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Nos episódios anteriores: Saulo resolve chamar a editora de Paulo Novaes. Tomás conta a Júnior que ele é adotado. Sara e Fernando têm uma recaída. Roberto e Carol começam a procurar o corpo do irmão desaparecido de Nora e Saulo. Nora briga com Tomás, que acaba machucando as costas gravemente.

1. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS – ADMINISTRAÇÃO – ESCRITÓRIO DE SARA / EXTERNA – DIA – RUAS DO RIO DE JANEIRO

    Sara estava sobrecarregada de tarefas. Tomás estava licenciado durante três semanas por causa de suas costas e Sara ainda tinha as aulas para preparar. Ela olha para o relógio e resolve ligar para Fernando.

    Fernando andava a pé quando atende ao telefone.

    Fernando: Pronto!

    Sara: Fernando, você vai fazer alguma coisa hoje?

    Fernando: Ahm… deixa eu ver minha agenda…

    Sara: Agenda? Você conseguiu alguma coisa? Entrevista ou algo do tipo? – diz, empolgada.

    Fernando: Não, foi uma brincadeira – diz, arrependido. Ele pára de andar.

    Sara: Ah, tá. Então você está livre? – pergunta sem emoção.

    Fernando: Tô sim. Quer que eu busque as crianças?

    Sara: Aham! Desculpa. É que eu estou cheia de coisas para fazer, principalmente agora, com o Tomás licenciado.

    Fernando: Ele está melhor?

    Sara: Da dor nas costas, sim. Dos problemas com mamãe, esses só pioram.

    Fernando: Eles brigaram de novo?

    Sara: Brigaram. Ele não quer se desculpar com Júnior. Por orgulho, presumo. Um idiota. E mamãe brigou com ele de novo na clínica por ele ter deixado o problema das costas chegar tão longe sendo que ele tem que tomar conta de Vitória… Enfim, mais uma crise na família para se somar a todas as outras!

    Fernando: Tá ok. Eu pego os pequenos.

    Sara: E peça desculpas por mim. Dudu e Rafa devem estar muito apreensivos com a escola nova e eu nem fui buscá-los.

    Fernando: Eles vão entender, Sara.

    Sara: Isso não me exime da culpa, Ferdi… Tenho que desligar. Beijos.

    Fernando: Beijos.

    2. INTERNA – DIA – CASA DE SAULO – SALA

      Vera e Saulo estavam sentados nas pontas opostas de uma mesa para seis pessoas e tentavam mais uma vez chegar a um acordo.

      Saulo: Você está me pedindo para escolher entre você e a minha família e isso eu não vou fazer!

      Vera: Eu não estou pedindo isso!

      Saulo: Então, por favor, seja mais clara, porque para mim é exatamente isso o que você está pedindo.

      Vera: Eu sou sua família também! É isso o que quero dizer! Rebeca sempre o viu como um pai para ela…

      Saulo: Pare de tentar me manipular, Vera.

      Vera: Eu não estava… Desculpa.

      Vera reconhece sua culpa e abaixa a cabeça.

      Saulo: Você foi amante do meu cunhado por mais de 20 anos, Vera. A nossa “situação” não é das mais comuns.

      Vera: Eu entendo. Mas eu preciso saber que você está lutando por mim, por nós. Nós não podemos continuar tendo a mesma conversa o tempo todo.

      Saulo: Eu me afastei da minha família por você. O que mais você quer?

      Vera vai até ele, sentando-se na cadeira mais próxima. Ela pega em suas mãos e olha fixamente em seus olhos.

      Vera: Eu imagino como isso está sendo difícil para você. E eu aprecio o sacrifício que você está fazendo por nós. Mas quando sua mãe veio aqui e você foi posto contra a parede, você vacilou. Ela é sua mãe e eu não quero ser um obstáculo entre vocês dois.

      Saulo: Você está terminando comigo?! – pergunta, incrédulo.

      Vera: Não! Nunca! – ela coloca as mãos no rosto dele. – E eu não estou pedindo que você escolha entre ela e eu também. Você não pode e nem deve escolher! O que eu quero, o que eu estou pedindo é que você aja como exatamente desse jeito: como se não precisasse escolher.

      Vera o beija de leve.

      Vera: Eu te amo, Saulo.

      3. INTERNA – DIA – BARBOSA-LIMA ADVOGADOS – ÁTRIO

        Carlos havia acabado de voltar do almoço e sua secretária lhe atualizava de sua agenda.

        Mônica: O RH selecionou três estagiários para você entrevistar…

        Carlos: Três de quantos?

        Mônica: Quatorze.

        Carlos: Bom. Marque uma entrevista com cada um deles. Todas no mesmo dia. Quero me ver livre disso logo.

        Mônica: Certo. O cliente do caso versus companhia telefônica ligou requisitando falar com o senhor e agendei para quarta-feira, logo após o ensaio de depoimento de…

        Carlos: Mas o ensaio era hoje!

        Mônica: Eu sei. Tive de remarcar. O senhor recebeu esse memorando há cinco minutos. Era urgente.

        Mônica passou a Carlos papel quadrado branco com as bordas pretas. O memorando descrevia uma lista de seis pessoas convocadas para uma reunião importante.

        Carlos: Sala de conferências C às 13h30? A Sala C?! Ai meu deus!

        Mônica: Você tem dez minutos. Dentes? – Carlos sorri. – Hálito? – Carlos sopra no rosto de Mônica, que estava ajeitando a gravata dele.

        Carlos: Visual?

        Ela passa rapidamente a mão pelo cabelo de Carlos.

        Mônica: Tudo cem por cento. Vai lá e arrasa – e entrega a Carlos a maleta dele e um cartão magnético.

        Carlos: Eu já te disse que você é incrível? – os dois chegam à bifurcação de um corredor e cada um vai para um lado.

        Mônica: Nunca o suficiente!

        4. EXTERNA – RUAS DO RIO DE JANEIRO

          Fernando estava no carro com seus filhos, levando-os para casa de Sara. Os três estavam em um tanto chateados.

          Fernando: E então, Gabs? Como foi o primeiro dia de aula na escola nova?

          Gabriel: Foi.

          Fernando: Os professores são legais? Já fez amizades?

          Gabriel: Ahn… Não e não – diz como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo.

          Rafaela: A tia brigou comigo. Ela fala muito alto e a voz dela é estranha – diz, chorosa.

          Eduardo: E o cabelo dela é estranho também – ri.

          Fernando: Eu sei que uma escola nova é complicado e…

          Gabriel: Pai, a gente sabe, tá.

          Eduardo: Cadê mamãe? Ela disse que viria buscar a gente hoje.

          Fernando: A mãe de vocês está ocupada.

          Gabriel: Novidade! – murmura para si.

          Fernando olha repreensivo para o filho, que evita o olhar e passa a encarar a janela. Eles passavam em frente a uma escola. Vários alunos estavam na calçada, esperando seus respectivos pais.

          Gabriel: Pode me deixar aqui? – pergunta, mais dócil.

          Fernando: Por quê? – pergunta desconfiado.

          Ele demorar a responder.

          Gabriel: Vou me encontrar com a galera da banda. Te falei da música nova que a gente está ensaiando?

          Fernando: Não! – diz, empolgado.

          Gabriel: Se a gente ensaiar hoje, eu gravo para você ouvir.

          Fernando: Ótimo.

          Fernando estaciona o carro, e Gabriel se despede do pai e dos irmãos.

          Fernando: Ai, ai, crianças…

          Eduardo: O quê?

          Fernando: É esse humor volátil do Gabs. Um dia vocês vão ficar iguaizinhos a ele.

          Rafaela: Eca.

          5. INTERNA – DIA – ÁGORA RJ – REDAÇÃO / INTERNA – DIA – ÁGORA SP – REDAÇÃO

            Frank, o antigo editor-chefe de Carol em São Paulo, liga para Carol buscando saber como estava o novo trabalho.

            Carol: Um inferno! – diz, se trancando no banheiro. – Sabe de onde estou falando com você? Do banheiro! É, do banheiro! O único lugar que eu ainda acredito que não esteja infestado de escutas!

            Frank: Não pode ser tão ruim assim – diz, rindo.

            Carol: Ruim?! Frank, não existe um adjetivo que consegue fazer jus a… – ela geme de raiva. – E as matérias?! Eu tive que escrever sobre o livro novo da Vera Fischer! Isso é o quê? Cidades ou o Segundo Caderno?

            Frank: Eu li a matéria. E vai com calma! Segundo Caderno é cultura, né? E não Caras.

