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Nos episódios anteriores: Carlos foi procurar Sérgio, mas não o encontrou. Sara fez teste para dar aula em uma universidade. Um detetive visitou a casa de Nora para falar de um atropelamento. Carol e Roberto começaram uma busca por informações do irmão desaparecido de Nora.

01. EXTERNA – DIA – CENTRO DE REABILITAÇÃO RENASCER – QUARTO

Júnior olhava a foto de sua família que tinha levado para a reabilitação e a guarda após alguns segundos. Era o dia de seu retorno ao mundo real. Aquilo ainda o assustava um pouco, mas não mais que a hora de contar a Tomás e Vitória que era cúmplice do acidente. Ele fecha o zíper da mala, quando alguém bate em sua porta.

Dolores: Júnior?

Júnior: Oi.

Dolores: E então? Pronto pra ir?

Júnior respira fundo.

Júnior: Pronto!

Dolores: Que bom! Aqui estão o endereço e o telefone do diretor da APAE perto da sua casa. São crianças muito queridas. Você vai gostar, tenho certeza!

Júnior: Eu sei.

Dolores: Bom, o táxi deve chegar a qualquer momento. Você pode esperar no jardim se quiser.

Júnior: Não, não. Prefiro ficar aqui.

Dolores: Tudo bem. Júnior, você agora vai cuidar de sua reabilitação sozinho. Lembre-se que mais que um exemplo de vitória, você tem que ser um exemplo para as crianças com as quais vai lidar. E também…

Bianca: Licença?

Bianca interrompe Dolores e pede para falar com Júnior antes de ir.

Dolores: Agora eu preciso ir acompanhar os exercícios da turma da manhã. Vai com Deus, Júnior. – Ela lhe dá um abraço.

Júnior: Obrigado.

Dolores sai e Bianca entra.

Bianca: Te salvei? – Júnior ri.

Júnior: Eu gosto muito dela, mas essa é a quinta vez que ela me diz isso.

Os dois riem.

Bianca: Eu vim te trazer isso.

Ela tira um embrulho do bolso entrega para Júnior. É um CD.

Júnior: Puxa, obrigado. De quem é? – Ele pergunta, abrindo o embrulho.

Bianca: São músicas da banda do meu irmão.

Júnior: Sério? Legal!

Bianca: Pra você lembrar dessa maluca aqui.

Júnior: Você vai sair dessa assim como eu sai. Eu sei. Ainda vou te encontrar lá fora.

Ele emociona Bianca, que corre para abraçá-lo.

Bianca: Vai com Deus, viu?

Ela dá um beijo em seu rosto e volta correndo para seu quarto. Júnior fica com um sentimento misto de pena e carinho por Bianca.

02. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SÉRGIO

Carlos havia passado a noite no apartamento de Sérgio esperando por ele. Ele acorda e percebe que estava sozinho. Ele queria que Sérgio estivesse ali ao seu lado. Ele se calça e resolve ir embora. Quando chega à sala, vê Sérgio dormindo no sofá. Dessa vez, é ele quem não quer acordar o amado e o espera, velando seu sono.

03. INTERNA – DIA – SECRETARIA ESPECIAL DE DIREITOS HUMANOS (SEDH) – BRASÍLIA

Carol e Roberto estavam no carro, chegando para encontrarem com Marcos e o advogado que ia cuidar do caso de seu tio. O motorista seguia pelo trânsito pesado da manhã.

Roberto: Está preparada para a reunião e tudo que pode descobrir?

Carol: Roberto, eu entrei dentro de um avião e vim até aqui. Estou pronta para tudo.

Roberto: Eu falei que você ia conseguir. – ele sorri para ela e pega sua mão.

Carol sorri para ele ainda tensa com o vôo. Assim que o carro parou, eles desceram. Roberto cumprimentou Marcos com entusiasmo, e depois de apresentar Carol os três seguiram rumo à sala de Rogério Horta. Roberto recebia alguns cumprimentos de outros políticos.

Marcos: Ele é bastante popular. Vai ter uma carreira brilhante na política.

Carol: Disso eu não tenho dúvidas.

Roberto se desculpou e os três seguiram até a sala de Rogério. Chegando lá, os dois amigos trocaram um aperto de mão.

Marcos: Rogério, estes são o Deputado Roberto Pelegrini e a jornalista Carolina Andrade.

Rogério: É um prazer. – ele primeiro cumprimenta os dois – Vamos sentar e vocês me contam essa história toda.

Os quatro se acomodaram nas cadeiras no escritório de Rogério e Carol tirou da bolsa uma pasta com todos os documentos que pode reunir. Rogério olhava os papéis e Carol contava sobre a prisão do tio.

Carol: Sabemos que ele ficou preso no DOPS¹. Depois disseram que ele tinha sido solto, até entregaram um documento com a ordem de soltura. Mas ninguém nunca mais o viu.

Rogério: Muitos documentos de soltura na época eram falsos. Existem muitas famílias, assim como a sua, que até hoje procuram por familiares.

Marcos: E se alguém pode encontrar alguma coisa, é o Rogério. Não imagina quanta gente já encontrou.

Rogério: Eu faço o que posso, mas nem sempre temos sucesso. Você tem mais alguma informação que não consta nos documentos?

Carol: Uns dias antes da prisão, meu tio conversou com minha mãe e pediu que, se algo acontecesse com ele, que ela procurasse por Paula Matos. Eles não conseguiram encontrar essa mulher em nenhum lugar, nem informação alguma, que levassem até ela.

Roberto: Qual a primeira ação que devemos tomar agora?

Rogério: Vocês não vão fazer nada por enquanto. Eu vou analisar esses documentos, abrir um arquivo com as informações do senhor Paulo. Depois é trabalho de pesquisa mesmo.

Carol: Muito obrigada, Rogério. Qualquer novidade, por favor, pode ligar.

Rogério: Eu entro em contato, mas não se encham de esperança ainda. O Marcos às vezes exagera, algumas informações, não nos leva a lugar algum.

04. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇA CENTRAL – SALA DE REUNIÕES

O celular de Sara vibrava incessantemente. Ela pediu licença da reunião, para definir o novo presidente da livraria, e foi atender do lado de fora.

Sara: Alô?

Clara: Sara, é a Clara, coordenadora do curso de administração.

Sara: Oi Clara, como vai?

Clara: Muito bem. Estou ligando para confirmar que as aulas são suas. Você surpreendeu a todos. A Gabriela já tinha falado de você e vai ser muito bom ter você no quadro de professores da Administração.

Sara: Obrigada, Clara. Tenho certeza que vai ser um desafio.

Clara: Vou mandar por e-mail a grade curricular do curso, a bibliografia que a faculdade possui. E depois do carnaval você vem até a faculdade para assinar o contrato e a gente conversa mais sobre a aula que vai ministrar.

Sara: Claro, faça isso e nos vemos semana que vem.

Sara encerrou a ligação e não pôde voltar para a sala de reuniões sorrindo. Ela tentou ser discreta, e nenhum dos outros presentes notou, a não ser Tomás, que conhecia muito bem a irmã mais velha.

05. EXTERNA – DIA – PRÉDIO FECHADO

Saulo e Vera caminhavam com um senhor por um antigo prédio. O senhor mostra as dependências do local e os deixa a sós, a pedido de Saulo.

Vera: É perfeito. – diz, animada.

Saulo: Hum… Não sei, me parece um tanto pequeno. – analisa.

Vera: Não acho. Pelo contrário, é do tamanho que eu imaginei. – rebate, com os olhos brilhando.

Saulo: Se você acha que está bom, então não me oponho.

Vera: É melhor começar aos poucos. Ainda não temos nenhum cliente.

Saulo: O ramo de edição no Brasil ainda está muito atrasado, com as novidades que vamos ter, iremos conquistar mercado bem rápido.

Vera: Eu sabia que você ia acabar concordando comigo.

Saulo: Eu precisava crescer, mudar. Quando a gente se conheceu, eu estava estagnado e acabei te perdendo.

Vera: Saulo…

Saulo: Não, tudo bem. Eu reconheço isso. E reconheço que você viu no Guilherme a coragem que não viu em mim.

Vera: E você se tornou corajoso depois de tantos anos?

Saulo: Com certeza, eu estou com você, abrindo um novo negócio, não estou? – diz, encarando Vera.

Astolfo: E então? Vamos fechar o negócio?

Saulo: Claro! – diz, empolgado e abraçando Vera.

Vera o olha, espantada.

