Nos episódios anteriores: Sara e Marcelo começam a namorar, assim como Carlos e Diego. Carol muda novamente de editoria e terá sua reportagem sobre a Ditadura publicada pela Múltipla. Quatro Estações demite funcionários enquanto Vera liga para um velho conhecido, Davi Gonçalves. Júnior abandona a banda em turnê e volta para casa. Tomás e Vitória têm seu pedido de adoção negado.

1. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA – SALA

Sara estava terminando de montar a mochila de Rafaela. Assim que terminou, ela coloca-a nas costas da filha.

Sara: Já escovou os dentes?

Rafaela: Já.

Sara: Deixa eu ver – Rafaela deu um sorriso. – Essa é a minha filha predileta!

Eduardo: Claro, ela é a única!

Sara: E você é meu caçula predileto!

Fernando: Vamos tropa? Marchando.

Os filhos começam a sair.

Sara: Tchau, Gabs! Tchau, Ferdi.

Fernando: Tchau – e fecha a porta.

Sara senta-se no sofá e olha para o relógio. Ela levanta-se correndo e confere o visual no espelho. Ela ouve a campainha, ajeita o sutiã e corre para a porta. Marcelo entra com flores e uma garrafa de vinho.

Sara: Deixa isso pra lá! – ela joga as flores num canto e os dois começam a se beijar e andar ao mesmo tempo. Marcelo tentava encontrar algum suporte para a garrafa de vinho então sua mão balançava no ar com a garrafa.

Quando ele encontra um suporte ele a gira e eles começam a andar na direção oposta. Entre os beijos, cada vez mais calorosos, os dois conversam.

Marcelo: Seus filhos não estão? Mesmo? – diz, enquanto desabotoa a blusa dela e ela a tira rapidamente.

Sara: Não! Final de semana com o pai – diz, beijando-o de novo e tirando a camisa dele.

Marcelo: Que pena! – diz, rindo. Sara ri também.

Os dois continuam se beijando, e vão caminhando aos tropeços, até que uma parede impede o caminho. Sara se choca com a parede e dá um leve grito. Ambos começam a rir e voltam a se beijar.

2. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SAULO

Vera tomava o café da manhã lendo o jornal quando Júnior entra na cozinha.

Vera: Bom dia.

Júnior se assusta com a presença dela.

Júnior: B-b-bom dia. É… Meu tio já foi?

Vera: Está tomando banho. Senta e toma um café. Se quiser eu preparo alguma coisa.

Júnior: Não, não precisa. Café está bom. Obrigado.

Vera levanta-se da mesa e começa a levar parte da louça para a pia. Júnior a vigia a canto de olho, tentando puxar um assunto para não deixar a situação embaraçosa.

Júnior: Então… Você tem ficado muito aqui.

Vera vira-se para ele incomodada.

Vera: Desculpa se isso o incomoda…

Júnior: Não! Não, não foi isso o que eu quis dizer. Desculpa. Eu quis dizer que é legal… você e tio Saulo… coisa séria.

Vera dá um sorriso.

Vera: É. Seu tio é um homem muito bom.

Júnior busca rapidamente um novo assunto para evitar um silêncio constrangedor.

Júnior: Ei, olha o que Rebeca me deixou ontem? Um álbum! Só para mim.

Vera: Ela continua fotografando – diz, preocupada, folheando o álbum. Ela volta a se sentar.

Júnior: Eu sei que não é da minha conta, mas eu sei que você não gostou muito dessa história de fotografia e…

Vera: Eu tento! Mas eu não consigo ver um futuro nisso. Eu quero que ela tenha um futuro. Não quero que ela seja igual a mim, entende?

Júnior: Mas é que às vezes a gente precisa se arriscar. Para tentar se encontrar. Eu, por exemplo, não me encontrei até hoje.

Vera arregala os olhos.

Júnior: Mas a sua filha não é como eu – apressa-se a corrigir. Vera ri. – Beca é centrada, sabe o que é bom para ela. Às vezes, a gente só precisa retomar controle das coisas. Depois as coisas começam a voltar para os seus lugares.

Vera: As coisas já começaram a voltar para os seus lugares para você? – pergunta, importando-se com ele.

Os dois ficam em silêncio, olhando-se. O celular de Vera toca. Ela olha o visor e se levanta.

Vera: Às vezes, quando temos muitas opções a nossa frente e não sabemos o que fazer, a gente escolhe uma e a leva até o fim. Se foi uma escolha ruim, a gente tenta fazê-la dar certo. Escolhe alguma coisa e tente fazê-la dar certo. Tenho que atender essa. Com licença.

Vera sai da cozinha. Júnior fica pensativo.

3. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SAULO – SALA

Vera atende ao telefone.

Vera: Onde você está? […] Acabou de chegar? […] Ficará hospedado onde? […] Almoçaremos juntos então. Até lá.

Saulo escutava a conversa ao longe.

Saulo: Falava com quem?

Vera: Rebeca. Combinamos de almoçar hoje. Vamos colocar a conversa em dia – diz, sorrindo.

Saulo: Divirta-se então – e a beija de leve nos lábios. – Júnior, estamos saindo! – grita e pega sua pasta. Vera pega sua bolsa.

4. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA – QUARTO

[♪ – Little Romance, Ingrid Michaelson]

Sara e Marcelo estavam deitados na cama, ofegantes, cobertos com o lençol.

Sara: Ah! Como adoro ser professora!

Marcelo: É sério que essa vai ser nossa conversa pós-sexo?

Sara: Ah, deixa de ser chato! – e bate nele de leve. – E eu falo sério. Tenho férias sempre. Feriados e pontos facultativos mil! E tudo isso nos mesmos dias que meus filhos! Nunca tive tanto tempo livre na vida. E parte da minha carga horária de trabalho é para ser feita em casa!

Marcelo ouvia, pacientemente, olhando nos olhos dela.

Sara: E, como sou uma excelente administradora, faço meu tempo render.

Marcelo: E eu passo mais tempo com você.

Ele se inclina sobre ela e começa a beijá-la novamente. Sara retribui e deita-se sobre ele, quando seu celular começa a apitar. Ela se senta sobre ele, cobre-se com o lençol e sai da cama, atrapalhada.

Marcelo: Se for importante vão ligar de novo – diz, esperançoso.

Sara: Não é ligação – diz, procurando o celular pelo quarto inteiro. – É meu alarme. Deve ser… – ela encontra – o remédio da minha filha. Diabetes. Um minuto – e ela começa a ligar para Fernando.

5. EXTERNA – DIA – PRAIA DE IPANEMA

Fernando estava sentado numa cadeira de praia com Gabriel. Ele vigiava Rafaela e Eduardo que brincavam na areia com outras crianças. O telefone de Fernando toca.

Fernando: Fala, Sara. […] Estamos na praia, eu e as crianças. […] Eu sei que o remédio dela é agora. […] Não, não esqueci. Eu já apliquei. Ela está brincando com as outras crianças. […] Tchau. – e desliga o telefone. – Rafaela! – grita. – Esqueci o remédio.

Gabriel: Sem problemas. Eu já ia te lembrar.

Rafaela chega e Fernando aplica o remédio. Ela volta a brincar em seguida.

Fernando: E então? Como vai a Larissa?

DUAS SEMANAS ATRÁS

6. INTERNA – NOITE – CASA DE NORA – PISCINA

Fernando tinha ido levar um estojo de insulina para Sara, na casa dos Andrades. Após cumprimentar todos, Roberto vem falar com ele.

Roberto: Fernando! Que bom te ver!

Roberto coloca um braço nos ombros de Fernando e os dois saem andando.

Roberto: Eu tenho que te falar uma coisa. De homem para homem.

Fernando: Na escuta.

Roberto: Diz para Gabs manter o zíper fechado, ok?

Fernando: Uh! Entendido. Não se preocupe.

Roberto: Sabia que ia entender – e dá um tapinha camarada no peito de Fernando. Os dois escutam gritos alegres dos Andrades atrás deles. – Ôoo! Mais uma rodada!

Fernando engole seco.

7. EXTERNA – DIA – PRAIA DE IPANEMA

Fernando: E então?

Gabriel olha para o pai, irritado.

Fernando: Qual é? Sou seu pai! Pode falar comigo sobre qualquer coisa.

Gabriel: Eu sei. Quando tiver algo para falar, eu falo.

Fernando: Entendido – e respira aliviado.

Os dois voltam a olhar para o mar.

Gabriel: Mas, já que tocou no assunto, acho que mamãe está namorando.

Fernando resolve fingir que não sabe de nada sobre Sara estar namorando e deixa a conversa seguir.

Fernando: Sério?!

Gabriel: Aham.

Fernando: Ela não falou nada comigo. Tem certeza? – mente.

Gabriel: Ela tem andado feliz ultimamente. Além do normal. E falando muito ao celular.

Fernando: Sua mãe sempre fala muito ao celular.

Gabriel: Longe da gente?

Fernando começa a entender.

Gabriel: E também tem outra coisa.

Fernando: O quê? – Gabriel hesita. – Pode me falar, não tem problema.

Gabriel: Ela tem feito o que ela faz depois que… que… credo, falar da vida sexual dos pais é mega bizarro.

Fernando: Como assim?

Gabriel: Ela não fala coisa com coisa depois de… se divertir.

Fernando arregala os olhos.

DUAS SEMANAS ATRÁS

8. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA

Sara acaba de chegar e encontra Gabriel vendo televisão no sofá.

Gabriel: Oi, mãe.

Sara: Oi.

Sara continua seu trajeto.

Gabriel: Seu cabelo está molhado.

Sara pára de andar e arregala os olhos.

Sara: É, eu dei um mergulho na praia.

Gabriel: Mas está chovendo.

Sara: E peguei chuva também.

Gabriel: Suas roupas estão secas.

Sara: Elas secaram! No… meu… corpo – Gabriel já ia perguntar de novo quando Sara o interrompe. – Ai meu deus! Aquilo é uma barata? – Gabriel olha. – Ih, voou. Nossa, que fome, quer alguma coisa?

9. EXTERNA – DIA – PRAIA DE IPANEMA

Fernando terminou de ouvir a história de Gabriel.

Fernando: Sua mãe não faz isso!