            Carol: É, eu sei. Mas fiquei com medo de parecer preconceituosa. Não gosto de julgar as pessoas…

            Frank: Está na profissão errada, então – debocha.

            Carol: …fora do meu ambiente de trabalho! Sou muito feliz com a minha profissão, obrigada. Apesar do atual momento de crise.

            Frank: Eu sei que você consegue superar isso.

            Carol: Frank.

            Frank: Diga.

            Carol: Eu quero voltar…

            Frank: Eu sinto muito, Carol, mas…

            Carol: Eu sei, eu sei…

            Frank: Se você quiser, eu posso tentar fazer alguma coisa.

            Carol: Não, não, não! Não faz nada. Se não eles vão me achar infantil, mimada e chorona.

            Frank: Mas você é!

            Carol: Não se atreva! – ri.

            Frank: Olha, eu tenho que ir agora.

            Carol: Tá legal. Beijos… Tchau.

            Carol desliga e se olha no espelho. Ela prende os cabelos e molha o rosto, preparando-se para sair do banheiro.

            6. EXTERNA – RUAS DO RIO DE JANEIRO – ESCOLA

              Gabriel tinha acabado de descer do carro. De longe ele viu Larissa. Rapidamente ele pegou o telefone celular e começou a fingir que estava falando ao telefone.

              Larissa viu Gabriel. Ela tenta acenar para ele, mas ele estava ao telefone e não a viu. Ela se despede das amigas e vai até ele.

              Larissa: Oi.

              Gabriel vira-se fingindo surpresa.

              Gabriel: Oi! Cara, eu te ligo mais tarde – despede-se de mentira.

              Larissa: O que você está fazendo por aqui? – pergunta apontando para o uniforme. – Sua escola é bem longe.

              Gabriel: É… Eu tenho um amigo que estuda aqui. Eu estava falando com ele agora. Parece que ele já foi embora.

              Larissa: Ahm, tá.

              Os dois ficam em silêncio um tempo, sem saber o que dizer.

              Larissa: Eu achei seu blog!

              Gabriel fica com vergonha.

              Larissa: É bem legal. Mostrei até para umas amigas. Elas não queriam no início. Acham que era alguma coisa emo. Mas depois que elas leram, elas gostaram também.

              Gabriel: Ah, eu reparei nos comentários extra. Obrigado. Meu MSN está lá no perfil do blog. Se você quiser…

              Larissa: Quero sim!

              Os dois ficam em silêncio mais uma vez.

              Gabriel: Eu tenho que ir agora.

              Larissa: Quer uma carona? Meu motorista já deve está chegando…

              Gabriel: Uau! Você tem um motorista?

              Larissa: Coisa do meu pai. Ele anda meio neurótico. Mas e então? Vai querer a carona?

              Gabriel: Não precisa. Vou andando. Mas obrigado mesmo assim.

              Os dois se despedem e viram para lados opostos. Gabriel pára e passa a mão no rosto com raiva. Ele se vira de novo e chama Larissa.

              Gabriel: Larissa! – e corre até ela. – É… Se você não precisar ir para casa agora… se você quiser… eu tô indo ao cinema agora e…

              Larissa fica vermelha.

              Larissa: Meu pai não iria gostar… Ele não gosta que eu fique até tarde na rua.

              Gabriel: A gente pode ir agora?

              Larissa: Agora? – diz, sorrindo.

              Gabriel: Se você quiser. Assim você não volta tarde para casa.

              Larissa: Deixa eu ligar para ele.

              Gabriel puxa o telefone e liga para seu pai.

              Gabriel: Pai? É, eu posso ir ao cinema? Eu sei, mas é agora de tarde. Logo… Logo eu voltaria cedo. Ah, pai… Ninguém. Eu vou sozinho. Tô precisando dar uma espairecida. Sete horas. Tchau.

              Larissa tentou ligar para o seu pai, mas caiu na caixa de mensagens. Resolveu então ligar para a tia e para o motorista, avisando que ele não precisaria ir buscá-la.

              Gabriel: Pronto? Tudo resolvido?

              Larissa: Tudo.

              7. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA – SALA

                Fernando falava com Gabriel ao telefone.

                Fernando: Não. É dia de semana. Sua mãe mataria a nós dois. Logo…? Tá legal. Seis horas. Sete no máximo, ouviu? Quem vai com você? “Ah, pai”, nada. Quem vai? Ninguém? Ah, tudo bem. Espairecida. Ok. Sete horas. Tchau.

                Fernando abriu um largo sorriso.

                Rafaela: Pai, tá na hora do meu remédio.

                Fernando: Vem cá! – e a pega no colo. – Vamos ver isso.

                Eduardo: Pai, tô com fome.

                Fernando: Vamos ver isso também.

                Fernando estende a perna, e Eduardo se agarra com os braços e pernas na perna dele e assim Fernando os leva para a cozinha.

                Fernando: E então? Querem comer o quê?

                Eduardo: Sorvete!

                Fernando: Nada disso. Isso é sobremesa.

                Rafaela: Mas pai…

                Fernando: “Mas pai…”? Você nem pode tomar sorvete, Rafa. Vamos fazer o seguinte – ele coloca os filhos no chão e ajoelha-se. – Eu deixo você tomar sorvete e você se empanturrar de biscoito se vocês falarem para a mãe de vocês que vocês gostaram da escola nova.

                Eduardo: Mas a professora é feia.

                Fernando: Mas se vocês disserem isso para a mãe de vocês ela vai ficar muito, muito triste.

                Rafaela: Tadinha…

                Eduardo: Tá bom! Cadê o sorvete?

                8. INTERNA – DIA – CENTRO DE REABILITAÇÃO RENASCER

                  Nora resolveu procurar Dolores e deixá-la a par do que estava acontecendo com Júnior.

                  Nora: Obrigada por me receber, Dolores.

                  Dolores: Não há de quê. Então, você me disse ao telefone que temia que seu filho tivesse algum tipo de recaída?

                  Nora: Sim. Nas últimas semanas, alguns problemas tem cruzado o dia-a-dia da minha família e todos eles afetam diretamente ao Júnior.

                  Dolores: E esses problemas seriam de que natureza?

                  Nora fica acanhada, como se não quisesse compartilhar parte de sua privacidade com uma estranha.

                  Dolores: Não é preciso entrar em detalhes. Refiro-me apenas à natureza deles: emocional, financeira, etc.

                  Nora: Emocional. Ele e Tomás, um irmão dele, não estão se falando.

                  Dolores: Entendo. E Júnior apresentou algum tipo de sinal de recaída ou é apenas suposição?

                  Nora: Apenas suposição. Eu me sinto mal por estar fazendo isso, falando com a senhora sem ele saber, mas é que ele se empenhou tanto nesse processo…

                  Dolores: Não se sinta mal, dona Nora. A senhora está corretíssima. Júnior ainda vem aqui três vezes por semana para orientação e ainda possui um tutor no trabalho voluntário que se reporta diretamente a nós. Se ele tiver algum tipo de recaída, nós tomaremos as medidas necessárias.

                  Nora: Muito obrigada – diz, colocando a bolsa nos ombros e se levantando da cadeira.

                  9. INTERNA – DIA – ONG PRÓ-INFÂNCIA

                    Júnior chegou atrasado para seu trabalho voluntário. Ana Paula, a tutora de Júnior, veio até ele.

                    Ana Paula: Júnior, que horas são essas?

                    Júnior: Desculpa, Ana “Pê”. Não vai se repetir.

                    Ana Paula pegou sua prancheta e fez umas anotações. Ela analisa bem Júnior, como se procurasse alguma coisa escondida.

                    Ana Paula: Tudo bem.

                    De repente, eles ouvem um choro alto e gritos vindos do cômodo ao lado. Os dois vão ver o que causava o barulho: uma criança gritava pela mãe, que não estava ali.

                    Ana Paula: Essa é Tainá. Dez anos. Foi deixada aqui em frente hoje mais cedo… A mãe disse para ela esperar que voltaria mais tarde e não voltou. Havia um bilhete no casaco. Triste, não?

                    Júnior concorda com a cabeça.

                    Júnior: Ela tem…

                    Ana Paula: …síndrome de Down? Aham.

                    A menina chorava e não deixava que ninguém a tocasse. Júnior a encarava, perdido em seus próprios pensamentos, enquanto as pessoas iam se afastando aos poucos da menina.

                    Ana Paula: Tudo bem, Júnior?

                    Júnior: Está, sim – diz, despertando de repente.