Astolfo: Então venham comigo, por favor.

Os dois seguem Astolfo e entram numa sala para resolver burocracias. Após um tempo, entram no carro de Saulo.

Vera: Agora precisamos decidir o nome.

Saulo: Mas já?

Vera: Claro! Já podemos começar a fazer os primeiros contatos. Divulgar nossa editora.

Saulo: Tudo bem, você tem alguma coisa em mente?

Vera: Estava pensando que poderia ser “Santos Novaes Edições” o que acha?

Saulo: Na verdade eu estava pensando em outro nome, e não precisamos definir isso rápido, ainda temos um tempo para pensar e analisar nossas opções.

Vera: Tudo bem, que nome você tava pensando?

Saulo: Eu estava pensando Paulo Novaes, é o nome do meu irmão que foi preso, já te contei essa história.

Vera faz uma cara de quem não gostou e Saulo percebe.

Saulo: Se você não gostar, tudo bem, podemos pensar outro nome, só pensei que seria uma boa homenagem.

Vera: Como você disse, ainda temos tempo, não precisamos nos apressar.

06. INTERNA – TARDE – APARTAMENTO DE SÉRGIO – SALA

Carlos estava mexendo nos armários de Sérgio procurando por comida, quando deixa um copo de plástico cair no chão, acordando Sérgio.

Carlos: Boa tarde, dorminhoco. – diz, aproximando-se.

Sérgio: Ainda aí? – corta.

Carlos: Poxa, achei que fosse ficar feliz em me ver.

Sérgio: Não quis ser grosso, é que não estou acostumado a dormir no sofá.

Carlos: Você podia ter ido para a cama, me fazia companhia e tinha bastante espaço para você.

Sérgio fuzila Carlos com o olhar, não gostando do comentário dele.

Carlos: Ok, desculpa! Eu devia ter avisado que vinha, mas é que eu não agüentava mais esperar para conversar contigo.

Sérgio: Realmente nós temos muito que conversar. – desafia.

Carlos: Por que esse tom?

Sérgio: Eu não quero voltar, Carlos.

Carlos: O quê?

Sérgio: Acabou. Não tem volta.

Carlos: Sérgio, se é por causa da Pâmela, não tem motivo pra tudo isso… Ela foi só…

Sérgio: Ela não foi nada, Carlos. Vocês não tiveram nada.

Carlos: Como?

Sérgio: Ela me contou a verdade que você não sabe. Vocês não dormiram naquela noite.

Carlos: Ela fez de propósito…

Sérgio: Não sei. E agora pouco importa…

Carlos: Como ‘pouco importa’? Você diz que sabe que eu não te traí e mesmo assim não quer continuar comigo? Isso tem pouca importância pra você?

Sérgio: Eu não consigo mais confiar em você!

Carlos: Mas não aconteceu nada!

Sérgio: E se acontecesse? Você ia demorar quantos meses pra me contar? Quantos Andrades iam saber primeiro que eu? Toda vez que eu sair do teu apartamento e der de cara com aquela mulher… Você acha que vai ser fácil pra mim?

Carlos: Desculpa, mas pra mim você tá procurando motivos.

Sérgio: Você quer motivos? Carlos! A sua vida é uma complicação! Você não consegue viver um relacionamento sem um problema! Você mesmo me contou isso.

Carlos: Com você era diferente.

Sérgio: Não. Pelo contrário. Tinha tudo pra ser do mesmo jeito. Com a gente, foi tudo muito rápido. Eu te conheci e no dia seguinte estava na sua casa jantando com a sua família. Você precisa amadurecer Carlos. – Carlos olha para ele desconfiado – Eu preciso amadurecer também. Não dá mais.

Carlos: Não…

Sérgio: Sim. Chegamos em um ponto que ficar junto só vai gerar mágoa e sofrimento, tente me entender Carlos. Acho que a gente precisa se afastar por uns tempos.

Carlos e Sérgio se encaram. Um não querendo acreditar que aquilo estava acontecendo os dois magoados pelas brigas constantes. Eles não duvidavam dos sentimentos de um pelo outro, mas sabiam que não era a pessoa certa para o outro.

07. INTERNA – NOITE – LIVRARIA ANDANÇA CENTRAL – SALA DE REUNIÕES

A reunião tinha se estendido por toda a tarde e já era início de noite quando Sara conseguiu voltar para o escritório. Ela e Tomás precisavam conversar sobre quem assumiria a presidência da Andanças.

Tomás: Posso entrar?

Sara: Claro. Que reunião comprida, não via a hora de acabar.

Tomás: Sim. E a pior parte vem agora, quem vai assumir a presidência da livraria?

Sara: Você vai.

Tomás: O que? Eu? Pensei que você iria assumir, como filha mais velha.

Sara: Trabalhar na livraria nunca foi o meu sonho, Tomás. Eu fiz isso pela minha família.

Tomás: Nem o meu sonho, mas mesmo assim estou aqui, não é mesmo? Por que você quer me entregar a presidência desse jeito?

Sara: Tomás, eu não vou ter muito tempo para a livraria daqui umas semanas.

Tomás: Por quê?

Sara: Eu vou voltar pra meu objetivo principal quando me formei. Ser professora universitária!

Ela pula animada extravasando a felicidade que precisou conter durante toda a reunião. Sua alegria diminui quando percebe que Tomás não parece feliz com a notícia.

Sara: Pensei que ia ficar feliz por mim.

Tomás: Você também está saindo da livraria? Depois de todos esses meses, as dívidas, a junção com a Papier. Você e o Saulo foram os primeiros a propor essa fusão e agora os dois me deixam sozinho para cuidar de tudo.

Sara: Eu pensei que você gostaria de ser o presidente da Andanças.

Tomás: Não desse jeito. A presidência caiu no meu colo. E eu nem estava procurando por isso agora. Eu e Vitória ainda não nos adaptamos à nova vida dela.

Sara: Tomás, eu não vou largar a livraria. Eu só vou precisar de mais tempo para preparar minhas aulas, duas noites da semana. Durante o dia estarei aqui.

Tomás: Tem certeza?

Sara: Claro. Eu não iria te largar com tudo isso pra administrar sozinho. Eu só preciso fazer outra coisa, recuperar um pouco do que eu tinha perdido.

Tomás: Tá fazendo isso por causa da separação?

Sara: Talvez um pouco, mas não pelo motivo que você pensa. Eu me perdi. Não sei mais quem eu sou, e agora estou tentando reaprender um pouco de mim.

Tomás: Então vamos comemorar.

Sara: Só se for com água. A única coisa que tem aqui.

Tomás enche dois copos com água e eles brindaram o novo emprego dela e a presidência da livraria para ele.

08. INTERNA – NOITE – CASA DE NORA ANDRADE

Nora estava cozinhando quando Júnior surge atrás dela, tapando-lhe os olhos. Nora conhecia o cheiro e o toque de todos os seus filhos de longe e se emocionou ao perceber que era Júnior voltando de vez da clínica. Ela se desvencilha das mãos do filho caçula e o abraça.

Nora: Meu querido!

Júnior: Mãe… que saudade!

Os dois terminam o longo abraço, emocionados.

Nora: Por que você não disse que estava vindo? Esse é mais um período em casa que você tem direito?

Júnior: Na verdade, não. É o período em que eu volto pro mundo real, para minha nova realidade.

Nora se emociona ao saber que terá a companhia do filho de novo.

Nora: Meus parabéns, querido. Tome. – Nora dá um pedaço de uma torta que havia preparado.

Júnior: Que saudade disso!

Júnior e Nora ficam conversando na cozinha.

09. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO MARCOS – SALA

Roberto e Marcos conversavam animados enquanto serviam as bebidas. Carol olhava o mural de fotos na parede. Não eram muitas, mas ela tinha certeza que eram especiais. A que mais chamou sua atenção foi do dia do casamento de Roberto com Mariana. Ela estava concentrada nas fotos, que não viu quando Roberto saiu da sala para atender uma ligação.

Marcos: Eles eram um casal e tanto. – ele fala entregando a taça de vinho para Carol.

Carol: Eu percebi. Lindas fotos você tem aí.

Marcos: A morte da Mari foi muito difícil pra família toda. Mas pelo que o Roberto falou, a Lissa está bem. Ela era nossa maior preocupação.

Carol: Eu entendo, quer dizer, posso imaginar, eu já perdi meu pai quando adulta e ainda sinto falta dele.

Marcos: Você já a conheceu?

