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1.10: Sonhos desfeitos

Sinopse: Tomás recebe más notícias dos médicos. Carol completa 35 anos em meio às más noticias na família, mas Roberto mostra porque todo aniversário deve ser comemorado. Vera decide seu relacionamento com Saulo. Rebeca revela para a mãe que fez o exame de DNA para comprovar a paternidade de Guilherme. Júnior descobre segredos devastadores.

Nos episódios anteriores: Sara leva Rebeca para fazer o exame de DNA. Saulo tenta iniciar um romance com Vera. Sara e Tomás decidem vender a casa de Petrópolis para pagar um pouco das dividas da Andanças. Nora exige que os filhos passem um último final de semana juntos na casa da serra. Os cinco reunidos resolvem jogar “Eu Nunca” e o clima esquenta. Sara e Ferdi discutem com Júnior por seu descuido e Vitória sofre um acidente.

01. EXTERNA – DIA – RUAS DO RIO DE JANEIRO

O som do carro toca uma música eletrônica no último volume. Júnior está no banco de trás em um estado de transe, sem saber ao certo o que acontece, e só fica mais tonto com o movimento do carro em alta velocidade.

Betão: O que aconteceu com você, Ju? Está completamente sem controle.

Júnior: Dirige essa porcaria logo, e me deixa em casa que cansei de vocês por hoje.

As gargalhadas aumentam, Betão toma a garrafa de Whisky da mão de Augusto e dá um gole. Quando ele volta sua atenção para a direção, uma mulher atravessa a rua, ele buzina e tenta frear. Devido à alta velocidade ele não consegue evitar a colisão. Júnior que está meio deitado no banco de trás, cai no chão e bate a cabeça, desacordando com a pancada.

Betão e Augusto não sabem o que fazer, percebendo que não tinha ninguém por perto resolve fugir deixando a mulher caída e desacordada no chão.

02. INTERNA – NOITE – HOSPITAL – SALA DE ESPERA

Tomás está sentado na cadeira da sala de espera do hospital. A sua volta algumas pessoas rezam por seus familiares, outros choram após receberem notícias. Ele passa a mão pelos cabelos e olha o relógio. Duas horas tinham se passado desde que ele recebeu o telefonema e ainda nenhuma notícia de sua esposa. Uma confusão na recepção chamou sua atenção.

Nora: Por favor, eu queria informação sobre minha nora, Vitória Andrade. Ela foi trazida pra cá…

Recepcionista: Senhora, por favor. Eu não posso passar informação nenhuma, só para um familiar imediato.

Antes que ela pudesse falar algo, Tomás chega na recepção.

Tomás: Mãe…

Nora vai até o filho e o abraça. Ele está sério e abatido, os olhos vermelhos, provavelmente de chorar.

Nora: Como está a Vitória? E o bebê?

Tomás: Não sei ainda. O médico vem avisar assim que terminar a cirurgia.

Os dois se sentam. Tomás apóia a cabeça no ombro da mãe, que o abraça forte.

Nora: Vai dar tudo certo, tenho certeza. Ela está num dos melhores hospitais da cidade.

Carol: Como esse atropelamento aconteceu?

Sara: Carol?! Não é o momento.

Carlos: A Carol está certa, pegaram o culpado? Eu posso falar com um promotor amigo meu. Esse caso não pode ficar impune.

Tomás: Eu não sei, estava em casa quando um policial ligou falando que a Vitória tinha sido atropelada e que ela foi trazida pra esse hospital.

Nora: Isso não é hora para ficarem questionando seu irmão. Alguém conseguiu falar com o Júnior?

Carol: Ainda não. Mas já deixei recado no telefone dele, pra me ligar assim que escutasse.

Sara: É melhor assim, ele não vai ajudar em nada.

Tomás: Você falando assim? O que aconteceu entre você e o Ju?

Carlos: É melhor nem saber.

Sara: Outra hora te conto.

03. INTERNA – NOITE – CASA DO BETÃO

Augusto e Betão carregaram Júnior para dentro de casa. Colocam-no na cama e começaram a andar de um lado para outro.

Augusto: Viu o que você fez? Não presta atenção.

Betão: Eu? Você que me desconcentrou.

Augusto: O que vamos fazer?

Betão: Eu vou procurar uma oficina de um chegado meu para concertar o amassado do carro, e não vai acontecer nada.

Augusto: E a mulher? Será que ela…

Betão: Não quero nem saber, alguém com certeza a encontrou e levou pro hospital. Vamos atacar o bar do meu velho, tem toda bebida que você possa imaginar.

Os dois escutam o celular de Júnior tocando.

Augusto: Será que a gente atende?

Betão: Não, deve ser um dos irmãos dele enchendo a paciência, e ele deve acordar só amanhã.

Os dois descem e deixam Júnior dormindo. A testa com um pequeno corte e o sangue que escorreu já seco. Seu celular tocando e caindo na caixa postal.

04. INTERNA – NOITE – HOSPITAL – CONSULTÓRIO MÉDICO

Já era quase meia noite quando o médico que operou Vitória aparece para conversar com Tomás.

Dr. Tadeu: Senhor Tomás Andrade?

Tomás e todos os outros se levantam e esperam pelas notícias.

Dr. Tadeu: Venha comigo senhor Andrade. Eu preciso falar em particular com você.

Tomás segue o médico deixando os familiares ansiosos.

Tomás: Como está minha mulher e meu filho? Eles estão vivos? Por favor, doutor.

Eles entram numa sala e dois médicos estão esperando por eles.

05. INTERNA – NOITE – HOSPITAL – SALA DE ESPERA

Sara anda de um lado para outro, impaciente. Carol enrola uma mecha de cabelo nos dedos e Carlos folheia uma revista para passar o tempo. Nora conversa em um canto com os pais de Vitória, Antônio Lucas e Regina. Carlos é o primeiro a ver o irmão voltando para junto deles.

Carlos: Então, Tomás? Como eles estão?

Tomás fica em silêncio, e respira fundo antes de dar a notícia.

Tomás: O Tiago nasceu, mas está na incubadora para se manter aquecido. Eles tiveram que colocar um tubo para ajudá-lo a respirar, porque os pulmões ainda não estavam completamente desenvolvidos. Ele está na UTI neonatal onde ficam os bebês de risco.

Tomás passa a mão pelo cabelo e esfrega os olhos, aquela não era a pior notícia que teria que dar para eles.

Regina: E minha filha? Como está a Vitória?

Tomás: A Vitória está em observação na UTI, esperando o efeito da anestesia passar. Ela chegou muito machucada, o carro que a atropelou estava em alta velocidade e o impacto foi muito forte. – ele parou um momento para engolir seco, aquele momento parecia um pesadelo – Ela sofreu uma lesão na coluna e não tem reparo.

Nora: O que isso quer dizer?

Tomás: Ela não vai voltar a andar.

Os pais de Vitória se abraçam, chocados com aquela notícia. Nora não tem reação, Vitória era como uma filha para ela. Carlos é o primeiro a abraçar Tomás.

Nora: O que você precisa meu filho? O que eu posso fazer para ajudar? – ela puxa o filho para seus braços.

Tomás: Eu não sei, ainda espero que isso seja só um pesadelo, mas vocês podem ir pra casa. Eu vou ficar esperando a Vitória acordar. Eles vão me deixar ficar com ela.

Regina: Ela já sabe o que aconteceu?

Tomás: Não, ela chegou desacordada e ainda está sob efeito da anestesia. Já falei com os médicos e eu vou dar a notícia pra ela.

Sara: Não é melhor o médico explicar?

Tomás: Não, ela vai ficar mais calma comigo. Vocês devem ir pra casa, descansar. A Vitória vai precisar de todos, descansados.

