Nos episódios anteriores: Sara conheceu Marcelo e por ele se encantou. Carlos e Diego estavam tentando definir a relação que têm e entender um ao outro. A Quatro Estações estava com dificuldades para conseguir clientes e parcerias. Vera consegue um número suspeito. Júnior se desentende com seus membros de banda por causa do uso de drogas. Tomás e Vitória começam e avançam no processo de adoção.

01. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE TOMÁS

Tomás e Vitória esperavam a assistente social para avaliar sua situação familiar. Haviam ligado marcando a visita há uma semana e, desde então, os dois haviam limpado a casa umas quatro vezes, uma delas naquele dia de manhã. Havia se certificado que nenhum dos Andrades iria aparecer ou ligar ou sequer mandar uma mensagem de texto. Vitória tinha feito com que os dois praticassem alguns possíveis diálogos e respostas várias vezes durante a semana e agora eles aguardavam a assistente, sentados em sua sala, ambos devidamente engomados e perfumados. Eles ouvem a campainha. Os dois vão juntos até a porta e Tomás a abre. Encontram uma mulher rígida, mas sorrindo.

Regina: Bom dia. Meu nome é Regina, vocês são Tomás e Vitória, certo? – Ela pergunta olhando de um para o outro, analisadora.

Vitória: Exatamente. Bom dia! Como vai a senhora? Regina é o nome da minha mãe, sabia? – Ela diz simpática, mas se apressando.

Regina: Interessante. – Ela responde sem se importar muito.

Tomás: Bom dia, a senhora quer um copo de água, suco, café?

Regina: Água, mas depois, quando a gente for sentar e conversar um pouquinho. – Ela sorri. Alguma coisa no sorriso dela deixava Tomás e Vitória nervosos. – Agora, eu queria conhecer um pouco mais da casa de vocês.

Tomás: Mas claro, aqui é um hallzinho de entrada. Se você vier por aqui, tem a cozinha… – Eles entram na cozinha e Tomás e Vitória continuam a falar sobre como ela é segura e prática e funcional.

Regina: Ela é toda adaptada para você, não, Vitória?

Vitória: É sim.

Regina: E vocês não acham arriscado uma criança num ambiente com as gavetas e bancadas em uma altura tão baixa?

Tomás: Bom, dependendo da idade do nosso futuro filho, nós temos a intenção de instalar travas nas gavetas, armários… E se ele for mais velho, creio que ele tenha discernimento suficiente para não ter perigo.

Regina: Certo… – Ela diz pensativa. – Os outros ambientes?

Os três fazem um tour pela sala, quartos e banheiros. Regina comenta sobre a altura das janelas, que era baixa demais e se eles pretendiam instalar redes de proteção. Pergunta sobre o berço no quarto que fora outrora de Tiago.

Vitória: Nós o perdemos. Quando eu sofri meu acidente. – Ela explica triste.

Regina: Oh, sinto muito. – Ela diz, realmente surpresa. Achara que aquele era como tantos outros casos de casais que se entusiasmam demais com a idéia de adoção que fazem um quarto para o bebê. – Mas e se não for uma criança de colo?

Tomás: Nós vamos substituir o berço por uma cama. Bom, obviamente não temos a intenção de deixar o quarto assim. Queremos pintá-lo e até substituir parte da mobília.

Regina: Certo… – Ela escreve algo em seu caderninho.

Os três voltam para a sala, e Tomás serve a assistente social um copo de água. Eles se sentam no sofá e na poltrona.

Regina: Certo, agora preciso que vocês respondam um questionário. – Eles concordam e ela pega uma prancheta com uma folha escrita e uma caneta. – Idade.

Tomás: Eu 39, ela faz 32 semana que vem. Mas acredito que isso já tenha sido respondido.

Regina: Ah sim, é só procedimento padrão. – Ela anota as respostas. – Profissões e horário de trabalho.

Vitória: Bancária. Eu normalmente trabalho das 9h às 18h, mas pretendo tirar férias quando nós conseguirmos nosso filho.

Tomás: Eu sou dono de uma livraria. – Ele pensa antes de responder quanto tempo fica no trabalho. Acha melhor atenuar a resposta. – Meu horário é mais flexível, mas eu costumo ficar das 8h às 19h. – Regina anota mais.

Regina: E você administra essa empresa sozinho?

Tomás: Na verdade, a Andanças é associada a outra livraria, que tem o controle da situação maior. E eu não gosto de pensar que administro sozinho, eu administro com todos os meus funcionários. Mas sim, eu sou o único presidente da empresa, apesar de todos os meus irmãos, minha mãe e meu tio ainda serem sócios.

Regina: Certo… Em caso de algo acontecer com vocês, ou vocês não estiverem disponíveis, quem cuidará da criança?

Tomás e Vitória se entreolham, pensando na resposta. Depois dão uma risadinha discreta.

Tomás: Suponho que primeiramente, os avós. Minha mãe e os pais de Vitória. Mas também tem meus cinco irmãos.

Regina: Todos eles têm trabalho fixo?

Tomás: Bom, minha mãe é voluntária em um orfanato, mas recebe pensão. O pai de Vitória é advogado e a mãe, dona de casa. Meus três irmãos mais velhos são professora universitária, jornalista e advogado consecutivamente. Os dois mais novos ainda estão tentando se achar. – Ele responde enquanto a assistente anota tudo. Depois, pensa em algo que julga relevante comentar. – A professora tem três filhos, um de 15 e os gêmeos de 7 anos. E a jornalista tem uma enteada de 14. É bom ter outras crianças na família.

Regina: Sem dúvidas. – Ela faz um risco na folha. Vitória olha intrigada. – Bom, agora eu vou ter que ser um pouco mais desagradável. Peço desculpas, mas é minha função. – Eles assentem, ela continua. – Vitória, o seu acidente aconteceu há quanto tempo?

Vitória: Bom, estamos em janeiro e ele ocorreu em outubro de 2008. Um ano e três meses então.

Regina: Há chance de recuperação?

Vitória: Não. O que havia para ser recuperado já foi. – Ela responde secamente.

Regina: Certo, e pelo o que eu entendi vocês estavam esperando um filho na ocasião?

Tomás: O Tiago.

Regina: E depois não tentaram mais ter por meios naturais?

Tomás: No começo, ficamos muito abalados e não pensamos por um tempo, e depois percebemos que uma gravidez nas condições de Vitória seria uma gravidez de risco. E eu não queria colocá-la em perigo. Por isso resolvemos adotar.

Regina: Entendo. E vocês pretendem contar para a criança que ela é adotada?

Tomás e Vitória se entreolham, lembrando do caso de Júnior. Sobre isso, eles já haviam discutido.

Tomás: Sim, quando ela tiver idade suficiente para compreender o que isso significa.

Regina: Uhum… – Ela concorda, anotando e assinando uma folha, que guarda na bolsa. – Minha parte aqui com vocês está quase acabada. Eu só preciso que vocês preencham esse formulário sócio-ecônomico. – Ela entrega uma outra folha. Enquanto isso, se não se importam, vou ao toalete. Com licença. – Ela se retira.

Tomás e Vitória se olham e se abraçam, ansiosos e sorrindo. Depois se voltam para o formulário.

02. INTERNA – NOITE – HOTEL EM SANTO ANDRÉ

[¯– A Estrada, Titãs]

Já era tarde da noite e Júnior encontrava-se sozinho no quarto. Ele andava de um lado para outro. Então, pega seu celular e liga mais uma vez para Bianca.

Júnior: Finalmente você atendeu! Onde você está? (…) Ainda?  (…) Bianca, o que você tá falando? Você tá bem?

De repente o telefone fica mudo, e Júnior bufa descontente e preocupado. Em seguida, desaba na cama e fica encarando o teto.

03. INTERNA – DIA – QUATRO ESTAÇÕES – ESCRITÓRIO DE SAULO E VERA

Vera tinha um bolo de papéis na mão e uma calculadora do seu lado. Ela verificava os papéis com uma feição preocupada e logo em seguida, adicionava números na calculadora. Quando aperta o botão de “igual”. Ela reclina sua poltrona para trás e leva as mãos à cabeça.

Vera: Não é possível! – Ela se inclina de volta e apóia os cotovelos na mesa, segurando a cabeça, pensando. Ela escuta Saulo entrar na sala.

Saulo: O que está fazendo?

Vera: Verificando nossas contas e despesas e ganhos e tentando equilibrar tudo numa calculadora.

Saulo: E como está indo com isso? – Ele pergunta irônico, sentando-se a sua mesa.

Vera: Se não vai ajudar, não atrapalha.

Saulo: Eu avisei e não foi ontem ou anteontem. Já estou há semanas te falando que a gente precisa tomar uma medida drástica. Uma mudança de posicionamento. Mas você fica insistindo nessa idéia de salvar a companhia que eu ainda não vi qual é.

Vera: Eu consigo lidar com isso sozinha.

Saulo: Então qual é a minha função aqui? Se você quer liderar sozinha.

Vera: Não é isso que eu quis dizer… Só me dê um voto de confiança.

Saulo: Eu dou. Mas se essa sua atitude demorar muito, não haverá mais empresa para ser salva.