Roberto: Conheceu quem? – ele pergunta voltando para a sala.

Marcos: A Lissa.

Roberto: Marcos…

Carol: Não tem problema, Roberto – ela se volta para Marcos – Sim, já conheci a Lissa. Acho que posso até dizer que somos um pouco amigas agora.

Roberto: Podemos encerrar o interrogatório?

Marcos: Não é interrogatório, e a Carol nem se importou.

A campainha tocou e Carol fez sinal que iria atender enquanto os dois terminavam de conversar.

Roberto: Eu sei muito bem onde essa conversa vai chegar.

Carol recebeu Rogério que entrou e cumprimentou os dois homens. Os quatro sentaram na sala.

Carol: Então, você encontrou alguma coisa?

Rogério: Sim, nada muito concreto ainda, mas consegui encontrar o rastro da prisão dele. Primeiro ele foi levado para o DOPS, no centro do Rio. O documento da soltura dele é também o dia que tem a prisão dele no DOI-CODI², na Tijuca.

Roberto: Então ele nunca foi solto.

Rogério: Não, ele foi transferido. O DOI-CODI era mais protegido, não era qualquer pessoa que conseguia entrar. E tudo feito altas horas da noite. Horário em que ninguém via ou ouvia nada.

Carol: Então é isso, você sabe que ele foi transferido e nada mais!

Rogério: Agora temos documentação disso, pode parecer pouco, mas é muito importante. Agora é hora de encontrar os presos da mesma época que ele, procurar informações com os sobreviventes. É o trabalho mais complicado, cruzar documentos e informações.

Carol: Tudo bem, eu só achei que voltaria com mais alguma informação para o Rio.

Rogério: O mais importante eu ainda não falei. Encontrei em vários arquivos de outros presos da época o nome Paula Matos. E mais, está sempre ligado a reuniões da UNE.

Roberto: Talvez uma senha para entrar nessas reuniões. Ou mesmo a pessoa que abrigava esses encontros.

Rogério: Ainda não sei ao certo o que é. Por isso vim falar com vocês. – ele tira um pedaço de papel com nome e endereço de algumas pessoas – Procurem por essas pessoas no Rio, são antigos militantes, alguns foram presos, outros exilados. Eles podem fornecer essas informações, ou indicar alguém que saiba.

Carol: Ótimo. Só de saber que Paula Matos realmente existe já é um alívio.

Roberto: Nós podemos voltar ao Rio amanhã e começar logo essa busca.

Marcos: Por que eu tenho a impressão que ele está empolgado demais com essa história? Não me leve a mal, é ótimo que as informações estejam aparecendo…

Carol: Ele está gostando de bancar o Sherlock Holmes e desvendar um mistério.

Roberto fica envergonhado com as risadas de todos na sala. Rogério entrega todas as informações para eles e promete entrar em contato sempre que surgir alguma novidade.

10. INTERNA – NOITE – CASA DE NORA ANDRADE – QUARTO DE JÚNIOR

Júnior terminava de arrumar as suas coisas quando Nora entra no seu quarto.

Nora: Filho?

Júnior: Oi.

Nora: Eu não queria falar sobre isso com você hoje, mas você conhece a sua mãe.

Júnior: É sobre o detetive, não é?

Nora: Você falou com ele?

Júnior: Não. Olha mãe, eu vou esclarecer tudo. Não se preocupa.

Nora: Então você atropelou mesmo alguém, Júnior? – diz, apreensiva.

Júnior: Não! Não fui eu, eu juro! Foi o Betão! Eu tinha abusado depois da discussão com a Sara e estava dormindo no banco de trás.

Nora: Meu Deus, meu filho. E você esconde isso de nós esse tempo todo? Você vai ligar para o detetive amanhã pela manhã. – levanta, nervosa.

Júnior: Mãe, calma. Eu vou resolver tudo, pode ficar tranqüila.

Nora: Você sabe o que aconteceu com a vítima? E se ela morreu? E se ela ficou como a Vitória? Júnior! Isso é muito grave.

Júnior engasga e não diz nada.

Nora: Você vai amanhã. E não quero desculpas.

Nora sai e Júnior fica no seu quarto, pensando em como contar a todos sobre a sua participação no acidente de Vitória.

11. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE VERA – SALA

Vera e Rebeca terminam de jantar, pegam suas taças de sorvete e sentam-se no sofá da sala.

Rebeca: E você ficou chateada?

Vera: Não diria chateada… Mas colocar o nome do irmão dele? E eu na história? Pra mim sempre se chamaria Santos Novaes. É um nome bonito.

Rebeca: É. Bonito mesmo. Conversa com ele, mãe. Talvez ele entenda e mude de idéia.

Vera: É o que eu vou fazer mesmo! Nunca me omiti quando estava chateada com ninguém, não vai ser agora.

Rebeca: O meu… o Guilherme aceitava fácil as suas imposições?

Vera para e olha para Rebeca, feliz por ouvir a filha chamando Guilherme de pai pela primeira vez na sua frente.

Vera: Você ia dizer pai, não ia?

Rebeca: Ia, mas quando vou falar ainda acho tão estranho. Ele era como que um tio distante pra mim.

Vera: Ele ia ficar feliz de ter você como filha dele.

Rebeca: Eu nem penso nisso, se ele desconfiava, nunca quis ter certeza. Só me pergunto se ele falaria alguma coisa de mim para a família dele

Vera: Tenho certeza que ele só não quis ter certeza, por não saber como contar para eles sobre nosso relacionamento.

Rebeca: Eu não sei se eu agüentaria viver como você viveu. Escondida, sem poder dizer que ele era meu pai.

Vera fica pensativa.

Rebeca: Como você agüentava?

Vera: Por amor, meu bem. Por amor. Por ele eu fazia tudo. Tudo. Ele foi o homem da minha vida.

Rebeca: Uau.

As duas se olham e Rebeca percebe que Vera está emocionada ao lembrar de Guilherme.

Rebeca: Desculpa.

Vera: Pelo quê?

Rebeca: Por não ter entendido esse amor antes.

Vera: Oh meu bem. Quando você amar assim um dia, você vai entender de verdade.

Rebeca: Será que eu vou amar assim um dia?

Vera: Um homem solteiro de preferência…

As duas riem, selando a paz de novo naquela relação.

12. INTERNA – NOITE – DCE UFRJ – ESCRITÓRIO

Carol e Roberto estavam sentados entre várias caixas e pastas com informações de filiados ao DCE e das diretorias. As informações eram privilegiadas e só poderiam ser entregues perante ordem judicial, mas quando souberam o motivo para olharem os documentos e a promessa de Roberto em receber o presidente do DCE para uma reunião e uma entrevista para o jornal deles, tiveram acesso irrestrito.

Carol: Eu já não consigo ler mais nenhuma linha. Isso está me parecendo inútil.

Roberto: Carol, eu sei que está impaciente e louca para encontrar algo, mas vamos encontrar várias informações truncadas e que não levarão há lugar algum.

Carol: Mas vamos acabar encontrando algo. É já sei, você já falou isso hoje várias vezes.

Roberto: E você parece que não entende. Se quiser podemos ir embora, voltamos amanhã.

Carol: Faltam cinco caixas, vamos terminar logo com isso. Não quero voltar aqui nunca mais.

Roberto: Espera um pouco…

Carol: O que foi agora?

Roberto: Eu encontrei Paula Matos. É uma rua. Rua Paula Matos. Fica aqui perto inclusive.

Carol: Paula Matos é uma rua? O que o tio Paulo queria que minha mãe encontrasse nessa rua?

Roberto: Provavelmente a casa de alguém. Talvez onde eles faziam as reuniões do DCE.

Carol: O que mais diz aí?

Roberto: É o endereço de um professor e ex-aluno do curso de Direito.

Os dois anotam o nome do professor e o endereço. Depois guardam os documentos nos lugares e decidem procurar pelo professor no dia seguinte. Na saída, Roberto garante que no dia seguinte já vai marcar a reunião com eles e que a entrevista poderia ser feita no mesmo dia.

13. INTERNA – DIA – CASA DE NORA ANDRADE

Nora arrumava uma gaveta quando encontrou um caderno. Naquele caderno, Nora escreveu alguns textos no seu passado. Textos sobre Guilherme, sobre seus filhos, sobre Paulo, sobre a vida. Relendo alguns deles, Nora decidiu postá-los em seu blog e compartilhar com seus fãs virtuais.

Júnior: Mãe? – interrompe.

