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Nos episódios anteriores: Sara perdeu o bebê e isso desestabilizou ainda mais o seu relacionamento com Fernando. Carlos recebeu um elogio estranho de Camilo Fontenelle. Rebeca explicou para Júnior o motivo para ter fugido dos beijos dele. Vera discutiu com Guilherme e ele teve um ataque cardíaco.

1. EXTERNA – DIA – CEMITÉRIO

Nora e seus cinco filhos estão parados ao lado do caixão já fechado de Guilherme, cumprimentando os recém-chegados. Diva, Saulo, Gabriel, os gêmeos, Fernando e Vitória estão sentados um pouco afastados. Alguns fornecedores e associados à Andanças, além de amigos de Guilherme e de Nora também estão presentes. Vera e Rebeca chegam ao cemitério. Rebeca e Júnior se reconhecem e saem para falar em particular em outro canto.

Vera se aproxima de Nora e dos quatro filhos lá presentes.

Tomás: Vera, que bom que a senhora pôde vir. Meu pai ficaria contente. – Diz com um meio sorriso.

Vera: Guilherme era um grande amigo. Gostava muito dele.

Tomás: Vera, essa é minha mãe, Nora. Creio que já tenha apresentado vocês duas. Minhas irmãs: Sara e Ana Carolina. E meus irmãos: Carlos e Júnior… Cadê o Júnior?

Vera estende a mão para os Andrades conforme Tomás os apresenta. Eles se cumprimentam.

Vera: Meus pêsames. Eu realmente sinto a morte do Guilherme.

Nora: Muito obrigado. A situação em que ele morreu… só com meu irmão, com um ataque cardíaco. Foi muito triste. – Diz com lágrimas nos olhos. Os irmãos apenas agradecem com a cabeça. – O Júnior está ali. Falando com uma moça. – Todos olham para onde Nora aponta.

Tomás: E agora é hora de namorar? No meio do funeral do papai? Esse garoto perdeu todo respeito pela família?

Carlos: Ah não! – Diz enquanto Carol solta um riso nervoso.

Sara: Tomás, não começa. Uma briga é tudo o que a gente não precisa agora. Você não sabe nem quem ela é.

Tomás: E quem ela é?

Vera: Minha filha Rebeca. Com licença.

Vera sai em direção à Rebeca e Júnior.

2. EXTERNA – DIA – CEMITÉRIO

Júnior: O que você tá fazendo aqui? – Pergunta surpreso.

Rebeca: Guilherme era um amigo da minha mãe. Nunca eu ia adivinhar que ele era seu pai.

Júnior: Que coincidência, não?

Rebeca: Eu não acredito em coincidência. Só em destino. – Silêncio –Sinto muito. – Abraça Júnior.

Júnior: É… Eu também. – A abraça de volta.

Rebeca: Desculpa pela briga de ontem.

Júnior: Eu já esqueci.

Vera se aproxima e fica meio distante.

Vera: Filha, você tá aqui. Estava te procurando. – Rebeca e Júnior param de se abraçar. – E você deve ser o Júnior? Sou a Vera, mãe da Rebeca, muito prazer. – Estende a mão para Júnior, que a cumprimenta. – Sinto muito pela morte do seu pai

Júnior: Muito obrigado. O prazer é todo meu. – Diz com um meio-sorriso.

Vera: Seus irmãos estão atrás de você. Seria melhor se você fosse até eles.

Júnior: Ah, muito obrigado. – vira-se para Rebeca. – Eu venho já.

Rebeca acena e Júnior sai.

Rebeca: Por que você fez isso?

Vera: O quê?

Rebeca: Tirar ele daqui. A gente tava conversando.

Vera: Ah, Rebeca, não inventa coisa. Eu tô muito abatida. Com licença.

Vera sai.

Rebeca: Toda.

3. EXTERNA – DIA – CEMITÉRIO

Fernando está sentado com os gêmeos de um lado e Gabriel do outro. O garoto de cabeça abaixada e abraçado com o pai. Vitória está sentada do outro lado dos gêmeos, os distraindo.

Rafaela: Tia Vitória!

Vitória: Fala, meu amor.

Rafaela: Quando que o vovô volta?

Eduardo: Ele vai demorar muito?

Vitória fica um tempo sem reagir. Fernando percebe o teor da conversa e interfere.

Fernando: Olha, crianças… Pode ser que demore bastante até que vocês vejam o vô Guilherme de novo.

Eduardo: Por quê? Ele não gosta mais da gente?

Rafaela: Onde que ele tá?

Vitória: Não, não! O avô de vocês gosta muito de vocês ainda! Como que ele não ia gostar?

Fernando: É, ele, sua mãe, eu, a tia Vitória, o tio Tomás, sua avó, todos os seus tios nunca vão deixar de gostar de vocês. – Afaga o cabelo do Dudu e dá um beijo na bochecha da Rafaela. – Eu não sei onde o vô Guilherme tá agora. Mas não importa onde ele esteja, ele tá muito feliz, viu?

Gabriel: Não tá não! Ele tá morto! Não tá sentindo nada! – Gabriel se levanta e sai com passos firmes.

Fernando demonstra que vai atrás dele, mas Vitória o impede.

Vitória: Deixa ele. É melhor assim. Ele precisa desse momento.

4. EXTERNA – DIA – CEMITÉRIO

Carlos, Carol, Sara, Tomás e Júnior acabam de cumprimentar e receber os pêsames de um casal de amigos do pai.

Carlos: Por que é mesmo que a gente tem que fazer isso?

Tomás, Carol, Sara e Júnior: Mamãe.

Carol: Ela insiste em cada coisa… Não sei se o papai ficaria muito feliz com um enterro cheio de formalidades assim.

Carlos: Isso a gente nunca vai descobrir, não é mesmo?

Tomás: Carlos!

Carlos: Que foi?

Sara: Ju, quem era aquela com você?

Tomás: A filha da maior cliente do papai.

Júnior: Também. Mas eu só descobri isso hoje. Ela é a assistente de fotografia de quem eu falei.

Carol: Sério? Que coincidência!

Júnior: Foi o que eu disse…

Gabriel passa um pouco longe, batendo o pé.

Carol: Não é o Gabs?

Sara: Onde?

Carol aponta, e Sara vai atrás do filho.

Sara: Hey, hey! Que houve? – O abraça, e ele retribui. – Cuidado com esses pés, hein? Se pisar tão forte vai acabar acordando todos os mortos daqui do cemitério.

Gabriel começa a chorar. Eles se sentam na grama e ficam abraçados por um tempo. Ela fazendo carinho na cabeça dele.

Gabriel: Mãe?

Sara: Fala.

Gabriel: Você promete que não conta pra ninguém que eu chorei?

Sara: Prometo, filho. Prometo.

5. EXTERNA – DIA – CEMITÉRIO

Nora se aproxima do banco onde estão Saulo e Diva e se senta ao lado de Saulo, que fica no meio. Ele puxa a irmã, a abraçando e dá um beijo em seu ombro. Os três ficam em silêncio por um tempo.

Vera passa um pouco a frente do banco.

Saulo: Só um minutinho. Eu já venho. – Dá outro beijo, agora no rosto da irmã, e sai atrás de Vera.

Um silêncio constrangedor fica no ar por um tempo. Nora e Diva afastadas no mesmo banco.

Nora: Vai ficar sentada o dia inteiro?

Diva: Não vejo porque me levantar. Estou aqui somente por respeito a você, à Sara, ao Tomás, ao Carlos e ao Júnior.

Nora: Eu não acredito que a senhora vai continuar se comportando assim em relação à Carol. Estava até toda orgulhosa dela no programa.

