Nos episódios anteriores: Sara consegue o emprego de professora na UFRJ. Carlos reencontra Ingrid na sala de espera da psicóloga. A banda de Júnior é escolhida para sair em turnê com outras novas bandas. Nora publica suas crônicas em um livro junto com outros autores. Rebeca não gosta de Direito, mas aceita o conselho de Vera e continua o curso.

01. INTERNA – DIA – ANDANÇAS – MATRIZ

[♫ Eet – Regina Spektor]

Sara entra na sede da Andanças e observa o início do movimento na loja. As portas seriam abertas em poucos minutos, mas o movimento dentro da loja era quase frenético. Os atendentes do caixa faziam a contagem do dinheiro, os vendedores conferiam os livros nas estantes, terminavam de verificar se estava tudo no lugar. Na lanchonete o cheiro de café fresco aromatizava todo o ambiente.

Ana: Ei, Sara. Quer um café? Está novo.

Sara: Agora não, obrigada. – ela acena agradecida.

Reparar nos detalhes da rotina que já tinha se acostumado a deixava um pouco nostálgica. Foi ali que ela trabalhou a vida inteira. Tinha visto a loja crescer, expandir-se. Foi ali que Gabriel deu seus primeiros passos, ou que ela e Fernando comemoraram a gravidez dos gêmeos. E agora ela iria deixar tudo, para seguir seu sonho de dar aulas. Ela sobe as escadas e vê o novo vendedor, nervoso, provavelmente aquele era seu primeiro emprego. Ela sorria, certa de que tinha tomado a decisão certa para si.

02. INTERNA – DIA – ÁGORA RJ – HALL DE ENTRADA

[♫ I can see clearly now – Jimmy Cliff]

Carol estava apreensiva. Era seu primeiro dia na nova editoria. Não sabia como seria recebida. Entra no elevador e fica no fundo já que iria descer num dos últimos andares do prédio. No primeiro, esportes de um lado e cidade do outro. No segundo, economia e assuntos internacionais, ela tinha começado ali, naquele andar, assuntos internacionais, para política tinha sido um pulo. Terceiro andar, ali desceria. De um lado cultura, do outro, política. Ela para no meio do corredor e observa a agitação em sua antiga editoria, respirou fundo e deu a volta para seu novo lugar.

Adriana: Carol, que bom que chegou. Seja bem vinda. Eu sou Adriana Souza.

Carol: Souza – elas completaram juntas e sorriram – Me desculpe, mas eu sempre leio suas colunas e suas críticas de filme.

Adriana: Sinto-me lisonjeada. Venha comigo, vou te mostrar nosso espaço e seus novos colegas. Às dez a Virgínia, nossa editora, vai conduzir a reunião de pauta.

Carol soltou o ar que não lembrava mantinha preso dentro do peito. Adriana foi gentil e mostrou para Carol onde era o espaço de trabalho de cada um, alguns membros da equipe já estavam trabalhando e ela foi apresentada. Geraldo, crítico de música, Fred, crítico de televisão, Bia crítica de arte ainda não estavam na redação, mas ela conheceu Otávio e Sofia repórteres, Daniela e Gi, fotógrafas. Os quatro a receberam muito bem, e tinha certeza que tinha feito a escolha certa.

03. INTERNA – DIA – ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA – ESCRITÓRIO DO ROBERTO PELEGRINI

Roberto estava em seu escritório em reunião com sua equipe quando seu telefone toca, ele atende apreensivo e logo pede que sua equipe saia da sala para ter privacidade. Quando a porta se fecha, ele já fala nervoso.

Roberto: Quem é você, o que quer?

Homem: Ora, deputado, já sabe o que queremos. Desista da CPI do narcotráfico e não terá nenhum problema.

Roberto: Eu não vou fazer isso, não vou aceitar chantagem de ninguém.

Homem: Você quem sabe, deputado. Isso é um aviso. Cuidado, que sabemos da sua família, sua filha, ela é uma jovem muito bonita.

Roberto: Deixem minha família e minha filha fora disso. Não sejam covardes.

Homem: É um aviso, deputado. Ligaremos outra hora.

Roberto quer ameaçar o homem do outro lado, mas a ligação é encerrada antes que pudesse fazê-lo. Passa a mão pelos cabelos, não seria calado por bandidos covardes. Pega o telefone e liga para o motorista de Larissa e avisa que ele não deveria desviar os olhos dela nenhum instante.

04. INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – ESCRITÓRIO DE CARLOS

Carlos entrega uma pasta para Gustavo e Rebeca.

Carlos: Vocês estão recebendo todas as informações que temos do caso Lumni. Iremos para a segunda instância do caso e sei que vocês dois trabalharam duro. Então estou propondo uma recompensa pelo que fizeram. Quem apresentar a melhor estratégia para seguir durante o julgamento, irá sentar comigo na mesa da acusação.

Gustavo: Nossa, isso é importante. – ele sorri para Rebeca – Não acha?

Rebeca: Sim, é legal. – ela responde não muito entusiasmada.

Carlos: Vocês têm dois dias para se preparar. Desejo boa sorte aos dois e que vença o melhor.

Rebeca e Gustavo saem da sala, ele apressado e animado com a oportunidade e ela devagar e entediada com aquilo tudo. Gostava de trabalhar ali, ao lado de Carlos, conhecer mais dele e da família, mas tinha chegado à conclusão que não era o que a fazia feliz.

Queria ficar empolgada como Gustavo, ele sim amava aquilo tudo, ele tinha certeza que era aquilo que queria fazer. Ela via nos olhos dele o mesmo brilho que via nos olhos de Carlos quando conseguia descobrir uma brecha na lei que favoreceria o caso que estavam trabalhando.

05. INTERNA – DIA – ANDANÇAS – MATRIZ

Sara lia uns documentos quando viu Tomás passar apressado em frente a sua sala. Ela levantou de pressa e foi atrás dele.

Sara: Tomás, preciso conversar com você.

Tomás: Agora? Eu estou com pressa.

Sara: Aonde você vai? – ela pergunta curiosa.

Tomás: Eu preciso de uma folga, vou passar o dia com a Vitoria.

Sara: Ah – ela diz sabida.

Tomás: Ah, o quê? O que você sabe?

Sara: Nada, não sei nada. Só quis dizer que você vai passar um dia romântico com ela, faz bem.

Tomás: Sei… – ele fala desconfiado. – Então o que queria falar comigo?

Sara: Isso pode esperar. Não se preocupe. Vai tirar seu dia de folga.

Tomás: Obrigado – ele fala saindo apressado de sua sala e dando um beijo no rosto da irmã.

Sara olha triste, não poderia atrapalhar o dia de Tomás e Vitória com sua notícia. Sabia que ele ficaria chateado, então poderia esperar mais um dia.

06. EXTERNA – DIA – JARDIM BOTÂNICO

Tomás entrega a garrafa de água para Vitória e senta no banco ao lado dela. Ela sorria feliz e ele se sentia aliviado, ainda culpado com o que tinha acontecido e tentando recuperar a cumplicidade de antes.

Vitória: Que ótima idéia você teve de vir aqui. O dia está bom, não muito quente.

Tomás: É verdade, precisamos descansar um pouco. Eu estou trabalhando muito e não te dando muita atenção.

Vitória: Eu entendo, não gosto, mas sei como você é meticuloso com o trabalho, sabia antes de nos casarmos e até gosto disso.

Ele dá  uma gargalhada e antes que pudesse retrucar, é interrompido pela voz de alguém chamando. Ele sente um arrepio percorrer pela espinha, não de desejo, mas de culpa.

Lavínia: Tomás, quanto tempo.

Tomás: Lavínia, como vai? – ele olha para Vitória – Vi, essa é Lavínia, ela fazia fisioterapia junto comigo na clínica.

Vitória: Muito prazer. – ela estica a mão para cumprimentar a outra mulher e percebe o receio da mulher antes de segurar em sua mão – Então já está melhor?

Lavínia: Oh, sim, bem melhor. Já até voltei a trabalhar.

Vitória: Que bom! Você faz o quê?

Lavínia: Eu sou instrutora de ioga…

Lavínia balança os cabelos e Vitória sente o cheiro e sente o estômago revirar. O cheiro não era ruim, mas ela conhecia. Era o mesmo cheiro da camisa de Tomás algumas noites antes. Ela poderia reconhecer em qualquer lugar, era como se estivesse impregnado em sua memória.

Tomás: Vitória? – ele a chama preocupado.

Vitória: Oi? O que foi?

Tomás: Você ficou distante de repente. Algum problema?

Vitória: Não, nenhum problema, eu só estava tentando lembrar se desliguei a cafeteira antes da gente sair.

Tomás: Não, eu desliguei.