Nora: Oi filho!

Júnior: Estou saindo. Vou à APAE.

Nora: Só?

Júnior: E à delegacia também.

Nora levanta-se e dá um beijo na testa do filho.

Nora: É o melhor a fazer.

14. INTERNA – DIA – LOPES E ASSOCIADOS

Carol e Roberto esperavam para conversar com Leopoldo Lopes. Ele era o dono da casa na Rua Paula Matos, e eles tinham certeza que, qualquer informação importante, iria vir por meio dele. A secretária logo indicou que eles entrassem.

Leopoldo: Deputado Pelegrini, é um prazer conhecê-lo. E você, Carol Andrade, que eu conheço mais de nome, mas não esqueço aquela adorável entrevista para a Pólis.

Carol: Só o senhor e minha avó consideram aquela entrevista adorável.

Leopoldo: Vamos deixar as formalidades de lado. – ele indica que os dois se sentem nas poltronas em frente à mesa – O que vocês precisam de mim?

Roberto: Você era professor do curso de Direito em 68. Por um acaso se lembra de um aluno seu chamado Paulo Novaes?

Leopoldo: Claro, Paulo era um dos alunos mais promissores, mas aqueles eram tempos difíceis, como devem saber…

Carol: Ele era meu tio, por parte de mãe.

Leopoldo: Você é a primeira sobrinha dele?

Carol: Não, essa é minha irmã. Mas ele sumiu antes que ela nascesse, nunca descobrimos o que aconteceu com ele.

Roberto: É por isso que estamos aqui, descobrimos que você tem uma casa na Rua Paula Matos. Uns dias antes de Paulo ser preso, ele falou com a irmã sobre Paula Matos, mas ela nunca descobriu o significado.

Leopoldo: Eu permitia que a diretoria do DCE realizasse reuniões secretas no barracão dos fundos. Eles precisavam de um lugar e Paulo sempre me garantiu que minha família nunca seria ameaçada, e realmente a polícia nunca desconfiou de nada. Eu não estava na faculdade quando Paulo foi preso, junto com outros alunos.

Carol: Sim, e nunca foi solto.

Leopoldo: Quando fiquei sabendo da prisão dele e de outros rapazes, mandei minha esposa e minha filha para a casa dos pais dela, achando que logo iriam chegar até mim.

Roberto: Mas isso nunca aconteceu.

Leopoldo: Não, com certeza Paulo nunca contou nada para os militares. Ele era um homem formidável.

Carol: Será que você não tem nada, qualquer documento ou informação daquela época que possa ajudar a gente a descobrir o que aconteceu?

Leopoldo: Tenho todos os documentos das reuniões guardados. Vocês podem ir até minha casa. Se encontrarem algum documento válido, podem pegar.

Roberto: Por que você nunca entregou esses documentos para algum órgão de direitos humanos? Esses documentos podem ajudar muita gente.

Leopoldo: Nostalgia e um pouco de culpa. Tudo isso faz parte da minha história, e vamos nos apegando Às pequenas coisas, mas talvez seja época de repassar isso para alguém. Eu preciso ir para o tribunal agora, mas vou avisar que estão indo até lá e para permitir que mexam em todos os documentos. – ele se levanta esticando a mão para cumprimentar os dois.

Roberto: Se estiver mesmo interessado em entregar esses documentos para alguma pessoa ou órgão confiável, eu posso me encarregar disso.

Leopoldo: Claro, confio que sabe o que faz deputado. – ele se vira para Carol – Seu tio era um homem exemplar, abnegado, que fez o que fez não só pela família dele, mas pelo país inteiro. Tenham sempre orgulho dele, e se descobrirem o que aconteceu, gostaria de saber.

Carol: Claro, qualquer coisa eu ligo e o informo.

15. INTERNA – DIA – APAE RIO – RECEPÇÃO

Júnior: Bom dia. Eu vim para ser voluntário. Sou do Centro de Reabilitação Renascer.

Recepcionista: Ah sim! Me acompanhe, por favor.

A recepcionista acompanha Júnior até uma sala. No meio do caminho, Júnior observa as crianças especiais em suas aulas, tratamentos. Enquanto espera para ser recebido, assiste a um vídeo sobre o trabalho da APAE. Ele fica bastante interessado.

Leila: Guilherme?

Júnior: Sim.

Leila: Como vai? Leila…

Os dois se cumprimentam.

Leila: E então? Como vai a Dolores? Te falou muito daqui?

Júnior: Digamos que sim.

Leila: Então nem vou me dar o trabalho de repetir tudo que ela já te falou, até porque eu imagino que você deva estar cansado de ouvir.

Júnior ri um pouco e Leila lhe entrega uma papelada.

Leila: Esse é o nosso material institucional sobre o voluntariado. Você só vai poder começar depois que ler e responder as perguntas do final. Não é difícil, mas necessário.

Júnior: Tudo be… Au!

Júnior sente alguém apertando sua perna e quando olha pra baixo, uma criança com Síndrome de Down está abraçada a sua perna, olhando para ele de baixo.

Leila: Esse é o Pedro. Um dos nossos caçulinhas. – diz, pegando Pedro no colo.

Júnior: Oi rapaz! Tudo bem?

Pedro faz um sim com a cabeça.

Leila: Agora eu tenho que ir. Leia e volte amanhã. Se quiser dar uma passeada, fique a vontade.

Júnior: Obrigado, Leila. E ah! Pode me chamar de Júnior!

Leila: Tchau, Júnior!

Enquanto Leila se distancia com Pedro, o garotinho acena e Júnior retribui, tocado. Saindo de lá, Júnior resolve ir à delegacia.

16. INTERNA – DIA – CASA DE LEOPOLDO LOPES – BARRACÃO

Carol e Roberto estavam sentados em meio a vários documentos. Roberto já tinha avisado Rogério do que tinham descoberto e ele prometeu ir até o Rio na semana seguinte para se encarrega pessoalmente do transporte de todos aqueles documentos valiosos.

Carol: Eu fico lendo esses papéis e pensando que esses jovens lutaram e muitos deram suas vidas para nossa liberdade, de se expressar, de se organizar e reivindicar e lutar pelos nossos direitos. E olha onde chegamos?

Roberto: Estamos num momento que nossa democracia está forte e consolidada. O gasto público passou a ser de domínio público, os jornalistas podem dar todas as notícias. Não é perfeito, mas é muito melhor.

Carol: Você falando assim eu chego até a acreditar.

Ele abraça Carol e dá um beijo na testa dela.

Roberto: Acho que encontramos informação suficiente. Semana que vem a gente volta com o Rogério.

Carol: Eu vou levar essa foto para minha mãe, e esse caderno com as anotações do tio Paulo, ela vai ficar surpresa com tanta coisa que descobrimos.

17. INTERNA – TARDE – DELEGACIA

Júnior chegou até a delegacia e informou quem era.

Secretária: Infelizmente o detetive Silveira não está agora. Mas vou chamar o Inspetor Freitas.

Júnior esperou até que foi chamado à sala do inspetor.

Freitas: Guilherme Júnior! Sente-se, por favor.

Júnior: Obrigado.

Freitas: O Silveira está investigando o caso, e quer falar com você pessoalmente.

Júnior: Por isso estou aqui. Não sei se vou poder ajudar muito por que estava dormindo no banco de trás. Bebidas e drogas.

Freitas: Você não precisa me falar nada. Vamos fazer o seguinte. O Silveira vai querer colher um depoimento seu para a investigação. Vamos marcar para dia dois de março à 14 horas. Está bem assim, Sr. Guilherme?

Júnior: Sim, eu estarei aqui. Alguma informação nova sobre as condições de atropelamento?

Freitas: Não posso dizer nada. Essas informações estão correndo sob sigilo judicial. E você é um dos alvos da nossa investigação.

Júnior: Tudo bem, então eu volto para prestar depoimento em março. Ele tem meu endereço, minhas informações, qualquer coisa, só entrar em contato, eu quero ajudar no que for possível.

Freitas: Ótimo.

18. INTERNA – TARDE – APARTAMENTO DE SARA ANDRADE

Sara entrega um copo de whisky para Carlos, que vira de uma vez.

Carlos: Outro.

Sara: Não. Já chega. Não são nem seis horas da tarde e você bebendo? A mamãe não precisa de mais um filho na rehab.

Carlos: Sabe que não é má idéia? Fugir, me internar, distância.

Sara olha pra ele e o encara com um leve sorriso no rosto.