Diva: Continuo. Continuo sim! E você deveria fazer o mesmo! Essa menina deu trela para o culpado pela denúncia do teu irmão, Nora! Se não fosse por ele, Paulo não estaria desaparecido, perdido, não sei… morto! – Põe a mão na cabeça em sinal de nervosismo. – Já pensou que teu irmão nunca vai poder ter um enterro como esse do Guilherme? E você ainda me pede pra perdoar a Ana Carolina?

Nora: Mãe… – Põe o braço em volta dos ombros da mãe.

Diva: Eu deveria saber. Você e seu marido – olha para a cova de Guilherme enquanto diz a última palavra – sempre mimaram muito essa garota. É mais culpa dele. Você sempre foi assim, bobinha. Com essa mania de independência e achando que o mundo inteiro é bom e merece perdão. Já era de se esperar. Mas ele, dava tudo que ela queria, tratava a menina como uma princesinha! Obviamente cresceu assim.

Nora: Guilherme fez o que teve que fazer.

Diva: Pois fez errado.

Nora: Hm. Sei. – Responde contrariada – Eu tenho que ir até lá.

Nora levanta e começa a caminhar em direção aos filhos.

Diva: Filha? – Nora se vira e encara a mãe. – Eu sinto muito. Por você.

Nora: Obrigada, mãe. – Sorri triste e continua o caminho.

6. EXTERNA – DIA – CEMITÉRIO

Saulo vai atrás de Vera. Os dois se afastam um pouco de Nora e Diva.

Saulo: Não imaginei que você viesse.

Vera: Lógico que vim. Como não viria? Eu passei uma vida com ele.

Saulo: Só imaginei que talvez fosse meio desagradável para você… Você sabe, o enterro e encarar a família dele.

Vera: Você não tá preocupado comigo. Tá preocupado com a sua irmã. Vai ficar tudo bem, ela nunca vai descobrir nada. Descansa tranqüilo. – Vera sai em direção onde todos estão se amontoando.

7. EXTERNA – DIA – CEMITÉRIO

Nora e seus filhos estão reunidos. Os outros esperam o discurso.

Nora: Eu não sei se eu vou conseguir.

Carlos: Conseguir o que?

Nora: Fazer o discurso. Eu tô, eu tô muito abalada.

Carol: Você tá brincando! E agora? Quem vai fazer isso?

Todos se viram para Sara.

Sara: Ah não! Nem ferrando! Eu já discursei nas bodas.

Nora: Então é assim? Vocês competiram pra fazer o discurso? Bom saber, assim eu paro de incomodar vocês com a minha chatice de querer que vocês participem da vida dos seus pais.

Sara: Menos, mãe. Não é bem assim. Por que o Tomás não faz o discurso? Ele é o filho-orgulho do papai!

Tomás: Eu não! O Júnior deveria tentar! Ver se faz algo de útil.

Júnior: Ei! Como é que eu entrei nessa história? Manerem com o Andrade Express! Se for pra sugerir alguém, eu sugiro a Carol, a preferida do papai.

Carol: O que aconteceu com o “manerem com o Andrade Express”?

Carlos: Pode deixar que eu vou. – Anda em direção a frente da cova vazia do pai, sob os olhares surpresos dos irmãos.

Nora: Obrigada, filho.

Carlos somente concorda com a cabeça.

Carlos: Então meu pai morreu! Quem esperava? Certamente, eu não. – Faz uma pausa. – Eu nunca fui tão responsável quanto minha irmã Sara aqui do lado, ou o filho pródigo como meu irmão Tomás. Não fui o preferido do meu pai, como minha irmã Carol ou necessitado de atenção como o Júnior. – Aponta para os irmãos que escutam sérios. Júnior acena de volta, “agradecendo” o adjetivo que lhe foi dado. – Mas ele me amava. E disso eu tenho certeza. A gente entrava em conflito de vez em quando, mas ele me amava. Não vou ficar aqui exaltando as qualidades do meu pai, porque eu tenho certeza que todos aqui já as conhecem. Eu só queria deixar claro para ele, porque não sei se ele partiu com esse conhecimento, que eu o amo muito e que ele foi e continuará sendo meu maior exemplo como homem e como pessoa. – Ameaça um choro. – Obrigado, pai. Descansa em paz.

Carlos sai em direção à mãe chorosa e aos irmãos sob o aplauso dos outros presentes.

Carlos: Mas descansa mesmo! Nada de ficar fuxicando as nossas vidas aqui embaixo, pois já temos a dona Nora, que faz esse papel bem até demais. – Diz só para a família, que interrompe o choro por um instante e o abraça, enquanto o caixão de Guilherme Andrade é abaixado e enterrado.

8. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Todos os filhos estão reunidos na casa de Nora após o enterro. Saulo e Diva também estão lá. Fernando e os filhos foram para casa descansar. Vitória também foi para sua casa, achando melhor deixar o marido somente com a família.

Júnior se senta no sofá ao lado da avó e do tio. Sara, Carol e Tomás se sentam no outro sofá conversando sobre a viagem de Carol em um tom de voz baixo.

Nora: Eu vou preparar alguma coisa pra comer, já está na hora do almoço e eu nem fiz nada!

Sara: Eu tenho que ir para casa daqui a pouco, mãe. Não posso deixar o Fernando lá sozinho com as crianças.

Nora: Come aqui, vai querida? – Sara percebe o tom de voz da mãe e faz que sim com a cabeça. – Que bom! Já venho. – Sai em direção à cozinha.

Júnior se levanta e vai em direção a porta da sala.

Tomás: Aonde você vai?

Júnior: Não, nada. A Rebeca me deixou uma mensagem ontem, eu só vou ouvir. E não vou ficar aqui pra atrapalhar. – Sai.

9. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – HALL DE ENTRADA

Júnior está com o celular na mão e liga para o número de sua operadora para ouvir recados gravados na secretária eletrônica.

Rebeca: Júnior, é a Beca. Me desculpe pela discussão. Será que a gente pode conversar? – Silêncio. Som de elevador abrindo. – Guilherme!

Júnior: Guilherme? – Júnior pensa em voz alta, estranhando o fato de Rebeca ter usado seu primeiro nome.

Ele volta para a sala. Depois de um tempo, os Andrades almoçam. Sara, Tomás, Saulo e Diva vão embora. Os outros quatro ficam deitados pensativos. Cada um em um canto da casa.

10. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA – COZINHA

Sara entra na cozinha abatida. Fernando está sentado na mesa com o queixo apoiado nas mãos. Quando ela entra, ele se levanta.

Sara: As crianças estão dormindo e o Gabs está no quarto dele. Achei melhor não entrar, mais tarde eu passo por lá e dou uma olhada. – Fernando dá um beijo rápido nela.

Fernando: Eu falei que cuidava deles por você. Como você tá?

Sara: Eu? – Silêncio. – Eu não sei.

Fernando abraça a esposa. Ela se solta depois de um tempo.

Sara: Olha essa louça! Vocês almoçaram e não lavaram nada?

Fernando: Não. – Ele dá um sorriso de criança. – Deixa isso pra amanhã.

Sara: Não, não. Eu vou lavar agora.

Fernando: Deixa aí que amanhã cedinho eu lavo.

Sara: Eu lavo. Eu tenho mesmo que ocupar a mente. Não vou conseguir dormir.

Fernando: Se você diz… Quer que eu fique aqui contigo? – Ele a abraça de lado e a beija na bochecha.

Sara: Não. Pode ir deitar.

Fernando: Eu vou tomar um banho, então. Depois desço pra ver como você e o Gabriel estão, ok?

Sara: Ok. – Eles se dão outro beijo estalado. Fernando sai.

Sara começa a lavar a louça. Com as mãos molhadas, ela pega uma caneca do Dudu. A caneca escorrega e cai no chão, se quebrando.