Ela sorriu, mas ele percebeu que o sorriso não alcançava os olhos como antes. Lavínia se despediu logo e seguiu seu caminho e ele ficou aliviado por ela não ter comentado nada. Já Vitória sentia-se incomodada, sem saber o que pensar ou fazer.

07. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO CARLOS

Carlos estava entretido o filme que passava na TV que atendeu ao telefone distraído, imaginando ser algum de seus irmãos, com algum novo problema.

Carlos: Divã Andrade, qual o seu problema?

Diego: Desculpe, acho que disquei errado.

Carlos: Espera. – ele fala constrangido, não reconhecendo a voz do outro lado do telefone. – Aqui é Carlos Andrade, quem está falando?

Diego: Aqui é Diego. Eu passei meu número pra você.

Carlos: Ah, claro. – ele agradece por estar pelo telefone e Diego não poder vê-lo com o rosto corado de vergonha. – Desculpa o jeito que atendi, era uma aposta com meus irmãos.

Diego: Ah sim, tudo bem. Eu vi que você ligou, não pude retornar antes, estava em um congresso em Porto Alegre.

Carlos: Tudo bem, não importa.

Os dois se calam por alguns instantes. O silêncio é constrangedor, Carlos resolve tomar a iniciativa da conversa.

Carlos: E esse congresso, sobre o que era?

Diego: Ah sobre novas técnicas e instrumentos para cirurgia cardiovascular

Carlos: E você vende aparelhos para cirurgia de coração?

Diego: Não, na verdade eu uso. Eu sou médico, cardio-cirurgião.

Carlos: Ah…

Carlos tinha vontade de entrar num buraco e ficar por alguns anos depois daquela. Era a segunda fora que dava, em menos de cinco minutos, estava quase quebrando o recorde da irmã. Ele dá uma risada no telefone, quando lembra.

Diego: Eu disse alguma coisa errada?

Carlos: Não, eu que me lembrei de uma coisa. Eu tenho uma irmã, que está sempre fazendo algum comentário inapropriado, principalmente quando está falando com alguém que está interessada e eu percebi que estou quase quebrando o recorde dela de foras em poucos minutos.

Diego: Então você está interessado em mim.

Carlos: O que? – ele balança a cabeça não acreditando que tinha revelado tanto assim.

Diego: Você disse que está batendo o recorde da sua irmã, imagino que seja na mesma circunstância.

Carlos: Sim claro. Você se interessou primeiro, porque eu não me interessaria.

Diego: Tudo bem, eu não vou te provocar mais. Não hoje, pelo menos.

Carlos: Você vai tornar isso bem difícil, não é?

Diego: O quê?

Carlos: Vai me fazer perguntar. Tudo bem, aqui vai. Então quando você quer encontrar pra conversar, nos conhecermos de verdade?

Diego: Ah isso. – ele ri e escuta Carlos rindo do outro lado. – Acho que podemos começar com um almoço, algo casual, sem pressão. Amanhã está bom pra você?

Carlos: Claro, você tem alguma preferência?

Diego fala o nome de um restaurante e passa o endereço. Eles conversam por mais alguns instantes. Depois que desliga o telefone ele recosta no sofá, um enorme sorriso no rosto. O filme completamente esquecido.

08. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA – SALA

Sara chega em casa e encontra os três filhos na sala. Os gêmeos, deitados no tapete do chão, assistiam a um desenho com personagens estranhos. Gabriel, deitado no sofá, conversava ao telefone com alguém. E ela tinha quase certeza ser Larissa.

Sara: Boa noite.

Rafaela: Deixa só terminar o desenho, mamãe.

Eduardo: Por favor.

Sara: Eu preciso contar uma coisa importante para vocês. – ela olha para Gabriel que fala tranquilamente ao telefone. – Gabs, eu preciso conversar com você e seus irmãos.

Gabriel: Já vou.

Sara espera ele despedir, mas ele continua conversando normalmente, como se nada estive acontecendo.

Sara: Gabriel, acho melhor encerrar esta conversa agora, ou não terá o final de semana livre.

Gabriel: Não, mãe. – ele então fala ao telefone – eu preciso desligar ou vou ficar de castigo.

Ele desliga o telefone, mas continua deitado no sofá, sem se importar com o que ela iria dizer. Sem paciência e não querendo provocar uma discussão, ela releva a atitude de Gabriel e conta para os filhos sobre o novo emprego na universidade e sobre deixar o emprego na livraria. Assim ela teria mais tempo livre para eles.

Rafaela: Você vai poder ajudar a gente com os deveres da escola? E preparar nossa merenda?

Sara: Sim, mas vocês nunca ficaram sem essas coisas.

Eduardo: Mas você faz o lanche melhor que o Gabs. Ele nunca tira a casca do meu pão de forma e nunca faz uma estrelinha depois de olhar o dever de casa.

Gabriel: Eu devia deixar você sem merenda, sentindo fome. Aí queria ver você reclamar que não tiro a casca do pão.

Eduardo: Você tá um chato!

Gabriel: E você é um pirralho.

Sara: Meninos! Podem parar. – Ela olha para o filho mais velho, que até então não tinha feito nenhum comentário sobre seu novo emprego. – O que você acha, filho?

Gabriel: De que adianta? Eu gostando ou não você vai fazer mesmo assim. Posso ir pro meu quarto?

Sara: Pode, claro. Boa noite.

Ela olha chateada, para Gabriel se retirando da cozinha e vai para a sala assistir um pouco de televisão com os filhos caçulas antes de colocar os dois para dormir.

09. INTERNA – NOITE – SALA – APARTAMENTO DE ROBERTO E CAROL

Carol abriu a porta de casa e escutou o telefone tocando. Sem saber se tinha alguém em casa, ela correu para atender. Antes que pudesse falar qualquer coisa, escutou a pessoa do outro lado da linha.

Homem: Então, deputado. O que vai fazer? Vai desistir de levar a investigação em frente?

Roberto: Eu não vou aceitar ameaças anônimas. Eu não trato com covardes como você.

Carol sentiu um arrepio subir pela sua espinha. O homem fez ameaças veladas a Larissa, e quando Roberto manteve firme e não levou a sério as ameaças, Carol largou o telefone de lado e foi para o escritório dele.

Roberto: Ei, já chegou? Como foi o primeiro dia?

Carol: Melhor, mas eu quero falar desse telefonema que você acabou de receber.

Roberto: Era uma conversa particular, você não tinha nada que escutar.

Carol: Eu escutei por acaso, mas ainda bem que escutei. Você não pode participar dessa CPI.

Roberto: Carol, não precisa nem continuar. Eu vou participar dessa CPI, e o partido quer que eu presida as investigações.

Carol: Estavam ameaçando sua filha! – ela diz elevando a voz, indignada – Como pode continuar calmo desse jeito? Devia chamar a polícia e sair logo dessa investigação.

Roberto: Eu não vou deixar um covarde me amedrontar. Imagina se todo mundo que recebe um telefonema anônimo, desista de cumprir com suas obrigações. Não vai ser meia dúzia de ligações que vai me amedrontar.

Carol: Meia dúzia? Então já está acontecendo há um tempo. É a sua família que está sendo ameaçada, Roberto.

Roberto: Exatamente, minha família. Eu tomo as decisões. Eu sei o que precisa ou não ser feito.

Carol: Não acredito que você falou isso. – responde chocada – Sabe que quando eu falo isso é pensando nela. Você e seu senso de moral aguçado, não enxerga nada além do seu umbigo.

Roberto: Eu estou fazendo isso por meus eleitores, pelo estado do Rio de Janeiro.

Carol: Não, você está fazendo isso por você, por seu ego que é maior que qualquer outra coisa no mundo. Você está fazendo isso por sua carreira política. Se quiser ser teimoso, pelo menos tenha coragem de falar o verdadeiro motivo disso tudo.

Roberto: Acho melhor encerrar essa discussão agora, antes que você diga algo que se arrependa.

Carol: Ótimo! Vou deitar, fique aí com seu serviço importantíssimo, mas não diga que não te avisei.

10. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SAULO/APARTAMENTO DA REBECA

Júnior termina de separar as roupas e colocar na mala. Iria sair em turnê em alguns dias e precisava começar a dar a notícia. Não sabia como o resto da família iria reagir, resolveu começar com quem o entendia melhor. Pegou o telefone e ligou para Rebeca.

Rebeca: Alô?

Júnior: Oi, Beca.

Rebeca: Oi Ju! Tudo bom?

Júnior: Tudo ótimo. Preciso te contar uma novidade.

Rebeca: Conta logo.

Júnior: Não, precisa ser pessoalmente. Você acha que o Carlos te dá uma folga amanhã na hora do almoço?

