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Nos episódios anteriores: Investigações revelam que Júnior não estava envolvido no acidente de Vitória. Tomás se recusa a desculpar Júnior, causando uma grande discussão entre ele e Nora. Carol enfrenta problemas com os novos colegas. Sara tenta conciliar o trabalho e a família. Tomás sofre com um sério problema na coluna.

01. INTERNA – NOITE – BARBOSA & LIMA – ESCRITÓRIO

Carlos joga o relatório em cima da mesa e esfrega os olhos. Quase oito horas da noite e ele ainda no escritório. Nos últimos dias ele dividia seu tempo entre trabalho e os problemas de sua família. Tomás e Nora tiveram uma grande discussão e não se falavam, Sara tentava equilibrar seu tempo entre o trabalho e os filhos, Carol não conseguia se entender com os novos colegas e Júnior insistia que não fazia parte da família.

Mônica: Carlos – sua secretária colocou a cabeça para dentro do escritório – Você ainda vai ficar muito tempo?

Carlos: Não sei, mas você já devia ter ido embora há muito tempo.

Mônica: Achei que pudesse precisar de mim.

Carlos: Eu sempre preciso de você, mas pode ir. Até amanhã.

Mônica: Não fique até muito tarde, amanhã tudo vai estar no mesmo lugar.

Carlos dá uma piscadela para sua secretária que acena antes de ir embora. Ele olha para os papéis na sua frente, não conseguia se concentrar mais. Na verdade, ele não tinha se concentrado mais depois que encontrou um presente que tinha recebido de Sérgio, uns dias antes de terminarem, ele ficou o resto do dia tentando entender o que tinha dado errado entre eles.

Ele olha para todos os arquivos espalhados pela sala, mas resolve deixar aquilo para o dia seguinte. Precisava conversar com alguém e nada melhor que uma das irmãs para entendê-lo. Ele decide ligar para Carol, primeiro. Depois de quatro toques ela atende.

Carol: Alô?

Carlos: Vai fazer alguma coisa hoje?

Carol: Carlos?

Carlos: Não, o Presidente.

Carol: O que foi agora?

Carlos: Nada, só queria conversar, saber como vai tudo!

Carol: Adoraria, mas estou cuidando da Larissa.

Carlos: Quem?

Carol: A filha do Roberto.

Carlos: Ah, aflorando o instinto maternal.

Carol: Se você vai ficar fazendo piadinhas eu vou desligar, estou ocupada, trabalhando.

Carlos: Desculpe, estou de mal humor.

Carol: Eu já conheço seu humor, Carlos. Ou falta dele. – Os dois dão risada. – Quer conversa por telefone mesmo?

Carlos: Não, vai terminar o que está fazendo. A gente conversa outro dia.

Carol: Você tem certeza? Vai ficar bem?

Carlos: Claro, você me conhece, tchau.

02. INTERNA – NOITE – CASA DA SARA – SALA

Sara chega em casa e é recebida pelas risadas da família. No chão da sala Fernando, Gabriel, Eduardo e Rafaela estão sentados em roda, jogando e se divertindo. A menina é a primeira a notar a presença da mãe.

Rafaela: Mamãe! – a menina corre e abraça a mãe – que bom que chegou. Vem jogar com a gente.

Sara: Agora não filha – ela olha a menina fazendo bico – Se conheço bem seu pai, ficaram se divertindo até agora e nem olharam para o dever da escola.

Sara olha para Fernando, mas ele se levanta e começa a despedir dos filhos, sem aceitar a provocação dela. Gabriel fica quieto reparando a tensão entre os pais.

Rafaela: Não vai pai, fica mais com a gente. – ela solta da mãe e vai correndo até o pai.

Fernando: Amanhã a gente se vê de novo filha, vocês vão ficar comigo na minha casa.

Fernando sai sem falar nada com Sara. Assim que a porta se fecha, Rafaela começa a chorar mais forte e Eduardo tenta desafiar a mãe.

Eduardo: O papai foi embora por sua culpa, também não vou fazer o dever.

Sara: Vai sim, ou vai ficar de castigo igual teu irmão, sem sobremesa e televisão.

Eduardo não amolece, mas Gabriel intervém, evitando que ele seja castigado.

Gabriel: Ele já fez os deveres de casa, a Rafa também. Eu ajudei enquanto estudava. – Gabriel vai saindo em direção ao quarto – Ah e a Rafa já mediu a glicose e tomou a insulina.

Sara olha o filho ir calado para o quarto. Eles sempre conversaram muito, mas nos últimos meses, ele foi se afastando e ficando cada vez mais calado. Ela então se senta no chão e joga mais uma rodada antes das crianças irem dormir.

03. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO CARLOS – ENTRADA

Carlos sai do elevador e encontra com Pâmela toda arrumada, para sair. Ela sorri ao vê-lo e desiste de pegar o elevador para conversarem.

Pâmela: Carlos, chegando agora do trabalho?

Carlos: É… dia cheio.

Pâmela: Precisa se divertir. Venha comigo, vou sair com uns amigos, e nem volto muito tarde.

Carlos: Hoje não, tô querendo ficar quieto em casa.

Carlos passa a mão na fronte, já perdendo a paciência.

Pâmela: Ai Carlos, você precisa sair dessa fossa, esquecer o Sérgio e conhecer alguém novo!

Pâmela não sabia, mas citar o nome do ex-namorado era a última coisa que precisava.

Carlos: Já que nós terminamos por sua culpa, você só está querendo aliviar a consciência.

Pâmela: Carlos…

Carlos: Vai logo, não quero conversar mais. Divirta-se e não destrua outros casais felizes.

Ele entra em casa batendo a porta e deixando uma Pâmela boquiaberta no corredor.

04. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO – QUARTO DA LARISSA

Carol bate na porta do quarto de Larissa e abe a porta devagar, sem saber se ela estava dormindo. Ela encontra a garota deitada, lendo um livro, fones de ouvindo escutando música. Ela entra devagar para não assustar a menina.

Carol: Larissa, você não quer um lanche?

Larissa: Não, estou bem.

Larissa finge que continua lendo, mas nos últimos meses começou a se aproximar de Carol. Gostava de ver o pai feliz e decide que se precisava esclarecer as dúvidas que tinha, ela era sua melhor escolha.

Larissa: Carol, posso fazer uma pergunta?

Carol: Claro, o que foi?

Larissa: Com que idade você deu seu primeiro beijo?

Carol: Com quinze anos, por quê? – assim que a resposta saiu de sua boca ela olhou assustada para a menina – Você está pensando em beijar um garoto?

Larissa fica quieta, olhando para Carol, sem saber como falar que o beijo já tinha acontecido, mas ela logo percebeu.

Carol: Você já beijou um garoto. – ela então para e pergunta – é um garoto? Ou uma garota?

Larissa: Carol!

Carol: Desculpa, mas tá tudo bem se for uma garota. Claro é mais complicado, imagino. As pessoas ainda são preconceituosas, olha o que fizeram com sua tia…

Larissa: É um garoto.

Carol: Com ele que você foi ao cinema.

Larissa: Sim, e nem imaginava que ele iria me beijar. Foi meio que surpresa.

Carol: Você conversou com seu pai?

Larissa: Não, ele já me colocou de castigo porque descumpri as regras dele, imagina se contasse isso!

Carol: Tem razão, o Roberto ainda acha que você é uma garotinha.

Larissa: Você acha que eu devo ligar pra ele, ou espero ele me ligar?

Carol: A pergunta que toda garota faz! Não tem uma mais fácil? – ela vê a cara da menina e resolve responder o melhor possível – Você ou ele falou que ligaria?

Larissa: Eu falei pra ele ligar.

Carol: Então espera. Se for um garoto esperto, ele vai ligar.

Larissa: Ele é sim. Você iria concordar comigo.

Roberto entra em casa e escuta as risadas vindas do quarto da filha. Ele vai até lá e encontra Larissa e Carol conversando e se divertindo. Ele ficou feliz percebendo que as duas estavam se dando bem, como boas amigas, até um pouco como mãe e filha.

Roberto: A conversa está animada, posso participar?

Carol vira e vê Roberto parado na porta. Larissa abaixa a cabeça e fica um pouco corada.

Carol: É uma conversa de garotas, você não faz parte dessa classe.

Roberto: Não faço mesmo.

