Nos episódios anteriores: Tomás e Júnior fazem as pazes. Saulo e Vera decidem criar uma editora. Rebeca começa a estagiar no escritório de Carlos, que assume um grande caso. Sara arruma um emprego como professora universitária, enquanto Fernando segue em frente com sua vida amorosa. Júnior e Bianca se aproximam.

1.           INTERNA – NOITE – RESTAURANTE

Nora estava sentada olhando o menu com bastante atenção, tentando esconder o nervosismo de conhecer o seu editor, Emerson Soares. Flávio percebe o nervosismo de Nora.

Flávio: Nora? Está tudo bem?

Nora: Claro que está! Eu vou querer… – diz para o garçom.

Emerson: Não precisa ficar nervosa, Nora.

Nora: Eu não estou nervosa. É só ansiedade – e vira-se para o garçom. – Eu escolho mais tarde, sim? Obrigada.

O garçom se retira.

Flávio: Então, Nora, como eu ia dizendo, o Emerson será quem cuidará diretamente da edição do seu livro.

Emerson: Com muito prazer. E, devo dizer que estava muito “ansioso” também em conhecer a senhora. Seus textos me cativaram bastante.

Nora cora violentamente.

Nora: Eu presumo que isso seja uma coisa boa, não é?

Flávio e Emerson começam a rir.

Nora: Por que vocês estão rindo? – pergunta séria.

Emerson e Flávio se controlam.

Emerson: Perdão, Nora. Mas é claro que foi um elogio.

Nora: Foi isso o que eu disse.

Flávio e Emerson olham para Nora sem entender nada. Nora cora ainda mais.

2.           INTERNA – NOITE – CASA DE NORA

Nora chega em casa. Carol estava falando com Roberto, ao telefone. Discutindo política, é claro.

Carol: Não, não! O governo não tem que pagar tudo para as pessoas, Roberto! Assim ele está criando uma geração de parasitas que não busca auto-desenvolvimento!

Nora: Muita gente não tem chance de correr atrás desse auto-desenvolvimento, Carol. E é isso que os programas assistencialistas deveriam cobrir.

Carol: Minha mãe chegou. Depois a gente conversa. Beijo! E aí, mãe? Como foi?

Nora: Um desastre. Quero me afundar num pote de sorvete… Ou numa garrafa de vinho branco. Suave. Me acompanha?

Carol se levanta e, abraçada com a mãe, as duas vão até a cozinha.

 

3.           INTERNA – DIA – CASA DE NORA – ENTRADA

A campainha tocou, e Nora foi correndo atender. Era o carteiro.

Nora: Bom dia!

Carteiro: Bom dia. Eu vou precisar que a senhora assine aqui e aqui – diz, apontando.

Nora assina e ele lhe entrega uma caixa.

Carteiro: E tem mais isso – e entrega mais correspondências. – E mais isso aqui.

Eram duas caixas grandes de papelão.

Nora: Obrigada. Tchau – despede-se. Ela se inclina e vê o nome escrito em cima da caixa. – Carol!

4.           INTERNA – DIA – CASA DE NORA – COZINHA

Nora: Chegou! Até que foi rápido.

Carol: O que chegou rápido? – diz, pegando uma maçã na geladeira e mordendo.

Nora: Eu comprei uns livros.

Carol: Online? Porque não pediu pra Tomás ou pra Sara?

Nora não responde. Carol arregala os olhos.

Carol: Deixa eu ver a caixa!

Nora abraça a caixa e se afasta de Carol, que vai atrás dela. As duas correm pela cozinha.

Carol: Eu não acredito, Nora Andrade! Você é dona de uma livraria, sabia?!

Nora: Eu fui à Andanças e não achei os livros lá!

Carol: Desculpa esfarrapada! Você pode encomendar!

Nora para de correr e Carol também. Carol, num movimento rápido, pega a caixa das mãos de sua mãe.

Carol: “Livraria da Travessa”! Francamente, mamãe!

Nora: Tá legal! Tá legal! Eu “traí” o legado do seu pai. Pode me devolver a caixa agora, por favor?

Carol entrega a caixa à mãe que começa a tentar retirar o lacre.

Nora: Não sei pra que tanto drama… São só uns livros… E essas caixas que chegaram pra você?

Carol: Sabe toda aquela pesquisa que eu e Roberto fizemos sobre tio Paulo? – Nora concorda com a cabeça. – Então, tudo isso me deixou curiosa sobre esse assunto.

Nora: Curiosa em relação a quê?

Carol: Bem, eu ainda não sei. Para isso servem os documentos. Para eu tentar descobrir.

Nora falou alguma coisa, mas Carol já não estava prestando atenção. Ela estava verificando as outras correspondências, separando-as em três pilhas.

Carol: Vovó mandou um postal. Não sei como você a deixou ir num cruzeiro sozinha – diz, entregando o postal à mãe.

Nora: Acredite, eu tentei. Mas aquela lá é tão teimosa… Mas ela deve estar se divertindo. Espero. Se não vou ouvir reclamação para o resto da minha vida!

Carol: Eu acredito. Teimosia está no sangue dessa família… – ela se distrai nas três últimas correspondências iguais em sua mão. – O que é isso? Um convite?

Nora: Convite?

Carol: É. Veio um pra mim, um pra você e um pro Júnior.

As duas abrem seus convites juntas.

Carol: É do… Ágora?

Nora: E da Prefeitura!

E os olhos das duas iam se arregalando a medida que iam lendo. Nora vira-se com raiva para a filha.

Nora: E você não me disse nada, Ana Carolina?!

Carol: Mas eu também não sabia!

Nora: Você trabalha no jornal! Se eles não te falassem você ainda tem o Roberto pra te contar!

Carol: Roberto é do Governo do Estado, mamãe, e não da Prefeitura!

Nora: E só por causa disso ele não iria saber de nada?

Nora vira-se de costas para Carol, e apóia as mãos na pia.

Carol: Olha, mãe, eu entendo que você fique chateada com isso, mas…

Nora: Eu não estou chateada. Eu não sei… o que eu estou sentido agora. Eu só sei que no sábado eu vou ter que… que…

Carol: Mãe…

Nora: Está tudo bem. É sério. Eu vou… ligar para a sua avó. Avisar que recebi o postal. Bom trabalho pra você hoje.

Nora sai, andando devagar. Carol pensa em segui-la, mas hesita e sai pela porta da cozinha.

5.           INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS / ESTACIONAMENTO DA ANDANÇAS

Sara estava atrasada e procurava alguns papéis e os ia colocando em cima do carro quando seu telefone começa a tocar. Ela vê quem é, revira os olhos e atende.

Sara: Carlos, eu tô sem tempo nenhum agora.

Carlos: Bom dia pra você também.

Sara: Eu disse que estou sem paciência também?

Carlos: Ih, chupou limão hoje, hein?

Sara: Carlos!

Carlos: Ah, é! O tempo! Desculpa! Já viu sua correspondência hoje? Ou o jornal?

Sara: É mesmo importante? – diz, cansada e vencida.

Carlos: Ah, se é!

Sara: Espera. Vou ver aqui no carro.

E ela se inclina e fica com metade do corpo dentro do carro e metade fora dele.

Sara: É esse convite preto?

Carlos: Aham. Abra.

Sara: Carlos, eu não estou com cabeça para ir a nenhuma festa. Eu estou cheia de trabalho e tem as crianças e… Caramba.

6.           INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS / ESCRITÓRIO DE TOMÁS

O telefone de Tomás toca e, assim que ele atende, Sara entra sem bater.

Sara: É o Carlos. Coloca no viva-voz.

Tomás: Como você sabe?

Carlos: É a TPM. E aí, Tomás, como vão as costas?

Tomás: A fisioterapia acaba essa semana. Mas eu sinto que não vem notícia boa por aí.

Sara: Você viu isso?

Sara entrega o convite para Tomás.

Carlos: Saiu no jornal também. E nem pra Carol avisar a gente. Só pra mostrar que é “íntegra” – zomba.

Sara: E tucana. Olha o oxímoro.

Sara percebe o telefone tocando de novo e atende. Era Carol.

Sara: Carol está me ligando. Essa família estaria bem melhor se não existissem telefones. Alô – e coloca o telefone do lado do telefone da mesa da Tomás.

Carol: Sara, você não imagina…

Tomás: Já sabemos. Mamãe já sabe?

Carol: Ah, eu odeio viva-voz. Já sabe, sim. E quase teve um colapso nervoso. E eu juro que não sabia de nada.