Vera: Precisamos de uma atitude imediata, então. Eu só não sei o que. Nossos ganhos estão longe de cobrir nossos gastos. A gente poderia tentar um empréstimo…

Saulo: Arriscado e demorado demais. A gente vai ter que cortar despesas. Primeiro passo é demitir pessoal.

Vera: Não tem mais nada possível?

Saulo: Não enquanto a gente não sair da lama.

Vera: Então vou ter que preparar meu discurso de demissão… – Ela responde pensativa.

04. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO

Carol tinha acabado de chegar em casa.

Carol: Roberto? Larissa? – chama assim que cruza a porta – Roberto? – chama um pouco mais alto.

Roberto: Tô tomando banho! – grita – Larissa vai dormir hoje na casa de uma amiga – informa colocando o rosto para fora do box – Não quer se juntar a mim aqui? – convida, sedutor.

Carol se joga no sofá, tirando e arremessando seus sapatos longe.

Carol: Daqui a pouco – responde com preguiça.

Roberto: Vem logo, se não vou te buscar!

Carol: Então vem – desafia-o.

Roberto sai do chuveiro, pega uma toalha e enrola na cintura, indo em direção a sala. Nesse instante a campainha toca. Carol levanta-se, inocentemente, para atender à porta. Ao abrir dá de cara com uma mulher e um rapaz.

Carol: Olá? – estranha.

Renata: Oi, quem é você?

Carol: Quem é você?

Renata: Roberto? – diz quando Roberto aparece só de toalha na sala.

Roberto: Renata?! – diz, tentando se cobrir mais ainda – O que você tá fazendo aqui? Por que não interfonaram?

Renata: Talvez por eu ser sua irmã. Mesmo assim me fizeram mostrar todos os meus documentos.

Carol: O interfone tá com defeito.

Renata lança um olhar interrogativo e de menosprezo para Carol.

Roberto: Renata e Ricardo, essa é a Carol. Carol, essa minha irmã Renata e meu sobrinho Ricardo – faz as apresentações e eles se cumprimentam sem entusiasmo.

Renata: A famosa Carol.

Carol: Famosa? Eu?

Renata: Roberto fala muito de você.

Carol: Mesmo? Espero que bem… – brinca.

Renata: Até demais.

Roberto: Renata, o que você tá fazendo aqui? – corta-a.

Renata: Não vai me convidar para entrar? – Roberto faz sinal para que eles entrem – Eu te disse que vinha ao Rio, vestibular do Rick, lembra?

Roberto: Sim, mas pensei que você fosse ficar na Lílian.

Renata: Nem pensar. Sabe que ela agora tá morando com aquela lá? – fala as últimas palavras num tom mais baixo – O que tá acontecendo aqui? – diz depois de passar o olho pela sala e por Carol e Roberto, com desaprovação.

Roberto respira fundo, tentando aceitar o fato. Carol fica com uma expressão meio angustiada. Ricardo calado estava, calado ficou.

05. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS – SALA

Uma semana já havia se passado desde a visita da assistente social, e uma carta havia chegado da Vara da Infância e Juventude, negando o pedido de adoção de Tomás e Vitória. Os dois haviam recebido isso como um baque, e quando Nora ligou algumas horas mais tarde e Tomás contou o acontecido, ela fez questão de ir visitá-los.

Nora: Querido! – Ela abraçou o filho com força assim que ele abriu a porta. Depois começou a fazer carinho em seu braço. – Como você está? E Vitória?

Tomás: Terrível, né, mãe? Imagina, passar por quase todos os processos, para no finzinho ser negado a adoção? E toda a expectativa que criamos? – Ela olha para o filho complacente. – Vitória está no quarto, não saiu de lá desde que recebemos a carta. Se foi horrível para mim, imagino para ela, que não hesitou nem um segundo. Além do que, ela está se sentindo culpada…

Nora: Ora, mas por quê? – Ela pergunta curiosa. Tomás pega a carta de cima de uma bancada e a entrega para a mãe. – ‘…Por instabilidade temporal e limitações de caráter variado?’ O que raios eles quiseram dizer com isso?

Tomás: Vitória está certa de que as limitações de caráter variado se referem a ela. E, para ser sincero, eu também acho. Assim como a instabilidade temporal é minha culpa. Ela deve ter se tocado que dirigir uma empresa por si só exige tempo e comprometimento. – Ele não colocava nenhum tom em sua voz, apática.

Nora: Eu sei que, apesar de tudo, esse filho era o que você mais queria e eu tenho certeza absoluta de que você conseguiria o amar como um filho biológico. Você será um ótimo pai, Tomás.

Tomás: Se é que serei pai algum dia. – Ele responde chateado. Nora o abraça com força.

Nora: Baques assim acontecem o tempo todo na vida. A gente tem que aprender a pegar o limão que jogam na gente e fazer uma limonada com ele, como já diria sua avó. – Ela dá um sorrisinho simpático e ele reage. Qualquer coisa que vocês precisarem, você sabe que podem contar comigo, né?

Tomás: Muito obrigado, mãe. Não sei o que seria de mim, se não fosse a senhora.

Nora: E Vitória? Será que se incomoda se eu for vê-la?

Tomás: Acho que é melhor deixar para uma outra hora. Deixa ela sofrer um pouco sozinha. Eu digo que você passou aqui e quis falar com ela.

Nora: Está bem. Coitada… Tão em cima do aniversário dela, ainda por cima. – Ela comenta reflexiva. – Já sei! Vou organizar uma festa para ela! Surpresa! Sim, ela vai amar, vai se animar um pouco!

Tomás: Não é preciso, mãe.

Nora: Mas eu faço questão. Não algo muito grande, só uma comemoraçãozinha. Domingo, eu suponho. Para dar tempo de ela comemorar com você e os pais dela. Será excelente! Deixe tudo comigo!

Tomás: A senhora é quem sabe… – Ele diz com um sorriso no rosto, contagiado pela animação da mãe.

Nora: Vou indo, então, tenho que ver com sua avó para ter idéias para o cardápio. E encomendar coisinhas. Um beijo enorme, filho. Me liga qualquer coisa mesmo. – Ela dá um beijo em Tomás e anda em direção ao elevador.

Tomás se sente melhor com a visita da mãe e vai para a sala. Lá ele começa a pensar que a festinha dos cinco filhos, Diva e Nora que fizeram no aniversário da mãe, na semana anterior, não tinha sido suficiente para demonstrar a importância que ela tem na vida de todos os Andrades. Logo, ele arquiteta uma idéia.

06. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE DIEGO – SALA

Carlos e Diego haviam acabado de jantar e agora Carlos assistia a uma matéria sobre o terremoto no Haiti. Diego chega com dois copos de vinho. Dá um para Carlos e se senta ao lado do outro.

Carlos: Que tragédia horrível, né?

Diego: Terrível. Minha vontade, como médico e como ser humano também, é pegar o primeiro vôo para lá e ajudar de alguma forma.

Carlos: Nem em sonho. Não sou louco de te deixar ir para o meio dessa loucura. Vai que acontece alguma coisa com você… – Depois de dizer o que disse, ele percebe o que isso significa. Fica preocupado, mas Diego sorri.

Diego: Sabe o que eu acho? – Carlos faz que não. – Que a gente deveria parar de pensar em tragédia. – Ele se inclina por cima de Carlos para pegar o controle remoto.

O médico desliga a TV. Eles se beijam e o beijo se intensifica. Eles apóiam os copos em cima da mesa, mas um deles acaba caindo e quebrando no chão.

Carlos: Ops, foi mal. Meu amor é devastador, destrói tudo ao redor. – Ele ri da piadinha sem graça. Carlos se levanta e pega os cacos de vidro. Diego sorria.  – Onde você tem um pano de chão?

Diego: Carlos, você quer namorar comigo?

Carlos: Não, você não entendeu. Eu perguntei onde tem um pano de chão. – Diego ri.

Diego: Deixa de ser bobo. Você entendeu. – Ele se levanta do sofá e se ajoelha na frente do outro. – Pronto, agora tá mais claro?

Carlos: Bom, você tem que pedir de novo pra valer de verdade. – Carlos ainda estava meio embasbacado.

Diego: Carlos Andrade, aceita namorar comigo?

Carlos: E eu tenho escolha? – Ele ri. Diego se levanta e beija o mais recente namorado. Diego pega o vidro da mão de Carlos e deixa em cima da mesa.

Diego: A gente cuida disso depois. – Os dois intensificam o beijo, mas são interrompidos novamente, agora pelo celular de Carlos.

07. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES/APARTAMENTO DE DIEGO/APARTAMENTO DE TOMÁS/APARTAMENTO DE SARA/APARTAMENTO DE ROBERTO/APARTAMENTO DE REBECA

Carlos interrompe o beijo que dava em Diego e atende o celular meio a contragosto.

Nora: Oi, querido.

Carlos: Diga, mãe.

Carol estava saindo do banho, pelo menos no banheiro ela não tinha que ficar na presença incômoda de Renata, quando ouve o seu celular tocando.

Carol: Alô.

Tomás: Oi, Carol. Tudo bem?