Carlos: Por que eu temo quando você me olha assim?

Sara: Olha o que você acabou de dizer, Carlos. Fugir, distância! Meu Deus, meu irmão! Encara! Encara os seus problemas! Para de fugir de tudo que te faz sofrer, pois onde você for, os problemas lá também estarão.

Carlos: Eu sou tão difícil de lidar assim?

Sara: Não sei, nunca namorei você.

Carlos ignora o último comentário da irmã, mas não deixa de pensar no que ela disse anteriormente.

19. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

Nora estava lendo os comentários de seu blog, quando se depara com um que lê em voz alta.

Nora: “Oi! Sou representante de uma editora que está fazendo uma triagem dos melhores blogs com crônicas para publicações. Os seus textos estão entre os que mais gostamos. Se você se interessar, entra em contato.”

Por um momento, Nora não acredita no que lê, pensa ser alguma brincadeira, mas não tem tempo de se recompor do susto, pois Carol bate na porta do escritório.

Carol: Oi, mãe!

Nora: Filha! E então?

20. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

Carol já conversava com a mãe por mais de meia hora. Ela contou sobre a viagem para Brasília e descoberta que Paulo nunca foi solto, mas sim transferido para outro local. Sobre a descoberta de Paula Matos ser o endereço de onde ele tinha as reuniões secretas. Nora já estava bastante emocionada e não evitava o choro.

Carol: Esse professor dele tem várias coisas na casa dele, é quase um museu com tantos documentos importante.

Nora: Filha, vocês vão conseguir descobrir o que aconteceu com o Paulo, quem sabe até encontrá-lo.

Carol: Vamos ver, mamãe, mas tenho umas coisas aqui pra você. Talvez não possa ficar com isso, mas queria que visse antes de ter que entregar. – Ela tira da bolsa o caderno e as fotografias.

Nora se emocionou muito vendo o irmão jovem, forte, com o olhar esperançoso e sonhador de que poderia mudar o mundo.

Carol: Esses são os outros rapazes que participavam da reunião. Temos ainda que identificar quem são todos e procurar por eles. Nesse caderno, são anotações dele. Sobre os encontros clandestinos, os amigos, a família.

Nora: Você já leu?

Carol: Só um pouco, mas achei que você deveria ler antes. Ele era seu irmão e eu não cheguei a conhecê-lo, infelizmente. Só quero pedir que não comente nada para a vó Diva ainda, sabe como ela é…

Nora: Pode deixar, bico calado. Mas tenho certeza que vamos descobrir o que aconteceu. – Nora dá um abraço apertado na filha – Eu tenho uma coisa para contar para você.

Carol: Diga, o que foi?

Nora: Eu estou pensando em escrever um livro. Pode parecer loucura, mas eu sei que estou pronta.

Carol: Mamãe, você está bem? Um livro? De onde apareceu essa idéia?

Nora: Maluca – ela olha para a filha e percebe que ela não entendeu – você esqueceu de completar sua frase ‘de onde apareceu essa idéia maluca’.

Carol: Mamãe…

Nora: Eu sempre quis escrever um livro, eu escrevia bastante quando era jovem, logo que casei com seu pai. E lembrando do Paulo, eu lembrei esse sonho que eu tinha.

Carol faz cara de desconfiança para o que Nora falava. Uma coisa era ela ter vontade de escrever. Conseguir era bem diferente.

Nora: Você está duvidando não é? Pois você acha o que eu escrevo muito bom. Aquele blog, que você comentou com seus irmãos, quem escreve sou eu.

Carol: Você? E por que não contou nada antes? – Carol desconfia um pouco, mas Nora a mostra o blog no computador e como ela poderia editar qualquer coisa.

Nora: Você e seus irmãos só me enxergam como mãe. Vocês não percebem que eu sou muito mais que isso. Então agora você já sabe o que eu vou fazer, e eles vão ficar sabendo também, e por mim ouviu, Carolina Andrade?

Carol: Claro, e estou feliz que você está se redescobrindo. Você, mais que ninguém merece.

As duas se abraçam novamente, Carol depois sai do escritório e deixa Nora revendo as fotos de Paulo e lendo as anotações no caderno.

21. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA SARA – SALA

[ –Make This Go On Forever, Snow Patrol]

Sara terminava de arrumar as malas dos gêmeos, Nora logo chegaria com os dois e Fernando passaria para pegá-los para a viagem. Ela se assustou quando a campainha tocou.

Sara: Ferdi? – ela fala surpresa e olha no relógio – Está um pouco adiantado.

Fernando: Eu achei que seria melhor sair mais cedo, sabe como é, trânsito pesado, as crianças podiam ficar impacientes.

Sara: É que eles pediram para ir ficar um pouco com minha mãe, então ela pegou os dois no colégio e vai trazê-los até aqui. Já deve estar no caminho.

Ferdi: Tudo bem, eu espero. – ele olha para ela e fica em dúvida. – Quer dizer, posso esperar aqui dentro?

Sara: Claro, esse apartamento é tão seu quanto meu.

Fernando: Se você tiver que sair, fazer alguma coisa…

Sara: Tudo bem, eu também já entrei em ritmo de feriado. – ela vai voltando para terminar com a bagagem dos filhos, mas Ferdi segura seu braço. – O que foi?

Fernando: Feliz aniversário! – ele diz entregando um pequeno presente. – Primeiro aniversário seu que vamos passar longe depois de tantos anos. Mas eu não esqueci.

Sara: Obrigada. – ela sorri para ele.

Fernando: É só um CD que eu montei, com suas músicas favoritas.

Ela sorri para ele e já tira o disco e coloca no som para tocar.

Sara: Tenho uma novidade para contar. Depois do carnaval, eu começo a dar aula para o curso de Administração. É só uma matéria…

Fernando: Isso é demais!! Você finalmente resolveu fazer o que sempre quis!

Ele puxou Sara para um abraço forte e feliz. Os dois sorriam felizes com a conquista dela. Fernando pegou no rosto dela e ficaram se olhando.

Fernando: Estou muito feliz e muito orgulhoso de você, Sá. Sempre soube que seu lugar era dentro de uma sala de aula.

Naquele momento tudo estava esquecido, as brigas, as diferenças, a separação. Como se voltassem no tempo e fossem os dois jovens recém casados, cheios de sonhos e planos. Os dois se beijaram, como há muito não faziam, e só se separaram quando o ar começou a faltar.

Fernando: Sá…

Sara: Não fala nada. – ela gesticula colocando o dedo nos lábios dele.

Os dois voltam a se beijar, seguindo em direção ao quarto. Assim que a porta se fechou as roupas começaram a ser descartadas no chão, entre beijos e abraços.

22. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO TOMÁS – ENTRADA

Vitória: Comprou o presente da sua irmã?

Tomás: Sim.

Vitória: O quê é?

Tomás: Um livro de Administração.

Vitória: Jura, Tomás? Um livro de Administração para uma administradora? Muito criativo.

Tomás: Você sabe que eu só sou criativo na cama…

Vitória e Tomás riem.

Tomás: Mas é um livro para professores de Administração. Ela vai precisar nessa nova fase.

Vitória: Eu fico muito orgulhosa de te ver apoiando a Sara nessa nova fase.

Tomás: Obrigado.

O telefone toca e Vitória que estava mais perto atende.

Vitória: Alô?

Lucas: Vi?

Vitória: Oi Lucas! – Tomás revira os olhos – O quê? Mas vocês têm certeza?

Tomás: Descobriram alguma coisa?

Vitória pede que ele espere e volta sua atenção para Lucas ao telefone.

Vitória: Certo, certo. Ah, Luc. Obrigada. Mesmo.

Ela desliga, e Tomás a enche de perguntas.

Tomás: O que eles descobriram?

Vitória: Descobriram um suspeito, através de uma denúncia anônima.

Tomás: E quem é o desgraçado?

Vitória: Eles o convocaram para interrogatório.

Vitória aperta a mão de Tomás com força. Ele beija a mão da esposa, confiante de quem vão achar o culpado pelo atropelamento.

23. INTERNA – DIA – CASA DE NORA ANDRADE – QUARTO DE NORA

[¯ – Um Dia, Pedra Polida]

Diva: Onde está aquela cruzada que a Nora comprou para mim? Eu e minha memória…

Diva começa a mexer nas coisas da filha e, sem querer, encontra a papelada que Carol deu para a mãe sobre Paulo. Ela começa a folhear e não entende nada.

Diva: Mas o que é isso?

