117p

Nos episódios anteriores: Carlos dorme com Pâmela. Carol aceita trocar de editoria para ficar perto de Roberto. Saulo conta a Nora que está namorando Vera. Vera e Rebeca começam a se reaproximar. Tomás sente dores. Vera decide abrir uma editora e convida Saulo para ser seu sócio. A Andanças se associa a Papier e consegue recuperar sua estabilidade financeira. Fernando sai de casa. Nora cria um blog.

01. EXTERNA – DIA – PRAIA DE IPANEMA

[ ♫ – Samba Triste, Tom Jobim ]

Carlos e Sara estão sentados em cadeiras de praia com um guarda-sol sobre suas cabeças. Gabriel também está sentado em uma cadeira de praia, com fones de ouvido. Rafaela e Eduardo estão sentados na areia brincando com ela. Carlos se certifica de que Rafaela e Eduardo estão ocupados e que Gabriel não está ouvindo e diz baixinho:

Carlos: E então, Sá? Como você tá?

Sara: Você diz em relação ao Fernando? Tô bem. Quer dizer, na medida do possível. Tá sendo complicado sem ele em casa. As crianças sentem muita falta… E eu também, pra ser sincera. Apesar de que, se você for usar os últimos meses como parâmetro, só há as brigas para sentir saudades e disso, eu não sinto falta mesmo!

Carlos: Foi o melhor a ser feito.

Sara: Também acho. Vamos esperar os resultados. Mas e você com o Sérgio? Contou da sua vizinha?

Carlos: Você tá louca? Já é complicado o suficiente para mim, assimilar que eu dormi com a Pâmela.

Sara: Pois é, antes fosse o Van Damme.

Carlos: Só consigo imaginá-la de biquíni vermelho vindo correndo do mar, toda sensual. – Ele faz uma pausa e Sara ri. – Eca.

Sara: Baywatch! – Ela diz em tom de acusação.

Carlos: O Grande Dragão Branco! – Ele repete o tom – Mas nós conversamos e estamos melhor. Só não estou pronto pra dividir isso com ele ainda.

Sara: Se ele descobrir…

Carlos: Eu sei! Mas nenhum dos meus irmãozinhos vai contar, vai? – Ele diz sorrindo e ela responde com um sorriso também.

Sara: Falando em irmãozinho, e o Tomás, hein? Está tão distante e estranho. E agora essas dores…

Carlos: Realmente. Ele precisa distrair um pouco, ver novas paisagens. Deixar de focar o pensamento na Vitória e na Andanças um pouco. Acidentes acontecem.

Os dois percebem um jogo de vôlei à distância e têm a mesma idéia. Entreolham-se e sorriem.

Sara: Ótima idéia!

Carlos: Demais! A gente só tem que falar com os outros. Eu fico com a Carol e o Sérgio. A mamãe é sua. – Ele sorri.

Sara: Tá, eu falo com a mamãe e o Júnior, ele chega amanhã, né? – Ela olha para ele com desprezo e depois bate a mão com o irmão. – Operação Tomás Andrade iniciada!

02. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Nora tinha seu caderno de anotações em mão e escrevia um texto para seu blog. Atrás dela, a porta se abre devagar e silenciosamente. Júnior e Carol entram. Júnior anda de fininho até a mãe, enquanto Carol fica na porta, de braços cruzados e sorrindo, observando o irmão. Ele se posiciona atrás da mãe e coloca a mão em seu ombro. Ela dá um pulo, grita e logo em seguida, dá um tapinha no braço do filho.

Nora: Júnior! Que surpresa boa! Achei que você viesse só amanhã! – Ela se levanta e dá um abraço e um beijo no filho. – Estava tão compenetrada que nem te vi chegar! Como está lá na clínica?

Júnior: Então… – Carol limpa a garganta fazendo barulho.

Nora: Filha! Não te vi também! Estou muito aérea hoje! – Ela anda até Carol e a cumprimenta da mesma forma que cumprimentou Júnior. – Que delícia meus dois filhos aqui de volta, na época do Natal! – Júnior e Carol se entreolham.

Carol: É, eu vim de São Paulo, e aproveitei e peguei o Júnior na clínica. Resolvi vir de carro dessa vez. Movimento de ônibus nas festas de fim de ano é insuportável!

Júnior: Pelo menos, eu tenho meu carro liberado por enquanto.

Carol: Ah, gracinha… – Ela diz irônica e senta-se no sofá, acompanhada pelos outros.

Nora: Júnior, me conta… Como tem sido lá? Estávamos morrendo de saudades.

Júnior: Está sendo ótimo! A comida é deliciosa, tenho muitas atividades para fazer, as pessoas que trabalham lá são super profissionais e atenciosas e eu conheci um pessoal legal também. É estranho ver como tem muita gente que chegou num nível bem pior que o seu. Eu sou um dos mais leves por lá. E ver como eles conseguiram recuperar forças é um verdadeiro incentivo. – Nora coloca a mão sobre a mão do filho e sorri emocionada.

Nora: Que bom que você conseguiu se adaptar e está se tratando. Estou muito orgulhosa.

Carol: Todos nós estamos! Conta pra ela, Ju!

Júnior: O quê? – Carol faz um sinal para ele. – Ah! É, mãe, acham que eu posso voltar para casa no começo do ano que vem! Dizem que no máximo dois meses. Já estou me sentindo muito mais confiante e ainda aproveito para fazer um spa nesse tempo extra e voltar para o Rio conquistando todas.

Carol: Ai, meu deus. Esse tá pior que o Carlos!

Nora: O que tem o Carlos?

Carol: Nada, mãe, nada.

Nora: Bom, falando no seu irmão… Ele, a Sara e o Tomás já sabem que você está de volta?

Júnior: Não e nem quero que saibam! Vou fazer surpresa. – Neste momento o celular de Carol toca, logo em seguida, o telefone da casa. – Hm, dois telefones Andrade tocando ao mesmo tempo… Isso me cheira a Conferência Andrade.

Nora: Alô? Ah, oi Sara querida!

Carol: Alô. Oi, Carlos.

Júnior: Xiii! Andrade Express a caminho.

03. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES/PRAIA DE IPANEMA

Carlos: Ah, você tá na casa da mamãe? Estão só vocês duas aí?

Sara: O quê? A Carol tá na mamãe? Então eu não preciso continuar a ligação.

Nora: Sara? Você estava falando comigo?

Sara: Não, mãe. Escuta. Eu vou desligar. O Carlos está na linha com a Carol e eu estou com ele. Beeeijos! – Desliga.

Carol: Não, Carlos, o Júnior está aqui também.

Júnior: Carol! Eu pedi!

Carlos: O Jú chegou? Ah! Por que ele não avisou? Quero tanto vê-lo!

Sara: Chegou? Mas não era pra ele vir amanhã?

Carol: Que é isso, Carlos? Tá de TPM? Você todo sentimental? Eu hein… Tá passando muito tempo perto de mulheres… – Carol e Júnior riem.

Carlos: Há-há. Muito engraçado…

Nora: Alguém vai me contar o que está acontecendo? Ana Carolina! Ponha este telefone na viva-voz agora! – Ela obedece.
Carlos: … Essa história de eu ter dormido com a Pâmela já rendeu o suficiente!

Nora: Carlos! Você é comprometido! E quem é Pâmela?

Carlos: Mãe!

Sara: É a mamãe na linha?

Carlos: Uhum… E agora ela sabe que eu dormi com a Pâmela. – tampa o bocal enquanto fala com a irmã.

Sara: Põe isso na viva-voz! – Ele também obedece.

Nora: Carlos?

Carlos: Pâmela é aquela mulher que a vovó queria que eu conhecesse, a minha vizinha.

Nora: Mas… eu achei que você não gostasse desse tipo de coisa.

Carlos: Eu não gosto. Eu estava bêbado, mãe, tinha brigado com o Sérgio, – Ele pára e completa amargo. – pra variar.

Nora: Imagino que ele não saiba disso. – Ela diz meio ressentida, fazendo um paralelo com a traição de Guilherme.

Carlos: De jeito nenhum! É bom a senhora saber, antes que diga alguma coisa.

Nora: Como se eu fizesse uma coisa dessas! Mas você deveria dizer. – Ela faz uma pausa. – Bom, agora que eu consegui que vocês fizessem silêncio, podem me dizer o motivo dessa ligação? Sara?

Júnior: É, e por que o Tomás não está nela?

Sara: Porque é sobre ele.

Júnior: Fofoca. Que saudades.

Sara: Então, não sei se vocês perceberam, mas ele tem estado meio distante…

Júnior: Eu não percebi.

Carol: Ai como você tá bobo, hoje! – Ela ri, assim como os outros.

Sara: E além de distante, também tem sentido umas dores nas costas… Daí, eu o Carlos tivemos uma idéia. Vocês lembram como ele gostava de vôlei? Chegou a quase jogar profissionalmente? Então… Que tal se a gente levá-lo para jogar na praia amanhã?

Nora: Ótima idéia, Sara! Ele vai adorar!

Júnior: Bom mesmo!

Carol: Hm, é pra todo mundo jogar? Você sabe que eu não sou muito boa com essa coisa de esportes ou coordenação motora em geral.

Carlos: Joga quem quiser. Fala com o Roberto, eu vou falar com o Sérgio.

Sara: Sim, joga quem quiser, mas eu estou te obrigando a jogar, maninha!

Carol: Quer ver desastre, né? Bom, vejamos… E eu pensei agora… Jú, se você quiser chamar a Rebeca, eu não vejo problema. Imagino que você queira passar um tempo com ela também.

Sara: É, por mim também. Pode chamar.

Júnior: Brigado. Vou ver se ela pode.

Silêncio.

Nora: Carlos?

Carlos: O quê? A Sara que é a barraqueira, se ela aprovou… – Sara vira para ele e faz uma careta de descaso.

Júnior: Ótimo. – Ele diz rindo. – E como vai funcionar isso?

Carlos: Então… Isso vai ficar com a Carol. A gente tem que fazer uma surpresa. Carol, se resolva com a Vitória e combine de enganá-lo. E depois é só ligar para a gente combinando um posto.

Carol: Tudo eu! E mal cheguei no Rio. De mim, ninguém sente falta, né?

Júnior: Awwn. Tadinha. – Ele diz indo até ela e apertando suas bochechas. – Eu sou o caçula e não você. – Ele se volta ao telefone. – Tchau, gente, vou desfazer as malas.

Carlos e Sara: Tchau!


Nora: Estou indo também. Muito atarefada com a ceia de Natal. Vocês vêm, né? Todos.


Sara: Vamos sim. Tchau, mãe e tchau Carol também. Vamos desligar, as crianças já estão ficando com fome. Beijos.

E eles desligam.

04. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES/APARTAMENTO DE REBECA

Rebeca estava embrulhando presentes, quando seu telefone toca.

Rebeca: Calma! Calma! Já vou! – Ela diz terminando o raciocínio enquanto escrevia. – Pronto?

Júnior: Alô? Beca?

Rebeca: Jú! Quanto tempo! Já está no Rio?

Júnior: Sim, cheguei agora há pouco. Como estão as coisas por aí? Alguma novidade?

Rebeca: Tudo na mesma. Faculdade cansativa, tirando muitas fotos. Bom, minha mãe descobriu onde eu moro.

