura dentro do guarda roupa.

Guilherme: Nós já reviramos esse apartamento duas vezes.

Nora: E estamos deixando passar alguma coisa. Ele me falou para procurar por Paula Matos.

Saulo: Não é nenhuma colega de faculdade. As mulheres com esse nome só reconheceram como um dos rapazes do DCE.

Guilherme: Nora, você não pode ficar tão nervosa. Precisa pensar no bebê. Vou te levar para casa.

Nora: Não, eu preciso encontrar alguma coisa, eu prometi ao Paulo. – algumas lágrimas escorriam sem querer.

Saulo: Eu fico procurando enquanto o Guilherme te leva em casa.

Guilherme: Depois eu volto para ajudar o Saulo. Ele era meu amigo também, Nora. E me preocupo com ele.

Nora: Tudo bem. Olha debaixo do colchão, dentro dos bolsos das roupas, livros e cadernos. Não deixe passar nada.

Saulo: Pode deixar. – Saulo diz enquanto joga o colchão de cima da cama no chão.

Continua…

Trilha Sonora

– Drive, Incubus

– Best Days, Matt White

– Should I Stay or Should I Go, The Clash

– Sail Away, The Rasmus

– Eu e Ela, Titãs

– Elevation, U2

– Moment of Surrender, U2

8 Respostas to “Pretérito Imperfeito – Parte 1”

  1. Samila Says:

    Não acredito que vocês vão parar esse episódio por aqui! A curiosidade mata, sabia? rsrs Brincadeira, eu sei que o suspense faz parte de um bom final de temporada. Por falar em episódio final, eu estou adorando este. O momento Flashback foi bem vindo e não ficou cansativo. Destaque para o pedido de casamento do Fernando para a Sara, para a descrição simultânea da carta de amor de Victor e do acidente fatal sofrido por ele, para o paralelo mostrado entre o Carlos das antigas que destruía namoros para fugir de compromisso e o atual que sofre por amor e destaque também para o Flashback na casa em Petrópolis, onde se mostra o Guilherme que larga a mulher e os filhos a qualquer hora para correr para os braços de sua amante.
    Para terminar queria dar os parabéns a todos e dizer que estou no aguardo e quer serei leitora assídua da 2ª temporada também.
    bjão

    1. osandrades Says:

      Oi Samila! Brigado pelo comentário. Ficamos felizes que você resolveu começar a comentar! É um ótimo feedback! E você não deixa escapar. É maravilhoso para a gente. Obrigado.

      Que bom que gostou do modelo de Flashback. A idéia era realmente entrar na história dos Andrades a fundo. Conhecer exatamente como o ex da Carol morreu cria outra conexão com a personagem do que apenas saber que um ex dela havia morrido.

      Também achei linda a cena do pedido de casamento do Fernando para a Sara. Muito bonito.

      E legal ver os Andrades crianças e adolescentes, né? Adorei as cenas de Petrópolis.

      Agora fique ligada para a segunda parte. Uma dica: Os flashbacks servirão como base para o que vai acontecer com as personagens na segunda parte!

      Rodrigo Andrade

  2. Carine Dávalos Says:

    Estou inegavelmente emocionada… mas acho maldade de vocês dividirem o episódio…
    Flaskbacks sempre me deixam ansiosas pra saber o quanto o passado contribuiu pros personagens no presente [deve ser por isso que escolhi o curso que escolhi]…
    Aos fatos…
    Vera me dá nojo, não canso de repetir isso… Guilherme largar a família no feriado pra encontrá-la é perturbador!
    Carlos pedindo motivos “urgentes pra terminar namoro”?! Como ele ficou melodramático e piegas desse jeito?!
    Adorei os flashs do Junior, como ele entrou na onda errada, é importante o detalhe…
    O pedido de casamento do Fernando pra Sara… e aquele momento blaster dela agradecendo as pessoas da vida dela, gamei!
    Tomás e seu casamento com Vitória, o Lucas é realmente presente assim, padrinho?! Ex nenhum merece esse convite, eu recusaria na hora!
    Nora nem pra desconfiar do telefona, mulheres deveriam ser antenadas e não cegas [olha quem fala… ¬¬’]
    Estou ansiosa pra saber noticias do Paulo [acho que essa é uma das partes que mais me fascinam na história, ditadura].

    Sim, foi de propósito, deixei pra falar da Carol por último, 17 de julho de 2007 é uma data que me trás muitas [boas] lembranças,
    mas ler aquela descrição que intercalava o bilhete do Victor com a descoberta de que ele estava morto, o chão se esvaiu… Meus olhos marejaram mesmo!
    “Já não me imagino fora ou mesmo distante dessa confusão doce chamada Ana Carolina Andrade.”