Carlos: Sei…

Tomás: E Júnior, já sabe também?

Carlos: Olha que bonitinho! Todo preocupado com o caçula…

Tomas cora. Sara começa a rir.

Sara: Carlos, não provoca…

Carol: Gente! Concentração! Vocês estão se esquecendo do principal: quem vai?

Todos ficam em silêncio.

Sara: Será que a Rebeca – diz, afetada, o nome da meia-irmã – recebeu um convite também?

Carol: Pelo amor de deus, Sara. Tchau pra vocês.

Carlos: É Sara, você anda precisando de um melzinho. De preferência um com um metro e oitenta, bronzeado e…

Tomás: Tchaaau, Carlos – e desliga.

7.           INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – BIBLIOTECA

Carlos: …bronzeado e… Não desliga! Idiota.

Carlos joga o telefone na mesa e olha através da porta de vidro da biblioteca. Sua chefe tinha acabado de passar. Carlos, então, corre até a mesa, pega uma pasta azul e tenta alcançá-la. Ele passa por Rebeca, que estava atrás de uma pilha de livros e de um notebook.

Carlos: Beca, você está aí! Vigia minhas coisas, por favor?

Rebeca: Tudo bem.

E Carlos sai da sala.

8.           INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – ESCRITÓRIO DE GUILHERMINA

Guilhermina abriu a porta do escritório, deixando Carlos entrar.

Guilhermina: Nossa intimação acabou de ser enviada. Acho que isso vai acabar antes do esperado. O juiz é um grande amigo meu.

Carlos: Isso é ótimo.

Guilhermina: A nova remessa de arquivos já chegou?

Carlos: Não. Eles estão enrolando.

Guilhermina: Podemos tirar proveito disso. O histórico de operações da Bolsa também não veio, não é?

Carlos: Não… e é sobre isso que eu quero conversar com a senhora.

Guilhermina se ajeita mais confortavelmente na cadeira.

Carlos: Todo o nosso caso está sendo construído em torno de um furo na lei, todas as nossas provas por enquanto são circunstanciais e…

Guilhermina: E?

Carlos: Eu sinto que o interesse da senhora nesse caso vai além dos interesses dos nossos clientes.

Guilhermina: Perspicaz. Sim, Marta e eu temos nossas… diferenças.

Carlos: E o quão longe a senhora pretende levar esse caso?

Guilhermina: Até onde for possível. E digamos que meu leque de possibilidades é bastante amplo. Por que pergunta? Achou alguma coisa?

Carlos: Sim. Eu consegui o histórico de vendas das ações da Lumni S.A.

Guilhermina: Nós não podemos usar isso no caso, já que é ilegal. Então o que mais você descobriu?

Carlos: Marta não foi a única a vender as ações dela antes da falência.

Os olhos de Guilhermina brilham de vitória.

Guilhermina: Quem?!

Carlos: Não possui nenhum parentesco legal com Marta.

Guilhermina: Amante?

Carlos: Ou um filho fora do casamento.

Guilhermina abriu um sorriso.

Guilhermina: Bom trabalho.

 

 

9.           INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – BIBLIOTECA

Rebeca estava mexendo em seu notebook. Ela tinha encontrado uma foto de Guilhermina, sua chefe, com o juiz do caso da qual ela participava, junto com Carlos. Ela então percebe uma coisa estranha e resolve abrir a página da Secretaria de Justiça.

Rebeca: E agora?!

Rebeca sai correndo.

10.       INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – ESCRITÓRIO DE GUILHERMINA

Rebeca entra sem bater e vê Carlos e Guilhermina apertando as mãos. Ao notarem a presença dela, Guilhermina a olha com desprezo e Carlos, assustado.

Carlos: Rebeca, o que aconteceu?

Guilhermina: O que aconteceu é que ela está demitida.

Rebeca: Desculpa, dona Guilhermina. Nós temos que segurar o processo!

Guilhermina: Essa garota é a sua estagiária, Carlos?

Carlos começa a gaguejar.

Carlos: É – diz indo para perto dela. – E eu garanto que isso não irá se repetir. Ela não precisa ser demitida, dona Guilhermina. Ela tem feito um excelente trabalho e está muito arrependida pelo que fez. Não é, Rebeca? – diz, entre os dentes.

Rebeca: Não! A senhora tem que segurar o processo! O Juiz Olivetti entrou de férias! Hoje!

Guilhermina: Quem entrou no lugar dele?

Rebeca: Silveira Machado. Acabei de ver.

Carlos e Guilhermina se assustam.

Carlos: Eu tenho o número do office-boy e…

Guilhermina: Não. Eu resolvo isso. Podem sair – diz, pegando o telefone.

Carlos e Rebeca saem da sala.

11.       INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – CORREDOR

Carlos e Rebeca param de andar e suspiram aliviados.

Carlos: Você é incrível!

Rebeca: Eu não vou ser demitida, vou?

Carlos: Depois disso, você vai virar a protegida dela.

Naquela hora, Giovanni chega e, sem perceber quem estava ao lado de Rebeca, a puxa para si, num abraço. Carlos pigarreia.

Giovanni: Oi, seu Carlos.

Carlos: Não é “oi” a palavra que eu queria ouvir.

Giovanni: Ah – diz, sem graça – desculpa, seu Carlos, por interromper.

Carlos: Melhor assim.

Giovanni: É… Beca, a galera tá saindo pra almoçar. Vamos?

Rebeca: Vamos sim. Vou só juntar minhas coisas.

Giovanni: Te espero lá em baixo, então. Tchau, seu Carlos.

Giovanni sai e Carlos e Rebeca voltam a andar.

Rebeca: Você é cruel! – ri.

Carlos: Eu não gosto dele.

Rebeca: Obrigada.

Carlos: Pelo quê?

Rebeca: Por ter me defendido lá dentro. E agora, pode-se dizer.

Carlos: Ahm. Não se acostume.

Rebeca encosta seu ombro no de Carlos empurrando-o de leve. Ele empurra de volta.

12.       INTERNA – DIA – CÂMARA DOS DEPUTADOS – ÁTRIO /ESCRITÓRIO DE ROBERTO

Roberto estava nos corredores da Câmara quando é abordado pelo deputado João Nogueira.

João: Pellegrini? Posso conversar com você?

Roberto: Pode.

Ele esperava que Roberto o levasse para um lugar longe de ouvidos curiosos, mas Roberto não o fez.

João: Roberto… – ele estava nervoso e preocupado. – Tudo isso que você está fazendo… O partido… Há boatos de que a cúpula não te apoiará mais, Roberto!

Roberto esperava por isso, mas gostaria de que não fosse verdade.

Roberto: Bem, se assim for, eu continuo sozinho.

João: Roberto! Isso é loucura – sussurra. – Isso pode te prejudicar.

Roberto: Isso é uma ameaça?

João: Pelo amor de Deus, Roberto!

Roberto: Eu continuarei. Com ou sem apoio.

João: Roberto, eu não vou poder te apoiar nessa… Eu andei recebendo uns telefonemas e…

Os dois ouvem passos no corredor e avistam Carol chegando.

João: Não é só você que pode sair prejudicado com isso Roberto. Pensa bem. Isso não vai a frente mesmo – e sai.

Roberto ficou apreensivo. Carol estava com o convite na mão.

Carol: Nós precisamos conversar – e levanta o convite.

Roberto a guia para seu gabinete, ali perto.

Carol: Você sabia?

Roberto: Se você está falando da homenagem que o Ágora e a Prefeitura estão fazendo para seu pai, sim, eu sabia.

Carol: E você não me disse nada?!

Roberto: Primeiro: eu não sabia há tanto tempo assim. Segundo: vieram pessoalmente a mim um representante do jornal e outro da prefeitura pedindo que eu não dissesse nada. E terceiro…

Carol: Já entendi. Você não podia falar. Quem diria… um político com integridade – ri.

Roberto: Touché.

Carol: Foi brincadeira, amor – ela corre até ele e o abraça. – Foi brincadeira, tá?

Roberto: Eu sei… Não tenho a profissão mais honesta, não é mesmo?

Carol sorri e olha envolta.

Carol: Sua sala é linda!

Roberto: Tudo dinheiro público e desvio de verbas.

Carol: Seu sem-graça. Eu posso? – e aponta para a cadeira de Roberto.

Roberto: Claro!

Carol senta-se e começa a rodar.