                    10. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS – ADMINISTRAÇÃO – CORREDORES / INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE TOMÁS

                      Sara estava andando rápido, com duas resmas de papel em mãos quando vê Patrícia, secretária de Tomás, falando ao telefone.

                      Patrícia: Está bem, Tom…

                      Sara se aproxima e a secretária pára de falar.

                      Tomás: Patrícia? Patrícia?

                      Sara a olha com reprovação e estende a mão. Patrícia lhe entrega o telefone.

                      Tomás: Patrícia?

                      Sara: A Patrícia está a um passo de ganhar uma bela de uma suspensão – diz, enquanto entrega as resmas a secretária amedrontada.

                      Tomás não responde.

                      Sara: Eu sei que você está aí, Tomás! Eu ouvi vocês conversando. Eu consigo te ouvir respirando!

                      Tomás decide falar.

                      Tomás: A culpa foi minha, eu é que liguei.

                      Sara: E eu não sei disso? Agora nem pense em desligar esse telefone! O que você pensa que está fazendo? O médico disse repouso total. Total! Eu não tive que acordar de madrugada para ir ver você na clínica e não tenho que trabalhar dobrado aqui para deixar você ignorar as ordens dele. Você vai ficar longe desse telefone. Longe! Se quiser chegar perto, que seja para ligar para o seu irmão e pedir desculpas. Entendido?

                      Tomás: Aham.

                      Sara: Senão eu ligo para Vitória. Agora volta para o seu repouso e para a sua sopinha.

                      Tomás: Cruzes, você é pior que mamãe – e desliga.

                      Sara: Como é que é?! Desligou, né, seu covarde!

                      Patrícia, que ainda estava ali, olhava para Sara como se estivesse prendendo o riso. Ao ver o olhar de Sara, ela apressa-se:

                      Patrícia: Eu vou ser mesmo suspensa?

                      Sara revira os olhos.

                      11. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE TOMÁS – QUARTO

                        Tomás coloca o telefone na base e senta-se na cama. Alguns segundos depois ele estende o braço e pega o telefone de novo, mas o devolve para a base. Então, ele pega o vidro de remédios e engole um comprimido.

                        12. INTERNA – DIA – BARBOSA-LIMA ADVOGADOS – SALA DE CONFERÊNCIAS C

                          Carlos chegou à sala de conferências C e passou o cartão na maçaneta, destravando-a. Ao entrar na sala, ele notou as persianas sendo fechadas e o data-show sendo preparado. Havia ali, agora, as seis pessoas da lista, a co-presidente da firma, Guilhermina Lima e sua secretária.

                          Guilhermina Lima: Chegou quem faltava. Podemos começar. Mariana? – dirige-se à sua secretária, que, imediatamente, pega uma pilha de pastas em cima da mesa e sai distribuindo ordenadamente para cada um dos sentados. Lima continuou: – Vocês estão aqui porque eu preciso dos melhores, e vocês são os melhores que eu tenho – e ela frisa bem a ultima parte. Ela falava alto e firme, como se estivesse discursando. – Os casos que vocês possuem agora eu quero que arquivem. Clientes novos, passem adiante. Eu quero dedicação exclusiva nesse litígio.

                          Ela pega o controle e passa a primeira imagem no telão.

                          Guilhermina Lima: Página 4 – todos automaticamente abrem a pasta e procuram a página citada rapidamente. – A empresa Lumni S.A. pediu concordata três semanas atrás. Marta Espíndola, CEO da companhia, vendeu, no dia anterior, todas as suas ações. Nós representamos um grupo de funcionários da empresa que detinha aproximadamente 20% do capital aberto total…

                          Guilhermina Lima continuou falando e Carlos, assim como os outros, anotava freneticamente nas bordas do roteiro que recebeu.

                          13. INTERNA – DIA – APAE – DIREÇÃO

                            Júnior estava em frente ao computador lendo alguma coisa quando Ana Paulo veio falar com ele.

                            Ana Paula: Está fazendo o quê?

                            Júnior: Pesquisa – diz sem tirar os olhos do conteúdo que estava lendo.

                            Ana Paula: Sobre o quê?

                            Naquela hora, Júnior se levantou e saiu correndo.

                            Júnior: Já volto!

                            Ana Paula senta-se onde Júnior estava e vê que ele pesquisava sobre síndrome de Down.

                            14. INTERNA – DIA – APAE – SALA DE LEITURA

                              Júnior entrou na sala de leitura e puxou o primeiro livro que encontrou. Ao avistar a menina Tainá, ele sentou-se nem tão perto e nem tão longe dela e começou a ler o livro, dando olhares furtivos de propósito para ela. A menina começa a ficar curiosa.

                              Júnior: Quer ver?

                              Ela não responde e volta a encarar o chão. Júnior, então, coloca o livro aberto no chão e empurra devagar com o pé até a menina. Ela levanta o rosto, e Júnior imediatamente para de empurrar e olha noutra direção. A menina ri e pega o livro.

                              15. INTERNA – DIA – AGORA RJ – REDAÇÃO

                                Carol estava passando por entre as mesas e notava que os presentes, ao perceberem sua aproximação, todos eles rapidamente usam um atalho no teclado e minimizam as janelas do Messenger. Carol percebe um deles fazendo isso.

                                Carol: Ignora, Ana Carolina, ignora – diz para si mesma.

                                Ela senta em frente ao computador e nota alguma coisa diferente. Ela se levanta e vai até a mesa de Karina.

                                Carol: Karina, você sabe me dizer se alguém mexeu no meu computador?

                                Karina: Não.

                                Carol: Não de “não sei” ou não de “não mexeram”? – diz, com um risinho fraco.

                                Karina: Não de “não sei”. Mas eu acho que ninguém mexeu também – diz, com indiferença.

                                Carol saiu bufando de raiva e voltou para a sua mesa. Ela começou a configurar o computador e colocou uma senha. Aí ela pegou o pen drive do bolso e salvou todos os arquivos.

                                Karina: Ah, querida!

                                Carol: Sim, meu beeem?

                                Karina: Alguém ligou para você enquanto você estava no banheiro.

                                Carol: Quem?

                                Karina: Não disse o nome.

                                Carol revira os olhos e empurra a bancada, forçando a cadeira com rodinhas para trás e foi direto para a sala de seu chefe.

                                16. INTERNA – DIA – ÁGORA RJ – REDAÇÃO

                                  Carol: Alguém mexeu no meu computador.

                                  Horácio: Carol?! – diz, assustado.

                                  Carol: Alguém mexeu no meu computador. Sumiram arquivos. As pessoas telefonam e não anotam recados.

                                  Horácio: Carol, você não pode entrar aqui fazendo acusações desse tipo.

                                  Carol: Tem razão. Desculpa.

                                  Horácio: Eu não sei como era na sua editoria antiga, Carol, mas aqui as coisas são diferentes. Dê tempo ao tempo. Tente se adaptar.

                                  Carol: Eu sei. Eu estou tentando. É que aqui as pessoas ficam no Orkut e no MSN o tempo todo e…

                                  Horácio: Lá vem você com mais acusações, Carol.

                                  Carol: Mas não são…

                                  Horácio: A equipe já fez comentários de você e eu não levei em consideração por que você está se adaptando, mas você também tem que fazer a sua parte.

                                  Carol estava boquiaberta.

                                  Carol: Tem razão. Eu não estou fazendo a minha parte. Eu peço desculpas e prometo que vou me esforçar mais.

                                  Horácio: Muito bem.

                                  Carol se levanta e, ao abrir a porta, dá de cara com Karina.

                                  Karina: Oh! Eu já ia bater – e ri, falsamente.

                                  Carol olha para trás e Horácio olha para ela de volta. Então Carol responde:

                                  Carol: Agora você não precisa mais. Não é incrível?!

                                  Carol sai da sala e percebe os outros membros da equipe segurando risos enquanto Karina fechava a porta da sala de Horácio.

                                  17. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS

                                    Vitória: Tomás?

                                    Vitória tinha acabado de chegar em casa. Uma de suas amigas do banco tinha trazido ela de carona e a levou até a porta do apartamento. Vitória tinha acabado de se despedir dela quando Tomás apareceu.

                                    Vitória: Eu ia até você. Anda, volta para a cama.

                                    Tomás: Eu já fiquei na cama o dia inteiro! Não agüento mais!

                                    Vitória: Como você é teimoso! – ri.

                                    Ela foi até ele e ele se inclina para um beijo.

                                    Vitória: Nada disso. Olha suas costas.

                                    Tomás volta, contrariado.

