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No episódio anterior:

Carol volta ao Rio de Janeiro para a comemoração do aniversário de casamento dos pais e é pressionada pelos irmãos a ficar na casa dos pais e não em um hotel. Toda a família se reúne em Petrópolis para a festa. Tomás segue implicando com Júnior por causa da vida desregrada. Carlos agüenta as brincadeiras de Sara e Carol por causa de sua vida amorosa. Tomás anuncia a gravidez de Vitória para a família. Sara faz um discurso emocionado e Júnior passa mal.

 

1. INTERNA – NOITE – SALA DE ESPERA DO HOSPITAL SANTA TERESA

 

Nora, Guilherme, Carlos e Carol esperam notícias sobre Júnior. O telefone de Carlos toca.

 

 Carlos: O que foi agora, Sara? – e dá um suspiro.

 

Sara: Ainda não tem nenhuma notícia?

 

Carlos: Não, ainda não, afinal só se passaram cinco minutos desde sua última ligação. – ele responde impaciente.

 

 Nora vê que o filho conversa com alguém no telefone.

 

 Nora: É a sua irmã? – após Carlos confirmar com a cabeça que sim ela continua – Pergunta se os convidados já foram embora?

 

 Carlos: A mãe quer saber se o resto da família já foi embora.

 

Sara: Sim, todos já foram. Inclusive o tio Saulo que levou a vó Diva embora para não causar mais problemas pra mamãe.

 

Carlos repassa a notícia pra Nora que respira aliviada, sabendo que não precisa agüentar as indiretas da mãe quando voltar pra casa.

 

Nora: Fala pra Sara pra ela e o Tomás não voltarem para o Rio hoje, já está de noite e não quero me preocupar com eles nessa estrada horrível.

 

Carlos: Escuta, Sara, a mãe falou pra você e o Tomás não descerem pro Rio hoje. E assim que a gente tiver notícias eu ligo, não precisa ligar antes, entendido?

 

Sara: Não precisa falar assim e não esqueça de ligar viu C.A.? – ela fala sorrindo ainda achando graça do namoro virtual do irmão.

 

Carlos: Você não vai deixar essa passar, não é mesmo?

 

Os dois desligam e Carlos volta para a cadeira ao lado de Carol. Ela apóia a cabeça no ombro do irmão. Os dois estão preocupados com Júnior. Em um canto da sala, Guilherme abraça Nora, confortando a esposa e afirmando que o filho deles ficaria bem.

 

Dr. Francisco: Quem está aqui pelo paciente Guilherme Andrade Júnior?

 

Nora e Guilherme se aproximam do médico, Carlos e Carol ficam um pouco atrás, mas ainda próximos para escutar sobre a condição do irmão.  

 

Nora: Eu sou a mãe dele, o meu filho está bem?

 

Dr. Francisco: Sim, senhora, ele teve alguns cortes no braço que precisaram levar pontos. Eles desmaiou devido à quantidade de bebida alcoólica ingerida, mas já estamos ministrando glicose intravenosa. Devido à pancada na cabeça, queremos mantê-lo aqui em observação.

 

Nora: Ele pode ter algum acompanhante?

 

Dr. Francisco: Sim, se um de vocês quiser passar a noite no hospital, ele pode ter um acompanhante para passar a noite com ele. Agora eu preciso ir, mas qualquer coisa mandem me chamar. É só pedir para uma enfermeira que ela levará o acompanhante até o leito do rapaz. Boa noite.

 

Depois que o médico se afasta, Nora começa a mandar o resto da família para casa, mas Guilherme não aceita os argumentos da esposa.

 

Guilherme: Não, Nora, o Júnior precisa aprender que não vamos ficar aceitando essa situação dele, vamos todos para casa, ter uma noite de sono tranqüila. – ele rebate inconformado

 

Nora: Mas Guilherme, é nosso filho mais novo. Como ele vai acordar sem ninguém do lado dele? E se precisar de alguma coisa durante a noite?

 

Guilherme: Nora, eu já falei, todos vamos embora, deixaremos todos os telefones possíveis para entrarem em contato caso surja qualquer problema, mas o Júnior precisa crescer e enfrentar seus problemas sozinhos.

 

Os quatro passam no posto das enfermeiras para deixarem os números de telefone e deixam o hospital de volta para casa.

 

 

2. INTERNA – NOITE – CASA DE PETRÓPOLIS DOS ANDRADES

 

Tomás e Vitória estão sentados no sofá conversando enquanto Gabs e Fernando jogam totó na sala de jogos ao lado. Sara volta do quarto onde os gêmeos finalmente adormeceram.

 

Sara: Ninguém ligou ainda? – pergunta Sara aflita

 

Fernando balança a cabeça negativamente com um sorriso para tranqüilizar a esposa.

 

Tomás: Não fique tão preocupada assim, não conhece o ditado que notícia ruim chega logo?

 

Sara: É do nosso irmão que você está falando, Tomás!

 

Tomás: Você que esqueceu que é do Júnior que estamos falando. Ele bebeu mais do que devia e estragou a festa dos nossos pais, foi isso que aconteceu.

 

Sara: Você não sabe disso. – Sara responde já pegando o telefone para ligar novamente para Carlos.

 

Fernando: Querida, se eles tivessem alguma notícia, o Carlos já teria ligado. Você não vai querer incomodar novamente, não é?

 

Tomás: Nem sei pra que tanta preocupação, não é a primeira que o Júnior apronta, e provavelmente não vai ser a última.

 

Gabs, que estava esperando o pai para continuar o jogo, percebe o carro de Carlos entrando na casa.

 

Gabriel: Olha, o tio Carlos está chegando. O tio Ju deve tá voltando junto, por isso não ligou.

 

Sara esquece o telefone e espera que a família entre em casa para saber o que tinha acontecido. Nora entra na frente, e sem falar com ninguém, vai até a cozinha um pouco irritada. Guilherme, Carlos e Carol entram logo depois.

 

Sara: Você não disse que ia ligar? – ela fala dando um tapa de leve no braço do irmão e continua – Onde está o Júnior?

 

Carlos: Primeiro, não precisa ser tão violenta. Segundo, nosso irmão ficou no hospital em observação, terá alta amanhã de manhã e nós voltamos assim que tivemos notícia. Você poderia esperar 5 minutos pra saber o que estava acontecendo.

 

Tomás e Vitória se levantam do sofá para saber as novidades.

 

Vitória: Vocês deixaram ele lá sozinho? – perguntou ela um pouco surpresa, já que não era o estilo de sua sogra deixar um filho doente sozinho.

 

Guilherme: Sim, o Júnior precisa crescer, ele não pode ficar aprontando tanta confusão assim e sair impune.

 

Tomás: Finalmente alguém nessa família percebeu o quê eu venho falando há muito tempo.

 

Carol: Não começa, Tomás.

 

Sara: Eu não acredito que a mãe aceitou isso numa boa!

 

Carlos: Você não viu como dona Nora entrou nessa casa como se perseguisse mil demônios? Ela teve que aceitar.

 

Fernando: Então, quer dizer que a festa das bodas se encerrou definitivamente. – ele brincou com o sogro.

 

Guilherme: Exatamente, se não bastasse o susto, eu ainda não pude nem celebrar meu aniversário de casamento. Eu vou deitar porque o dia não foi fácil. Por que vocês não aproveitam para fazer companhia para sua mãe? – disse ele dando uma piscadela sabendo que a esposa iria gostar – Boa noite, meus filhos.

 

Todos se despedem do pai, ainda se acostumando com a idéia de que o irmão mais novo ficara no hospital. Vitória também aproveita para ir deitar, ela estava acordada até aquela hora para fazer companhia ao marido. Fernando continua jogando mais um pouco com Gabs, sabendo que os filhos de dona Nora iriam se reunir com a mãe na cozinha para conversar, e provavelmente discutir, como era costume dos Andrades.

 

 

3. INTERNA – NOITE – COZINHA DA CASA DE PETRÓPOLIS

 

Nora estava preparando um chá quando viu seus quatro filhos entrando. Ela continuou o que fazia sem dar muita importância para os filhos.

 

Tomás: Ora, mamãe, é só uma noite no hospital. O Júnior não vai nem sentir sua falta.

 

Nora olhou torto para Tomás e não disse nada. Os outros três abafaram o riso sabendo que a mãe tinha desaprovado aquele comentário do filho.