Nora: Não quer que eu fique meu filho? Você pode precisar de companhia.

Tomás: Não mamãe, vai pra casa. Eu vou ficar com a Vitória, esperando ela acordar.

Antônio: Nós vamos ficar aqui fazendo companhia ao Tomás e esperando nossa filha acordar.

Carol: Você quer que pegue alguma coisa na sua casa? Roupas, escova de dentes…

Tomás: Amanhã um de vocês pode fazer isso.

Sara: Você fica calmo, vai dar tudo certo, está bem? Concentra na sua família que eu cuido do resto.

Enquanto Carol e Sara conversam com Tomás, Nora sussurra para Carlos.

Nora: Se eles vão ficar, eu também vou. É meu filho que está sofrendo. E meu neto também.

Carlos: Mamãe, o Tomás pediu pra gente ir.

Nora: Não quero saber, se eles ficam, eu também fico.

Tomás percebe Nora conversando com Carlos e já imagina o assunto.

Tomás: Seu Antônio, os médicos falaram que a Vitória só vai acordar amanhã. Vai ser melhor todos irem descansar e amanhã voltam.

Regina: Mas…

Carlos: O Tomás tem razão. – ele resolve se meter para ajudar Tomás com aquele dilema. – A Vitória está dormindo e passar a noite no hospital não fará diferença. Ela vai precisar da gente depois que acordar.

Tomás: Sabe como a Vitória se preocupa com vocês. Toda essa tensão, além da noite sem dormir é uma péssima combinação para a pressão seu Antônio.

Antônio: Eu não queria deixar minha filha, mas você tem razão Tomás. Se ela acordar, não importa a hora que for, você liga pra gente.

Tomás: Podem ir despreocupados que eu ligo.

A família se despede e todos vão embora. Tomás fica na sala de espera até que uma enfermeira o busca, para levá-lo até a UTI, para ficar junto da esposa.

06. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Carol e Nora entram em casa e deixam o corpo cair no sofá. Cada uma com seus pensamentos.

Carol: Como isso foi acontecer? Os dois estavam tão felizes, fazendo planos para o bebê.

Nora: O Tiaguinho vai ficar bem, você vai ver. Ele tem que ficar. Seu irmão e a Vitória não merecem uma coisa dessas.

Carol: Eu vou fazer um chá, quer também?

Nora: Eu faço, você na cozinha é um desastre.

Carol: É só um chá, você acha que eu não sei ferver água?

Nora: Não sei, você sabe?

Carol: Não vou discutir com você, mamãe. Pode fazer o chá, eu quero camomila.

Nora: Vou fazer de erva cidreira, ajuda a relaxar.

Carol resolve não retrucar, Nora estava nervosa e queria evitar uma discussão por coisa boba.

07. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA

Carlos deixa Sara em casa, que entra sem fazer muito barulho. Ela olha as mochilas das crianças espalhadas na sala. Em cima da mesa, desenhos de casinhas, cachorros, gatos e crianças, todos dedicados a Tomás e Vitória. Ela sorriu com a demonstração de carinho dos gêmeos.

Fernando: Como está a Vitória e o bebê?

Sara: Nada bem. O bebê está numa incubadora e com uma máquina respirando por ele. A Vitória – ela balança a cabeça – bem, ela vai ficar numa cadeira de rodas.

Fernando: Meu Deus, que absurdo. – ele olha em volta, vendo as malas jogadas, fora do lugar – Nem tive tempo de guardar as coisas, as crianças estavam muito agitadas e preocupadas com a tia e o priminho.

Sara: Eu vi os desenhos, eles podem ser uns pestinhas de vez em quando, mas têm um coração enorme.

Fernando: E vou guardar as mochilas das crianças.

Sara: Deixa isso aí e vamos dormir. Amanhã a gente arruma.

08. INTERNA – NOITE – HOSPITAL – UTI

Tomás olha para Vitória dormindo na cama do hospital. A aparência frágil e indefesa. Ele levanta a mão dela, dá um beijo carinhoso e acaricia o rosto, procurando um pouco do conforto dela.

Tomás: Meu bem, acorda. Por favor.

Ele repousa as mãos, ainda unidas, na cama. Uma enfermeira checa os sinais vitais de Vitória.

Tomás: Está tudo bem?

Enfermeira: Sim senhor. Os sinais estão fortes. Ela deve acordar em algumas horas.

Tomás: Obrigado.

Enfermeira: Eu lamento, mas o senhor precisa deixar a UTI. Já foi uma permissão especial do médico você entrar durante a noite.

Tomás: Será que eu não posso ficar mais um pouco? Não vou incomodar, prometo.

Enfermeira: Lamento, são normas do hospital.

Tomás levanta, dá um beijo na testa de Vitória e sai do leito. Na sala de espera e se surpreende com Carlos, folheando uma revista.

Tomás: Eu pensei que tinha falado pra todos irem para casa.

Carlos: Você já deveria saber que pelo menos um dos Andrades iria ficar aqui. Devia dar graças a Deus que não é a mamãe.

Tomás: Carlos, eu to falando sério. Pode ir pra casa.

Carlos: Você pode precisar de alguém, resolvi ficar.

Tomás: Você é médico agora? Ou detetive, para descobrir quem fez isso com minha mulher?

Carlos: Não sou nenhum dos dois, infelizmente, mas sou seu irmão e sei que a pior coisa é deixar você sozinho com seus pensamentos nessa hora. Não quer conversar?

Tomás: Na verdade não.

Carlos: Então ficamos calados sozinhos. – ele finge voltar a ler a revista que tinha na mão.

Tomás: Obrigado por voltar.

Carlos: Não precisa agradecer.

Carlos dá um aperto na mão de Tomás e volta a ler a revista pela terceira vez. Os dois ficam sentados lado a lado em um silêncio confortável e cúmplice.

09. INTERNA – MANHÃ – CASA DO BETÃO

Júnior acorda com a cabeça latejando e o estômago doendo. Levanta-se devagar e vai cambaleando até o banheiro. Quando se olha no espelho, percebe o corte na testa e o sangue ressecado. Ele joga água no rosto até limpar a ferida.

No quarto, ele percebe o celular caído num canto, sua caixa postal estava cheia, ele então decide escutar as mensagens. O conteúdo era o mesmo, alguém de sua família pedindo para ligar, que era urgente. Ele resolve ignorar as mensagens e desce para encontrar seu amigo.

Júnior: Betão, acorda.

Betão: O que foi Júnior? Tá muito cedo.

Júnior: Eu preciso de uma carona. Você devia ter me deixado em casa.

Betão: Você estava apagado ontem, achei melhor te poupar de sermões, mas tudo bem nem precisa agradecer. – ele responde em tom irônico.

Júnior: Valeu brother, mas eu preciso de uma carona, você vai acordar ou não?

Betão: Não, e o carro não está em condições de sair na rua.

Júnior vê o amigo virando a cara e resolve não perturbar mais, mesmo não entendendo o motivo do comentário sobre o carro não ter condições.

10. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Carol entra na cozinha e percebe que a mãe já estava ativa, com o café pronto na mesa.

Carol: Bom dia.

Nora: O Júnior não dormiu em casa. Você tem alguma notícia?

Carol: Mamãe, o Júnior tem 26 anos, deve ter ficado na casa de algum amigo, logo chega em casa.

Nora: Esse menino está só me dando problema ultimamente. Vou ter uma conversa séria com ele, mas depois que as coisas se acalmarem.

Carol: O Tomás ligou? Tem alguma notícia?

Nora: Ainda não, mas eu vou logo ligar pra ele, saber o que precisa de casa. Vou aproveitar que não tenho nenhuma aula de manhã para fazer isso.