                                    Vitória: Falando nisso, o analgésico está fazendo efeito?

                                    Tomás: Acho que sim. A dor está diminuindo.

                                    Os dois vão até a cozinha. Ele andava devagar e com uma mão às costas.

                                    Vitória: Suas costas estão doendo!

                                    Tomás: Não estão. Já disse que o analgésico está funcionando.

                                    Vitória: Mentira! Você nem consegue andar direito. Volta para cama, anda.

                                    Vitória estava pegando alguma coisa na geladeira e se atrapalhou na hora de fechar a porta por causa da cadeira de rodas. Tomás foi até ela.

                                    Tomás: Não está doendo, é sério. Não tanto assim. E assim que eu melhorar, vou ver se mudo a arrumação dessa cozinha, para ficar mais fácil para você.

                                    Ele puxa a cadeira e fecha a porta.

                                    Vitória: Obrigada.

                                    Tomás: Está com fome? Posso fazer alguma coisa para nós.

                                    Vitória: Não, Tomás! Você não vai fazer nada.

                                    Tomás: Eu já disse que estou bem!

                                    Vitória: E eu ouvi isso na semana passada antes de você travar e sua mãe quase se machucar para conseguir te tirar do chão!

                                    Os dois estavam em lados opostos da cozinha. Tomás dá as costas para Vitória e sai da cozinha. Ela vai atrás dele. Ela o alcança quando ele já está no quarto.

                                    Tomás: Pronto. Estou no quarto.

                                    Vitória: Tomás… Eu sei que é angustiante para você passar o dia inteiro trancado no quarto, mas…

                                    Tomás: Não deveria ser. Desculpa. Eu deveria ter visto isso das costas antes. Eu tenho que estar sempre bem para que você esteja bem.

                                    Vitória: Não é a mim que você tem que pedir desculpas. É a sua mãe e ao seu irmão.

                                    Tomás revira os olhos.

                                    Vitória: Ele é seu irmão. Não deveria ser tão difícil para você pedir perdão a ele. Tomás, a cada dia que passa vai ficando cada vez mais difícil pedir desculpas. Ponha esse orgulho de lado.

                                    Tomás: Eu não consigo.

                                    Vitória: Você não precisa dizer nada. É só você procurá-lo. Ele vai entender.

                                    Tomás: Ele não quer ver ninguém agora.

                                    18. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO – SAGUÃO

                                      Gabriel foi deixar Larissa em casa depois do filme.

                                      Larissa: Foi legal hoje.

                                      Gabriel: É, foi. E você chegou em casa a tempo.

                                      Larissa: É, cheguei.

                                      Gabriel tinha as mãos nas costas, mas as coloca nos bolsos. Larissa segurava ainda a mochila na frente, com as duas mãos. Os dois tinham ficado em silêncio de novo e começam a rir.

                                      Gabriel: Se você quiser a gente pode sair de novo.

                                      Larissa: Pode ser. Você me liga e a gente combina.

                                      Gabriel: Tá.

                                      Larissa: Você tem meu número?

                                      Gabriel: Não. É, eu não tenho.

                                      Os dois começam a rir de novo. Um entrega o seu celular para o outro e eles gravam seus números na agendas.

                                      Gabriel: Provavelmente eu vou ficar de castigo esse final de semana então pode ser no próximo.

                                      Larissa: Tudo bem. Acho que vou ficar de castigo também. Talvez só no final de semana seguinte.

                                      Gabriel: Por minha causa?

                                      Larissa: É. Mas eu gostei.

                                      Gabriel: Então… até a próxima.

                                      Ele se inclina e dá um beijo na bochecha dela. Ao voltar à posição normal, ele não vai embora. E ela não entra também. Eles não tiravam os olhos um do outro. E então os dois se inclinam e os lábios se tocam. Gabriel tentou colocar as mãos nela, mas não sabia onde. Ao tentar mudar de posição, a mochila de Larissa, que estava entre os dois, atrapalhou e os dois acabam se afastando.

                                      Larissa: Desculpa, a mochila…

                                      Gabriel: Não, tudo bem. É…

                                      Larissa: Eu vou entrar agora e você…

                                      Gabriel: Isso, eu vou e você vai. Isso.

                                      Larissa: Tá. Tchau.

                                      Gabriel: Tchau.

                                      Gabriel foi chamou o elevador, e Larissa ainda estava ali, só que com a porta aberta.

                                      Gabriel: O elevador. Já está vindo.

                                      Larissa: Aham. Eu espero…

                                      Gabriel: Chegou. Boa noite – Gabriel entra. – “Chegou. Boa noite”. Que idiota.

                                      19. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE CARLOS

                                        Ao chegar em casa, Carlos entrou carregando três caixas de arquivo, uma em cima da outra, e Pâmela vinha logo atrás, com apenas uma caixa.

                                        Pâmela: Meu deus! Eu não sinto as minhas mãos! – e desaba a caixa e cima da mesa. – Isso tudo é de um caso só?!

                                        Carlos: Aham – diz, animado. – Um caso só no qual eu fui escolhido a dedo pela co-presidente para fazer parte da equipe! Ela disse: “Eu preciso dos melhores e é por isso que vocês estão aqui!” – diz, imitando a voz fina e firme de sua chefe.

                                        Pâmela: Que bom!!! Quer sair para comemorar?!

                                        Carlos: Não posso… Tenho que começar a trabalhar nisso para ontem!

                                        Pâmela: Tá legal. Se precisar de ajuda, tô aqui do lado.

                                        Ela já estava na porta quando Carlos a chamou.

                                        Carlos: Se você quiser, amanhã, a gente pode almoçar. Aí a gente comemora!

                                        Pâmela: Beleza! Passo lá no seu escritório, então?

                                        Carlos: Combinado!

                                        Pâmela: Então, ao trabalho!

                                        Carlos fica sozinho e começa a retirar os documentos das caixas. Ele então pára e fica um tempo pensando. Devagar, ele pega o telefone e começa a discar o número de Sérgio. Ele discava devagar, como se não tivesse certeza do que estava fazendo. O telefone começa a chamar. De repente, ele ouve a voz de Sérgio e desliga correndo. Era uma mensagem eletrônica da caixa postal.

                                        Carlos: Merda! – diz, com a voz grossa de raiva, dando um chute na cadeira. – Merda! – diz, com a voz fina, arrependido ao ver que machucou o pé.

                                        Ele coloca o telefone na mesa e se senta. Mas ele levanta-se logo em seguida e vai até a base do telefone e desconecta a linha.

                                        20. INTERNA – NOITE – CASA DE SARA

                                          [♫ – “So Sorry” – Feist]

                                          Sara: Crianças, cheguei!

                                          Sara fecha a porta e nota o entranho silêncio em sua casa. Ao andar pela sala, ela encontra o pote de sorvete aberto, derretendo em cima da mesa de centro.

                                          Sara: Minha mesa!

                                          Ela corre até a mesa e retira o pote de sorvete e começa a tentar secar a pequena poça melada com a manga do terninho.

                                          Sara: Droga!

                                          Fernando chega à sala.

                                          Fernando: Sh… As crianças estão dormindo! Ah… sabia que tinha esquecido de alguma coisa! – diz, apontando para o pote de sorvete na mão de Sara.

                                          Sara: As crianças tomaram o pote inteiro?!

                                          Fernando: É. Menos Rafa. E o Gabs foi ao cinema. Eu sei que…

                                          Sara: Hoje é dia de semana, Fernando! Meu deus!

                                          Sara foi andando até a cozinha e jogou o pote de sorvete na pia.

                                          Sara: Ele foi com quem?

                                          Fernando: Ele não quis dizer… Acho que era uma garota – diz, sorrindo.

                                          Sara: Então ele não quer dizer com quem ele sai no meio da semana e você aceita isso?! Numa boa?!

                                          Fernando: Calma, Sara. Ele foi à tarde. Ele já deve estar chegando. Ele deve tê-la levado em casa – diz, sorrindo, com segundas intenções.

                                          Sara pega umas folhas de papel toalha e volta para a sala. Fernando vai atrás dela e a segura pelas mãos.

                                          Fernando: Lembra de quando a gente saiu pela primeira vez?

                                          Ele a puxa para perto dele e a abraça pela cintura. Sara deixa as folhas caírem no chão.

                                          Sara: Fernando…

                                          Fernando passa a mão pelos cabelos de Sara.

                                          Fernando: Você não faz idéia de como eu sinto a sua falta.