 

Carlos: Eu vou ver se acho alguma coisa nessa cozinha para um lanchinho, alguém me acompanha?

 

Carol: Boa idéia, mas se tiver que cozinhar, o fogão é teu. – brincou Carol com sua desabilidade culinária já conhecida da família.

 

Nora não pôde mais se manter em silêncio.

 

Nora: Carol, já está mais do que na hora de aprender a se virar na cozinha. Além do mais, está muito magrinha, duvido que coma alguma coisa.

 

Carol: Eu como o suficiente, mamãe.

 

Sara: Ai quem dera nem eu, nem o Ferdi soubéssemos cozinhar, quem sabe assim eu conseguiria manter a forma.

 

Nora: Filha, você está muito bem, nem devia se preocupar. Sua irmã que está muito magrinha, assim como você Carlos.

 

Carlos: Como essa conversa chegou até a mim? Seria possível vocês esquecerem de mim só por dois minutinhos?

 

Todos riram enquanto Nora já tirava os ingredientes para preparar uns sanduíches para os filhos.

 

Tomás: Escuta, mãe, se quiser eu vou até o hospital e faço companhia para o Júnior. – Tomás falou arrependido por ser tão frio com a situação do irmão caçula.

 

Nora se aproxima do filho e coloca a mão no seu rosto.

 

Nora: Não precisa, meu filho. Seu pai tem razão, o Júnior precisa criar responsabilidade. Eu só fico angustiada de deixar meu garotinho sozinho num hospital.

 

Tomás: Ele não é mais seu garotinho, ele tem 26 anos.

 

Nora: Vocês todos ainda são minha crianças e nada vai mudar isso, então, se acostumem. Mesmo assim, deixa como está, o médico garantiu que amanhã cedo teu irmão terá alta.

 

Nora voltou ao preparo do lanche, e ficaram os cinco conversando na cozinha. Brincadeiras, risos e às vezes uns puxões de orelha da mãe nos filhos.

 

 

4. INTERNA – DIA – HOSPITAL MADRE TERESA

 

Júnior estava na cama esperando alguém chegar para buscá-lo. Os corte no braço e na testa coçavam por causa dos pontos, e a cabeça doía por culpa da pancada e também da bebedeira. A cabeça começou a latejar mais quando ele viu que Tomás era quem tinha ido buscá-lo no hospital.

 

Tomás: Eu trouxe uma roupa que a mãe mandou. Como está se sentindo? – ele conversa cauteloso com o irmão.

 

Júnior: Mal, minha cabeça dói muito e os cortes coçam.

 

Tomás: Quem sabe assim você não aprende, não é mesmo?

 

Júnior: Escuta, Tomás, se você veio me dar alguma lição, pode dar meia volta, eu me viro sozinho.

 

Tomás: Eu devia fazer isso mesmo, não tinha obrigação nenhuma de vir aqui te buscar depois de tudo que você aprontou, mas todos estavam dormindo. Como eu fui o primeiro a acordar, a mãe me pediu para não te deixar muito tempo aqui esperando.

 

Júnior já tinha vestido a bermuda e o tênis e estava tirando a camisola do hospital para vestir a blusa. Ele sorriu quando viu no fundo da sacola a pasta de dente com a escova e um pente.

 

Júnior: E a mãe falou pra você fazer um dos seus discursos?

 

Tomás: Não, isso ela e o pai vão fazer. Você acha que passou a noite aqui sozinho por quê? O pai cansou das suas confusões, Ju. E a mãe, mesmo a contragosto, está de acordo com ele.

 

Júnior: Ótimo, quem sabe assim eles me deixam em paz, e você deveria fazer o mesmo.

 

Tomás: Você não é mais criança e precisa assumir algumas responsabilidades. Por que você não começa a trabalhar lá na livraria, tenho certeza que vai gostar. Ou quem sabe não volta pra faculdade, falta só um ano e meio para formar.

 

Júnior: Eu não quero voltar pra faculdade, eu sou músico. Quanto à livraria, o pai já tentou, não lembra? Eu tinha 16 anos e ele não teve muita paciência para me ensinar, fora que eu não era perfeito como você, que aprendeu tudo de primeira.

 

Tomás: O pai sempre foi impaciente, mas agora eu estou na matriz com ele em Ipanema, mas se você preferir pode escolher ficar na filial com a Sara ou do tio Saulo.

 

Júnior: Ah, eu vou pensar, Tomás, mas como estão os dois? Muito bravos porque eu estraguei a festa? Eu sinto muito de verdade.

 

Tomás: Eles estão decepcionados, a mãe queria um dia perfeito, mas você sabe como é, quando os Andrades se reúnem sempre tem alguma confusão. Se não fosse você, seria outra coisa. Você sabe, a mãe ia dar um jeito de brigar com a Carol, ou a Carol com o Carlos, ou o Carlos com a Sara.

 

Os dois riram cúmplices porque sabiam que era sempre assim em reuniões da família. Abraçaram-se e foram até o setor de faturamento onde Júnior assinou os papéis do plano de saúde e foram embora para casa.

 

 

5. INTERNA – MANHÃ – CASA DE PETRÓPOLIS DOS ANDRADES

 

A família estava toda reunida na cozinha. Sara tentava fazer os gêmeos comerem antes de irem para fora brincar. Gabs já estava jogando futebol com o pai.

 

Carol: Eu ainda não acredito que ela mandou o Tomás buscar o Júnior. Ela podia ter acordado o Carlos.

 

Carlos: Por que eu? Você também sabe dirigir.

 

Carol: Mas meu carro não está aqui, e você é todo ciumento com o seu carro, que eu nem arrisco dirigir.

 

Sara: Imagino tudo que o Tomás está falando com o Júnior, ele estava muito revoltado com o que o Ju fez.

 

Nora entrou na cozinha e pegou a conversa dos filhos.

 

Nora: Seu irmão se ofereceu para ir, eu não poderia recusar, até porque vocês estavam todos dormindo.

 

Sara: O Ferdi iria buscá-lo, mamãe. Era só você falar alguma coisa. Você sabe que o Tomás é muito duro com o Ju e ele estava muito bravo depois do que aconteceu.

 

Vitória: Ontem eu falei com o Tomás para ser mais paciente com o Júnior e não discutir com ele.

 

Carlos: Eu não queria estar no lugar do Ju nesse momento.

 

Júnior e Tomás entraram em casa conversando tranqüilos. Os outros três irmãos ficaram chocados que os dois não discutiam.

 

Tomás: O que foi?

 

Carol: Você está bem? Não está dando uma bronca no Júnior?

 

Tomás: Não sei de onde vocês tiraram que eu sou o carrasco da família.

 

Sara: Pode não ser da família, mas do Júnior com certeza é.

 

Júnior ria da pequena bronca que Tomás recebia das irmãs.

 

Carlos: Como você está, Júnior?

 

Júnior: Bem, só cansado e muita dor de cabeça.

 

Nora: E a culpa é toda sua, mocinho! Agora senta para tomar seu café, e depois nós teremos uma conversinha. – ela segurou o rosto do filho e deu um beijo em sua testa.

 

Júnior obedeceu à mãe e sentou. A gritaria dos gêmeos que já brincavam no jardim com Ferdi e Gabs não ajudou em nada a dor de cabeça que ele sentia. Guilherme entrou na cozinha e viu os filhos reunidos.

 

Guilherme: Bom dia a todos! Que bom que já voltou Júnior. Quem te buscou, a Carol ou tua mãe? – ele perguntou sabendo que sempre uma das duas passava a mão na cabeça do filho caçula.

 

Júnior: O Tomás que me buscou. – ele respondeu constrangido sabendo que tinha estragado a festa dos pais.

 

Guilherme: Depois teremos uma conversa, mas por enquanto você pode aproveitar o domingo com a família, afinal essa era a intenção desse final de semana, reunir todos meus filhos e netos num mesmo lugar.

 

O resto do domingo passou de forma tranqüila, sem muitos sobressaltos. No final da tarde todos voltaram para o Rio.

 

 

6 – INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – QUARTO DO JÚNIOR

 

Todos já estavam de volta ao Rio e cada um já tinha ido para sua casa. Carlos que tinha levado Carol e Júnior trouxe os dois de volta, evitando que Guilherme se exaltasse com Júnior enquanto dirigia. Já que a conversa tinha sido adiada para mais tarde, então, que acontecesse em casa.