Gabriel: Faz sim.

Fernando: Talvez uma ou outra vez, mas…

Gabriel: Ela já fez isso várias vezes. E você também. Tipo quando…

Fernando: Eu prefiro não ouvir a minha parte nessa história.

Gabriel: Ok.

Fernando: Mas, estaria tudo bem para você sua mãe estar namorando?

Gabriel: É. Acho que sim. Não vi problemas com você namorando – diz, um tanto indiferente.

10. EXTERNA – DIA – PRAIA DE IPANEMA

Nem tão distante dali, Nora e Diva caminhavam pelo calçadão, de braços dados. As duas usavam grandes chapéus de praia e óculos escuros.

Diva: Não ande tão rápido, Nora.

Nora: Não estou andando rápido.

Diva pára.

Diva: Ah, então eu estou andando devagar demais?

Nora tira os óculos escuros. Diva faz o mesmo. Nora demora a responder. Diva a encara.

Nora: “Eu” estou andando rápido demais – diz com um sorriso forçado.

Diva: Eu falei que se você não quisesse vir não precisava, mas “eu” quero dar um passeio na praia.

Nora: Por acaso eu disse que não queria vir, mãe?

Diva: Nem precisa. Sua cara de enfado vale mais que mil palavras.

Nora e Diva continuavam a se encarar.

Nora: Podemos continuar? Antes que fique mais quente.

Diva não responde, mas as duas se dão os braços de novo e voltam a caminhar.

Nora: Gente, como está quente!

Diva: Eu disse para trazer os leques…

Nora: Desculpa, mãe. Estava nublado de manhã.

Diva: Eu disse que ia fazer calor.

Nora: Eu sei que você disse, mas você não controla o tempo.

Diva: Já chega. Vou embora.

Diva se desvencilha do braço de Nora e começa a fazer o caminho de volta. Nora fica parada olhando, com os braços cruzados.

Nora: Vai ser assim, mãe? Mãe? Mãe! Mãe!!!

Diva fingia que não escutava. Mas a voz de Nora de repente ficou diferente, alarmada. Diva vira-se para encarar a filha e a vê quase caindo, mas consegue manter-se em pé. O olhar confuso de Nora encontra o alarmado de Diva, que vinha correndo ao seu encontro. Assim que Diva a alcança, Nora desmaia, levando Diva ao chão consigo.

11. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

A porta da casa de Nora é aberta com um estardalhaço e Diva entra primeiro, mancando, mas com pressa. Em seguida entra um homem trazendo Nora no colo, contra a sua vontade.

Nora: Eu já disse que estou bem! Me ponha no chão, por favor, senhor!

Diva: Coloque-a no sofá, por favor – diz ao senhor, ignorando os protestos de Nora. E ele assim o faz. – Vou trazer água. E ligar para Saulo.

Nora: Não precisa ligar para ninguém! Já disse que estou bem! – mas Diva já tinha saído.

Davi: Você não me parece bem.

Nora: Você é médico?

Davi ri e faz que não com a cabeça. Diva volta correndo para a sala e entrega a Nora um copo com água e começa a abaná-la com um leque.

Diva: Saulo já está a caminho.

Nora: Para que fazer tanta confusão?

Diva: Se não quer confusão por você, faço por mim então! Quase desloquei a bacia tentando te ajudar. Fique calada e beba sua água – disse, sem parar de abanar a filha e vira-se para Davi: – Perdoe o comportamento da minha filha. Aparentemente o sol não só a fez desmaiar como fritou seus miolos.

Nora revira os olhos.

Diva: Nossa, revirar os olhos é muito maduro.

Nora abre a boca, ofendida.

Diva: Céus! Onde está minha educação! Sou Diva e essa é minha descerebrada filha Nora, que não entende a seriedade de um desmaio.

Nora: Obrigada pelo aposto, mãe – e termina de beber sua água.

Davi: Meu nome é Davi. E Saulo, presumo que seja o marido.

Naquele momento, ouve-se um barulho a porta.

Saulo: Nora! Nora! Mãe? Onde vocês estão? – entra alarmado. Nora acena alegremente para ele. Ele fica confuso. – Você está bem? Mamãe disse que você tinha desmaiado.

Nora: E fez parecer uma catástrofe. Eu só desmaiei por causa do sol. Estávamos andando na praia…

Diva: E esse gentil senhor nos acudiu.

Davi se levanta.

Saulo: Obrigado.

Davi: Eu estava passando e vi tudo acontecer.

Naquele momento, Carlos entra desesperado.

Carlos: Mãe! Mãe! – ele vê o pequeno grupo reunido.

Nora: Saulo, você ligou para Carlos?

Saulo: Claro que sim, Nora. Para todos.

Carlos: O que aconteceu?

Nora: Foi só um desmaio.

Sara: Um desmaio? – Sara acaba de chegar e estava um tanto descabelada e com as roupas amassadas.

Nora: Não foi nada.

Carlos: O que aconteceu com você? – sussurra para Sara. Ela pede segredo com o dedo nos lábios.

Diva: Ela diz que não foi nada, mas eu vi o medo nos olhos dela. E eu caí! Vejam só! – e ela mostra o braço machucado. – Tentando ajudar a mãe de vocês.