                                          Sara: Eu…

                                          Fernando não a deixa falar, pousando o indicador nos lábios dela. De repente, a porta se abre.

                                          Gabriel: Oi.

                                          Sara e Fernando tinham se afastado. Sara estava olhando para o chão, com a mão tirando os cabelos da frente do rosto.

                                          Fernando: Como foi o filme? Deu para espairecer?

                                          Gabriel: Vocês não estavam brigando de novo, estavam?

                                          Fernando: Não…

                                          Sara: Não, não estávamos. Gabriel, sem saída no fim de semana, ok?

                                          Gabriel: Tá. Desculpa.

                                          Fernando: Sara, eu deixei ele ir.

                                          Sara: Mas ele não podia!

                                          Fernando: Claro que podia, se eu deixei.

                                          Sara: Fernando, essa casa tem regras!

                                          Gabriel: Mãe, pai, parem!

                                          Os dois se viram para Gabriel.

                                          Gabriel: Não precisa brigar por causa disso. Tudo bem, eu estou de castigo no finde. Beleza. Desculpa, mãe. Não vai acontecer de novo.

                                          Sara: Tudo bem. Vá para o seu quarto.

                                          Gabriel obedece, feliz.

                                          Sara: Sem internet também.

                                          Gabriel consente, visivelmente desapontado. Sara se abaixa e pega as folhas de papel toalha do chão e passa na mesa de centro.

                                          Fernando: Sara…

                                          Sara: Eu acho que é melhor você ir agora.

                                          Fernando: Mas…

                                          Sara: Por favor.

                                          Fernando pega sua mochila no sofá e vai embora, fechando a porta sem fazer barulho.

                                          21. INTERNA – NOITE – CASA DE NORA – SALA

                                            Saulo: E essa é a última.

                                            Nora: Finalmente!

                                            Ela pega a mala das mãos de Saulo e coloca perto das outras duas que Saulo já havia trago.

                                            Saulo: E eu fiz essa lista com os remédios que mamãe toma e os horários. Ela mente dizendo que tomou então conte sempre os remédios da cartela. E ela só toma…

                                            Saulo e Nora: …com leite – dizem, rindo.

                                            Nora: Eu conheço a peça, não se preocupe.

                                            Saulo: Quer ajuda para colocar as coisas lá em cima?

                                            Nora: Não precisa. Ela já está esperando ali há um tempo – e faz sinal com a cabeça para a porta.

                                            Saulo olha para fora e vê Vera ao lado do carro, olhando para a rua.

                                            Saulo: Está bem, então – os dois se despedem com um beijo no rosto. – Qualquer coisa, é só telefonar.

                                            Diva: Telefonar? Não se preocupe, não o faremos.

                                            Diva caminhava em direção a Saulo.

                                            Diva: Você escolheu…

                                            Nora: Mãe, por favor, volta…

                                            Diva: …aquela ordinária…

                                            Nora: …para a cozinha…

                                            Diva: …e deu as costas para a sua família!

                                            Saulo: Não, mamãe. Você é que escolheu dar as costas a mim. Eu não. Sempre que você ou Nora precisarem de mim, eu estarei aqui. Caso contrário, eu estarei, sim, com Vera. Ela agora é minha família também, quer você goste disso ou não.

                                            Nora estava sem reação e Diva levou uma das mãos ao peito, profundamente ofendida.

                                            Saulo: Até logo, Nora.

                                            Nora: Até…

                                            Saulo foi até a porta, seguido de Nora, que o viu rumar até onde Vera estava. Os dois deram as mãos. Vera, ao olhar para trás, acenou timidamente para Nora, que acenou de volta e fechou a porta devagar.

                                            22. INTERNA – NOITE – CASA DE NORA – SALA

                                              Nora: Que diabos foi isso, mamãe?

                                              Diva: Não me venha com aquela lorota sentimentalista, Nora.

                                              Nora: Eu não ia…

                                              Diva: Ia sim. Isso é inadmissível, minha filha! Ela foi amante do seu marido por mais de vinte anos. Desde quando você é tão benevolente?

                                              Nora: Benevolente?!

                                              Diva: Sim, benevolente! A Nora que eu conheço teria enfrentado aquela mulher do mesmo jeito que enfrentou a mim e ao seu pai para se casar com aquele crápula que era o seu marido!

                                              Nora: Eu sofri durante meses, meses, mamãe! Não foi fácil aceitá-la e eu não o fiz por “benevolência”. Eu não questiono suas razões então não questione as minhas!

                                              Diva: Eu não gosto dela. E não quero o meu Saulo perto dela! – Diva começa a chorar silenciosamente.

                                              Nora, condescendente, vai até ela. As duas sentam-se no sofá.

                                              Nora: Mãe, ele gosta mesmo dela…

                                              Diva: Lá vem você… – soluça.

                                              Nora: Deixe-me terminar. Saulo é meu irmão e eu sei que ele nunca, nunca faria nada que me magoasse. E ele é seu filho e te ama muito e também nunca faria nada para te magoar.

                                              Diva: Eu estou magoada com ele.

                                              Nora: O que eu quero dizer é que, se ele está com ela, talvez não tenha motivo para ninguém se preocupar.

                                              Diva: Ela está tentando destruir a sua família, Nora. A nossa família. Primeiro foi através de Guilherme, tendo um caso e uma filha com ele. Agora é através de Saulo. Eu não vou deixar. Não vou. Não vou! – ela retira um lencinho de seda do bolso e seca as lágrimas dos olhos.

                                              Nora permanece sentada no sofá, perdida em pensamentos, com as últimas palavras de Diva ecoando em sua mente.

                                              23. INTERNA – DIA – CASA DE NORA – COZINHA

                                                Naquela manhã, Nora estava cozinhando dobrado. No balcão da cozinha, vários potes coloridos já estavam cheios de comida. Alguns ainda estavam abertos. Diva estava ali também, fazendo suas palavras cruzadas, religiosamente.

                                                Diva: Por que eles cismam em fazer essa letra tão miúda?! – ela aproxima o jornal e lê, em voz alta – “Pequeno, miúdo”, cinco letras. A segunda é “A”.

                                                Nora: Parvo?

                                                Diva: Isso! Sabe, Nora, eu estou começando a esquecer das coisas.

                                                Nora: Devia esquecer quem seu filho está namorando e voltar a falar com ele.

                                                Diva: E você esquecer que seu filho contou para seu outro filho que ele foi achado no lixo e voltar a falar com ele.

                                                Nora vira-se para a mãe.

                                                Diva: Cuide dos seus problemas que eu cuido dos meus – diz, apontando para Nora e para si com o lápis.

                                                Nora: Justo.

                                                Nora volta a cozinhar.

                                                Nora: Acho que vou levar um pouco dessa comida para Júnior. Eu não sei se aquela menina sabe cozinhar…

                                                Diva: Não deve saber, já que foi criada por aquela…

                                                Nora: É. Acho que vou levar um pouco.

                                                Diva: Ah! Olha só isso: “Golpista, aproveitadora”, quatro letras: Vera!

                                                Diva ri com gosto. Nora ri também.

                                                Nora: Não pode ser!

                                                Diva: E não é. São cinco letras. La-dra – fala enquanto escreve. – Mas caiu como uma luva.

                                                Naquele momento, Carol entra na cozinha, mal-humorada.

                                                Nora: Bom dia – diz, feliz.

                                                Carol: Bom dia – diz, por obrigação.

                                                Nora: Nossa. Alguém chupou limão hoje, hein?

                                                Diva: O namorado deve estar em Brasília, ocupado.

                                                Nora: Mãe!

                                                Carol: Vó! – diz, fechando os olhos com força e balançando os cabelos.

                                                Diva: Mas é verdade, oras.

                                                Carol: Não, não é por isso, vó. É o jornal. Trabalhar aqui não está sendo legal.

                                                Ela vê o exemplar do Ágora em cima da mesa. Ela lê a manchete em voz alta.

                                                Carol: “CPI investiga atuação de deputados no Rio”. Viu?! É disso que eu gosto de falar. É disso que eu quero falar!

                                                Nora: Bem, Carol. É o preço que você escolheu pagar, né? Agora você tem que arranjar um jeito de lidar com isso, querida.

                                                Carol: Ai, mãe, não fala essa palavra! Tem uma mulher no jornal que fica falando assim na maior falsidade. Ai, como eu a odeio. Karina com “K”. Ew.

                                                Diva: Nome de pobre.

                                                Carol: Não é?! Vocês tem que ver o jeito que ela fala. Cada palavra sai cheia de desdém.