Rebeca olhava algumas fotos que tinha tirado, no computador, e eventualmente editava alguma quando ouve o telefone de sua casa tocar. Ela atende.

Rebeca: Pois não?

Carlos: Rebeca, é o Carlos. Bem-vinda a uma cilada Andrade. A mamãe tá organizando uma festa para a Vitória esse fim de semana. Você está oficialmente convidada.

Sara assistia à TV e ouve o telefone de casa. Gabriel surge com ele na mão dizendo que para ela.

Carol: Sara. Tomás está organizando uma festa para a mamãe nesse fim de semana. Fundamental sua presença. Ele quer ajuda para bolar uma surpresa.

Sara: Mas vem cá, e o jantar de aniversário que demos pra ela, não conta?

Carol: Tomás tem planos maiores. Tá sentada? Ele quer que a gente escreva um livro contando a trajetória de Nora Andrade!

Sara: Como assim? Quer que a gente escreva um livro em uma semana? Pretensão pouca é bobagem.

Carol: Ele já arquitetou tudo, disse que vai mandar por e-mail as idéias e o quê cada um vai escrever. Eu adorei.

Sara: Claro, você é a escritora da família. – revira os olhos.

Carlos desliga o celular e volta para Diego.

Carlos: Onde estávamos? – Ele diz sedutor e quando vai retomar o beijo, sente o celular vibrar de novo. – O que é?

Tomás: Sempre tão simpático…

Carlos: Achei que fosse a mamãe.

Tomás: Ah, isso é um bom motivo. Olha, preciso da sua ajuda…

Rebeca ainda estava entretida com suas fotos quando seu telefone volta a tocar.

Rebeca: Oi.

Carlos: O lance é pior do que eu pensava.

O telefone de Sara volta a tocar.

Sara: Alô.

Nora: Oi minha filha, é sua mãe.

Sara: Oi minha mãe, tudo bem? – estranha a coincidência.

Nora: Sim. Veja só, Sara, próximo sábado é aniversário da Vitória e eu estava pensando em fazer algo pra ela no domingo, reunir toda a família. Acho que eles estão precisando de uma força. Mas é surpresa, ela não pode saber, viu?

Sara: Claro… Sou ótima em guardar segredos de festas surpresas. – ironiza, e Nora fica sem entender – Mas, mãe, você tá esquecendo que seu neto também faz aniversário essa semana? 15 anos! Merece uma menção honrosa nesse seu evento, né?

Nora: Sem dúvidas. Vamos comemorar o aniversário dele também.

Carol enxugava-se no quarto quando Renata entra de supetão, assustando-a.

Renata: Oh, desculpa! – diz analisando o corpo de Carol de cima pra baixo com ar reprovativo.

Carol se cobre.

Carol: Isso está virando um costume… – resmunga baixo.

O celular de Carol volta a tocar e ela espera que Renata saia, mas isso não acontece.

Renata: Não se incomode comigo, só vi procurar uma coisa aqui. Tenho certeza que ainda está no mesmo lugar que a Mariana deixou.

Carol se incomoda com aquelas palavras e atende ao celular sem paciência.

Carol: Que foi, Sara?

Sara: Saca só o drama: mamãe também está planejando uma festa pra Vitória no mesmo dia e hora da sua festa surpresa que Tomás tá planejando.

Carol: Sério? Duas festas no mesmo dia? Isso não vai prestar…

Renata se volta interessada pra conversa.

Sara: Na verdade, três. Gabriel também entrou nessa.

Carol revira os olhos.

Carol: Três festas da nossa família em um mesmo dia… – ela pensa alto, tentando imaginar o que isso poderia resultar – Seja o que Deus quiser! Sara, depois a gente conversa melhor – desliga o telefone quando nota que Renata se aproxima.

Renata: Então, sua família vai fazer uma festa? Ou melhor, três?

08. INTERNA – DIA – QUATRO ESTAÇÕES – ESCRITÓRIO DE VERA E SAULO

Já era o segundo funcionário que Vera e Saulo demitiam. Vera explicava a situação da empresa e que era muito grata aos serviços prestados por eles, mas que teriam de ser afastados. Saulo então entrava e falava da parte técnica. Ela já estava ficando desgastada.

Vera: Mais quantos?

Saulo: Dois.

Vera caminha até a porta com um pensamento em mente: Não vou deixar essa empresa afundar. E uma decisão tomada. Ela chama outro funcionário.

09. INTERNA – DIA – CONSULTÓRIO DE PSICOLOGIA

Carlos está na sala de espera da psicóloga e conversando com Ingrid, a mulher que tinha um horário seguinte ao seu.

Carlos: Olá. Tudo bem?

Ingrid: Mais ou menos.

Carlos: O que houve?

Ingrid: Eu e meu ex-marido discutimos. Ele jogou na minha cara que está namorando de novo.

Carlos: Hm, sinto muito. Com certeza ela é uma qualquerzinha da vida.

Ingrid: Acho difícil… – Ela diz pra si mesma. – Mas obrigada pelo apoio.

Ruth surge na sala de espera e chama por Carlos. Os dois entram na sala e se sentam.

Ruth: Bom dia, Carlos. Como você está hoje?

Carlos: Bem, e você?

Ruth: Estou muito bem. Me conte, alguma novidade?

Carlos: Estou namorando. Lembra o cara enrustido? Então…

Ruth: Oh, meus parabéns. E como você está se sentindo quanto a isso?

Carlos: Eu estou feliz. Gosto muito dele. Ele também gosta de mim. Ainda tenho em mente o que o fato dele não ser assumido pode afetar essa relação, mas fora isso, tudo perfeito. Sem conflito. Quatro dias inteiros de puro Olimpo.

Ruth: E você se sente confortável assim?

Carlos: Assim como? Namorando?

Ruth: É, na situação que está agora.

Carlos: Tenho que confessar que a falta de conflitos me assusta um pouco. Sei lá, não sei o que esperar… Todos os outros namoros que tive já começaram uma bagunça. Altos e baixos sempre. – Ele molha os lábios. – Tenho medo desse começar no alto o tempo todo, mas ir pro baixo sem chance de voltar.

Ruth: Isso que você está fazendo se chama auto-sabotagem. Aproveite que tudo está correndo bem. O importante num relacionamento é a união das partes envolvidas. Porque com essa união, se tem a certeza de que os momentos bons serão melhor aproveitados, e os ruins serão superados.

Carlos: Boa dica. – Ele diz sorrindo. – Acho que vou convidá-lo para a festa da minha cunhada e da minha mãe e do meu sobrinho no domingo. Para ver como isso acontece…

Ruth: Nossa, quanta festa!

Carlos: Pois é, e são todas surpresa. Agora, você imagina…

10. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – SALA

Eduardo estava assistindo à televisão na sala quando Sara passa por ele. Ela estava arrumando-se, terminava de colocar o brinco e passava a mão pelo cabelo e pela roupa, ansiosa.

Sara: Dudu, já arrumou suas coisas? – o menino se faz de rogado – Dudu, seu pai já tá chegando, vai arrumar sua mochila.

Eduardo continua ignorando a mãe. Sara apressada, não insiste, mas a campainha toca.

Sara: Olha aí, deve ser ele, vai logo! – fala, ordenando e puxando o filho pelo braço e fazendo-o levantar-se do sofá. Eduardo finalmente segue para o quarto. – E mande seus irmãos se apresarem também – ela completa indo em direção à porta.

Fernando: Oi! – diz quando Sara abre a porta.

Sara: Oi… Entra, Ferdi. Eles estão quase prontos…

Fernando: Ok… tô morrendo de sede – informa e segue até a cozinha. Sara o acompanha.

Sara: Rafa tá no banho, Dudu foi arrumar a mochila e o Gabs deve tá no computador ou algo do tipo.

Fernando serve-se de água e senta-se. Sara senta-se de frente para ele e Fernando enche o copo para ela também, ela aceita.

Sara: E aí, como vai a produtora?

Fernando: Bem, bem… É estimulante. Os projetos são interessantes, as pessoas são bacanas.

Sara: Então, tá gostando?

Fernando: Adorando.

Sara: Que bom!

Fernando: Imagino que seja igual quando você começou a dar aulas…  Você tá gostando também, não é?

Sara: Sim, muito… – ela faz uma pausa enquanto toma um gole de água – Não estou atrapalhando nenhum plano seu, pedindo pra você ficar com eles hoje à noite, né?

Fernando: Não, nada…

Sara: Nem com a…

Fernando: Terminamos – ele a corta antes que ela complete a frase.

Sara: Sinto muito? – ela fica sem saber o que falar, então, brinca.

Fernando: Não, não foi nada… Não ia durar muito mesmo. Acho que cansei…

Sara: De quê?

Fernando: Você sabe… Esses relacionamentos, hum, vazios, passageiros.

Sara: Hum, entendo.

Fernando: É como dizem, sorte no jogo, azar no amor.

Sara: É, não se pode ter tudo.

Fernando: Infelizmente – Fernando lhe lança um olhar nostálgico.

Sara: Eu sei que é estranho eu falar isso, mas quem sabe você só não precise encontrar alguém bacana, que valha a pena.