Carlos: Vou ligar para Tomás e dizer que não precisa mais vir.

Sara: E eu para Carol.

Tomás chega.

Tomás: Não precisa mais? Como assim? Tio Saulo parecia urgente ao telefone.

Nora: Porque sua avó fez parecer como se fosse grande coisa.

Tomás: O que aconteceu então?

Sara: Carol já está no portão – diz, fechando o telefone.

Diva: Sua mãe desmaiou no meio do calçadão.

Carol: Ai, meu deus! Mamãe desmaiou?!

Nora: Já chega! Vamos esperar todos chegarem e eu falo o que aconteceu de uma vez!

Carlos: Nossa, que estresse.

Carol: É, mãe, isso não é bom para você.

Davi: Tem mais gente para chegar? Nossa, que família grande! São todos seus filhos?

Nenhum dos filhos de Nora tinha notado a presença de Davi até então, que estava um pouco atordoado, mas se divertindo com a dinâmica daquela família.

12. INTERNA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Júnior havia acabado de chegar. Agora, com a família toda reunida, Diva começou a contar o que tinha acontecido.

Diva: E o Davi – diz, enfatizando o nome dele – nos acudiu. O único! Sinceramente, ainda bem que existem pessoas boas nesse mundo.

Davi: Que isso, dona Diva. Fico feliz em ter ajudado.

Sara: Mesmo assim, Davi, muito obrigada.

Os outros Andrades também agradecem.

Carol: Mas mãe, você deveria procurar um médico. Na sua idade…

Nora: Não ouse continuar essa frase. Não na frente de uma visita.

Todos começam a rir. Carol levanta as mãos, jogando a toalha. O olhar de Nora encontra o de Davi.

Nora: Gente, eu agradeço por terem vindo assim tão depressa, mas eu estou bem. É sério.

Diva: Não foi isso o que pareceu.

Nora: Eu sei que se preocupou, mãe. E eu sei que se machucou também tentando me ajudar.

Júnior não consegue evitar e começa a rir.

Júnior: Desculpa, mas imaginar vocês duas caindo é… tipo…

Saulo olha para ele de cara feia. Júnior para de rir.

Júnior: Desculpa.

Saulo: Vem, mãe. Vou limpar seu machucado.

Diva: Foi só um arranhão, não precisa.

Saulo: Tal mãe, tal filha. Vem, mãe – Nora revira os olhos. Saulo leva Diva para a cozinha.

Nora: Tal mãe, tal fi-LHO! – e depois vira-se para os filhos. – Eu não sou como ela, sou?

Júnior: Hã, é pra responder essa?

Nora olha para o filho com enfado.

Júnior: Essa é a minha deixa – Júnior vai até a mãe e a beija na cabeça. – Tchau, mãe.

E os outros começam a se despedir também falando do trabalho e outra coisas. Um por um eles vão saindo.

13. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – ENTRADA

Na entrada da casa, os irmãos estavam a conversar.

Sara: Nossa, nem acredito que mamãe desmaiou.

Carol: E isso pode ser sério. Ela tem se sentido meio fraca, ultimamente?

Tomás já estava mais a frente, separado dos irmãos.

Sara: Tomás, espera! Está tudo bem? – Tomás a ignora.

Júnior: Tomás, está tudo bem? E a Vitória?

Tomás ignora a todos, continua andando e bate o portão quando sai.

Carlos: Dêem um tempo a ele.

Carol: Fugir não é a solução, Carlos.

Carlos: Você foge de editoria em editoria e fugiu para a casa do Deputado depois de brigar com mamãe.

Carol: E você namora um enrustido. Cada um no seu quadrado. Tchau, Ju. Tchau, Sara – e ela dá um olhar gelado para Carlos.

Júnior: Ela continua com problemas no trabalho?

Sara: Mais ou menos.

Carlos: E você, Ju? Como está a vida pós-shows? Muitas fãs pedindo autógrafos?

Júnior não gosta da piada.

Júnior: Não teve a mínima graça – e sai.

Carlos: Nossa, o que deu nele?

Sara: O que deu em você?

Carlos: Em mim?

Sara: Não ficou sabendo? Parece que ele abandonou a banda. Por causa das drogas e tal.

Carlos: Não, eu não sabia…

Sara: É. Pensa antes de falar da próxima vez.

Sara sai andando.

Carlos: Espera!

E Carlos corre atrás dela.

14. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Com os filhos indo embora e Saulo com Diva na cozinha, Nora e Davi acabam por ficar sozinhos.

Davi: Uau! Sua família é como um furacão. Vem com força total e depois da tempestade vem a calmaria.

Nora: Eu nunca tinha pensado nisso. Mas faz todo sentido! – ri.

Davi: São todos seus filhos?

Nora: São. Todos os cinco.

Davi: E na cozinha estão sua mãe e seu…

Nora: Irmão. Meu irmão, Saulo.

Davi: Família unida. Completamente diferente da minha.

Nora: Bem, nós tentamos – diz, com um sorriso.

Davi: Ainda completamente diferente da minha.

Nora: Talvez vocês não tentem o suficiente.

Davi: Talvez.