Diva começa a ler todas as informações e não consegue conter a emoção ao lembrar do filho desaparecido. Um raro momento de fragilidade. O único ponto fraco da altiva Diva Novaes. Ela prefere guardar segredo sobre ter descoberto aquelas informações.

24. INTERNA – TARDE – APARTAMENTO DA SARA – ENTRADA

Nora chagava com os gêmeos e pedia que o porteiro avisasse que ela estava subindo, para abrir a porta para eles. Gabriel que também chegava em casa, encontrou com a avó e os irmãos.

Gabriel: Seu Francisco, pode deixar, eu tenho a chave. – ele abraça a avó – pensei que meu pai já tinha levado os dois.

Nora: Ele deve estar esperando, o carro dele está do lado de fora. Mas eu me atrasei, e ainda peguei um trânsito horrível no caminho.

Eduardo: A vovó Nora gritou com outro motorista.

Rafaela: E falou uma coisa feia.

Os dois deram risadas. Gabriel também achou graça, imaginando a avó xingando no trânsito.

Nora: E o que eu falei para os dois? Para não contarem nada pra ninguém. Até comprei o pacote de balas.

Eduardo: Você só pediu pra não contar pra mamãe.

Rafaela: Não falou nada do Gabs.

Gabriel: Se eu ganhar um pouco dessas balas, também não conto nada. – ele brincou com a avó.

Nora: Vocês três ainda acabam comigo.

Gabriel entrou em casa e jogou a chave na mesinha. Os gêmeos correram para o quarto para deixar a mochila com o material da escola. No quarto Sara e Fernando, que descansavam um nos braços do outro, deram um pulo com a gritaria das crianças.

Sara: Meu Deus, minha mãe chegou com as crianças. Se vista logo. – ela fala já jogando a calça na direção dele.

Fernando: Sara, a gente precisa conversar sobre isso que aconteceu.

Sara: Outra hora, Fernando. Não quero dar a impressão errada para as crianças.

Fernando: Que impressão errada?

Sara: De que nós estamos voltando.

Fernando: Não estamos?

Sara: Ferdi, nosso problema nunca foi na cama. Então não resolvemos nenhum deles agora. Só sentimos falta do carinho, da companhia.

Fernando: Então foi uma coisa casual?

Sara não fala nada, ela termina de se vestir para encontrar com a mãe e os filhos. Na sala Nora chamava pela filha.

Nora: Sara, as crianças já estão aqui. Onde você está?

Sara: Calma, mamãe. – ela abraça Nora – Estava lá dentro. O Ferdi estava procurando umas coisas dele que deixou para trás.

Nora: Ah sim, você e o Nando…

Fernando: Oi Nora, quanto tempo.

Nora: Oi meu filho, como vai?

Fernando: Tudo bem. Como vai o Júnior?

Nora: Continua o tratamento, mas agora em casa, o que é ótimo!

Rafaela: Papai, nós já vamos?

Fernando: Daqui a pouco, o Dudu ainda não está aqui.

Gabriel: Ele tá terminando de amarrar o tênis.

Fernando: Então vem cá e dá um abraço no teu pai. Você podia ir, sabia? A gente aproveitava para colocar o papo em dia, tocar…

Gabriel: Eu já tinha combinado com a galera de ficar e curtir com eles.

Fernando: É, eu entendo, não sou mais jovem e divertido como antes.

Os adultos e Gabriel davam risadas. Dudu logo chegou à sala e Fernando pegou a mala dos filhos, as crianças se despediram da mãe, com beijos e promessas de se comportar. Fernando despediu de Nora e Gabriel, quando foi despedir de Sara, um abraço sem graça e um beijo de feliz aniversário.

Fernando: Assim que chegar, eu ligo. E você tem o telefone, querendo falar com as crianças.

Sara: Tchau. Boa viagem e divirtam-se.

Assim que eles foram embora, Gabriel foi para seu quarto, e Nora ficou para conversar com a filha.

Nora: Vocês dois estão resolvendo os problemas?

Sara: Os problemas já foram resolvidos, mamãe. Eu e ele nos separamos.

Nora: Não, vocês se afastaram, mas os problemas ainda existem.

Sara: Isso leva tempo. Agora me fala, o que você está tramando para amanhã?

Nora: Eu prometi que não faria nada de mais. Só vamos nos reunir todos, para comemorar seu aniversário, não pode passar em branco.

Sara: Quando os Andrades se reúnem, é confusão na certa.

Nora: Eu já avisei seus irmãos que amanhã é seu dia, que não quero nada para estragar.

Sara: Como se eles escutassem.

25. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Sara estava sentada na poltrona enquanto abria os presentes que tinha recebido dos irmãos. O livro, roupas, sapatos e, seu favorito, um dia de beleza, que ela iria junto com Carol. Todos conversavam animados, exceto Júnior, que estava bastante pensativo.

Sara: Ju, algum problema?

Júnior: Não, me desculpa. Estou estragando sua festa, né?

Sara: Ainda não está no clima de comemoração, eu entendo. Mas estou feliz que você está de volta em casa.

Júnior: Eu também estou feliz de estar de volta. Posso perguntar uma coisa?

Sara: Claro, o que foi?

Júnior: Você acha que amor de mãe e irmãos está acima de tudo?

Sara: Por que essa pergunta?

Júnior: Só estava imaginando se algum dia eu vou conseguir o perdão de todos vocês, depois do que eu fiz.

Sara: Você errou, Jú, e o mais importante, reconheceu e assumiu seus erros e está tentando melhorar. E nós estamos aqui pra tudo que você precisar.

Júnior sorriu e deu um abraço na irmã. Ela não sabia qual era seu problema, mas acreditava nas palavras dela. Os dois continuaram conversando até que Nora chamou todos para a mesa. Depois de todos acomodados, ela permaneceu de pé.

Nora: Eu quero fazer um brinde em homenagem a Sara. Se há quase um ano, era você que estava nessa posição embaraçosa, hoje sou eu que faço questão de fazer isso por você minha filha. A primogênita da família. A pessoa que me ensinou a ser mãe e amar incondicionalmente. A garota feliz que sempre distribuía sorrisos. A jovem sonhadora, que tinha planos grandiosos. A mulher responsável que soube assumir a dura responsabilidade de uma família com a delicadeza de um anjo. Desejo a você, minha filha, todas as alegrias do mundo. Parabéns!

A mesa explodiu em aplausos e gritos animados. Sara agradeceu, emocionada, as belas palavras da mãe. Todos começaram a comer e conversar, animados. Depois da sobremesa, Carol cutuca a mãe para que ela revelasse o segredo aos irmãos.

Carlos: O que vocês duas estão fofocando?

Tomás: É, nada de segredo entre os Andrades.

Carol: Pois é, mamãe, nada de segredos. – alfineta.

Sara: Mamãe com um segredo? O que foi?

Nora: Você não tinha que falar nada, Carolina. Hoje o dia é da Sara.

Sara: Não, por favor, considere esse segredo, meu presente de aniversário.

Carlos: Aí, mãe, pode pegar o outro presente de volta.

As risadas ecoaram em volta da mesa.

Gabriel: Você vai contar mesmo, vó?

Nora: Acho que já tá na hora de todos saberem.

Júnior: Ela tem um segredo com o Gabs, que nenhum de nós sabe?

Carol: Eu sei! – gaba-se.

Carlos e Tomás jogaram o guardanapo na direção dela.

Nora: Tudo bem, prestem atenção. Depois de muitos anos, eu resolvi voltar a escrever. Sim, eu escrevia quando era jovem e, para a surpresa de vocês eu era boa nisso.

Carol: Você está fugindo do assunto mamãe.

Nora: O blog que vocês lêem e até comentaram nessa mesa, sou eu quem escreve. E o Gabriel só sabia, porque ele que fez o blog para mim.

O silêncio na mesa não durou muito. Todos falavam quase ao mesmo tempo querendo mais informações, dando parabéns e desejando sucesso.

Diva: Escrever… era o que faltava. – diz, baixinho, sem ser ouvida.

26. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Roberto tinha acabado de chegar com Larissa. Eles tinham decidido que, enquanto Carol comemorava com a família o aniversário da irmã, ele iria passar o dia com a filha. Gabriel e Larissa já estavam na sala no andar de cima jogando vídeo game. E Roberto tinha ido até o quintal cumprimentar o resto da família.

Júnior percebeu que Vitória estava sozinha na sala e resolveu conversar com ela sobre a culpa que já o atormentava desde o dia seguinte do acidente. Ela o percebeu parado na entrada da sala.