Ele vai até a cama da garota, dá um beijo na testa da filha e no rosto da namorada.

Roberto: Vou deixar vocês voltarem para sua conversa de roupas e maquiagem, mas não demorem muito, logo está na hora de você dormir, mocinha.

Ele mal sai do quarto, fechando a porta e as duas começam a rir.

05. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO TOMÁS

Tomás vai até a cozinha pegar água quando encontra Vitória no telefone. Fica escutando para descobrir com quem ela falava e escutou ela falar seu nome, sobre sua recuperação e seu orgulho. Ele queria escutar mais, mas acabou fazendo barulho e chamando a atenção dela, que logo encerrou a ligação.

Tomás: Estava falando sobre mim com quem?

Vitória: Estava escutando minha conversa?

Tomás: Foi por acaso.

Vitória: Por acaso? Chegou em silêncio e ficou parado escutando por acaso?

Tomás: Estou sem paciência…

Vitória: Tudo bem, estava falando com teu irmão.

Tomás: Falando com o Carlos?

Vitória: Não, com o Júnior, teu irmão caçula. Ele ligou para saber como você está. Preocupado com sua saúde. Pedindo desculpas por um erro que nem cometeu.

Tomás: Vi…

Vitória: Não quero saber. Você já foi longe demais e eu não quero ouvir as mesmas desculpas.

06. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA

Sara preparava uma aula quando batem na porta. Ela vai até a porta e pelo olho mágico vê Carlos do outro lado.

Sara: Carlos? O que tá fazendo aqui tão tarde?

Carlos: Nada, só queria conversar.

Sara: Conversar?

Carlos: Ok, esquecer dos problemas – ele fala e levanta a garrafa de tequila.

Sara: Agora sim. Entra! Vamos até a cozinha porque as crianças já estão dormindo.

Enquanto Carlos se senta, Sara pega o copo e ele serve a bebida para os dois.

Carlos: Você não vai acreditar no dia que eu tive.

Sara: Aposto que não foi pior que o meu. Começou com o despertador não tocando e as crianças se atrasando para o colégio. Reuniões intermináveis na livraria e mais um encontro extremamente desconfortável com o Ferdi. – ela para e dá mais um gole na bebida. – Para terminar com Gabriel se trancando no quarto, Rafaela choramingando e Dudu dando crise de independência.

Carlos olha para a irmã e decide que não é o melhor momento para desabafar seus problemas com a irmã, pelo menos ele tinha a bebida para tentar esquecer.

07. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SAULO

Saulo e Vera estavam sentados na sala de jantar, vários papéis espalhados sobre a mesa. Com a editora quase pronta, eles já estavam em processo de seleção dos funcionários.

Saulo: Onde está o anúncio que vai sair amanhã no jornal?

Vera: Aqui. – ela procura entre uns papéis e entrega uma cópia para Saulo.

Saulo: Os telefones já estão ligados, então não teremos problemas com os interessados que lerem o anúncio amanhã para marcar uma reunião.

Vera: Sim, e vamos marcar todas para semana que vem, que os escritórios já estarão prontos e mobiliados.

Saulo: Estava pensando, como somos uma empresa nova e a economia está se recuperando, acho que devemos fazer alguns contatos e acordos com outras empresas.

Vera: Outras empresas?

Saulo: Sim, algumas livrarias. Para ter compradores dos nossos produtos.

Vera: E você está falando da Andanças.

Saulo: É um bom negócio para a gente e para eles também.

Vera: E você acha que seus sobrinhos vão aceitar?

Saulo: Eles sabem reconhecer um bom negócio. Mas vamos encerrar o trabalho por hoje, que tal pegar a última seção do cinema?

Vera: Acho uma ótima idéia.

08. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA SARA – SALA

A claridade e o barulho vindo da cozinha acordam Carlos. Ele abre os olhos devagar, a cabeça latejando. Ele olha ao seu redor e lembra que Sara não deixou que ele fosse embora para casa e acabou dormindo no sofá. Levanta-se e vai, cambaleando, até a cozinha, para tomar um pouco de café para tentar aliviar a dor de cabeça.

Gabriel: Bom dia, tio Carlos.

Carlos: Bom dia. Mas diminui o volume. – ele olha para o sobrinho. – O que você tá fazendo acordando tão cedo?

Gabriel: Mamãe atrasou ontem e fiquei com medo dela atrasar de novo. Então vim arrumar o café antes de acordar ela e meus irmãos.

Carlos: Dona Nora iria adorar que os filhos dela fossem tão responsáveis na sua idade.

Gabriel fica calado, olhando para Carlos.

Carlos: O que foi? Tem alguma coisa estranha em mim?

Gabriel: Tirando o fato da roupa toda amarrotada e o cabelo despenteado, não.

Carlos geme imaginando a aparência que estava. Ele podia prometer nunca mais beber durante a semana, mas sabia que acabaria não cumprindo em algum momento.

Carlos: Você parece que quer falar alguma coisa.

Gabriel: Na verdade quero fazer uma pergunta. – Ele senta de frente para o tio e olha sério – Como você sabe que gosta de alguém?

Carlos: Gosta de alguém? – ele pergunta como se não tivesse entendido a pergunta.

Gabriel: É, você entendeu. Gosta para ficar junto, conversar, se divertir… beijar. – ele fala a última parte mais baixo.

Carlos: Beijar? – ele pergunta mais alto, depois de quase engasgar com o café.

Gabriel: Fala baixo, ou vai acordar minha mãe.

Carlos: Ela não sabe?

Gabriel: Não, e você não vai contar. Anda, responde logo.

Carlos: Por que eu?

Gabriel: Por que você está aqui agora.

Carlos: Seu pai estava aqui ontem, e você vai hoje pra casa dele, não?

Gabriel: Se eu falar isso com ele ou minha mãe, além de não receber uma resposta, eles vão me dar aula de educação sexual.

Carlos: Mas é importante se proteger.

Gabriel: Tio Carlos!

Carlos: Tá bom. Você sabe que gosta de alguém quando você não agüenta espera muito tempo para vê-la de novo. Quer conversar sobre qualquer coisa, das mais complicadas às mais bobas. Quando a felicidade da outra pessoa te faz feliz.

Gabriel: Legal.

Carlos: Uma dica, não tenha medo de falar o que sente. Honestidade é a coisa mais importante em um relacionamento.

Gabriel: Ok, conselho anotado.

Carlos: Você se sente assim por alguém?

Gabriel: É, eu acho que sim, quer dizer, eu gosto dela, e a gente se dá bem.

Carlos: Eu estou ficando velho…

Sara: Não tá não, porque se você estiver ficando velho, significa que eu já estou. – ela olha para o irmão e o filho e vê duas caras sérias – O que foi que estão com essas caras?

Gabriel: Não é nada. Eu vou acordar meus irmãos.

Sara olha o filho sair, desconfiada e olha para Carlos querendo saber o motivo.

Carlos: Não é nada, conversa de homem pra homem.

09. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA REBECA

Rebeca entra na cozinha e Júnior já terminava de tomar o café.

Rebeca: Então, o que vamos fazer no final de semana?

Júnior: Não sei, estou meio que falido.

Rebeca: Bem – vindo ao mundo dos mortais. Não se preocupe, vamos encontrar alguma coisa.

Júnior: Conversamos sobre isso à noite? Preciso ir para a APAE.

Rebeca: Ok, a gente se vê de noite.

10. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

Diva caminhava com dificuldade ao entrar na cozinha, Nora estava sentada tomando o café da manhã. Em cima do balcão da cozinha, uma pasta com vários papéis espalhados.

Diva: Você poderia ter me esperado.

Nora: Se eu tivesse esperado, iria falar que eu deveria ter começado sem você.

Diva: Poderia ter perguntado se eu queria que esperasse.

Nora: Bom dia, mamãe. – ela dá um sorriso falso para a mãe.

Diva: Bom dia. – ela olha na direção do balcão – O que são esses papéis espalhados pela cozinha?

Nora: São algumas pequenas histórias que escrevi há alguns anos.

Diva: Ainda com essa idéia na cabeça de publicar um livro?

Nora: Quem sabe, não é mamãe? Agora toma seu café, ou vai esfriar.

11. INTERNA – DIA – ÁGORA RJ – REDAÇÃO

Carol já estava na sala para a reunião de pauta do dia. Ela percebe na cara de Karina o desprazer em já encontrá-la na sala de reuniões. Horácio entra e cumprimenta toda a equipe.