Os dois param de falar. Um silêncio um pouco constrangedor se instaura. Davi olhava-a de um jeito estranho.

Davi: Desculpe, mas eu acho que estou te reconhecendo.

Nora: Não, acho que não. Pelo menos eu não me lembro de você.

Davi: Nossa! Não consigo lembrar. Deve ser a idade.

Nora: Idade, não. Experiência.

Davi: Ah, claro! Experiência… – ri. – Um dia eu lembro.

Nora: Espero que seja alguma coisa boa…

Davi: Não duvido disso.

Novamente os dois ficam em silêncio. Eles ouvem muxoxos e reclamações de Diva com Saulo.

Davi: Acho que já vou. Meu dever aqui foi cumprido.

Nora: Foi. Estou sã e salva.

Davi se levanta e começa a andar.

Davi: Cuide-se.

Nora: Tchau. E obrigada. Muito obrigada.

Davi: Não há de quê.

E ele vai embora. Nora se abana com o leque.

15. INTERNA – DIA – RESTAURANTE

Vera estava sentada à mesa do restaurante, esperando Davi aparecer. Ele estava atrasado. Muito atrasado. Ela conferia o relógio a cada minuto.

Vera: Só pode ser brincadeira.

Ela se levanta, coloca sua bolsa nos ombros e sai.

16. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO – SALA

Carol chega em casa e coloca sua bolsa na mesa e se joga no sofá ao lado de Roberto e Larissa.

Carol: Oi – diz, cansada.

Roberto estava digitando no notebook olha para a namorada.

Roberto: Uau! É contagioso? – brinca.

Carol: O quê?

Roberto: Esquece, não entendeu a piada. Como está sua mãe?

Carol: Desmaiou. Ela diz que foi por causa do sol.

Roberto: Mas ela irá a um médico?

Carol: Não sei. Resolvo isso amanhã.

Naquele momento, Larissa pega o controle da televisão e começa a aumentar o volume. Ela assistia um programa de comentários entre três jornalistas.

Jornalista 1: E alguém deixou escapar que Roberto Pelegrini vai concorrer ao governo do Estado esse ano!

Carol e Larissa: Desde quando? – perguntam olhando para Roberto.

Jornalista 2: Eu já previa isso. Era um caminho natural depois do seqüestro da filha dele.

Roberto tenta alcançar o controle, mas Larissa o detém.

Larissa: Tudo bem, pai. Eu quero ver.

Carol: Odeio esse tipo de jornalismo. Odeio eles!

Jornalista 3: Não acho que o seqüestro é condizente com a plataforma de Pelegrini. Na verdade…

Carol: Ah! Essa é das minhas!

Jornalista 2: Mas se ele quiser vencer…

Jornalista 1: Ele não se saiu muito bem no segundo turno da Prefeitura ano retrasado.

Roberto: Idiota.

Jornalista 3: Só no segundo turno. Ele conseguiu um número maior de votos que Sebastião no primeiro.

Carol: Por que só ela te defende?

Larissa: Verdade.

Roberto: Ciúmes?

Larissa: E você pode culpá-la?

Roberto e Larissa caem na risada. Carol esconde um sorriso.

Jornalista 1: Mas a influência de Pelegrini fica só aqui no Rio. E no máximo mais para o Sul do Estado. E a maioria da população se encontra no Norte.

Jornalista 2: E o seqüestro teve apelo nacional! Ele vai usar o seqüestro! Aposto o que você quiser que ele vai carregar a filha e o namorado “barra” sobrinho em todos os palanques!

Os três jornalistas riem com gosto. Roberto desliga a televisão.

Roberto: Já chega.

Larissa: É, agora é a nossa vez.

Carol: Exato. Você vai concorrer?

Roberto: Não… Não sei. Ainda. O partido tem me sondado.

Carol: Seu partido não é do tipo que sonda… E por que você não contou pra gente?! – diz batendo nele.

Roberto: Eles vieram ontem falar comigo. Ainda nem assimilei direito.

Larissa: Você quer ser governador, pai?

Roberto: Não vou dizer que nunca passou pela minha cabeça… Mas eu nunca, NUNCA, vou usar o que aconteceu com você para conseguir isso. Entendeu?

Larissa: Era só a TV, pai.

Carol: Bem, eu adoraria conversar mais, mas estou explodindo de dor de cabeça. Vou me dopar de aspirina e apagar – ela dá um selinho em Roberto, beija a testa de Larissa e sai.

Carol sai e Roberto volta a sua atenção para o notebook.

Larissa: Pai?

Roberto: Fala.

Larissa: Vai falar com ela!

Roberto: Ela disse que…

Larissa: Ai, pai! Você é uma porta! – e sai balançando a cabeça.

17. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE TOMÁS – QUARTO

O telefone estava tocando. Vitória começa a despertar. Ela olha para o relógio, que mostrava sete horas da manhã.

Vitória: Tomás, atende ao telefone? – Ninguém responde. – Tomás? Tomás?

Vitória abre os olhos e encontra a cama vazia. Sob o travesseiro, havia um papel que dizia “Fui à Andanças. T.” O telefone continuava a tocar. Ela então devolve o papel para o travesseiro e atende ao telefone, ainda sonolenta.