Fernando: Talvez… – ele toma um gole de água e coragem para perguntar o que já lhe atormentava por um tempo – Mas, então, e você?

Sara: Eu? Eu o quê? – ela é pega de surpresa.

Fernando: Sexta à noite, pedindo pra eu ficar com os meninos. Toda arrumada… Bonita… – deixa escapar a última palavra.

O primeiro impulso de Sara é mentir, no entanto, ela acaba falando a verdade.

Sara: Vou sair com o Marcelo.

Fernando: Marcelo? – ele engole seco.

Sara: É, é um colega da UFRJ, professor de lá. Estamos saindo.

Fernando: Hum… – Fernando fica sem reação – Bom.

Sara: É…

Fernando: Então, ele é do tipo que vale a pena?

Sara: Estou contando com isso.

Fernando: Os meninos já sabem?

Sara: Não… Ainda é cedo.

Fernando concorda com a cabeça, pressionando os lábios.

Eduardo: Paiê!! – Eduardo entra correndo e abraça o pai.

Fernando: Ei, filhão! – fala, retribuindo o abraço.

11. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO

Renata, como se fosse a dona da casa e anfitriã da noite, abre a porta para Lílian. As duas se cumprimentam

Renata: Finalmente! Pensei que não veria você. Estava fugindo de mim?

Lílian sorri amarelo.

Carol: Oi Lílian – aproxima-se – Por que a Luísa não veio? – só após terminar a frase, é que Carol percebe que tinha tocando num assunto delicado. Lílian e Renata pareciam incomodadas.

Lílian: Ela estava ocupada.

Carol pede desculpa entre lábios para Lílian, depois que Renata dar as costas. Lílian gesticula com as mãos que está tudo bem.

Lílian: Renata, como vai o Júlio e as crianças?

Renata: Bem – evasiva – Júlio agora tem um novo projeto: transformar minha casa em um zoológico. Sabe como são os homens, adoram animais, vida selvagem… – Carol assente por educação – Já foi casada, Carol?

Carol: Eu? Não…

Renata: Nunca? Nessa idade… – estranha – Por opção? – fala como se fosse um xingamento – Ou foi por opção dos homens? – tenta brincar.

É a vez de Carol sorrir amarelo.

12. INTERNA – NOITE – SUSHI LEBLON – CALÇADA

Sara e Marcelo esperavam já há mais de uma hora em frente ao restaurante. O badalado estabelecimento tinha uma enorme fila de espera. Apesar dos dias quentes de verão que fazia nas últimas semanas, aquela noite estava especialmente fria.

Marcelo: Frio? – Marcelo se aproxima de Sara e a envolve num abraço.

Sara: Não mais – responde, beijando de leve os lábios dele.

Marcelo: O meu passou completamente agora – sorri malicioso e a beija com mais intensidade.

Ao final do breve beijo, ele fita a porta do restaurante e o número de pessoas que ainda aguardavam do lado de fora.

Marcelo: Ok, eu confesso que queria impressionar te trazendo aqui, mas está mais lotado do que de costume.

Sara: Tudo bem, eu devia saber que estaria assim depois que Madonna esteve aqui. E soube semana passada que o Hugh Jackman, também – Marcelo a encara sem saber de quem ela falava – O Wolverine – explica.

Marcelo: Ah, sim. Bonitão ele, né? – brinca.

Sara: Ô e como! – empolga-se.

Marcelo: Esperava um pouco menos de entusiasmo… – continua brincando – Assim, eu não tenho nem chances – pisca pra ela – Ainda mais com essa fila que não anda.

Sara: Se você quiser, a gente pode comer em outro lugar, por mim não tem problema. Acho até esse lugar muito apertado…Que tal uma pizza?

Marcelo: Hum, pizza não é muito sexy… – brinca, e Sara o fita, desconfiada – Bom, podemos ir ao meu apartamento e pedir algo ou eu mesmo posso preparar.

Sara: Tão sutil – ela ri, sacando as intenções dele.

Marcelo: Não? – finge-se de surpreso – Poxa, me esforcei tanto – Sara ri, Marcelo se mostra um pouco encabulado – Então, o que me diz? – ele insiste.

Sara avalia por uns instantes e depois dá a mão a ele, aceitando a proposta.

13. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE CARLOS

Carlos e Diego assistiam a uma maratona de filmes. Estavam num intervalo estratégico para se reabastecer de pipoca e vinho.

Carlos: Domingo tenho três festas pra ir. Bom, na verdade é uma só para três pessoas. Queria que você fosse comigo.

Diego: De quem?

Carlos: Da minha mãe, do meu sobrinho e da minha cunhada.

Diego: Vai estar sua família inteira lá?

Carlos: Sim, quer dizer… Menos meu irmão mais novo que está viajando.

Diego: Sim, eu lembro. – Ele serve vinho nos dois copos. – E eles não teriam problema comigo lá?

Carlos: Não. Eu sempre levei namorados para casa. Não se preocupe com o pai autoritário e o irmão mais velho preconceituoso. O primeiro está morto. E o segundo me acompanhava nas baladas gay que eu ia quando ainda gostava disso. E quanto ao meu cunhado, a irmã dele também é gay.

Diego: Nossa, confesso que sinto um pouco de inveja da sua família. Nunca que as coisas aconteceriam assim na minha.

Carlos: É só você ir comigo na festa que essa inveja passa, você vai ver. E aí?

Diego: Eu vou sim. Agora vamos para o Casablanca? – A campainha toca e Carlos vai atender.

Pâmela: Oi Carlos, desculpa interromper assim do nada. E eu sei que vai soar super clichê, mas você me empresta uma xícara de açúcar? – Ele ri.

Carlos: Claro, entra aí. – Ele vai em direção a cozinha.

Pâmela: E o que você está fazendo em casa numa sexta à noite? Eu já disse pra largar o programa de solteirona e… – Ela percebe Diego no sofá. Ele acena para ela. Ela acena de volta. – E esse açúcar, Carlos?

Ela pega Carlos pelo braço e o empurra até a cozinha.

Carlos: Você tá louca?

Pâmela: É o cara do teatro?

Carlos: Uhum.

Pâmela: Ué, mas vocês não iam só ser amigos?

Carlos: Pâmela, ele tá vendo um filme na minha casa. Ou você me viu transando com ele? – Ela o olha, esperando uma resposta decente. – Tá, a gente se beijou, daí uma coisa leva a outra, a gente está namorando. Isso é pra você ver há quanto tempo a gente não conversa.

Pâmela: Seu cafajeste! – Ela diz, dando um tapa no braço do vizinho e sorrindo.

Carlos: Se eu tô solteiro, sou cafajeste, se namoro também. Não tem jeito, é meu destino.

Pâmela: Não vou te atrapalhar. Obrigada pelo açúcar. – Ela pega o açúcar e os dois voltam para a sala. No caminho ela dá um tchauzinho para Diego, cheia de malícia. Depois fecha a porta.

Diego: O que você disse para ela?

Carlos: Contei que estamos namorando. Não liga para ela, ela é meio louquinha mesmo. – Ele diz sem dar muita bola, mexendo no controle do DVD.

Diego: Nossa, você fala isso com uma naturalidade. – Ele diz com tom mais de observação do que de crítica.

Carlos: Ué, mas nós estamos namorando, não estamos?

Diego: Estamos. – Ele o beija rapidamente.

14. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO

Roberto, Carol, Larissa, Renata, Ricardo e Lílian jantavam em silêncio.

Renata: Quando é que os dois pensavam em visitar a família?

Roberto: Não sei, ando ocupado.

Lílian: Eu também.

Renata: Imagino. Letícia também não tem tempo pra nada. E eu sou a única que tenho que ficar lá, cuidando de tudo. Eles também são pais de vocês, sabiam?

Lílian: Você que quis ficar por lá e trabalhar no Ferrara.

Renata: Claro, meu sonho de vida. Sempre foi! – zomba – Administrar o mercado da família enquanto meus queridos irmãos desbravavam o mundo.

Silêncio.

Renata: Esses pratos me lembram tanto a Mariana. Compramos juntas numa loja em Resende. Pelo menos ela gostava de lá – provoca – E ela cozinhava tão bem – Carol se contrai, Larissa se mostra incomodada – Ela adorava reunir a família em almoços, jantares… Lembra, Roberto? – Ele assente com a cabeça – Ela era muito caprichosa, cuidava dessa casa como ninguém. – passa o olhar pela sala antes de completar – Sua empregada não é muito boa, meu irmão.

Roberto: Não tenho do que reclamar.

Renata: Lílian, você também tem empregada?

Lílian: Tenho diarista.

Renata: Que vida boa a de vocês!

Lílian: Ué, você também não tem uma?

Renata: Temos, mas minha casa é maior que a sua e eu tenho três filhos e um marido. E mesmo assim é só pra auxiliar.  Eu cuido de quase tudo. Só não faço tudo porque passo o dia no mercado e tenho que ajudar a mamãe e o papai.

Lílian: Nós todos somos ocupados.

Renata: Claro…

Lílian: Então, Rick, como foi a prova?

Ricardo: Boa, mas não sei. Medicina é difícil.