Carol: Eu sempre fazia isso na cadeira do meu pai, na livraria.

Roberto sorri e se senta numa das poltronas. Carol então vê um porta-retrato.

Carol: Somos nós três! Eu, Lissa e você. Não sabia que tinha uma foto minha aqui.

Roberto: E por que não teria?

Carol: Eu não sei. Na verdade, eu posso pensar em vários motivos e…

Roberto: E nenhum seria forte o suficiente. Carol, eu andei pensando. Pensando em como te falar isso da melhor maneira possível, mas toda a minha eloqüência se esvai quando você está perto de mim então, curta e grossamente: eu te amo e quero que você venha morar comigo.

Carol: Uau!

Roberto: Foi quase um tapa na cara, né?

Carol: Foi.

Roberto: Desculpa.

Carol: Não precisa se desculpar – ri. – Foi um bom tapa na cara. Daqueles que a gente gosta.

Roberto: Bom saber que você gosta de uns tapinhas – diz, sedutor.

Carol: Roberto! Então… eu… posso pensar?

Roberto: Pode. O tempo que for necessário. A oferta foi feita e estará de pé até… sempre.

Carol: Eu acho que não vou precisar de tanto tempo – diz, sorrindo. – Mas obrigada.

Roberto: Eu estou indo almoçar agora. Me acompanha?

Carol: Você acaba de me chamar para ir morar com você e age como se nada tivesse acontecido! Só você – diz, rindo.

Naquele momento, o telefone toca. Roberto atende.

Carol: Quer que eu saia? – sussurra.

Roberto: Não, que isso – e, ao telefone: – Alô?

Carol foi a estante e começou a passar os dedos pelos livros.

Roberto: Alô?

Carol olhou de relance para Roberto e percebeu que sua expressão estava completamente diferente. Ele estava apreensivo. Num movimento rápido, ele colocou o telefone no gancho.

Roberto: Ramal errado. Você não faz idéia do quanto isso acontece por aqui. – Carol sorri. – E então, vamos?

Carol: Vamos!

Roberto junta alguns documentos em sua maleta enquanto Carol pega a sua bolsa e dos dois saem.

13.       INTERNA – DIA – CLÍNICA FISIOTERÁPICA – SALA DE ESPERA

 

Na sala de espera, Tomás folheava seu exemplar da revista Exame quando é abordado por uma mulher.

Lavínia: Essa revista não é daqui, é?

Tomás olha para ela.

Tomás: Ah – ri – não é. Essa é minha mesmo.

Lavínia: Logo vi. Em salas de espera só se acha Caras ou Contigo.

Tomás: Ou Tititi.

Os dois riem.

Lavínia: Está por dentro, hein? Sou Lavínia. – diz, estendendo a mão.

Tomás: Tomás.  – cumprimenta – E eu tenho que estar por dentro. Eu trabalho numa livraria.

Lavínia: Legal. Deve ser bom trabalhar numa livraria. E algo me diz que ou você tem um emprego excelente ou você busca um emprego excelente.

Tomás: E você descobriu isso só por causa da minha revista?

Lavínia: Isso quer dizer que eu acertei?

Os dois riem de novo. Ela coloca a mão no braço de Tomás.

Lavínia: O que te levou a fazer fisioterapia? Muitas horas sentado, viajando de avião?

Tomás: Muitas horas sentado, sim. Viagens de avião, nem tanto. Mas tive um problema grave nas costas. E você?

Lavínia: Acidente de ioga. Sou instrutora.

Tomás: É… deve ser um trabalho legal.

Lavínia: Você não precisa ser bonzinho assim. Eu sei que não é grande coisa, mas… eu gosto.

Ao dizer isso, ela coloca a mão na perna de Tomás. Ele muda de posição, cruzando as pernas e ela tira a mão.

Lavínia: Se você estiver interessado, quem sabe, para aliviar o estresse, esse é o cartão da minha academia.

Tomás: Obrigado, mas eu já sou cliente de outra academia. Desculpa – tenta desconversar.

Lavínia: Tudo bem.

Os dois ficam em silêncio. Tomás estava levemente desconfortável. Naquela hora, o fisioterapeuta abre a porta do consultório e despede-se de um paciente.

Fisioterapeuta: Tomás? – Tomás levanta a mão. – Aguarda só um minuto que já, já estaremos prontos para você.

Tomás: Ok.

Lavínia: Tomás, é… você não gostaria de, sei lá, se você estiver livre…

Tomás: Lavínia, eu sou casado.

Lavínia: Ah, me desculpe, eu…

Tomás: Tudo bem, você não sabia. Eu devia ter dito antes.

Lavínia: Não, eu é que devia ter percebido. Você tentou me avisar, eu é que… Nossa, desculpa.

Tomás: Sem problemas.

O fisioterapeuta voltou e chamou Tomás novamente. Ele se levantou mas Lavínia pegou em sua mão.

Lavínia: Tomás. Só para você saber: eu não me importo que você seja casado.

Tomás: Eu me importo – diz, um pouco grosso.

14.       INTERNA – DIA – EDITORA QUATRO ESTAÇÕES

Vera estava supervisionando as obras da sede da livraria. Uma equipe de pedreiros posicionava um letreiro com a logomarca na parede.

Vera: Um pouco mais para a esquerda… Isso! Perfeito.

Uma porta se abre e Saulo aparece, cumprimentando um homem. Vera não se sente confortável com isso. Ela não gostava de ser apenas uma espectadora em seu próprio programa.

Vera: Boa tarde.

Saulo: Vera, essa será um dos nossos editores, Marcos.

Vera: Muito prazer.

Marcos: O prazer é todo meu.

Saulo: Marcos já tem anos de experiência na área.

Marcos: Você também, Saulo.

Vera: Isso é ótimo. Saulo e eu vamos jantar daqui a pouco. Se quiser nos acompanhar…

Marcos: Talvez numa outra oportunidade.

Saulo: Ela vai cobrar, hein? Eu te levo até a porta.

Saulo sai. Vera estava irritada e vai até a sala de Saulo, que já estava toda pronta e mobiliada. Em cima da mesa ela vê o convite preto. Ela abre e lê.

Saulo entra.

Saulo: Já vi que você não gostou dele.

Vera: É, não gostei. E eu ia falar disso assim que você voltasse.

Saulo: E não vai mais?

Vera: Não. Quando você ia me contar sobre as “Uma das páginas do Rio”?!

Saulo: Eu não acredito que você mexeu nas minhas coisas.

Vera: Não muda de assunto, Saulo!

Saulo: Esse ainda é o assunto! Você mexeu nas minhas coisas e achou um convite que não era para você achar!

Vera: Quando você ia me contar?

Saulo: Eu não ia.

Vera: E eu posso saber o porquê?

Saulo: Porque eu não quero que você vá.

Vera: Não cabe a você decidir isso.

Saulo: Exatamente. Cabe a quem mandou os convites e eles já decidiram isso por você. Você não vai.

Vera joga o convite na mesa.

Vera: Tudo bem.

Saulo: Vera, minha irmã estará lá e…

Vera: Eu já disse que tudo bem!

Saulo: Eu também vou.

Vera dá uma risada sarcástica.

Saulo: Eu esperava mais de você.

Vera: Não espere.

Saulo sai batendo a porta.

15.       INTERNA – NOITE – ESTÚDIO

Bianca andava puxando Júnior com as duas mãos.

Bianca: Vem!

Júnior: Calma!

Bianca: Ele quer saber o que você achou. Yuri! Júnior chegou!

Yuri chega. Ele carregava uma guitarra.

Yuri: Fala, Júnior! Beleza?

Os dois se cumprimentam.

Júnior: Eu trouxe o CD. Ouvi todas.

Yuri: Pode ficar, cara. Presente. Mas então, o que você achou?

Júnior: Muito bom! É exatamente o som que eu curto. Mas a faixa sete…

Yuri: Foi a que eu menos gostei também.

Bianca: Júnior tem umas idéias pra melhorar, né, Ju?

Júnior: Bianca!

Bianca: Ele não liga, Ju. Né, Yuri?

Yuri: Não ligo não. O que você sugere? – diz, entregando a guitarra.

Júnior: O arranjo ficou meio frouxo. Meio desconexo. Sem querer ofender.

Yuri: Nada. O arranjo quem fez foi nosso ex-baixista. Ele saiu da banda agora.

Júnior: Vocês tem uma vaga?

Yuri: Interessado?

Bianca: Sim! – adianta-se

Júnior: É, acho que sim.