Antes que Carol pudesse fazer qualquer comentário seu telefone tocou, ela checou o número e viu que era o Júnior.

Carol: Onde você está e por que não me ligou antes?

Júnior: Justamente por isso, para não ouvir sermão. Será que você pode me pegar aqui na casa do Betão?

Carol: Ju, eu não liguei para dar sermão. Aconteceu um desastre ontem, a Vitória foi atropelada, está no hospital e precisaram fazer o parto.

Júnior: Como eles estão? E o Tomás? Ele deve estar querendo me matar.

Carol: Ele não tem cabeça pra você agora, mas a mamãe já está armada esperando você voltar.

Nora fica brava com Carol pelo comentário que ela fez e olha feio para a filha.

Carol: Agora ela está querendo me matar. Onde mora esse seu amigo que eu vou te buscar.

Júnior: Não, deixa pra lá. Em que hospital a Vitória e o bebê estão?

Assim que Carol passou o nome do hospital, Júnior desligou o telefone sem se despedir.

Nora: O Júnior está bem?

Carol: Sim, está na casa de um tal de Betão.

Nora: Esse rapaz não é boa companhia. Ele vem pra casa ou vai para o hospital?

Carol: Acho que para o hospital.

Ela termina de engolir o café, pega uma maçã e joga dentro da bolsa.

Carol: Avisa o Tomás que eu passo por lá na hora do almoço se der tempo, senão só de noite. Qualquer coisa me ligue.

Nora: Onde vai com tanta pressa?

Carol: Hoje tem um debate dos candidatos na UFRJ.

11. INTERNA – DIA – HOSPITAL – ENTRADA

Júnior entra no hospital. Como não sabe onde está Tomás, resolve ligar. Dois toques e o irmão atende.

Júnior: Tomás, eu tô aqui na entrada do hospital.

Tomás: Você está aqui? Eu e Carlos estamos na lanchonete conversando, vem pra cá.

Eles despedem e Júnior vai encontrar com os irmãos, com um embrulho seguro nas mãos. Assim que os avista, vai direto na direção de Tomás.

Júnior: Me desculpa não ter vindo antes, só ouvi os recados hoje.

Carlos: Imagino porque só viu hoje. Depois do que aconteceu ontem.

Tomás: Não importa Júnior, você está aqui agora. A Carol te falou o que aconteceu?

Júnior: Ela só me contou que você estava aqui, que a Vitória tinha sofrido um acidente e que precisaram antecipar o parto.

Tomás: A Vitória está fora de perigo, mas não vai voltar a andar. Meu filho ainda não se sabe, ele está respirando com a ajuda de aparelhos.

Júnior: Eu não sabia que era tão grave assim. – ele fala escondendo a caixa atrás de si.

Carlos: O que é isso que você tem na mão?

Júnior: Eu pensei que o clima era de comemoração pela chegada do bebê. – ele fala entregando a caixa pra Tomás.

Tomás abre e dentro tinham vários charutos.

Júnior: São de chocolate, e é tradição o pai dar chocolates aos visitantes. Me desculpe, Tomás.

Tomás abre a caixa e tira três charutos de dentro e entrega para os irmãos.

Tomás: Meu filho nasceu e eu preciso comemorar, ele está vivo, apesar de tudo.

Júnior: Não está chateado?

Tomás: Não, o presente foi ótimo, e as primeiras pessoas que vão comemorar comigo são meus irmãos. – ele sorri para Carlos e Júnior que pegam um charuto cada um. – E onde você arrumou esse corte na testa?

Júnior: Bati a testa entrando no carro, não foi nada demais.

Carlos: Imagino o estado que você estava para bater a cabeça entrando num carro.

Júnior: Não quer passar um sermão também, Tomás?

Tomás: Eu já tenho preocupações demais para me preocupar com você. Vamos celebrar meu filho, que é melhor.

Os três se sentam e celebram, mesmo que de forma contida o nascimento do mais novo membro dos Andrades.

12. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA SARA – SALA

Sara termina de arrumar a cozinha e senta ao lado de Fernando no sofá. Ele estava vendo televisão.

Fernando: Já teve alguma notícia?

Sara: Ainda não, mas vou ligar mais tarde pra saber como a Vitória e o bebê estão.

Fernando: Nasceu muito antes do tempo.

Sara: Eu não quero nem pensar nisso, o Tomás e a Vitória vão ficar arrasados.

Fernando: Você está pensando no nosso bebê, não é?

Sara: Eu não quero falar sobre isso.

Fernando: Nós nunca conversamos sobre o que aconteceu, Sara. desliga a televisão e vira-se para esposa.

Sara: E não vai ser hoje. – levanta-se do sofá andando de costas para Fernando.

Fernando: Você me culpa pelo aconteceu, não é?

Sara: O quê? Não, de jeito nenhum. – vira-se para ele, apreensiva.

Fernando: Eu perdi o emprego, sobrecarreguei você com os problemas em casa. – pausa – Fiquei ausente…

Sara: Tudo acontece por um motivo, Ferdi. Talvez tenha sido melhor assim.

Fernando: Você está falando sério?

Sara: Criar três filhos não é fácil. Boas escolas custam caro, e nós não estamos mais com idade para outro bebê, madrugadas acordados, choro, fralda.… – ela senta-se no sofá de frente ao sofá de Fernando, mas distante.

Fernando: Você não queria mais um filho, é isso que você tá querendo me dizer? – mede as palavras, mas as diz em tom de acusação.

Sara se abala.

Sara: Não… – pára e respira fundo.

Fernando: Você não queria esse filho. – fala devagar, tentando absorver o que ouvira.

Sara: Eu sei que isso é horrível. Na minha cabeça, eu acho que eu o perdi porque eu não o queria e viver com isso tem sido muito difícil. E você só está tornando tudo pior agora…

Fernando: Por que você não me contou isso antes?

Sara: Você já ficou chateado porque não te contei da gravidez, como você ia ficar se eu te contasse que não queria ter outro filho?

Fernando: Você não deveria ter me deixado de fora de tudo isso. – ele pára e respira fundo. – Eu achei que tivesse algo a ver conosco… Algum problema, algo que eu fiz, não sei. Venho me martirizando pensando nisso.

Sara: Eu sinto muito, Ferdi, por várias vezes quis te contar e conversar, mas não consegui… e, então, aconteceu…. Mas eu nunca te culpei por isso, eu que… que me sentia culpada, nunca quis outro filho e meu corpo o rejeitou. – fecha as mãos pressionado uma na outra, nervosa. – Eu estava evitando o assunto, porque tinha medo de que você me culpasse também. Eu não iria suportar se…

Fernando: Eu nunca faria isso. – fala balançando a cabeça, chateado.

Sara encara o marido por um instante, depois desvia o olhar.

Sara: Eu sei que por você, teríamos um monte de filhos…

Fernando: Não sou tão infantil assim, Sara – interrompe a esposa, áspero – Eu sinto que a questão não era termos ou não outro filho.

Sara: Como assim?

Fernando: Deixa para lá… – abaixa a cabeça, derrotado.

Sara: Não, você não pode falar isso, trazer tudo a tona e querer ‘deixar pra lá’. Diz o quê é, Fernando!

Fernando: Você realmente não tá percebendo, Sara? O problema é a gente. – respira fundo e completa num suspiro: – Já não somos mais os mesmos um para outro.

Sara não fala nada, mas entende o que o marido queria dizer e abaixa a cabeça sentida.

Fernando: É melhor a gente encerrar esse assunto. Não temos que apontar culpados pelo o que aconteceu. Foi uma fatalidade, igual Tomás e Vitória.