Lílian: Muito. Você tem mais alguma prova aqui?

Ricardo: Não…

Lílian: Então, Renata, resolveu dá uma esticadinha no Rio?

Renata: Quero aproveitar mais um pouco meus irmãos que quase não encontro. E conhecer melhor a Carol. Ela me convidou para uma festa na casa dela.

Roberto: Da família dela.

Renata: Como?

Roberto: Casa da família dela. A casa dela é aqui.

Renata: Eu sei… Vocês só não casaram ainda.

Carol: Com licença – ela levanta-se, indo em direção a cozinha.

Roberto: Renata, chega, ok? – ele diz impaciente e sai seguindo Carol.

Renata finge não entender o que incomodava o irmão e os demais na mesa.

15. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO – COZINHA

Carol cochichava com Roberto na cozinha.

Carol: Sua irmã me odeia.

Roberto: Ela odeia todo mundo. Não percebeu? Olha como ela trata a Lílian – Roberto se aproxima e abraça Carol – Tenha paciência, ela não vai ficar aqui pra sempre.

Carol se aconchega nos braços dele.

Carol: Roberto – fala, encarando-o.

Roberto: Diga…

Carol: Você acha uma boa idéia levá-los pro aniversário da Vitória e da minha mãe?

Roberto: Não, mas ela já foi convidada e vai ser pior retirar o convite. Vai por mim. – brinca – Mas não se preocupe, vai ficar tudo bem.

Lílian chega naquele instante.

Lílian: Roberto, a culpa é sua!

Roberto: De quê, posso saber?

Lílian: Me obrigou a vir a esse jantar.

Roberto: E eu ia agüentar sozinho?

Lílian enche seu copo de bebida e toma num gole só, retornando em seguida para sala.

Carol: Agora eu sei como você se sente na minha família.

Roberto: Você não viu nada. Renata é só um exemplar da minha – brinca – Você só tinha conhecido os melhores, eu e Lílian. Estava mal acostumada – pisca.

Carol sorri de leve.

16. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE MARCELO – SALA

Sara observava um quadro/mural na parede da sala de Marcelo. Nele havia uma foto de uma menina segurando um cachorro, outra dessa mesma menina, mas um pouco mais velha, já no final da adolescência, abraçada a Marcelo, além de vários cartões postais de cidades da Europa, principalmente portuguesas.

Marcelo: Minhas três saudades – ele chega por trás dela, oferecendo uma taça de vinho – Neston, Joana e Portugal.

Sara: Portugal? – diz, tomando um gole da bebida.

Marcelo: Morei lá por um tempo. Foi onde eu fiz meu doutorado. Minha ex; minha filha, Joana; e meu cachorro, Neston – diz apontando para cada um dos citados na foto – ainda vivem lá. Então, estou sempre voltando.

Sara: Ela tem quantos anos?

Marcelo: Fez vinte há pouco tempo. Estuda literatura lá, diz que quer ser professora, coitada – ri. Sara também – Mas escreve muito bem. Eu, como pai coruja, acho que daria uma ótima escritora.

Sara: Você deve sentir muita saudade. Eu quase morro quando passo um final de semana sem meus filhos.

Marcelo: Muita! Mas é o jeito, tenho minha vida aqui, a Laila, minha ex, tem a dela lá. A própria Joana não se vê morando em outro lugar, então… – dá de ombros – Mas às vezes acho que sou muito ausente, por mais que eu tente estar presente pra ela – fala e aponta o sofá. 

Sara: Sei como é… Vivo com essa culpa também por trabalhar demais e tenho três, né? – Sara caminha e senta-se, ele senta-se ao seu lado.

Marcelo: Gabriel, Rafaela e Eduardo… Tô ligado. Quando vou conhecê-los?

Sara quase se engasga com o vinho. Marcelo ri.

Sara: Um dia, quem sabe – responde nervosa.

Marcelo: Tudo bem, só quero que saiba que estou nessa – aponta para ela depois para ele, em sinal de “nós dois” – para valer.

Sara abre um breve sorriso e dá um selinho em Marcelo.

Sara: Hum, o cheiro tá bom! O quê que você tá aprontando nessa cozinha?

Marcelo: Kreplach – Sara fica sem entender – Uma comida judaica, parecida com ravióli. Uma das minhas especialidades – vangloria-se.

Sara: Judaica?

Marcelo: Minha família é judia…

Sara: Então, amante de Portugal e dos vinhos portugueses? – ela pergunta erguendo um pouco a taça, Marcelo confirma com a cabeça – Sommelier, gourmet, judeu, que outras surpresas você me reserva essa noite? – diz, sedutora.

Marcelo mantém o olhar em Sara e sem quebrar o contato, ele coloca a sua taça na mesa de centro e faz o mesmo com a de Sara. Depois a toma em seus braços e começa beijá-la no pescoço, Sara pende a cabeça pro lado e, em seguida, trás ele pra mais perto de si. As carícias e beijos vão se intensificando. Marcelo tira a blusa de Sara com habilidade.

Marcelo: Você é linda – diz, admirando-a, e Sara lhe dá um beijo enquanto também tira sua blusa e desabotoa, com desejo, sua calça. E os dois se entregam um ao outro.

17. EXTERNA – NOITE – ORLA DA PRAIA

O aniversário de Vitória era naquele dia, apesar de só ser comemorado pelos Andrades dois dias depois. Durante o dia, ela havia recebido parabéns do marido, logo ao acordar, e depois dos colegas de trabalho, dos parentes e dos outros Andrades. A noite, Tomás havia feito questão de levá-la para jantar em um restaurante fino. E agora, eles passeavam na praia.

Tomás: Você é a mulher mais linda que eu conheço, sabia? – Ela sorri.

Vitória: Achei que esse posto era da sua mãe. – Ela brinca.

Tomás: Ela o perdeu no dia que eu te conheci. – Ele pára a cadeira, vai até a frente da esposa, se ajoelha e a beija. – Eu não quero te ver mal…

Vitória: Eu sei, mas é difícil. Sabe, o que a gente tem de tão errado que não podemos ter um filho? – Ela se emociona. – Toda vez que eu penso nas minhas pernas, eu não sofro porque eu não posso mais andar. Eu sofro porque eu lembro que isso aconteceu no mesmo acidente que nos tirou o Tiago. E agora vem uma mulher que eu nunca vi na vida me dizer que eu não posso criar um filho? – Ela segura o choro.

Tomás: Não chora, não chora. – Ele a abraça. – Não queria te fazer lembrar disso no seu aniversário.

Vitória: Você acha que eu preciso que você me lembre? O aniversário está ótimo, amor. O jantar foi delicioso, o lugar é lindo. E a companhia, melhor impossível. – Eles se beijam e depois voltam para o carro em silêncio.

18. INTERNA – DIA – CASA DE NORA ANDRADE – ESCRITÓRIO

Carlos e Sara estavam remexendo em papéis e álbuns de fotografias antigos.

Carlos: Muito bom. Eu fiquei com a parte mais difícil. A Rebeca pegou a parte pós-papai. O Tomás, a Andanças. Saulo, a edição. Carol, o pré-papai… E eu tenho que fazer o quê? Memórias… E eu lá vou saber? Ainda tenho que trabalhar com a vó Diva.

Sara: Resmungão, eu também tô nessa. E eu odeio fotos antigas! Eu era tão mais magra antes de três filhos… Olha como eu era linda? – fala, passando uma foto ao irmão.

Carlos: É, você era linda mesmo. O Nando também. Pena que casamento dá barriga, né?

Sara: Rá, rá, rá! – desdenha – Pior que você tem razão. Bons tempos… – ela segura uma foto dela e de Fernando quando ainda eram adolescentes – Eu e o Ferdi ainda nem namorávamos nessa época.

Carlos: Saudosista? Como vocês estão? Você precisa é arranjar um namorado…

Sara respira fundo, misteriosa.

Sara: Então, querido irmão… – deixa algo no ar.

Carlos: Rá! Mentira! Sara tá diferente. Tá, tá diferente. – Ele relembra a música que usava para provocar os irmãos quando eram adolescentes.  Sara ri, revirando os olhos – É o professor bonitão?

Sara: Sim, o próprio. Marcelo. Estamos nos conhecendo… E, sim, no sentindo bíblico. – Carlos fica boquiaberto, prestes a falar algo – Ou no kama sutra, como queira – diz antes que Carlos comente algo.

Carlos: Oooolha quem ressurge das cinzas. Meus parabéns!

Sara aceita contente o cumprimento. Carlos faz silêncio e os dois voltam a procurar. Ele então decide contar.

Carlos: Lembra que você dizia que eu tinha inveja sua quando a gente era pirralho? Sempre fazia o que você fazia e queria o que você queria? Então… Tô namorando também. – Eles riem. – E antes que você pense que eu estou usando um eufemismo, não é namorar somente no sentindo do kama sutra.

Sara: Oooolha, quem diria! Meu irmão tá crescendo – fala dando um tapinha nas costas do irmão – É o médico bonitão, né? Diz que é!

Carlos: Ele mesmo. Mas tira os olhos, porque oficialmente ele ainda é hétero. – Ele comenta irônico e muda de assunto. – Achou alguma coisa que preste?