Carol estava no escritório conversando com Guilherme e Nora decidiu que era a melhor hora para conversa sozinha com Júnior. Ele estava deitado na cama e com os olhos fechados, mas o barulho da porta abrindo e fechando foi suficiente para ele olhar e ver sua mãe.

 

Nora: Você está se sentindo melhor?

 

Júnior: Sim, só um pouco cansado.

 

Nora: Quer comer alguma coisa?

 

Júnior: Não, obrigado, mãe.

 

Nora: Então agora você pode começar a me dizer o que estava pensando para se embebedar daquele jeito?

 

Júnior: Eu não estava pensando em nada, só estava comemorando.

 

Nora: Não, quem estava comemorando era eu, seu pai, seus irmãos. Você só estava fazendo o que vem fazendo há algum tempo, Júnior.

 

Júnior: Mãe, me desculpa, eu não tinha a intenção de cair e me machucar.

 

Nora: É claro que não, mas você bebeu bastante até chegar a esse ponto não é mesmo? O mais complicado é que você nunca tem intenção de nada, mas continua cometendo os mesmos erros.

 

Júnior: Eu não sou perfeito como meus irmãos.

 

Nora: E quem disse que eles são perfeitos? Eles cometem erros que me deixam maluca, mas pelo menos eles não estão destruindo a saúde e a juventude deles feito você. – ela parou para respirar e enxugar as lágrimas que caiam – como você acha que eu me senti vendo você desmaiando, caindo no chão e se machucando todo?

 

Júnior: Desculpa, mãe, eu sei que te fiz passar vergonha.

 

Nora senta na cama ao lado do filho para conversar olhando nos olhos dele.

 

Nora: Eu não estou com vergonha, eu estou preocupada com você. Quando quis largar a faculdade pra investir na música, eu não gostei, mas deixei você fazer o que queria, ir em busca do teu sonho. E olha o que aconteceu? Isso é culpa minha.

 

Júnior: Não, mãe, não é culpa sua, nem do pai, nem de ninguém. A culpa é minha.

 

Nora: Por que você está fazendo isso, meu filho? Tem um futuro tão brilhante pela frente.

 

Júnior: Eu perdi o controle mãe, mas eu vou consertar isso, eu prometo.

 

Júnior senta e abraça a mãe que chora em seus ombros.

 

Nora: Você promete que vai parar com as noitadas e as bebedeiras? Por mim, meu filho. Eu não sei mais quanto tempo minha saúde pode agüentar ver você se machucando.

 

Júnior: Sua saúde está muito boa, mamãe, mas eu vou tentar melhorar, pode ter certeza.

 

Nora: É o que eu mais quero – ela fala passando a mão no rosto do filho e dando um beijo em sua testa. – Vou te deixar descansar, tem certeza que não quer nada?

 

Júnior: Tenho.

 

Nora sai do quarto dando uma última olhada no filho e sorrindo.

 

 

7. INTERNA – MANHÃ – APARTAMENTO DA SARA – QUARTO

 

Sara estava com a agenda, contando os dias, já era a terceira vez que ela contava. Ela murmurava “não pode ser possível” no final de cada conta. Fernando entrou no quarto enxugando o cabelo e viu a esposa fazendo cálculos.

 

Fernando: Que tanto você calcula aí?

 

Sara se assustou com a voz do marido, estava distraída e não percebeu que ele já tinha saído do banho. Ela se levantou e deu um beijo de bom dia.

 

Sara: Não é nada de mais, coisas da livraria.

 

Fernando: Ainda aqueles números diferentes?

 

Sara: É, mas de hoje não passa.

 

Fernando: Dia de reunião?

 

Sara: Sim. – dando outro beijo no marido, ela completa – vou terminar o café da manhã e a merenda das crianças. Você lembrou de mais alguma coisa pra acrescentar na lista de compras?

 

Fernando: Que tal um “estamos precisando de umas férias a dois” no final da lista? – ele deu uma piscadinha.

 

Sara: É só dizer quando e onde.

 

Ela pegou a agenda e a lista de compras. Ela iria aproveitar que era dia de ela deixar as crianças no colégio e iria passar na farmácia para comprar um teste de gravidez e saber se sua suspeita era verdade ou não.

 

 

8 . INTERNA – MANHÃ – CASA DOS ANDRADES – SALA

 

Carol estava juntando suas anotações e seu laptop para a entrevista que iria fazer, já pegava as chaves do carro de Júnior quando a mãe entrou na sala.

 

Nora: Já vai Carol?

 

Carol: Sim, mamãe. Tenho hora marcada e o trânsito do Rio não está muito melhor que o de São Paulo.

 

Nora: Vai mesmo entrevistar aquele distinto senhor? – pergunta ela impaciente.

 

Carol: Não começa, ainda é muito cedo para implicar.

 

Nora: Eu só te fiz uma pergunta, ou agora não posso mais querer saber como está o trabalho da minha filha?

 

Carol: Claro que pode mamãe – respondeu ela complacente – mas eu te conheço muito bem e sei que sua pergunta não é tão inocente como possa parecer.

 

Nora: Muito bem, então tenha um bom dia e bom trabalho. Você vem almoçar em casa?

 

Carol: Não, eu vou aproveitar para almoçar e colocar a conversa em dia com a Sara. Ah, pede pro Júnior me ligar que eu preciso falar com ele. Tchau, mãe.

 

Nora: Tchau.

 

 

9. INTERNA – MANHÃ – LIVRARIA ANDANÇAS – ESCRITÓRIO

 

Sara esperava impacientemente o tio Saulo chegar para que pudesse saber o que estava acontecendo. Ela não tinha tirado da cabeça a diferença nos números da livraria.

 

Saulo: Bom dia, Sara. Como está o Júnior?

 

Sara: Está melhor, ele exagerou na bebida, mas já deve ter recebido sermões suficientes.

 

Saulo: Bom, o importante é que não foi nada grave. Mas o que você faz tão cedo na livraria?

 

Sara: Eu queria mostrar pra você os números que eu comentei no sábado. Tem alguma coisa errada com eles, os números do livro caixa não batem com os números lançados no computador.

 

Saulo: Sara, não tem nada errado. A livraria está muito bem. Provavelmente é só um erro muito fácil de corrigir.

 

Sara: Não sei, tio…

 

Saulo: O que foi, está desconfiada de alguma coisa? – pergunta ele um pouco irritado

 

Tomás que estava chegando para trabalhar escuta as perguntas do tio e fica sem entender.

 

Tomás: Quem está desconfiando do quê?

 

Sara: Não é nada, Tomás, o tio Saulo que exagerou.

 

Saulo: Não, você está desconfiada dos números, mas não sabe o que é ou não tem prova de nada e fica fazendo interrogatório. Eu só quero saber do que desconfia – ele interrompe para dar mais ênfase ao que iria dizer – ou de quem.

 

Tomás: De novo com essa conversa, Sara? Eu não te falei que estava tudo certo com os números? Que eram os mesmos há três meses?

 

Sara: Então é um erro recorrente? – perguntou ela com certo tom de ironia.

 

Tomás: Qual é, Sara? Você sabe que quem cuida desse livro e desses lançamentos é o pai. Você acha que ele iria fazer alguma coisa de errado?

 

Sara: Não sei, Tomás…

 

Tomás: Eu não acredito nisso, Sara! – diz ele irritado – É o nosso pai pelo amor de Deus! Você não pode estar falando sério.

 

Sara: Eu não sei…

 

Tomás: Eu não vou ficar aqui discutindo com você e essa sua paranóia infundada. – e vira-se para o tio entregando a ele uma pasta e completando – Entrega pro meu pai esses documentos, tio Saulo, são os novos contratos assinados.

 

Sara: Você não vai ficar pra reunião?

 

Tomás: Não. Primeiro que eu não quero ver a reação do pai quando você for falar disso com ele e segundo porque hoje é a primeira ultra-sonografia da Vitória e eu quero ver como o bebê está!

 

Saulo: Já vão poder ver o bebê? – indaga Saulo a Tomás.

 

Tomás: Sim, e quem sabe vamos conseguir até saber o sexo!

 

Sara: Ainda não dá pra saber… É muito cedo.

 

Tomás: Tem certeza?