Sara balança a cabeça concordando. Os dois ficam sentados, com muita coisa para falar, mas sem nenhum ânimo ou coragem para revelar o que sentiam realmente.

13. INTERNA – DIA- HOSPITAL – UTI

Tomás ficou um pouco mais conversando com os irmãos e voltou para junto de Vitória. Não demorou muito ela começou a acordar.

Tomás: Vitória, acorda, meu bem. Abre seus olhos.

Vitória: Se-de.

Tomás: Eu vou pegar, espera um pouco.

Tomás pega o copo com água e molha a gaze que a enfermeira já tinha deixado preparado para quando ela acordasse.

Tomás: Você não pode beber de uma vez, então eu vou molhar seus lábios e você engole bem devagar.

Ela balança a cabeça entendendo o que o marido fala. Pouco tempo depois ela pisca, ajustando os olhos à claridade do quarto. Ela tira a mão de Tomás.

Vitória: O que aconteceu?

Tomás: Você sofreu um acidente ontem, e eles te trouxeram para o hospital.

Ela leva a mão para o ventre e não sente a barriga protuberante. Tomás vendo o desespero nos olhos da esposa, que já tirava conclusões precipitadas, adiantou-se.

Tomás: Eles precisaram fazer o parto, mas ele está bem.

Vitória: É muito cedo. Sete meses é muito pouco. – ela já fala, os olhos cheio de lágrimas, algumas já caindo.

Tomás: Shhh, fica calma. O Tiago está sendo muito bem cuidado. E você precisa acreditar que ele vai conseguir.

Vitória: Como é nosso filho?

Tomás: Eles ainda não me deixaram vê-lo, disseram que depois das dez, eu posso ir lá a hora que quiser.

Vitória: Eu também quero ir.

Tomás: Você precisa descansar também, Vi. Precisa se recuperar. Me deu um tremendo susto, não gosto nem de lembrar.

Vitória: Você parece cansado.

Tomás: Estou bem. Vou chamar uma enfermeira para avisar que acordou. Você está sentindo alguma dor? Algum incomodo?

Vitória: Não sinto nada, deve ser um ótimo analgésico.

Tomás aperta a campainha ao lado da cama e logo uma enfermeira se aproxima. Não demora muito o médico que operou Vitória chega para examiná-la.

14. INTERNA – DIA – AUDITÓRIO DA UFRJ

Carol está sentada em um canto. Enquanto espera o início do debate, termina uma coluna para o jornal do dia seguinte. Ela aguarda o começo do debate. O assessor de Gabriel Marques vem cumprimentá-la.

Rafael: Então, Carol, resolveu voltar de vez para o Rio?

Carol: Ainda não, estou só cobrindo as eleições e no final do ano volto para São Paulo. O que vocês acharam da pesquisa que saiu ontem?

Rafael: Temos tempo de reverter.

Carol: A chance de vocês é ganhando votos em cima do Sebastião Ramos, o Roberto Pellegrini está crescendo e ganhando novos eleitores a cada semana.

Rafael: Não sei como tem gente que vota em Sebastião Ramos, não depois de tantas denúncias contra ele.

Carol: Nunca ouviu que brasileiro tem memória curta?

Rafael: Vou deixar você com seu trabalho e vou cuidar do meu. A gente ainda se fala.

Não muito tempo depois, Roberto Pellegrini se aproxima e puxa conversa.

Roberto: Ficou a noite inteira pensando em mim?

Carol: O quê?

Roberto: As olheiras e o ar de cansaço.

Carol: Eu não perco meu sono com você.

Roberto: Pois eu perco o meu com você.

Carol não esboça qualquer reação. Roberto fica surpreso, geralmente ele conseguia tirar alguma resposta indignada dela, e deixando-a com os olhos bem aberto e a bochecha rosada.

Roberto: O que foi? Achei que gostava das minhas brincadeiras.

Carol: Eu nunca disse que gostava, e muito menos hoje que já tenho problemas demais.

Roberto: O que foi? Quer conversar?

Antes que Carol pudesse decidir o que queria, uma mulher chegou pegando Roberto pelo braço.

Karen: Roberto, o reitor da universidade está esperando você para as fotos ante de iniciar o debate.

Roberto: Claro, já estou indo. Karen, essa é a repórter Carol Andrade –virando-se para Carol, ele continua a apresentação. – Carol, essa é minha secretária particular, Karen Fonseca. Ela que me mantém pontual para os eventos.

Karen: Muito prazer, Carol. Vamos Roberto?

Roberto: Dois minutos, só terminar de responder uma pergunta.

Karen: Tudo bem, dois minutos, ou eu volto.

Carol: Que mocinha insistente – ela fala depois que Karen se afasta.

Roberto: Não liga, ela só está cumprindo com a obrigação dela. Então quer conversar.

Carol: É melhor não, você precisa ir tirar as fotos ou a Karen volta e te leva arrastado.

Roberto dá uma risada e levanta-se, deixando Carol incomodada por ele ter ido e não ter deixado a secretária esperando.

15. INTERNA – DIA – HOSPITAL – UTI NEONATAL

Tomás deixa Vitória descansando e vai até a UTI neonatal ver seu filho, saber como ele está reagindo. A enfermeira responsável entrega a ele uma touca e uma roupa esterilizada. Assim que ele se veste, ela o leva até a incubadora, onde está seu filho. Tiago era bem pequeno tinha um pequeno tubo em sua garganta e muitos fios ligados a ele.

Enfermeira: É a primeira vez que o senhor vem até aqui? – vendo que Tomás acena que sim, ela continua – Eu sei que pode parecer assustador ver seu filho ligado a tantos aparelhos, mas isso está ajudando ele a se manter vivo até que se desenvolva mais.

Tomás: Ele está bem? Os remédios estão fazendo efeito?

Enfermeira: As primeiras setenta e duas horas são as mais importantes, se ele conseguir superar, ele tem chances melhores. – ela olha com simpatia para o pai assustado – Por que não se senta nesta cadeira e poderá tocar no seu filho?

Tomás senta, a enfermeira abre a entrada para as mãos. Ele coloca a mão e com o dedo, bem de leve, passa a mão pelo corpinho do filho. Os batimentos cardíacos aceleram um pouco e Tomás puxa a mão assustado.

Enfermeira: Pode encostar nele, não vai machucá-lo. Seu filho sentiu o contato da sua mão e se assustou, só isso.

Tomás então com um pouco mais de confiança colocou o dedo na mãozinha do filho, que segurou seu dedo com mais força que ele esperava. Ele sorriu e os olhos se encheram de lágrimas. A enfermeira, notando que Tomás estava mais confiante, afastou dando privacidade para o momento entre pai e filho.

Tomás: Ei garotão, é o papai. Estava esperando tanto para te conhecer, só não imaginava ser tão cedo. – com a outra mão ele enxuga a lágrima que cai – Sua mãe já acordou e te manda muitos beijos, qualquer hora ela vem aqui te ver. Você precisa ficar bom, meu filho, eu e sua mãe principalmente, vamos precisar muito de você.

Tomás ficou um tempo olhando e falando com o filho. Contando os planos que tinha para quando ele fosse pra casa, ou quando estivesse maior. A mesma enfermeira voltou depois de um tempo, com uma agulha.

Tomás: O que é isso que vai dar ao meu filho?

Enfermeira: É um remédio para ajudar a desenvolver o pulmão do bebê.

Tomás: Será que eu posso tirar algumas fotos? Minha esposa não pode vir até aqui ainda, mas ela iria adorar conhecer nosso filho.

Enfermeira: Claro, se quiser eu tiro uma foto com vocês dois, eu só preciso aplicar o medicamento e posso fazer isso.