Rebeca: Acho que sim.

Júnior: Então te encontro naquele restaurante perto do escritório.

Rebeca: Vamos a outro, não quero encontrar com o pessoal do escritório.

Júnior: Ainda estão fazendo fofocas sobre você?

Rebeca: Nada que eu não possa agüentar. Me encontra na frente do escritório amanhã e a gente decide aonde vai.

11. EXTERNA – DIA – COLÉGIO DO GABRIEL

[♫ Por Perto – Pato Fu]

Sara mal estaciona o carro e Gabriel já estende a mão para a maçaneta para abrir a porta do carro.

Sara: Ei, espera um pouco. – ela olha para o garoto já começando a ficar irritada – Eu não estou gostando nada dessa atitude.

Gabriel: O que eu fiz?

Sara: Nós dois sempre conversamos, o que está acontecendo?

Ele não fala, só sacode os ombros como se não soubesse do que ela estava falando.

Sara: Essa conversa continua, mas agora vai ou chega atrasado.

Gabriel sai do carro e vai em direção à escola, encontra com os colegas e vira outra pessoa, conversa, sorri, age como sempre tinha sido dentro de casa. Sara encosta a cabeça no banco do carro e suspira. Olha para o lado e vê alguns casais deixando seus filhos na escola e gostaria de ter alguém ao seu lado. Desde a separação, pela primeira vez ela pensa que talvez pudesse não encontrar outra pessoa com quem pudesse ser feliz.

12. INTERNA – DIA – ÁGORA RJ – EDITORIA DE CULTURA

Carol estava sentada em sua mesa, pensando nas ameaças que Roberto vinha recebendo, na discussão deles na noite anterior e como aquele problema poderia complicar. Ela pega o celular e liga para a única pessoa que ela sabia que poderia conversar com Roberto.

Carol: Lílian? É a Carol, como vai?

Lílian: Carol, oi, tudo bem e você?

Carol: Estou bem, estou ligando para pedir um favor.

Lílian: Você parece preocupada, o que foi?

Carol: Sabe a investigação do narcotráfico que o Roberto está envolvido? Ele está recebendo ameaças, mas não quer desistir. Eu tentei falar com ele ontem, mas ele não me ouviu.

Lílian: Ameaças? De que tipo?

Carol: As do tipo muito sérias. Do tipo que envolve a Larissa.

Lílian: O que o Roberto está fazendo? Ele tomou alguma precaução?

Carol: A única coisa que eu sei é que além do motorista, ele colocou um segurança para segui-la sem que ela saiba, mas eu estou preocupada.

Lílian: Deixa que eu falo com ele, Carol. Foi muito bom você me avisar. O Roberto tem a mania de carregar todos os problemas do mundo nos ombros.

As duas se despediram e Carol voltou ao trabalho, sentindo-se um pouco mais aliviada.

13. EXTERNA – DIA – RESTAURANTE BOM SABOR

Rebeca e Júnior tinham escolhido um café com mesas ao ar livre, onde podiam sentir a brisa fresca do dia. Sentaram de frente um para o outro, na frente de cada um, um delicioso sanduíche e um copo de suco de laranja.

Rebeca: Então, será que pode contar qual é a grande novidade?

Júnior: Nossa que curiosidade.

Rebeca: Júnior! – ela fala ansiosa.

Júnior: Tá bom, eu falo. A banda foi escolhida para participar de uma turnê pelo país. Nós vamos sair em viagem daqui alguns dias. – ele conta exultante.

Rebeca: Uma turnê? – ela diz surpresa – E você pode viajar assim, já? – vendo a cara que ele estava fazendo ela completou – Eu não estou querendo te regular, só acho…

Júnior: Eu já falei com meu padrinho no NA. Ele já me passou a lista dos grupos em várias cidades para eu ir às reuniões, e me disse para ligar sempre.

Rebeca sorriu satisfeita em saber que Júnior estava tão comprometido com seu tratamento quanto com sua música.

Rebeca: Então teremos um rock star na família.

Júnior: Ainda não estamos assim.

Rebeca: Mas vão chegar, vai ver. Estou muito feliz por você, Ju. Conseguiu fazer algo que ama e está tendo sucesso. – ela termina dando um suspiro.

Júnior: Ei, o que foi? – ele pergunta preocupado. – Algum problema?

Rebeca: O mesmo de sempre, cada dia eu percebo que gosto menos de Direito e que não é o que quero fazer.

Júnior: Você já falou com sua mãe?

Rebeca: Ainda não, mas eu sei qual a resposta dela. Sei que vai falar que eu devo ter uma profissão estável, segura…

Júnior: Você deve tentar ser feliz. De que adianta ser uma advogada, cheia de grana e no final do dia você sente que não fez nada de útil, nada que fizesse você se divertir.

Rebeca: Ju…

Júnior: Olha, eu sei que sou um péssimo exemplo. Não te digo para seguir meu exemplo, mas quantas notícias aparecem, de profissionais que largam tudo para buscar algo que os satisfaça depois de quarenta ou cinqüenta anos? Pensa bem nisso.

Rebeca: Eu vou fazer isso. – ela sorri para Júnior – Então você já tem as datas de shows marcadas?

Eles continuam conversando e se divertindo até a hora que ela precisa voltar para o estágio.

14. INTERNA – DIA – RESTAURANTE SABOR DIVINO

Carlos e Diego almoçavam e conversavam para se conhecer melhor. Carlos percebeu o lugar recluso e distante, mas decidiu não fazer julgamentos precipitados. Os dois descobriram suas respectivas idades, suas profissões. Descobriram que tinham gostos musicais bem parecidos e gostavam do mesmo tipo de peças teatrais.

Diego: Onde você estava escondido esse tempo todo, Carlos Andrade?

Carlos: Talvez você que não procurou no lugar certo. – ele responde flertando com o homem a sua frente.

Diego não responde nada, sem saber como responder. Carlos olha o relógio e Diego percebe.

Diego: Estou te entediando? – ele pergunta, inseguro

Carlos: Não, de jeito nenhum. Eu nunca demorei tanto tempo almoçando, mas o caso que estou trabalhando, está numa fase importante e eu preciso voltar.

Diego: Tudo bem, o dever chama. – ele fala esticando a mão e colocando por cima da de Carlos – Mas eu quero sair com você outra vez, quando tiver mais tempo.

Carlos: Cla- claro. – ele gagueja e aceita, sem saber o que dizer. Você me liga marcando.

Eles pagam a conta e seguem para a garagem no subsolo do restaurante, onde o carro deles estava estacionado.

Carlos: Meu carro está daquele lado. – ele fala apontando o lado direito.

Diego: Então nos separamos aqui, o meu está desse lado. – ele diz apontando para o lado esquerdo.

Os dois ficam meio constrangidos, Carlos pensa em tentar um abraço, mas logo percebe a mão esticada e os dois trocam um aperto de mão.

Carlos: A gente se fala?

Diego: Claro! Eu te ligo para marcar alguma coisa essa semana ainda.

Cada uma segue para seu carro, Carlos tenta entender a mudança do outro na conversa no telefone e pessoalmente, mas releva as dúvidas e segue até seu carro.

15. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA

Sara saiu mais cedo da livraria e buscou os gêmeos na escola. Chegou em casa e não encontrou o filho mais velho. Foi terminar de preparar o jantar dos filhos e quando se sentaram para comer, e Gabriel ainda não tinha chegado, ela liga para o celular dele, mas não atende. Depois liga para Larissa. Se alguém naqueles dias sabia o que ele estava fazendo, era ela.

Larissa: Alô?

Sara: Larissa, é a Sara, mãe do Gabriel.

Larissa: Oi, tudo bem?

Sara: Sim, estou ligando para saber se tem noticias dele? Ainda não chegou em casa e não atende o celular.

Larissa: Ah é que a bateria dele acabou, mas ele tinha ensaio da banda, hoje. Deve chegar logo em casa.

Sara: Mas os ensaios não eram segunda e sexta?

Larissa: Eles precisaram mudar os dias, ele deve ter esquecido de comentar.

Sara: É, acho que sim. Obrigada de qualquer forma.

Larissa: Não foi nada, tchau.

Sara volta para a mesa e começou a comer com os filhos mais novos. Não demorou muito, Gabriel chegou e se surpreendeu com a presença da mãe em casa tão cedo.

Sara: Estava preocupada, não sabia que tinha ensaio da banda hoje.

Gabriel: A gente precisou mudar o dia.

Sara: Pois é, a Larissa me contou. E também me contou que seu celular tinha acabado a bateria.

Gabriel: Você ligou pra Larissa?

Sara: Eu precisava saber onde você estava.

Gabriel: Eu estou bem, não se preocupe.