Vitória: Pode entrar, Ju, eu não estou dormindo.

Júnior: É que eu queria conversar com você. É sobre o acidente, você se importa?

Vitória: Eu não gosto muito de falar disso, mas o que foi?

Júnior: Você disse que foi um carro vermelho que te atropelou, não é?

Vitória: Sim, é uma das únicas coisas que eu me lembro, mas nenhum detalhe mais importante, por quê?

Júnior: Na noite do seu acidente, você e o Tomás foram embora mais cedo e não ficaram sabendo da briga que eu e a Sara tivemos. Eu fui embora.

Vitória: Por que você está me contando isso?

Júnior continua contando dos eventos daquela noite, o melhor que podia, já que não lembrava de muito. Tomás que estava do lado de fora, foi ver como estava Vitória e escutou o final do que Júnior contava.

Júnior: Quando eu acordei no dia seguinte, vi o carro dele com o amassado no capô. Ele disse que tinha sido uma batida à toa. Eu não podia questionar, já que não tinha visto nada. Depois que você disse do carro vermelho, eu fui saber a verdade e ele confirmou que atropelou uma mulher e depois fugiu.

Tomás entrou na sala como um louco, gritando para Júnior.

Tomás: Você vai me contar essa história AGORA!!!

Vitória: Tomás…

Tomás: Vi, fica fora disso.

Júnior: Tomás, eu sinto muito!! De verdade. Eu já fui até a polícia e vou prestar depoimento em alguns dias.

Vitória: Você sabia e não contou nada pra gente ante, por que tá contando agora? Só por que a polícia veio atrás de você?

Júnior: Não, eu já tinha decidido procurar a polícia logo que voltasse da clínica.

Tomás: E o que me importa!!! Você arruinou a minha vida e da minha mulher.

O resto da família que estava do lado de fora, escutando os gritos de Tomás, entra correndo dentro de casa. Eles ficam parados entre a sala de jantar e a de estar.

Júnior: Eu não vi nada Tomás, juro. Eu fui covarde, fiquei com medo do que vocês iriam pensar de mim, mas foi por isso que eu resolvi me tratar, para não prejudicar mais ninguém. E eu vou assumir minha responsabilidade.

Tomás: Responsabilidade? Eu não quero nunca mais saber de você. Você matou meu filho!! – Tomás avança para agredir Júnior.

Carol e Nora ficaram paradas quando ouviram aquilo. Carlos e Roberto correram e seguraram Tomás, que estava descontrolado e pronto para ir para cima do irmão caçula. Sara foi para junto de Vitória, que chorava ao ver toda aquela cena.

Nora: O que tá acontecendo aqui? Alguém me explica?

Tomás: O Júnior é culpado do acidente da Vitória! Ele é culpado da morte do meu filho!

Carol: De onde você tirou isso?

Júnior: O Betão atropelou uma mulher na mesma noite do acidente da Vitória. Eu acho que…

Nora: Era sobre isso que o detetive veio falar com você?

Júnior: Era, e eu já fui até a delegacia e vou prestar depoimento em alguns dias. Eu não vi nada, juro. E vou ajudar no que puder, e assumir meus erros. Tomás, eu jamais faria algo contra o Tiago, nós somos irmãos, cara.

Tomás: Eu não sou seu irmão!

Sara e Carol: Tomás!!!

Tomás: Você não é meu irmão, entendeu? – diz, pausado e furioso.

Nora: Tomás, não fala isso! Não é o momento, se acalma antes.

Júnior: Tomás? Me perdoa, por favor!

Tomás: Você só trouxe confusão pra essa família! Porque vocês tinham que trazer ele pra casa? – vira-se para Nora – Se tivesse deixado ele lá, naquele cesto imundo, meu filho não tinha morrido!

Júnior: O quê?

Todos ficam perplexos com o que está acontecendo.

Nora: CHEGA!

Júnior: O que ele disse? Vocês… vocês me acharam? Mãe?

Nora: Filho – diz, quase chorando – Você é meu filho! De ninguém mais!

Tomás: Ela ficou com você por pena, porque sua própria mãe não te quis, você já foi um erro desde o principio!

Nora: EU JÁ DISSE CHEGA, TOMÁS!

Carlos: Cala a boca, Tomás. Vamos pra cozinha pra você se acalmar.

Carlos e Roberto levaram Tomás até a cozinha. Júnior encara a todos, sem saber o que pensar, o que achar. Ele sai em disparada para fora, correndo o mais rápido que podia, chorando.

Carol: Ju espera! – diz, indo atrás do irmão.

Júnior entra no seu carro e arranca com toda velocidade, sem dar chance para Carol o alcançar. Nora também sai, gritando pelo filho. Carol abraça a mãe, que está em prantos.

Nora: Ele não tinha o direito… não tinha.

Carol: Calma, mãe, calma. – tenta ser forte para consolar a mãe.

27. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Tomás estava quieto em um canto. Carol e Roberto se revezavam no telefone ligando para Júnior e pedindo que ele voltasse para casa ou desse alguma notícia. Carlos e Sara se revezavam tentando acalmar Nora e Vitória e ligando para a clínica para saber qual a atitude a ser tomada naquela situação.

Carol: A caixa postal dele está cheia, deixei vários recados pedindo que ele ligasse. – ela vira para Tomás – Você não podia ter contado isso para ele.

Tomás: Por que não? Nada de segredos entre os Andrades, esqueceu?

Carol: Se você tivesse contado pelo simples fato de não querer manter mais segredo, eu não falaria nada, mas você contou por raiva, para ferir e magoar o Ju.

Tomás: Ele não é meu irmão. Não depois do que ele fez. A Vitória está numa cadeira de rodas, meu filho está morto por causa dele!

Carlos: A polícia está investigando e o Júnior já vai até prestar depoimento. Mas ele não estava atrás do volante, Tomás. Ele estava tentando se desculpar, assumir a responsabilidade de não impedir uma pessoa de dirigir um carro embriagado, sob o efeito de drogas.

Tomás: Por isso ele chegou aonde chegou. Vocês sempre dão desculpas para tudo que ele faz. E quem vai pagar pelo que aconteceu a minha família?

Nora: Você não tinha o direito de contar que ele foi adotado. Essa responsabilidade só cabia a mim. Você passou dos limites. O Júnior tem o nome e sobrenome do seu pai, porque ele faz parte dessa família como qualquer um de vocês. Se ele está mesmo envolvido no acidente da Vitória, ele vai pagar pelo que fez. Só que agora ele pode estar em algum buraco sujo, usando drogas. Perdendo tudo que lutou tanto para conseguir. – diz, levantando-se e impondo-se contra Tomás.

Tomás: E você sempre preferindo o Júnior a um dos seus filhos legítimos. Não acha que talvez tudo que aconteceu pode ter sido culpa sua? Por mimá-lo demais?

Sara: Tomás, você não pode falar assim com a mamãe. E sabe o que é mais triste de tudo? Hoje mais cedo ele me perguntou se algum dia conseguiria o perdão da família por todos seus erros e eu garanti que sim.

Roberto: Eu sei que eu não tenho direito nenhum de me intrometer, mas vou falar assim mesmo. Tomás, você tem todo o direito de querer que os culpados pelo acidente paguem pelo que fizeram, mas isso não justifica revelar um segredo desse só para ferir e magoar teu irmão. – ele se vira para os outros três irmãos. – Quanto a vocês, ao invés de se lamentarem pelo que aconteceu, deveriam estar na rua procurando pelo Júnior.

Tomás: Você não faz parte dessa família deputado, então não se intrometa em assuntos que não te dizem respeito.

Tomás e Vitória se despediram e foram para casa, ainda magoados com a história que Júnior contou para eles. Carol, Roberto e Carlos saíram para procurar pelo irmão caçula e Sara ficou com Nora, Gabriel e Larissa esperando por notícias.

28. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE REBECA

[¯– Em Nome do Filho, Gram]

Rebeca ouve uma freada brusca na porta do seu prédio e aparece na janela para ver o que é. Ela reconhece o carro de Júnior, quase que ao mesmo tempo em que o interfone toca. Era o porteiro, comunicando a subida de seu irmão. Rebeca abre a porta e espera o elevador abrir. Quando abre, Júnior está agachado, encolhido e chorando.

Rebeca: Ju…

Júnior se levanta e abraça Rebeca.

Rebeca: O que aconteceu?