Tomás esperou, e a enfermeira tirou a foto com o filho segurando em seu dedo. Depois ele tirou várias outras fotos do filho, para a família conhecer o mais novo Andrade. Ele se despede do filho, prometendo voltar mais tarde.

16. INTERNA – NOITE – HOSPITAL – QUARTO DE VITÓRIA

Depois de dois dias na UTI, o médico decidiu que seria melhor deixar Vitória ir para o quarto, ela estava bem e não precisava de cuidados constantes. Tomás ainda não tinha contado sobre as conseqüências do acidente. Nora, Júnior e Carlos estavam no quarto e Tomás mostrava, orgulhoso, as fotos do filho.

Tomás: Viram como ele já está maior que ontem?

Carlos: Se você está falando que está, não vou te contradizer.

Nora: Claro que está maior, e vai crescer mais ainda. Eles já te levaram para ver o Tiaguinho, Vitória?

Vitória: Ainda não, mas o Tomás sempre me trás notícias e fala de mim para ele. Amanhã quem sabe. Tomara que eles diminuam meus remédios, está tão forte que eu não sinto nem minhas pernas.

Júnior tossiu para encobrir o susto da cunhada ainda não saber de tudo. Carlos olhou para Tomás, mas não disse nada. Nora quis disfarçar a surpresa dos filhos e oferece água para Júnior.

Nora: Toma um pouco de água para passar o engasgo.

Júnior: Obrigado, mãe.

Carlos: Você se lembrou de alguma coisa do acidente Vitória?

Vitória: Nada de novo, só lembro do carro vermelho ziguezagueando na rua, a música alta e a buzina.

Ninguém tinha contado os detalhes do acidente para Júnior ainda e ele pensa que ele várias vezes tinha dirigido o carro daquela forma, voltando embriagado das suas baladas.

Júnior: A polícia já pegou os culpados?

Tomás: Ainda não, ninguém viu o acidente, ou apareceu para testemunhar que viu. Mas parece que o motorista estava bêbedo e em alta velocidade pelas marcar de frenagem na rua.

Nora resolve voltar o assunto para o neto antes que Tomás fique mais nervoso. Júnior fica quieto num canto, pensando na estranha coincidência do carro que atropelou sua cunhada, ser da mesma cor que o carro do Betão. E o amassado no capô.

Carlos: Algum problema, Ju?

Junior: Uhm… Não, eu só lembrei que fiquei de passar na casa de um amigo para pegar umas músicas, você pode levar a mamãe em casa?

Carlos: Claro, minha vida ultimamente se resume a trabalho e família.

Júnior: Valeu, Carlos. – ele vira pra cunhada e dá um beijo no rosto dela – Amanhã eu volto pra você descansar dessa cara feia que é meu irmão.

Vitória: Volta sim, mas eu não me canso da cara dele nunca.

Tomás: Viu como se faz, né, Ju? Vê se aprende. – ele brinca abraçando o irmão.

Nora: Você volta pra casa ainda hoje?

Júnior: Até você agora, mãe?

Nora: Eu só quero saber, que se ouvir um barulho de madrugada eu não assusto achando que é um ladrão.

Júnior: Eu volto cedo, só vou pegar as músicas e vou pra casa. Se ainda se demorar aqui, vai me encontrar em casa.

Nora: Assim espero.

Júnior termina de se despedir e sai. Carlos e Tomás seguram para não rir da bronca que Nora tinha dado no filho caçula.

17. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA VERA

Vera estava terminando de se arrumar quando o interfone toca. Assim que descobre que seu convidado chegou, ela pede que ele suba e abre a porta do apartamento, dando uma última checada no visual.

Vera: Você chegou na hora certa, Saulo. – ela percebe a cara de cansaço dele e fica preocupada. – O que aconteceu?

Saulo: A mulher do Tomás sofreu um acidente e está no hospital. O bebê nasceu muito cedo.

Vera: Nossa, eu sinto muito. O Tomás sempre foi muito gentil comigo antes de descobrir sobre eu e o Guilherme.

Saulo: Mas você não me convidou aqui para isso. Fiquei surpreso com sua ligação.

Vera: Você me pediu para pensar sobre nós, eu pensei que você quisesse uma resposta.

Saulo: Você já decidiu?

Vera: Você é um grande amigo, e nós nos divertimos juntos. Nós podemos ver onde essa nossa história vai dar.

Saulo se aproxima dela sem falar nada, passa um braço em volta de Vera e a outra mão apóia a cabeça dela. Eles se beijam com ardor. Depois de um tempo Vera se afasta.

Vera: O jantar está pronto, vamos sentar?

Saulo: Claro, mas não pense que não voltaremos a esse assunto.

Vera ri e leva Saulo até a sala de jantar, as mãos dadas e um sorriso no rosto de cada um.

18. EXTERNA – NOITE – CASA DO BETÃO

Júnior estacionou na frente da casa do amigo e tocou a campainha até que ele apareceu e abriu o portão.

Betão: Ju, que está aprontando?

Júnior: Eu preciso falar com você.

Betão: Pode falar, vamos entrar e beber alguma coisa.

Júnior segue o amigo, mas não bebe nada.

Betão: Então, o que você quer falar?

Júnior: Como você fez aquele amassado no carro?

Betão: Ah uma batidinha de nada… não liga, o carro tá no conserto já.

Júnior: Onde você bateu o carro? Como foi?

Betão: Eu não quero falar sobre isso.

Júnior: Por favor, me fala que você não atropelou ninguém. Por favor. – Júnior implora temendo que sua desconfiança fosse verdade.

Betão: Como você sabe? Você estava apagado, no banco de trás. O Augusto te contou?

Júnior começou a andar de um lado para o outro, desesperado.

Júnior: Eu não acredito, você atropelou uma pessoa e fugiu como um covarde?

Betão: Covarde? Nós três estávamos bêbados, tinha droga no carro. Ninguém viu o que aconteceu, e aquela mulher apareceu de repente na minha frente!

Júnior: Você precisa se entregar, Betão.

Betão: Não, de jeito nenhum! Eu não vou levar a culpa sozinho. E você deveria agradecer, imagina o que sua família ia falar se você fosse preso com drogas?

Júnior: Isso seria o mínimo se minha família soubesse o que aconteceu.

Betão: Se eu me entregar, você e o Augusto seriam cúmplices na fuga, ninguém me impediu.

Júnior: Eu não sabia de nada.

Betão: E você acha que eles vão acreditar? Acorda pra vida Júnior, a gente se safou de ir pra prisão, fica feliz.

Júnior não se sentia bem, ele não tinha certeza se a pessoa que Betão atropelou era sua cunhada. Se ele tivesse sorte, ele não seria responsável pelo que aconteceu com a cunhada, mas ele ainda se sentia responsável pela vida de alguém. Se Tomás imaginasse que tinha uma possibilidade dele estar envolvido no acidente de Vitória, a relação deles estaria arruinada para sempre.

Júnior: Eu preciso ir.

Betão: Você vai na polícia?

Júnior: Não, eu não posso fazer isso.

Ele sai da casa do amigo e entra no carro. As mãos tremiam com a culpa que sentia. Ele esfrega os olhos para não chorar e pega o vidro com os comprimidos no bolso, jogando dois na boca e engolindo a seco. Depois ele encosta a cabeça no banco e espera acalmar um pouco antes de ir pra casa.

19. DIA – INTERNA – HOSPITAL – QUARTO DA VITÓRIA

Nora e Carlos tinham acabado de ir embora, antes aconselharam Tomás a contar para Vitória o que tinha acontecido. Assim que voltou para o quarto, Vitória estava assistindo televisão e como não encontraria nunca a hora certa para conta que ela não voltaria a andar, decidiu que aquela seria a hora.

Tomás: Vi, meu bem, será que podemos conversar?