Horácio: Hoje o dia tá corrido, Carol chegou cedo e já começou a apurar os fatos pra matéria principal, então a capa é dela. Caso nada mais importante aconteça durante o dia.

Carol não esconde a satisfação que sente no momento. Ela era considerada uma das melhores repórteres de política, e iria mostrar que fazia jus ao status que tinha.

Carol: Horácio, sobre a reportagem do caderno de domingo, eu gostaria de ficar com ela. Já até comecei a escrevê-la

Karina: Nossa, que repórter eficiente. – ela fala com desdém.

Carol: E também competente.

Algumas risadas ecoam pela sala. Até Horácio tenta esconder seu divertimento. Nada como a chegada de uma pessoa nova na equipe para acirrar os ânimos e a concorrência.

Horácio: Tudo bem, Carol, mas eu preciso da matéria no final da semana para mandar pro departamento de arte.

Carol: Tudo bem. Ah mais uma coisa, o que acha do Zé trabalhar comigo nessa reportagem? Já tá na hora dele fazer alguma coisa além de pesquisa.

Com a resposta positiva do editor, o resto da reunião segue sem problemas.

12. EXTERNA – DIA – APAE/RJ – JARDIM

Júnior estava sentado com algumas crianças do lado de fora. Depois que leu alguns artigos que diziam que a música era boa para crianças, e conversar com sua coordenadora na APAE, ele decidiu levar seu violão para cantar com as crianças.

Júnior: Então, vamos começar com qual música?

Caio: Do pato. – diz o menino entusiasmado.

Júnior: Essa é boa, vamos começar então.

Ele começa a tocar os acordes da música de Vinícius. Enquanto tocava, lembrava que escutava muito essa música quando criança. As crianças pareciam se divertir, e ele sorria com as vozes desafinadas e felizes. Ana Paula chega com uma garota e ele nem percebe.

Ana Paula: Aquele é o Júnior. Ele também é voluntário aqui.

Michele: As crianças gostam muito dele.

Ana Paula: É ele tem jeito com elas. É um ótimo rapaz. Uns dias atrás deixaram uma menina aqui, ela não falava com ninguém, nem com as outras crianças. Mas ele foi atrás dela e com jeito conseguiu se aproximar e conversar com ela.

Michele: Ele trabalha com crianças?

Ana Paula: Não, ele é um dos nossos voluntários que está em recuperação. Foi indicado por uma clínica.

Quando a música para, Ana Paula se aproxima com Michele da roda.

Ana Paula: Esse coral está uma maravilha, e eu trouxe a Michele, porque ela queria cantar com vocês, ela pode ficar?

Algumas crianças ficam receosas da pessoa estranha que tinha acabado de chegar.

Júnior: Claro que pode ficar! Nós vamos ensinar uma música para ela, não é, crianças?

Logo uma garota se afasta e bate a mão no chão mostrando o lugar onde ela deveria se sentar. Michele sorri e senta do lado da garota.

13. INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – SALA DE REUNIÕES

Rebeca tinha chegado cedo ao escritório. Ela e os outros quatro estagiários foram chamados para assinarem seus contratos, conhecerem as dependências do lugar e conhecerem a equipe principal de advogados, com os quais iriam trabalhar diretamente.

Guilhermina Lima: Bom dia. Sejam bem vindos. Vocês foram selecionados entre muitos candidatos para estagiarem no nosso escritório. Já conheceram nossas instalações e agora vou apresentá-los aos nossos principais advogados.

Depois de apresentada a equipe, todos ficaram à vontade para conversarem e se apresentarem melhor.

Giovanni: Você viu a lista de casos que cada um vai trabalhar?

Rebeca: Não, onde está?

Giovanni: Logo na entrada. Eu, você e a Kássia vamos ficar no caso da Lumni S.A.

Kássia: Caso importante e de interesse da mídia.

Rebeca: E vocês? – ela pergunta para os outros dois estagiários.

Bruno: Vamos ficar como apoio para os outros casos.

Vanessa: Nada tão importante, como vocês.

Rebeca: Ah, mas terão a oportunidade de trabalhar em várias áreas, sempre um caso novo.

Carlos: Com licença, será que posso interromper a conversa? Preciso falar com Rebeca, Giovanni e Kássia.

Os outros dois se afastam.

Giovanni: Obrigado por nos escolher para trabalhar no seu caso.

Carlos: Eu não escolhi, foram sorteados. Sorte de vocês, … ou azar.

Kássia: Com certeza sorte

Rebeca: É… muita sorte.

Carlos resolve ignorar o comentário dela. Reconhecia o tom de sarcasmo e sabia que ela não devia estar feliz em trabalhar diretamente com ele, mas era uma oportunidade de conhecê-la melhor.

Carlos: Eu já preparei um documento com as informações mais importantes do caso e a Mônica, minha secretária, tem eles prontos para vocês. Queria que lessem e na segunda, quando vocês começam oficialmente, estivessem inteirados do assunto para iniciarem logo o trabalho.

Kássia: Claro, Senhor Andrade.

Kassia e Giovanni vão logo procurar por Mônica, Rebeca fica para trás, dando a ele uma oportunidade de conversarem.

Carlos: Então, o que tá achando até agora?

Rebeca: Muito bem impressionada, é um belo escritório, excelente biblioteca para referência e a equipe é muito boa.

Carlos: Se você se sair bem, tem uma grande chance de eles te contratarem quando se formar.

Rebeca: Carlos, eu não quero nenhum privilégio.

Carlos: Eu não cuido das contratações, e você ainda não me conhece bem, mas eu sou profissional e justo. Então se você for bem, vai receber uma boa avaliação no final do estágio, caso contrário…

Rebeca: Tudo bem, já entendi. – ela sorri, e ele retribui.

Carlos deixa Rebeca para conversar com os outros advogados. Ela não tinha sido criada com eles, mas tinha algumas características dos Andrades: os olhos, o orgulho e a língua afiada.

14. INTERNA – DIA – ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA – SALA DO ROBERTO

Roberto revisa a proposta de lei que irá a votação durante a  tarde e é interrompido com o toque de seu celular.

Roberto: Alô?

Rogério: Roberto, aqui é Rogério Horta.

Roberto: Então, alguma novidade?

Rogério: Sim, com as informações que vocês conseguiram e as investigações da polícia civil eles encontraram a localização de uma vala coletiva e várias ossadas foram encontradas.

Roberto: Várias? Então quer dizer…

Rogério: O IML terá um pouco de trabalho, mas eles já têm o DNA de um parente para examinar e informação sobre a arcada dentária do Paulo. Vai ser mais fácil de identificar se ele está entre as ossadas encontradas.

Roberto: Rogério, confesso que estou surpreso com seu trabalho. Impressionante.

Rogério: Não sei se encontramos quem vocês procuram, mas várias famílias vão poder enterrar seus parentes queridos graças ao empenho de vocês dois.

Os dois conversam mais um pouco, depois ele olha no relógio e decide que é melhor dividir essa informação com Carol durante o almoço.

15. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

Nora está distraída organizando os livros no escritório. Ela para em frente a um porta-retrato, dos muitos que Guilherme mantinha no lugar. Na foto ele e os três filhos, os homens da família, como ele sempre se referia, todos uniformizados antes de irem para o estádio. Ela sorri triste, aquela família estava praticamente destruída, desde a briga entre Tomás e Júnior, a família não se reuniu mais como antes, cada um no seu canto. Ela sentia falta de ver a mesa cheia, das brincadeiras e risadas de sua família. Estava tão perdida em lembranças que se assusta com o telefone tocando.

Nora: Alô?

Flávio: Boa tarde. Gostaria de falar com a senhora Nora Andrade, por favor.

Nora: É ela. Do que se trata?

Flávio: Senhora, aqui é Flávio Diniz. Eu sou o responsável pelo departamento de novos talentos da Editora Lótus. Nós estamos seguindo suas publicações e queremos marcar uma reunião para apresentar uma proposta para publicar um livro.

Nora: Eu, publicar um livro? Isso é sério?

Flávio: Sim, senhora. Que tal amanhã, às duas horas da tarde?

Nora: Pode ser as quatro? É melhor para mim.

Flávio: Sim, claro. Amanhã, quatro horas da tarde. Vai ser um prazer conhecê-la, senhora.