Júnior não respondia. Só chorava.

29. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – QUARTO

[¯– Sometimes You Can’t Make it on Your Own – U2]

Nora entra no quarto, ela pega uma caixa dentro da cômoda e tira a manta que Júnior estava enrolado quando o encontraram. Desde que Júnior saiu de casa, era como se um filme passasse em sua cabeça, tantas vezes Guilherme quis contar a verdade, mas ela nunca aceitou. Não queria que ele se sentisse como se não fizesse parte da família.

15 de maio 1982

30 – FLASHBACK – INTERNA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Guilherme entrou em casa carregando um bebê bem novinho no colo.

Nora: Que bebê é esse, Guilherme?

Guilherme: Ele foi deixado na loja entre as estantes. – ele fala entregando o bebê para ela.

Nora: E você o trouxe para casa?

Guilherme: A agente do serviço social disse que precisava encontrar um orfanato para o bebê. Que estão todos cheios.

Nora: E você achou que seria bom ele ficar com a gente. – ela diz sorrindo olhando para o bebê em seus braços.

Guilherme: Pensei que, se você concordar, ele poderia ficar com a gente.

Nora: Você tá pensando em adotar?

Guilherme: Claro, por que não?

Nora: Você já falou com a agente do serviço social?

Guilherme: Eu só me comprometi dele ficar aqui alguns dias. Mas ela disse que se quisermos realmente adotar o bebê, ela agiliza o processo.

Nora olha para a criança, que já tinha adormecido em seu colo, e ela teve certeza que aquele bebê seria o mais novo membro dos Andrades.

¹DOPSDepartamento de Ordem Política e Social

²DOI-CODDestacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna.

Continua… (Na Segunda Temporada)

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7 Respostas to “Pretérito Imperfeito – Parte 2”

  1. Carine Dávalos Says:

    Ainda não sei se chorei mais agora ou na primeira parte!
    Quando eu me recompor, se é que isso vai acontecer, eu volto e escrevo um cometário descente!
    Enquanto isso: obrigada por animar e dramatizar minhas madrugadas de estudo!

    ;****

    Até a segunda temporada!

    1. osandrades Says:

      Ainda esperamos seu comentário decente, Mrs. Dávalos.
      Edízio Andrade

  2. Gustavo Says:

    Salve galera.

    Chegamos ao final da 1ª temporada.

    Muitas emoções, muitos risos, muitas lágrimas, algumas antipatias (risos) e por aí vai.

    Adorei ter acompanhado a saga dessa família, suas aventuras e desventuras e tal qual B&S, não consigo viver mais sem.

    Aos artistas responsáveis por essas histórias, fica aqui registrada minha admiração, o meu respeito e uma certa ponta de inveja, pois vai ter capacidade de escrever assim lá na China (risos).

    Mas vamos ao que interessa.

    Gostei da divisão do último episódio em 2 partes, pois acho que não poderia ser diferente… É muito história para colocar em só episódio.

    Os flashbacks foram sensacionais, servindo bem para explicar o funcionamento tão peculiar dessa louca família (ou seria família louca) mas adorável e apaixonante.

    Estou na torcida por Sérgio e Carlos, pois mais imaturo que o Carlos seja. Às vezes necessitamos de uma sacudida para acordar. Percebe-se que os dois se amam de verdade, mas é preciso aparar uma série de arestas antes do “happy end”.

    Interessante a “caçada” atrás do paradeiro do tio Paulo. Acho que a história da Carol tomou um novo rumo agora, pois ela estava um tanto quando perdida, vivendo praticamente uma lua-de-mel com o Roberto.

    Sara voltando a dar aulas… Legal, pois assim ela fica ocupada e quem sabe não pinte um novo amor na faculdade??? Se bem que o pega que ela teve com o Fernando deu uma balançada… Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

    D. Nora tocando a vida dela. Está certíssima. E quem sabe ela não se transforme uma escritora de grande sucesso e re-erga a empresa da família??

    Para finalizar, a história do Júnior. Mais dia, menos dia, o Júnior teria que encarar a família e contar sobre o acidente e sendo sincero, não acho que ele tenha culpa realmente pelo acontecido. Tá, tudo bem, ele estava dentro do carro e o estado no qual se encontrava não justificaria a omissão, mas será que ele realmente poderia ter impedido alguma coisa??? E agora a bomba das bombas!!!! Que história é essa dele ser adotado? E o que é pior, de ter sido largado dentro da livraria??? Tenso…

    A segunda temporada promete e espero que ela não demore muito!!!

    Beijos e abraços a todos.

    1. osandrades Says:

      Oi Gustavo!
      Vocês sempre acertam bastante do que acontece e compartilham de muitas das nossas opiniões!
      Eu acho o Carlos muito imaturo, um bebê chorão.. ashuahusauhs.. [Momento do Filipe ler isso e me matar! auhsuhasuhas]e vamos ver se na segunda temporada ele amadurece!
      E, com certeza, a bomba do Júnior vai prometer muito na segunda temporada.. E da Sara também.. e da Carol também.. enfim.. Os Andrades prometem.. E CUMPREM! Obrigado pelo carinho em nome de todos que escrevem!
      Até setembro!
      Edízio Andrade

  3. Natie Says:

    CARACAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
    Sério, sem palavras… Quando eu achei q a surpresa mor desse epi ia ser o fato do Junior contar sobre o atropelamento, vcs nos trazem essa outra surpresa… Essa possibilidade realmente NUNCA me passou pela cabeça…
    Bom, eu adoroooo a Nora e acho ela realmente uma pessoa superior a todos nós… hehe… E fico feliz vendo q ela está querendo se dedicar mais à ela e a seus projetos… (torcendo pelo livro!)
    Carol e Roberto… Um casal em sintonia em todos os sentidos… Acho mtu legal a relação deles e adorei a dupla q eles formaram pra tentar descobrir algo a mais sobre o Paulo… E é claro que esse é um dos misterios q mais espero pra ver na 2ª temporada… 😀
    Carlos… As vzes eu acho que ele nunca vai deixar a insegurança de lado, mas torço mtu pelo namoro dele com o Sergio! Ainda mais depois de ter descoberto q nao rolou nada entre ele e a Pamela…
    Tomas… Já esperada a reação qdo ele descobriu do ‘envolvimento’ do irmao em toda a historia, mas realmente nao era motivo pra revelar o tão precioso segredo… Mandou mal Tomas!! (aaaah, gostei dessa parte dele: Você sabe que eu só sou criativo na cama… Me fez rir… heheh)
    Sara… Megaaaaaaaaa feliz dela ter conseguido o emprego na facul!! Quero ver ela de professora… hehe… E que cena dela e do Ferdi!!! hahah… Tomara msm que eles possam discutir essa relação e VOLTEM!!
    E a minha grande torcida fica pra que o Junior nao se entregue de novo às drogas… Afinal, foi uma grande surpresa (os leitores que o digam!! hehe…), mas vendo um lado bom de tudo isso, espero que agora sim engate o romance com a Beca!!! heheh… 😀
    E esse ultimo flashback foi pra fechar com chave de ouro! A série de voltas ao passado foi a melhor parte desse incrivel episodio que foi ‘Preterio Imperfeito’…

    Um enorme PARABENSSSSSSSSSSSSSSSS a todos os escritores que deram vida a esses maravilhosos personagens com passado, presente e vidas imperfeitas… Assim, é claro, como todos os seres humanos…

    Espero ANSIOSA pela 2ª temporada… Alias, quando vai ser???

    BEIJOOOOOS a todoooos!

  4. Doug Says:

    Brilhante o final da temporada!

    Já to doido pra ler a próxima! Parabéns a todos!

    Sei que a personalidade dos personagens não dá pra mudar… mas gostaria de ver uma temporada mais feliz para o Carlos. E ter mais participação também das crianças, como sinto falta tb no Brothers e Sisters, sempre acho que as deixam muito no “escanteio”.

    bjs/abs

  5. Laís Says:

    Por essa do Junior eu não esperava. Bom, pelo menos agora ele pode dar uns pegas na Rebeca, né?
    Encerraram muito bem a primeira temporada, cheia de altos e baixos, como uma família é.
    Sei que terminei a leitura bem tarde, mas mesmo assim quero opinar. Acho que começaram muito bem, prendendo nós, leitores, nos emocionando e surpreendendo. Enfim, aqui, tem tudo o que considero necessário a uma boa história, drama, diversão e muito amor na hora de escrever, produzir. Parabéns.

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