Vitória: Alô.[…] É ela, sim. Com quem eu falo? […] Hospital? – Vitória leva a mão ao peito.

18. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS – QUARTO

[♪ – Little Romance, Ingrid Michaelson]

Carlos entra no quarto carregando uma bandeja com o café-da-manhã. Diego se ajoelha na cama e pega a bandeja.

Diego: Café na cama?! Há séculos que não sei o que é isso.

Carlos: Aqui o pacote é completo – diz, sedutor.

Diego: Pacote completo, é? Parece caro…

Carlos: Muito caro…

Diego se inclina e os dois começam a se beijar. Depois, os dois deitam e voltam a conversar.

Diego: Ah, nem perguntei. Como está sua mãe?

Carlos: Ah, ela diz que está bem. Sol pode fazer as pessoas desmaiarem?

Diego: Isso pode acontecer. Foi isso o que o médico dela disse?

Carlos: Ela não quis ir ao médico.

Diego: Ela deveria ir. Ela tem feito check-ups regularmente?

Então o pager de Diego começa a apitar.

Diego: Droga!

Diego sai da cama e pega o pager no criado-mudo.

Carlos: Tem que ir?

Diego não responde, mas o desapontamento no seu rosto era visível.

Carlos: Médico não tem folga, né? Vai lá.

Diego começa a se vestir.

Diego: Te compenso, prometo. Ainda devo o pagamento pelo pacote completo, certo? – e pisca.

Carlos: Tem juros, viu? Bem altos.

Diego: Muito justo.

Ele dá um selinho em Carlos.

Diego: Tchau.

19. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA – SALA

Fernando chega à casa de Sara com as crianças, que entram correndo. Gabriel entra devagar, ouvindo música em seu iPod. Os três vão para seus quartos e Sara e Fernando começam a conversar. Os dois se cumprimentam com um beijo no rosto.

Fernando: Eu estava querendo conversar com você…

Sara: Claro. Aconteceu alguma coisa?

Fernando: Gabs desconfia que você esteja namorando.

Sara: Ele… Como? – Fernando ri. – Qual é a graça?

Fernando: Nada. Como não vem ao caso. Mas ele desconfia. Então andei sondando as crianças e todos parecem aceitar bem o fato.

Sara: Fernando…

Fernando: Não disse nada que te comprometesse. É só que se você quiser deixar a coisa mais séria, as crianças não serão um problema.

Sara: Acha mesmo? Porque ele tem me pressionado um pouco, sabe? Para conhecer a crianças. Sempre com indiretas, perguntando deles e tal.

Fernando: Sério? Bem, por mim, está tudo bem. Desde que as crianças estejam a bordo da idéia.

Sara: Obrigada, Ferdi.

Fernando: De nada.

Sara: Ah, Ferdi, meu irmão…

Fernando: Qual deles?

Sara ri.

Sara: Júnior. Ele voltou agora da turnê e parece que as coisas não foram muito legais por lá.

Fernando: Putz.

Sara: Pois é. Então eu estava pensando se você não podia conversar com ele, já que você entende desse universo e trabalha com ele…

Fernando: Tudo bem. Eu falo com ele. Sem problemas.

Sara: Valeu, Ferdi – ela faz um carinho no braço dele.

Fernando: Vou indo agora. Tchau, crianças! – As crianças respondem dos quartos.

Sara: Tchau.

Fernando sai e Sara fecha a porta.

20. INTERNA – DIA – HOSPITAL

Vitória empurra sua cadeira pelo corredor de entrada do hospital. Ao chegar ao balcão de atendimento, ela dirige-se ao atendente.

Vitória: Por favor, meu nome é Vitória Andrade. Ligaram para mim há meia hora. Procuro por Lucas Gomes.

Atendente: Um minuto, por favor – e ele digita as informações no computador. – Sim. Eu acabei de bipar ao médico responsável. Ele virá recebê-la.

Vitória: É grave?

Atendente: Isso eu não posso lhe informar, senhora. Só posso dizer que espere o médico chegar.

Vitória então começa a se afastar do balcão e bate em alguém sem querer. Era um médico.

Vitória: Desculpa.

Médico: Sem problemas.

Ele vai até o balcão e pergunta por Vitória. O atendente aponta para Vitória.

Médico: Bom dia, dona Vitória. Permita-me – e ele vai para trás de Vitória e começa a empurrar a cadeira.

Vitória: O que aconteceu com Lucas? Por que ligaram para mim?

Médico: Ele deu o seu nome como contato de emergência.

Vitória: O meu número?

Médico: Sim.

Vitória: E como ele está? – pergunta assustada.

Médico: O caso dele é bastante grave.

Os dois chegam ao quarto e Vitória vê Lucas completamente machucado. Seu rosto ainda estava todo cortado e ele tinha queimaduras em algumas partes do corpo. Vitória se emociona.

Médico: Ele sofreu um acidente grave. Está em coma induzido agora, por causa da dor.

Vitória empurra a cadeira devagar até Lucas. Uma de suas mãos estava em sua boca, tentando conter o choro. A outra encontrou a mão de Lucas e a apertou com força.