Nora desliga o telefone quase que sem poder respirar. Uma proposta para publicar um livro, era um antigo sonho. Ela liga para a única pessoa que era crítica o suficiente para falar a verdade do que pensava com ela.

Nora: Carlos, filho, tudo bem?

Carlos: Claro, mas por que está me ligando no meio do dia?

Nora: Você pode passar aqui depois do trabalho? Preciso falar com você urgente.

Carlos: Algum problema, mamãe?

Nora: Não é nada grave, só importante.

Carlos: Claro, passo aí hoje de noite.

16. EXTERNA – DIA – RESTAURANTE

Carol e Roberto esperam pelo prato e conversam amenidades. Ela percebe que ele está inquieto.

Carol: Algum problema?

Roberto: Não, tenho uma novidade para te contar. – ele faz uma pausa antes de continuar – O Rogério me ligou hoje mais cedo. As informações que nós levantamos e a investigação da polícia os levou até o local onde encontraram ossadas de várias pessoas.

Carol: E meu tio…

Roberto: Agora vão examinar para saber se ele está entre essas pessoas.

Carol: Então é uma novidade, mas talvez não seja nada.

Roberto: Eu sei que isso pode te frustrar um pouco, mas é melhor ter mais um pouco de paciência.

Carol: Acho que não vou comentar nada com minha mãe ou minha avó, elas não precisam se encher de esperança e depois se decepcionarem mais uma vez.

Roberto: Isso que eu tava pensando, vamos deixar essa informação só entre a gente por enquanto. O Rogério me garantiu que não vão divulgar nenhuma informação antes de examinarem para saber se seu tio está entre as pessoas encontradas.

Carol: Se ele não estiver, vamos ter ajudado várias outras pessoas. – ela fala tentando se animar.

Roberto: Vamos, tenha confiança, olha quanta coisa descobrimos, se ele não for encontrado ainda, continuamos investigando.

17. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO ROBERTO – SALA / INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA SARA – QUARTO DO GABRIEL

[♫ – “All Star” – Cassia Eller]

Larissa está estudando, mas larga o livro e a caneta quando seu telefone toca, ela olha e sorri quando vê o nome de Gabriel piscando no visor do telefone.

Larissa: Oi. – ela atente um pouco tímida.

Gabriel: Ei. – ele responde acanhado.

O silêncio ecoa entre eles durante alguns segundos, nenhum dos dois sabia bem o que falar, mas Gabriel toma coragem e fala primeiro.

Gabriel: Pode falar, ou está ocupada? Eu posso ligar outra hora.

Larissa: Não, tá tudo bem. Estava só estudando um pouco, nada importante.

Gabriel: Ah, ok. Então você teve problemas porque foi ao cinema?

Larissa: É, um pouco, e você?

Gabriel: Também. Meu pai não queria que eu fosse castigado, mas minha mãe não aceitou e agora fiquei duas semanas sem poder ensaiar com a banda.

Larissa: Desculpa…

Gabriel: Por quê? Você não fez nada. E valeu a pena, não acha?

Larissa: Sim, valeu.

Gabriel: Que bom. O único problema é que estou de castigo nesse final de semana.

Larissa: Eu também.

Os dois conversam mais um pouco e prometem entrar mais tarde no MSN para baterem papo.

18. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA DE JANTAR

Carlos chega à casa de Nora e encontra as três mulheres da casa jantando. A conversa era pouca, como era de costume entre as três. Nora logo se levanta quando vê o filho entrando.

Nora: Filho, que bom que chegou. Venha, vou fazer um prato para você.

Carol: Claro, ele está tão magrinho!

Carlos: Você está cada vez mais fazendo jus ao título de madrasta, daquelas dos contos de fada.

Carol: E você…

Nora: Chega vocês dois. Vamos comer em paz.

Carlos e Carol fazem cara feia um para o outro, mas não contrariam a ordem da mãe.

Diva: Então, Carlos, você e aquele rapazinho terminaram de vez?

Nora: Mamãe!

Carlos: Sim, para sua felicidade não é, vovó?

Diva: Ele não te merecia, sempre soube, sou ótima para julgar o caráter das pessoas.

Carol: Vovó é melhor mudar essa conversa.

Diva: Mas o que eu falei de mais?

Carlos: Nada, a senhora nunca fala nada. – ele se levanta – Mamãe, o que a senhora queria falar comigo?

Nora: Vamos até o escritório.

Carol: Tá vendo o que a senhora fez?

No escritório, Nora entrega uma pasta para Carlos.

Carlos: O que é isso?

Nora: São os textos e crônicas que eu escrevi. Quero que você leia.

Carlos: Eu? Por quê? Estou com um caso que toma todo meu tempo.

Nora: Eu sei que é muito ocupado, filho, mas você é o único que eu tenho certeza que vai me falar a verdade do que pensa.

Carlos: Você precisa disso em quanto tempo?

Nora: Leia com calma. – ela segura na mão do filho – Você sabe que se precisar conversar, estou aqui.

Carlos: A senhora já tem problemas demais, mas eu estou bem, sabe como sou. Sempre pronto pra outra. Prometo ler tudo isso o quanto antes.

Os dois se despedem, e Carlos vai embora para casa, sem voltar para despedir da avó.

19. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO FERNANDO – SALA DE JANTAR

[♫ – “Ela foi embora” – Wilson Sideral]

Fernando termina de arrumar a louça do jantar enquanto os filhos fazem o dever de casa. Ele parava a tarefa sempre que um deles precisava esclarecer alguma dúvida. Quando o telefone toca, ele atende, já imaginando quem seria.

Fernando: Alô?

Sara: Oi, tudo bem?

Fernando: Já vou chamar as crianças.

Sara: Ferdi…

Mas ele já tinha tirado o aparelho da orelha e já chamava os filhos. Eduardo foi o primeiro a pegar o telefone para falar com a mãe. Rafaela já estava do lado. Gabriel continuou na mesa, olhando para o pai, que tentava ignorar o filho mais velho.

Gabriel: Vai ser assim agora?

Fernando: Filho…

Gabriel: Você e a mamãe não vão nem conversar civilizadamente.

Fernando: Pensei que era isso que estava fazendo.

Gabriel: Não, vocês estão se ignorando. Rafa e Dudu não perceberam ainda.

Fernando: Os problemas entre eu e sua mãe só dizem respeito a nós dois, vocês três estão fora disso.

Gabriel: Muito pelo contrário, estamos bem no meio.

Fernando: Gabriel pode ir parando essa conversa por aí.

Gabriel: Isso, continue fingindo que nada está acontecendo. Quando for tarde demais…

Gabriel deixa o pai frustrado na cozinha e vai falar com a mãe. Fernando começa a analisar o que o filho tinha falado, talvez fosse hora de colocar um ponto final definitivo ao invés de ficar forçando o que não teria volta.

20. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE CARLOS

Carlos desce do elevador e segue em direção ao seu apartamento, mas olha para o lado e resolve se desculpar com Pâmela pelas palavras duras do dia anterior. Depois de tocar a campainha duas vezes ela abre a porta.

Carlos: Posso entrar?

Pâmela: Se for pra me insultar, pode ir embora.

Carlos: Não eu…

Pâmela: Sabe, eu me desculpei pelo que fiz. Fiz tudo para tentar ajudar você e o Sérgio voltarem, e achei que eu e você tínhamos até ficado amigos.

Carlos: Nós somos, eu fui um idiota. Me desculpe. Mas podemos conversar aí dentro? Os outros vizinhos não precisam escutar nossa conversa.

Ela abre a porta para ele entrar, e os dois se sentam no sofá.

Carlos: Eu sei que não justifica minha atitude, mas tive um dia péssimo, na verdade tenho tido umas semanas péssimas. Além de terminar tudo com o Sérgio, meus irmãos estão brigados, a família separada, cada um cuidando dos seus problemas.

Pâmela: Você pode vir falar comigo sempre que quiser, Carlos.

Carlos: Eu sei, mas não é só isso. Essa confusão toda me fez perceber várias coisas em mim mesmo, que não sei como lidar com tudo isso.

Pâmela: Por que você não procura alguém para te ajudar?

Carlos: Alguém?

Pâmela: Um psicólogo, tenta fazer uma terapia.

Carlos: E contar meus problemas para uma pessoa estranha?