Vitória: Claro – ela fala desligando a TV – O que foi? Parece preocupado.

Tomás: É, estou um pouco preocupado mesmo.

Vitória: Algum problema com nosso filho?

Tomás: Não, ele está bem, ou tão bem como poderia estar nessa situação.

Vitória: O que foi? Problemas na livraria? Eu já falei que deveria ir trabalhar um pouco, distrair. Minha mãe pode ficar comigo, ela te disse que não teria problemas.

Tomás: Vitória, não é isso. É sobre seu acidente.

Vitória: O que foi?

Tomás: Quando você chegou no hospital, estava desacordada. Os médicos logo te levaram para a cirurgia. O impacto do carro foi muito forte, pelo que os médicos da ambulância falaram.

Vitória: Por que você está me contando isso? – os olhos demonstravam a angústia que ela sentia – Eu não quero saber nem quero me lembrar.

Tomás: Os médicos trabalharam muito, e fizeram de tudo. Mas você sofreu uma lesão grave na coluna. – ele olha para os olhos assustados da esposa e fecha os seus para dar a notícia, caso contrário ele perderia toda a coragem – Os médicos não puderam reparar essa lesão, e você…

Vitória: Não… Não, Tomás.

Tomás: Você não vai mais poder andar.

Vitória: Não, eles precisam dar um jeito. Eu não vou ficar sem andar.

Tomás: Vitória, fica calma.

Vitória: Chama o médico, eu quero falar com ele. Eu não vou ficar numa cadeira de rodas. Eu não posso ficar numa cadeira de rodas.

Tomás: Vai ficar tudo bem, eu vou ficar do seu lado pra tudo que você precisar.

Vitória: Eles deviam ter me deixado morrer.

Tomás: Não repete isso nunca mais, por favor. Nunca mais!!

Vitória: Por que não? Por que você vai se prender a mim? Eu vou ser uma inválida.

Tomás: Porque eu te amo, Vitória. Porque você é minha mulher e a mãe do meu filho. Porque eu não sei o que faria sem você.

Vitória chora mais forte. Tomás senta na cama e a abraça forte, tentando acalmá-la e acalmar a si mesmo. Eles ficam daquele jeito por algum tempo. Vitória se acalma um pouco e murmura encostada no peito do marido.

Vitória: Isso não é justo. A gente estava tão feliz, fazendo tantos planos.

Tomás: Tudo vai ficar bem Vi, você vai ver. Talvez demore um tempo para se acostumar, mas vai ficar tudo bem. Eu vou ficar do seu lado para tudo, não duvide disso.

A enfermeira entra no quarto e vê os dois abraçados e chorando.

Enfermeira: Algum problema? Precisam de alguma coisa?

Tomás: Não, eu só contei para ela o que aconteceu.

Enfermeira: Eu trouxe o remédio para dor, já está na hora. Vou aplicar também um calmante para ela dormir mais tranqüila essa noite.

Tomás: Obrigado.

A enfermeira aplica os medicamentos no soro e deixa o casal sozinho novamente. Tomás acomoda Vitória na cama, senta na cadeira próxima da cama e segura na mão dela.

Tomás: Descansa meu bem, eu estou aqui do seu lado.

Vitória fecha os olhos e adormece quase que de imediato, sentindo a segurança do marido ao seu lado.

20. INTERNA – NOITE – COMITÊ DE CAMPANHA DE ROBERTO PELLEGRINI

Roberto está sentado revendo os compromissos para o dia seguinte e fazendo algumas anotações quando Lílian entra em sua sala.

Roberto: Pensei que já tivesse ido.

Lílian: Ainda não, entreguei os vídeos das próximas propagandas eleitorais pra Karen e passei pra dar um alô. Você já está indo?

Roberto: Logo, estou só revisando os compromissos de amanhã.

Lílian: Posso te perguntar uma coisa? Não precisa responder se não quiser.

Roberto: Claro, eu nunca tive segredos com você.

Lílian: Você está gostando da Carol, não é?

Roberto: De onde você tirou essa idéia?

Lílian: Essa sua reação já é uma prova. – ela sorri confiante – Depois que a Mariana morreu, eu nunca vi você se interessar por outra mulher, como agora.

Roberto: Eu saio com algumas mulheres.

Lílian: Claro, mas nenhuma delas te desafiou, nenhuma fez você sorrir como agora. Acho que você está finalmente superando a morte dela

Roberto: Lílian… A Carol e eu enxergamos política de forma muito diferente. Qualquer conversa termina com alguma discussão. A Mariana era dócil, amorosa, tranqüila e o melhor de tudo, pensava como eu.

Lílian: Os opostos se atraem, já ouviu falar isso? E por mais que vocês pensem de forma diferente, no final das contas querem as mesmas coisas. Os dois são idealistas.

Roberto: Se você acha isso…

Lílian: Eu quase me esqueci. Dia 25 é aniversário da Carol.

Roberto: Por que está me falando isso?

Lílian: Nada demais, só pra você ficar sabendo. Deixa eu ir, até amanhã.

Roberto espera Lílian sair do escritório para dar um sorriso. Ela realmente o conhecia. Carol o instigava, era atrapalhada, mas bastante competente. Ele sempre tinha lido suas colunas, não concordava com metade delas, mas as adorava. Talvez ele pudesse aproveitar a dica que a irmã tinha dado.

21. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Carol termina de juntar suas coisas para ir trabalhar. Se dependesse dela, ficaria na cama o dia todo. Odiava seus aniversários, principalmente depois que completou trinta anos. E seus irmãos, pareciam não se importar e já tinham marcado um almoço para comemorar mais um ano de vida.

A campainha toca e ela vai atender. Quando ela abre a porta, na rua está um entregador com um arranjo de lírios brancos e cor de rosa. Carol recebe e entra em casa, procurando pelo cartão.

Nora: Que lindas flores, vou pegar um vaso com água para colocá-las.

Junior: Nossa, quem é o admirador secreto?

Carol: Eu vou descobrir agora.

Carol abre o cartão e lê o recado, nele tinha uma citação de Erico Veríssimo e logo depois desejos de feliz aniversário.

“Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro e ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu”.

Ela não contém o sorriso. Nora e Júnior aguardam ansiosos para saber quem mandou as flores.

Nora: Então, quem mandou?

Carol: O deputado Roberto Pellegrini.

Júnior: O candidato a prefeito? Nossa Carolzinha, você não está fácil hein?

Carol: Ele só quis ser gentil, e aposto que foi a irmã dele que providenciou tudo.

Nora: Se você diz isso. Quer que coloque as flores no vaso?

Carol: Por favor, mamãe, estou atrasada, preciso ir trabalhar

Júnior: A gente se encontra pro almoço de aniversário, a Sara e o Carlos também vão.

Carol: Não sei por que vocês inventaram isso, sabem que eu odeio meus aniversários. Estou quase completando quarenta anos, morando temporariamente na casa da minha mãe, sem qualquer prospecto de me casar e para completar o quadro assustador a Vitória está no hospital depois de ser atropelada. Comemorar o quê?

Júnior: Talvez o Pellegrini te desencalhe, é só você tirar esse bico da cara e agradecer ele pelas flores com muito jeitinho.

Carol: Nenhuma palavra sobre isso com ninguém, ouviu, Júnior?

Carol sai sem nem saber por que pediu segredo ao irmão, sabia que no almoço seria importunada por Carlos e Sara sobre as flores.

22. DIA – EXTERNA – JARDIM BOTÂNICO

O comício de Roberto Pellegrini tinha encerrado e ela estava caminhando esperando a hora de encontrar com os irmãos. Ela sentou e um banco, na sombra para evitar o sol quente do Rio.