Yuri: Improvisa um novo arranjo pra música e se eu gostar, você está dentro.

Ele entrega a guitarra para Júnior, que começa a rir.

Júnior: Isso é sério?

Yuri: Aham!

Bianca: Vai, Júnior!

16.       INTERNA – NOITE – UNIVERSIDADE BULEVARES – SALA DE AULA

Sara falava com Fernando ao telefone enquanto esperava que sua aula começasse.

Sara: Eles brigaram?

Fernando: Aham. Coisa grande.

Sara: Qualquer coisa é grande na idade deles…

Fernando: Pois é. Ele está trancado no quarto desde então.

Sara: Isso passa logo. E os gêmeos?

Fernando: Estão bem. Estão com uns amigos aqui.

Sara: Ainda? Fernando, já está tarde. Mande todos irem para casa, ok?

Fernando: Ok. Ah, você provavelmente vai à homenagem no sábado, né?

Sara: Vou. Você pode ir também, se quiser.

Fernando: Obrigado, mas não vai dar. Eu falei porque eu marquei de viajar esse final de semana.

Sara: Viajar? Pra onde?

Fernando: Vou para Cabo Frio com a Bárbara.

Sara: Ah…

Fernando: Tudo bem pra você?

Sara: Claro. Eu arrumo alguém para ficar com as crianças. Talvez eu nem precise. Se Gabs continuar brigado com Larissa talvez ele nem vá à festa de aniversário.

Fernando: Tem isso também. E, Sara, eu não queria falar nada, mas Rafaela pediu para “trazer o quarto dela” para cá de novo.

Sara leva a mão a boca.

Sara: De novo?

Fernando: É. Ela não disse por mal, Sara.

Sara: Eu sei, Fernando. Obrigado por me contar.

Fernando: Você é a mãe dela.

Sara: Eu sei. Eu sei. Eu sou a mãe com quem ela não quer mais morar junto.

Fernando: Sara, não é assim…

Sara ouve o sinal.

Sara: Desculpa, eu não devia ter dito isso. Tenho que ir agora. Divirta-se no fim-de-semana.

Fernando: Tchau.

Sara desliga e não consegue conter um suspiro de descontentamento. Ela estala o pescoço e olha para a porta. O corredor começava a ficar barulhento com os alunos mudando de sala. Um deles bate na porta.

Aluno: Marketing I?

Sara: Sim. Seja bem-vindo.

Aluno: Galera! É aqui!

De repente, um grupo imenso de alunos começa a entrar e a ocupar os lugares. Alguns cumprimentavam Sara e outros iam direto para seus lugares. Sara de repente desperta de seu devaneio, levanta-se e fecha a porta.

Sara: Boa noite.

Alunos: Boa noite.

Sara: Meu nome é Sara Andrade e eu vou ser a professora de Gestão de Marketing I de vocês durante o semestre. Eu ensino há pouco tempo, mas eu gerencio uma empresa, uma livraria, com três filiais e uns 75 funcionários. E ainda tenho três filhos, ou seja, mais 75.

Os alunos acham graça da piada, e Sara fica mais confortável. Naquele momento, um aluno entra em sala. Ele andava com um gingado forçado. Era alto e seus músculos eram visíveis, mesmo sob a camisa. O olhar de Sara o seguiu.

Arthur: Mara! Estágio garantido!

Sara: Qual o seu nome?

Arthur: Arthur.

Sara: Muito bem, Arthur. Sinto muito, mas não há essa história de estágio garantido.

Alguns alunos reclamam entre si. Sara vai até a mesa e pega um envelope. De dentro dele ela tira umas folhas e começa a distribuir aos alunos.

Sara: Esse é o nosso programa do semestre e a ementa com bibliografia utilizada.

Arthur: Aluno seu tem desconto na livraria?

Sara ri e a turma também.

Sara: A Andanças, a minha livraria, possui um excelente programa de descontos. Não só para universitários. Nós temos um programa de fidelidade chamado “Literofágico”. Eu devo ter um cartão aqui em algum lugar para mostrar para vocês.

Ela encontra o cartão em sua carteira e entrega a um aluno.

Sara: Como vocês podem ver, fidelização do cliente. Essa é a meta de uma gestão de marketing competente. E é isso o que vocês vão aprender nesse curso.

Sara vai até o interruptor e paga a luz.

Sara: Primeiro slide! Os quatro pilares do Marketing, ou os quatro Ps. Quais são eles?

17.       INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS – QUARTO

[♫ – Ares, Bloc Party]

Tomás estava em cima de Vitória, beijando seu pescoço. De repente, ela arregala os olhos e sorri.

Vitória: Você parece um adolescente! – diz, rindo.

Tomás se levanta.

Tomás: Eu achei que você estivesse gostando… – diz acariciando a perna dela.

Vitória: E eu disse que não?

Tomás sorri, pervetidamente, ajeita as pernas de sua esposa e deita-se sobre ela novamente, beijando-a calorosamente.

18.       INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SAULO – SALA

Júnior acaba de chegar em casa e encontra Vera e Saulo discutindo.

Vera: Não! É você que não está entendendo!

Saulo: Eu não quero mais falar sobre isso! Você não vai e ponto final!

Vera pára de olhar para Saulo e olha para Júnior que estava parado, assustado com a briga. Saulo vira-se e dirige-se para Júnior.

Júnior: Se vocês quiserem eu posso dar uma enrolada lá em baixo. Eu não queria atrapalhar.

Saulo: Não, você não está atrapalhando nada. Vera… Vera já estava de saída.

Vera ficou ofendida. Ela pega sua bolsa e sai batendo o pé no chão.

Vera: Boa noite, Júnior – ela frisa a última parte.

Júnior: Eu nunca achei que vocês… Eu sempre achei que vocês…

Saulo: Todos têm problemas, Júnior.

Júnior: Eu sei. É que… Esquece.

Saulo: Ainda bem que você chegou. Precisava falar com você.

Júnior se senta. Saulo também.

Saulo: Sua mãe, eu e seus irmãos recebemos esse convite. É uma homenagem que a Prefeitura e o jornal Ágora estão fazendo a seu pai.

Júnior: Uau! É… Não é um pouco tarde para isso? Quero dizer, ele morreu já faz mais de um ano – Júnior não tinha pensado nisso. – Nossa, já faz mais de um ano.

Saulo: É. Todos os seus irmãos já confirmaram. Eu também. Sua mãe quer todos vocês lá.

Júnior: Posso te perguntar uma coisa?

Saulo: Pode. Não garanto resposta.

Júnior: Era por isso que você e Vera estavam brigando?

Saulo suspira.

Saulo: É. Essa homenagem deixou todos um pouco… Nostálgicos não seria a palavra correta, mas é por aí…

Júnior: Entendo. Espero que as coisas se acertem logo.

Saulo: Vão sim. Tenho certeza.

19.       INTERNA – NOITE – UNIVERSIDADE BULEVARES – SALA DE AULA

Sara estava finalizando a sua aula.

Sara: Nossa, nós passamos da hora já! Espero que todos tenham gostado desse começo de semestre e vejo vocês na semana que vem. Boa noite!

Os alunos começam a se levantar. Sara estava juntando suas coisas quando uns papéis caem no chão. Ao se abaixar para pegar, ela percebe que ainda tem um aluno na sala. Sara levanta-se rapidamente. Arthur percebe que Sara percebeu o olhar e vai até a mesa de Sara.

Arthur: E aí, professora! Foi mal pelas piadinhas.

Sara: Tudo bem.

Arthur: Beleza, então. Prometo que na próxima aula eu vou me “comportar”.

Sara: É bom mesmo. Também avalio meus alunos por comportamento.

Arthur: Qual a minha nota, por enquanto?

Sara: Todos começam com dez. Vocês têm que manter esse dez.

Arthur: Tô perdido, então.

Sara: Você ainda tem um semestre inteiro pela frente.

Sara percebe que os dois estavam muito próximos e então se afasta.

Sara: Te vejo na próxima aula.

Arthur: Espera! Tem uma coisa no seu… – ele lambe um dos dedos e passa no rosto de Sara – rosto. Pronto. Era sujeira do apagador…

Sara fica estupefata, sem saber o que fazer. Ela cora violentamente. Arthur vai embora e Sara se abana com as mãos.

20.       INTERNA – DIA – CASA DE NORA – BANHEIRO

Na manhã do dia da cerimônia, Carol estava no banheiro. A toalha estava enrolada no corpo e ela estava se olhando no espelho, medindo o cabelo com uma das mãos e com uma tesoura na outra. Nora adentra de repente. Carol leva um susto.