Pâmela: Seus clientes não te conhecem e contam de seus problemas e você resolve, ou tenta resolver. É a mesma coisa.

Carlos: Você está comparando um processo legal com uma terapia?

Pâmela: Olha, é só uma dica. Algumas pessoas dizem que um padre ou um pastor ajudam também.

Carlos: Claro, eu chego pro padre e digo que sou gay, se ele não morrer, me excomunga, ou diz que eu estou dominado pelo capeta.

21. INTERNA – DIA – SEDE DA LIVRARIA ANDANÇAS

Saulo entra na livraria e logo alguns funcionários se aproximam para cumprimentá-lo. Conhecia quase todos, principalmente os mais antigos. Ele anda entre as estantes se lembrando de quantas coisas tinha feito por aquela livraria, praticamente toda sua vida.

Sara: Tio Saulo, o que faz por aqui?

Saulo: Sara, oi. Vim matar um pouco da saudade.

Sara: Se não tivesse saído, não sentiria saudades.

Saulo: Eu precisava, essa livraria era do seu pai e agora de vocês. Um legado dos Andrades. Eu precisava fazer uma coisa que marcasse a minha história e não ficar só escondido na sombra de vocês.

Sara: E como vai a editora? Quando abre?

Saulo: Eu vim aqui por isso. Podemos conversar no escritório?

Sara: Claro, você sabe o caminho, pode ir na frente. Só preciso pegar o inventário do estoque e já encontro com você.

Saulo entra no escritório e admira as mudanças feitas ali no lugar que fora de Guilherme, e agora da filha mais velha dele, quem ele sempre quis que cuidasse de tudo.

Sara: Então, qual o real motivo da sua vinda?

Saulo: Tenho uma proposta de negócio para você. Para a Andanças na verdade.

Sara: Diga, estou escutando.

Saulo: Pensei que a Quatro Estações e a Andanças poderiam firmar um acordo que seria em benefício das duas empresas. Ter o nome da Andanças e conseqüentemente da Papier na nossa lista de clientes nos daria a credibilidade que precisamos para começar os negócios.

Sara: E qual seria o nosso benefício?

Saulo: Preços mais baratos, prioridade na entrega e nos lançamentos dos nossos produtos. Deixo que vocês façam o contrato com as exigências que vocês quiserem.

Sara: Então você quer usufruir do bom nome e da tradição da livraria.

Saulo: Sim, mas seria vantajoso para os dois lados.

Sara: Não.

Saulo: Não, o quê? Não seria vantajoso?

Sara: Não, não vamos fazer esse acordo.

Saulo: Posso saber por quê?

Sara: Por muito motivos que estão além dos negócios, mas principalmente porque esses contratos com editoras saíram do nosso alcance e a Papier é quem seleciona nossos parceiros.

Saulo: Você poderia apresentar a proposta para eles. Tenho certeza que te escutariam.

Sara: Aí que tá, por motivos pessoais, não quero o negócio da nossa família envolvido em nada com a sua sócia. Nós já tivemos que aceitá-la em vários momentos, mas aqui não. Talvez seja a única coisa que meu pai conseguiu manter longe dela, e pretendo mantê-lo assim.

Saulo: Você não quer reconsiderar?

Sara: Eu sinto muito, tio Saulo. Você vai ser sempre importante para os Andrades e para a Andanças. Mas eu não posso em sã consciência aceitar isso.

Saulo: Eu esperava mais de você, Sara.

Sara: E nós esperávamos mais de você, tio Saulo, principalmente a mamãe. Era só isso?

Saulo: Sim, obrigado por me receber.

22. INTERNA – DIA – SEDE DA EDITORA LÓTUS – RECEPÇÃO

Nora chega cedo para a reunião que tinha marcado na editora. Ela foi recebida e levada até a sala de Flávio Diniz, que já estava esperando por ela.

Flávio: Senhora Nora Andrade, boa tarde. É um prazer finalmente conhecê-la.

Nora: O prazer é meu.

Flávio: Muito bem, por favor, sente-se. Gostaria de beber alguma coisa? Um café, uma água.

Nora: Água está bom.

Flávio: Nós estamos acompanhando o blog da senhora há alguns meses. E preciso dizer que poucas vezes encontramos um material tão bom como o da senhora na internet. Tanto que resolvemos descobrir quem era para marcarmos essa reunião.

Flávio então apresenta o projeto que a editora tinha para lançar um livro com textos de vários blogueiros que tinham se destacado com textos interessantes e um grande número de acessos. Tinham planejado para o livro, desde a seleção dos textos, a edição e a formatação do livro. Já tinha até esboçado como seria o marketing para o lançamento do livro. Nora ficou impressionada e também um tanto receosa em publicar seus textos com pessoas tão diferentes dela. Uma coisa era ficar sentada atrás de uma tela de computador, anônima.

Nora: Confesso que estou impressionada com tudo, mas eu preciso pensar com calma.

Flávio: Claro, eu entendo. Nós só queríamos que conhecesse nossa editora, que somos sérios e temos a intenção de ter o nome da senhora entre os nossos escritores.

Os dois se despedem e Nora leva o contrato para ler, mostrar para um advogado. Sem qualquer pressão ou data para responder à proposta

23. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA REBECA

Rebeca chega em casa e encontra Júnior conversando no telefone. Ele dava risadas, e ela torceu que ele falasse com algum dos irmãos. Gostava de tê-lo morando ali, eles sempre tiveram muita afinidade, desde que se conheceram na sessão de fotos que parecia ter acontecido há muito tempo, mas na verdade tinha só um ano. Tudo se complicou quando descobriram que eram irmãos. Ela então para se tocando, pela primeira vez que na verdade, eles não eram irmãos, já que ele tinha sido adotado e fica confusa sem saber o que sentia.

Júnior: Mi, o que acha de ir ao cinema esse final de semana?

Rebeca olha estranha para ele. Marcando de ir ao cinema com outra pessoa, sendo que tinham combinado de saírem no final de semana. Ela não gosta de saber que ele achava tão pouco importante os planos que faziam. Ela segue direto para o quarto para deixar suas coisas lá.

Júnior: Olha, eu preciso desligar agora. Minha colega de casa chegou. A gente se vê amanhã. Tchau.

Ele vai até a porta do quarto e encontra Rebeca já pagando os livros para estudar.

Júnior: Ei, pode largar isso. A comida que dona Nora trouxe já está pronta para comer. E você tem que me contar como foi seu primeiro dia no estágio.

Rebeca: Não foi o primeiro dia, na verdade. Foi só uma apresentação da firma e entrega das nossas funções.

Júnior: Não deixa de ser importante. Vem, vamos comer e você me conta tudo. Depois prometo ficar quieto e te deixar estudar.

Rebeca: Eu achei que a gente tinha combinado de sair no final de semana.

Júnior: Ah, você escutou.

Rebeca: Foi sem querer. Eu tava entrando, e você falando na sala não tinha como não ouvir.

Júnior: Ei, tudo bem. É uma voluntária que começou hoje lá na APAE. Vem com a gente também, você vai gostar da Michele, tenho certeza.

Rebeca: Ah, pode deixar. Eu provavelmente precisaria cancelar. O Carlos já passou trabalho para a gente. – ela fala ainda chateada com Júnior por trocar a companhia dela por outra garota.

Júnior: Sério?! Ele é um ditador. Pensar que ele sempre enrolava para cumprir as tarefas que ele tinha dentro de casa.

Eles dão risada e começam a comer.

24. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO TOMÁS

Tomás tinha ido ao médico durante o dia, e liberado para retomar algumas atividades, como pequenas caminhadas e a fisioterapia que era essencial para o reforço muscular que ele precisava. Para comemorar ele tinha levado Vitória para um jantar romântico. Depois que ajudou Vitória a sentar na cama, ele começou a beijá-la.

Vitória: Tomás, não é muito cedo para você fazer esse tipo de esforço?

Tomás: Não se preocupe – ele interrompe para beijá-la no pescoço – o médico disse… Que eu posso retomar… As minhas atividades normais… Só preciso… Tomar cuidado.

Ela não fala mais nada e aceita a resposta do marido. Os dois se deitam de lado, um de frente para o outro e os beijos se tornam mais intensos. Quando se afasta para tirar a camisa sente um repuxo nas costas. Vitória vê a fisionomia de dor e logo se preocupa.

Vitória: Vou chamar uma ambulância. Você não devia se esforçar, eu falei.