Os gêmeos tagarelavam na mesa, Sara dava atenção para eles, mas não conseguia deixar de se preocupar com o filho mais velho.

16. INTERNA – NOITE – SALA DE ESPERA

Carlos espera ser chamado para sua hora com a psicóloga e vê quando Ingrid sai de um dos consultórios. Ela parecia um pouco abalada.

Carlos: Sessão difícil?

Ingrid: Oi – ela responde surpresa em encontrá-lo ali – Sim, um pouco. Como vai? – pergunta sentando na cadeira ao lado dele

Carlos: Estou melhor, estou tentando seguir em frente, dar novas oportunidades. Essas coisas que eles nos incentivam e ajudam a fazer. – ele estica a cabeça na direção dos consultórios.

Ingrid: Eu não sei, ainda tenho muito medo.

Carlos: Eu também tenho medo, não vou mentir. Mas não posso ficar parado no tempo e você deveria pensar o mesmo.

Ingrid: Você me deixa mais confiante do que eles. Senti falta de te encontrar aqui, Carlos.

Carlos: Quando quiser conversar é só ligar.

A conversa é interrompida quando Carlos é chamado para ir para sua sessão. Os dois se despedem, Carlos mais sereno e Ingrid mais confiante.

17. INTERNA – NOITE – CASA DA NORA

Nora terminava de preparar a comida com cuidado. Júnior tinha ligado mais cedo, perguntando se podia ir jantar em casa e ela não pensou duas vezes para concordar. Fez a comida preferida dele.

Júnior: Nossa esse cheiro está ótimo.

Nora: Filho, já chegou – ela larga o pano de prato em cima do balcão e vai abraçar o filho – Já está quase tudo pronto. Fiz sua comida favorita.

Júnior: Nossa mãe, não precisava disso tudo. Vai me acostumar mal, o tio Saulo não cozinha tão bem assim.

Nora: Você devia voltar pra casa – ela percebe a cara dele e acrescenta – eu sei, eu sei. Não vamos falar disso.

Diva: Nora, com quem está conversando? – ela pergunta indo em direção à cozinha.

Júnior: Comigo, vó Diva. Como vai a senhora?

Diva: Ah, você já chegou. – ela abraça o neto – sua mãe ficou na cozinha o dia inteiro depois que você ligou.

Júnior: Eu percebi.

Diva: Já está tudo pronto, Nora?

Nora: Já sim, mamãe. Vocês dois podem sentar que eu levo tudo pra mesa.

Júnior: Eu ajudo.

Diva senta em seu lugar de costume enquanto Nora e Júnior levam a comida para a mesa. Depois dos três com os pratos feitos, conversavam enquanto saboreavam a comida.

Diva: Então, Júnior. O que está fazendo? Como está se sustentando?

Nora: Mamãe. – ela fala em tom ameaçador.

Júnior: É sobre isso que quero falar.

Nora: Está precisando de dinheiro?

Júnior: Não, mamãe. Eu estou numa banda, nós recebemos pra fazer shows. E semana passada tivemos uma ótima notícia. – ele fala se entusiasmando – a banda foi escolhida para fazer parte de uma turnê com novas bandas. Vamos viajar e tocar em vários lugares do país!

Nora: O quê? Turnê? Viajar? – ela pergunta espantada.

Júnior: Isso mesmo. É uma ótima oportunidade que teremos. Vamos começar a ter reconhecimento…

Nora: Não. – ela fala firme, cortando a explicação dele.

Júnior: Não, o que?

Nora: Não, você não vai. Não pode ir. Saiu da reabilitação há pouco tempo, tem suas reuniões.

Júnior: Eu já arrumei tudo, mãe. Deixa eu te explicar como vai ser.

Nora: Não, eu proíbo você de ir. Esse foi o problema, nunca te proibi de nada, pois agora estou proibindo.

Diva: Nora, escute o garoto primeiro.

Nora: Não tem conversa. Vou falar com o Saulo e você não vai.

Júnior: Eu vou sim, você não pode me proibir. – ele levanta – Eu não achei que você teria uma reação assim. Que iria se preocupar e me aconselhar, eu tinha certeza, mas me proibir? Pela primeira vez eu estou realmente comprometido com alguma coisa e você não gosta. Talvez preferisse que eu fosse um vagabundo e dependesse de você, não é mesmo?

Nora: Você não percebe que isso pode ser perigoso para você?

Júnior: Eu não sei o que é pior, mamãe. Você querendo me proibir de realizar meu sonho ou não acreditando que eu sou capaz de ficar longe das drogas. Eu vou embora.

Júnior sai sem se despedir e Nora deixa o corpo cair na cadeira, a mão tapando o rosto.

Diva: Ele vai ficar bem.

Nora: Como a senhora pode saber?

Diva: Eu não sei, mas tenho fé que ele vai ficar bem.

Nora: Isso é muito pouco para mim.

Diva: Deixa eu te contar uma coisa – ela coloca sua mão sobre a da filha – Quando o Paulo sumiu, eu me senti culpada por nunca ter apoiado as escolhas dele. Ele era adulto e eu deveria tê-lo apoiado, mesmo sabendo que era perigoso. – ela respirou fundo, aquela confissão era dolorosa demais para ela – Sempre pensei que se tivesse ficado do lado dele, ele teria voltado para casa.

Nora: Você não sabe disso.

Diva: Não, não sei, e é uma duvida que vou carregar o resto da minha vida. Você precisa deixar seu filho tomar as decisões dele. Se der certo, você vai ser a primeira pessoa que ele vai procurar para comemorar e se der errado, você vai ser a primeira pessoa que ele vai procurar para dividir as alegrias.

Nora fica pensativa, olhando para o nada. Diva se levanta devagar e apóia as mãos no ombro da filha.

Diva: Não afaste seu filho de você. Depois pode ser tarde demais.

18. NTERNA – DIA – APARTAMENTO DO ROBERTO

Carol escuta o celular tocando dentro da bolsa. Ela já estava atrasada, mas atende antes de sair.

Carol: Eu estou atrasada, mamãe. O que foi?

Nora: Seu irmão está indo viajar.

Carol: Qual deles?

Nora: O Júnior. A banda dele vai sair em turnê.

Carol: Nossa, que legal.

Nora: Ana Carolina!

Carol: O que foi? Você não está feliz por ele?

Nora: Ele vai largar tudo, Carol. Inclusive as reuniões no NA. E se ele voltar a usar drogas, a beber. Sabe como isso foi difícil pra ele e pra todos nós.

Carol: Mamãe, esse é o sonho do Ju. Lembra? Ele saiu da faculdade por isso. Ele está mais velho agora, mais consciente.

Nora: Você acha que ele vai ficar bem?

Carol: Se ele enfrentou descobrir toda a verdade sobre a adoção sem usar drogas ou bebidas para aliviar a dor, acho que ele é mais forte do que pensamos. – ela escuta outra chamada em seu celular – Mamãe, tem outra pessoa me ligando. A gente conversa depois.

Nora: Tudo bem. Tchau.

Carol encerra a ligação com sua mãe e atende a nova ligação.

Sara: Nossa, demorou a atender.

Carol: Estou disputada hoje. Tava falando com a mamãe. Tenho uma novidade para contar. Tomás está aí? Chama ele e liga pro Carlos.

Sara liga para Carlos e diz que Tomás ainda não tinha chegado ao trabalho.

Carlos: Ligação de manhã cedo, da minha irmã, o que está acontecendo?

Carol: Bom dia, Carlos.

Carlos: Bom dia Carol – ele diz sorrindo – Eu nem me surpreendo.

Sara: Carol tem uma novidade pra gente, mas se não quiser saber, pode deixar.

Carlos: Agora que me interromperam, vou continuar. O que foi?

Carol: A banda do Júnior vai sair em turnê e a mamãe está pirando.

Sara: Nosso irmãozinho um roqueiro profissional. Que o Gabs não escute isso ou vai querer ir junto.

Carlos: Nossa, quem diria que de todos nós, o irmão a se tornar famoso seria o Júnior.

Carol: Carlos! O Ju é muito talentoso, ele merece. E Sara, ainda com problemas com o Gabs?

Sara: Adolescente, lembram como é?

Carlos: Eu lembro. Carol, acho que não lembra mais.

Carol: Deixa de ser ridículo. E eu preciso ir, mas antes, precisamos nos reunir e desejar boa viagem pro nosso irmão caçula.

Carlos: Na verdade caçula é a Rebeca.

Sara: O Ju sempre vai ser dono do posto de irmão caçula. Carol você planeja e passa todas as informações pra gente.

Carol: Por que eu?

Carlos: Você teve a idéia. Tchau para vocês duas, eu preciso trabalhar. – ele desliga o telefone.