Júnior: Como?

Rebeca: Me seguindo! Ela já sabia, mas preferiu vir depois. Nós estamos retomando uma relação saudável.

Júnior: Que ótimo.

Rebeca: Pois é. E as questões da herança também estão tomando forma. Mas e você o que conta?

Júnior: Não muito. O pessoal por lá é legal, mas é tudo meio parado, sabe?

Rebeca: Sei… E então, vamos sair! Você vai fazer alguma coisa amanhã?

Júnior: Então, meus irmãos pensaram em animar o Tomás, que tá meio distante e sentindo dores e jogar vôlei na praia. Eles sugeriram te chamar. Juro que foram eles, não minha mãe ou eu. Quer ir?

Rebeca: Se eles não vêem problema! Faz tempo que eu não vou à praia mesmo.

Júnior: Ótimo! Nos vemos lá! Beijos.

05. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO – HALL/SALA

[ ♫ – Fire, Bruce Springsteen ]

Roberto e Carol já haviam se falado pelo telefone e combinado de se encontrar. Ele a estava esperando e desde que o interfone tocou, estava de frente à porta aberta. O elevador se abre e Carol corre para os braços de Roberto, pulando e o beijando.

Carol: Que saudades!

Roberto: Eu também! Essas semanas pareceram uma eternidade. E estou pensando seriamente em contratar uma equipe de filmagem para os nossos reencontros hollywoodianos. – Ela ri enquanto eles entram e sentam-se no sofá.

Carol: A Larissa está? Queria entregar isso para ela. – Ela mostra uma sacola, que deposita ao seu lado, no sofá.

Roberto: Não. Está na casa da Lílian, que brigou novamente com a Luisa.

Carol: Olha, igualzinho ao Carlos. – Ela faz uma pausa e continua sensualmente. – Isso quer dizer que nós vamos ter a noite só para nós dois?

Roberto: Isso mesmo. – Ele sorri.

Carol: Mas antes eu tenho que te fazer uma proposta… Quer jogar vôlei amanhã de manhã? Meus irmãos estão organizando um jogo na praia para animar meu irmão. Que tal?

Roberto: Ótimo! Um pouco de exercício sempre faz bem.

Carol: Ok, só preciso avisar minha cunhada, porque é surpresa, mas antes… vou ao toalete.

Roberto: Te espero. – Ele pisca e ela sai para o banheiro.

Roberto estava esperando no sofá, e quando foi se espreguiçar, acabou esbarrando na bolsa de Carol, que estava aberta. Várias coisas caíram no chão e ele resolveu arrumá-las. Viu um papel com um nome escrito nele: Horácio Guerra. Roberto guarda o papel junto com as outras coisas, mas memoriza o nome.

Carol: Pronto, voltei! – Ela se senta ao lado dele, novamente. – Que foi que você tá com essa cara séria?

Roberto: Quem é Horácio Guerra?

Carol: Você estava mexendo nas minhas coisas, Roberto? – Ela diz brava.

Roberto: A sua bolsa caiu no chão e espalhou tudo, eu fui recolher. – Ele para e repete. – Quem é Horácio Guerra?

Carol: Ah, isso. Ele vai ser meu editor aqui no Rio. – Ela sorri um sorriso fraco. – Nada para se preocupar.

Roberto: Editor de política?

Carol: É. – Ela diz depois de hesitar e ele fica pensativo.

Roberto: Hm, tem certeza?

Carol: Absoluta. – Ela afirma preocupada.

Roberto: Hm…

Carol: Ok, me passa meu celular que eu preciso pegar o número da Vitória. Depois, a gente continua. – Ela diz piscando, pega o celular e se dirige ao telefone. Ele continua pensativo.

06. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS – SALA

Tomás vem da cozinha e encontra Vitória no telefone, sorrindo e desligando.

Tomás: Quem era?

Vitória: Sua irmã. Chamou a gente para ir à praia amanhã.

Tomás: Qual delas?

Vitória: A Carol. Sugeriu um programinha de casais para celebrar a volta ao Rio.

Tomás: Ela voltou e não me avisou? Então vamos eu, você, ela e o Roberto?

Vitória: Isso. Adorei a idéia! Eu não vou à praia desde o acidente e imagina, ir à praia com o ex-candidato a prefeito!

Tomás: Não vejo nada demais. – Ele diz meio rabugento. Ela ri.

Vitória: Deixa de ser bobo. Ela passa aqui amanhã de manhã pra pegar a gente.

Tomás: Hm… – Ele diz se sentando e sentindo dor. Leva a mão ás costas.

Vitória: Ainda sentindo dor?

Tomás: Não é nada, amor. É só a idade vindo… – Ele força um riso e ela retribui, mas percebendo que ele mentia.

07. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Nora estava sentada diante do computador. Ela conferia os comentários em seu blog, que agora ganhava certo status e tinha diversos comentários a cada postagem. As pessoas se interessavam por ser uma senhora escrevendo sobre os temas mais diferentes. Ela também havia começado a se relacionar com outros bloggers e lido seus blogs. Depois de responder seus comentários, começou a digitar o texto que tinha feito mais cedo, após a conferência de seus filhos.

As minhas lembranças infantis de Natal se resumem em muitas orações e comidas por parte de minha católica mãe, em bebida e canções por parte do meu boêmio pai, e risos e traquinagens por parte dos meus alegres e irritantes irmãos.

Apesar de ser a filha do meio, nunca sofri com a síndrome do filho-sanduíche, pois, por sorte, era a única mulher, com todos os mimos e pressões que se tinha direito na época. Por sorte também, meu irmão mais velho era um altruísta de carteirinha, incapaz de fazer mal a uma barata. Além de toda essa generosidade, era responsável, idealista, inteligente, apaixonado, apaixonante e bem-humorado. Um sonhador nato. Difícil é acreditar que todas essas suas qualidades talvez o tenha levado a seu fim trágico. No entanto, sem antes me servir de exemplo de vida.

Meu irmão mais novo sempre foi uma enigmática contradição. Embora fosse o mais calado, era também, em certos momentos, o mais espevitado. Sempre agia na surdina, por isso ninguém desconfiava dele quando a pia do banheiro ficava aberta até começar a invadir água por toda a casa. O mais velho acabava levando a culpa, claro. Sonso, o mais novo sempre abria o berreiro para alegar sua inocência. Os juízes, nossos pais, sempre ficavam comovidos com tamanha candura. Mas ninguém, nem mesmo o mais velho, que heroicamente ficava de castigo em seu lugar, conseguia ficar por muito tempo com raiva dele, o sonso do sorriso mais luminoso que já vi.

Do mais velho, eu tinha o exemplo, a proteção e o carinho. Do mais novo, a cumplicidade, a empolgação e a minha eterna preocupação sobre seu bem-estar, o mimado.

Irmãos são assim, às vezes os odiamos com uma intensidade que nunca odiaremos algo ou alguém. Mas também somos os primeiros a partir em sua defesa quando alguém o chama de feio. Doaríamos, depois de muito pestanejar, claro, um rim ou até mesmo o seu coração para não vê-lo sofrer (muito).

Com irmãos você divide tudo: brinquedos, pais, doces, atenção, quarto, carinho, problemas familiares, piadas internas e olhares cúmplices. Eles já te viram nos seus melhores e piores momentos. Nos mais constrangedores aos mais venturosos. São os primeiros a rirem da sua cara, mas também os primeiros a lhe darem a mão quando você tropeça e caí de cara na calçada. E, mesmo com uma ponta de inveja difícil de disfarçar, eles são os mais genuinamente felizes por suas conquistas.

Irmãos são os seres mais diferentes e mais parecidos com você no mundo inteiro. Assim, naturalmente, conflitos, parcerias, abraços e tapas são constantes numa relação fraternal. Isso se você tiver sorte, claro. Porque o pior do que todo esse furacão de sentimento é a indiferença que já vi em alguns irmãos por aí.

Por gostar tanto desse negócio de irmão, dei quatro para cada um dos meus filhos. E uma das maiores felicidades da minha vida é saber que mesmo entre trancos e barracos, eles são um time unido, do tipo um por todos e todos por um.

Sabe, eu não me lembro da minha vida sem irmãos. Eu ainda carrego a dor de ter perdido um tão prematuramente e estupidamente. Agora me vejo, aos poucos, perdendo outro. Por motivos tolos? Por orgulho ferido? Por não ser condizente com seus passos? Por não saber perdoá-lo e aceitá-lo?

Irmãos você não escolhe. É sorte. E é pra sempre.

Ela acaba de digitar. Revisa o texto e aperta o botão de publicar. Fica um tempo olhando para a tela do computador, com o olhar vazio. Levanta-se, pega o telefone e disca um número.

08. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE VERA – SALA DE JANTAR

Vera e Saulo estavam jantando e bebendo vinho. Estavam de mãos dadas, por cima da mesa.

Vera: Gostou?

Saulo: Tava uma delícia. O que tem de sobremesa?

Vera: Bom, eu fiz um mousse de chocolate, mas você sabe que tem muito mais, né? – Ela se levanta para ir à geladeira e pára atrás dele, coloca as mãos em seus ombros e lhe dá um beijo.

Saulo: Vê, já que você está me dando tantos presentes, agrados e tudo o mais, tenho um para você também. – Ele diz se virando para ela, na cozinha.

Vera: Jura? O quê?

Saulo: Você lembra que eu te contei do acordo que a Andanças fez?

Vera: Sim. E aí?

Saulo: Então, ele ajudou a contornar os problemas que a livraria estava tendo e lembra do que eu te disse? – Os dois sorriram.

Vera: É o que eu estou pensando? Que você sairia da Andanças quando ela estivesse estável?

Saulo: Sim, sim. A Santos-Novaes vai funcionar!

Vera: Não acredito! Saulo, isso é demais! – Ela vai atrás dele e lhe dá um grande abraço e depois um beijo. – Você já falou com sua irmã e seus sobrinhos?

Saulo: Ainda não, mas pretendo falar em breve. Não sei como a Nora vai reagir, porém.

Vera: Espero que bem, mas de qualquer jeito, não importa não é? Você é o presidente e pode sair. O que mais influencia é a opinião da Sara e do Tomás.

Saulo: Sim, é verdade.

O celular de Saulo começa a tocar e ele confere no visor quem é. Olha então para Vera com um olhar surpreso e atende.

Saulo: Alô. Nora? – Vera então retribui a cara de surpresa.

Nora: Oi Saulo, boa noite. Como você está?

Saulo: Bem e você? – Ele diz ainda estranhando.

Nora: Estou bem também. Me conte, onde você está? Tentei te ligar em casa, mas não consegui…

Saulo: Na casa da Vera. – Ele pára por um instante. – Nora, o que é isto? Achei que você não estava mais falando comigo.

Nora: Por favor, Saulo, nós somos adultos! Essa coisa de não falar mais é coisa de criança. – Ela diz e depois se instaura um breve silêncio. Vera faz um sinal querendo saber o que Nora havia respondido.

Saulo: Nora, fala a verdade, por que você me ligou?

Nora: Você se lembra dos Natais de quando a gente era pequeno? Eu estava me lembrando deles… O papai sentado na sala, lendo seu livro, enquanto a mamãe cozinhava o dia inteiro. O Paulo brincava comigo e você vinha estragar a brincadeira porque tinha ciúmes?