Sara: Ai não! – Diz, se agachando para recolher os cacos. Vai juntando os pedaços e coloca duas lascas ao lado uma da outra, onde pode ler o nome do filho com letras coloridas.

Fica um tempo parada e agachada, até que senta no chão, se apoiando nos armários da pia. Então começa a chorar muito, sem poder controlar.

Sara: Pai! Que droga! Tinha que ir logo agora! Logo seguido dele! – Põe a mão sobre a barriga. – E pensar que você poderia ter mais um neto. E se você tiver mais um neto? O filho do Tomás… Você nunca vai conhecer! – Fica em silêncio sentada e chorando.

Gabriel entra na cozinha.

Gabriel: Mãe? Tá tudo bem? Eu ouvi alguma coisa quebrar. Você se machucou? – Se agacha ao lado da mãe.

Sara: Não. Tá tudo bem, filho. Eu só tô triste.

Gabriel abraça a mãe, e ela apóia a cabeça no ombro dele.

Gabriel: Tudo bem, mãe. Eu prometo que não conto pra ninguém. – Sara sorri e faz carinho nas costas do filho.

11. INTERNA – NOITE – CASA DO TOMÁS – QUARTO

Tomás está colocando a camisa do pijama e Vitória está deitada na cama.

Vitória: E então? Como a sua mãe está? Ela estava tão mal no velório.

Tomás: Era de se esperar, né? Se trancou no quarto dos dois depois do almoço. – Diz se deitando.

Vitória: Ela deve estar pensando, botando a cabeça no lugar. – Faz carinho no tórax do marido. – E você? Como tá com isso tudo?

Tomás: Triste, mas não tive tempo pra pensar muito sobre isso. Prefiro assim. – Beija Vitória – E você, está bem?

Vitória: Eu estou, meio preocupada, mas bem.

Tomás: Preocupada com o quê?

Vitória: Nada. Não quero te chatear mais ainda.

Tomás: Vai me chatear se não falar agora.

Vitória senta na cama e Tomás a copia.

Vitória: Hoje mais cedo, eu tava com o Fernando e as crianças. A Rafa e o Dudu me perguntaram do seu pai.

Tomás: E você?

Vitória: Eu não disse nada. Fiquei lá, calada, até que o Fernando percebeu e deu uma resposta linda. – Ela fica um pouco em silêncio. – Eu não vou saber ser mãe, Tomás. Numa situação dessas, o que eu vou falar pro nosso filho? E não só isso, mas em várias outras situações. Nunca vou ser uma mãe tão boa quanto a minha, a sua ou a Sara.

Tomás: Você vai ser a melhor mãe de todas. – Beija a mulher. – A minha mãe, a sua e a Sara têm experiência, amor. Você é cuidadosa, gentil, carinhosa. Você é a única mãe que eu quero e que eu vou sempre querer pro meu filho.

Vitória sorri e os dois se beijam.

12. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – CORREDOR

Carlos passava pelo corredor para pegar um copo de água na cozinha e caçar algo para comer, pois não comia desde o almoço, como todos os outros da casa. Então passa em frente ao quarto da irmã e escuta um choro. Tenta abrir a porta que está trancada. Ele bate.

Carol: Que é?! – Pausa – Quem é?!

Carlos: Seu irmão preferido. Abre a porta. – Ele escuta ela se levantar e a porta destrancar. Os dois se sentam na cama. Ela tem o rosto molhado. As lágrimas dele já estavam secas. Ele abraça a irmã e eles ficam assim por um tempo, em silêncio.

Carol: Eu sou uma burra mesmo! – Ela olhava continuamente para um ponto fixo na sua frente. – Que medo estúpido de avião! – Completa, batendo na perna.

Carlos: Do que você está falando? – Ele fica sem entender. – O que isso tem a ver com qualquer coisa?

Carol: Se eu não fosse tão medrosa, não teria que ter vindo de ônibus, e poderia ter visto o papai antes dele morrer. – Carlos, ao entender, abraça a irmã mais forte. Ela continua a falar e recomeça a chorar. – A gente mal se falou antes de tudo isso acontecer. Acredita que ele me elogiou pra caramba por causa do programa?

Os dois dão um riso saudoso.

Carol: Fez eu me sentir a Oprah. – Os dois ficam em silêncio por um tempo. – Por que ele tinha que ir agora, Carlos? Muito cedo! Tem tanta coisa ainda pra ele ver! – Os dois se abraçam, ele pondo a cabeça no ombro da irmã. Carlos volta a chorar.

13. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA – QUARTO

Sara chegou ao quarto, já recomposta após o desabafo com o filho na cozinha. Fernando estava deitado na cama, meio inquieto, lendo um livro. Sentou-se assim que a esposa entrou.

Fernando: Ei… – fechou o livro, chegando mais perto de onde ela estava.

Sara: Ei… – responde respirando fundo.

Fernando: Amor, vem cá. – diz a chamando pra perto de si.

Sara se senta ao lado do marido na cama, mantendo uma expressão triste. Fernando acaricia seu rosto, fitando-o com atenção.

Fernando: Você está sendo tão forte… o dia todo. Mas eu sei que não é bem assim. – fala em tom de cumplicidade.

Sara: Não sei, é difícil o tempo todo, mas tem horas que parece que não é verdade, isso facilita, eu acho. Não posso me entregar, ou vai cair tudo em cima de mim. – esfrega os olhos evitando que lágrimas voltem a cair e sorri triste.

Fernando: Eu entendo… Sara, – segura na mão da esposa – quando eu perdi meu pai, eu era só uma criança querendo ser logo um adulto. Lidar com aquela perda foi irreal, a não ser pela dor. Mas ela passa, pode ter certeza que passa.

Sara: Eu sei, mas é mais que dor, entende? – Fernando faz que sim com a cabeça.

Fernando: Uma coisa que me acontece até hoje é, nos momentos mais importantes da minha vida, eu me pegar pensando “como seria se ele estivesse aqui”. Desejando ele aqui, sabe. Eu queria que ele estivesse aqui, ver meus filhos, seus netos, ter me ouvido cantar, ter estado no nosso casamento, implicado com meus erros, me ensinado mais…. Esse sentimento sem nome que você está sentindo agora aí dentro – coloca a mão no colo de Sara, bem onde fica o coração – de viver sem seu pai, nunca vai passar. Mas eu penso: “ei, tive onze anos com ele, bons anos”. Você teve quase quatro décadas. Nada vai mudar isso.

Sara abraça o marido com força e deixa rolar algumas lágrimas silenciosas, que caem naturalmente. Fernando beija a esposa com carinho, ele também tinha os olhos cheios d’água.

14. INTERNA – DIA – PRÉDIO DA BARBOSA-LIMA – SALA DE REUNIÕES

Camilo Fontenelle, seu advogado e Yolanda estão sentados numa mesa. Carlos entra e se senta ao lado de Yolanda.

Carlos: Boa tarde, me desculpem o atraso. Meu pai faleceu há duas semanas e eu estava tentando achar a papelada para entrar com o processo de herança.

Advogado do Camilo: Meus pêsames. Podemos começar a reunião agora, sim?

Yolanda dá um tapinha nas costas de Carlos. Camilo o observa quieto.

Carlos: Certamente. Eu os convoquei aqui, pois eu e minha cliente temos uma proposta a fazer. – Os outros dois ficam em silêncio, esperando por Carlos continuar. – Ela terá direito a metade dos bens do senhor Fontenelle, à casa de praia e a uma pensão de trinta por cento do salário do senhor Fontenelle. Em troca, nós não vamos ao tribunal e ele fica ileso na mídia. Além de poder manter o apartamento dos dois.

Camilo cochicha algo no ouvido do seu advogado.