Carol: É eu também deveria ir. Eu te ligo depois pra gente conversar mais.

Sara: Sim, até mais. Beijo.

19. INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – ESCRITÓRIO DE CARLOS

Carlos desliga o celular e coloca sobre a mesa. Nada melhor que uma fofoca Andrade logo cedo para começar o dia. Escuta as batidas na porta e manda a pessoa entrar.

Pâmela: Bom dia, Carlos. – ela estica vários envelopes – Isto chegou para você, como sua secretária não estava, vim trazer.

Carlos: Obrigado. – ele sorri – Então, como está se adaptando ao novo emprego?

Pâmela: Estou achando ótimo. Nem sei como agradecer a oportunidade.

Carlos: Eu não fiz nada, só entreguei seu currículo e fiz algumas recomendações. O resto foi você.

Pâmela: Sim, ninguém resiste ao meu charme, só você.

Carlos: Alguém precisa te manter com os pés no chão.

Os dois dão risada, e Pâmela deixa Carlos voltar ao trabalho e volta para seu posto.

20. INTERNA – DIA – ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA – ESCRITÓRIO DO ROBERTO PELLEGRINI

Lílian percebe quando Roberto fala nervoso com alguém ao telefone e desliga com raiva. Ela decide que era o melhor momento para conversar com ele, como tinha prometido a Carol.

Lílian: Posso entrar? – ela pergunta dando duas batidas no batente da porta.

Roberto: Depende. Se for falar de problemas, agora não.

Lílian: Na verdade, vim falar de uns telefonemas suspeitos que você vem recebendo.

Roberto: A Carol falou com você.

Lílian: Sim, ainda bem. Ou eu não ficaria sabendo de nada. – ela senta na cadeira em frente a ele – Então quer conversar?

Roberto: Na verdade, não. Eu sei o que estou fazendo.

Lílian: Você já avisou o partido que vem recebendo ameaças? E a polícia?

Roberto: Não, eles não precisam saber. Eu já estou cuidando disso.

Lílian: Roberto, essas pessoas são perigosas, não deve tratar isso como uma brincadeira.

Roberto: Por que vocês acham que eu não levo isso a sério? Eu sei o que estou fazendo.

Lílian: Roberto…

Roberto: Agora não, Lílian. Já falei. Não quero outra discussão. Preciso ir para o plenário.

Ele sai com passos firmes e largos deixando Lílian para trás, preocupada.

21. INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – ESCRITÓRIO DE CARLOS

Carlos escutava com atenção a estratégia que Gustavo tinha planejado para o segundo julgamento do caso Lumni. Impressionado com o que ouvia, o jovem advogado demonstrava ser bastante talentoso.

Carlos: Muito bem, Gustavo. Fez um grande trabalho. – ele olha para Rebeca – Agora é sua vez.

Rebeca: Carlos – ela fala se levantando – Eu acho melhor você seguir o plano do Gustavo.

Carlos: Você vai abrir mão de apresentar sua proposta?

Rebeca: Na verdade, eu não vou fazer mais nada. Eu vou sair do estágio.

Carlos: O quê? – ele pergunta assustado – Gustavo, pode nos dar licença por uns minutos?

Gustavo: Claro. – ele responde e sai da sala, fechando a porta atrás de si.

Carlos: O que deu em você? – ele pergunta elevando um pouco o tom de voz.  – Esse estágio é um dos mais concorridos e você entrou, por que quer sair?

Rebeca: Eu não gosto disso, Carlos. Eu nunca gostei de Direito. Já até entreguei meu pedido de demissão no RH.

Carlos: Você só pode estar louca. Se está muito difícil para você, deveria me falar, eu sou culpado disso, fiz você ter funções de advogados formados.

Rebeca: Não é você, Carlos. É sério. Eu só não gosto da advocacia. Não sou como você, ou como o Gustavo. Olha como ele planejou nossa estratégia? Ele foi perfeito. E a empolgação para fazer isso, eu nunca fiz nada com muita vontade. E você sabe o falatório que está rolando, eu não quero que você seja prejudicado.

Carlos: Andrades não desistem tão fácil, você me decepcionou. Achei que podia confiar em você.

Rebeca: Eu sinto muito que se sinta assim, mas eu preciso fazer o que eu gosto, e não agradar os outros.

Rebeca sai calada da sala de Carlos, os olhos cheios de lágrimas, mas ela não deixou que elas caíssem. Estava tomando a decisão certa para si. Carlos fica de costas para a porta, olhando pela janela. Se arrependia de ter brigado com ela, mas ficou surpreso com a novidade.

22. INTERNA – DIA – ACADEMIA BOA FORMA

Vitória entrou na academia, algumas pessoas olhavam de canto para ela, que já  estava acostumada com aquilo.

Vitória: Boa tarde! A Lavínia é instrutora de ioga aqui, não é?

Atendente: Sim.

Vitória: Será que você poderia chamá-la pra mim? Eu sou uma conhecida dela, preciso falar com ela.

Atendente: A aula dela deve terminar em dez minutos. Gostaria de esperar?

Vitória: Eu vou ficar ali na lanchonete, você pode dar o recado?

Atendente: Claro, fique à vontade.

Vitória ficou em uma das mesas mais próximas à saída. Enquanto esperava, se perguntou se queria realmente fazer aquilo, mas sabia que não poderia ficar na dúvida.

Lavínia: Disseram-me que você gostaria de falar comigo.

Vitória: Sim, sente-se. É melhor ter conversas sérias olho no olho.

Lavínia: Claro – ela fala acanhada enquanto senta – Você quer falar comigo sobre o quê?

Vitória: Vou direto ao ponto. Eu senti o seu perfume na roupa do meu marido e quero saber o que está acontecendo entre vocês.

Lavínia: Meu perfume é bastante comum, eu não…

Vitória: Por favor, não tente mentir. Eu percebi como ele ficou nervoso e incomodado com sua presença.

Lavínia: Olha, a princípio eu não sabia que ele era casado e fiquei indo atrás. Quando ele me disse, eu já estava interessada.

Vitória: Você foi atrás dele mesmo sabendo que era casado?

Lavínia: Sim, mas eu não sabia que ele era casado com você. Se eu soubesse…

Vitória: Se ele fosse casado com qualquer outra mulher estava certo você ir atrás de um homem casado?

Lavínia: Olha, me desculpe, mas não aconteceu nada. A culpa é toda minha. Eu fui atrás dele, mas ele sempre me rechaçou e disse que era casado.

Vitória: Seu perfume estava na roupa dele, não me parece que ele te afastou todas as vezes.

Lavínia: Eu me joguei em cima dele, mas ele me empurrou. Eu juro, seu marido é fiel e não precisa desconfiar dele. E não precisa se preocupar que não vou tentar nada.

Vitória: Eu deveria ter raiva de você, mas na verdade, eu sinto muita pena.

Lavínia: Pena? De mim?

Vitória: Sim. Não pense que eu não notei seus olhares piedosos e arrependidos porque tentou roubar o marido de uma deficiente. Eu tenho pena porque você não sabe nada sobre amor e comprometimento. Você acha que pode ter tudo, usando o seu corpo. Mas o que eu e meu marido temos, vai além de atração sexual e isso você provavelmente nunca vai entender.

Lavínia: Eu…

Vitória: Eu vim só para dizer que eu não vou sair da vida do Tomás tão fácil, então se você quiser continuar, vai só perder o seu tempo.

Vitória manobra a cadeira de rodas e sai de cabeça erguida. Ela não iria aceitar que tivessem pena dela. Ela era muito mais forte do que parecia. Agora ela precisava encontrar o momento certo para falar com Tomás.

23. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE VERA – SALA DE JANTAR

Vera, Saulo e Rebeca terminavam de jantar. Rebeca gostava desses momentos, ela sentia como se eles fossem uma família, por isso decidiu que não poderia deixar de contar a decisão que tinha tomado.

Rebeca: Mãe, eu preciso falar uma coisa.

Saulo: Você está séria. Algum problema?

Rebeca: Não é nada grave, só é importante.

Vera: O que foi? – ela pergunta largando a louça em cima da mesa.

Rebeca: Eu decidi que vou largar o curso de Direito. Inclusive, já larguei o estágio na Barbosa & Lima.

Vera: O Carlos fez alguma coisa a você? É isso?

Rebeca: Não, mamãe. O Carlos foi ótimo comigo esse tempo todo. Eu não gosto de Direito, nunca gostei. Eu quero ser fotógrafa, sabe disso.

Vera: Mas filha, é uma profissão digna, importante.

Rebeca: A fotografia também, e é o que eu gosto.

Saulo: Eu sei que eu não tenho motivos para me meter, mas posso falar uma coisa?