Saulo: Nora… – Ele diz em tom de desculpas.

Nora: Não é isso, Saulo. Não vou te culpar de ter estragado a minha brincadeira de ignorar a existência dessa mulher. Você se lembra como depois, você vinha pedir desculpas e me dava um super abraço? – Ele faz silêncio. – Não dá pra ficar brava com você. E além do que, você me fez entender que eu não posso simplesmente fingir que isso nunca existiu, a traição do Guilherme.

Saulo: Que bom que você entendeu isso. Nunca tive a intenção de magoar você, Nora.

Nora: Eu sei. Tanto sei que quero convidar não só você, mas também a – Ele hesita antes de continuar – sua namorada para o jantar de Natal depois de amanhã.

Saulo: Ok. – Ele diz surpreso. – Vou falar com ela. Muito obrigado pelo convite.

Nora: De nada. Espero que vocês venham. Agora eu vou tomar um banho e me deitar. Boa noite.

Saulo: Boa noite. – Eles desligam e Vera faz um sinal de curiosidade.

Vera: E então?

Saulo: Nós estamos oficialmente convidados para o Natal dos Andrades.

09. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – SALA

Sara estava na sala, lendo um livro, enquanto Rafaela e Eduardo assistiam à TV. Gabriel estava em seu quarto. Rafaela estava distraída e brincava com suas bonecas, sem prestar atenção a TV. Eduardo mudou de canal.

Rafaela: Me dá o controle! Eu tava vendo aquele desenho! – Ela ordena enquanto vai para cima do irmão, puxar o controle dele.

Eduardo: Mãe! – Ele puxa de volta.

Sara: Podem parar vocês dois! – Ela se levanta e toma o controle dos dois – Rafa, você estava brincando de boneca. Deixa o seu irmão ver TV então. Não se pode ter tudo.

Rafaela: É, não posso nem ter você e o papai! – Ela se levanta e joga uma das suas bonecas no chão com força – Eu odeio você! – Ela corre para seu quarto.

Sara: Rafaela Andrade Viana! Você não pode falar assim com a sua mãe! – Ela vai até metade do caminho – Você está de castigo, ouviu? Vai ficar no seu quarto e pensar no que você fez!

Sara fica abalada com o comentário da filha e volta a se sentar no sofá. Entrega o controle para Eduardo e tenta retomar a leitura, mas não consegue se concentrar.

Sara: Filho, você concorda com a sua irmã? – Ele se limita a balançar a cabeça negativamente – Vem aqui e me dá um abraço? – Ele atende ao pedido da mãe e os dois ficam um longo tempo abraçados. Tentando de certa forma se reconfortar da ausência de Fernando.

10. INTERNA – NOITE – RESTAURANTE DE FAST FOOD

Júnior estava sentado em uma das mesas com seu lanche a sua frente, intocado. Carlos entra por uma das portas, avista o irmão, o cumprimenta com um abraço e um beijo no rosto e senta-se a sua frente.

Carlos: Oi, boa noite.

Júnior: Oi. – Ele diz com estranhamento – Vai querer comer?

Carlos: Ah, não. Já jantei, muito obrigado. Além do que, a comida daqui é um crime contra a saúde e a estética, né? – Júnior ri – E então, por que esse lugar?

Júnior: Ué, você que me ligou dizendo que precisava se encontrar. Eu estava vindo para cá comer e matar saudade do fast food. Só isso.

Carlos: Bom, a Carol não atende o celular, deve estar fazendo coisa melhor com o deputado. A Sara tá com as crianças e o Tomás tem aquele rolo com a Vitória. – Júnior engole seco.

Júnior: Então você ligou para mim? Legal saber que eu sou sua última opção, Carlos Andrade. – Ele diz sorrindo.

Carlos: Não é isso. Você foi minha última opção porque você não pode ir a ambientes onde se vende bebida alcoólica, o que era justamente o que eu precisava hoje. Vou te contar que até cogitei ligar para a bastarda. – Júnior olha para ele acusativo. – Ok, desculpa, para a Rebeca. Mas estou sóbrio o suficiente para isso.

Júnior: E qual o motivo do nosso encontro? – Ele diz, enquanto come.

Carlos: Não disse que queria te ver, hoje mais cedo? Então… Saudades do caçula.

Júnior: Carlos, eu te conheço. – Ele fica encarando o irmão por alguns instantes.

Carlos: Tá, tá! Eu estou cercado, Ju! A Pâmela vive tocando aquela campainha. Eu já fui absurdamente grosso com ela, mas parece que quanto mais eu bato, mais ela gosta. E o Sérgio vive ligando, todo fofo e inocente. Eu me sinto um monstro, juro. Daí eu desconverso. Hoje, eu disse que a mamãe tava meio gripada e que eu precisava ficar com ela porque era o único filho disponível. – Júnior pigarreia – Ele acha que você só chega amanhã.

Carlos pára a narrativa e rouba uma batata frita do lanche de Júnior.

Júnior: A comida daqui é um crime contra a saúde e a estética. – Ele faz uma imitação do irmão.

Carlos: E pior ainda: ele se ofereceu para ir ajudar a mamãe, fazer uma sopa que ele diz que é deliciosa e ajuda a melhorar a gripe. Ele todo solícito e amoroso e eu aqui, fugindo dele porque coloquei um chifre.

Júnior: Carlos, você estava bêbado.

Carlos: Isso não anula minha atitude… Se eu pudesse voltar no passado, no meu aniversário. Ou melhor ainda, no dia que aquela mulher nasceu e trocar a camisinha na carteira do pai dela. Porque só de acidente pra ela ter nascido. Um ser daqueles não nasce planejado.

Júnior: Se você se sente assim, conta para ele. Você viu os erros do papai, né? Aprenda com eles.

Carlos: Bom, não que seja tão parecido. As condições são bem diferentes, mas eu vou contar sim. É a coisa certa a se fazer. Eu só vou esperar o Natal passar… Tá tão bom assim, sem brigas entre a gente. – Júnior come sua última batata e dá um tapinha nos ombros de Carlos e depois se levanta.

Júnior: Faça o que achar melhor. Se precisar de qualquer coisa…

Carlos: A gente já vai?

Júnior: Bom, nós não vamos ficar ocupando mesa, né? Mas a gente pode ir dar uma volta de carro se você quiser, ou fazer hora na casa da mamãe.

Carlos: É, eu poderia usar um pouco do café da mamãe e assistir TV com vocês dois. Na verdade, acho que eu vou dormir lá. Você vai comigo até em casa para eu pegar um pijama e uma sunga para amanhã?

Júnior: Sunga? – Ele ri e passa o braço pelo ombro do irmão, o levando até a porta do restaurante – Ai, Carlos, você está definitivamente ficando uma bicha velha.

Carlos: Bicha velha, é? Tipo Clodovil?

Júnior: Não tão bicha e nem tão velha. Tá mais pra Marc Jacobs. – Eles riem.

Carlos: Ah, então eu fico feliz. Vamos logo, senhor jovem descolado.

Os dois saem em direção a seus carros.

11. EXTERNA – DIA – CARRO DE ROBERTO – FRENTE AO PRÉDIO DE TOMÁS

Carol e Roberto estacionam em frente ao prédio de Tomás, Carol vai até a guarita do porteiro, chamar pelo irmão e a cunhada e Roberto fica dentro do carro. Ele pega o celular e disca um número.

Roberto: Alô, Henrique? Você achou a informação que eu te pedi?

Henrique: Sim. Horácio Guerra é o editor de Cidades. A Política continua com o João Gonçalves.

Roberto: Hm, muito obrigado.

Henrique: Alguma coisa que eu deva saber?

Roberto: Você é meu assessor, Henrique, não meu psicólogo.

Henrique: Se o senhor diz. Tenha um bom fim de semana.

Roberto: Você também. – Ambos desligam e Carol entra no carro.

Carol: Eles tão descendo. – Ela sorri e Roberto sai do carro para preparar o porta-malas para a cadeira de rodas de Vitória.

12. EXTERNA – DIA – PRAIA DE IPANEMA

[♫ – Samba Triste, Tom Jobim]

O carro de Roberto estaciona a beira da praia. Roberto, Carol e Tomás descem do carro e Roberto e Carol tiram a cadeira do porta-malas enquanto Tomás ajuda Vitória a sair do carro e a coloca na cadeira. Eles vão em direção a praia.

Tomás: Adorei essa idéia de vir à praia. Estava precisando mesmo. – Ele se aproxima de Carol e coloca a mão em seu ombro. – E é tão bom passar um tempo com a minha maninha sumida.

Carol: É, imagino mesmo. Você deve ter overdose de Sara no escritório, e ninguém suporta o Carlos por muito tempo. – Eles riem.

Júnior: E eu?! – Ele diz aparecendo atrás dos quatro, seguido de Carlos, Sara, Nora, Sérgio, Gabriel, Rafaela, Eduardo e Rebeca.

Carol: Você tá na reabilitação. – Ela mostra a língua para o irmão.

Tomás: Não acredito! Eu caí numa armadilha! – Ele diz rindo, enquanto cumprimenta Júnior, Nora e Sara – O que a gente está realmente fazendo aqui? Para que essa surpresa?

Sara: A gente queria te dar uma animada e jogar um pouco de vôlei. Que tal?

Tomás: Ótimo. – Ele responde enquanto cumprimenta os sobrinhos, Carlos e Sérgio. Ao ver Rebeca, faz uma cara de estranhamento e abre um sorriso tímido. – Ah, oi.

Rebeca: Oi. – Ela diz estendendo a mão. Tomás se aproxima para um beijo na bochecha.

Tomás: Menos formalidade, não é? – Rebeca retribui o beijo e dá um risinho em sinal de concordância. Há um breve silêncio. Tomás se vira para Vitória. – Quer dizer que você sabia disso tudo? – Ela concorda com a cabeça. – Minha própria esposa! – Todos riem.

Júnior: É melhor a gente organizar as coisas então. – Todos dispersam, arrumando cadeiras de praia, toalhas, esteiras, etc. e organizando um improvisado campo de vôlei. Nora se aproxima de Tomás.

Nora: Filho, como você está?

Tomás: Tô bem, mãe.

Nora: Não adianta ficar só tomando analgésico. Você tem que ir a um médico sério, um ortopedista, e não só num clínico-geral!

Tomás: Tá bom, mãe.

Nora: E você pode também procurar um quiroprata e um massagista. O neto da Lourdes estava tendo umas dores nas costas de crescimento, procurou esses profissionais e resolveu tudo. Ah, outra coisa que pode ajudar é homeopatia. Nunca subestime o poder da homeopatia. – Ela diz, enquanto Tomás concorda com grunhidos e procura alguém para pedir ajuda. Seu olhar encontra o de Sérgio. Ele faz um sinal como se fosse ser degolado. Sérgio entende e cutuca Carlos, que vai ao socorro do irmão.

Carlos: Então, vamos decidir os times? Serão times mistos, certo? – Todos concordam. – Quem aqui não vai jogar?

Todos fazem silêncio, pensando em Vitória. Ela logo percebe.