 

Sara: Sim, pelo que eu sei, eu já tenho três filhos e sei como essas coisas funcionam.

 

Tomás: Tudo bem, de qualquer maneira, eu vou escutar o coração do bebê pela primeira vez, isso é importante!

 

Saulo: Pode deixar que eu entrego isso para seu pai.

 

Sara: Boa sorte no médico hoje.

 

Tomás: Valeu, e você deixa essa desconfiança pra lá ou então vai com calma com o pai, depois do que aconteceu sábado, ele não precisa da própria filha desconfiando dele.

 

Sara sorri e eles se despedem. Saulo volta pra sua filial, e Sara fica pensando que aquele dia não podia passar rápido o suficiente, além da reunião com o pai ela tinha o teste guardado dentro da bolsa.

 

 

10. INTERNA – MANHÃ – CASA DOS ANDRADES

 

Guilherme terminava de se arrumar para sair e Júnior entra no quarto para conversar com o pai.

 

Júnior: Vai pra livraria pai?

 

Guilherme: Só de tarde, antes eu tenho um almoço de negócios.

 

Júnior: Ok.

 

Guilherme olha para Júnior e percebe que o filho parecia querer conversar sobre algo importante.

 

Guilherme: Você queria falar mais alguma coisa. – afirma ele com a experiência que só um pai tem.

 

Júnior: Sim. – depois de um tempo ele toma coragem – eu sinto muito ter estragado a festa sua e da mamãe.

 

Guilherme: Nós sabemos, filho. Eu e sua mãe só queremos o melhor pra você, mas você tem que mudar, arrumar um trabalho, tomar um rumo na vida.

 

Júnior: Eu sei, é isso que eu queria falar com você. O Tomás falou que se eu quiser, posso ir trabalhar com ele na matriz ou também posso ficar numa das filiais, com a Sara ou o tio Saulo.

 

Guilherme: E…

 

Júnior: Eu não estou prometendo nada, mas eu queria tentar mais uma vez.

 

Guilherme: Eu fico feliz, filho. – ele dá um abraço no filho.

 

Nora entra e vê os dois se abraçando e sorri. Guilherme nunca conseguia ficar bravo com Júnior por muito tempo.

 

Nora: Júnior, sua irmã saiu com seu carro.

 

Júnior: Eu sei, mãe, ela falou comigo ontem.

 

Nora: Outra coisa, ela pediu pra você ligar pra ela, porque precisa falar com você.

 

Júnior: Ela disse se era urgente?

 

Nora: Não, só pediu pra você ligar. Ela deve estar entrevistando aquele homem agora!

 

Guilherme: Nora, você sabe que ela recebe ordens e precisa cumpri-las.

 

Nora: Não, Guilherme, ela não tem desculpa, ela sabe muito bem o que esse homem fez com meu irmão.

 

Júnior: Mamãe, a Carol… – ele não termina o que ia falar e é interrompido pela mãe.

 

Nora: Tudo bem, não vou falar mais nada sobre o assunto.

 

Júnior: Você não vai conseguir.

 

Guilherme começa a rir sabendo que o filho tinha toda razão.

 

Nora: Vocês dois podem parar. – ela finge estar brava e sai do quarto balançando a cabeça.

 

 

11. EXTERNA – TARDE – RESTAURANTE

 

Carol estava sentada lendo uma revista e esperando a irmã chegar para almoçarem.

 

Sara: Desculpa o atraso, teve que esperar muito? – perguntou ela cumprimentando Carol.

 

Carol: Nada, cheguei agora pouco. Tudo bem?

 

Sara: Claro, por que pergunta?

 

Carol: Porque é normal perguntar como minha própria irmã está. O quê tá acontecendo, Sara? Eu te conheço e você estava ansiosa todo o final de semana e agora essa resposta.

 

Sara não sabia como explicar pra irmã que desconfiava que estava grávida novamente, então, ela resolveu omitir.

 

Sara: Só uns problemas na livraria, mas provavelmente não é nada como o Tomás e tio Saulo ficam repetindo.

 

Carol: Você devia falar sobre isso com o papai.

 

Sara: É, eu vou fazer isso hoje à tarde na reunião. E aí já fez a entrevista?

 

Carol: Sim.

 

Sara: E…?

 

Carol: O que você quer saber? Eu só cumpri com minha obrigação.

 

Sara: Você não perguntou nada do irmão da mamãe?

 

Carol: Claro que não, Sara, seria antiético da minha parte. O tio Paulo foi torturado e morto como várias outras pessoas. E você acha que se o deputado soubesse de alguma coisa iria me falar?

 

Sara: Você tem razão, mas na hora de escrever sobre ele não seja tão boazinha.

 

Carol: Eu não sou boazinha, eu sou profissional.

 

As duas fazem o pedido e enquanto conversam e esperam, o telefone de Carol toca.

 

Carol: Alô?

 

Júnior: Oi Carol, a mãe disse que você queria falar comigo, o que foi?

 

Carol: Oi Júnior

 

Sara interrompe a irmã

 

Sara: É o Júnior? Pergunta como ele está se sentindo hoje.

 

Carol: Júnior vou colocar você no viva-voz porque a Sara também quer falar com você.

 

Júnior: Vocês não têm jeito mesmo – já no viva-voz, ele continua– oi Sara, tudo bem?

 

Sara: Sim, claro.

 

Júnior: Escuta, Sara, o Tomás falou com você da nossa conversa ontem?

 

Sara: Não, o que foi?

 

Júnior: Ah, é que eu tava pensando em trabalhar na livraria, pelo menos tentar de novo. E seria ou com você ou com o tio Saulo. O Tomás tá junto com o pai na matriz, e você sabe como o pai é impaciente.

 

Sara: Ah, que ótimo, Ju. O Tomás não vai ficar na livraria hoje, mas se você preferir sua irmã mais velha pra ser sua mentora…

 

Carol: Meu Deus, que piegas você, Sara. É claro que o Júnior vai preferir ficar com você, o Tomás e ele não iria dar certo nunca. Mas talvez o Júnior nem vai precisar de trabalhar na livraria.

 

Júnior: Por que não?

 

Carol: É sobre isso que eu queria te falar. Eu falei com um amigo publicitário, e ele está precisando de um músico para compor jingles pra uma propaganda e espera você hoje.

 

Júnior: Eu não sou compositor de Jingles.

 

Carol: Qual é, Júnior? É só um trabalho, é pra você ganhar seu dinheiro e poder investir na sua música. Diz que vai pelo menos tentar?

 

Júnior: Tá certo, onde que eu tenho que ir e quando?

 

Carol: Eu mando as informações pro teu e-mail, mas é hoje tá? Não vai esquecer. Tchau.

 

Sara: Tchau, Ju.

 

Júnior: Tchau pra vocês duas.

 

Sara: Você acha que vai dar certo esse negócio com os jingles?

 

Carol: Vale à pena tentar, não sei, pelo menos tem a ver com música. Me fala como está tudo em casa com o Nando e as crianças.

 

Sara: Tudo bem, Gabs está naquela fase da pré-adolescência e os gêmeos aprontando. Eu e o Ferdi estamos bem.

 

Carol: Você deu muita sorte, Sara, tem uma família perfeita.

 

Sara: Se é perfeita eu não sei, mas é linda com certeza.

 

As duas riem e continuam conversando colocando as fofocas em dia, coisa que a distância não permitia que fosse freqüente.

 

 

12. INTERNA – TARDE – APARTAMENTO DA VERA SANTOS

 

Rebeca chega em casa da faculdade e escuta as risadas da mãe vindo da sala de jantar.

 

Rebeca: Mãe… Cheguei. – ela fala entrando na sala de jantar e encontrando a mãe e Guilherme sentados. – Oi… Não sabia que teríamos visita.

 

Guilherme: Senti saudades de vocês duas. Como está, Rebeca? – ele pergunta se levantando e cumprimentando a garota. – Como vai a faculdade?

 

Rebeca: Tudo bem, se eu soubesse que viria teria voltado mais cedo.

 

Guilherme: De forma alguma, vim de surpresa mesmo.

 

Vera: Você vai almoçar com a gente, não é?

 

Rebeca: Sim, mas não posso demorar muito, hoje à tarde tem uma sessão de fotos e eu preciso chegar cedo.

 

Guilherme: Que maravilha, o curso de fotografia que fez já está dando resultado?