Rebeca: Claro, Saulo. Sabe que eu considero você como um pai.

Saulo: Você pensou bem o que está fazendo? Largar a faculdade é um passo importante.

Rebeca: Eu pensei sim, já tem um tempo. Eu não vou parar de estudar. Quero continuar me aperfeiçoando em fotografia.

Saulo: Se a fotografia é o que te faz feliz e você quer continuar estudando, que é o mais importante, eu te apoio.

Rebeca se levantou e foi abraçar Saulo, sabia que poderia contar com ele.

Vera: Espera um pouco. Filha…

Saulo: Vera é a felicidade dela que estamos discutindo.

Vera: Eu sei. Só peço que você termine esse semestre, está acabando, se no final do ano, continuar achando que não quer mais o curso, eu não vou me opor a você largar.

Rebeca pensa na proposta da mãe e pondera que mais um mês para terminar a faculdade não faria muita diferença.

Rebeca: Tudo bem, eu termino esse semestre.

Vera: Ótimo – ela sorri – Agora quem quer sobremesa?

Os três mudam a conversa para assuntos mais leves e se divertem.

24. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS

Tomás chega em casa e encontra Vitória esperando por ele. Ela parecia séria e decidida.

Tomás: Oi, como foi seu dia?

Vitória: Foi bem. Sente-se aqui, eu quero conversar com você.

Tomás: Claro – ele coloca suas coisas em cima da mesa e senta – O que foi?

Vitória: Você ainda quer ficar comigo, continuar nosso casamento? E por favor, não minta.

Tomás: Claro que sim, de onde você tirou essa idéia?

Vitória: Eu não fiquei boba depois do acidente. Eu sei que nosso casamento mudou e você também mudou.

Tomás: Depois de tudo que aconteceu com você, como eu não iria mudar? Mas eu nunca, em momento algum deixei de te amar.

Vitória: Eu não duvido disso, mas essa não foi minha pergunta, eu quero saber se ainda quer continuar casado comigo, e continuar porque me deseja, porque se sente atraído por mim. Eu não quero um casamento baseado em pena.

Tomás: Por que você está falando isso tudo? – ele pergunta desesperado.

Vitória: Eu senti o cheiro daquela mulher em sua roupa, Tomás. E não tente negar, eu fui falar com ela.

Tomás: Você o quê? Ela é uma mulher qualquer que veio pra cima de mim, não aconteceu nada.

Vitória: Eu sei, ela disse, e sabe o que foi pior? Saber que ela só não vai atrás de você porque eu estou nessa cadeira de rodas. Ela sentiu pena de mim! – ela terminou a frase falando mais alto, as lágrimas já escorrendo pelo rosto – Eu não preciso que ela, nem ninguém, tenham pena de mim.

Tomás: Eu não tenho pena de você, Vi. Você é a pessoa mais forte e mais corajosa que eu já conheci.

Vitória: Isso mudou tudo, Tomás. E eu não tenho certeza mais do que você sente por mim.

Tomás: Eu não vou fazer discurso, não sou bom com isso. Mas vou te mostrar o que eu sinto por você, e espero que você não duvide nunca mais de mim.

Tomás  beijou Vitória e a tirou da cadeira, carregou para o quarto deles. Ele se deitou ao lado dela e começou beijando devagar. Ele demonstrava em cada toque, em cada palavra sussurrada ao ouvido dela em cada beijo o quanto a amava e desejava.

25. NOITE – INTERNA – SHOPPING DA BARRA – SALAS DE CINEMA

Carlos e Diego resolveram de última hora assistir um filme. Chegaram a tempo de pegar a última sessão. Estavam na fila dos ingressos quando viu Pâmela abanando a mão para ele e indo a sua direção, seguida de um rapaz.

Pâmela: Carlos! Que coincidência, não sabia que viria ao cinema hoje. E você eu já conheço – ela sorri sedutora para Diego que não se impressiona – bom vê-lo novamente.

Carlos: Não vai apresentar seu amigo, Pam?

Pâmela: Oh sim, claro. Carlos e Diego, esse é o Olavo. Olavo, esse é o Carlos, meu amigo e vizinho – sorrindo maliciosa, ela acrescentou – e esse é o Diego ‘amigo’ dele.

Carlos engasgou com o refrigerante que bebia. Diego ficou impassível e Olavo o mais embaraçado do grupo.

Pâmela: Ah já estão abrindo – ela se vira para seu acompanhante – vamos Olavo, eu quero pegar um bom lugar. Tchau para os dois.

Assim que Pâmela se afastou e não poderia mais ouvi-los, Carlos se desculpou pelo acontecido.

Diego: Não foi nada, não se preocupe.

Os dois decidiram também entrar para encontrar um bom lugar. Eles viram onde Pâmela estava e sentado no lado oposto. Como a sala encheu rapidamente, ela não tentou ir para perto deles, mas não tirava os olhos deles. E foi assim que ela viu quando Carlos tentou se aproximar, Diego se afastou, deixando Carlos confuso e ao mesmo tempo sem graça.

26. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO SAULO

Júnior vai atender a porta quando a campainha toca. Deveria ser alguém conhecido para o porteiro deixar subir. Quando ele abriu a porta encontrou sua mãe do outro lado. Depois de tudo que escutou dela, ele só não fechou a porta, por respeito a ela

Nora: Filho, podemos conversar?

Júnior: Se veio tentar me convencer a não ir, não adianta.

Nora: Não, eu vim me desculpar

Júnior: Desculpar? – ele pergunta surpreso.

Nora: Sim. Vamos entrar, não quero fazer isso em pé no corredor.

Nora entrou e se acomodou no sofá. Júnior sentou-se na mesa de centro, de frente para ela.

Nora: Eu passei dos limites, não deveria ter dito o que disse. Você é adulto e tem que decidir o que fazer da sua vida. Eu vou ficar preocupada, mas esse é meu papel de mãe.

Júnior: Mãe, tá tudo bem. Eu também tenho culpa, já que esse seu medo tem fundamento. Mas eu não estou levando isso na brincadeira, a música ou meu tratamento. Eu já conversei com meu padrinho e já tenho tudo esquematizado para continuar indo às reuniões, mesmo em outras cidades.

Nora: Você não precisa me explicar nada, eu vim para dizer que o que você decidir, eu te apóio e toco para seu sucesso. Sua felicidade é minha felicidade, assim que funciona.

Júnior não fala nada, ele só se acomoda num abraço demorado com sua mãe.

Júnior: Que bom que você veio, não queria ir embora sem me despedir de você. Vou sair com meus irmãos hoje, eles também querem se despedir. Você vai, não é?

Nora: Não, vou deixar vocês jovens se divertirem. Não se esqueça que sua casa estará sempre no mesmo lugar, e eu também. Aconteça o que acontecer.

Nora ia se levantando, mas lembrou-se da outra coisa que tinha ido fazer. Ela tira um embrulho da bolsa e entrega para ele.

Nora: Prometa-me que vai abrir antes do primeiro show. Eu quero estar presente de alguma forma.

Júnior: Pode deixar, só no dia da estréia.

Nora abraça o filho mais uma vez, deseja boa viagem e pede que ele ligue sempre para dar notícias. Depois que ela sai, Júnior senta no sofá e sorri, a pessoa mais importante estava do lado dele. Tinha certeza que daria tudo certo.

27. INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – SALA DE CARLOS

Carlos chegou do tribunal e viu Rebeca em sua sala. Ele parou e olhava para ela, sabia que tinha passado do limite e precisava pedir desculpas.

Mônica: Você não vai se despedir?

Carlos: Ela é minha irmã, eu vou encontrá-la mais tarde.

Mônica: Sim, mas aqui ela era uma colega de trabalho que está indo embora. E como irmão mais velho, deveria desejar boa sorte.

Carlos: Você consegue ser insuportável às vezes, me deixando culpado.

Mônica: Por isso você me ama e me paga um ótimo salário. Agora vai lá. – ela fala dando um empurrão leve em Carlos na direção de sua sala.

Ele entra em sua sala e ela percebe. Eles ficam em silêncio por alguns instantes até que ela decide falar.

Rebeca: Eu vim deixar alguns documentos que estava analisando. Deixei tudo que tava fazendo catalogado e explicado para que quem for assumir meu trabalho, saiba o que estava fazendo.

Carlos: Eu não devia ter falado tudo aquilo com você.

Rebeca: Tudo bem, vocês investiram em mim e eu te decepcionei.

Carlos: Não, não é isso. Tudo que eu falei, não era o advogado Carlos falando. Mas seu irmão. – ele notou o olhar surpreso dela – Eu sei, prometi não misturar as coisas, mas eu percebi que você é uma ótima pessoa, divertida, inteligente, que tem muitas atitudes típicas dos Andrades.