Vitória: Eu definitivamente não vou. – Ela sorri. – Nunca fui boa de vôlei mesmo. – Ela pisca para Tomás, que sorri para ela, carinhoso. Júnior se mexe desconfortável.

Nora: Eu também não. Vou me sentar ali e torcer pelo meu filho mais velho.

Carlos: Isso não vale! Ele já tem a torcida da Vitória. – Ele diz e os outros riem. – Eu vou torcer para ficar no time do Tomás.

Sara: Filhos, vocês ficam lá com a vovó e com a tia Vitória também, tá? Vai ser jogo de adulto.

Eduardo: O Gabs vai jogar?

Sara: Vai.

Eduardo: Mas ele não é adulto.

Sara: Mas é quase.

Rafaela: Se o papai tivesse aqui, ele ia deixar a gente jogar. – Sara olha para Gabriel, frustrada. O menino vai até os irmãos.

Gabriel: Vocês iam cansar logo desse jogo. Aposto que a vovó pode ensinar um monte de receita para vocês fazerem na areia. Vem cá. – Ele chama os dois e os leva até a avó e a tia. Sara o agradece com um olhar.

Carlos: Ok, quem vai tirar time com o Tomás?

Carol: Eu! Deixa eu! Eu sou muito ruim. Não quero ser a última a ser escolhida. – Todos concordam e Tomás permite que ela escolha primeiro – O meu time vai ter um a mais, né? Roberto.

Todos menos Roberto: Awwwn! – Roberto manda um beijo e desenha um coração para a namorada.

Tomás: Gabs.

Carol: Sara.

Sérgio: Você vai separar mãe e filho?

Carol: Credo. Falando assim parece que eu sou vilã de novela das oito.

Tomás: Hm… Vamos ver se essas férias estão lhe fazendo algum bem no esporte. Júnior.

Carol: Hm… Sérgio.

Carlos: O quê?!

Carol: Ué, o Sérgio tem cara de jogar melhor do que você. – Sérgio dá um tapinha no ombro de Carlos e beija o topo de sua cabeça.

Tomás: Carlos, pode vir

Carlos: Finalmente. – Ele faz uma careta. Todos percebem que Rebeca foi a última a ser escolhida e está meio sem graça.

Carol: Isso não vale! Se eu escolher a Rebeca, meu time vai ficar com três mulheres e o seu só com homens. – Rebeca fica ainda mais sem graça.

Tomás: Ok, então venha para o meu time, Rebeca.

Carlos: Nossa, eu fui trocado e o último a ser escolhido. Deprimi.

Carol: Cala a boca e vem jogar!

13. EXTERNA – DIA – PRAIA DE IPANEMA

O jogo começa. No time de Tomás, Gabriel e Júnior são os mais empolgados. Tomás coordena, mas está menos flexível com o passar dos anos. O placar alcança 18 para o time de Carol e 13 para o time de Tomás. Há uma pequena pausa para discussão de táticas.

Carol: Bem time! Estamos ganhando!

Carlos: Graças a mim e ao Sérgio, que fique bem claro.

Roberto: Hey!

Carlos: Ok, você também está ajudando. Mas essas duas…

Sérgio: Não é bem assim. Todos são importantes para o sucesso do time.

Sara: Você devia aprender mais com seu namorado, Carlos. – Ela faz uma pausa. – Mas sério, a gente não devia deixar o Tomás perder. Isso é para alegrá-lo.

Carol: Então temos que deixá-lo ganhar?

Sara: Uhum.

Carol: Mas eu nunca ganhei uma partida de vôlei.

Roberto: Mas já ganhou coisa melhor como o meu coração.

Todos menos os dois: Awwwn.

Sara: Ok, decidido? – Todos concordam e voltam para o jogo.

O resto do jogo se resume ao time de Carol, errando saques e passes e não pegando bolas. O time de Tomás ganha e comemora, logo em seguida, os homens vão para o chuveirão, se refrescar, enquanto as mulheres ficam tomando sol.

14. EXTERNA – DIA – PRAIA DE IPANEMA – CHUVEIRÃO

Tomás: Muito obrigado, gente. – Ele dá um abraço em Carlos, passando o braço por cima de seus ombros. – Mas não dá. Tá na cara que vocês me deixaram ganhar.

Carlos: Claro que não! Da onde você tirou isso?

Tomás: Ah, não? E aquele saque o Sérgio jogou lá no mar?

Sérgio: Eu errei na força.

Carlos: Isso mesmo.

Tomás: Por favor, né, gente? Eu sei que já não estou tão em forma quanto ultimamente. Não precisa disso.

Roberto: Bom, você não treina faz tempo, né?

Júnior: E ainda têm as dores nas costas.

Tomás: É, tô ficando velho e ainda tenho que levar a Vitória no colo várias vezes.

Carlos: Acho que você deveria ouvir a mamãe e ir procurar aqueles médicos.

Tomás: Eu sei. Vou sim. – Eles começam a retornar para onde as mulheres estavam. – Mas muito obrigado mesmo assim. Me diverti muito hoje.

15. EXTERNA – DIA – PRAIA DE IPANEMA

Sara, Carol, Nora e Rebeca estavam deitadas em esteiras, tomando sol. Vitória também tomava sol ao lado delas. Eduardo e Rafaela brincavam na areia.

Sara: Ai como é bom se exercitar assim. Esvazia a cabeça.

Nora: Você deve estar cheia de coisa na cabeça, né filha?

Sara: Não mais que todo mundo. Porque essa preocupação toda em cima de mim agora?

Carol: Talvez porque você tenha uma tendência a interiorizar os seus sentimentos e a gente queira reverter isso?

Nora: É isso mesmo, filha. Você acaba colocando tudo para dentro e reprimindo e depois estoura. Além do que, guardar isso reflete na sua saúde. Não faz bem.

Sara: Tudo bem, tá difícil. Os gêmeos estão cobrando muito de mim e eu também estou sentindo muita falta dele.

Carol: E o que você pretende fazer sobre isso?

Sara: Não sei. Ele vem pegar as crianças hoje à noite e ia devolvê-las logo antes do Natal. Eu cogitei convidá-lo. Mas não sei se é uma boa idéia. A gente mal se separou, não sei se é bom que ele continue fazendo programas familiares comigo.

Nora: Chama, querida. Os meninos vão gostar.

Sara: Vou pensar, mãe, brigado. – Os homens chegam e se sentam na areia também. Eles ficam mais algum tempo curtindo a praia e depois vão todos para a casa de Nora almoçar.

16. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE VERA – QUARTO

[ ♫ – Cama, Mesa e Banho, Sérgio Brito ]

Vera está em seu quarto, com a porta do armário aberto. Em cima da cama, alguns vestidos estão estendidos. Ela olha para os vestidos e para alguns sapatos no armário. A campainha toca.

Vera: Pode entrar! Está aberta!

Rebeca coloca a cabeça para dentro do quarto e bate na porta.

Rebeca: Nossa, que produção.

Vera: Oi filha! Que visita boa!

Rebeca: Oi mãe. Isso tudo é para o nosso jantar? Se eu soubesse tinha me arrumado mais.

Vera: Não! Imagina! É para o Natal na casa dos Andrades.

Rebeca: Você foi convidada?

Vera: Fui.

Rebeca: Você sabe que o Saulo dizer que quer que você vá não caracteriza um convite, certo?

Vera: Nossa, que descrença, hein? A Nora me chamou.

Rebeca: Por essa eu não esperava.

Vera: Para ser sincera, eu também não. – Ela diz continuando a olhar para o armário. – Mas qual você acha mais bonito?

Rebeca: Eu gosto do vestido verde. Com a sandália prateada, ficaria lindo.

Vera: Bom gosto. Mas eu decido amanhã. Vamos jantar? – Ela diz se encaminhando para a porta.

Rebeca: Atrás de você. – Ela a segue.

17. INTERNA – NOITE – PRÉDIO DE CARLOS – CORREDOR

[♫ – Use Your Love, Katy Perry]

Carlos sai do elevador e vai em direção a sua porta. Quando está destrancando a porta, a porta de Pâmela abre, assustando o Andrade.

Carlos: Deus me livre e guarde! Você estava me observando pelo olho mágico?

Pâmela: Não, bobinho. Eu seria muito desocupada se fizesse isso.

Carlos: E psicopata. – Ele diz baixinho.

Pâmela: O quê?

Carlos: Nada não. Se você permite, eu vou entrando.

Pâmela: Carlos, calma. Eu queria falar com você sobre a nossa relação.

Carlos: Que relação? A gente não tem relação nenhuma, Pâmela. Acorda. Eu só dormi com você porque eu estava bêbado.

Pâmela: Carlos, sobre isso… – Ele a ignora.

Carlos: E só estava bêbado porque tinha brigado com meu namorado, que é a pessoa mais carinhosa e amorosa que eu conheço e eu o amo muito, e não quero que você estrague isso.

Pâmela: Está bem. Boa noite então. – Ela diz cabisbaixa. – Mas isso não depende de mim.

Carlos: Do que você está falando? – Ela fecha a porta em sua cara.

18. INTERNA – NOITE – RESTAURANTE/CASA DOS ANDRADES

Rebeca entra no banheiro e tira o celular da bolsa.

Júnior: Alô?

Rebeca: Oi, Jú. Rebeca.

Júnior: Oi, tudo bem?

Rebeca: Por enquanto sim.

Júnior: Como assim?

Rebeca: Deu a louca na sua mãe e ela convidou a minha para o Natal.

Júnior: Isso não é possível.

Rebeca: Mas aconteceu. Minha mãe estava escolhendo a roupa dela hoje. Agora, imagina qual vai ser a reação de todos.

Júnior: Bem-vindos à Terceira Guerra Mundial.

Rebeca: Você tem que falar com ela.

Júnior: Tentarei, mas ela é cabeça-dura.

Rebeca: Pelo menos, eu e você estaremos preparados.

Júnior: Que venha.

Ambos desligam e Rebeca retorna à mesa em que estava sentada com sua mãe.

19. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Nora estava na cozinha, fazendo um sanduíche, quando Júnior entra.

Júnior: Sabe quem era? – A mãe faz que não com a cabeça – A Rebeca.

Nora: Que ótimo. E o que ela disse?

Júnior: Que a senhora convidou a mãe dela para a festa de Natal.

Nora: Sim.

Júnior: Por que isso?

Nora: Por que não?

Júnior: Ahn, quer que eu cite todos os motivos? – Ele começa a enumerá-los nas mãos – Porque o papai traiu você com ela; porque em todos os seus encontros, vocês brigaram; porque ela namora o tio Saulo e vocês brigaram justamente por causa dela; e finalmente, porque quando a Rebeca conheceu a família já foi um desastre, imagina a Vera.

Nora: Eu resolvi dar uma segunda chance a ela. Saulo está dando, ele deve reconhecer algo de bom nela. Além do que, eu não posso viver como se ela não exista.

Júnior: Por que não? E mais, você está dando uma segunda chance a ela, não seus filhos. Eu já não fiquei muito contente com essa notícia. Agora imagina o quarteto parada dura. Vai espirrar veneno para todo lado.

Nora: Então deixe espirrar. Eu não tenho nada a ver com isso. Fiz minha parte a convidando. Se meus filhos e Vera não se entenderem, não posso fazer nada.