Nora: Largue já essa tesoura!

Carol: Você quer me matar do coração? Ou a tesouradas?

Nora vai até Carol e retira a tesoura da mão dela.

Nora: Você não vai cortar seu próprio cabelo! Lembra do seu permanente? De quando depois de fazê-lo você cismou que queria uma franja e eu não deixei. E você cortou mesmo assim? Nada de tesouras perto de você, mocinha.

Carol: Obrigada por desenterrar meu passado negro.

Nora: De nada. Quer cortar o cabelo por quê?

Carol suspira.

Carol: Está muito comprido, só isso.

Nora: Sei…

Carol: Como assim “sei…”?

Nora: Você suspirou. E toda vez que você está com algum problema ou prestes a dar um grande passo você pensa em mudar, em se mudar… Não foi por isso que você fugiu para São Paulo?

Carol: Eu não fugi para São Paulo.

Nora: Não precisa ficar na defensiva. Carlos é igualzinho a você. Só que enquanto você muda, ele se cala. Aliás, todos os meus filhos acabaram tendo algum tipo de distúrbio emocional… – Nora já estava falando consigo mesma. Carol revira os olhos.

Carol: A culpa é toda sua, dona, Nora.

Nora olha abismada para sua filha.

Carol: Foi brincadeira! – desconversa, rindo.

Nora: Mas e então?

Carol: Então o quê?

Nora: Por que você quer mudar o corte?

Carol: De novo essa história? Eu já falei. Está muito comprido. O verão está chegando… Parece que já chegou, na verdade! Viu quanto calor fez ontem?

Nora olha para a filha como se compreendesse tudo o que passasse na cabeça dela mais que ela mesma.

Nora: Siga seus instintos. Sua família vai sempre, sempre te apoiar. É só não fugir de novo.

Carol sorri para a mãe.

Carol: Não fugirei.

Nora: Bom, bom. Ah, eu marquei salão para nós hoje.

Carol: Mas mãe, eu odeio salão! – chora.

Nora: Aí você aproveita e muda o corte de cabelo. E faz uma depilação decente. Quantas vezes eu tenho que dizer que quem usa gilete é quem faz a barba?

Carol franze o rosto para a mãe.

21.       INTERNA – DIA – SALÃO DE BELEZA

[♫ – Roll it, Shontelle]

Carol e Nora chegam juntas ao salão e encontram Sara e Vitória conversando, já sentadas, lavando os cabelos. As recém-chegadas tomam seus lugares.

Vitória: Olha quem chegou!

Todas se cumprimentam com beijos no rosto.

Sara: Veio arrastada, Carol? – pergunta rindo.

Carol: É. Mamãe me seqüestrou!

Nora: Ela é tão exagerada. Então, eu marquei tudo para nós hoje: cabelo, unha e depilação.

Carol: Eu não vou usar cera. Isso deixa a pele flácida.

Vitória: Eu tenho alergia à gilete.

Sara, que estava vestindo uma camisa sem mangas, levanta os dois braços, segurando a cabeça, fazendo altas poses.

Sara: Eu não me preocupo com isso!

As outras três arregalam os olhos.

Vitória: Você fez a laser?!

Carol: Fica sempre assim! Nossa! Eu não tenho coragem. Sou uma medrosa!

Sara: Morram de inveja, tsss.

Renan: E então, meninas? O que vão fazer?

Nora: O de sempre. Cobrir os brancos e dar uma aparada. Mas sem franja.

Vitória: Retocar a raiz. E eu estava pensando em fazer uns cachos.

Carol: Uh! Vai ficar lindo, Vitória!

Nora: Você vai querer fazer o que, filha? Já que você estava querendo mudar…

Sara: Mudar? O que aconteceu dessa vez, Carol?

Vitória: Como assim?

Sara: Carol sempre pensa em “mudar” quando está prestes a tomar um grande passo. Ou depois de uma super briga com mamãe.

Nora: Ou depois de terminar com um namorado. Lembram do Marcelo?

Nora e Sara franzem a cara. Carol dá língua para as duas.

Carol: Não as ouça, Vitória. Elas adoram exagerar.

Renan: E mudar também pode querer dizer que alguma coisa boa vai acontecer. E que ela está escondendo da gente!

Sara: Desembucha, Carol. Andrades não guardam segredos. Nós contamos segredos.

Vitória: Adorei essa frase.

Nora: Eu também.

Sara: Sério? Ah, foi espontâneo.

22.       EXTERNA – DIA – JAVA CAFÉ

[♫ – Roll it, Shontelle]

Tomás: Espontâneo! Assim, do nada, ela já estava com a mão na minha perna!

Saulo, Tomás, Carlos e Júnior estavam conversando e tomando cervejas.

Saulo: E você fez o quê?

Tomás: Cortei, é claro.

Júnior: Sei não, Tomás. Tô achando que isso é caô.

Tomás: Não é, cara, tô falando.

Júnior: Tá legal.

Todos continuam olhando para Tomás, esperando que ele continue.

Tomás: O quê?

Carlos: Não é só isso, é?

Júnior: Ué, Carlos? Tem que ter mais? Pessoas se esfregando em você em salas de espera é pouco?

Todos riem. Carlos revira os olhos.

Saulo: O que o seu irmão quer dizer, Júnior, é que não é só isso o que o Tomás quer contar.

Júnior entende.

Tomás: É que fazia tempo que algo do tipo acontecia comigo. E o fato de ter acontecido me fez “bem”. E o fato de eu ter recusado, me fez sentir ainda melhor. Como se eu fosse suficiente para Vitória. E ela para mim. Entendem?

Os três concordam com a cabeça.

Carlos: Ooooon… E a sua traficante, Ju?

Saulo: Carlos…

Júnior: Já falei pra não chamar ela assim!

Carlos: Tá, desculpa! – diz, cínico.

Tomás: Carlos, pega leve…

Júnior: Muito bom você ter trazido o assunto, Carlos, porque nós vamos muito bem, obrigado. E, graças a ela, eu tenho um emprego.

23.       INTERNA – DIA – SALÃO DE BELEZA

[♫ – Roll it, Shontelle]

Nora e Sara estavam juntas tingindo o cabelo de tons escuros.

Sara: O quê?!

Nora: É, um emprego para o Júnior lá na livraria. O pai de vocês colocou vocês lá desde cedo.

Sara: Mãe, eu não acho uma boa idéia. Ele já quase foi várias vezes…

Nora: Como não? Olha, não precisa ser nada lá em cima. É até melhor que seja bem lá embaixo, bem… “braçal” para deixá-lo cansado e sem tempo de pensar em besteiras.

Sara: Eu acho que isso tinha que vir dele, sabe?

Carol, que estava com Vitória não muito longe dali, escuta tudo.

Carol: Concordo!!!

Nora revira os olhos.

Sara: E ele está indo tão bem no trabalho voluntário, mãe. Espera mais um pouco.

Nora: Ele já tem quase trinta! Quanto mais eu vou ter que esperar…

Sara olha condescendente para a mãe.

Nora: Não quero mais falar disso.

Sara: Ok. E essa história da Carol mudar o cabelo? Será que vem coisa boa por aí? – ela fala mais baixo.

Nora: Eu já acho que não. Pressinto choradeira – ela imita lágrimas escorrendo com as mãos.

Sara: Eu não estou entendendo.

Nora: Essa coisa de mudar nuca anunciou coisa boa… Acho que ela está para terminar com o Roberto.

Sara: Não! Pelo menos, não foi isso o que eu entendi.

Nora zomba.

Nora: Você não conhece a sua irmã, então. E talvez seja até melhor assim… Ela tem se apagado muito por causa dele.

Enquanto isso, Vitória e Carol conversavam.

Vitória: Não se preocupe. Não conto nada! Você já sabe quando vai falar?

Carol: Em breve. Eu nem acredito que foi mamãe quem me ajudou a tomar a decisão. Eu achei que ela não gostasse nada do Roberto.

Vitória: Ela só estava te protegendo. Meus pais ficaram muito preocupados comigo quando o acidente aconteceu. Eles passaram a duvidar muito de Tomás.

Carol: É sério?

Vitória: Não conta nada para ele, por favor.

Carol: Não. É claro que não vou contar.

Renan: Como vocês fofocam. Estão prontas. Agora é só esperar quinze minutinhos!