Tomás: Calma, foi só uma fisgada, logo vai passar.

Vitória: Eu falei que ainda era muito cedo.

Tomás: Eu odeio isso, não poder fazer nada. Não posso ajudar com as tarefas da casa, não posso te pegar no colo e levar para onde você quiser e agora mais essa, não consigo nem fazer amor com você.

Vitória: Querido…

Tomás: Eu sou um inútil, anda pode falar. Quando você mais precisa de mim…

Vitória: Você precisa se recuperar e para isso precisa ter paciência. Lembra o que me falava logo que eu saí do hospital? Olha como estou hoje? Indo para quase todos os lugares.

Tomás: Eu me sinto um impotente…

Vitória: Por que você não toma seu remédio e a gente não vai dormir? Podemos ficar abraçados, juntinhos.

Tomás: Aparentemente isso é tudo que eu consigo fazer agora.

Vitória: Quando você estiver completamente curado, a gente recupera o tempo perdido.

Tomás olha para a mulher e sorri passando a mão no rosto dela, que aconchega a cabeça na mão dele.

Tomás: Seria capaz de enlouquecer sem você.

Vitória: Sorte sua que eu estou aqui.

25. INTERNA – MADRUGADA – APARTAMENTO DO TOMÁS

[♫ – “Trouble” – Kristin Hersh]

Tomás tentou dormir, mas não conseguiu. Eram muitos pensamentos passando por sua cabeça. Tinha medo de não voltar a ser o mesmo, viver com aquela dor o incomodando. Ele vai até a sala, mexe na estante procurando algum livro para ler. Encontrando algo interessante, puxa o livro e derruba um porta-retrato no chão. Quando percebe que Vitória não acordou com o barulho, abaixa-se com cuidado e pega o objeto do chão e os cacos do vidro quebrado.

Ele olha a foto e sorri triste. Ele, Carlos e Júnior, os irmãos Andrade, como eram conhecidos até hoje pelos vizinhos mais antigos. A foto foi tirada na casa dos pais, antes de saírem para seu casamento. Ele passa o dedo pela foto primeiro na imagem de Carlos e depois em Júnior.

Tomás: Irmãos…

Ele abaixa a cabeça e sente todo o peso do que tinha feito e dito a Júnior. Coisas horríveis que nunca deveriam sair de sua boca. Nada justificava sua atitude e muito menos seu orgulho. Sente então uma enorme vergonha dos seus atos. O que restava agora era ele encontrar uma maneira para se desculpar e tentar se redimir dos seus erros, que no final tinham sido piores que o do irmão, já que em momento algum, Júnior teve a intenção de causar qualquer mal a Vitória, ao bebê e a ele.

26. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA SARA / INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES

Sara toma o café da manhã e lê os eventos do final de semana. Queria ficar mais tempo com os filhos. Iria aproveitar que os três ficariam com ela naquele final de semana. Quando vê que a programação era boa para crianças e adolescentes, resolve ligar e convidar Carol, Roberto e a filha dele para se juntar a ela e seus filhos.

Carol: Casa dos horrores, Carol falando.

Sara: Que cumprimento inovador.

Carol: Oi, Sara.

Sara: O que foi agora? Você e mamãe estão discutindo de novo? Deixa eu adivinhar, por causa do Júnior?

Carol: Não, a discussão é entre mamãe e vovó Diva. Mas eu vou sair logo, porque vai acabar sobrando pra mim.

Sara: Tá indo pro jornal?

Carol: É, preciso te contar o que aconteceu que aquela Karina está morrendo de ódio de mim.

Sara: Ótimo, você me conta amanhã, que tal? Tava lendo no jornal que vai ter um evento no Bosque da Barra para crianças e adolescentes e como os três vão ficar comigo esse final de semana, resolvi fazer alguma coisa divertida com eles.

Carol: E você quer que eu vá para ajudar a tomar conta deles?

Sara: Não, pensei em você convidar o Roberto e ele e a filha irem também para o Gabriel ter alguma companhia da idade dele.

Carol: Até é uma boa idéia, vou falar com o Roberto e te ligo confirmando.

Sara: Ok. Vou esperar. Se der, aparece na livraria pra gente se ver.

27. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA REBECA

Júnior engolia o café da manhã enquanto Rebeca e ele faziam planos para o domingo, já que sábado ele iria sair com Michele.

Júnior: Então fica combinado. Praia e surfe no domingo.

Rebeca: O surfe fica por sua conta.

Eles interrompem a conversa quando a campainha toca.

Rebeca: Quem será cedo assim?

Júnior: Deve ser minha carona.

Ele se levanta apresado para atender a porta, Rebeca vai atrás.

Júnior: Mi, me dá dois minutos para escovar os dentes e a gente vai.

Michele: Estou adiantada, pode ir com calma.

Rebeca olha para a amiga de Júnior, que fica sem graça.

Michele: Uhm, oi eu sou a Michele – ela fala esticando a mão.

Rebeca: Prazer, Rebeca. Desculpa sair apressada, mas estou atrasada para a faculdade.

Michele: Não quer uma carona?

Rebeca: A faculdade fica do lado oposto da APAE, vocês vão acabar se atrasando. Avisa o Ju que eu já fui.

Michele: Pode deixar. Tchau.

Rebeca sai apressada de casa, não entendia porque não gostava de ver Júnior com outra garota. Eles eram irmãos, ou pelo menos agiam como tal. Estava confusa e precisava encontrar uma resposta para suas dúvidas o mais rápido possível.

28. INTERNA – DIA – ÁGORA RJ – REDAÇÃO

Carol chega à redação e logo escuta Horácio chamando seu nome.

Horácio: Carol, a reportagem de domingo. Preciso dela logo.

Carol: Já vou imprimir e levo pra você.

Carol senta em frente ao computador, digita sua senha e procura pelo arquivo. Encontra vários rascunhos, mas não encontra o arquivo principal. Tinha certeza que estava tudo ali.

Karina: O que foi Carol?

Carol: O arquivo da matéria sumiu. Eu tenho certeza que estava aqui quando sai.

Karina: Ah que pena, mas fica calma, você vai encontrar.

Carol: O que você fez agora?

Karina: Eu não fiz nada. Estou até te dando uma força.

Zé: Algum problema, Carol?

Carol: Nossa reportagem sumiu. Tudo! Não encontro o arquivo.

Zé: Não se preocupe, eu tenho uma cópia em CD, tá aqui. – Ele entrega o CD para Carol – Sempre é bom se precaver, computadores não são cem por cento confiáveis.

Karina: Olha como nosso estagiário é esperto.

Carol: Você é um gênio, fico te devendo essa.

Zé: Vou cobrar hein?

Carol sorri indo até a impressora pegar as páginas e levando para o editor.

29. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA/ INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO ROBERTO

[♫ – “All Star” – Cassia Eller]

Gabriel e Larissa conversavam pelo MSN, combinando como seria o passeio no dia seguinte.

Larissa: Você não pediu para sua mãe convidar a Carol, eu e meu pai?

Gabriel: Não, foi idéia dela. Mas não vou reclamar.

Larissa: Nem eu, apesar do castigo, vamos sair de casa amanhã.

Gabriel: Você tem bicicleta?

Larissa: Tenho, por quê?

Gabriel: Leva a sua e a gente pode sair pra dar uma volta sem pais e irmãos.

Larissa: Legal. Você tava me falando da música que a banda tá ensaiando.

Gabriel: Tô mandando para você agora. Não é a versão final, porque essa gravação está sem a bateria.

Larissa: Ok, vou escutar. Aquela outra que você mandou está muito boa. Vocês precisam tocar mais.

Gabriel: Você pode ir ao ensaio qualquer dia. Vai gostar.

30. INTERNA – NOITE – CONSULTÓRIO MÉDICO – SALA DE ESPERA

[♫ – “Details in the fabric” – Jason Maraz feat. James Morrison]

Carlos olha a seu redor. Em um canto um vaso de planta artificial. Do outro lado um aquário com vários peixes, em cores diferentes. A iluminação acolhedora e a música ambiente completavam o cenário. Não podia acreditar que estava na sala de espera de uma psicóloga. Ainda não acreditava que tinha seguido o conselho de Pâmela. Ele pega uma revista e começa a folhear, mas não tem paciência para ler e usa a revista para se abandar. Começa a balançar as pernas e olhar para o teto.