Júnior: Mãe, a senhora está criando condições para uma verdadeira guerra. E você não é a Suíça, eu te conheço, você vai acabar tomando partido.

Nora: Isso não vai acontecer, filho. Não se preocupe. E muito menos preocupe os seus irmãos. Por favor, não comunique isso para nenhum outro. Não quero mais barulho no meu ouvido, com essa bagunça do jantar. – Ela diz arrumando a louça que havia usado e a depositando na pia. – Agora eu vou terminar de ler meu livro. Boa noite, querido. – Ela sai.

20. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – SALA

[♫ – Here Without You, Three Doors Down]

Sara estava na sala, vendo TV com os filhos e esperando Fernando. No corredor, as mochilas dos três estavam enfileiradas. O interfone toca. Gabs vai atender e anuncia que é o pai. Eles desligam a TV, e alguns segundos depois, a campainha toca. Sara abre a porta.

Rafaela e Eduardo: Paaaaai! – Eles dizem em uníssono indo abraçar o pai.

Fernando: Filhos, que saudade! – Ele agacha para retribuir o abraço. Uma vez livre, ele se dirige a Gabriel. – Muitas saudades de você também, filhão.

Gabriel vai em direção ao pai, olha para a mãe, e lhe dá um abraço.

Gabriel: Eu também, pai.

Sara: Fernando. – Ela diz, indo cumprimentá-lo com um beijo na bochecha e depois volta, retomando sua pose de braços cruzados.

Fernando: Sara. – Ele também se aproxima dela para um beijo e depois retorna, se dirigindo aos filhos. – Hey, Gabs, por que você não leva a sua mochila para o carro com os dois e deixa que eu levo depois a deles? Eu já to indo.

Gabriel: Tá bom, pai. – Ele leva os gêmeos para o elevador.

Fernando: Como você tá, Sara?

Sara: Tô manejando e você?

Fernando: Péssimo. Horrível ficar em casa sem vocês quatro o dia inteiro. Além do mais, não sei se eu consigo viver essa coisa de pai separado. É tão estranho combinar programas sem você inclusa.

Sara: Idem aqui. Mas é assim que tem que ser. Pelo menos por enquanto. E quanto mais a gente se aproxima de novo, pior. – Ela faz uma pausa. – E apesar disso soar meio contraditório, mas é assim que eu tenho me sentido ultimamente, você não gostaria de ir ceiar com a gente no Natal? Minha mãe e meus irmãos sentem sua falta. Além, é claro, das crianças. Seria ótimo para elas, ter o pai no Natal.

Fernando: É claro! – Ele sorri – Não é como se eu tivesse vários planos mesmo. – Sara ri.

Sara: É melhor você ir. Eles devem estar te esperando.

Fernando: Ok, até amanhã, Sá. – Ele a cumprimenta novamente com um beijo na bochecha e ela retribui. Ele vai ao elevador, e ela fecha a porta, pensativa.

21. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO – SALA

Carol, Roberto e Larissa estavam voltando do jantar. Eles entram na sala e se sentam no sofá. Carol vai até o quarto de Roberto e volta com uma sacola.

Carol: Larissa, eu sei que o seu aniversário já passou, mas como eu estava em São Paulo, não pude te dar presente no dia. Aqui está. – Ela entrega o presente. – Espero que você goste.

A filha de Roberto abre a sacola e retira de lá um vestido, surpreendentemente, bonito e apropriado para a idade da menina.

Larissa: Muito obrigada, Carol.

Carol: De nada. Você gostou? – Ela faz que sim com a cabeça – E você vai ao Natal lá na minha casa, né?

Roberto: Vai sim. Ela e a Lílian. Era pra convidar a Lílian, certo?

Carol: Lógico. A Lílian e a Luisa. Pena que elas estão brigadas.

Roberto: Daqui a pouco voltam. – Larissa ri – Filha, vai trocar de roupa que já está tarde. – Ela obedece. Carol se senta ao seu lado, apoiada nele e faz carinho em seu braço. – Quando é que você começa a trabalhar aqui?

Carol: Daqui a alguns dias. Eu te digo quando souber com exatidão.

Roberto: E por que você mentiu para mim sobre o seu trabalho aqui?

Carol: Como?

Roberto: Eu conheço o editor de Política, Carol. Eu sou um político do Rio. E o nome dele não é Horácio Guerra. Você pretendia esconder isso de mim até quando?

Carol: Desculpa, eu fiquei insegura… – Larissa volta do quarto.

Larissa: Pronto, pai. Vou dormir. – Ela vai em direção ao pai e lhe dá um beijo. Depois faz o mesmo em Carol e sai.

Roberto: A gente deveria fazer o mesmo. Amanhã vai ser um longo dia. Eu ainda tenho que passar na casa da Lílian logo cedo para ajudá-la com uns móveis que ela quer arrumar. Quando ela fica mal, quer exercício físico para esfriar a cabeça, – Ele faz uma pausa – acho que eu também. – Ele vai para o quarto.

Carol: Roberto…

Roberto: Amanhã, Carol. Eu tô realmente cansado pra conversar agora. – Ela o segue e deita ao seu lado na cama, em silêncio.

22. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE CARLOS – SALA

Carlos está voltando da cozinha com dois copos de vinho na mão.

Carlos: Aqui está. – Ele diz entregando o copo a Sérgio.

Sérgio: Muito obrigado. – Ele pega o copo, e bebe um gole. – Interessante o jogo de hoje, né?

Carlos: Muito. Quase um documentário da Discovery sobre o reino animal. – Os dois riem. O pensamento de Carlos sempre ia para a lembrança de Pâmela e a culpa. Há um longo silêncio entre os dois.

Sérgio: O que está havendo?

Carlos: Em relação a?

Sérgio: A gente, nesses últimos dias. Mal temos nos encontrado, quando nos encontramos, falamos pouquíssimo. Não temos assunto, nem nada. Eu fiz alguma coisa?

Carlos: Não é nada. Você é um amor, juro, não poderia pedir por alguém melhor. São só algumas coisas passando pela minha cabeça.

Sérgio: Você pode sempre se abrir comigo, você sabe, né?

Carlos: Sei. – Ele diz e agradece beijando o namorado.

O beijo se prolonga um pouco, e logo se transforma em algo mais. Camisas e calças no chão. Corpos entrelaçados. Os dois se deitam no sofá.

Carlos: Eu juro que isso nunca me aconteceu antes. – Ele diz assustado e frustrado, sentando-se no sofá.

Sérgio: Relaxa, são as coisas na sua cabeça. – Carlos pensa ‘na realidade, são na sua’ e se sente ainda mais culpado. – Pode deixar que eu te faço esquecer. – Sérgio pisca e eles retomam a atividade.

23. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

O peru de Natal está descongelando e alguns outros ingredientes estão espalhados pela cozinha, espalhados ou em sacos de compras. Nora está no telefone. Júnior entra.

Nora: Muito obrigada! Beijos! Manda beijos e Boas Festas para sua família também. Tchau! – Ela desliga.

Júnior: Quem era?

Nora: A Guilhermina. Disse que não vai poder vir para a festa. Porque o filho dela que não sabia com que família iria passa a festa, resolveu passar com ela.

Júnior: Menos uma para presenciar a desgraça.

Sara: Que desgraça? – Ela diz entrando pela porta de entrada da cozinha, seguida de Carlos.

Nora: O que vocês estão fazendo aqui?

Carlos: Mas que recepção calorosa. Acho que vou embora.

Sara: Drama Queen. – Ela se dirige a mãe. – Eu estava sozinha em casa, já que meus filhos me abandonaram e resolvi vir. Daí encontrei o Carlos aí na frente.

Carlos: Quem era o Drama Queen? O Sérgio teve que trabalhar. Sim, no Natal. Daí eu vim para a agradável companhia da minha mãe e do meu irmão caçula.

Nora: Sua mãe dificilmente vai poder te fazer companhia. Estou super ocupada com esse um milhão de receitas, e ainda tenho que buscar a toalha de mesa na casa de Saulo, porque não coube na máquina de lavar de casa.

Sara: Ué, você está falando com o tio Saulo?

Júnior: E como! A mamãe até o convidou, né mãe? – Nora olha para ele séria.

Nora: É sim. Nós nos entendemos. Agora, com licença, eu tenho que colocar o lixo lá fora e depois vou visitar meu irmão. – Assim que ela vai passar pela porta da cozinha, entra Carol. – Oi filha. Eu tenho que sair, mas depois conversamos. – Ela sai, Carol senta-se em uma das cadeiras.

Carol: Eu não mereço o Roberto.

Júnior: Temos três Drama Queens hoje. Acho que é recorde. O que houve?

Tomás: Oi gente! – Ele diz entrando. – Deixei a Vitória na casa dos pais e passei aqui rapidinho.

Carlos: Achei que você fosse almoçar lá.

Tomás: Não. Natal é hoje de noite e amanhã no almoço. Hoje é meu, amanhã, dela. Mas no resto do tempo, cada um é cada um. Ela almoça lá e eu aqui. Cadê a mamãe?

Sara: Foi pegar umas coisas. Voltando à Carol, o que houve?

Tomás: Por quê? A Carol está mal?

Carol: Eu menti para o Roberto e agora ele está super chateado.

Carlos: Somos dois. Tirando que o Sérgio não está chateado, e sim eu culpado.

Júnior: A sua história, nós já conhecemos, Carlos. Mentiu sobre o quê, Carol?

Carol: Minha mudança de editoria. Eu disse que continuaria na Política, para não magoá-lo, mas na realidade, me transferiram para Cidades. – Ela explica, sem mencionar a transferência de moradia, pois ainda queria manter a surpresa. – Mas eu fiz isso justamente para ele não ficar chateado e achar que eu estava triste por mudar de editoria.

Sara: E não está?

Carol: Não interessa. Eu não posso continuar, estou namorando um político, é antiético. – Júnior sorri. – O que foi? Não é engraçado.

Júnior: Desculpa, Carol. Esse negócio com o Roberto vai se resolver, eu tenho certeza. Estou rindo porque eu sou o único sem um grande babado. E sou eu que estou no Rehab.

Carlos e Sara: No, no, no! – Eles cantam a música de Amy Winehouse.

Tomás: Eu não tenho nenhum babado.

Sara: O ex-namorado da sua mulher é o promotor do caso do acidente dela. – Júnior engole em seco e perde um pouco o sorriso. – Aliás, como anda isso?

Tomás: Eu fiz alguns avanços, estou pesquisando com umas pessoas. Lógico que sem ajuda nenhuma daquele panaca.

Júnior: Bom, era isso mesmo. A Sara é óbvio, assim como o Carlos e a Carol. Não que eles sejam engraçados. De fato, não são. Mas acho estranho eu ser o da vida monótona.

Carlos: É… Daí não tem o que fazer e vira uma dessas comadres da vida, fofocando a vida dos outros. – Júnior faz uma careta.

Júnior: Não sabe brincar, não brinca. – Todos riem.

24. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Carlos estava sentado à mesa da cozinha. Em cima da mesa, um funil, algumas garrafas de vinho, algumas de suco de uva vazias e outras cheias. Ele pára o que estava fazendo e se estica para trás, descansando. Tomás entra.

Tomás: O que você tá fazendo? – Ele diz estranhando a situação.