 

Rebeca: Mais ou menos, eu sou só a assistente. Vou cuidar da iluminação, do equipamento, essas coisas. Mas meu professor garantiu que vou poder tirar algumas fotos.

 

Guilherme: Sua mãe deve estar orgulhosa de você. Posso dizer que eu estou.

 

Rebeca: Obrigada. – ela respondeu sem graça.

 

Rebeca nunca entendeu muito bem a relação de sua mãe e Guilherme. Ela sempre desconfiou de um romance entre eles, mas nunca viu nada para ter certeza. Em certa época desconfiou que ele poderia ser seu pai, mas sua mãe negou veementemente e ela largou a suspeita de lado. Vera termina de servir a comida e os três almoçam juntos.

 

Vera: E como vai a livraria? – ela pergunta entre uma garfada e outra.

 

Guilherme: Tudo bem, vai ter o lançamento de um livro em algumas semanas, você já está convidada. Você duas na verdade.

 

Rebeca: Ah, eu vou pensar, alguns escritores podem ser muito pretensiosos e esses pseudo-intelectuais que freqüentam essas festas não fazem meu estilo.

 

Vera: Rebeca, como pode falar uma coisa dessas?

 

Rebeca: Não estou falando mentira nenhuma. E não me referi a nenhum dos dois.

 

Guilherme: Ela tem razão, algumas pessoas que freqüentam essas festas são cansativas, mas existem outras pessoas muito interessantes.

 

Rebeca: Eu vou pensar, tudo bem?

 

Guilherme: Claro.

 

O resto do almoço passa de maneira tranqüila. Rebeca se levanta assim que termina e sai para ir trabalhar. Guilherme fica um pouco mais, conversando com Vera e depois também vai embora para a livraria.

 

 

13. INTERNA – TARDE – ESCRITÓRIO DA ANDANÇAS

 

Guilherme estava sentado no escritório junto com seu cunhado Saulo e sua filha Sara. A cada 15 dias eles faziam uma reunião para acertarem como cada livraria estava funcionando, os lucros e os novos pedidos que deveriam ser feitos.

 

Saulo: O Tomás deixou as informações que você pediu pra ele

 

Guilherme: Ele me falou que iria deixar tudo aqui hoje cedo. Você já deu uma olhada Sara?

 

Sara: Sim, está tudo certo nos números dele, inclusive já juntei com os meus números.

 

Guilherme: Você ou o Tomás quem está organizando o próximo lançamento de livro? E qual é mesmo?

 

Sara: É o Tomás, papai, é um romance do Ricardo Alvarenga.

 

Saulo: O livro é muito bom. Eu já li a edição que mandaram.

 

Guilherme: Bom, então eu converso com ele sobre esse lançamento essa semana. Saulo, alguma coisa a acrescentar?

 

Saulo: Da minha parte não, está tudo normal com a contabilidade.

 

Sara: Eu queria repassar uns números com você papai.

 

Guilherme: Claro, o Saulo precisa estar presente? Porque eu pedi que ele tratasse de uns assuntos pra mim.

 

Sara: Você já basta, papai.

 

Saulo sai da sala olhando para Sara de maneira recriminatória, e Sara mantém o olhar. Guilherme estranha a troca de olhares entre os dois e resolve ficar confortável na cadeira, já que a conversa não deveria ser agradável.

 

Guilherme: Então, sobre o que queria falar?

 

Sara: Eu estava dando uma olhada nos números da empresa e tem um problema, papai, os números no programa no computador não batem com os números do livro.

 

Guilherme: Deixa eu ver isso.

 

Guilherme pega o livro e começa a analisar o que a filha estava mostrando. A diferença era no pagamento das distribuidoras e na renovação de alguns contratos. Sara espera o pai acabar de analisar o livro e comparar com os números lançados no computador.

 

Sara: Então?

 

Guilherme: Que droga, não acredito que eu errei no lançamento dos números de novo. Era tudo melhor sem essa porcaria tecnológica. Olha pra você ver aqui, Sara. Os números verdadeiros estão no livro, ainda bem que você pegou isso a tempo.

 

Sara: Mas você não iria errar só o lançamento dos números, papai. Ainda mais que os números do programa são os que valem realmente para a contabilidade final e você sabe disso.

 

Guilherme: Eu lancei os números corretos tenho certeza.

 

Sara: Deixa eu ver isso.

 

Sara vai para o lado do pai e olha a tela do computador e tenta encontrar o erro. Ela quase deixa passar, quando percebe o porquê do erro e mostra para o pai.

 

Guilherme: Não sei o que faria sem você, Sara.

 

Sara: Que isso, papai, ainda bem que eu peguei o erro antes de serem finalizadas as contas do primeiro trimestre. Bom, se é só isso, eu vou pra minha loja ver o que está acontecendo por lá antes de pegar as crianças na escola.

 

Guilherme: Sim, vai com Deus filha, e obrigado por me avisar do erro e corrigir a tempo.

 

Depois que Sara sai da sala, Guilherme abre novamente o programa de contabilidade, mexe em algumas configurações, salva as alterações, fecha o programa e desliga a tela. Ele recosta a cabeça no encosto da cadeira e respira fundo pensando que aquele dia poderia terminar o quanto antes.

 

 

14. INTERNA – TARDE – SALA DE ESPERA DO MÉDICO

 

Vitória estava sentada lendo um artigo sobre gravidez enquanto Tomás balançava a perna sem parar. Ela larga a revista no colo e coloca a mão na perna do marido na tentativa de encerrar o movimento compulsório que estava deixando ela irritada.

 

Vitória: Você quer conversar para o tempo passar mais rápido?

 

Tomás: Não, pode voltar pra sua leitura. – responde ele olhando impaciente para o relógio.

 

Vitória: Eu já perdi o lugar onde parei. Então, pronto para ver nosso bebê pela primeira vez?

 

Tomás: Sim, mas a Sara disse que ainda não dá pra saber o sexo.

 

Vitória: Faz tanta diferença pra você o que vai ser?

 

Tomás: Não! Claro que não, é só curiosidade mesmo e também porque falar bebê é muito genérico, prefiro falar ‘minha garotinha’ ou ‘meu garotão’.

 

Vitória ri da explicação do marido e dá um beijo de leve nos lábios dele. Ela ia voltar ao artigo quando chamam o nome dela. Os dois se levantam, enquanto Tomás fica na sala de exame, Vitória vai até o banheiro e veste o avental. Quando ela volta para a sala de exame, Tomás a ajuda a deitar na mesa.

 

Dra Valéria: Vamos ver como está esse bebê.

 

Tomás senta no banco que está do lado da mesa de exame e pega a mão da esposa. Os dois olham pra tela enquanto a médica guia o aparelho na barriga de Vitória. Os dois se surpreendem quando um barulho é escutado na sala.

 

Dra. Valéria: Esse barulho é o coração do seu bebê, e está batendo bem forte.

 

Tomás: Ouviu isso, querida? – ele pergunta olhando para a esposa, que tem os olhos inundados por lágrimas que ameaçam cair.

 

Vitória não pôde fazer nada. A emoção que ela sente, ao ouvir o coração do bebê, que ela já amava incondicionalmente foi demais. Tomás enxuga as lágrimas dela e dá um beijo carinhoso na testa da esposa.

 

Tomás: Está tudo bem com nosso bebê?

 

Dra. Valéria: Sim, o desenvolvimento está de acordo com o que se espera de um feto nesse estágio. Ainda é cedo para determinar o sexo ou a data de nascimento, mas os batimentos cardíacos estão bem fortes e olha como se movimenta, mesmo que você ainda não sinta. – a médica aponta para a tela e continua – já dá pra ver os bracinhos e as perninhas.

 

Tomás: Olha, está com a mãozinha perto da boca.

 

Vitória: Não imaginava que desse para ver tão bem assim, dá até pra ver o rostinho.

 

Os dois riem e continuam ouvindo as explicações da médica. Depois de terminado o exame, ela limpa o gel da barriga de Vitória e libera para que vá se vestir. Quando os dois saem, recebem o DVD com a “primeira filmagem” do bebê deles. Tomás passa o braço pelos ombros da esposa e vão em direção ao carro.

 

Tomás: Como está se sentindo?

 

Vitória: Ainda chocada e emocionada com o que a gente viu lá dentro!