Mulher: Primeira vez?

Carlos: O quê?

Mulher: Primeira vez que vai fazer terapia?

Carlos: Tão óbvio assim?

Mulher: Um pouco, é mais um reconhecimento de como foi comigo.

Carlos: E já se acostumou?

Mulher: Um pouco, ainda me parece estranho contar coisas tão pessoais para alguém que não conheço, mas está me fazendo bem.

Carlos: Espero que me ajude também.

A secretária avisa Carlos que ele pode entrar. Ele se despede da mulher com quem conversava e entra na sala da doutora Ruth Costa. Mais parecia uma sala do que um consultório. Só a mesa no canto da sala comprovava que era realmente um consultório. Ele olha para a psicóloga e sorri.

Ruth: Por que não se senta, Carlos? Vai ficar mais confortável.

Carlos: Sim, claro.

Ruth: Por que você não começa me contando um pouco de você?

Carlos: Eu sou gay, e advogado.

Ruth: Por que você começou com essas duas características suas?

Carlos: Não sei. Achei que era importante começar por elas.

Ruth: Interessante. – ela fala e anota alguma coisa em sua prancheta.

Carlos: O que você está anotando?

Ruth: Só a informação que você acabou de me passar.

Carlos: Eu já me assumi há algum tempo, minha família toda sabe e não tem problema algum. E falei a minha profissão. Mas posso falar da minha família complicada, que está toda separa e cada um preocupado com seus próprios problemas.

Ruth: Os problemas da sua família o afetam muito?

Carlos: Sim, um pouco, mas eu sou a pessoa que escuta cada um deles, que dá conselhos, que ajuda a solucionar os problemas.

Ruth: Você recebe o mesmo apoio quando precisa?

Carlos: Sim, eles são minha família. Eles só têm muitos problemas.

Carlos fica calado, olhando para o chão, sem saber como se comportar, o que falar e como falar. Sentia-se constrangido.

Ruth: Quer falar por que resolveu vir até aqui?

Carlos: Uma amiga falou que eu devia tentar fazer terapia, que talvez me ajudasse, mas a segunda opção está parecendo cada vez melhor.

Ruth: Segunda opção?

Carlos: Não é nada, deixa para lá.

Ruth: Você está envolvido em algum relacionamento?

O desconforto de Carlos aumenta. Ele não queria falar sobre Sérgio e sobre como tudo terminou. Olha para o relógio e percebe que o tempo não passava tão rápido dentro daquele consultório.

Ruth: Carlos? – ela insiste percebendo que aquele era um ponto de tensão.

Carlos: Eu não quero falar sobre isso. Na verdade acho que isso é uma perda de tempo. – ele fala se levantando e indo até a porta

Ruth: Carlos, você veio até aqui para encontrar respostas para seus problemas

Carlos: Então por quê não me dá logo as respostas? Seria muito mais fácil.

Ruti: Eu não estou aqui para te dar respostas, mas para ajudar você a encontrá-las.

Carlos: Isso não vai adiantar, desculpa te fazer perder seu tempo.

Carlos sai da sala e do prédio como se estivesse sendo perseguido. Ele não estava pronto para falar como se sentia. Ainda era difícil admitir para si mesmo que estava sozinho e infeliz. Ele encostou a cabeça no banco do carro e respirou fundo para se acalmar antes de ir embora para casa.

31. EXTERNA – DIA – BOSQUE DA BARRA – ESTACIONAMENTO

Sara ajuda os gêmeos a saírem do carro, e Carol chega com Roberto e Larissa. As crianças correm na direção da tia, e ela fica para trás, fechando o carro. As duas se abraçam quando se vêem.

Carol: Que ótima idéia vir aqui hoje.

Sara: Pena que o Júnior não pôde vir.

Carol: Não pôde? Sara, eu já falei pra vocês, precisam dar um tempo para ele.

Sara: Não, ele não pôde mesmo, ia sair com uma garota.

Carol: E você sabe disso como?

Sara: Eu liguei no apartamento da Rebeca, para chamar o Júnior e ela me contou. Parece que ela não nega o DNA dos Andrades.

Roberto: Vocês Andrades não têm jeito, sempre se metendo um na vida dos outros.

Sara: Como vai, Roberto?

Um pouco a frente dos adultos, Gabriel e Larissa também se cumprimentam. A princípio não sabem como agir e meio desajeitados se abraçam e dão um beijo no rosto.

Gabriel: Oi, tudo bem?

Larissa: Tudo. – ela sorri tímida.

Gabriel: Os pestinhas hoje estão agitados.

Larissa: Eu queria ter irmãos.

Gabriel: Pode levar os meus pra você. – os dois dão risada.

Logo os gêmeos foram fazer companhia ao irmão e Larissa, e os quatro dispararam na frente, deixando os adultos para trás, conversando.

32. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA REBECA

Júnior estava sozinho em casa. Rebeca tinha ido passar o dia com sua mãe. Ele tinha dormido pouco durante a noite, sonhou com Guilherme perguntando por que ele o tinha esquecido. Júnior senta e pega o violão pela quarta vez, mas não consegue tocar muitos acordes. Ele deixa o violão de lado e resolve sair.

33. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES

Nora olha o contrato para publicar um livro seu. Não sabia o que fazer e aquela dúvida a deixava angustiada. Sempre pensou em escrever um livro, mas sua vida de esposa e mãe não deixava muito tempo para se dedicar. Agora ela tinha a oportunidade a sua frente, era só assinar o contrato, mas quando pegava a caneta, não conseguia continuar. Nora estava sozinha em casa, a mãe estava em um almoço com as outras senhoras do grupo de oração. Ela então se levanta e resolve sair.

34. EXTERNA – DIA – BOSQUE DA BARRA – PLAYGROUND

Carol e Roberto estavam sentados em um banco conversando. Sara estava atenta a Rafaela e Eduardo, que se divertiam com outras crianças nos brinquedos antes das atividades programadas começarem. Gabriel e Larissa tinham ido dar uma volta de bicicleta.

Roberto: Essa semana foi tão corrida que eu nem tivemos tempo para conversar.

Carol: Tudo bem, nem tenho muito que contar.

Roberto: O que foi? Ainda continuam os problemas no jornal?

Carol: Nada de anormal, a mesma coisa de sempre. Essa semana foi até melhor.

Roberto: Mas…

Carol: Eu acordava entusiasmada para ir trabalhar. Saber o que acontecia nos bastidores da política, analisar as medidas votadas, ou não votadas. Investigar alguma denúncia que chegava até o jornal. Era estimulante, eu sentia que estava cumprindo meu dever.

Roberto: Você está arrependida da mudança que fez?

Carol: Não, estou desestimulada. E talvez meu ego também tenha sido ferido nesse processo, já que não sou a repórter principal. E as notícias que tenho que cobrir? Roubos, assaltos, assassinatos, enchentes, filas nos hospitais, surto de dengue. – ela começa a rir

Roberto: O que foi?

Carol: Essa semana quando eu peguei a reportagem de capa do caderno de domingo, a Karina só faltou cair dura no chão de tanto ódio.

Roberto ia falar alguma coisa quando escutam o grito de uma criança e percebem que era Rafaela que tinha caído do brinquedo. Sara já estava perto dela. Os dois foram correndo saber se tinha machucado muito.

Sara: Calma filha foi só um susto.

Ela aninha a garota para fazê-la se acalmar. O joelho arranhado, mas nada grave. Ela se distraiu e não percebeu quando Dudu empurrou outro garoto no chão.

Eduardo: Você empurrou minha irmã. Agora você vai ver.

Eduardo e o garoto começam a se empurrar e tentar chutar um o outro. Carol e Roberto vão até o garoto e tiram-no da confusão. Ele se debatia no colo de Roberto até perceber o olhar duro de Carol.

Eduardo: Ele empurrou a Rafa. Ninguém faz nada com minha irmã.

Roberto: Você tem razão, você deve defender sua irmã e qualquer mulher.

Carol: Roberto…

Roberto: Mas você deve defendê-la com a cabeça, com palavras e não com os punhos.

Eduardo: Mas eu sou forte.

Roberto: Eu percebi isso.

Sara: Eduardo, quando chegar em casa vamos ter uma conversa séria.

Eduardo: Mas mãe…

Carol: Nós já falamos com ele, Sara. Como tá a Rafa?