21. INTERNA – DIA – ANDANÇAS

Tomás estava em sua sala revisando alguns papéis quando alguém bate em sua porta. Era Antônio, o funcionário mais antigo da livraria.

Tomás: O que foi Antônio?

Antônio: Preciso falar com você, Tomás.

Tomás: Qual o problema dessa vez?

Antônio: Eu sei que vocês precisaram tomar decisões drásticas para salvar a livraria. E não pense que eu e todos os funcionários não agradecemos os esforços, porque manteve nosso emprego.

Tomás: Você quer chegar a algum lugar com isso?

Antônio: Os novos funcionários que eles contrataram. Eles não estão preparados para trabalhar nessa livraria. E como são contratados por eles, não aceitam as idéias nossas.

Tomás: E o que você quer que eu faça?

Antônio: Pensei que poderia conversar com eles, trazer o treinamento dos nossos funcionários para cá. Eu sempre fiz isso, não me incomodaria em ter outra função.

Tomás: Quando o contrato foi assinado, eles ficaram responsáveis pela contratação e treinamento de funcionários. Eu não posso fazer nada.

Antônio: Não pode? Essa livraria é sua e da sua família.

Tomás: Não só mais nossa e contrato é contrato. Além do mais eu tenho mais com o que me preocupar do que com problemas de relacionamento de funcionários.

Antônio: Não sei o que aconteceu com você, Tomás. Lembro quando veio trabalhar com seu pai e Saulo na livraria. Era motivado e atencioso com todos, mas de uns meses para cá, você se distanciou.

Tomás: Se for só isso, pode voltar ao trabalho. Eu não vou me meter em brigas de funcionários.

Antônio: Quer dizer que o discurso de trabalharmos todos juntos e fazermos o melhor era tudo da boca pra fora. Típico discurso de político. Eu esperava mais de você, Tomás. Vi essa empresa crescer. Vi você começar a trabalhar aqui, fui responsável pelo seu treinamento e de tantos outros funcionários. – ele toma ar para continuar – Seu pai não desistiria tão fácil. Saulo e Sara iriam tentar de tudo antes de aceitar as ordens da Papier como definitivas. Mas você desiste na primeira chance.

Tomás: Você está abusando. – ele se levanta nervoso. – Não é porque é o funcionário mais antigo da livraria, que pode falar como quiser.

Antônio: Estou dando minha opinião sobre o que estou vendo.

Tomás: Se sua opinião valesse, estaria no conselho, e não só o gerente de vendas.

Antônio: Eu não preciso ouvir suas ofensas, Tomás. Se essa livraria é o que é, tem muito do meu trabalho, mas se você não vê assim, eu me demito.

Tomás: E tem coragem de dizer que eu desisto fácil das coisas?

Antônio: Eu não desisti. Eu só não vejo motivo para continuar a trabalhar onde minhas idéias e opiniões não são mais importantes. Aposentei-me antes de seu pai morrer. Depois Saulo e Sara me pediram para continuar, mas agora, você pode deixar a Papier tomar conta de tudo.

Antônio saiu da sala sem dizer mais nada. Tomás não tomou a discussão por encerrada. Quando viu o funcionário no final da escada, ele falou alto, para ele e os outros ouvirem.

Tomás: Você tem que me dar vinte dias de aviso prévio.

Antônio: Pois se considere avisado.

Tomás viu os olhos dos outros funcionários voltados para ele, alguns assustados, outros quietos.

Tomás: Voltem ao trabalho. – ele grita e volte para sua sala.

22. INTERNA – DIA – QUATRO ESTAÇÕES

Vera estava sozinha na Quatro Estações, pois Saulo tirou o dia de folga para passar com a irmã. Ela esperava por Davi, que tinha acabado de chegar.

Davi: Por que me fez ficar esperando esse tempo todo lá fora?

Vera dá um risinho sarcástico.

Davi: Não é por causa de ontem, é?

Vera: Não sei. Será?

Davi: Já pedi desculpas. Tive um imprevisto.

Vera: O que aconteceu então?

Davi: Vera, você me ligou e eu apareci. De São Paulo até aqui. Dá para ir direto ao assunto?

Vera: Eu preciso da sua ajuda.

Davi: Você parece não precisar da ajuda de ninguém. Um negócio próprio… É, seu né?

Vera: Em sociedade.

Davi: Em sociedade? Com quem?

Vera: Não é da sua conta.

Davi faz cara de quem começa a entender.

Davi: Você ainda continua com aquele cara… Quem te viu, quem te vê.

Vera: Se é a Guilherme que você se refere, não eu não continuo com ele.

Davi: É, porque ele nunca iria largar a esposa pra ficar com você.

Vera: Não duvide tanto disso. Afinal, você sabe o que ele fez para te deixar longe de mim – diz, pausadamente.

Davi suspira irritado.

Davi: O que é que você quer?

Vera: Você me deve um favor.

Davi: Não lhe devo nada.

Vera: Você sabe que deve. E eu te chamei para cobrá-lo.

Vera se senta confortavelmente na cadeira e faz sinal para que Davi se sentasse também. Ele reluta, mas se senta.

23. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Saulo chega à casa de Nora e a encontra com um bloquinho em mãos.