                                                Carol nota as dúzias de poste cheios de comida no balcão.

                                                Carol: Para quê isso tudo?

                                                Diva: Sua mãe está cozinhando para Tomás. E está em dúvida se leva ou não um pouco para Júnior.

                                                Carol: Tomás tudo nem, né, mãe! Mas Júnior?!

                                                Nora: Não começa, Carol.

                                                Carol: Quando eu fui para São Paulo eu tive que me virar.

                                                Nora: Você foi para São Paulo porque quis. E se eu pudesse teria mandado comida de até avião para você. O seu irmão fugiu. E está morando com uma adolescente. É completamente diferente.

                                                Diva: Quando eu disse que sua mãe estava em dúvida eu não eu não quis dizer que ela queria uma opinião. Você conhece a conhece.

                                                Carol: Desse jeito ele nunca vai aprender… – diz, dando de ombros.

                                                Nora: Você não aprendeu do seu jeito também. Não é a toa que mal sabe acender um fogão. Então deixa que eu cuido disso, tá? Toma seu café, antes que ele esfrie.

                                                Carol estava boquiaberta.

                                                Carol: Sinceramente, eu não sei onde é pior. Aqui ou no jornal! Meus deus, que inferno! O que eu fiz para merecer isso!!! – diz, pegando a bolsa e saindo batendo a porta da cozinha.

                                                Diva: Precisava de tudo isso?

                                                Nora: Cuide dos seus problemas que eu cuido dos meus.

                                                Diva abaixa a cabeça e volta para as suas palavras cruzadas.

                                                24. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS – ADMINISTRAÇÃO – ESCRITÓRIO DE SARA

                                                  [♫ – “So Sorry” – Feist]

                                                  Sara falava ao telefone e mexia em vários papéis quando ouve alguém batendo à porta.

                                                  Sara: Eu te ligo daqui a pouco, ok? – e desliga. – Fernando? Aconteceu alguma coisa? – diz, abrindo a porta para ele.

                                                  Fernando: Eu queria saber se você vai querer que eu busque as crianças hoje também.

                                                  Sara: Não, não. Hoje vai dar tempo. A não ser que você queira buscá-las.

                                                  Fernando: Sara, eu preciso te perguntar um coisa.

                                                  Sara: Pergunta.

                                                  Fernando: Em que lugar nós estamos?

                                                  Sara: Eu não sei.

                                                  Fernando: Eu também não sei, mas eu sei onde eu quero estar.

                                                  Sara: Eu só sei onde eu não quero estar.

                                                  Fernando: Eu quero voltar.

                                                  Sara: Fernando…

                                                  Fernando: Eu quero voltar, Sara! Eu quero estar do seu lado de novo. Eu quero acordar e olhar para o lado e ver você ali, dormindo.

                                                  Sara não responde e evita o olhar de Fernando.

                                                  Fernando: Mas é óbvio que você não quer.

                                                  Sara: Eu não disse isso.

                                                  Fernando: Nem precisa. Seu rosto já diz tudo.

                                                  Sara: É que… Eu não tenho certeza.

                                                  Fernando: Eu tenho certeza por nós dois.

                                                  Sara: Eu não consigo ter certeza. E eu não devia ter dúvida nenhuma. Mas eu tenho. Eu… sinto muito.

                                                  Fernando: Não sinta.

                                                  Fernando vira-se e vai embora.

                                                  Sara: Fernando…

                                                  Ele finge que não a escuta.

                                                  25. INTERNA – DIA – BARBOSA-LIMA ADVOGADOS – ÁTRIO

                                                    [♫ – “I’m a Terrible Person” – Rooney]

                                                    Rebeca chegou ao Átrio do prédio da Barbosa-Lima e foi até a recepção.

                                                    Rebeca: Boa tarde. Eu tenho uma entrevista agora no vigésimo quinto andar.

                                                    Recepcionista: É sua primeira vez aqui?

                                                    Rebeca: Sim.

                                                    Recepcionista: Olhe para a câmera por favor. E eu vou precisar da sua identidade.

                                                    Rebeca olhou para a câmera. A recepcionista digitou algumas informações e passou um cartão no leitor.

                                                    Recepcionista: Aqui está. Você vai precisar passar esse cartão na roleta do elevador. O do vigésimo quinto é aquele à direita – e aponta.

                                                    Rebeca: Obrigada.

                                                    26. INTERNA – DIA – BARBOSA-LIMA ADVOGADOS – ESCRITÓRIO DE CARLOS

                                                      [♫ – “I’m a Terrible Person” – Rooney]

                                                      Mônica: Carlos, o primeiro candidato já chegou. Você ainda tem tempo. Já olhou os currículos?

                                                      Carlos: Ih, não olhei.

                                                      Mônica: Seja rápido. Eles estão na segunda gaveta da direita com as anotações do RH.

                                                      Carlos: Obrigado, Mônica.

                                                      Carlos pega os currículos e começa a folheá-los. Ele vai passando de um para outro e faz anotações também, nas bordas, grifando algumas partes. Até que ele chega ao último.

                                                      Carlos: Só pode ser coincidência!

                                                      27. INTERNA – DIA – BARBOSA-LIMA ADVOGADOS – SALA DE ESPERA

                                                        [♫ – “I’m a Terrible Person” – Rooney]

                                                        Rebeca chega à sala de espera.

                                                        Rebeca: Boa tarde. Eu tenho uma entrevista marcada às 15 horas.

                                                        Mônica: Qual é o seu nome?

                                                        Rebeca: Rebeca Santos.

                                                        Mônica: Tudo bem. Pode sentar-se ali. Ele já vai recebê-la.

                                                        Rebeca se senta e começa a olhar o ambiente em volta. Os olhos dela se demoram um pouco na porta. Ela leu o nome colado em letras pretas no vidro.

                                                        Rebeca: Ai meu Deus.

                                                        Ela começa a se levantar quando Mônica recebe uma ligação.

                                                        Mônica: Rebeca Santos? Você é a primeira. Pode ir.

                                                        Rebeca fica parada, em choque.

                                                        Mônica: Nervosismo? Ele é legal, não precisa ter medo. Vamos?

                                                        E Mônica a leva até a porta.

                                                        28. INTERNA – DIA – BARBOSA-LIMA ADVOGADOS – ESCRITÓRIO DE CARLOS

                                                          [♫ – “I’m a Terrible Person” – Rooney]

                                                          Rebeca entra na sala. Quando ambos se vêem, Rebeca fica séria e apreensiva e Carlos suspira, sem saber o que fazer.

                                                          Carlos: Boa tarde.

                                                          Rebeca: Ah, boa tarde.

                                                          Rebeca continua parada de costas para a porta, com a mão ainda na maçaneta.

                                                          Carlos: Você pode se sentar, se quiser.

                                                          Rebeca percebe que ainda estava em pé.

                                                          Rebeca: Claro. É…

                                                          Carlos: Que situação, não?

                                                          Rebeca: Eu juro que não sabia.

                                                          Carlos: A sua cara já diz isso.

                                                          Rebeca: É, né.

                                                          Os dois ficam em silêncio. Rebeca começa a rir.

                                                          Rebeca: Desculpa. Eu sei que não tem graça. É que eu começo a rir quando fico nervosa. E a falar, quando ninguém fala. Silêncio me deixa desconfortável. Então, por favor, diz alguma coisa.

                                                          Carlos pega a caneta e escreve.

                                                          Carlos: “Prolixa”. Como minha irmã. Nossa irmã.

                                                          Rebeca: Sua irmã. Laços de sangue não são como uma relação de toda uma vida.

                                                          Carlos: É, não são. Mas irmãos têm laços mais fortes com uns e mais fracos com outros. E você tem um laço muito forte com Júnior.

                                                          Rebeca: Mas…

                                                          Carlos: Mas nós não viemos aqui falar disso, não é mesmo?

                                                          Rebeca faz que não com a cabeça. Carlos pega o currículo dela.

                                                          Carlos: Eu vou tentar ser o mais imparcial possível aqui, ok?

                                                          Rebeca: É claro. Com certeza.

                                                          29. INTERNA – DIA – ÁGORA RJ – REDAÇÃO

                                                            Carol estava transcrevendo uma entrevista que tinha feito hoje mais cedo. Ela estava com um fone de ouvido conectado ao gravador e pausava-o quando vê o visor do seu telefone apontando uma ligação. Ela retira o fone e atende.

                                                            Roberto: Carol, está ocupada?

                                                            Carol: Oi… Não, não estou. Algum problema?