Advogado do Camilo: De maneira nenhuma! Nossa única proposta é: um quarto dos bens para a senhora Yolanda, apenas um dos carros e nenhuma casa. Pensão de dez por cento. E não se fala mais nisso.

Yolanda: Oh, que abuso! Pensa que sou o que? Uma assalariada? Nunca vou conseguir viver com 10% do que você ganha!

Carlos: Sem condições. Se vocês dois não querem repensar a proposta, acho que não há mais o que ser discutido, não é mesmo? Os vejo no julgamento. E é melhor se preparar. – Carlos levanta e sai da sala, seguido por Yolanda. Camilo apenas o observa sair.

15. EXTERNA – DIA – RUAS DO RIO DE JANEIRO

Carlos está dirigindo seu carro para o restaurante em que iria almoçar. Quando pára em um farol, liga para a casa da mãe e deixa o celular no viva-voz encostado no banco ao lado do seu.

Júnior: Alô. – Fala com voz de quem tinha acabado de acordar.

Carlos: Alô. – Imita o tom de voz do irmão. – Fala direito, Ju!

Júnior: Bom dia, meu irmãozinho. – Ironiza. – O que você quer?

Carlos: A mamãe e a Carol tão aí?

Júnior: Só a mamãe.

Carlos: Manda ela não sair. E nem você. Eu vou chamar a Carol, a Sara e o Tomás. A gente tem que resolver a questão da herança do papai.

Júnior: Não sei se ela vai querer. Conhece a mamãe. Ela ainda não está nada bem. Chora toda noite.

Carlos: Alguma coisa tem que ser feita. Ah, pede pra mamãe chamar o tio Saulo. Ele pode saber se o papai tinha um testamento lá no escritório. Mas, pelo amor de Deus, fala pra ele não levar a vovó. Ela só vai ficar dando pitaco.

Júnior: Tá bom. Até daqui a pouco então. Quando vocês vêm?

Carlos: Eu tenho uma reunião depois do almoço, mas é coisa rápida. Daí eu vou. Tchau! Volta a dormir! – Desliga.

16. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Todos os Andrades estão reunidos em volta da mesa, com exceção de Carlos. Tio Saulo também não chegou.

Carol: Então, Sara, como é que está a Andanças?

Sara: Na mesma. Não entendi o porquê da pergunta.

Tomás: Ela deve estar querendo saber sobre a presidência.

Nora: É, querida, como vai ficar essa situação?

Sara: Ah, mãe, a gente preferiu não mexer nisso ainda. Estamos os três dividindo as funções do papai.

Nora: Que bom, filha. Prefiro assim.

Carol: Não acho, talvez seja melhor definir logo um presidente, mesmo que seja temporário, para responder pela livraria. Pode ajudar com os funcionários..

Tomás: Foi o que eu disse pra ela.

Sara: Tomás, vai com calma nessa sua caça à presidência.

Tomás: Não é essa a questão. Eu não tenho problema nenhum em não ser o presidente.

Sara: Ahã. – Finge que acredita.

Tomás: Só falo o que é melhor pra Andanças.

Júnior: Ei, por que vocês não colocam o tio Saulo como presidente, então? E acabam com essa briga.

Sara e Tomás se entreolham e olham para Júnior.

Carol: Ele tem razão. No pé que tá, independentemente de quem virar presidente de vocês dois, vão haver brigas internas.

Nora: Olha, se é para escolher um, o Saulo é uma ótima escolha. Ele é paciente, inteligente, e tem grande influência… E vocês dois ainda teriam poder de escolha lá dentro.

Saulo chega e encontra com os outros.

Saulo: Boa tarde! – Diz cumprimentando a irmã.

Sara: Tio, novidades.

Saulo: Boas? – Cumprimenta a sobrinha.

Tomás: A gente fez uma pequena reunião agora… Você aceitaria ser o novo chefe da Andanças?

17. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Carlos entra e joga sua mala no canto da sala. Os outros Andrades e Saulo estão sentados na mesa.

Carlos: Bom dia!

Nora: Bom dia! Acordou de bom humor, foi?

Carlos: Eu sempre acordo de bom humor. – Os irmãos, Nora e Saulo se entreolham e começam a rir. – O que foi?

Sara: ‘Carlos, me passa o cereal?’ – Ela faz uma careta e continua a falar, fazendo ruídos estranhos – ‘Tá.’

Júnior: O que é isso? – Pergunta rindo.

Sara: Era nosso café-da-manhã.

Carlos: Isso não é verdade. – Finge-se de magoado e mostra a mão para a irmã mais velha, virando o rosto para o mais velho dos homens. – Então? O que aconteceu enquanto eu não chegava?

Tomás: Tio Saulo é o novo presidente temporário da Andanças. Você aceita, como sócio? – Ele faz uma pausa e mostra com as mãos os outros na mesa. – Todo o resto da mesa apoiou a decisão.

Carlos: Lógico que sim. – Ele sorri e cumprimenta o tio. – Parabéns, tio. – Senta-se.

Carol: E comigo, não vai falar?

Carlos: Ah é, você tá aqui, né? É que supostamente você mora em São Paulo, mas passa tanto tempo na casa da mamãe que nem sei mais.

Carol: Há-há, engraçadinho. Você sabe que eu tirei minhas férias agora, por… tudo que aconteceu. – O sorriso na cara dos familiares murcha. Fica um breve silêncio no ar.

Carlos: Bom…

18. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Carlos: Então é isso. Se a gente não achar um testamento escrito pelo papai, eu vou ter que arranjar um advogado para fazer a carta de adjudicação, e ele vai ter que revirar documentos, contas em bancos, e tudo o mais. O problema é que isso demora bastante. Então torçam para ele ter um testamento, porque a única coisa que vem para as nossas mãos agora é a Andanças, pela nossa sociedade.

Tomás: Bom, ninguém aqui está realmente pensando no dinheiro, Carlos. Não é a coisa mais importante do mundo.

Carlos: Para a mamãe e para o Júnior é. Eles não trabalham e precisavam do dinheiro do papai. – Júnior faz um positivo com os dedos e sorri rapidamente, voltando a escutar.

Tomás: Você tem razão.

Nora: Eu posso muito bem me virar sozinha enquanto esse dinheiro não vem. Sempre tem o dinheiro da livraria, e além do quê, eu tenho direito a pensão, não tenho? – Carlos concorda com a cabeça.

Júnior: E onde estaria esse testamento?

Carlos: Em qualquer lugar que o papai pudesse guardá-lo. Por isso chamei vocês. Pra ver se você, a mamãe e a Carol não viram nada por aqui em casa, e os outros três no escritório. – Vira-se para os demais. – E então?

Sara: Não me lembro de ter visto nada pela Andanças, mas era o Tomás que ficava na unidade com o papai. – Saulo concorda com a sobrinha.

Tomás: Não, nada. – Carlos se vira para o outro núcleo.

Carol: Eu não vi nada, e o Júnior ou está dormindo ou fora de casa.

Júnior: Já você, não sai daqui da casa do papai. – Os dois sorriem falsamente para o outro, em sinal de trégua.

Nora: Seu pai nunca comentou de um testamento comigo. E depois do que aconteceu, eu nunca mais entrei no escritório dele. Se tiver alguma coisa, deve estar por lá.

Carlos: Devíamos procurar, então. Aqui e no escritório, por via das dúvidas.

Sara: Ok, obviamente eu, o Tomás e o tio Saulo devemos ir para a Andanças.

Carlos sacode os ombros.

Carlos: E o resto procura por aqui.