 

Tomás: É, eu posso imaginar. E ainda sabendo que está tudo bem. – ele sorri para ela – então o que quer fazer agora?

 

Vitória: Que tal se a gente fosse dar uma volta no shopping, eu quero comprar alguma coisa pro nosso bebê.

 

Tomás: E quando você não quer fazer compras?

 

Vitória: Depois a gente pode comer alguma coisa e ir ao cinema, já tem um tempo que a gente não vai.

 

Tomás: Combinado então.

 

Os dois chegam até o carro, e Tomás abraça a esposa e a beija apaixonado. Quando os dois se separaram, Vitória passa a mão pelo cabelo do marido.

 

Vitória: Não que eu esteja reclamando, mas por que esse beijo?

 

Tomás: Nenhum motivo especial, só porque você me faz feliz.

 

Vitória: Se for assim, sinta-se à vontade.

 

Eles dão mais um selinho e vão aproveitar o resto do dia.

 

 

15. INTERNA – TARDE – AGÊNCIA DE PUBLICIDADE

 

Júnior entra no escritório vestindo camisa e calça social. Ele se sente extremamente desconfortável, mas Carol tinha escrito em negrito e sublinhado como ele deveria se vestir para ir a essa reunião e ele não queria desapontar a irmã, que tanto o apoiou quando decidiu seguir a carreira musical.

 

Ele se encaminha até a recepção e, após informar quem ele é, é informado que deve esperar. Não demora muito e é chamado até a sala do André Silveira.

 

André: Oi Júnior, a Carol falou muito de você. Senta e fica à vontade.

 

Júnior: Obrigado.

 

André: Eu pedi que você viesse aqui hoje porque está começando a sessão de fotos, e quero que você se intere da campanha para compor o jingle.

 

Júnior: E pra quando você vai precisar?

 

André: Você tem uma semana, mas assim que tiver alguma coisa, já pode trazer pra mim, porque precisa ser aprovada antes.

 

Júnior: Tudo bem, sem problemas.

 

André: Vem comigo, quero que você veja qual a idéia da campanha.

 

Júnior acompanha André até o local das fotos. Enquanto ele explica o conceito da campanha, Júnior já bolava algumas idéias na cabeça. Ele está surpreso por gostar da idéia de compor uma música para uma campanha publicitária. Talvez a idéia da irmã não tenha sido tão ruim quanto ele pensou a princípio. Com certeza é melhor que trabalhar na livraria.

 

Quando André vai conversar com algumas pessoas, Júnior fica olhando a movimentação das pessoas no estúdio, ele nunca tinha presenciado uma sessão de fotos e só desvia a atenção quando percebe que alguém fala com ele.

 

Júnior: O que você falou?

 

Rebeca: Que você precisa ir até o camarim para se trocar e se arrumar para as fotos.

 

Júnior: Que fotos?

 

Rebeca: Você não é o modelo que está atrasado?

 

Júnior: Não, eu vim para uma reunião.

 

Rebeca: Ah, me desculpa então, engano meu. – ela vai saindo envergonhada pela confusão.

 

Júnior: Ei, espera um pouco – ele alcança ela e pergunta convencido – você achou mesmo que eu poderia ser modelo?

 

Rebeca: No estúdio só é permitida a entrada de funcionários e pessoal envolvido na sessão de fotos, eu deduzi que você era o modelo.

 

Júnior: Então, é melhor eu me apresentar – sorrindo ele completa – sou Júnior e vou fazer a música para a campanha.

 

Rebeca: Prazer, Júnior, e seja bem-vindo.

 

Júnior: E você não tem nome?

 

Rebeca: É Rebeca. – ela sorri.

 

Júnior: Imagino que não é uma das modelos, já que estava me dando ordens.

 

Rebeca: Sou assistente de fotografia.

 

A conversa é interrompida quando chamam Rebeca e a sessão é reiniciada.

 

Júnior: Ei Rebeca, talvez depois da sessão a gente podia sair pra beber alguma coisa e você me explica um pouco mais o conceito da campanha.

 

Rebeca: Claro, mas ainda demora um pouco pra encerrar.

 

Júnior: Eu não estou com pressa.

 

 

16. INTERNA – NOITE – LOJA DE ARTIGOS INFANTIS

 

Vitória olha a sessão de roupas para bebês e pensa em comprar alguma coisa, mas que possa ser usada por qualquer sexo, já que eles ainda não sabem o que terão. Ela então levanta a cabeça pra procurar Tomás e vê ele carregando várias coisas.

 

Vitória: O intuito de hoje é só uma lembrança do dia. O que você tem aí?

 

Tomás: Olha – e levantou a camisa do fluminense

 

Ela começa a rir da criatividade do marido.

 

Tomás: Qual o problema?

 

Vitória: Você não acha que vai demorar até ele ou ela usar isso?

 

Tomás: Não, vai aprender desde bebê pra que time torcer.

 

Vitória: Mas eu quero uma lembrança séria.

 

Tomás: Que tal esse? – e mostra um “Livro do bebê” – Aqui você pode escrever sobre a gravidez, colocar foto da ultra-sonografia, enfim, é quase um diário.

 

Vitória: Gostei!

 

Tomás: E lembrei de mais uma coisa – e mostra um sapatinho vermelho para a esposa – dizem que o bebê deve sair da maternidade com um sapatinho vermelho pra afastar mau olhado, e qualquer cuidado é pouco.

 

Vitória: Não sabia que você era supersticioso!

 

Tomás: Não sou, mas na dúvida é melhor se prevenir.

 

Vitória: Eu gostei, então, levamos o livro e o sapatinho.

 

Tomás: A camisa do fluminense também?

 

Vitória: Está bem, você venceu.

 

Os dois pagam pelas compras e saem para completar o resto dos planos da noite.

 

 

17. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES

 

Já tinha passado três dias da entrevista que foi publicada na edição daquele dia. Carol toma o café da manhã e lê a edição carioca do jornal enquanto Júnior dedilha algumas notas no violão e escreve no caderno. Guilherme saiu cedo para a livraria, e Nora cuidava do jardim com afinco desde logo cedo. Carol viu Carlos entrando e logo estranhou.

 

Carol: O que você tá fazendo aqui logo cedo?

 

Carlos: Nada, eu estou com a manhã livre e resolvi ver como está se recuperando meu irmãozinho caçula.

 

Júnior: Estou bem, até trabalhando em uma música.

 

Carlos: Estou vendo. Tanta dedicação pra quê?

 

Carol: É um comercial que ele vai compor o jingle.

 

Carlos: Que bom, Júnior.

 

Júnior: É um trabalho, tomara que eles gostem.

 

Carlos: Tenho certeza que vão gostar – virando pra Carol ele continua – e porque a mãe tá revirando o jardim todo?

 

Carol: O jornal publicou a entrevista com o Deputado Antunes hoje.

 

Carlos: Ah, bem notei que tinha algo no ar.

 

A conversa deles é interrompida com a porta da frente batendo e Nora conversando com a avó deles.

 

Nora: Mamãe, não faz bem pra senhora ficar nervosa desse jeito.

 

Diva: Onde está essa garota? Preciso falar com ela agora. Onde já se viu…

 

Júnior: Vó Diva, quer um café? Um chá?

 

Diva: Com você eu falo depois – vira para Carol e fala – eu quero falar com você, mocinha, onde já se viu escrever sobre esse bandido que acabou com a vida do meu filho mais velho e seu tio?

 

Carol: Eu só estava cumprindo com minha obrigação.

 

Diva: Obrigação, onde já se viu uma coisa dessas? Sua obrigação é com sua família, comigo, com sua mãe.

 

Carol: Desculpa, vovó, mas ordens são para serem cumpridas.

 

Diva: E você estava sabendo disso? – ela pergunta para Nora sacudindo o jornal no ar.

 

Nora: Sim. Fiquei sabendo no sábado.

 

Diva: E não fez nada para impedir?

 

Nora: Impedir como? Eu falei, mas é o trabalho dela. Eu não estou de acordo, mas se ela recebeu essa função tinha de cumprir, não?

 

Diva: Você também já esqueceu o sofrimento da tua família? E teu irmão que nem sabemos que fim levou?

 

Carol: Vó, é só uma entrevista, e eu só escrevi os fatos.