Rebeca: Eu não sei, não.

Carlos: Vai por mim. Você é mais parecida com a gente do que possa imaginar, ou queira admitir.

Rebeca: Você entende isso mais do que eu.

Carlos: Pode ter certeza. A verdade é que trabalhar junto com você, me deu a oportunidade de te conhecer, que eu não teria se isso não acontecesse. Eu sinto pela funcionária dedicada, mas sinto mais não ter você aqui para conversar.

Rebeca: Você pode me ligar e me visitar sempre que quiser, você sabia? – ela fala divertida – Eu não estava me sentindo bem trabalhando aqui Carlos. Eu não fui feita para ser advogada, eu nunca gostei. E você me fez perceber isso. Eu não sinto a mesma empolgação que você quando encontra uma brecha na lei. E os comentários sobre mim já estavam enchendo, só me ajudaram a decidir.

Carlos: Você não vai sumir, viu? Devemos marcar um dia toda semana para a gente sair e conversar.

Rebeca: É só marcar.

Carlos: Você vai com a gente se despedir do Ju?

Rebeca: Não perderia por nada.

Carlos: Então vamos, não quero fazer hora extra. Está na hora de fazer o que os Andrades sabem fazer de melhor.

Rebeca: Provocar uma briga?

Carlos: Isso também – ele diz entre gargalhadas – mas espero que não hoje. Eu ia dizer festejar e beber.

Rebeca: Gosto mais da sua opção. Vamos!

Os dois saem juntos, conversando e dando risada.

28. INTERNA – NOITE – BAR E RESTAURANTE VANGUARDA

Carol, Sara e Tomás já estavam no bar, cada um empunhando uma bebida. A conversa era animada. Carlos e Tomás conversavam em um canto e no outro, Carol, Sara e Rebeca.

Rebeca: E como estão as crianças? Saudades dos gêmeos.

Sara: Pode olhar os dois quando quiser. – ela vira para Carol – e você, como está tudo com o Roberto?

Carol: Estamos meio brigados por causa da teimosia dele.

Sara: Pelo menos você tem alguém com quem ficar brigada. Logo vão fazer as pazes. A reconciliação é a melhor parte. Eu não tenho nenhum prospecto de encontrar alguém.

Rebeca: Ah qualquer hora aparece alguém, vai ver? Pior eu que descobri que meu namorado falava mal de mim e da minha família pelas minhas costas.

Sara: O que? Você quer que eu dê uma lição nesse idiota?

Rebeca: Eu acho que eu consegui fazer isso, mas obrigada pela oferta.

Sara: Não foi nada. Mas você é nova, logo encontra outro namorado. Saudade de quando tinha vinte anos e poderia escolher quem eu queria namorar.

Carol: Do jeito que você fala, parece que os rapazes faziam fila na nossa porta – ela retruca irônica.

Sara: Não faziam fila, mas era melhor que agora. Tenho a impressão que vou ficar sozinha para sempre, e agora que terei mais tempo.

Rebeca: Você vai encontrar alguém. É jovem, bonita, inteligente.

Carol: Ela tem razão. Olha com que idade eu fui encontrar o Roberto?

Júnior: Que conversa de mulherzinha é essa? – ele chega perguntando.

As irmãs são as primeiras a abraçá-lo. Depois Carlos e Tomás também cumprimentam. Enquanto os cinco tinham alguma bebida alcoólica em mãos, ele bebia um refrigerante. Depois de um tempo, ele foram para a mesa para jantarem.

A conversa é animada. Eles se provocam, fazem piadas uns sobre os outros e dão muitas risadas. Tudo em um clima de muita harmonia.

Carol: Vocês perceberam que essa é a primeira vez que nós seis estamos reunidos, sem que algum de nós esteja brigado com outro?

Rebeca: Você não devia falar isso, pode atrair má sorte.

Carlos: Você também?

Rebeca: Eu também o que?

Tomás: É supersticiosa. Carol e Sara, mesmo negando, são assim.

Sara: Não somos!

Júnior: São sim!

Carol: Bom, vamos evitar discussões. Porque hoje é dia de despedir do Júnior. Nosso irmão está indo fazer sua carreira de sucesso, ficar muito rico e sustentar o resto dos Andrades – ela pausa para as risadas em volta da mesa – e como ele não pode ir embora, sem uma lembrança nossa, temos um presente pra ele.

O garçom que eles já tinham combinado levou o presente para a mesa. Júnior se surpreendeu, não esperando por aquilo. Ele abriu o embrulho, eles tinham dado para ele um baixo novo.

Júnior: Vocês são malucos. O que é isso?

Carlos: Se você não sabe, então sua banda está em sérios problemas e o sonho da Carol de ser rica virou pesadelo.

Júnior: Engraçadinho, eu quero dizer, isso é demais!

Carol: Você merece. Está finalmente decidido e essa é a forma de dizer que estamos torcendo.

Tomás: Carol tem razão. E sua guitarra tá bem velhinha, tá na hora de uma nova.

Júnior: Nossa! Vocês são demais. – ele olhou dentro da caixa da guitarra e viu os recados de boa sorte de cada um deles.

Rebeca: Acho que esse momento, merece uma foto para recordação. – ela tira a máquina de dentro da bolsa e ia tirar a foto.

Carol: O que está fazendo?

Rebeca: Vou tirar a foto.

Carlos: Não, você vai se amontoar aqui e alguém tira. Todos os irmãos Andrade na mesma foto.

Tomás: A primeira de muitas.

Rebeca entregou a máquina para um dos garçons e os seis sorriram esperando o flash. Depois ela pegou a máquina e batia fotos de vários momentos do resto da noite, eram as primeiras fotos de família dela.

29. INTERNA – GRANDE SALÃO DO HOTEL PRAIA GRANDE – FESTA DE LANÇAMENTO DO LIVRO DE NORA

O salão estava começando a encher quando Carol, Roberto e Larissa chegaram ao evento. Eles logo encontraram o resto dos Andrades e se agruparam. Nora que estava tentando ser mais compreensiva com o relacionamento de Carol e Roberto foi a primeira a cumprimentar o namorado da filha.

Nora: Roberto que bom que pode vir. E muito obrigada pelas flores. Muito bonitas e de bom gosto.

Roberto: Não foi nada, hoje é um dia muito importante, merece muito mais.

Gabriel e Larissa já tinham se afastado dos adultos e conversavam em um canto.

Sara: Tá vendo? Ele agora só quer saber da banda e da namorada. Não conversa mais nada comigo.

Carlos: Você está com ciúmes. É normal. Lembra quando o Tomás começou a namorar o ciúme que ela tinha dele?

Vitória: Ela sempre gostou muito de mim.

Tomás: O que ela teria para não gostar de você?

Todos conversavam animados quando Saulo, Vera e Rebeca chegaram. Eles já começavam a se acostumar com a presença da loira nos eventos da família. Quase todos. Diva ainda achava muito estranho.

Diva: Ela nem precisava vir junto.

Nora: Eu convidei os dois, mamãe. A senhora vai se comportar e tratá-la bem. Lembra-se do conselho que me deu? Deveria tentar segui-lo.

Diva: Não devia me pedir uma coisa dessas.

Saulo: Boa noite a todos. – ele estica o braço e abraça Nora – E você minha irmã. Parabéns e todo o sucesso do mundo.

Vera: Exatamente, muito sucesso, Nora.

Nora: Obrigada aos dois. Que bom que puderam vir. Você também Rebeca, que eu gosto como uma filha.

Diva: Que bom que veio, filho.

Saulo: Como vai, mamãe?

Diva: Ah, a saúde vai como sempre, uns dias bons outros ruins.

Saulo: Está tomando seus remédios direito?

Diva: Sim, juro. A Nora não larga do meu pé. Sabe, eu queria saber quando vai me convidar para passar um dia com você.

Saulo: Mamãe, eu estou trabalhando muito na editora. Não tenho muito tempo.

Diva: Você não trabalha no domingo. Poderia me buscar. Eu preciso conhecer a mulher que está te fazendo feliz.

Vera quase engasga com sua bebida. Ela estava preparada para escutar insultos de Diva, mas aquilo era surpreendente. Em outro canto, Nora deixa o tumulto para atender ao telefone.

Nora: Júnior? É você?

Júnior: Não achou que eu iria esquecer que hoje é o dia do lançamento do seu livro, não é?

Nora: Queria que estivesse aqui.

Júnior: Eu também, mas eu vou tocar uma música especial pra você hoje!

Nora: Não, seu público não vai gostar das músicas que eu gosto.

Júnior: Parabéns mamãe. Que seu livro venda muito!

Nora: Que bom que ligou, só estava faltando você, e agora está presente de certa forma.