Nora: Eu não, filho. Não estou preparada ainda para ler o testamento do seu pai. Vou dar uma volta por aí, comprar algumas coisas para o lanche, que tal? – Ela sorri triste, e os filhos se fazem de animados, para agradar a mãe. Ela percebe que as reações não foram espontâneas, mas gosta da atitude dos filhos. – Saulo, por que não vem comigo?

Ele concorda, e então os grupos se separam.

19. INTERNA – DIA – ANDANÇAS CENTRAL (SEDE) – ESCRITÓRIO DO GUILHERME

Tomás e Sara estão mexendo em gavetas e pastas do pai, olhando papéis e procurando o testamento.

Tomás: Sá, você e o Nando tão bem? – Ele para de folhear as páginas dentro da pasta em que olhava, e vira para a irmã.

Sara: Uhum. – Ela responde sem tirar a cabeça dos papéis.

Tomás: Mesmo? Eu percebi algo estranho no funeral do papai, nas reuniões de família, e até da última vez que eu saí só com ele, no jogo do Fluminense.

Sara: Que que é, Tomás? – Ela se vira, impaciente, e depois acalma. – Não está tudo às mil maravilhas, mas tá tudo bem. Não quero comentar sobre isso.

Tomás: Ok, você quem sabe. Qualquer coisa…

Sara: Obrigada. – Ela sorri e os dois retomam a busca pelo testamento em silêncio.

20. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

Carlos e Carol procuram no escritório do pai algum documento que possa ajudar no processo da carta de adjudicação, ou até mesmo um testamento escondido. Júnior tinha ido atender ao telefone.

Carol: Não imaginava que o papai fosse organizado assim. – Diz enquanto mexe em uma gaveta.

Carlos: Pensou que fosse desordenado que nem você?

Carol: Nossa. Você tá hilário hoje.

Carlos: Olha, tem uma carta aqui no meio das contas da Andanças.

Carol: Carta? Pra quem?

Carlos: Vera Santos. – Lê no envelope. – Acho que ele nunca mandou.

Carol: Vera Santos… Eu conheço esse nome.

Carlos: É aquela mulher, cliente do papai. O Tomás a apresentou no enterro.

Carol: É verdade! – Pausa – E então? Você vai guardar para entregar?

Carlos: O que você acha? – Ele para por um instante. – Lógico que não! A gente vai abrir e ler a carta, da maneira Andrade.

Carol: Ufa! Você não me decepciona. Acho que o que falam dos advogados e dos jornalistas é verdade, então.

Carlos: Quem sabe? – Começa a ler carta para si mesmo.

Vera,

Não posso mais manter as coisas como estão indo. Nora já anda perguntando o que tanto eu faço no escritório, e as coisas por lá não estão muito bem também.

Outra coisa que me preocupa é a situação da Rebeca, não sei se esse dinheiro que venho deixando para ela será o suficiente com sua decisão de ser fotógrafa. Será que não era hora de descobrirmos se ela é mesmo minha filha?

Sugiro para nós darmos uma esfriada por enquanto. Não parar de se ver, só se ver menos. Está bem com você?

Beijos, Guilherme.

Carlos tem uma expressão séria e leva as mãos à cabeça, se sentando numa cadeira.

Carol: O que foi? – Ele joga a carta para ela, que lê.

21. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

Carol: Como assim? Isso é uma brincadeira?!

Júnior entra falando.

Júnior: Era a vó Diva, querendo saber do tio Saulo. Ela mandou beijo para você, Carlos. – Ele percebe o clima tenso entre os irmãos. – Eita! O que foi? Acharam o testamento? O papai deixou mais para a Carol que pra você, Carlos, foi isso? – Brinca, sorrindo, mas os irmãos não correspondem.

Carlos: Nada demais, Júnior. Não tem nada aqui. Vamos pra sala. A Sara falou que ligava quando eles acabassem por lá. – Vai andando em direção à sala.

Júnior: Como nada demais? Vocês estão muito estranhos. – Percebe a carta não mão da irmã e pega sem ela perceber. Começa a ler.

Carol: Júnior!

Os três escutam a porta se abrir e as vozes de Nora e Saulo serem ouvidas. Júnior acaba de ler, deixa a carta em cima da mesa e vai até a sala.

Carlos: O que ele tem?

Carol: Liga os pontos. A Vera é mãe da Rebeca. A Rebeca tava saindo com o Ju. E quem supostamente é o pai dos dois?

Carlos bufa nervoso e assiste à irmã se jogar na outra cadeira do escritório, apoiando a cabeça nos braços.

22. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Júnior entra possesso.

Nora: Oi, querido. Acharam alguma coisa?

Júnior: Tio Saulo, vem cá. – Diz seco, ignorando a mãe.

Saulo: O que houve? A gente ia arrumar as coisas para comer.

Júnior: Agora. – Ordena bravo.

Nora: Júnior! Olha como fala com seu tio!

Saulo faz um gesto para a irmã se acalmar e segue o sobrinho.

23. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – HALL DE ENTRADA

Saulo e Júnior vão para o Hall e um para de frente ao outro.

Júnior: Por que você mentiu?

Saulo: Menti sobre o quê?

Júnior: Sobre a morte do meu pai!

Saulo: Júnior, eu não tô entendendo.

Júnior: Lógico que tá! O que você acha? Que eu tenho cinco anos de idade? Eu sei sobre a Vera e o meu pai.

Saulo: Como?

Júnior: Não interessa! O que interessa é que eu recebi uma mensagem da Rebeca ontem à noite. E nela, ela berrava o nome do meu pai, o meu nome. Ela parecia morrendo de medo. Agora me diz. Como meu pai morreu? Ele não estava com você bebendo, estava?

Saulo: Não. Ele tinha ido discutir com a Vera. Ele se exaltou e acabou tendo o ataque no elevador. A Rebeca o encontrou lá embaixo, ligou para a mãe, que me ligou. Então eu acompanhei seu pai até o hospital.

Júnior: Você sabia de tudo! Por que não tentou impedir? Você mantinha contato com ela! Você não se importava com a minha mãe?!

Saulo: Não fala besteira! Nesse tempo todo, a sua mãe foi a pessoa com quem eu mais me importei! Aqueles dois não iam parar! E você acha que eu ia fazer o quê? Me intrometer na vida dessa família mais do que eu me intrometo sempre? Você acha que eu ia contar para a Nora e ver esse casamento se desmanchar, ver vocês cinco sem os seus pais juntos? – Silêncio por um longo tempo. – Quem mais sabe?

Júnior: A Carol e o Carlos, mas logo deve se espalhar para a Sara e o Tomás.

Saulo: E o que vocês pretendem fazer? Contar para sua mãe?

Júnior: Eu não sei, e não vou ser eu a decidir. Não quero ser o culpado por transmitir tristeza a alguém. A Rebeca sabe de tudo isso? Da mãe dela e do meu pai? Que talvez ela seja… minha irmã?

Saulo: Não. Ela deve ter alguma desconfiança sobre o caso, mas não.

Júnior escuta a última frase do tio e sai pela porta da frente, mexendo no celular.

24. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

Carlos e Carol ainda estão sentados no escritório, cabisbaixos. Os dois já tinham relido a carta duas vezes e Carlos teve o impulso de levantar e contar para a mãe sobre tudo três vezes, mas Carol o impedira. O telefone toca.

Carlos: Alô.

Sara: Oi, Carlos. Ainda tá aí? Não acharam nada?

Carlos: Não.

Carol gesticula buscando saber quem estava do outro lado da linha. Carlos tapa o bocal do telefone com a mão.

Carlos: Sara – Diz sussurrando e destampa o bocal.

Sara: Hm… Ok. – Diz estranhando a rispidez do irmão e sinaliza para Tomás que Carlos não está bem. Coloca o celular no viva-voz. – Carlos, você tá bem?

Carlos: Fala logo o que você quer, Sá.