Sara: Olha isso – diz passando um antigo retrato da família de quando Júnior ainda era um bebê e todos estavam encostados num carro – Eu falei, papai já tinha o maverick, não mais o fusca nessa época. Tem que mudar lá no seu texto.

Carlos: Eu jurava que era o fusca. Mas também, você lembra melhor porque já era bem mais velha naquela época…

Sara lhe lança um olhar mortal. Naquele instante, Diva entra no recinto, afobada.

Diva: A sua mãe voltou mais cedo do que eu pensava! Ela nunca me escuta, duvido que ela tenha comprado todas as coisas impossíveis de achar que falei pra ela. Onde que ela foi achar iogurte de lichia?

Carlos: E agora? A gente precisa de um álibi – fala baixo para Sara.

Nora: Não existe iogurte de lichia nessa cidade, mãe. – diz entrando de repente e estranhando a presença dos filhos – E vocês o que estão fazendo aqui mexendo nisso tudo?

Os dois trocam olhares.

Sara: Eu estava procurando fotos antigas do Gabriel. Estava pensando em fazer um álbum de recordação para ele. Dos seus 15 anos. Carlos estava me ajudando – Sara se apressa em responder.

Nora: Jura? – estranha o ato solícito do filho.

Carlos: Sim. Eu também queria umas fotos minhas adolescente, com barriga de tanquinho. Sabe, para por no Orkut. – Ele diz sem pensar muito e depois se arrepende.

Sara olha pra ele, controlando-se para não rir.

Diva: Isso, mas eles estão de saída, né?

Sara: Sim, temos que correr, né, Carlos? – diz, levando consigo um apanhado de coisas.

Carlos: Sim. Beijo, mãe. Até amanhã! – Os dois saem pela porta e deixam Nora confusa.

Sara: Foto no Orkut? – Ela tira sarro quando os dois se afastam do escritório.

19. INTERNA – NOITE – HOTEL EM SANTOS

[♫ – A Estrada, Titãs]

Júnior acorda com risos e vozes vindos do corredor. Ele senta-se na cama e fica atento aos sons. De repente ouve um barulho da porta sendo forçada. Levanta-se e vai até ela.

Júnior: Bianca? – pergunta ao pé da porta.

Bianca: Oh, Júnior, grande Júnior! – fala no tom alto e jocoso.

Júnior abre a porta e depara-se com uma Bianca alterada, com cabelo desgrenhado e roupas amassadas e sujas.

Júnior: Não acredito, Bianca! – sua voz tinha mais desapontamento que raiva. Bianca solta uma gargalhada – Você está horrível. Isso na sua camisa é vômito?

Bianca: Não me venha com sermões hoje, baby – fala e tenta beijá-lo. Júnior a afasta – Que foi? Já esqueceu dos velhos tempos?

Júnior: Não. Por isso mesmo. VOCÊ que deve ter esquecido.

Bianca: Nunca! Carpe diem, querido.

Júnior: Isso não é aproveitar a vida. É fuder com ela.

Bianca: Fuder é bom também – diz e tenta abordá-lo mais uma vez.

Júnior: Pare com isso – empurra-a.

Bianca: Cara chato! Deixa de ser estraga prazer.

Júnior: Olha aqui, Bianca, eu deixei minha família, minha vida no Rio pra entrar nessa banda e seguir viagem com vocês porque realmente achei que fosse algo sério.

Bianca: Não, você veio com a gente porque era um fracassado! Você não tinha escolha. Fizemos um favor a você.

Júnior: Fracassado, eu?  Tem certeza? – altera o tom de voz – Quem é aqui que tem vômito da roupa e voltou a se drogar? – Bianca apenas ri, arrogante – Quer saber? Pra mim chega, vou embora, vou sair da banda, largar você. Já deu! .

Bianca: Vai mimado! Só não volte arrependido amanhã cedo, porque eu estarei muito cansada para abrir a porta.

Júnior engole seco e vai até a sua mala e começa a jogar as coisas dentro.

Júnior: Eu tenho pena de você. Tenho mesmo. – ele diz, mas Bianca já estava largada e apagada demais na cama para se importar com algo.

20. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS – SALA

Tomás: Vamos, vamos, vamos!

Vitória: Nossa! Que ansiedade para o aniversário da sua mãe.

Tomás: É, quero ver a cara dela quando vir o livro. – Ele tenta disfarçar.

Vitória: E ficou bom, pronto a tempo?

Tomás: Sim, sim. Todo mundo fez sua parte. Até o Júnior ajudou com a dedicatória. Mandou hoje de manhã por email. Só adicionei no arquivo que o tio Saulo me deu e imprimi e encadernei tudo na Andanças mesmo.

Vitória: Tenho certeza que ela vai adorar e ficar muito feliz. – Ela coloca os brincos. – Estou pronta!

Tomás: Está linda! – Ele a beija e os dois saem do apartamento.

21. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE VERA – QUARTO

Saulo colocava o sapato, enquanto Vera se olhava no espelho.

Saulo: Vamos logo, Vera! Ou vamos nos atrasar! Rebeca vai passar daqui a pouco.

Vera: Eu já vou, já vou! Sabia que eu ainda tenho dúvida se Nora e Tomás realmente nos chamaram? Acho que Rebeca que estendeu o convite.

Saulo: Deixa de ser boba. – O interfone toca. – Olha, ela chegou.

Vera: Vai descendo e diz que eu já vou. Tenho que ir ao banheiro rapidinho!

Saulo obedece e desce. Quando Vera escuta a porta fechando, corre para o seu armário de bolsas, e de dentro de uma delas tira um papel com um número. Vai até o telefone e disca.

Vera: Alô? Davi Gonçalves?

22. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Todos os Andrades e adjacentes, com exceção de Sara e seus filhos, esperavam a chegada de Tomás e Vitória para anunciar a surpresa e começar a festa. Vera, Saulo e Rebeca haviam acabado de chegar.

Nora: Sara precisa chegar logo. Tomás já ligou dizendo que está vindo. Alguém conseguiu falar com ela?

Carlos: Ela está enrolada com os baixinhos. – Ele comenta avoado, checando a caixa de mensagens, esperando por uma ligação não atendida de Diego.

Renata se servia de um copo de refrigerante na mesa de jantar. Rebeca chega e começa a se servir também.

Rebeca: Ainda não liberaram o vinho, ahn?

Renata: Pois é, e olha que eu estou precisando. – Rebeca sorri simpática. Renata dá um risinho. – E você, quem é? Sara, certo?

Rebeca: Não, Sara ainda não chegou. Eu sou a Rebeca. Você?

Renata: Ah, bem que imaginei. Com esse corpo, dificilmente você seria mãe de três filhos. – Rebeca ri, surpresa pelo comentário. – Eu sou irmã do Roberto, Renata, muito prazer. – Ela cumprimenta, estendendo a mão e aproximando o rosto para um beijinho simpático.

Rebeca: O prazer é todo meu. – Ela responde retribuindo.

Renata: Ainda estou tentando entender a dinâmica dessa família. A da primeira esposa de Roberto era tão mais fácil. – Ela comenta e Rebeca fica levemente constrangida. – Bom, já conheci a Carol, obviamente, a mãe, a avó e o irmão homossexual. O irmão mais velho é o marido da aniversariante e já vem. O caçula está vivendo La vida loca, pelo que me disseram. – Rebeca se sente incomodada. – Nos meus cálculos, só falta a Sara. Você é quem? E aqueles dois que vieram com você? – Ela pergunta apontando para Vera e Saulo.

Rebeca: Bom, aquele ali é irmão de Nora, tio da Carol.

Renata: Ah, você é prima dela então!

Rebeca: Não exatamente. Aquela mulher é minha mãe e no momento está namorando o tio da Carol, mas eu não sou filha dele. – Ela toma um gole do refrigerante, esperando a reação a seguir. – Eu sou filha do pai da Carol. Eu sou a caçula.

Renata: Como assim? Não sabia que os pais da Carol eram divorciados – fala com uma certa repugnância no tom.

Carlos: Não eram. – Carlos chega e pega a metade da conversa – E para bom entender meia palavra basta.

Renata: Oh! – choca-se.

Carlos: É, todos têm essa mesma reação.

Vera se aproxima, com intenção de participar da conversa.

Vera: Mesma reação ao que?

Carlos: Uma estranha mais Rebeca em uma festa dos Andrades. O que você acha?

Renata: Essa família é muito… – faz uma pausa, analisando Carlos, Vera e Rebeca com reprovação – estranha.

Vera e Rebeca se entreolham. Rebeca engole seco, envergonhada. Carlos estava prestes a dizer algo quando é interrompido pela chegada de Tomás e Vitória.

Todos: SURPRESA!

Tomás abre um sorriso. Vitória é pega realmente de surpresa e se emociona com a homenagem.

Nora: Essa festa é para mostrar como todos nós nos importamos muito com você e sua felicidade, querida. E que pode contar conosco sempre. – Ela abraça a nora. Ambas com os lágrimas quase caindo.

23. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Sara chega com os filhos. Ao avistar Carlos mexendo no celular, vai em sua direção.