Roberto: Aí está a aniversariante do dia.

Carol: Não precisa me lembrar. Qual a alegria em ficar mais velha?

Roberto: Ficar mais experiente, ter mais sabedoria, ter mais credibilidade.

Carol: Eu nunca gostei de fazer aniversário, e esse ano está pior. Meu primeiro aniversário sem meu pai, minha cunhada e meu sobrinho no hospital.

Roberto: Eu sinto muito, a Lílian comentou comigo sobre sua cunhada.

Carol: Eu já ia me esquecendo, obrigada pelas flores. Talvez tenha sido o ponto alto do meu dia hoje.

Roberto: Eu acho que não, talvez foi só um dos. – Ele pega um pequeno embrulho no bolso do paletó e entrega para Carol – Feliz aniversário!

Carol: Pra mim? Sério? Obrigada, não precisava.

Roberto: Não foi nada, quem sabe assim você não fica mais simpática às minhas idéias políticas. – ele brinca com ela.

Carol: Nunca! – ele abre a caixa e dentro encontra um par de brincos dourados, bastante delicado. – Nossa, são lindos. Muito obrigada.

Roberto sorri para Carol. Os dois se olham e eles aproximam os rostos até que se beijam. Não durou muito tempo, nem foi um beijo apaixonado, mas os dois se afastam sorrindo.

Roberto: Espero que esse seja o ponto alto do seu dia. Eu sei que foi do meu.

Carol só balança a cabeça. Roberto dá uma última olhada para ela e vai embora. Ela também se levanta para encontrar os irmãos. No carro, antes de ir embora, ela tira o brinco que estava usando e coloca o que tinha acabando de receber de presente.

23. EXTERNA – DIA – RESTAURANTE

Carol chega no restaurante e seus irmãos já estão esperando por ela. Para sua surpresa, até Tomás estava ali.

Carol: Tomás, você? E a Vitória?

Tomás: A mãe dela ficou com ela enquanto eu vim dar um abraço na minha irmãzinha. – ele fala abraçando a irmã e desejando feliz aniversário.

Carol: Obrigada, mas eu iria entender.

Sara: Agora é minha vez, deixa eu dar um abraço na minha irmãzinha.

As duas se abraçam. Depois é a vez de Carlos.

Carlos: Parabéns e estou sabendo que tem um admirador secreto.

Carol: Júnior, eu falei que não era pra contar nada.

Júnior: Não fui eu, a mamãe que ligou pro Carlos e contou.

Tomás: Quem é esse admirador secreto?

Sara: Roberto Pellegrini, ele mandou flores lindas pra ela pelo aniversário.

Tomás: O candidato a prefeito? Carolzinha, ele é da esquerda.

Carlos: Quem liga para política, ele é melhor que a maioria dos namorados que a Carol teve.

Sara: Isso mesmo. Ele é lindo, professor de direito, ótimo político, Carol achou o pote de ouro. Só porque não tem as mesmas visões políticas que vocês não deixa de ser um ótimo partido.

Júnior: E imagina a Carol de primeira-dama da cidade do Rio de Janeiro? Os jornais teriam sempre notícia de alguma gafe dela.

Os quatro irmãos começam a dar risada e Carol fica indignada.

Carol: Eu não cometeria gafe nenhuma como primeira-dama. E são flores, nada demais.

Júnior: Eu não sei não, ele citou até Veríssimo no cartão.

Carol: Como você sabe disso?

Júnior: Eu olhei quando você estava lendo. – ele fala dando risada.

Carol: Isso é invasão de privacidade.

Carlos: Não, isso é o modo Andrade de ser. Conta mais Ju.

Todos dão risada. O almoço passa rápido com todos se divertindo. A comida estava boa, a companhia sempre divertida. Carol ganhou perfume, roupa, sapato e livros dos irmãos. Aquele aniversário definitivamente não estava sendo dos piores.

24. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA VERA

Vera terminava de tirar a mesa do almoço, e Rebeca a ajudava. Elas não tinham resolvido os problemas entre elas, mas Rebeca estava dando um voto de confiança a ela.

Vera: Você ficou sabendo o que aconteceu com a cunhada do Júnior?

Rebeca: Ele me falou, uma tragédia. Mas o bebê está agüentando firme e os médicos estão um pouco mais otimistas.

Vera: Você já conversou com mais algum deles?

Rebeca: Se você considerar discussão uma conversa, eu conversei com a Sara, a filha mais velha do Guilherme.

Vera: É mesmo, você me contou sobre essa discussão e sobre o exame. Já saiu o resultado?

Rebeca: O laboratório vai ligar, mas acho que semana que vem ou na outra. Você não tem nenhuma dúvida sobre o resultado, não é?

Vera: Não, que isso. De jeito nenhum.

Rebeca: De qualquer forma, não imagino tendo contato com nenhum deles, só o Júnior mesmo.

Vera: Assim que sair o resultado provando que você é filha dele, nós vamos exigir seus direitos.

Rebeca: O quê?

Vera: Você tem o direito de ser reconhecida e ter o nome dele na sua certidão de nascimento. E como filha legítima, tem uma parte na herança dele.

Rebeca: Mamãe, não acredito que está falando isso.

Vera: É direito seu, e eu não vou deixar eles passarem a perna em você. O que é seu de direito, você vai receber.

Rebeca: Eu não quero falar sobre isso.

Vera: Filha é o seu futuro que está em jogo, não pode dar um chute na sorte.

Rebeca: Sorte? Eu preferia não ter nada a ver com os Andrades. Quanto ao meu futuro, eu posso trabalhar, não preciso do dinheiro deles, nunca me fez falta e não vai me fazer.

Vera: Rebeca…

Rebeca: Eu acho melhor ir embora, não quero falar sobre isso.

Vera: Não vai, esse assunto se encerra por agora, mas vamos voltar a ele outro dia.

Rebeca: Veremos mamãe.

25. INTERNA – NOITE – HOSPITAL – QUARTO DA VITÓRIA

Tomás e Vitória terminavam de ver o jornal quando uma enfermeira entra com a cadeira de rodas.

Enfermeira: A médica que cuida do seu filho pediu que o senhor e sua esposa fosse até a UTI neonatal, ela precisa falar com vocês.

Vitória: Algum problema com meu filho? Hoje a tarde ele estava bem, segurou meu dedo.

Enfermeira: Eu não sei, senhora. Minhas ordens são para levar vocês até lá.

Tomás ajuda a enfermeira a colocar Vitória na cadeira, antes de irem até a UTI, ele liga para a mãe e pede que ela vá até o hospital e peça para os pais de Vitória também irem. Eles então seguem para a UTI. Chegando lá, eles colocam as roupas esterilizadas e são levados até a pediatra.

Dra. Monica: Tomás, Vitória, infelizmente as notícias não são boas.

Tomás: O que aconteceu? Meu filho está bem, não é? – ele pega a mão da esposa para receberem a notícia.

Dra. Mônica: O respirador é essencial para bebês prematuros, já que eles não conseguem respirar sozinhos. Infelizmente algumas crianças não suportam a máquina e sofrem hemorragia no cérebro, causando morte cerebral.

Tomas: Meu filho…

Dra. Monica: O coração dele ainda bate com a ajuda dos aparelhos, mas a morte cerebral é irreversível. Eu pedi que viessem até aqui para segurarem seu filho no colo por alguns instantes.

Tomás sentou numa cadeira do lado de Vitória. A enfermeira colocou o bebê no colo dela. Tomás se manteve forte para Vitória, ela precisava dele controlado.

Vitória: Ele é tão lindo – ela diz soluçando – Se parece com você, tem seus olhos e sua boca.

Tomás: E é paciente e forte como você.