Sara: Então tá. Era só pra dizer que a gente não achou nada por aqui..

Carlos: Ótimo, vou ter que arranjar um advogado pra herança agora! Era só o que me faltava!

Tomás: Deixa de ser preguiçoso, Carlos!

Carlos: Você me colocou no viva-voz e nem me avisou?

Sara: O que é que tem? Carlos, você tá muito estranho. O que aconteceu?

Carlos: Aconteceu que aparentemente ninguém me conta mais nada. – Carol faz um sinal de ‘não’ com as mãos, tentando fazê-lo parar. – Não me conta se me pôs no viva-voz, se teve um caso com outra mulher…

Tomás: Ahn? Do que você tá falando?

Sara: Quem teve caso com quem?

Carol pega o telefone da mão de Carlos.

Carol: Nada, não foi nada! O Carlos tá mal por causa do papai, é isso!

Carlos: Ah, qual é, Carol?! Fala logo pra eles! Eles vão saber cedo ou tarde! – Ele fala alto, para os irmãos ouvirem do outro lado. Carol manda diminuir o tom de voz e aponta para a cozinha, indicando que a mãe pode ouvir.

Tomás: E então? Estamos esperando.

Carol: Ok, vocês querem saber, então lá vai. Sabe aquela sua cliente? A tal de Vera Santos?

Tomás: O que tem ela?

Carol: Tinha um caso com o papai. E não era coisa nova não. É longa. Longuíssima.

Sara: Ahn? Do que você tá falando? Alucinou, Carol?

Tomás: Quê? Como vocês descobriram isso?

Carol: A gente tava mexendo nuns papéis do papai, pra carta de adjudicação. E daí a gente achou uma carta para essa mulher aí. E tava tudo lá escrito. Ele dizendo que a mamãe tava começando a desconfiar e que era melhor eles darem um tempo… Ah, e sabe do que mais?

Sara: O quê?

Carol: Lembram da Rebeca, a menina com quem o Júnior tava conversando hoje? A assistente de fotografia.

Tomás: Putz! Ela é filha da Vera!

Carol: É. Filha da Vera e talvez do papai também.

Sara: Como “talvez”?

Carlos pega o telefone de volta, pois não se agüenta parado na cadeira. Sara está sentada, passando a mão pelos cabelos, e Tomás está dando de um lado para o outro.

Carlos: “Talvez” como em “ela é uma vagabunda e tinha vários amantes ao mesmo tempo que o nosso pai.”

Um silêncio prolongado fica entre os quatro.

Sara: E o que a gente faz agora?

Carol pega o telefone. Os dois estão ouvindo, lado a lado. Preferem não ligar o viva-voz para Nora não ouvir a conversa.

Carol: Não sei. Mas o Júnior, quando ouviu, montou o quebra-cabeça e saiu furioso. Deve ter ido falar com a Rebeca. Logo, logo aquela mulherzinha vai saber que a gente sabe.

Tomás: E isso significa o quê? Que a gente tem que contar logo pra mamãe, pra ela se proteger?

Carol: Não sei. Ela vai ficar super decepcionada. Mas ela vai descobrir em algum momento. Melhor que seja agora.

Sara: Tá bom. Espera a gente. Vamos praí.

Carol e Sara desligam ao mesmo tempo.

25. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE VERA SANTOS – SALA

Rebeca está deitada no sofá olhando para o teto. Vera está sentada à mesa, lendo. O celular de Rebeca toca.

Rebeca: Alô.

Júnior: Rebeca? É o Júnior. Você tá ocupada?

Rebeca: Não, não. Não tô ocupada. Que houve?

Júnior: A gente tem que conversar e tem que ser pessoalmente. Você me encontra lá na praça perto da sua casa? Eu devo chegar em, no máximo 10 minutos.

Rebeca: Ok, tô indo pra lá. Beijo.

Júnior: Até daqui a pouco. – E desliga o telefone.

Rebeca se levanta, calça suas sandálias, pega a bolsa e vai em direção à porta.

Vera: Aonde você vai?

Rebeca: Vou me encontrar com o Júnior. Ele parecia aflito no telefone. Não sei o que era. Dever ser algo importante, mãe. Não quero me atrasar. – Assopra um beijo para a mãe e sai, fechando a porta atrás de si.

Vera fica pensativa. Dá um tempo e vai tomar banho, querendo esfriar a cabeça.

26. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Saulo volta para a cozinha após ter ido lavar o rosto e a nuca no banheiro e ter dado uma espairecida.

Nora: O que o Júnior queria?

Saulo: Nada demais.

Nora: Como nada demais? Ele estava tendo um filho quase!

Saulo: Ele queria me perguntar algumas coisas… Vamos mudar de assunto?

Nora: Tudo bem. Acho que a gente deveria comer. Cadê ele, Saulo? E o Carlos e a Carol também.

Saulo: Ele saiu. Os outros dois devem estar no escritório. Quer que eu vá chamar? – Já se levantando.

Nora: Como assim saiu? Por quê?

Saulo: Disse que tinha se lembrado de um compromisso importante e que comia na rua. Eu vou chamar o Carlos e a Carol.

Nora: Compromisso importante? Que compromisso é esse?

A campainha toca.

Nora: Quem será? – Vai até a porta e lá encontra Sara, Tomás, Carol e Carlos, que já tinham aberto a porta para os outros dois irmãos. – Olha que bom! Vocês voltaram! Vão lanchar aqui?

Nora anda em direção à cozinha enquanto fala, e os filhos a seguem.

Carlos: Mãe, eles não vieram comer.

Nora: Não? – Ela pára e se vira para ver a expressão séria dos filhos.

Sara: Não. A gente veio pra ter uma conversa séria com a senhora.

Saulo: Bom, eu acho que eu devo ir embora. – Saulo percebe o conteúdo da conversa.

Saulo se despede de Nora e de seus filhos e vai embora.

Nora: Então, o que era?

Carol: Talvez a senhora queira se sentar.

Ela se senta.

Carol: Leia essa carta. – Carol entrega para ela a carta de Vera.

Nora começa a ler e tem uma expressão séria e triste. Os filhos estão todos em pé e apreensivos. Há um longo silêncio. Ao fim da carta, Nora está com os olhos tremendo, lágrimas saindo de seus olhos e sua boca se contorcendo, evitando chorar. Os filhos um por um abraçam Nora. Carol têm lágrimas em seus olhos também, porém não derramadas. Os outros três estão apenas abatidos.

Carlos: A gente descobriu isso agora… – É interrompido pela mãe.

Nora: Eu não quero saber mais, Carlos. – Sua voz fraquejando, mas com o tom firme.

Tomás: Mãe, essa mulher vai saber daqui a pouco e a gente achou melhor que você soubesse também.

Nora fica em silêncio. Ainda controlando o choro.

Nora: Podem lanchar, se quiserem. Não me esperem. Eu vou dar uma volta.

Nora sai, deixando os filhos sozinhos e em silêncio.

27. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE VERA SANTOS – QUARTO

Vera acabou de sair do banho e está de roupão. Vai até seu armário pegar uma roupa, mas pára em frente à cômoda. Em cima da cômoda há um porta-retrato com a foto de Guilherme. Ela o pega, se deita na cama, o observando. Seus olhos se enchem de lágrimas.

Vera: Guilherme! Tinha que morrer logo agora? Eu não sei o que fazer. A Rebeca disse que o Júnior ligou para ela aflito. E se ele tiver descoberto algo e contado para ela? Como eu fico? A Rebeca não vai mais falar comigo. – Ela pára um pouco. – E se a sua família fizer alguma coisa para que ela fique contra mim? Isso é tudo culpa sua, Guilherme Andrade! Se tivesse largado aquela sua mulher sem graça e ficado comigo…

Ela abraça o porta-retrato e vira de lado fechando os olhos e chorando.