Sara: Foi só um susto e uns arranhões no joelho.

35. EXTERNA – DIA – BOSQUE DA BARRA – TRILHA DE CICLISMO

[♫ – “All Star” – Cassia Eller]

Gabriel e Larissa tinham pedalado por um tempo, depois encontraram um lugar calmo e fresco e sentaram-se. Eles falavam da escola, dos amigos, de música.

Larissa: Eu não falei antes, mas gostei quando você ligou.

Gabriel: Você falou para eu ligar.

Larissa: É, eu sei. Mas a Carol falou que nem sempre os garotos ligam.

Gabriel: Você contou pra minha tia?

Larissa: Não, fiz uma pergunta geral, ela não sabe que falava de você. Você não quer que ninguém saiba?

Gabriel: Não. Quer dizer, sim, mas não agora. Eles são adultos, vão ficar fazendo milhões de perguntas e recomendações como se a gente fosse criança.

Larissa: É eu também acho, só estava confusa.

Gabriel: Tudo bem, eu também perguntei umas coisas para meu tio Carlos.

Larissa: O que você perguntou?

Gabriel: Queria saber como a gente sabia se gostava de alguém.

Larissa: E…

Gabriel: E pelo que ele falou, eu sei que gosto de você… muito.

Larissa sorri e se inclina ao mesmo tempo em que Gabriel. Ele segura a mão dela na sua. Os dois fecham os olhos e os lábios se tocam. Se o primeiro beijo tinha sido surpresa e sem jeito, esse era repleto cheio de expectativa e sonhos. Os dois se afastam e olham nos olhos um do outro.

Larissa: Eu também gosto de você… muito.

36. EXTERNA – DIA – CEMITÉRIO

[♫ – “Hope for the Hopeless” – A Fine Frenzy]

Júnior demora um pouco para encontrar a lápide de Guilherme. Ele olha ao redor e vê algumas pessoas à distância e resolve sentar. Ele não tinha voltado ali desde o dia do enterro. Sentia-se calmo depois de muito tempo. O homem de quem ele recebeu seu nome, que ele cresceu admirando e respeitando, era também o homem que cometeu muitos erros, guardou muitos segredos e apesar de tudo ele sentia falta. Aquela era a primeira vez que admitia aquilo, que sentia falta de seu pai.

Júnior: Eu não te abandonei, pai, nem o resto da família. Eu só queria que tivesse me contado a verdade antes.

Tantas vezes ele se sentiu diferente do resto dos irmãos, mas achava que era a diferença de idade entre eles. Não duvidava que fizesse parte da família, por mais que quisesse negar. E a maior prova de aceitação foi receber o mesmo nome que Guilherme.

Júnior: Tudo vai se resolver, eu só preciso de tempo e de encontrar uma forma de ser o homem que você queria.

37. EXTERNA – DIA – CEMITÉRIO

[♫ – “Hope for the Hopeless” – A Fine Frenzy]

Nora anda até a lápide do marido, mas para antes quando percebe que alguém está ali. Ela puxa os óculos escuros e reconhece Júnior. Seu primeiro instinto é caminhar até o filho e abraçá-lo, mas acha melhor deixar ele sozinho.

Ela olha para cima e sorri, como que agradecendo Guilherme, por ter levado Júnior ainda bebê para casa e agora ter levado ele até ali. Nora sente a angústia que tinha no peito desde o dia que Júnior foi embora diminuir. Ela sorri e recoloca os óculos. Tempo, era isso que Júnior queria e era o que ela daria a ele. Agora sabia que seu filho caçula ainda voltaria para casa e que todos os problemas de alguma forma iriam se resolver.

Continua…

TRILHA SONORA

Jason Mraz feat. James Morrison – Details in the Fabric

Kristin Hersh – Trouble (versão do video com Cat Stevens)

A Fine Frenzy – Hope for the Hopeless

Wilson Sideral – Ela foi embora

Cássia Eller – All Star

4 Respostas to “Juntando os Pedaços”

  1. Gustavo Says:

    Salve galera.

    Nada como terminar o feriado lendo as peripécias da família Andrade.

    Coitada da Carol, é difícil trabalhar num local onde existem pessoas que querem à todo custo de passar a perna. Já trabalhei com um tipinho assim e detalhe, tinha K no nome tb.

    Fiquei com pena do Carlos. Como bem disse ele para a terapeuta, ele é os ouvidos e conselheiro da família, mas quando é ele quem precisa de ajuda? Quem estende a mão à ele?

    E sabe de uma coisa, estou começando a ver a Pâmela com outros olhos. Ela me parece ser uma pessoa legal. Gostei quando ela comparou nós, advogados, com os terapeutas. Tal situação é muito corriqueira, pois certas pessoas só querem desabafar com alguém sobre os problemas. Via isso muito no Núcleo de Práticas.

    Larissa e Gabriel engatando um namoro!! Só quero ver a reação das famílias!!

    Falando nisso, a situação entre Sara e Fernando estão cada dia mais tensas. Eles precisam sentar que colocar tudo em pratos limpos, pois isso já está afetando os filhos.

    E a Rebeca hein?! Morrendo de ciúmes??? Quem ela pensa que é?! Dona do Júnior??? Vai trabalhar nega e esquece dele…

    Para finalizar, a cena do Tomás com o porta-retrato e do Júnior no cemitério me arrancaram lágrimas. Espero que esse dois façam as pazes e voltem às boas.

    Até o próximo.

    [ ]’s.

  2. Natie Says:

    Ei pessoal! 😀 Vamos então ao episodio 3…

    Então, vou ter que falar de novo de Larrisa e Gabriel 1º… hehe… Que historia fofa vcs estão criando! E adorei as conversas que eles tiveram com a Carol e o Carlos… Ri lendo as duas…

    Vibrei qdo o cara ligou pra Nora querendo lançar um livro com o que ela escreve… E ela tem que assinar logo esse contrato sem pensar! (brincadeira, ela tem que ler direitinho primeiro… hehe)

    hahaha… a Diva de tão mala, chega a ser engraçada… adoroo as cenas com ela!

    E o q foi Carlos na terapia? E eu como futura psicologa, vou defender uma terapia pro Carlos… Mas essa mulher tem que ser legal tipo o Paul de “In Treatment”… haha… Gostei das cenas dele e da Rebeca tbm… Tomara q eles se aproximem durante esse trabalho juntos… Aaah, e levando tequila pra casa da Sara: demais! Pena q ele nao pôde desabafar neh?

    Tomas ARREPENDIDO! Uau! Nem acreditei qdo li… Esperando pelo ‘I’m sorry’ no proximo episodio… Assim como a Nora acredito que os problemas vão se resolver…

    Raivaaaa da Karina! Alguém por favor faz a Carol dar uns tapas nela? hehe… E por falar nela, espero q consigam achar o tio… Cruzando os dedos!

    E é isso aí Fernando! Vai a luta e dá um ultimato a Sara… haha… (tá na hora né?)

    Rebeca com ciumes! Eu torço por um romance dela e do Junior, então… Vamos ver no que vai dar… E que bom ver o Junior entusiasmado com a APAE!

    Acho que eh só… Sinto que no prox epi os pedaços juntados começarão a se encaixar…

    Beijos pessoal! 😀

  3. Julia Says:

    Ahhhhn!!!

    Que fofo esse final!!

    Tava com muita saudade de ler vocês…

    Amei a cena da Larissa e do Gabriel.

    Mais continuo revoltada com a Sara e o Ferdi…

    E a Vitória é muito fofa!!

    E meu deus, que insuportável o casal novo, Saulo e vera!
    E também ainda não achei o sentido do Paulo na história, estou curiosa!!

    Afff.. muitas críticas.. Mais nossa, muito bom esse ep. Muito gostoso de ler..

    O Carlos tem estado presente e tão tristinho né.. Tadinho! Cade o novo caso dele po, ele é tao fofo, merece 😀

    Mais, sério, só vcs pra me fazerem ler textos no pc..
    Gosto muuuuuito 😀

    Beijos e..

    *volta sara e ferdi*!

  4. Julia Says:

    Aaah um ps.: Não tenho opnião formada sobre o pseudo-casal Rebeca e Jr..
    Mais ela com ciúmes foi fofo..
    Mais eu sei q vcs vão dar um bom jeito neles (diferentemente do da Sara e do Ferdi – to revoltada)

    ;*

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