Vitória e Carol vão ao encontro de Sara e Nora.

Nora: Mas Sara, por que você vai escurecer tanto?

Sara: Ah, eu preciso mudar também, mamãe. Todos estão seguindo em frente! Só eu estou aqui, ficando para trás.

Vitória: Fernando ainda está com a…

Sara: Bárbara? – diz, afetada. – Eles foram para Cabo Frio esse final de semana. Só não sei com que dinheiro.

Nora: Mas que absurdo! Como ele viaja assim e deixa as crianças quando você mais precisa?

Sara: Não, mãe. Quanto a isso, eu não tenho do quê reclamar em relação a ele.

Carol: Então quem está com as crianças?

Nora: Sara chamou a irmã de vocês.

Carol: Estamos todas aqui… – e ela, ao entender, arregala os olhos.

24.       EXTERNA – DIA – JAVA CAFÉ

[♫ – Roll it, Shontelle]

Saulo e Tomás: Rebeca?

 

Júnior: Como você conseguiu convencer a Sara a deixar a Beca cuidar das crianças?

Carlos: A gente conversou, oras. Rebeca não é… Nossa, isso é estranho, mas ela é legal.

Júnior: Eu sei!

Saulo: E porque ela não seria?

Os três trocam olhares.

Júnior: Prefiro não comentar.

Tomás: Eu tô com a Copélia.

Carlos: Ah, tio, já te falei que a Rebeca te adora? Ela fala muito bem de você – desconversa.

Tomás e Júnior olham feio para Carlos.

Carlos: Mas é verdade. É verdade, tio. Ela gosta mesmo de você.

Saulo sorri, um tanto triste.

Carlos: E ela é sensata. Ela bem que podia conversar com o Júnior pra tirar da cabeça dele essa idéia de banda.

Júnior: Cara, você vai continuar encanando com isso! É isso o que eu quero fazer.

Carlos já ia responder.

Tomás: Carlos…

Carlos: Eu quero ver quando mamãe ficar sabendo disso.

Saulo: Ela não vai gostar muito, no começo. Mas ela vai acabar entendendo, Júnior. O que importa é que a decisão veio de você.

Júnior: Valeu, tio. Viu, Carlos? É assim que se faz.

Carlos: “Viu, Carlos? É assim que se faz” – retruca.

25.       INTERNA – DIA – CASA DE NORA – SALA

[♫ – Roll it, Shontelle]

Rebeca estava jogando Cara a Cara com Eduardo quando Rafaela chega.

Rafaela: Rebeca, essa bolsa é sua?

Rebeca: É sim.

Eduardo tomba todas as carinhas do jogo no lado de Rebeca.

Eduardo: Você perdeu! – e arrota. – Opa!

Rafaela: Seu porco.

Eduardo: Você que é porca.

Os dois já iam começa a brigar quando Rebeca intervém.

Rebeca: Nada disso. Rafaela, você quer ver o que tem dentro da minha bolsa?

Rafaela: Aham!

Ela abre a bolsa e despeja todo o conteúdo sobre os degraus. Todos se sentam.

Rafaela: Maquiagem! Eu posso usar?

Rebeca: Nada disso. Você é criança. Criança não usa maquiagem.

Rafaela: Mas mamãe deixa.

Rebeca: Eu acho que ela não deixa não.

Eduardo: Não deixa mesmo.

Rafaela fica triste. Rebeca ajeita o cabelo dela.

Rebeca: Eu tive uma idéia.

26.       INTERNA – DIA – SALÃO DE BELEZA

Vitória: Você deixou Rebeca com as crianças?

Sara: Depois de Carlos me encher o saco com isso. Rebeca é isso, Rebeca é aquilo.

Carol: Ela é legal, Sara. Mas o Carlos enche a paciência mesmo. Quando quer…

Vitória: Tadinho.

Sara: Tadinho nada. Ele é igualzinho a mamãe.

Nora: E isso é um grande elogio.

Todas riem.

Nora: Mas você deixou as crianças com Rebeca só porque Carlos pediu?

Sara demora a responder e fica tensa.

Sara: Eu não tinha com quem deixar… Na verdade, eu tinha. Comigo. Mas ao invés disso, eu estou aqui! Fazendo cabelo e unha! – Sara percebe que tinha surtado. – Desculpa. Tenho feito coisas demais ultimamente…

Nora: Sara…

Sara: Eu mal tenho tempo para ficar com eles e quando eu tenho, eu não tenho paciência. Eu estou cansada e irritada o tempo todo.

Nora: Isso é normal, Sara. Você é uma mãe incrível – diz, abraçando-a.

Sara: Não, mãe. Eu sei quando eu falho.

Carol: Todo mundo falha, Sara.

Vitória: E você pode não ser incrível, mas chega perto. Quando eu estava grávida, eu sempre pensava: O que Sara faria?

Sara: Eles não perguntam mais de mim. O meu medo é que eles não se lembrem mais de mim.

Todas abraçam Sara. Renan, o cabeleireiro, retorna.

Renan: Eu adoro quando vocês vêm aqui!

27.       INTERNA – NOITE – CASA DE NORA – SALA

Saulo, Tomás, Carlos e Júnior chegam à casa de Nora. São recebidos por Rebeca, com um enorme bigode de batom.

Carlos: Belo bigode.

Rebeca: Obrigada. Saulo! – os dois se abraçam. – Que saudades! Tudo bem?

Saulo: Aham.

Júnior: Oi, Beca – diz, meio envergonhado.

Rebeca: Oi – ela também estava um pouco envergonhada.

Nora, Sara, Carol e Vitória entravam na sala, já vestidas. Tomás cumprimenta Vitória.

Sara: Desculpas de novo pelo bigode, Rebeca.

Rebeca: Tudo bem – diz, rindo.

Nora: Estão todos prontos?

Rafaela chega e olha para a mãe.

Rafaela: Mãe, você está linda! Parece uma princesa!

Sara se emociona e olha para a mãe.

Nora: Tudo bem, pode ficar.

Sara: Obrigada.

Sara se abaixa e começa a falar com a filha.

Nora: O resto não tem desculpa! Todos para fora! Tem certeza de que não quer ir, Rebeca?

Rebeca: Absoluta – todos continuam olhando para ela. – É sério. Mesmo e ela sorri, sem graça.

Saulo: Vamos indo, então.

28.       INTERNA – NOITE – CASA DE NORA – SALA

 

Rebeca começou a juntar as suas coisas para ir embora. Sara vai até ela.

Sara: Já vai?

Rebeca: Já. Já que você não vai a homenagem.

Sara tenta buscar um assunto.

Sara: Quer que eu ligue para um táxi?

Rebeca: Táxi? É muito caro. Eu vou de ônibus.

Sara: De ônibus? A essa hora da noite?

Rebeca: Eu sempre pego… Não tem problema.

Sara: Claro que tem problema. Faço questão em levá-la de carro.

Rebeca: Não precisa, Sara.

Sara: Eu faço questão.

Rebeca: Tudo bem então. Obrigada.

Sara: Me ajuda a juntar as coisas dos gêmeos?

Rebeca: Claro!

E as duas começam a conversar e a arrumar a pequena bagunça.

 

29.       INTERNA – NOITE – LOCAL DA HOMENAGEM – ANTE-SALA

Ao ver os Andrades chegando, Roberto se adianta.

Roberto: Boa noite – Carol e ele se beijam. Os outros o cumprimentam também.

Nora: Nossa, isso está lindo.

A ante-sala estava toda iluminada. Ao fundo, um grande painel dizia em letras garrafais “Uma das páginas do Rio”. Várias folhas caíam. Essas folhas eram fotografias dos vários homenageados da noite. Uma delas, era de Guilherme.

Tomás: Vamos entrar, mãe?

Nora: Só um minuto.

Ela fica olhando o painel enquanto os outros se afastam. Um momento depois, Vera chega.

Vera: Boa noite.

Nora vira-se. As duas ficam num silêncio constrangedor. Nora não a queria ali e pensava numa maneira de pedir que ela fosse embora, delicadamente. Vera não imaginava encontrar Nora ali, tão perto. Ela também não sabia o que fazer e pensava em desculpas que justificassem a sua presença ali.

Nora: O que você está fazendo aqui?

Vera: Eu recebi o convite.

Nora: Você poderia ir embora? – pergunta, triste.

Vera: Eu tenho o direito de estar aqui tanto quanto você. Com licença.