28. EXTERNA – DIA – PRAÇA

Júnior está sentado em um banco. Rebeca chega e ele se levanta. Ela vai beijá-lo na bochecha e ele se esquiva.

Júnior: Senta, Rebeca.

Os dois se sentam lado a lado.

Rebeca: O que é que é tão importante assim que você tem pra falar comigo?

Júnior: Eu não sei outra maneira de falar isso, então aqui vai. – Ele molha os lábios e se senta de frente para ela. – Eu descobri uma coisa hoje e achei que você devesse saber em primeiro lugar.

Rebeca: O que foi, Júnior? Você tá me preocupando.

Júnior: A sua mãe. Ela teve um caso com o meu pai.

Rebeca: O quê?

Júnior: Não é só isso. Existe uma grande possibilidade de você ser filha dele. E minha irmã.

Rebeca se levanta rapidamente e vira para Júnior.

Rebeca: O quê? Do que você tá falando?

Júnior: Ele deixou uma carta pra ela dizendo tudo. Ele se conheceram mais ou menos quando você nasceu, eu acho. – Ela fica perplexa e parada, sem saber o que dizer. Olha para os lados em busca de uma resposta. – Olha, eu tô tão confuso quanto você! A gente quase teve um relacionamento e daí a gente é irmão.

Rebeca: Júnior. Eu vou dar uma volta. Quando eu estiver melhor, eu te ligo. Ou não. Acho melhor a gente parar de ser ver.

Júnior: Rebeca, você tá louca? Não vou parar de te ver!

Ela sai andando. Ele olha ela ir, pega um vidrinho do bolso, tira de lá três comprimidos e engole. Fica um tempo sentado, depois vai para um bar.

29. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE VERA SANTOS – SALA

Rebeca entra em casa. Vera está sentada no sofá, lendo um livro. Rebeca vai até a ela e pára em sua frente. Vera levanta o rosto e olha para a filha.

Rebeca: Como você pôde fazer isso comigo? – Silêncio – Hein? Responde! Eu cresci a minha vida inteira – enfatiza a palavra – achando que não tinha pai! Achando que ele estava morto, que nunca tinha chegado a me conhecer, mas não… Ele estava aqui, do meu lado, me assistindo crescer. Me pergunto se o Guilherme sabia que era meu pai, sabia?

Vera nega com a cabeça abaixada. Rebeca dá um riso nervoso.

Rebeca: E o tio Saulo? Você dormiu com ele também? Eu tenho algum irmão e não sei?

Vera levanta e dá um tapa no rosto da filha.

Vera: Escuta aqui! Eu entendo que você esteja brava, chateada, mas isso eu não admito! Entendeu? Isso eu não admito!

Rebeca: Ele era cunhado do Guilherme, pelo amor de Deus! Você não tem nenhum caráter? Como deixou que eu me envolvesse com o Júnior? Ele é meu irmão! Sorte nossa que não aconteceu nada, porque se não…

Vera: Eu tentei impedir, Rebeca! Não é possível que não se lembre quantas vezes eu te alertei sobre esse garoto e te disse para ficar longe dele!

Rebeca: Eu não posso mais morar aqui.

Vera: Ah é? E vai pra onde? Fazer o quê? Pedir dinheiro no sinal?

Rebeca: Não… Talvez eu siga seu exemplo e vire garota de programa. Você iria ficar mais orgulhosa, não é?

Vera levanta a mão, mas Rebeca a segura. As duas ficam com o olhar uma na outra até que ela joga a mão da mãe no ar e vai em direção a seu quarto. Vera segue a filha até ver a porta bater, depois volta à sala se senta, preocupada.

30. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Nora está sentada no sofá, pensativa. A campainha toca. Nora abre a porta e vê Saulo.

Nora: Oi. O que está fazendo aqui a essa hora?

Saulo: A Carol ligou pra mim falando que você tinha chegado. Estava preocupado.

Os dois se sentam no sofá.

Nora: Eu estou melhor, obrigada. Veio aqui só para me ver?

Saulo: Na verdade, eu queria falar uma coisa para você.

Nora: O quê?

Saulo: Escuta, Nora, antes de tudo eu queria que você soubesse que eu fiz isso tudo para te proteger.

Nora: Já vai jogar outra bomba em mim, Saulo? Não tem piedade?

Saulo: O Guilherme não morreu como eu contei que ele morreu.

Nora: Como?

Saulo: É, ele não estava bebendo comigo quando teve o ataque. Ele estava na casa da Vera. Discutiu com ela e teve o ataque. Parece que a Rebeca o viu no elevador, ligou para a mãe e daí ela me chamou e eu o levei para o hospital.

Nora: Então você já sabia dos dois?

Saulo: Já. Eu tentei impedir, mas eles não iriam me ouvir! E eu mantive isso de você, pois não queria te ver magoada como você está agora.

Nora: Saulo, sai da minha casa. Obrigado por me contar da morte do meu marido. Mas eu já fui traída o bastante por hoje, o marido e o irmão no mesmo dia é demais, não é? – Ela tinha lágrimas nos olhos, prestes a cair.

Nora leva Saulo a porta. Ele tenta explicar, mas ela o cala. Quando eles abrem a porta, Júnior entra meio cambaleante e tropeçando.

Júnior: Mãe! Ele é um mentiroso! Ele sabia de tudo desde o começo! – Fala meio enrolado.

Nora: Eu sei, filho, eu sei. Vai deitar, você não está bem. – Se vira para Saulo, já do lado de fora. – Tchau, Saulo. – E fecha a porta.

Júnior sobe as escadas com dificuldade e, ao chegar em seu quarto, se joga na cama.

31. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA VERA – SALA

Rebeca sai de seu quarto com uma mala. Vera está no sofá. Ela se levanta.

Vera: Filha…

Rebeca: Eu vou usar o dinheiro da minha poupança e arranjo um lugar para ficar. Guilherme vem deixando bastante dinheiro pra mim desde que nasci. Imagino se esse dinheiro não faz falta para os Andrades. Mas você não se importa, não é mesmo?

Vera: Rebeca, me escuta…

Rebeca sai pela porta e a bate, deixando a mãe sozinha.

32. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Júnior entra na cozinha, e vê sua irmã bebendo café.

Carol: Bom dia. Quer café?

Júnior: Ressaca diz ‘não’. – Tira a garrafa de água da geladeira e despeja um pouco em um copo.

Carol: Aonde você foi ontem com tanta pressa?

Júnior: Contar tudo para a Rebeca.

Carol: Sabia! Como você pôde fazer isso? O ideal seria que essas duas sumissem definitivamente das nossas vidas e você fica dando corda?

Júnior: Eu tive um relacionamento com ela, Carol! – A irmã continuava brava. – Não vou discutir com você. Você não entenderia. Cadê a mamãe?

Carol: No quarto ainda. Já disse que todo mundo ligou perguntando dela, e ela não desce. Não adianta nem tentar ir lá.

Júnior: Ah, ótimo! Eu já venho. – Sai em direção à sala.

33. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Júnior disca o número do escritório do político para qual Júnior e Rebeca estão trabalhando. A recepcionista atende e diz que vai chamar Rebeca.

Rebeca: Alô. Rebeca Santos, quem deseja?

Júnior: Alô. Rebeca, sou eu, o Júnior. Não desliga!

Rebeca: Fala rápido, Júnior, eu tenho que trabalhar.

Júnior: Eu só queria saber como você tá e quando eu posso te ver pra gente conversar direito.