Carlos: O Júnior não pode ficar em ambientes com bebidas alcoólicas, por causa daquela coisa da reabilitação. Então, eu comprei um monte de suco de uva, esvaziei as garrafas e preenchi com vinho. – Tomás ri.

Tomás: Você é doente, Carlos Andrade!

Carlos: Não reclama! Você quer ou não vinho?

Tomás: Ele vai continuar num ambiente com álcool.

Carlos: O que os olhos e a mamãe não vêem, o coração não sente. – Tomás ri. – Então, eu ouvi a campainha tocar, quem chegou?

Tomás: Ah, é a Vitória. Os pais dela a deixaram aqui. – Carlos retoma sua atividade de preencher garrafas de uva com vinho. – Sabe o que eu queria falar com você?

Carlos: O quê?

Tomás: Sobre aquele seu lance com a Pâmela.

Carlos: Tomás, por favor.

Tomás: Depois disso, eu não menciono mais o assunto, juro.

Carlos: Ok, fala. – Tomás senta-se.

Tomás: Como você está se sentindo com tudo isso?

Carlos: Você sabe, muito culpado. Mal consigo olhar para o Sérgio sem pensar como fui injusto.

Tomás: E se vocês não realmente dormiram juntos?

Carlos: Você estava lá. Você viu.

Tomás: Tudo bem, vocês dormiramEle enfatiza a palavra – juntos. Mas e se vocês não realmente dormiram – Ele a enfatiza novamente – juntos? Se não fizeram nada demais?

Carlos: Ah, você acha que a Pâmela ia deixar passar a oportunidade de transar comigo? E ia só dormir ao meu lado?

Tomás: Nossa, Carlos, eu não sei como eu ainda me surpreendo com a sua arrogância. Você não tem mel, sabia?

Carlos: Tomás, eu estava só de roupa de baixo. Ela também.

Tomás: Estavam vestindo alguma coisa.

Carlos: Não adianta, não tá me animando. Eu dormi com ela, Tomás. – Ele sorri em agradecimento. – Mas obrigado por tentar.

Tomás: Carlos…

Vitória: Tomás! Vem cá!

Carlos: Vai lá. Eu vou terminar aqui e já vou.

Tomás: Tá bom. – Ele diz se levantando, dando um tapinha no ombro do irmão e saindo. Carlos retoma sua atividade, sério.

25. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – HALL

Nora, seus filhos, Vitória e Sérgio já estavam em sua casa, esperando pelos outros convidados. Nora entre idas e vindas da cozinha. A campainha toca e Sara vai atender. Fernando, Gabriel e os gêmeos entram. Os três abraçam a mãe e vão falar com os tios.

Sara: Que bom que você veio.

Fernando: Não é como se você não soubesse. Eu disse ontem que vinha.

Sara: Mas é bom ter vindo. Entra. Não preciso nem pedir para você se sentir em casa. – Eles riem e seguem para a sala, onde Fernando cumprimenta os ex-cunhados.

26. EXTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – FRENTE

Rebeca está se preparando para tocar a campainha quando seu celular toca.

Vera: Alô, filha. Você vai querer carona?

Rebeca: Não, mãe, obrigado. Eu tô aqui na porta já. – Ela sente frio na barriga diante da perspectiva da visita da mãe aos Andrades.

Vera: Está bem, então. Até logo.

Rebeca: Até. – Ela vê outro carro parando na rua da casa dos Andrades. Dele descem Roberto, Larissa e Lílian. Rebeca não reconhece as últimas duas.

Roberto: Boa noite, Rebeca. Tudo bem? Acabando de chegar também?

Rebeca: Isso. – Ela sorri. – Ia tocar a campainha agora.

Roberto: Toquemos, então. – Ele diz, fazendo menção de apertar o botão, quando sente um cutucão de Lílian. – Ah sim, que indelicadeza minha. Essa é minha filha Larissa e minha irmã Lílian. Meninas, essa é a irmã da Carol, Rebeca.

Larissa e Rebeca se cumprimentam com um beijo no rosto, e depois a Santos vai repetir o gesto com Lílian, mas a irmã de Roberto parece não se decidir com que lado ir com seu rosto. Elas acabam por decidir por um aperto de mão.

Lílian: Encantada. – Ela sorri. E Rebeca sorri de volta, estranhando.

Eles tocam a campainha e Nora abre a porta.

Nora: Oi! Quanta gente! Sejam bem-vindos. Estão todos na sala. – Ela cumprimenta a todos com um beijo no rosto e segue correndo para a cozinha.

27. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Nora entra na cozinha e encontra Carol bebendo um copo de água.

Nora: Filha, o Roberto chegou. Está lá na sala.

Carol: Ótimo. – Ela diz seca.

Nora: O que houve?

Carol: Eu fiz uma besteira e acabei mentindo para ele para tentar protegê-lo.

Nora: Peça desculpas e se explique. Diga seus motivos. Aposto que ele vai entender e vocês vão se resolver. – Ela aconselha, traçando outro paralelo com a traição de Guilherme, mais uma vez. Lembrando-se disso e do convite que fez à Vera, ela pergunta: – Mas antes. Está tudo perfeito?

Carol: A festa está linda, mãe.

Nora: Muito obrigada.

Carol: Obrigada você, pelo conselho.

Nora: Quer que eu chame ele aqui, para vocês terem privacidade?

Carol: Por favor. – Ela sorri para a mãe, que vai para a sala.

28. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

[♫ – Jingle Bell Rock – Bill Haley]

Estavam todos rindo, conversando e bebendo na sala. Rebeca entre Júnior e Lílian em um sofá. Gabriel e Larissa em pé, conversando e se sentindo superiores aos gêmeos, como é comum na idade. Fernando conversando com Tomás e Vitória. Sara, Carlos, Sérgio e Roberto formavam outro grupo de conversas paralelas. Nora entra e percebe a movimentação. Então o pensamento que vem estado em sua cabeça por muito tempo desde o começo dos preparativos do Natal volta com força total. Aquele era o primeiro Natal sem Guilherme. E seria o primeiro de muitos. Lágrimas tentam sair, mas Nora as seca e sorri, observando a família reunida.

Nora: Roberto. A Carol está te chamando. – Ele se levanta a passa por ela, que pisca, anunciando saber do que se tratava. – Júnior, vem aqui também. – Ele obedece.

Júnior: Fala, mãe.

Nora: Você acha que ela vai gostar dessa festa? Está boa, não está? Eu perguntei para sua irmã, mas ela não sabe a finalidade.

Júnior: Hm, então você está fazendo essa festa só para impressionar a Vera.

Nora: Não. – Ela hesita. – Também.

Júnior: Ela vai sentir inveja, pois nunca poderia fazer uma festa tão boa. Aliás, ela vem mesmo? Não chegou até agora.

Nora: O Saulo disse que ia demorar um pouco.

Júnior: Sei. – Ele diz, indo sentar-se em seguida. Passando por Lílian, que ia ao banheiro.

Rebeca: Acho que ela está dando em cima de mim.

Júnior: Quem?

Rebeca: A Lílian. Ela esquivou dos meus beijos quando a gente se conheceu. Pode me chamar de convencida, mas eu acho que ela estava tentando me dar um selinho. Depois, não desgrudou de mim, e agora, quando você foi falar com a sua mãe, ela se mostrou super interessada na minha vida. Eu podia jurar que ela ia pedir meu telefone.

Júnior: E você, está interessada? – Ele diz rindo.

Rebeca: É sério, Júnior! – Mas ele começa a rir mais. Lílian volta do banheiro.

Lílian: O que é tão engraçado? – Ela diz sorrindo.

Rebeca: É, conta pra ela, Ju. A piada que acabou de me contar. – Ela lhe faz uma cara de desdém.

29. EXTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – QUINTAL

[♫ – Fire, Bruce Springsteen]

Roberto vai para a cozinha, e de lá, Carol o leva até o quintal.

Carol: Aqui é mais agradável para conversar.

Roberto: Desculpa por ontem. Eu fiquei chateado e acabei sendo grosso.

Carol: Não tem porque pedir desculpas. Eu fui a errada nessa história. Devia ter te contado desde o início que trocaria de editoria. Mas não tinha como continuar na Política namorando você. E não tem porque você ficar chateado, porque eu sei que ficará. Eu não estou mal por isso. É uma chance de crescer e viver novas coisas.

Roberto: Não é só esse meu medo. É também, que você tenha mudado sua vida por mim e não esteja muito contente. Mas também que você tenha vindo para o Rio só por minha causa. E além do que, você não dividiu isso comigo. Não confiou em mim para tanto e a gente precisa disso.

Carol: Essa foi a minha maior falha, mas eu fui insegura. Quanto ao resto, eu amo você, Roberto. Eu fiz o que fiz por você sim, mas também pela minha família e por mim. Eu pensei muito antes de fazer tudo isso e vi que o saldo seria positivo. Quero viver isso com você. – Roberto se aproxima e a beija.

Roberto: Eu também, e muito. – Eles se abraçam e ficam um tempo assim. – Você viu que a Larissa está usando o vestido que você deu ontem? Eu não tive nada a ver com isso. – Carol sorri. – É, parece que você conquistou minha filha.

Os dois voltam para a sala.

30. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA/SALA DE JANTAR

Gabriel: Larissa, vem cá, deixa eu te mostrar um negócio. – Ele pega a mão da menina e a puxa para dentro.

Sara: Não vai mostrar nada! A gente tem que ir comendo. O Dudu e a Rafa tão morrendo de sono. Mãe, cadê a comida?

Nora: Está pronta, filha. Só estou esperando o Saulo com a vó de vocês. – A campainha toca. Júnior e Rebeca se entreolham. – Olha só, é ele. Podem ir sentando a mesa. – Todos vão para a sala de jantar, com exceção de Nora, que vai atender a porta, com frio na barriga.

Saulo: Boa noite, Nora.

Vera: Desculpa pela demora. Espero que não tenham começado sem nós. – Ela sorri e estende a mão para a anfitriã.

31. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA DE JANTAR

Todos com exceção de Nora vão para a sala de jantar. Sara estava na frente. Num súbito ela pára e observa a mesa.

Carlos: Que foi, Sara?

Sara: É o primeiro Natal sem o papai.

Carol: É… Vai ser tão estranho não vê-lo numa ponta da mesa.

Tomás: É verdade. Aposto que ele está vendo a gente, onde quer que esteja. – Os cinco se abraçam discretamente e se sentam, junto com os outros.

32. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA DE JANTAR

Nora entra na sala seguida de Diva, Saulo e Vera. Todos ficam boquiabertos. Com exceção de Júnior e Rebeca, que levam a mão à cabeça.

Sara: Não acredito que você a trouxe aqui, tio Saulo!

Tomás: Francamente!

Carlos: A mamãe te dá uma chance e você a joga no lixo?

Nora: Podem parar! – Ela ordena em um tom de voz bem mais alto que o dos filhos. Depois, retorna ao normal. – Eu a convidei. Ela é minha convidada.