                                                            Roberto: Não. Olha, eu não estou com tempo. Eu estou no banheiro, no meio de uma votação e devia estar com o telefone desligado.

                                                            Carol: Tudo bem. Fala rápido.

                                                            Roberto: Primeiro eu queria te pedir um favor.

                                                            Carol: Pode falar.

                                                            Roberto: Teria como você ficar de olho na Larissa para mim. Vou demorar mais que o esperado aqui e soube que ela me desobedeceu ontem.

                                                            Carol: Claro, tudo bem, eu fico com ela. Posso levá-la para casa da minha mãe?

                                                            Roberto: Pode sim. Mas você pode ficar lá em casa sem problemas.

                                                            Carol: Ok. E qual é a outra coisa?

                                                            Roberto: Olha, nós não temos certeza. O primeiro teste foi um tanto inconclusivo, mas…

                                                            Carol: Fala, Roberto!

                                                            Roberto: Eu acho que achamos o corpo do seu tio.

                                                            30. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE REBECA – SALA

                                                              Júnior: E era o Carlos?!

                                                              Rebeca: Era.

                                                              Júnior: E como foi?! Ele pode ser meio cruel às vezes…

                                                              Quando Rebeca ia responder eles ouvem alguém do outro lado da porta.

                                                              Carlos: Eu consigo ouvir tudo o que você está falando.

                                                              Júnior: Carlos?!

                                                              Ele abre a porta do apartamento e dá de cara com o irmão, ainda com a roupa do trabalho.

                                                              Júnior: Eu já disse que não estou a fim de conversar.

                                                              Carlos: “Eu já disse que não estou a fim de conversar”. Como se eu tivesse vindo aqui para falar com você.

                                                              Júnior: Aham. Veio para quê, então?

                                                              Carlos: Para cumprimentar pessoalmente a minha nova estagiária.

                                                              Rebeca: Tá de sacanagem?! – ela grita. – Eu consegui?! – ela grita de novo.

                                                              Carlos: E o seu trabalho começa agora. Lá no meu carro tem uma caixa de arquivos – Carlos lhe entrega a chave. – Pode ir lá buscar, por favor.

                                                              Rebeca entende o recado e deixa Carlos e Júnior sozinhos.

                                                              Carlos: O salário é bacana. Vai dar para dar uma ajuda aqui.

                                                              Júnior: Foi por isso que você a contratou?

                                                              Carlos: Ela é boa, o currículo dela é bom e ela tinha boas cartas de recomendação, mas esse fator pesou bastante.

                                                              Júnior: Você não precisava ter feito isso.

                                                              Carlos: Precisava sim, já que você não toma senso e volta para casa.

                                                              Júnior: Não começa, Carlos.

                                                              Carlos: Mas é verdade!

                                                              Júnior: Eu achei que, de todos, você seria o único que me entenderia.

                                                              Carlos: E por que eu entenderia essa loucura que você está fazendo?

                                                              Júnior: Porque sim. Porque quando você se assumiu, papai disse que te colocaria para fora. Mas mamãe não deixou. E você continuou morando lá em casa. E papai não falava com você. E todo dia…

                                                              Carlos: …eu pensava em fugir daquele lugar. É, é quase isso.

                                                              Júnior: Desculpa, eu não queria te lembrar disso. E eu não estou comparando o que papai fez com você ao que Tomás fez comigo.

                                                              Carlos: Como não?

                                                              Júnior: Não é a mesma coisa. Você não tinha feito nada para papai. Eu, pelo contrário…

                                                              Carlos: …também não fez nada!

                                                              Júnior: Durante meses eu acreditei que tinha feito. Meses. E isso já é ruim o suficiente. De certa forma, eu ainda me sinto culpado.

                                                              Carlos: Só se for nessa sua mente deturpada. Tomás te deve desculpas, sim.

                                                              Júnior: Não deve, não.

                                                              Carlos: Deve sim!

                                                              Júnior: Eu não preciso ouvir isso dele.

                                                              Carlos: Você é doido.

                                                              Júnior: Durante dias você agonizou achando que tinha traído seu namorado com uma mulher.

                                                              Carlos: E eu ainda sinto vontade de pedir desculpas a ele – diz, arregalando os olhos.

                                                              Júnior: É. É quase isso.

                                                              Carlos: Nossa, desde quando você é tão inteligente assim. Cruzes!

                                                              Júnior: Baguncei com a sua cabeça, né?!

                                                              Júnior ri. Eles ficam um tempo em silêncio.

                                                              Júnior: Vocês realmente sabiam o tempo todo que eu era adotado?

                                                              Carlos: É. Quando você chegou, nós já éramos grandes.

                                                              Júnior: Você tinha quantos anos?

                                                              Carlos: Nossa, acho que uns sete. Eu lembro que… ­– ele ri – Você sabe como colocaram o seu nome?

                                                              Júnior: Não.

                                                              Carlos: Bem, mamãe chamou todo mundo na sala um dia e disse que nós teríamos um irmãozinho. Ela explicou que você era adotado e que nós tínhamos que cuidar muito bem de você. Sara estava doida para te pegar no colo. Ela foi a primeira de nós.

                                                              Os dois riem.

                                                              Carlos: Carol quando tentou quase deixou você cair. Mamãe ficou histérica… Mas aí ela disse que você precisava de um nome. E nos perguntou de quais nomes a gente gostava. E nós começamos a falar os nomes mais malucos que existiam! Ainda bem ela não nos ouviu senão você se chamaria Silvestre ou Skywaler ou Tip!

                                                              Júnior: Tip?!

                                                              Carlos: É, Tip.

                                                              Júnior mantém a cara de incógnita.

                                                              Carlos: Você não sabe o que é a Tip?! Era uma boneca super legal que a Sara tinha que você pegava ela pelos braços assim e ela andava e… – Carlos pigarreia. – Então, continuando…

                                                              Júnior: Só você mesmo!

                                                              Os dois riem de novo.

                                                              Carlos: Continuando! Mas aí papai virou e disse mais ou menos isso: esse garoto passou por dificuldades e sobreviveu. Ele é forte e não desiste sem lutar. Aí mamãe disse: assim como o pai dele. E papai falou: então está decidido. Ele terá o meu nome, Guilherme.

                                                              Júnior sorria.

                                                              Carlos: E depois mamãe e papai discutiram porque ela queria que seu nome terminasse em “Filho” e papai queria em “Júnior” e blablabá. Já sabe quem ganhou, né?

                                                              Júnior: É verdade isso?

                                                              Carlos: Mas é claro.

                                                              Os dois se abraçam.

                                                              Júnior: Obrigado.

                                                              31. INTERNA – NOITE – CASA DE TOMÁS – SALA / COZINHA

                                                                A campainha tocou. Era Nora.

                                                                Vitória: Nora! Tudo bem?

                                                                Nora: Tudo.

                                                                As duas se cumprimentam.

                                                                Nora: Trouxe comida – e levanta as duas bolsas térmicas que carregava.

                                                                Vitória: Obrigada, Nora. Eu acho que nós até temos um pouco do que você trouxe da outra vez.

                                                                Nora: Tem? Bem, agora vão ter ainda mais. É só deixar na geladeira e os potinhos podem ir direto para o microondas. E não tenha pressa em devolvê-los. Tenho de sobra lá em casa – ri. – Tomás está melhor?

                                                                Vitória: Está sim. Está dormindo.

                                                                Nora: Melhor assim.

                                                                Vitória: Vem, vamos guardar tudo isso na geladeira.

                                                                Nora: Vamos sim.

                                                                Ela entregou uma das bolsas para Vitória e começou a empurrar a cadeira.

                                                                Nora: Dá última vez que você jantou lá em casa, você elogiou o meu…

                                                                Nora parou de falar quando viu Tomás em pé, indo para a cozinha também.

                                                                Nora: Ele não devia estar andando – diz baixo e, rapidamente, pegou a bolsa do colo de Vitória e andou rápido para a cozinha, ignorando o filho.

                                                                Tomás: Vai ser assim, agora, mãe? Vai me ignorar?

                                                                Nora não responde e começa a guardar vários potes de comida na geladeira.

                                                                Tomás: Inacreditável! Vem a minha casa e não fala comigo?

                                                                Nora continua ignorando-o.

                                                                Tomás: Se você não quer falar comigo porque vem aqui?

                                                                Vitória: Tomás! Ele não quis dizer isso, Nora.

                                                                Tomás: Eu quis dizer exatamente isso. Não pedi sua caridade, mãe.