Tomás abraça Vitória e o filho, querendo proteger os dois das maldades e tristezas do mundo. Ele se sentia impotente diante da tragédia que tinha se abatido sobre ele. Vitória entrega o filho para Tomás, que segura o bebê com todo o cuidado. Ele dá um beijo na testa do bebê.

Tomás: Tiago, filho, você foi muito querido e muito amado por toda sua família. Nós não vamos nunca esquecer da sua coragem e da sua força.

Vitória: A mamãe vai sentir muitas saudades. Você será sempre nosso anjinho.

Os dois ficam com o filho no colo até que a máquina apita sinalizando a parada cardíaca. A enfermeira pega o bebê dos braços dela. Tomás abraça a esposa, tentando consolá-la pela morte do filho. Os dois ficam juntos, abraçados, tentando confortar um o outro da dor enorme de perderem o filho.

Do lado de fora, Nora está abraçada a Carlos. Carol e Sara se abraçam e choram. Júnior fica um pouco mais para trás, olhando a tristeza de todos e se sentindo culpado por talvez ter causado tanta dor na família. Se sentindo culpado pela morte do sobrinho. Ele queria sair dali, sentia-se sufocado, como se as paredes se fechassem em volta dele, mas precisava agüentar pelo irmão.

26. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES

Carol, Carlos, Júnior e Sara entram em casa. Estavam todos exaustos por causa da tristeza.

Carlos: Eu acho que vou passar pelo hospital para ver como está a Vitória.

Carol: Os pais dela foram para lá depois do enterro do Tiago e iriam fiar até o Tomás voltar.

Sara: Estou preocupada com o Tomás. Ele não derramou uma lágrima durante todo o velório e o enterro.

Carol: Esse é o jeito do Tomás, ele guarda tudo dentro de si, não gosta de demonstrar fraqueza.

Sara: Isso não é hora de ser forte, o filho dele morreu.

Carlos: A Carol tem razão, o Tomás sempre foi caladão, na dele. O filho mais parecido com papai.

Júnior: Não compara o Tomás com o papai. – ele grita com Carlos – enquanto nosso pai passou a vida, enganado a mamãe e a gente, o Tomás está fazendo o que pode para cuidar da família dele.

Sara: Melhor compará-lo ao papai que a você, que é um irresponsável

Júnior: Não comparem nunca mais o Tomás ao pai ouviram. Nunca mais!

Carlos: Você precisa de terapia para se livrar desse ódio todo, Júnior.

Carol: Por favor, não vamos brigar agora.

Os quatro se sentam no sofá, cada um com seus pensamentos os atormentando.

27. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO TOMÁS

Tomás entra em casa pela primeira vez depois do acidente da esposa. Tinha sido quase duas semanas dentro do hospital. Naquela tarde, seu filho tinha sido enterrado. Vitória queria ir a todo custo, os médicos precisaram sedá-la para que ela se acalmasse.

Nora: Você deveria pegar o que precisa e vir para minha casa. Lá você vai descansar melhor.

Tomás: Não, eu preciso voltar pra perto da Vitória.

Nora: Meu filho, você…

Tomás: Chega, mamãe, já está decidido. Você pode ir pra casa, eu pego um táxi e volto para o hospital.

Ele não espera a resposta da mãe, e vai na direção do quarto. Ele passa na frente de onde seria o quarto do bebê. O papel de parede já estava colocado. Vitória tinha insistido para usarem a “floresta encantada” como tema. Vários bichinhos, ainda filhotes, faziam parte do cenário.

Tomás sorri lembrando do dia que Vitória sentou na cadeira de balanço enquanto ele montava o berço e ela deu nome a cada um dos filhotes, o coelho era Dinho, o urso Marcão, o macaco Chiquinho. Eles tinham feito tantos planos para o filho naquele quarto. Eles tinham sonhado com a vida em família.

Ele segue até o guarda roupa e abre a porta vendo as várias roupinhas arrumadas. Ele pega a camisa do fluminense e recorda do dia que eles ouviram o coração do bebê pela primeira vez. O ódio e a dor tomam conta, e ele joga a camisa do outro lado do quarto. Chuta os bichos de pelúcia que estavam no canto, um acerta o abajur, que cai no cão e quebra.

Nora vai até a porta do quarto, e a cena corta seu coração: Tomás está ajoelhado no chão, chorando feito uma criança. Ela sentia a dor do filho em cada um dos soluços que escapavam da boca dele. Ela ajoelha perto do filho e o abraça tentando consolá-lo.

Tomás: Por que mamãe? O que eu fiz pra merecer isso?

Nora: Nada, meu filho, não fez nada. Não é sua culpa que o destino às vezes nos puxa o tapete.

Tomás: Dói muito mãe, eu não vou agüentar.

Nora: Vai agüentar sim, Tomás, você tem a mim, tem seus irmãos. Nós vamos estar sempre do seu lado e do lado da Vitória para o que precisarem. Você é um homem forte e vai dar a volta por cima.

Nora beija o rosto do filho, o aconchega no peito e deixa que ele chore o quanto fosse necessário. Ele precisava do colo da mãe, do amor da família, e isso ele não iria sentir falta nunca, já que ela criou a família para se unirem principalmente nas horas de dificuldade.

Continua…

Trilha Sonora

Cena 12: Victim of a Foolish Heart – Joss Stone

Cenas 15 e 25: O Filho que Eu Quero Ter – Paulinho da Viola

Cena 27: Pedaço de Mim – Chico Buarque

6 Respostas to “Sonhos Desfeitos”

  1. Alice Says:

    Comecei o episódio pensando “vou ler só o comecinho porque tenho que acordar cedo amanhã”
    ¬¬
    Doce ilusão!!
    Parabéns por prenderem a atenção [pelo menos a minha].. Principalmente nesse episódio.. Em outros já tinha parado no meio e deixado pra ler o resto depois.. Mas nesse nem meu sono fez com que eu deixasse pra depois!!
    Penso que o peso na consciência vai fazer Júnior se entregar e se desentender com o resto da família!! E depois dessa ele deve criar juízo!!
    As cenas em que Tomás conversa com Tiago e a que Tomás e Vitória se despedem dele são de cortar o coração!!
    Enfiiim.. Muitooo bom.. Muito bom mesmooooo!! O mais emocionante de todos os episódios!!
    Acho que nunca falei aqui.. Mas não simpatizo com Saulo desde sempre.. Acho que meu santo não bateu com o dele
    =**

  2. Carine Dávalos Says:

    O episódio mais triste!!
    =/

  3. Gustavo Says:

    Caramba…

    Não consegui ler direito as últimas linhas, as lágrimas não deixaram…

    Estou sem palavras…

  4. Douglas Says:

    Tá cada vez melhor esta série!
    Já to ansioso para o próximo episódio!

    Achei o melhor episódio até agora, muito marcante, mas ao mesmo tempo, muito triste!

  5. Natie Says:

    Ai meu Deus! Que triste… Nossa, tantas coisas ao mesmo tempo.
    Espero q Vitoria e Tomas se unam ainda mais pra superar essa dor da perda do filho e da deficiencia dela. :/
    Quero saber o q vai acontecer com o Junior e se ele vai querer saber se foi msm Vitoria a atingida pelo carro.
    Conversa de Fernando e Sara tambem super triste. Realmente espero q o casamento deles nao acabe!
    Acho que o unico momento feliz foi o niver da Carol com direito a jantar com risadas e flores, brincos e beijo do Roberto! Feliz por ela e louca pra saber como a historia vai se desenrolar…

    Beijos gente e ate a proxima!

  6. Laís Says:

    Bem triste esse episódio, às vezes as coisas acontencem num piscar de olhos né? uma bobeira muda tudo …

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