Júnior: Olha, amanhã eu ligo e você me conta tudo, agora eu preciso ir pra passagem de som.

Os dois se despedem e Nora guarda o telefone na bolsa antes de voltar para a festa. Finalmente seu momento estava completo com a ligação do filho caçula.

30. INTERNA – GRANDE SALÃO DO HOTEL PRAIA GRANDE – FESTA DE LANÇAMENTO DO LIVRO DE NORA

Sara e Carlos conversavam em um canto. Eles falavam baixo com medo que alguém os escutasse.

Carlos: Você já contou para ele?

Sara: Ainda não. Não encontrei o momento ideal.

Carlos: E qual seria o momento ideal? O dia que você não aparecer para trabalhar e ele descobrir?

Sara: Tudo bem, eu vou falar. Amanhã.

Em outro canto, Gabriel conversava com Tomás, contava sobre as novas músicas que estava ensaiando.

Gabriel: Só que agora minha mãe vai fazer marcação cerrada com mais tempo para ficar em casa.

Tomás: Mais tempo? Ela vai deixar as aulas que estava dando?

Gabriel: Não ela vai sair da livraria. Ela vai dar aula na UFRJ.

Tomás gelou da cabeça aos pés. Sara iria largar a livraria em suas mãos? Não podia acreditar. Ele deixou o sobrinho e puxou Sara pelo braço para um lugar mais afastado.

Sara: Tomás, o que foi isso?

Tomás: Você vai sair da livraria? Vai largar tudo para mim?

Sara: Como você ficou sabendo?

Tomás: O Gabriel me contou. Meu sobrinho de 14 anos sabia e eu não. Quando pretendia me contar?

Sara: Não sei, estava tentando achar o melhor momento.

Tomás: Você fez tudo para salvar a livraria, e agora vai largar assim?

Sara: Eu estou indo atrás do meu sonho Tomás. Você está fazendo um ótimo trabalho, não vai sentir minha falta.

Tomás: Ah claro, porque agora eu não sou o responsável pela empresa da família e qualquer problema eu que tenho que resolver. Você é muito irresponsável, sabia? Essas decisões deveriam ser tomadas por nós dois.

Sara: Não, as decisões sobre minha vida, são tomadas somente por mim. Você não tem o direito de querer me prender na livraria, o papai fez isso, você não vai.

Sara sai pisando duro e com raiva. Ela chama Gabriel para irem embora.

Gabriel: Mas mãe…

Sara: Agora Gabriel, pode se despedir.

Carol: Nós o levamos para casa, depois.

Sara: Não, ele não vem se comportando bem para receber recompensa. Ele vai embora agora, comigo.

Os dois vão embora logo, sem fazer muito alarde e sem que Nora soubesse da briga entre Sara e Tomás. Naquele dia ela merecia achar que estava tudo correndo bem.

31. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – SALA

Gabriel entrou pisando duro, não gostando de ter ido embora cedo.

Gabriel: A tia Carol falou que me trazia aqui, você poderia ter me deixado com ela.

Sara: Não, você não merecia ficar. Eu pedi segredo sobre o novo emprego, mas você contou tudo.

Gabriel: Não lembro de você falando que queria segredo.

Sara: Claro que não, você está no mundo da lua, só pensa nessa banda e na Larissa. Eu estou deixando você tomar suas decisões, mas você está começando a passar do limite.

Gabriel: Eu estou passando do limite? – ele olha desafiador.

Sara: Vai pro seu quarto, essa conversa está encerrada por hoje.

Gabriel: Na hora que eu ia falar? Tá vendo como você é?

Sara: Gabriel, não estou com cabeça para discussões. Vai para seu quarto.

Ela nota como ele olha triste para ela, mas não tinha cabeça para conversar ou discutir com ele.

32. EXTERNA – NOITE – PALCO PRINCIPAL – BACKSTAGE – BRASÍLIA/DF

[♫ Até o fim – Engenheiros do Hawaii]

A banda preparava para entrar. Já estava quase tudo pronto. Júnior tirou de dentro de sua mochila o presente que tinha recebido da mãe. Ele abriu e viu que era o livro dela. Na contra capa uma dedicatória que ela escreveu para ele.

Decisões são importantes. São elas que nos fazem crescer. Que suas escolhas sejam as corretas. Não esqueça que seu lugar nessa família estará  sempre vazio, esperando a sua volta.

Muito sucesso e realizações.

Celebraremos suas conquistas quando voltar.

No meio do livro, tinha uma folha dobrada e algo mais escrito, mas a banda já  estava sendo chamada. Ele colocou o livro dentro da mochila, novamente. Pegou a guitarra que tinha sido presente dos irmãos e foi em busca do seu sucesso.

Continua…

5 Respostas to “Até o Fim”

  1. Julia Says:

    Ai.. estou sem palavras..

    Cada dia melhor.
    Amei.

  2. Natie Says:

    Aaah tantas coisas legais aconteceram nesse epi q nem sei por onde começar… hehe

    AEEEEEEEE VITORIA! Adorei a cena dela na academia! Dando um chega pra lá na bitch da Lavinia… E bom saber que o Tomas continua e continuara fiel ao casamento…

    Coitada da Sara! Por um lado entendo o Gabriel, mas tbm ngm merece ser a Sara num momento desses! Ter q escolher entre dar aulas e a livraria, pensar na reação do irmão, lidar com os filhos e ainda estar solteira! heheh… Cruzando os dedos pras coisas melhorarem…

    Carol começou bem no novo emprego né? Ainda bem q ela jah ficou sabendo das ameaças… E o Roberto tem q avisar a policia sim!! Q isso! Estão ameaçando a filha dele!

    Carlos em novo quase relacionamento!!! 😀 Que bom pra ele… Fico com pena da Pamela… Tah tão na cara q ela gosta dele… E coitada tem q ser conformar em ser a vizinha e amiga… Gostei da cena dele com a Rebeca! Alias, q bom q ela decidiu seguir o q ela realmente quer… Deve ser horrivel fazer uma carreira q vc não tem nenhum perfil para…

    E nem vou comentar o quanto eu fiquei feliz pelo Junior! Todo decidido, cuidando da saude e indo atras dos sonhos! Fiquei ainda mais feliz qdo a Nora resolveu apoiar ele… Tudo fica tão mais facil qdo a pessoa mais importante da nossa vida nos apoia! E a festinha com os irmãos? Q coisa mais fofa! Imaginei um pouco as fotos…

    E a Nora finalmente lançou o livro neh? Vai ser um sucesso, com certeza… 😀

    Beijoos gente!

  3. Natie Says:

    Aaaah, sem querer encher o saco… haha…
    Rola romance entre Junior e Rebeca? (quem sabe no futuro?) 😀

  4. Gustavo Says:

    Salve Galera!!!!

    Esse episódio foi da Vitória!!!! Ela soube se impor e deu um chega pra lá nessa coisa da Lavínia.

    Um salve pra Rebeca tb. Nada pior do que fazer algo que não se gosta só pra agradar nossos pais. Infelizmente isso acontece muito e o resultado são os “ótimos” profissionais que temos por aí… Espero que ela se dê bem a partir de agora.

    Coitado do Carlos… Está embargando em mais uma canoa furada!!! Tá na cara que esse Diego ou é casado ou só quer saber de sexo barato!!! Odeio esse tipo de gente que só quer fazer hora com a cara da outra. Será que não tem sentimentos???

    A coisa está ficando tensa pro Roberto. Mas se ele não peitar, quem peitará???

    A Sara mais uma vez se lascou… Mas tb, quem mandou ficar enrolando???

    No mais, tudo nos conformes. Júnior saindo em turnê (quero ver até quando ele se manterá limpo). D. Nora lançando o livro (tomará que seja sucesso). E D. Diva como sempre dando show com sua sabedoria!!

    Que venha o próximo episódio!!! E por favor, nada de rolar um romance entre o Júnior e a Rebeca!!!

    Beijos e abraços a todos!!!!

  5. Lenon Says:

    Saudades dos Andrades… kkkkkkkkkk

    Roberto, como sempre, quer resolvet tudo sozinho sem nem ao menos consultar Carol. Se eles estão juntos, ele devia respeitar um pouco mais a opnião dela…

    Achei esse Diego muito estranho, estou curioso pra saber o que ele está escondendo.

    Muita gente perseguindo o sonho. Sara, Rebeca, Júnior, os três estão tentando seguir o caminho que sempre quiseram e eu torço para que dê certo pros três.

    Morri de rir com a Diva tentando conhecer Vera. Isso vai ser divertido.

    Mas o que eu gostei mesmo foi da Vitória indo falar com a Lavínia. Pelo menos agora Tomás deve ficar livre dela…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s