Vera sorri para todos e se senta ao lado de Saulo, que cumprimenta Roberto, Carol, Tomás e Vitória, que estão mais perto dele. A disposição das mesas era a seguinte: Larissa, Gabriel, Eduardo e Rafaela estavam na mesa da cozinha, levada para a sala. Os outros estavam em uma mesa para dez pessoas, com mais quatro lugares improvisados. Nora estava em uma ponta, a outra havia sido transformada em dois lugares e estavam Saulo e Vera. Diva fica sem entender todo o transtorno por causa de Vera, uma vez que não sabe da traição de Guilherme, mas não recebe uma chance de perguntar.

Carol: Convidou? Por quê?

Roberto: Carol.

Nora: Porque ela é a namorada do seu tio, e nós devemos respeitar isso. Natal é uma época de fraternidade e compaixão.

Carlos: Hm, sei. – Ele faz uma pausa. – Eu acho que esqueci meu celular na cozinha. Preciso de ajuda pra achar, quem vem comigo? – Ele lança um olhar intimidante para Rebeca.

Rebeca: Eu vou!

Júnior: Também!

Carol, Tomás e Sara: Indo!

Os seis saem.

Larissa: Nossa. Quanta gente para procurar um celular.

Gabriel: Essa vai ser a última coisa que eles vão fazer.

33. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Tomás: A mamãe ficou senil!

Carlos: Que raios?! Convidar a adúltera? – Ele olha para Rebeca. – Desculpa, nada pessoal. Você sabia disso?

Rebeca: Já estou acostumada aos seus xingamentos. Sabia sim.

Carol: E não nos disse nada?

Tomás: Regra número 1 dos Andrades: Nós não temos segredos.

Sara: Isso é um caso grave, Rebeca. Tinha que ter contado!

Rebeca: O Júnior também sabia!

Júnior: Regra número 2 dos Andrades: Quando está enrascado, dedure os outros. A mamãe pediu para não dizer nada. E vocês sabem como ela é persuasiva. – Ele pega um copo, uma garrafa de suco de uva da geladeira e vai se servir.

Carlos: Não! Bebe água! É melhor. – Júnior faz uma cara de dúvida. – Vai por mim… – Júnior não escuta o irmão e bebe um gole, sente o gosto e cospe na pia.

Júnior: Você colocou vinho no suco de uva?

Carol: Carlos! O Júnior não pode.

Sara: Gente, dá pra focar no problema?

Tomás: É! Isso está acima da persuasão da mamãe, Júnior. É de vida ou morte.

Carlos: Não há nada mais a se fazer agora, há? É ir lá e encará-la.

Rebeca: Gente, ela não vai comer vocês.

Sara: Desculpa, mas eu não teria tanta certeza.

Rebeca: Vocês estão sendo imaturos.

Carol: Oi? – Ela diz com uma risada de descrença. – Você está falando sério?

Rebeca: Ela errou e errou feio. Assim como o Guilherme, mas todo mundo erra. Ela não matou ninguém, só cometeu adultério. – Carlos leva a mão à cabeça.

Tomás: Você tem que entender que a gente se sinta, no mínimo, desconfortável com essa situação.

Rebeca: Eu entendo, mas acho que vocês estão exagerando muito.

Sara: Opinião computada. Muito obrigada pela sua participação. – Ela diz com voz de secretária eletrônica.

Rebeca: Uau. O que vocês vão fazer a respeito, então? Envenenar o suco de uva, digo, vinho, dela?

Júnior: Gente, chega. Sejamos cordiais e vamos de uma vez.

Eles aceitam calados e voltam para a sala de jantar. Carlos tira o celular do bolso e volta com ele na mão.

34. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA DE JANTAR

Os seis voltam para a mesa.

Nora: Pronto? – Eles fazem que sim com a cabeça. – Eu gostaria de fazer um pequeno discurso antes de começarmos a comer.

Todos concordam e incentivam o discurso.

Nora: Este é o meu primeiro jantar de Natal sem o Guilherme por quarenta e cinco anos e eu queria dedicá-lo a ele. Nós tivemos nossos altos e baixos enquanto casados, mas foi um casamento muito feliz. – Ela olha para Vera, que está cabisbaixa. – Repleto de alegrias, emoções e muita paixão. Eu chorei muito quando ele faleceu e chorei muito depois que ele faleceu também, – Todos acabam por olhar para Vera rapidamente. – porém posso afirmar que ele deixou muitas lembranças boas e surpresas boas também. – Ela fixa o olhar em Rebeca. – É óbvio que todos nós queríamos que ele estivesse aqui para conhecer os novos membros dessa família – Demonstra que está falando sobre Sérgio, Roberto, Lílian e Larissa. – e as novas conjunturas que certas coisas tomaram, – Olha para Sara e Fernando, Saulo e Vera. – mas infelizmente isso não é possível. Só podemos oferecer a ele esse brinde e desejar que ele esteja feliz onde estiver. – Nora sorri, com algumas lágrimas nos olhos, e ergue seu copo. Todos repetem a atitude. – Ao Guilherme, dedicado esposo, pai maravilhoso e um eterno amante. – Vera engole em seco.

As pessoas então começam a comer. No início, há pouca conversa, até porque estão todos desconfortáveis com a presença de Vera. Após certo tempo, a conversa começa a rolar solta e com vários núcleos ao logo da mesa.

Em um dos pontos, Lílian se serve de mais vinho e dá um gole grande.

Lílian: Então, Rebeca, ouvi dizer que você faz faculdade, é verdade? Cursa o quê?

Rebeca: É sim. Faço Direito.

Lílian: Jura? Tem cara mesmo de quem faz direito. Queria poder tirar isso a limpo. – Ela diz com malícia e logo após bebe mais um gole de vinho.

Rebeca: Perdão? – Ela diz entre risos e espanto.

Roberto: Lílian, que tal você parar de beber? Tá bebendo desde antes da gente sair de casa. – Ele se intromete e Carlos acaba ouvindo.

Carlos: Cachaceira. – Ele diz para si mesmo.

Lílian: Como é que é?

Carlos: O quê? Não estava falando com você não.

Lílian: Ah, só pra constar, queria te falar desde que cheguei. Seu namorado veio, né? Fico feliz em ver que você conseguiu não ser arrogante e brigar com ele. – Ela diz sorrindo.

Carlos: Eu já não posso dizer o mesmo. – Ele retribui sorrindo também.

Roberto: Chega! Lílian, vem cá vem? – Ele pega a irmã e a leva até o banheiro.

Rebeca: O que está acontecendo aqui?

Carol: Ela terminou com a namorada.

Carlos: Essa daí só termina e volta. Deve estar mal com isso e encheu a cara e depois deu em cima pra primeira que viu. Sem ofensas, Rebeca.

Rebeca: Já me acostumei, mas vem cá. Qual é seu problema comigo?

Carol: Nenhum, ele faz isso com todos. Aliás, por que essa história de beber e dar em cima da primeira que vir me soa familiar, hein Carlos? – Carlos se sente mal e vai beber do seu copo.

Sérgio: Carlos, me passa a farofa? – Carlos engasga com o vinho.

Carol: Gente, sabe qual é a novidade lá no jornal? – Ela diz, buscando mudar de assunto e se direcionando para o lado da mãe da mesa. – Mãe, escuta, acho que você vai gostar.

Nora: Diga, filha.

Carol: Um blog de uma senhora que escreve sobre assuntos diversos.

Vitória: Estão falando disso no banco também.

Tomás: Mesmo? Que interessante?

Carlos: Ah é, sobre o que ela escreve? Tricô e receitas?

Nora: Carlos! Você acha que as pessoas envelhecem e só sabem falar sobre essas coisas?

Sara: Eu aposto que o Carlos só vai falar de tricô quando ficar velho.

Carol: É nada! Ela escreve sobre diversas coisas da sociedade. É bem interessante e escrito. Depois eu passo para vocês o endereço. – Nora sorri.

35. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA DE JANTAR

Em outro ponto da mesa, Vera e Saulo conversavam.

Vera: Me diz o que raios eu vim fazer aqui? Ser humilhada por aquela recalcada? – Ela diz sorrindo, para que os outros não a vejam de cara emburrada. Saulo ia abrir a boca, quando Vera o interrompe. – Tá, eu sei que ela é sua irmã, mas se eu não desabafar com você, vou desabafar com quem?

Saulo: Tudo bem. Eu nem me intrometo mais na briga de vocês duas. Muito complicado para o meu gosto.

Vera: Ela me vem com esse papo de família feliz e ainda a reproduz inteira aqui. Mas tudo bem, eu estou deslumbrante e você ainda vai contar que vai abrir a editora comigo. É hoje, né?

Saulo: Era. É isso que essa editora é para você, Vera? Um modo de se vingar da Nora por ter sido com ela que o Guilherme se casou? Você está só me usando?

Vera: Não é nada disso, Saulo! Eu não estou te usando. Quero abrir essa editora mais que tudo. Foi uma colocação infeliz, só isso. – Ela diz fazendo carinho no cabelo dele.

Nora: Estamos todos satisfeitos? Vou trazer então as sobremesas. Fiz pudim de leite, viu Vitória? Especialmente para a minha norinha querida.

Vitória: Assim não tem como nora e sogra se darem mal. – Todos riem simpáticos.

Vera: Calma, antes das sobremesas, o Saulo tem um anúncio a fazer. – Ele faz que não, se sentindo encabulado. Ela sorri. – Vamos, Saulo, não seja tímido.

Saulo: Ok, essa não era a hora mais propícia, mas uma vez que você já fez tanto alarde… – Ele diz se levantando.

Júnior: Fala logo, tio. – Ele e todos os outros Andrades estavam apreensivos.

Saulo: Ok, bom, a Vera estava com planos de abrir uma editora…

Nora: Ah, então era ela a loira… – Nora diz para si mesma, lembrando-se do que a mãe havia lhe contado sobre uma mulher loira ter consultado o irmão sobre abrir negócios.

Saulo: E uma vez que a Andanças está estável financeiramente mais uma vez, eu decidi me desvincular da Andanças e fundar a editora da Vera com ela. – Há um breve silêncio. Saulo e Nora de pé. Vera sentada, sorrindo.

Nora: Ah, mas que ótimo, Saulo. – Ela diz irônica.

Vera: Desculpa, não senti verdade na sua voz.

Nora: E você não tem que sentir nada. A casa é minha e o irmão é meu. – Vera solta um suspiro de injuriada. – E você chegou a essa conclusão sozinho, Saulo, ou precisou de ajuda?

Sara: Fernando, pega as crianças.

Fernando: Antes que você diga “barraco Andrade”. Vou levá-las para casa, tudo bem?

Sara: Sim.

Saulo: Não precisa ser irônica, Nora. Se não gostou de alguma coisa, pode falar na cara.

Diva: Alguém pode me dizer o que está acontecendo aqui?

Carlos: O meu pai traiu minha mãe com…

Diva: Alguém com moral e que siga os costumes cristãos? – Carlos soca a mesa.

Júnior: Vó, pelo amor de Deus. Falso moralismo não, muito obrigado.

Tomás: Nós gostamos muito da senhora, mas com todo respeito, o Carlos é mais importante.

Sara: Definitivamente.

Carol: Se a senhora continuar com essa baboseira, não se incomode de vir mais.

Diva: Nora! Essa é a educação que você deu aos seus filhos? Estou em choque. Exijo um pedido de desculpas imediatamente.