 

Diva: Fatos? – ela joga o jornal no chão e tira uma fotografia da bolsa e mostra para Carol – O fato é que esse rapaz da foto é seu tio Paulo. Ele tinha 23 anos quando foi preso, torturado e possivelmente morto por culpa desse Rodolfo Antunes, que fez uma denuncia ridícula, acusando meu Paulo de conspiração e sabe lá o que mais. O pior de tudo, eu não sei o que aconteceu com ele, se está morto ou vivo, porque ele desapareceu. Então, não me venha com essa de cumprir sua obrigação ou seu dever. Você está dando espaço na mídia pra um homem que não pagou pelo crime que cometeu, por causa de uma lei de anistia que só fez ajudar esse e outros bandidos dessa época maldita de repressão.

 

Carol não tinha como se defender, ela sabia o que tinha acontecido ao tio, ela sabia o sofrimento que aquilo causava na mãe. Muitas vezes, ela argumentou com seu editor que não queria fazer aquela entrevista, mas a condição para ela ter os dias livres para ir até o Rio para a festa de bodas dos pais era fazer aquela entrevista, então, ela passou por cima dos problemas pessoais que tinha em relação àquele homem e fez a entrevista por ética profissional.

 

Nora: Eu te falei para não fazer essa entrevista. Mas você não me escuta. Olha o que aconteceu agora?

 

Carol: Mãe…

 

Nora: Esquece. É melhor você sair e dar um volta enquanto eu acalmo sua avó. – virando para o filho mais novo ela continua – Júnior, você vai com Carol dar uma volta enquanto o Carlos me ajuda com sua avó.

 

Júnior: Tudo bem, vamos Carol.

 

Os dois saem para uma caminhada no bairro enquanto Nora acalma Diva, e Carlos chama Saulo, para levá-la embora.

 

 

18. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES

 

Guilherme chega em casa com ingressos para o teatro. Ele ficou sabendo da discussão entre Carol, Nora e Diva e resolveu levar a esposa para sair e distrair.

 

Nora: Eu nem estou com ânimo para sair.

 

Guilherme: Você vai gostar, Nora, estava querendo ir a essa peça tem algum tempo.

 

Júnior: Vai logo, mãe, o pai só quer namorar um pouco.

 

 

19. EXTERNA – NOITE – RESTAURANTE

 

Carlos estava sentado olhando para Alexandre Bittencourt e pensando em como ele podia ter se enganado tanto. As conversas pela internet e pelo telefone foram divertidas, mas pessoalmente era outra coisa. Alexandre não dava chance nenhuma para ele falar. Carlos estava decepcionado, mas não queria deixar isso transparecer.

 

Alexandre: Então, eu resolvi ir embora, porque as pessoas interessantes já tinham ido mesmo. Só sobraram os pseudo-famosos! Só sabem falar deles!  – e ri com gosto. – Mas pelo menos eu consegui aquele trabalho! Vou sair no próximo exemplar da revista. Se quiser te mando um exemplar. Vou posar de cuecas! Tô malhando à beça, percebeu? – e olha Carlos de maneira sedutora. – Mas aí, essa pode ser a minha chance, sabe? E meu próximo passo vai ser novelas. Eu atuo bem, sabe? E beleza não é um problema… – e mexe nos cabelos tratados de maneira sexy.

 

Carlos: Ah, sim, com certeza!

 

Alexandre: Você concorda, então? Acha mesmo que eu devo tentar a carreira de ator? Eu fico com medo, às vezes… Todos aqueles paparazzi! Mas fala sério? Quem não vai querer me ver pelado? Ou na praia? – e ri novamente. – Você é tão legal, C.A… E bonito também. Eu sei que seu nome é Carlos, mas já peguei o hábito. Não é engraçado? Já te falaram que você é um excelente ouvinte?

 

Carlos apóia o queixo na mão e balança a cabeça concordando com o que fosse que Alexandre estava falando. Talvez suas irmãs estivessem certas, e namoro pela internet era mesmo um erro e que só se pode conhecer alguém de verdade, na vida real e não através de uma tela de computador. Alexandre só interrompe a história quando o garçom se aproxima da mesa.

 

Garçom: Mais alguma coisa, senhores?

 

Carlos: Pra mim um café, e você Alexandre?

 

Alexandre: Mais nada, obrigado.

 

Carlos: Pode trazer a conta por favor.

 

O garçom se retira e deixa os dois mais uma vez sozinhos.

 

Alexandre: Então, o que vamos fazer agora? – ele indaga num tom sedutor.

 

Carlos: Ah, eu preciso ir embora, já está ficando um pouco tarde e amanhã eu tenho uma audiência logo cedo.

 

Alexandre: Tenho algo mais “quente” em mente! Você é tão lindo quanto eu, sabia?

 

Carlos: Quem sabe outro dia…

 

Alexandre: Você não vai querer aproveitar a oportunidade? Prometo que não vai se arrepender.

 

Carlos: Hoje não estou muito no clima.

 

Alexandre: Deixa comigo, sou craque em esquentar caras meio devagar.

 

Carlos: Devagar? Eu não sou devagar! Só não estou a fim!

 

Alexandre: Ok. Você quem sabe…

 

Carlos bebeu seu café e eles pagam a conta e ficam do lado de fora esperando o manobrista trazer o carro de cada um deles.

 

Quase em frente ao restaurante onde Carlos e Alexandre estavam, Nora e Guilherme saem do teatro. Como eles tinham ido de taxi, para evitar o estresse de encontrar estacionamento, estavam do lado de fora parados à espera de, um carro vazio quando Guilherme avistou Carlos saindo do restaurante, do outro lado da rua.

 

Guilherme: Nora, aquele não é o Carlos?

 

Nora: Sim, é ele. Talvez ele possa nos levar até em casa, vamos até lá.

 

Na porta do restaurante, o carro de Carlos chega primeiro, então ele vai se despedir de Alexandre, que pra sua surpresa o abraça e beija sem qualquer pudor.

 

Nora e Guilherme que seguiam na direção do filho, presenciam o beijo dos dois.

 

Carlos fica surpreso com o beijo e até paralisado com a ousadia de Alexandre.

 

Alexandre: Beijo bem, né? Me liga. Podemos combinar a saideira que ficou me devendo hoje.

 

Carlos: Claro, pode deixar. – ele responde sem graça.

 

Entra no carro ainda atordoado e segue para casa.

 

 

Guilherme fica nervoso com aquela cena, uma coisa era saber que tinha um filho homossexual e outra bem diferente era vê-lo se agarrando com outro homem na frente de todo mundo.

 

Nora: Não sabia que ele estava saindo com alguém.

 

Guilherme: Vamos pegar um taxi mesmo, Nora.

 

Nora: Mas tenho certeza que o Carlos pode nos levar até em casa, é só alguns minutos daqui.

 

Guilherme: Não, Nora. Eu nem sei se teria coragem de olhar na cara dele nesse momento. Que falta de vergonha ficar se agarrando com outro homem no meio da rua.

 

Nora: Que isso Guilherme, se fosse uma mulher você não se importaria.

 

Guilherme: Claro, isso seria comum… normal.

 

Nora: Você está falando o que? Que nosso filho não é normal?

 

Guilherme: Essa conversa vai acabar tomando um rumo nada agradável, então, é melhor encerrá-la por aqui.

 

Nora: Você pode falar ou pensar o que quiser, mas nosso filho é como é, e não vai mudar. Eu acho muito bom que ele esteja namorando e tratando de ser feliz e você deveria pensar o mesmo.

 

 

20. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA

 

Sara tinha colocado os filhos para dormir. Fernando estava no escritório terminando uns projetos para o trabalho, e ela foi conversar um pouco com ele, para tomar coragem e fazer o teste de gravidez, mas ela ainda queria mais alguns momentos na dúvida.

 

Sara: Algum problema?

 

Fernando: Só uma pequena confusão com um projeto.

 

Sara: Quer conversar? Dizem que é bom desabafar.

 

Fernando: É uma coisa tão inútil que nem vale a pena. Eu só preciso terminar uns desenhos – então ele olha e vê Sara parada na porta e um pouco agitada – Você está nervosa com alguma coisa? Está pensativa demais esses dias.

 

Sara: Não é nada urgente, pode terminar seu trabalho, eu vou tomar um banho e preparar para dormir.

 

Ela deixa o marido no escritório vai até o banheiro do quarto e tranca a porta para não ser interrompida. Ela toma coragem para fazer o teste de gravidez que estava escondido em sua gaveta desde segunda-feira.