Sara: Oi! Como vão as coisas por aqui? Tudo certo para a grande surpresa? – fala a última frase mais baixo.

Carlos: Positivo e operante, soldado! Só a mamãe, o Tomás e a Carol que estão pirando. – Ele guarda o celular.

Sara: Por que a Carol está pirando?

Carlos: Por causa da tal cunhada.

Sara: Ela é tão ruim assim mesmo?

Carlos: Um pouco mais.

Sara: Preciso conhecer a figura… – Carlos fica a sua frente, evitando que ela passe.

Carlos: Não vá, não vá! – implora.

Sara ri.

Sara: Com licença – diz, passando pelo irmão.

Carlos: Ok, não diga que eu não avisei… Eu vou ali me dopar de vinho porque a noite vai ser looonga!

Sara passa e vê Carol em um grupo com Renata, Roberto, Tomás e Vitória. Carol percebe a irmã e olha para ela com desespero. Ela entende e se aproxima.

Sara: Oi! Tudo bem? – Ela sorri simpática e se dirige a Renata. – Sou a Sara, muito prazer.

Renata: O prazer é todo meu. – Ela diz antipática e vira as costas para Sara. – Como eu estava dizendo, lá no Ferrara nós usamos um sistema diferente de logística…

Sara se ofende e olha pra Carol em busca de auxílio. A jornalista olha para a irmã sem saber o que dizer. Sara entra na frente de Renata e cumprimenta Vitória.

Sara: Meus parabéns, Vitória! Espero que você seja muito feliz esse ano. Uma pena eu ter perdido a surpresa, mas os gêmeos demoraram, você sabe… Saiba que nós estamos aqui para você. – Ela abraça Vitória.

Vitória: Oh, Sara. Muito obrigada. Eu sei e não se preocupe… – Renata começa a cutucar o ombro de Sara. A Andrade se vira.

Renata: Com licença, eu estava falando. – Roberto revira os olhos, pressentindo o que estava por vir.

Sara: E eu estava ouvindo. E daí? – Renata respira fundo antes de responder.

Renata: E daí que você interrompeu a conversa. Pela segunda vez.

Sara: Olha, não tem necessidade de ser grossa. Eu acho que ninguém está se importando muito mesmo… – Tomás não consegue segurar o riso, mas logo se recompõe.

Antes que Renata pudesse responder, Nora passa com uma bandeja de salgadinhos e a oferece para Renata.

Renata: Não. – Ela se limita a estender a mão em sinal de negação e vai para o banheiro.

Nora: De nada. – Ela revira os olhos e depois volta a sorrir. – Alguém quer?

24. INTERNA – NOITE – CASA DE NORA ANDRADE

Gabriel e Larissa namoravam um pouco isolados do grupo. Renata os flagra.

Renata: Larissa, o que você tá fazendo? – fala num tom mais alto, de modo que chama a atenção dos demais.

Gabriel e Larissa se assustam.

Larissa: Nada, tia.

Roberto: Os dois são namorados – diz, aproximando-se.

Renata: E você deixa? Ela só tem 13 anos.

Larissa: Eu tenho 14.

Roberto: Renata, por favor. Nós confiamos nela. E o Gabriel é um ótimo garoto.

Renata: Nós? – estreita os olhos – Esse é o garoto que foi seqüestrado com ela?

Larissa se contrai.

Roberto: Não vamos falar sobre isso.

Renata: Ele tem quantos anos?

Carol: Fez 15 agora – Carol aproxima-se de repente, Sara a acompanha.

Renata: Eu sabia… Essa família não é uma boa influência.

Roberto: Renata – chama a atenção da irmã, fitando Larissa, que já estava mais do que constrangida.

Sara: Como? É do meu filho que você tá falando?

Renata: Desculpe, mas convenhamos… Isso não são modos.

Sara: Eles não estão fazendo nada demais. Meu filho é um ótimo garoto. Qualquer garota tem sorte de namorá-lo.

Gabriel: Mãe…

Renata: Olha, eu acredito em você. Mas é uma idade difícil. Tenho dois meninos, sei como são as coisas. O Rick é calmo, na dele – o garoto revira os olhos –, mas o Renan me dar muito trabalho. Graças a Deus, é um bom garoto, responsável, mas muito mulherengo. É o terror das moças de Porto Real – fala com um certo tom de orgulho – Mas tá da idade, né?

Carol: O Gabs é tranqüilo. E ele e a Lissa se dão muito bem.

Renata: Mas são muito novos para namorarem, principalmente a Larissa. – fala com um tom arrogante.

Sara: Eu vou matar essa mulher – cochicha para Carlos que estava próximo a ela. Carlos em resposta faz sinal de que Renata é louca.

Roberto: Vocês me dão licença? – diz, aproximando-se de Renata, puxando pelo braço e levando-a para fora da casa.

25. INTERNA – NOITE – CASA DE NORA ANDRADE

Roberto: O que você pensa que tá fazendo, Renata? – diz quando chegam ao jardim da casa.

Renata: Como assim?

Roberto: Você não pode chegar à casa dos outros e ficar falando mal deles. Veja o que você fez com aquele garoto e com a própria Lissa.

Renata: Eu não estou falando mal de ninguém. Não tenho culpa se…

Roberto: Me poupe! – ele não a deixa terminar a frase – Você não tem o direito de agir assim com eles. Que, aliás, estão lhe recebendo muito bem. Carol não faz outra coisa, além de tentar agradá-la e você só vem destratando-a. Educação, Renata.

Renata: Você tá me chamando de mal educada? Você sempre age assim, superior. Desce no pedestal senhor Deputado – desdenha, e Roberto se mostra impaciente, mas respira fundo antes de continuar.

Roberto: Renata, entenda. Carol é a pessoa que eu amo e quero ficar junto. E essa é sua família.

Renata: Ficar junto? Vocês já moram juntos, mesmo que não estejam casados… – Roberto revira os olhos – Olha, eu entendo que você esteja encantado por ela, é bonita, jovem.  Mas não é possível que você pense em casar com ela.

Roberto: É perfeitamente possível sim.

Renata: Por favor, ela não nasceu pra ser uma esposa, uma mãe de família. Ela não chega aos pés da Mariana. Isso é óbvio. – desdenha.

Roberto: Você não pode falar da Mariana para mim, nem para Larissa. Eu estou tentando recomeçar e Carol é a responsável por eu estar me sentindo melhor nesse último ano. Se você lhe desse uma chance, ela poderia te surpreender. E não estou pedindo sua aprovação. Só que a respeite. Não vou admitir que você a trate assim nem nenhum de seus familiares.

Renata dá de ombros.

Renata: Tudo bem, Roberto. Se é assim que você quer… Não diga que eu não avisei.

Roberto: É assim que eu quero.

26. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Carlos estava no celular tentando falar com Diego. Mas não consegue. Resolve desistir por um tempo, mas logo recebe uma ligação dele.

Diego: Oi?

Carlos: Oi! Estou tentando falar com você por horas! Onde você está?

Diego: Estou no hospital. – Carlos escuta som de TV pelo telefone e vozes de adolescentes meio difusas. Imagina ser interferência. – Tentei te ligar algumas vezes, mas você não atendia.

Carlos: Ah, tudo bem, então. Haverá outras possibilidades de você conhecer minha família.

Diego: Com certeza. – O som da TV e as vozes vão sumindo aos poucos. – Um beijo.

Carlos: Outro mais forte. – Ele desliga.

Carol brota atrás de Carlos.

Carol: Outro mais forte? Uuuh. Possibilidades de conhecer a família? De quem você está falando?

Carlos: De ninguém – diz irritado, mais com Diego do que com Carol.

Carol: Como é que você diz mesmo? – simboliza um sinal de aspas – “Ninguém? Só pode significar um grande alguém”.

Sara: Está certíssima. É o Diego, o médico bonitão, também conhecido como o novo namorado do Carlos – Sara chega acompanhada de Tomás e Rebeca.

Rebeca: Choquei! – brinca, empolgada com a novidade.

Carlos se desespera.

Sara: Que foi, Carlos? Era segredo?

Carlos: Não, mas também não era pra ser de domínio público.

Carol: Relaxa, estamos em família – pisca para o irmão.

Tomás: Que lindo, todos meus irmãos estão comprometidos. Só falta você, Rebeca.

Rebeca: E a Sara?

Carlos: Então, ela tem seu professor bonitão. – Sara olha para Carlos – Era segredo?

Sara: Engraçadinho.

Rebeca: Deputado bonitão, médico bonitão, professor bonitão…

Tomás: Não esqueça da minha bancária bonitona.

Rebeca: Exato!

Carlos: E tem a viciada desmilingüida do Júnior.

Rebeca: Justamente, por isso que nem contei nos bonitões e bonitonas. Só tá faltando o meu bonitão. De preferência um empresário super rico. Ou um top model internacional, que tal?

Sara e Carlos: Nu!

Todos riem.

27. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA DE JANTAR

Durante o jantar, na enorme mesa montada no jardim da casa, Nora começa bater na sua taça com um talher, fazendo-a tilintar e chamando a atenção de todos.