30.       INTERNA – NOITE – LOCAL DA HOMENAGEM – SALÃO

[♫ – Você vai me destruir, Vanessa da Mata]

Nora adentra o salão. Várias mesas redondas estavam dispostas em frente ao um pequeno palco. Ela vê Carol acenando para ela numa das primeiras mesas. Ao se sentar, todos entranham a atitude dela.

Carlos: Tudo bem, mãe?

Nora: Aham. Ficou lindo, né?

Todos concordam. Nora encara Saulo, como se tentasse ler seus olhos.

Tomás: Será que você vai ter que falar alguma coisa, mãe?

Vitória: É, por causa do palco.

Júnior: Talvez alguém só explique o que nós estamos fazendo aqui. Não deve ser preciso que algum de nós suba lá.

Carol: Algum de nós, não, Júnior. Mamãe teria que subir lá.

Júnior olha com desdém para Carol.

Saulo: Por precaução, Nora, a chave para um bom discurso são: agradeça, elogie e agradeça de novo.

Todos riem, concordando com Saulo. Nora sorri, e olha para Saulo, e mantém o olhar leitor para Saulo.

Roberto: Eu acho que alguém vai ter que fazer um discurso mesmo. E devo dizer, Saulo, suas dicas foram valiosas.

Saulo: Se o político disse, não é, gente?

Carlos: E então, Júnior? Como vai o trabalho voluntário?

Júnior: O que deu em você? Sério! Você esqueceu do seu Gadernal, foi isso? Ou você só pensa fazendo barulho mesmo?

Nora: O que é isso?!

Carlos: Júnior arrumou um emprego – canta.

Todos gritam de alegria.

Carlos: Diz onde, Júnior?

Junior fica com vergonha.

Tomás: Carlos…

Vitória: O que houve?

Carol: Diz onde, Júnior?

Nora: Júnior?

 

Júnior: Eu sou o novo baixista da banda do irmão da Bianca.

Todos ficam em silêncio.

Júnior: Não vão dizer nada?

Carol: Parabéns, Júnior! – diz, batendo palmas. Sozinha.

Nora: E o trabalho voluntário?

Júnior: Já está para acabar.

Nora fica sem saber o que dizer. Os outros mandam mensagens de boa sorte para o irmão.

Carol: Mãe? Você não vai parabenizar Júnior?

Nora: Agora vai parecer que é por obrigação. Muito obrigada.

Júnior: Está tudo bem, mãe.

O Prefeito Sebastião sobe no palco e começa a falar. Todos estão prestando atenção, exceto os Andrades.

Prefeito: Boa noite…

Vitória: Não gosto dele.

Roberto: Foi contra ele que eu competi. Sebastião… – diz, entre os dentes.

Carol: É, ele é super petulante mas não, Júnior, não está tudo bem.

Carlos: Ih… Começou.

Tomás: Quem começou tudo foi você.

Carlos: Desde quando você é o guarda-costas de Júnior?

Carol: Desde quando você é o algoz?

Prefeito: Guilherme Andrade era um homem muito querido…

Nora: Eu sabia! É incrível como tudo é motivo para discussão pra vocês! Nós estamos aqui, no meio de uma cerimônia e vocês…

Carol: É nós, mãe, é nós, porque você, você também discute por tudo!

Prefeito: E importante para a história da nossa cidade. Ele nos deixou o seu legado…

Nora: É melhor do que guardar tudo para si? Roberto ainda não sabe, sabe? Não deve, já que você o trouxe aqui.

Carol: Eu não acredito!

Carlos: Saber do quê?

Roberto: Você já tem uma resposta?

Carol: Não era assim que eu queria contar, mas sim. A resposta é sim.

Roberto e Carol se beijam de leve.

Prefeito: Por traz de todo grande homem existe uma grande mulher…

Nora: O que está acontecendo, posso saber?

Prefeito: E nesse caso não é diferente! Eu vos apresento…

Carol: Eu vou morar com Roberto, mãe.

Prefeito: Nora Andrade!

Nora se levanta. Todos estão batendo palmas.

Tomás: Vai lá, mãe – sussurra.

Saulo: Esqueça de tudo. Lembre-se apenas de agradecer, elogie e agradeça de novo.

Roberto: Uma piada ajuda.

Vitória: É melhor você não falar nada, por enquanto – sussurra no ouvido de Roberto.

Nora foi caminhando até o palco. Ela viu, de relance, Vera, em pé, meio que escondida.

Nora: Boa noite a todos. Eu sei que falo em nome de toda a minha família quando digo o quão maravilhosa está essa homenagem. Eu gostaria de agradecer a presença de todos. Alguns rostos que aqui estão eu reconheço. Outros não. Pessoas que, com toda a certeza ajudaram a compor as faces de Guilherme.

Carlos: Ela está indo bem.

Nora: Faces algumas que alguns de vocês não chegaram a conhecer. Que nem eu mesma cheguei a conhecer. Por exemplo, Guilherme gostava muito, mas muito do programa do Chacrinha.

Todos começam a rir.

Carol: Ela não vai fazer isso!

Nora: Principalmente das chacretes!

Todos riem ainda mais.

Nora: O legado de Guilherme a essa cidade. Talvez seja esse o motivo que nos reuniu aqui hoje, numa homenagem que Guilherme não teria gostado nem um pouco. Legado esse que ele protegeu a todo custo. A todo custo. E eu traio esse legado desde a sua morte, quando eu passei a comprar livros em outros lugares, numa forma distorcida de retaliação…

Roberto: Carol, é melhor você fazer alguma coisa.

Carol concorda com a cabeça, se levanta e vai até o palco, tomando o lugar da mãe.

Carol: Realmente, meu pai adorava ver televisão. Era um momento em que toda a família estava reunida, compartilhando. Compartilhar foi o que ele sempre fez. Ele compartilhou o amor dele aos livros através da livraria. E ele estaria muito feliz, ao nos ver compartilhando essa página dele com vocês todos. Muito obrigada.

Todos batem palmas. Nora e Carol saem do palco.

31.       INTERNA – NOITE – LOCAL DA HOMENAGEM – BASTIDORES

Nora entra num quarto meio bagunçado. Carol chega logo em seguida.

Carol: Você não tinha esse direito! Hoje a noite era sobre as coisas boas que papai fez! Que foram muitas!

Nora: Não foram as mentiras que você contou!

Carol: Eu não contei mentira nenhuma!

Nora: Ah, talvez a parte de compartilhar já que ele se compartilhou com outra mulher.

Carol: E lá vamos nós de novo! Hoje a noite não era sua.

Nora: Era minha também.

Carol: Deixe de ser egocêntrica, mãe.

Nora: Egocêntrica?

Carol: É, egocêntrica! E isso tudo nem é por causa de papai. Você já superou isso!

Tomás, Júnior, Carlos e Saulo entram no quarto.

Nora: Ah, então você acha que é porque você vai morar com o político. Depois eu sou a egocêntrica.

32.       INTERNA – NOITE – LOCAL DA HOMENAGEM – CORREDOR

Vitória e Roberto estavam no corredor, perto da porta do quarto, onde Nora e os outros estavam. Roberto estava nervoso.

Roberto: Eu devo entrar? – pergunta para Vitória.

Vitória: Não. Acredite. Deixe que eles briguem e que façam as pazes.

Roberto: Tem certeza?

Vitória: Parece cruel, eu sei. Mas assim é melhor. Menos danos colaterais. E entre si, eles se perdoam mais fácil, entende?

Roberto: Entendo. Realmente parece cruel. E obrigado pelos conselhos.

Vitória: Eu já conheço a família há algum tempo.

33.       INTERNA – NOITE – LOCAL DA HOMENAGEM – BASTIDORES

Tomás: Aqui não é o lugar para se resolver isso.

Júnior: É, vamos para casa.

Carol: Mas é por isso! Você sempre faz isso. Você nunca fica feliz de verdade comigo. Nunca.

Carlos: Mas Carol, é rápido demais.

Carol: Desculpa, Carlos, se eu desconsidero conselhos de relacionamento seus.

Carlos: Isso não é um conselho, é um fato! Você sempre faz isso: quando começa a brigar com mamãe você sempre acaba fugindo. Foi assim quando você foi para São Paulo e agora você que morar com Roberto.

Nora: Então agora a culpa de tudo é minha? Isso, culpem a Nora!

Carlos: Não, mãe. Eu só estou dizendo que é de Carol fugir.

Carol: Se você está falando, né, Carlos. Por que de fugir, de se esconder, você entende muito bem.