    Nem sei… mas acho que meus comentários deixam claro o quanto eu me envolvi com isso aqui!
    Parabéns, excelente trabalho… Esperando a segunda parte desse e garantindo que serei assídua na segunda temporada também!

    ;***

    1. osandrades Says:

      Oi Carine,

      Vc faz história, é isso? Realmente não tem como negar que somos hoje resultado do que fomos ontem. O passado está feito, mas quase nunca deixa de estar presente.

      Quanto Nora não desconfiar do telefonema, capaz dela ter desconfiado, mas sabe como é, “o pior cego é aquele que não quer ver” ou “o que os olhos não vê, o coração não sente”. Talvez a Nora de hj tivesse sido mais firme, mas a Nora do passado tinha outras questões em mente.

      Também não sei como o Tomás aceitou que o Lucas fosse padrinho do casamento, Vitória deve ter sido muito persuasiva, rs. Isso pode explicar pq Tomás tem tanto o pé atrás com ele.

      Esses momentos de Ferdi e Sara relatados no episódio serve para lembrar (e eles mesmo lembrarem) de seus bons tempos. Lembrarem de como eram significativos e felizes juntos. Adoro o fato do namoro deles ter nascido de uma amizade consolidada e do quanto eles são companheiros. Eles são (ou eram) um casal e tanto. Fico triste por eles chegarem a esse ponto que estão, os dois se perderam e estão perdendo um ao outro.

      E quanto a Carol, ah, a Carol. Agora podemos entender melhor pq todo esse trauma dela com avião e relacionamentos. Com o Roberto ela está superando aos poucos o segundo, vamos ver como ela vai lidar a partir de agora com o primeiro.

      A história do Paulo vai ter continuidade na segunda parte e tb na segunda temporada, aliás, como quase todas as histórias focadas no episódio, na verdade, tudo está relacionado com o passado, presente e futuro dos personagens.

      E obrigada sempre pela leitura e comentários. Como o Rod falou acima, são bem importantes para nós.

      Beijos,
      Samara

  3. Natie Says:

    NOSSA! Acabo de mudar minha opiniao! Esse é o melhor episodio ate agora… hehe… Quer dizer, ainda nao li a parte 2, mas essa 1ª: MEU DEUS! Demais, simplesmente excelente!
    Eu adoroooo quando as series trazem flashbacks… Sei la, parece q eles te levam pra um passado dos personagens q vc soh imaginava como fosse e com os flashs vc passa a ter certeza ou descobrir q nao era nada daquilo q vc imaginava…
    E dentre mtuuus flashs, fica dificil saber qual foi o mais bonito e tocante, mas acho que vou ficar com o da Nora e do irmao que foi pequeno e no finalzinho, mas capaz de emocionar qualquer um… Mas ele é seguido imediatamente pelo o da Carol que conforme avançava no tempo ia lendo tudo o que Victor tinha escrito: UAU! Vcs tem que mandar essa historia pra um canal de TV e ganhar dinheiro agora! heheh…
    E eu sempre quis saber algo do casamento do Tomas (ri sozinha dele chamando o Lucas de Don Juan de Marco) ou de como o Junior se viciou… Obrigada pelas cenas!
    O Carlos com medo de compromisso foi otimo e nossa, a Pamela ja gostava dele há mtuuu tempo…
    Ler sobre os mini Andrade tbm foi divertido (adorei o Junior jogando agua na Sara!)…
    É isso… Ansiosa pelo proximo q soh posso ler amanha e querendo mtuuu saber como vai terminar a historia do atropelamento da Vitoria… Alias, eu queria q a Vitoria tivesse gravida…

    Beijooooos gente…

    P.S.: AMEI as respostas dos meus comentarios anteriores! 😀

    1. Samara Says:

      Oie Natie!

      O mais bacana dessa primeira parte do episódio são os flashbacks mesmo. É sempre bom saber o passado dos personagens, seja pra matar curiosidade ou para esclarecer algo. Que bom que você gostou de tudo 🙂 E melhor ainda saber que vc tá na torcida para Ferdi e Sara voltarem.

      Beijos!

  4. Natie Says:

    Aaaaaaaaah, esqueci de falar que adoreiii ver as cenas de Sara e Fernando no passado… O que me faz querer mais ainda que eles voltem… 🙂
    Bjss…

  5. Laís Says:

    Ai ai ai que curiosidade.
    Nossa, gostei muito desse episódio, as lembranças -peças do quebra cabeça- são emocionantes e também curiosas, às vezes até assustadoras. Finalmente estou chegando ao fim.rs

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