 

Ela ainda não queria dividir aquele momento com ninguém, então, segue as instruções na caixa e fica esperando o tempo necessário, que parecia passar lentamente. Ela resolve esperar pela confirmação. E como fez nas outras duas vezes, ela liga para Carol.

 

 

21. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO CARLOS

 

Carlos tinha acabado de chegar em casa, liga a TV para ver as últimas notícias do dia antes de dormir. Estava na cozinha pegando um suco quando seu telefone toca. Ele atende torcendo que não seja Alexandre insistindo para saírem.

 

Carlos: Alô?

 

Carol: Então, como foi o encontro?

 

Ele não podia acreditar que Carol sabia que ele tinha saído aquela noite, então resolve se fazer de desentendido.

 

Carlos: Não sei do que está falando.

 

Carol: Eu sei por fonte segura que você estava jantando com um rapaz muito bonito essa noite.

 

Carlos: Vocês estão me espionando?

 

Carol: A-há!!! Te peguei!! Era o cara da internet que te ligou no sábado?

 

Carlos: Era, e você não tem nada com isso. Como você ficou sabendo?

 

Carol: Nossos pais estavam saindo do teatro e viram você e ele. A mãe falou que seu namorado é bem bonito.

 

Carlos: Ele não é meu namorado.

 

Carol: Dona Nora está achando que sim, disse que estavam até se beijando.

 

Carlos: Eles viram isso?

 

Carol: Sim, mas espera que tenho outra chamada, já venho falar com você.

 

Ela atende a outra chamada depois que reconhece o número de Sara, e já começa a contar a novidade.

 

Carol: Você não acredita no que aconteceu.

 

Sara: Qual a fofoca dessa vez?

 

Carol: O Carlos saiu com o cara da internet.

 

Sara: Mentira! – ela diz adorando a novidade!

 

Carol: E tem mais, segundo nossa mãe os dois estavam se beijando no meio da rua.

 

Sara: Não acredito!

 

Carol: Estou com ele no telefone agora.

 

Sara: Então vai saber mais sobre o encontro e me conta tudo depois, eu espero.

 

Carol retorna pra chamada original.

 

Carol: Voltei, era a Sara na outra linha.

 

Carlos: E você já fofocou tudo pra ela.

 

Carol: Tudo não, só contei que você saiu com o cara da internet.

 

Carlos: Essa família não sabe o que é privacidade e discrição.

 

Carol: Só estava dando uma boa notícia pra nossa irmã.

 

Carlos: Não tem boa notícia, eu nem queria beijá-lo, mas ele me pegou de surpresa.

 

Carol: Ah, que romântico Carlos, um beijo roubado!

 

Carlos: Carol, fala sério, nosso pai, que nunca aceitou muito bem minha opção, me viu beijando outro homem. O que você acha que vai acontecer?

 

Carol: Carlos, ele precisa se acostumar. Um dia você se apaixona e vai querer compartilhar sua felicidade com todos nós. É só questão de costume.

 

Carlos: Se você prefere acreditar nisso, mas espera que vem confusão pela frente.

 

Carol: Vai dormir e esfriar a cabeça, amanhã a gente se vê e conversa mais a respeito.

 

Carlos: E você já vai fofocar tudo pra Sara.

 

Carol: Claro, eu não guardo segredos dos meus irmãos. – ela fala sorrindo – Até amanhã.

 

Carlos: Tchau.

 

Carol desliga a chamada com Carlos e volta a falar com Sara.

 

Carol: Já estou de volta.

 

Sara: E o que mais você ficou sabendo.

 

Carol: Segundo o Carlos o beijo que nossos pais viram foi um beijo roubado.

 

Sara: Espera um pouco, nossos pais estavam lá?

 

Carol: Eu não tinha falado isso ainda? Eles estavam saindo do teatro e viram o Carlos. Dona Nora já quer conhecer o namorado do Carlos. Mas o Carlos está com medo da reação do nosso pai, já combinei de sair com ele amanhã e você vai junto, é claro.

 

Sara não fala nada.

 

Carol: Sara… Ainda está aí?

 

Sara: Desculpa, Carol, mas acho que o Ferdi está me chamando. Me liga amanhã dizendo onde você e o Carlos vão e eu encontro vocês lá.

 

Carol: Tudo bem, boa noite.

 

Sara: Até amanhã.

 

 

22. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA

 

Sara odiava mentir para sua irmã, mas o tempo para o resultado do exame tinha completado. Ela pega o bastão e confere o que estava marcando. Lá estava, o sinal de positivo, maior do que ela se lembrava, confirmando o que já desconfiava.

 

Ela sai do banheiro e vai automaticamente para a cama. Ela não queria pensar no que iria fazer. Outro filho agora com os gêmeos numa idade extremamente ativa e Gabs entrando na adolescência seria muito complicado para conciliar casa e trabalho. E uma gravidez com a idade dela era bastante arriscada. Fernando, que já estava deitado, acha a mulher ainda preocupada.

 

Fernando: Algum problema, Sara?

 

Sara: Não, nada importante, as mesmas coisas de sempre.

 

Fernando: Quer conversar, eu sou um bom ouvinte, sabe disso. Dizem que é sempre bom desabafar, assim eu ouvi falar.

 

Sara: Ainda não, eu prefiro pensar mais um pouco. – ela sorri para ele.

 

Fernando: A oferta está feita para quando quiser.

 

Sara: Vamos dormir que o dia amanhã começa cedo.

 

Eles dão um beijo e Fernando abraça a esposa acomodando o corpo junto do dela. Os dois sempre dormiam abraçados e, apesar de toda a dúvida que ela tinha internamente, sentir a segurança que o marido lhe passava era reconfortante. A única coisa que Sara decide antes de dormir é que, um teste de farmácia podia falhar, então, ela resolve fazer o exame de sangue e marcar a médica, antes de dividir a novidade com o marido e a família.

 

 

Continua…

 

  

Trilha Sonora

 

 

Cena 1: Broken – Lifehouse

 

Cenas 5, 6 e 10: Dança do Tempo – Nenhum de Nós

 

Cena 12: Change – Tracy Chapman

 

Cenas 14 e 16: Sinos entre os Anjos – Paulo Miklos

 

Cena 15: Perfect Strangers – Emma Bunton

 

cena 17: One More – Hanson

 

Cena 19: Retrato pra Iaiá – Los Hermanos

 

Cena 22: Little Round Mirrors – Harvey Danger

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5 Respostas to “Problemas à Vista”

  1. Carine Dávalos Says:

    Quando eu vi, tinha acabado!!! quero mais… aaaaaaaaaaaaaaaaah!!!!
    Por favor… só não deixe a Sara abortar esse guri que parece estar chegando, viu?!?!
    =D

    esperando anciosa pelo proximo!!!
    o/

  2. Natie Says:

    Nossa! Mais um episódio fenomenal!! Minhas cenas preferidas foram as de Tomas e Vitoria na ultra e fazendo compras… Gostei do encontro do Carlos tbm! Cara nada modesto né? rsrs… Sara gravida! OMG! Gostei… Quero saber como ela vai lhe dar com isso! Ótima historia envolvendo a Carol! Espero q tenha uma boa continuação e que bom ver a Rebeca entrar em cena!
    Esperando pelo proximo…
    Bjus!

  3. Karen Says:

    Outro episodio otimo!

    Estou curiosa pra saber se Sarah esta mesmo gravida e tb como esse tal erro do Guilherme afetara o negocio da familia…

    Parabens!

  4. Alice Says:

    Não comentei no primeiro episódio então esse vale pros dois: adorei.. Muito bom mesmo!! Adorei o primeiro porque mostrou o humor altamente inteligente dos Andrade e o segundo por ter sido cheio de tensões e suspenses!! Altamente curiosa pra saber qual a relação entre Guilherme e Vera!! E um possível incesto aí entre Rebeca e Júnior?? O que Guilherme fez na contabilidade da Andanças?? Eu acho que Carlos e Alexandre ainda vão ter alguma coisa, mesmo Carlos não tendo gostado do encontro!! Enfiiim.. Essas são minhas apostas!! Esperando aqui sair o próximo e me viciando!! Parabéns
    \o/

  5. Laís Says:

    Muito bom, parabéns. Estou adorando…

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