Carlos se ofende.

Carlos: Se quiser ir morar com ele, vai.

Carlos vai embora. Tomás e Júnior olham repreensivos para Carol e saem também.

Nora: Viu o que ele faz você fazer, Carol? Ele está te colocando contra a sua família.

Carol: Não, mãe. Vocês estão se colocando contra mim. Você está se colocando contra mim. Eu pego minhas coisas depois.

Carol vai embora, deixando a porta aberta.

34.       EXTERNA – NOITE – LOCAL DA HOMENAGEM – ANTE-SALA

[♫ – Set the fire to the third bar – Snow Patrol feat. Martha Wainwright]

Carol sai com raiva do salão.

Roberto: Carol, espera.

Carol: O que foi?

Roberto: Tem certeza de que você quer mesmo morar comigo?

Carol: Tenho! Minha decisão não teve nada a ver com o fiasco de hoje.

Roberto: Eu acredito em você. Eu só estou dizendo que…

Carol: Você está voltando atrás?

Roberto: Não, Carol. Olha, eu também tenho uma família grande. A gente tem os nossos problemas. O que eu quero dizer é que você não precisa decidir nada agora.

Carol: E eu já disse: eu quero morar com você sim.

Roberto: Tudo bem. É só que a minha oferta vai estar sempre de pé.

Carol: E a minha família também vai estar sempre comigo, apesar de tudo.

Roberto: Está bem. Vamos, então.

Os dois saem da ante-sala e vão a caminho do carro, em meio a flashes de fotógrafos que prestigiavam a homenagem.

 

35.       INTERNA – NOITE – LOCAL DA HOMENAGEM – BASTIDORES

[♫ – Set the fire to the third bar – Snow Patrol feat. Martha Wainwright]

Saulo e Nora conversam. São os únicos que restaram no recinto. Nora se senta numa cadeira velha. Saulo chega perto dela.

Saulo: Isso tudo foi só por causa da mudança?

Nora: Eu… eu não sei. Coisas demais estão acontecendo. E eu não quero perdê-la de novo, Saulo. Não quero… E as concessões que ela faz por ele!

Saulo: E que ela não fez por você.

Nora: Não! Talvez. Também. É tão complicado.

Saulo: E Guilherme?

Nora: Ah, aquilo. Ela estava aqui, Saulo.

Saulo se espanta.

Saulo: Vera?

Nora faz que sim com a cabeça.

Nora: Eu só conseguia olhar para ela quando eu estava lá em cima.

Saulo: Eu não acredito que ela veio. Eu juro que pedi para que ela não viesse.

Nora: Eu acredito. Deus! Eu achei que tivesse superado tudo.

Saulo: E você superou, Nora. Lembra do que mamãe disse ano passado? Às vezes tudo aquilo volta e você deve se deixar sentir. Depois passa.

Nora: E depois volta a voltar.

Saulo: E, em relação à homenagem, você sabe que Guilherme não teria gostado. Ele era prático e direto. E não gostava de holofotes.

Nora ri de leve.

Nora: Ele preferia ficar onde pudesse se espreguiçar sem ter alguém o vigiando. Agora entendo o porquê. Mas ele gostava de ver que as pessoas se importavam com ele. Ele teria gostado da homenagem, se eu não tivesse estragado tudo.

Saulo: Primeiro lugar: quem estragou tudo foi ele. E segundo: homenagem para ele com certeza seria ver como você conseguiu manter a família nos eixos.

Nora: Como hoje?

Saulo: Ela se desequilibra às vezes. Mas sempre volta para o lugar. Graças a você.

Os dois se abraçam.

Nora: Obrigada, Saulo.

36.       INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SAULO – SALA

[♫ – Set the fire to the third bar – Snow Patrol feat. Martha Wainwright]

Vera batia na porta de Saulo.

Vera: Saulo, por favor! Abre a porta!

Saulo abre a porta com violência.

Saulo: Eu não estou com cabeça para conversar agora, Vera.

Vera: Eu sei que o que eu fiz foi errado e…

Saulo: Foi.

Vera: Me perdoa.

Saulo: Eu quero. Eu vou. Mas não agora.

Vera se assusta com as palavras de Saulo. Os dois ficam se olhando fixamente.

Vera: Eu volto outro dia. Eu volto.

Saulo fecha a porta devagar.

37.       INTERNA – NOITE – CASA DE NORA – QUARTO

[♫ – Set the fire to the third bar – Snow Patrol feat. Martha Wainwright]

Nora já estava de camisola e se deita na cama para dormir, no lado direito como de costume. Ela se levanta em seguida, pensando e se joga no meio da cama, tentando se ajeitar. E acaba voltando para o mesmo lugar, no lado direito. Ela se deixa vencer e tenta dormir.

Continua…

Trilha Sonora

Ares – Bloc Party

Roll It – Shontelle

Você vai me destruir – Vanessa da Mata

Set the Fire to the Third Bar – Snow Patrol feat. Martha Wainwright

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4 Respostas to “Intrigas da Oposição”

  1. Gustavo Says:

    Salve galera!!!

    Muito bom esse episódio!!!

    Que cena foi aquela com todos à mesa!!! Fiquei imaginando como ela seria em live action!!! O Prefeito fazendo as apresentações no palco e o pau comendo lá embaixo!!! Já estava vendo risoles e croquetes voando para todos os lados. XDD

    E a Sara hein!? Será que rolará uma fidelização entre ela e o Arthur??? Tirar uma sujeira de apagador??? Sei… E mais, 4 P’s?! Putz, lembrei das aulas de marketing que tive em Administração. Pena que não era a Sara a professora…

    Vem cá, que mulher mais descarada essa Lavínia hein!!! ” Não me importo se vc for casado”. Gente… Imagina o que não deve rolar nessa academia!!!!!

    Para finalizar, situação no mínimo suspeita a da Guilhermina com o Juiz. Mas enfim, tal coisa acontece todos os dias em nosso Judiciário… Fazer o que…

    Até o próximo.

    Bjs e abraços.

    Gustavo

    1. osandrades Says:

      Salve, salve!

      Andrades em público é confusão na certa, rs! Que bom que gostou, Gustavo. E os 4 Ps? A Sara professora deve ser incrível! E o Arthur… bem… prefiro não comentar! Mas como diria o Carlos, a Sara estava mesmo precisando de um melzinho. E a Lavína é uma @#$%¨&* mesmo, hehehe.

      Grande abraço, Gustavo!

      Filipe

  2. Natie Says:

    Oi pessoal!! 😀

    Adorei o epi!

    Mtu legal ver q pouco a pouco os Andrade estão aceitando a Rebeca no clã… Ela e Carlos super fofos no escritorio e depois a Sara se oferecendo pra levar ela em casa… Mtu legal mesmo!

    Carol e Roberto vao morar juntos!!! 😀 Adorei! Já tava na hora de avançar no relacionamento… hehe… E falando neles, q telefonema suspeito foi aquele q o Roberto recebeu? Era engano msm??

    Sara ja tem admirador? Q rapido! hehe… Mas q bom pra ela! Afinal o Fernando ja tem seguindo em frente com viagens pra Cabo Frio e td né?

    Impressão minha ou o Carlos tava meio chatinho e implicante nesse epi? Nossa! Mil alfinetadas no Junior!

    E q mulher atirada essa Lavinia! Ri mtuu com a cena…

    Amei ler sobre a briga da familia no evento enquanto o prefeito tava falando! Tipico dos Andrade né? E vou usar as dicas do Saulo qdo for fazer um discurso… hehe…

    Aaaaah sim, adoreiiii a cena das Andrade no salão… heheh… Imaginei o cabelereiro todo feliz e sorridente em tê-las lá…

    E saudades dos comentários da Diva! Diva, volta logo do cruzeiro!!!! 😀

    Beijooos gente…

    1. osandrades Says:

      Natie!

      A Rebeca cresceu muito, né? Também adoro vê-la integrada com os Andrades. Carol e Roberto juntos me deixou bem feliz também. E o telefonema? Deve ter sido um engano. Ou será que não? Uh… E será que a Sara vai ceder ao Arthur? Sei lá, relacionamento com aluno é complicado, né? E o Carlos estava sim meio chatinho. Aliás, todos estavam meio que se alfinetando. Por isso o nome do episódio, ;)! As dicas de discurso do Saulo foram mesmo muito valiosas! E as Andrades no salão? Maaaaaaaaaaaaaaara! E Diva estará de volta já, já!

      Filipe

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