Rebeca: Como eu tô? Bem, eu tinha um romance com meu irmão, briguei com a minha mãe e tô usando o dinheiro do meu pai com quem eu pouco falava para pagar diária no hotel. É, eu tô bem mal. – Ela pára um pouco, como se estivesse pensando. – Olha, eu vou te dizer onde eu tô, mas essa vai ser a última conversa, ok?

Júnior: Ok.

Rebeca: Estou no Hotel Flor-de-Lis, perto da minha casa. Quarto 211.

Júnior: Eu passo por lá mais tarde.

Rebeca: Tudo bem. Tchau.

Júnior: Tchau.

34. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA VERA – SALA

Vera está tomando um café, sentada no sofá e olhando para o vazio, quando sua campainha toca. Ela abre a porta e vê Saulo.

Vera: Que surpresa! Veio acabar comigo também? Ultimamente é só o que têm feito.

Saulo: Não, vim te dar apoio. A você e a Rebeca, mas se não quiser, eu vou embora.

Vera: Não! Fica! Quer café? Acabei de fazer.

Saulo: Não. Obrigado. Onde está a Rebeca?

Vera: O Júnior contou tudo para ela e ela brigou comigo. Saiu de casa ontem.

Saulo: Foi tão grave assim?

Vera: O que você esperava? Eu menti para ela afinal. Mas aposto que aquele menino tenha distorcido a verdade. – Ela bebe um gole do café. – Acredita que ontem ainda tive a infelicidade de sonhar com a tua irmã?

Saulo: Vera, olha o nível!

Vera: Desculpa, mas ela tá travada aqui na minha garganta! No sonho, eu engoli tudo que ela disse de mim! Pra não responder grossa. Ela chegou a dizer que eu era uma qualquerzinha que o Guilherme pegou na esquina! – Vera apóia a xícara em cima de uma mesa e tem os olhos cheios de lágrima. – Eu não era uma qualquerzinha! Ele me amava!

Saulo: Eu sei disso, Vera. – A abraça.

Vera: Saulo. Eu tenho que te pedir uma coisa. O Júnior deve saber onde a Rebeca está. Você pode descobrir e me dizer?

Saulo: Posso, mas acho que vai demorar um pouco.

Vera: Por quê?

Saulo: Eu briguei com ele. Contei a verdade. Que sabia de vocês dois e como Guilherme morreu.

Vera: Foi assim que eles descobriram? Não acredito que você fez isso!

Saulo: Não! Não faço idéia de como eles descobriram!

Vera: Ainda bem! Não merecia brigar com você também.

35. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – QUARTO DA NORA

Carlos bate à porta. Nora reluta, mas a abre. Ele entra e se senta ao seu lado na cama.

Carlos: E aí, mãe? Como você tá?

Nora: Bem melhor. Desculpa por ontem. Eu fui meio grossa quando vocês me contaram, mas eu não estava bem.

Carlos: Tudo bem, mãe, a gente entende. – Pára um pouco pra trocar de assunto. – Eu falei com um amigo meu da faculdade, o Raul, que acabou envergando para o lado de testamento e essas coisas jurídicas pós-morte. Ele ficou de tratar da adjudicação das coisas do papai.

Nora: Sabe o que eu estava pensando, meu filho? Essa menina, Rebeca, deveria ter o direito de ganhar alguma coisa. Afinal, ela não escolheu ser filha daquela… bom, você sabe de quem.

Carlos: Tem certeza, mãe? A gente não sabe nem se ela é filha mesmo do papai. Bom, de qualquer jeito até tudo ficar nos conformes já terão se passado alguns meses e nós teremos tempo o suficiente para decidir.

Carlos sorri meio triste e Nora retribui. Os dois se abraçam.

36. INTERNA – NOITE – HOTEL FLOR-DE-LIS – QUARTO 211

Rebeca recebe o comunicado da recepção que Júnior estava subindo. Abre a porta para ele.

Júnior: Boa noite.

Rebeca: Nem tanto. – Ela se senta na cama.

Júnior: Olha, Rebeca. Eu realmente gosto de você. E eu estou muito confuso. Imagino que você esteja tanto quanto eu. – Ela concorda com a cabeça. – Mas veja, por isso mesmo não queria me separar de você. Por isso, tenho uma proposta.

Rebeca: Proposta?

Júnior: É. Nós começamos com o pé errado, com interesse de namorados. Que tal se recomeçássemos nossa relação como irmãos?

Rebeca: Como assim?

Júnior: Se fizéssemos programas de irmãos, conversássemos como irmãos… Talvez conseguiríamos transformar esse interesse, em amor de irmão. O que me diz?

Rebeca: Júnior, eu tenho que pensar. Não sei se vai ser tudo tão fácil assim como você propõe.

Júnior: Então pense, eu espero a resposta.

Rebeca acompanha Júnior até a porta e ele vai dar um beijo no rosto dela.

Júnior: Tchau, irmã. – E sorri meio triste.

Rebeca: Tchau. – Ela retribui e se joga na cama.

37. EXTERNA – NOITE – PRAIA DE IPANEMA

Nora dirigia na avenida da praia. Estaciona em um ponto da praia de Ipanema, e sai do carro. Senta-se na areia, perto da calçada, observando o mar e a lua.

Nora: Como eu odeio você! Eu te odeio tanto, mas tanto que se você não estivesse morto, eu te matava! – Ela volta a chorar. Agora misturando o choro de raiva com o sentimento de traição. – Por que você não me contou antes? A gente poderia ter resolvido isso! Ah, Guilherme. Tinha que fazer isso! – Dá um soquinho na areia. – Eu odeio muito você! Muito, muito, muito! Mas eu te amo. Por que você foi embora? – Chora mais.

Fica mais um tempo sentada e chorando, e depois vai para casa.

Continua…

Trilha sonora

Cena 07: Em Nome do Filho – Gram

Cena 10: Stop Crying Your Heart Out – Oasis

Cena 12: Don’t Go Away – Oasis

Cena 26: Isso – Titãs

Cena 27 e 37: Quase um Segundo – Cazuza

Cena 28: Almost Lover – A Fine Frenzy

5 Respostas to “Tarde Demais”

  1. Alice Says:

    O final com menos suspense dos 5 mas episódio muuuuito bom.. Prometo que nunca imaginei que o Guilherme fosse morrer!!
    E detalhe que só vim descobrir que a Sara perdeu o filho nesse episódio: o passado eu li em dias separados e devo ter pulado a parte que dizia que ela havia perdido!!
    Parabéns
    \o/
    E esperando aqui o próximoooo

  2. Karen Says:

    mais um episodio muito bom mas juro q pensei q teria um testamento de Guilherme…

    esperando o prox…

    bjs!

  3. Natie Says:

    Bom, as coisas aconteceram rapido nesse epi! A Nora ja descobriu da traição do marido, Junior e Rebeca ja vao partir pra uma relação de irmaos (que pena!)… Gostei de ter sido assim… Nao gosto mtu da enrolação…
    Espero ansiosa pelo embate entre Nora e Vera!
    Louca pelo testamento tbm!
    Ah, e minhas cenas preferidas, apesar de serem pquenas em relação ao epi, foram os monentos da Sara com o Gabriel… Que legal ela consolando ele e vice-versa…
    É isso pessoal! Beijos e continuem assim! 😀

    Boa semana Sam!! E valeu pelo comentario mais uma vez…

  4. Carine Dávalos Says:

    Eu sei que demorei pra terminar de ler, mas consegui… \o/
    Eu adorei a velocidade que as coisas aconteceram… Confesso que ainda espero q a Rebeca não seja filha do Gulherme prq eu qro q ela “endireite” o Júnior!
    Esperando aqui o próximo…
    Parabéns! =D

  5. Laís Says:

    Quanta emoção, perdi as contas de quantas vezes senti aquele aperto e aquele arrepio.
    muito bom, parabéns !

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