Nora: Atenção, todos! Queria fazer um brinde a minha querida nora Vitória e ao meu amado neto Gabriel. Que essa nova etapa de suas vidas que inicia agora traga um tempo de paz, amor e sonhos realizados! Vocês são muito importantes para todos nós.

Gabriel sorri tímido, mas emocionado. Vitória também sorria e já estava com olhos cheios de lágrimas. Sara também ergue sua taça.

Sara: A minha cunhada preferida, todo amor que houver nessa vida! E ao meu primogênito, se um dia meu amor infinito, eterno e incondicional não bastar, que ele saiba que Deus e nossa família sempre estará ao seu lado. Você é meu orgulho, meu amor! – diz emocionada. Gabriel sorri para mãe.

Agora é a vez de Tomás erguer sua taça.

Tomás: A minha mulher, melhor amiga e cúmplice nessa vida, só desejo o melhor. Que ela saiba que nunca estará sozinha e que sempre pode contar comigo. Te amo, Vi! – diz e beija Vitória, todos aplaudem e brindam também – Aproveitando o ensejo, queria também fazer um brinde a outra mulher da minha vida. A melhor mãe que qualquer um poderia ter.

Nora se surpreende e emociona.

Nora: Oh, mas o que é isso?! Meu aniversário já passou há tanto tempo…

Carol: E nós achamos que não demos o devido valor.

Tomás: Ai, nem discurso se pode terminar nessa família sem ser interrompido. – Todos riem. – Um brinde a dona Nora Andrade, o alicerce dessa família, com um passado muito bonito e um futuro mais bonito ainda! Mãe, nós te amamos! – Todos brindam.

Nora: Obrigado, queridos. – Ela agradece sorrindo para todos. Diva tinha um olhar ansioso. – Você sabia disso tudo, mãe?

Diva: Rá, disso tudo e muito mais.

Carlos: Calma, isso não é tudo.

Gabriel: É, se você ligar agora, recebe também um mix shaker Walita e um ABtoner 2000. – Ela sussurra para Larissa, que ri.

Tomás: A gente queria te dar um presente que nós mesmos fizemos, mãe. – Ele se inclina e pega o livro dentro de uma sacola, ao lado de sua cadeira. Ele dá o livro a Nora. – O que mais propício para um família livreira do que um livro, certo?

Nora folheia o livro e se depara com fotos antigas suas, de épocas diversas. Ao lado, um texto comprido e cheio de ironia sobre como deveria ter sido crescer com dona Diva.

Nora: Nossa, que é isso? – diz, surpreendida e emocionada.

Saulo: Um livro editado pela Quatro Estações – fala sorrindo para irmã.

Sara: Mãe, – ela toma a palavra – Tomás teve a idéia e cada um de nós executou. Todos ajudaram. Queríamos fazer algo que lembrasse o que você foi, o que você é, a sua história e, principalmente, o quanto é importante para nós. Imagine como seríamos sem você?

Nora: Ah, Sara… – emociona-se.

Carol: É, sério, mãe. Eu provavelmente seria uma alienada e o Carlos, nossa, nem sei, teria virado um garoto de programa.

Carlos: Nossa, que hilário! Acho que você ia ser uma comediante stand up… fracassada, claro.

Diva: Meninos! – chama a atenção dos netos.

Vitória: Não estraguem o momento.

Roberto: É, dessa vez vocês se superaram.

Nora: Amei, meus amores. Que coisa mais linda! Isso é incrível! Estou louca pra ler tudo. Muito obrigada – fala indo na direção de cada um e abraçando-os.

28.  INTERNA – NOITE – CASA DE NORA ANDRADE

[¯- A Estrada, Titãs]

No jardim da casa, Júnior ouve a movimentação. Quando chega mais perto da porta, consegue ver seus familiares em volta de Rebeca que contava algo aparentemente engraçado. Ele se aproxima mais um pouco e sua feição se contrai, numa mistura de tristeza e saudade. Júnior fica parado, sem saber como proceder com sua chegada.

Enquanto Júnior observava, Renata se aproxima de Carol.

Renata: Bonito o que fizeram para a mãe de vocês.

Carol: Er… obrigada? – estranha a atitude de Renata.

Renata: Você tem uma ótima família. Parecem tão unidos e próximos. Apesar de todo o caos.

Carol: É, a gente tenta. Minha mãe é quem mantém essa disfunção em harmonia.

Renata ri.

Renata: E são engraçados também.

Carol dá um sorriso amarelo. Do lado de fora, Júnior dá um passo à frente e derruba um dos jarros de planta, chamando atenção de todos.

Carol: Isso é uma miragem? – fala, deixando Renata sozinha e indo direto abraçar o irmão.

Nora: Júnior? – estreita os olhos e emociona-se, indo apressada até o filho.

Sara: Minha nossa, quanto eu já bebi hoje? – fica parada, encarando seu copo de bebida.

Carlos passa por Sara e puxa-a pelo braço.

Carlos: O filho pródigo retorna! – anuncia indo em direção ao irmão.

Júnior: Ei, isso é uma festa? – fala enquanto cumprimenta os familiares.

Carlos: Tripla!

Rebeca: Júnior, que saudade! – diz, abraçando-o.

Júnior: Eu também. De todos.

Nora: Isso faz parte da surpresa? – pergunta feliz aos filhos.

Tomás: Não que eu saiba. O que faz aqui, Júnior?

Vitória, que chega naquele instante, dá um tapa no braço de Tomás.

Tomás: Aí! Vão dizer que todos não estão se perguntando o mesmo?

Sara: A turnê já terminou?

Júnior: Longa história… Mas, uau, adorei minha festa de recepção – brinca, adentrando a casa e já se servindo dos quitutes.

Continua…

Trilha Sonora

– A Estrada, Titãs

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4 Respostas to “A Estrada”

  1. Gustavo Says:

    Salve galera!!!

    Demorou, mas cá estou!!! =D

    Gente, que ser insuportável é essa Renata??? Se fosse comigo já a tinha mandado vc’s sabem pra onde. Arriégua!!!! A mulher me aparece do nada, só fala besteira, é convidada pra uma festa e ainda ofende os donos da casa??? Espero que ela nunca mais apareça…

    Fiquei com pena da Vitória e do Tomás… Poxa, eles estavam tão esperançosos, mas fazer o que. É a maldita da burocracia. Fora o preconceito da assistente social. Vamos torcer que na próxima tentativa eles consigam…

    Sara e Marcelo hein!!! Ui que cena quente hein!!!! Espero que as coisas agora engrenem!!!

    Adorei a festa!!! Ri muito com o povo!!! Como sempre as cenas de todos juntos é um show!!! Altos Andrades Express!!!

    Gostei do Junior ter largado aquela banda e ter chegado no meio da festa!!!

    Para finalizar, será que esse “namoro” do Carlos e Diego realmente irá pra frente? Aliás, ele é real?? Pode ser implicância minha, mas nada tira da minha mente que esse cara só está fazendo hora com o Carlos e que ele é casado… Enfim, aguardamos cenas dos próximos capítulos.

    Até o próximo!!1

  2. Natie Says:

    Oi gentee!!!

    Aaaah fiquei tãooooo feliz do Junior ter voltado!!! 😀 Tava na hora jah dele largar aquele pessoal… Ansiosa para vê-lo entre os Andrade no próximo epi!!

    Ai como essa Renata é chata e insuportável!! hehe… Deus me livre ter uma irmã dessas! E sinceramente eu teria vergonha de ir pra uma festa tripla (adorei, comentários abaixo) e me comportar daquele jeito! E Carol é uma heroina por estar aturando na casa dela…

    Festa tripla!!! Adorei a ideia! Bem coisa dos Andrade mesmo com telefonemas ao mesmo tempo e organizando bonitinho o livro pra mãe e a surpresa pra Vitoria. Genial!

    Fiquei triste de Tomás e Vitoria não terem tido sucesso no processo de adoção… :/

    Carlos e Diego namorando? Quase não acreditei qdo o pedido veio do Diego… Mas por ele ter feito tanto o Carlos de idiota ainda estou com raiva dele… E esse telefonema final? Estranho…

    E por falar em telefonemas… Vera ligou pro Davi de novo? Meu Deus, quem é esse Davi???? hahaha…

    Até gente! Bjss…

  3. Samila Says:

    Gente, o que é essa praga da Renata. Ainda bem que tem a Sara pra colocar essa mulherzinha no seu devido lugar. Ela é chata, mas eu ri horrores do “… vivendo La vida loca…” kkkkk Ah Ricky, Ricky, Ricky!

    Posso falar? Não gosto do Diego e ponto. Volta Sérgioooooooo! tô numa campanha pro Sérgio, que vocês não tão entendendo.

    Ah, só pra constar: ri litros imaginando o Carlos de garoto de programa kkkkkk

    Adios

    1. osandrades Says:

      Oi Samila,

      Eu também gosto muito do Sérgio, mas já tô aprendendo a gostar também do Diego, vamos ver no que tudo isso vai dar.

      E a Renata é dificil de lidar mesmo, mas quem não tem um parente parecido, né?

      Obrigada pela leitura e comentário.

      Inté!
      Samara

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