                                                                Nora continuava a ignorá-lo. Ela tinha terminado de esvaziar a primeira bolsa e ia para a segunda quando Tomás a pegou primeiro e a jogou no chão.

                                                                Tomás: Eu disse que não preciso de caridade! Leve tudo embora!

                                                                Nora se assustou com o comportamento do filho, mas se controlou.

                                                                Vitória: Nora, seria melhor você ir agora. Eu termino de guardar tudo.

                                                                Nora: Obrigada, querida.

                                                                Tomás: Não tem nada para ser guardado! – grita.

                                                                Tomás vai até a geladeira e arranca os potes já guardados de lá, atirando-os na mesa com violência. Alguns caíam no chão. Vitória levou as mãos a boca, assustada e Nora se apoiou na parede. Quando ele terminou, ele estava chorando.

                                                                Tomás: Por que você não diz logo o quanto você me odeia?! Hein?! Diga!!!

                                                                Nora estava quase chorando também e resolve ir embora.

                                                                Tomás: É claro que ela vai embora! Ela nunca diz o que ela pensa. Agora fica e luta! Diz que me odeia! Eu sei que você me odeia!

                                                                Nora: Eu não te odeio – diz comedidamente.

                                                                Tomás: Mentirosa! Você só mente! Finge estar feliz com seu próprio irmão namorando a amante do meu pai! Ah, deve até fingir que não sabe que ele teve um caso de 20 anos!

                                                                Nora dá um grito.

                                                                Nora: Cala a boca! Eu não agüento mais ouvir a sua voz! Toda vez que você fala eu meu lembro de quando… Suas palavras ainda ecoam na minha cabeça… Ele está todo perdido e a culpa é toda sua!

                                                                Tomás: Ele já era perdido muito antes disso. E eu você sabe muito bem de quem é a culpa.

                                                                Nora: A única culpa que eu sinto é de ter criado você desse jeito!

                                                                Tomás: Ah, agora eu sou o filho problemático?

                                                                Nora: Você destruiu o senso de identidade dele! Que tipo de monstro faz isso com o seu próprio irmão?!

                                                                Tomás: Ele destruiu a minha identidade também!

                                                                Nora: Se pensar assim te faz se sentir bem com o que fez…

                                                                Tomás: Saia da minha casa.

                                                                Nora: Não precisa dizer duas vezes.

                                                                Nora sai, batendo a porta.

                                                                Continua…

                                                                Trilha sonora

                                                                • “I’m a Terrible Person” – Rooney
                                                                • “So Sorry” – Feist

                                                                7 Respostas to “Lado B”


                                                                1. […] Para ler o episódio, clique aqui. […]

                                                                2. Gustavo Says:

                                                                  Salve galera!!!!

                                                                  UAU!!!!!!!!

                                                                  Estou sem palavras!!!! Para mim, esse foi um dos melhores episódios até agora!!!!

                                                                  Virei fã de carteirinha de D. Diva. A “véia” é o terror, não tem freios na língua!!! Adorei.

                                                                  Fiquei com pena do Fernando. Pelo visto ele ainda ama demais a Sara. Será que ela dará uma chance à ele?

                                                                  Vem cá, será que não tem uma vaga de advogado nesse escritório não?! Sala de conferência “C”?! Chique hein…

                                                                  Adorei a cena da Carol saindo do banheiro e todos fechando o MSN. Ficou parecendo com a cena inicial de “A Proposta”, aquele filme com a Sandra Bullock.

                                                                  Larissa e Gabriel hein?! Espero que essa história renda!!!

                                                                  Para finalizar, que raio de atitude foi aquela do Tomás?! Gente, isso não se faz, principalmente com a mãe da gente!!! Coitada da Vitória tb. Pelo visto ele está precisando tb de um acompanhamento psicológico. Tenso!!!!!!

                                                                  Agora é esperar pelo próximo episódio.

                                                                  Abraços a todos.

                                                                  1. osandrades Says:

                                                                    Salve Gustavo!
                                                                    Que bom que você gostou do episódio. E se você já é fã da Dona Diva, não perca um episódio sequer!

                                                                    Ah, você tem razão. A cena da Carol se parece muito com a do filme “A Proposta”. Mas foi criação originalíssima da Oficina Andrade de Idéias, rs!

                                                                    Grande abraço,
                                                                    Filipe Andrade

                                                                3. Lenon Fernandes Says:

                                                                  Ok, eu entendo que Tomás está passando por muita coisa, mas nada lhe dá o direito de falar assim com a mãe dele! Minha vontade era ir lá e bater nele…
                                                                  Rebeca trabalhando com Carlos vai ser engraçado, até pq ele não é a pessoa mais agradável para se conviver todos os dias. Ela terá que ter muito jogo de cintura…
                                                                  Sara e Fernando não se decidem. Ela diz que não querendo sim e ele desiste muito fácil. Eles precisam se resolver, 3 crianças estão no meio da confusão de dependem da decisão deles…
                                                                  Gabriel e Larissa parecem legais, quero ver o que Roberto vai pensar…
                                                                  Carol está sofrendo no emprego novo. Coitada, a pior coisa é trabalhar em um lugar que você não gosta, você passa mais tempo com aquelas pessoas do que com sua própria família, se não gosta deles…

                                                                  1. osandrades Says:

                                                                    Lenon, a questão do Tomás é mesmo muito complicada. Às vezes, nas relações familiares, fica muito difícil de traçar um limite. E o Tomás com certeza cruzou o dele.

                                                                    Sara e Fernando estão numa situação muito delicada. Depois da separação, eles não têm mais um ponto seguro para recorrer. Por isso ficam oscilando.

                                                                    E não duvide da capacidade da Carol de solucionar os problemas dela. Do jeito dela, claro! Rs. Continue acompanhado e verá!

                                                                    Abraços!
                                                                    Filipe Andrade

                                                                4. Natie Says:

                                                                  Aeeeeee! Finalmente eu pude ler o ‘Lado B’! 😀
                                                                  Nossa, mtuuuu bom como sempre…
                                                                  E eu vou ter q falar dessa parte 1º pq eu AMEI! Que FOFAS foram as cenas de Gabriel e Larissa! heheh… Foi td tão inocente… Simplesmente AMEI! E é tão tipico do pai ficar todo orgulhoso do filho… haha… Se fosse menina já era outra historia…
                                                                  Tomas não dá mesmo o braço a torcer né? Nossa… Que guerra de nervos ele tá travando não só contra o Junior e a Nora (alias, PERFEITA essa cena do final, mtuuu bem escrita!), mas contra a familia toda…
                                                                  Carlos! Aaah eu adoro tanto o Carlos… hehe… Algo me diz q trabalhar ao lado da Rebeca vai contribuir muito pra relação deles… Afinal, eles são irmãos né? E ansiosa pra saber pra onde vai essa relação dele com o Sérgio pq apesar da Pâmela ser só a amiga, ela tbm não pára de marcar em cima né?
                                                                  Carol! Tadinha… Eu ia odiar trabalhar num lugar desses e odiaria ainda mais ser obrigada a escrever sobre o livro da Vera Fisher! hehe… E eu realmente espero q nenhum leitor tenha uma parente chamada Karina… haha… Aaah, e ansiosa tbm pelo misterio do tio q agora começa a desenrolar de novo…
                                                                  Sara e Fernando!! OMG! OMG! OMG! Alguém dá uma solução pra esses dois! hehe… (e q de preferencia eles fiquem juntos… :D)
                                                                  Gostei de ver o Junior envolvido com a menina com Sindrome de Down… Acho até q a cena podia ter sido maior… E gostei tbm dele ouvir do Carlos a historia de como ele foi nomeado… Tããããooooo tipico da Carol quase ter deixado ele cair! Adorei…
                                                                  Diva, supeeeeer figura! Ela realmente fala tudo o q pensa sem processar nada…
                                                                  E tenho minha dúvidas com relação ao ‘eu te amo’ da Vera pro Saulo, mas isso só vcs irão dizer se estou certa…

                                                                  É isso pessoal… Parabéns!

                                                                  Beijooos…

                                                                  1. osandrades Says:

                                                                    Natie, as cenas do Gabs com a Lissa foram muito difíceis de escrever! Que bom que gostou do resultado.

                                                                    E apesar da relação conturbada entre Vera e Saulo, eu sinceramente acredito no amor que eles sentem um pelo outro. Você não?

                                                                    O próximo episódio, “Juntando os Pedaços”, já está no ar! Não perca!

                                                                    Beijos,
                                                                    Filipe

                                                                Deixe um comentário

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