Nora: Eles não fizeram nada de errado, mamãe. E eu assino embaixo das palavras deles. E a educação que eu dei aos meus filhos é a de união, que eu pude verificar aqui. – Ela volta o olhar e o pensamento a Vera e Saulo. – E o que está havendo é que Guilherme me traiu com essa senhora aí na frente. – Rebeca leva as mãos à cabeça, se levanta, pega sua bolsa e sai pela porta. Júnior tenta impedi-la, mas ela se esquiva. Diva balbucia alguma coisa, chocada.

Roberto: Acho melhor a gente ir indo. – Ele diz para Carol. – Me liga mais tarde? – Ela faz que sim, ele a beija, pega Larissa e Lílian e sai.

Nora: E ela acabou de estragar minha festa de Natal.

Carol: Bom, ela era a Vera Furacão.

Vera: Com muito prazer. Ao menos eu fazia bem na tela da TV, e não pagava mico.

Carol: Escuta aqui…

Tomás: Quem você acha que é pra falar assim com a gente?

Saulo: Eu cumpri a minha responsabilidade de presidente e tirei a livraria da lama.

Sara: Não é só esse o papel de presidente, tio. É muito mais. É se comprometer com a empresa e colocá-la em primeiro lugar. Pelo jeito, cometemos um erro.

Nora: Impressionante como você muda de valores rápido, não é Saulo?

Vera: Ele é um homem flexível. Aliás, um grande homem. – Ela diz, fazendo carinho em suas costas.

Carlos: Vocês me enojam.

Nora: Quer saber? Você quer dormir com ela? Ótimo! Quer sair da Andanças pra abrir um negócio incerto com ela? Perfeito! Se quiser, pode até vender sua alma para o diabo por ela, Saulo, se é que você já não o fez. Eu pouco me importo. – Ela diz indo para a cozinha.

Vera: Hey! Não pode destratá-lo assim! – Vera a segue. Tomás e Júnior, que estavam no caminho, levantam e a seguram.

Nora: Pode deixar. Eu sei me defender sozinha. – As duas seguem para a cozinha. Todos se entreolham, Sara, Tomás, Carlos, Carol, Júnior e Saulo seguem para a cozinha também. Diva faz menção de segui-los.

Sérgio: Acho melhor não, dona Diva.

Diva: Muito obrigada, mas eu me recuso a aceitar qualquer conselho seu.

Sérgio: A senhora não aprende mesmo, não é?

Diva: Pelo jeito, ninguém mais tem respeito pelos outros.

Vitória: Dona Diva, por favor. Eu posso precisar de alguma coisa. É bom ter a senhora aqui. – Ela cria uma desculpa e Diva se senta a contragosto.

Diva: Está bem.

36. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Vera: Qual é a sua? Você nos convida, nós somos totalmente cordiais e simpáticos. Contamos a notícia da demissão de Saulo numa boa e você nos ataca?

Nora: Não se faça de santa! Não combina com esse vestido.

Vera: Pelo menos, eu não me visto como a minha mãe. – Nora se vira com impulso de bater em Vera, mas Tomás entra no caminho.

Tomás: Vá embora, sua cobra.

Vera: Não admito ofensas de um moleque!

Sara: A gente tá sendo muito legal. A vontade era dar na sua cara.

Nora: Eu estou bem, Tomás, Sara. Não há necessidade de me proteger. – Ela se vira para Vera. – Você roubou meu marido, parte da minha vida e agora está roubando meu irmão. Convidei você numa tentativa de incorporar você a minha vida, e quem sabe, me adaptar a isso e superar. Mas não dá. Você é simplesmente intragável.

Vera: Saulo, você viu como sua irmã está falando comigo?

Saulo: O combinado era não me intrometer. Nem de um lado, nem do outro.

Vera: Não sei por que eu vim, mas agora eu estou indo. Tenha uma boa vida patética. Eu vou viver a minha.

Nora: Já vai tarde. Vá viver sua vida de oportunista, prefiro muito mais a minha. Digna e honesta.

Vera pega sua bolsa e sai.

Saulo: Desculpa, mas eu não posso concordar com tudo que você diz. – Ele tenta dar um beijo em Nora, mas ela o afasta. Ele vai até a sala de jantar, chama a mãe e os dois saem.

Nora: Eu vou me deitar. Vocês não precisam ir embora, viram? – Ela diz abraçando cada um de seus filhos por vez. – Tomás, pegue um pouco de pudim para a Vitória. Peçam desculpas para o Sérgio, o Roberto, a irmã e a filha dele, para o Fernando e para a Rebeca por mim, por favor. Principalmente para a Rebeca.

Sara, Tomás, Carlos, Carol e Júnior: Tchau, mãe.

Carol: Durma bem.

Tomás: Nós voltamos amanhã.

Nora se despede de todos e vai para seu quarto.

37. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – QUARTO DE NORA

Nora deita em sua cama e pega um porta-retrato com uma foto dela e de Guilherme de cima do criado-mudo. Ela o observa por um instante e começa a chorar. Ela abraça o porta-retrato, fecha os olhos e fica nessa posição por muito tempo. Depois se senta, enxuga as lágrimas, que não param de cair, e observa a foto por mais tempo. Ela se levanta, segura o porta-retrato com força e o joga no chão, o quebrando. Depois vai para o banheiro e lava o rosto, se olhando no espelho.

Continua…

Trilha Sonora

Jingle Bell Rock – Bill Haley

Fire – Bruce Springsteen

Use Your Love – Katy Perry

Cama, Mesa e Banho – Sérgio Britto

Here Without You – Three Doors Down

Samba Triste – Tom Jobim

Anúncios

8 Respostas to “Santa Ceia”


  1. […] Para ler o episódio, clique aqui. […]

  2. Alice Says:

    Antes de começar a ler o episódio, meu protesto: não façam mais isso não.. Esperei pelo dia 20 e nada de episódio novo
    😦
    Mas o dia 30 chegou [3 de maio pra mim, na verdade]..
    Vou ler agora.. Até daqui a pouco
    =**

  3. Gustavo Says:

    Salve galera.

    Que Natal agitado hein… Nitroglicerina pura!!!!!

    Gostaria de ter visto a cara da Rebeca após a cantada da Lilian, mesmo ela tendo sido infame. XD

    Só mais uma coisas, quando é que o Carlos descerá do pedestal??? Vai ser arrogante assim lá na China. Só por ele ser “adevogado” não quer dizer que ele seja melhor que todos. Se bem que conheço tanta gente assim…

    Até que enfim a Sara teve um pouco de paz, pois coitada…

    As coisas me parecem que estão caminhando bem também para o Tomás e Vitória.

    Para finalizar, será a “gariranha” da Pâmela ficou grávida ou dará o golpe da barriga??? Chupa essa manga Carlos!!! XD

    Até o próximo.

  4. Carine Dávalos Says:

    Eu preciso saber: a Pamela e o Carlos nao fizeram besteirao ne?!?!? Era isso que ela queria contar… vai, vai, fofoca, libera um sneak peak so pra mim! >.<

    Voltando…
    Minha familia, por mais que todo mundo brigue o ano inteiro, nao se fale ou fale mal um do outro, discuta por besteira e tenham arranca rabos lendarios, nunca acabaram com uma ceia de Natal antes da sobremesa. Deve ser por causa dessas coisas que eu sou cada vez mais apaixonada pelos Andrades. [/rasgaçao de seda]

    O Carlos e minha figura favorita, ele faz merda e ainda quer ficar por cima da carne seca… USHashuaUSHshsuUSHUashuSHuashUSH³²¹
    Sara e Fernando, eu ainda torço que eles se entendam!
    Rebeca aprendendo liçoes dos Andrades, eles vao se dar bem, muito bem!
    Eu ja cansei de dizer que a Vera me da ojeriza, bem feito pra ela, levou uns tapas do ego da Nora!!! Saulo ficou suiço nessa!
    Carol pisando na bola com o namorado bonitao… ai ai ai…
    Junior, aaaaaaah, o Junior ta crescendo gente… isso e tao feliz… =D
    Vitoria e Tomas voltando ao casal feliz do começo de temporada!
    D. Diva e sua arrogancia, Sergio corta ela que me deixa feliz!!!

    Em fim… demorei pra ler, mas adorei!
    =D

  5. Natie Says:

    Nao tinha como a ceia dos Andrade acabar diferente neh? Afinal, eram Nora e Vera se encontrando! E a Nora eh mtuuu boazinha tentando uma boa relação… Admiro ela!
    E falando na Nora, jah tinha lido o texto q ela escreveu pro blog no blog da Sam, mas li de novo (mtuuuuu lindo!!! :D)
    Junior de volta e os 5 irmaos Andrade foi DEMAIS! Adorooo qdo eles armam os planos e se juntam… E vcs (autores) fazem desse encontro sempre mtu natural, PARABENS!
    Carol e Roberto ja se entenderam nesse epi (ainda bem), cruzando os dedos pra Sara e Fernando (pena das crianças!!) e Tomas e Vitoria felizes!! Apesar de eu estar preocupada com a dor nas costas do Tomas…
    Foraaaaaaaaa na Diva! hehe… AMEII!
    Lillian bebada e dando em cima da Beca foi demais… heheh…
    Aaaah, e minha cena preferida foi a do volei! Eu amooo esses irmaos juntos… 😀

    Vou ler o proximo agora…

    Beijoos!

    1. osandrades Says:

      Natie! Que bom te ver novamente por aqui!

      Então, realmente, a Nora é um anjo. kkkkkkkkk

      E nós adoramos escrever as tramóias dos irmãos. =P Eu, pelo menos. E obrigado pelo elogio!

      O texto da Sam realmente ficou incrível! Ela se superou!

      Bom, continue lendo… Eu vi que você já comentou no 1.18… Agora leia o finale!

      Beeijos!

      Muito obrigado pelos comentários,

      Rodrigo Andrade

  6. Alice Says:

    Foi mal a ausência, pessoal!! Mas esse fim de semana devo colocar “Em família” em dia
    =))
    Natal agitado esse, nééé?? O.o
    Não gosto da Vera desde sempre e acho o fim o Saulo não tomar partido pela família dele nessa confusão!!
    Sinto falta de Fernando e Sara juntos.. Lembro que quando li o primeiro episódio, tive neles dois o exemplo de casal.. Torcendo pra que eles se resolvam!!
    Com pena do Junior quando descobrirem sobre ele estar envolvido no acidente da Vitória.. E vai espirrar pra família toda, claro!!
    Mas pra mim o diálogo do episódio foi:
    [Júnior: Sunga? – Ele ri e passa o braço pelo ombro do irmão, o levando até a porta do restaurante – Ai, Carlos, você está definitivamente ficando uma bicha velha.
    Carlos: Bicha velha, é? Tipo Clodovil?
    Júnior: Não tão bicha e nem tão velha. Tá mais pra Marc Jacobs. – Eles riem.
    Carlos: Ah, então eu fico feliz. Vamos logo, senhor jovem descolado.]
    O Carlos tá é bem.. Comparado ao Marc Jacobs aí!!
    Até o fim de semana [quando devo terminar os outros episódios]
    =**

  7. Laís Says:

    Essa Vera não vale nada mesmo, não deveria nem ter aceito o convite, se prestasse, é claro.

    Ah, adoro esse texto que a Nora escreveu sobre os irmãos e tal, é lindo .

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s