Saulo: Bom dia!

Nora: Olá!

Os dois se beijam no rosto.

Saulo: Fazes o quê?

Nora: Anotando algumas idéias que tive…

Saulo: Crônicas?

Nora: Acho que… acho que estou pensando em algo maior dessa vez.

Saulo: E o seu irmão tem uma editora, lembre-se disso.

Nora: Não me pressione! Não se pode pressionar a criatividade.

Saulo: Ok, ok… Como está se sentindo?

Nora: Mamãe pediu que você viesse me perguntar?

Saulo: Não. – Nora não acredita. – Não, é sério. – Nora ainda não acredita. – Tá, ela pediu.

Nora: Sabia.

Saulo: Mas ela tem um pouco de razão em estar preocupada. E por isso eu marquei uma consulta… – Nora começa a protestar – …com um médico para você. E a senhora vai. Nem que eu tenha que levá-la. Ou que o Davi tenha que te levar.

Nora para de protestar.

Nora: Não teve a mínima graça – Nora cora.

Saulo: Oooon, ficou vermelha.

Nora: Pára, Saulo!

Os dois começam a rir.

24. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SAULO

Júnior e Rebeca conversavam.

Rebeca: Minha mãe te ajudou? Nossa!

Júnior: Pois é. Pensei a mesma coisa. Mas ela me deu uns bons conselhos.

Rebeca: E?

Júnior: E, apesar de parecer que eu fui para o lado negro da força por aceitar conselhos da sua mãe, eu realmente os aceitei e acho que tomei uma decisão.

Rebeca: Que sua mãe não saiba disso.

Júnior: Não se preocupe, vai para o túmulo comigo – ri. – Bem, eu decidi que quero voltar a fazer faculdade.

Rebeca se levanta.

Rebeca: Sério, Ju? Isso é incrível!

Ela vai até ele e eles se abraçam.

Júnior: Nem tanto assim… Por enquanto a única coisa que eu sei é que eu quero voltar, mas não sei que curso fazer.

Rebeca: A gente começa do princípio!

Júnior fica esperando Rebeca continuar.

Rebeca: Testes vocacionais?! Já fez um?

Júnior: Hã… Não, eu acho.

Rebeca: Vem, vamos fazer um agora.

E ela abre o notebook e começa a digitar.

Rebeca: Sua família vai ficar tão feliz por você, Ju…

Eles ouvem um barulho à porta.

Júnior: Sobre isso, vamos tentar manter só entre a gente. Por enquanto.

Rebeca: Tudo bem.

Saulo entra no recinto.

Saulo: Rebeca! Não sabia que estaria aqui. Tudo bem, Júnior?

Júnior: Aham. Tudo ótimo – diz, abaixando tela do notebook.

Saulo: E aí, Rebeca? Como foi o almoço com sua mãe ontem?

Rebeca: Que almoço?

Saulo: Sua mãe disse que vocês duas iriam almoçar ontem. Colocar a conversa em dia…

Rebeca não sabia de nada sobre o almoço, mas começa a perceber que sua mãe tinha mentido para Saulo. E ela não tinha gostado disso. Nem do que resolve fazer em seguida.

Rebeca: Ah! Aquilo? Nem foi um almoço. Nós só ficamos andando por aí. Colocamos a conversa em dia, sim.

Saulo: Se divertiram?

Rebeca: Aham – mente. Ela olha para Júnior, temendo que ele perceba alguma coisa.

Saulo: Ótimo, ótimo.

Saulo sai e Rebeca olha para Júnior.

Júnior: Valeu por não dizer nada.

Rebeca: Que é isso – diz, com vergonha do que tinha acabado de fazer.

25. EXTERNA – DIA – PRAIA DE IPANEMA

Carlos e Pâmela andam pelo calçadão, conversando.

Pâmela: Ai, sair antes do café?

Carlos: Ele é médico. Médicos têm que lidar com emergências e essa coisa toda. Lembra de quando a barca Rio-Niterói virou, alguns anos atrás? Ele socorreu um monte de pessoas do acidente.

Pâmela: Sério?

Carlos: Aham. Você tem que ouvir as histórias que ele me conta, os casos que ele já pegou… Incrível.

Pâmela: Eu quero alguém assim para mim… Ando tão sozinha.

Carlos se afasta dela.

Carlos: Sai pra lá, hein! – implica.

Pâmela: Nossa, do túnel do tempo, essa, Carlos.

Carlos: Desculpa…

E ele chega mais para perto dela de novo e os dois continuam a caminhada. De repente, uma bola vem na direção dos dois e Pâmela agarra.

Carlos: Boa pegada.

Pâmela: Isso pode ser mal interpretado.

E a dona da bola aparece. Era uma pré-adolescente. Pâmela entrega a bola. A menina sai sem agradecer.

Pâmela: De nada!

E a mãe da criança aparece.

Ingrid: Obrigada.

Pâmela fica sem graça.

Pâmela: Ah, que é isso.

Ingrid e Carlos se reconhecem.

Carlos: Ingrid! Oi…

Ingrid: Como vai? – os dois apertam as mãos. – É estranho te encontrar fora do consultório.

Carlos: O Rio é um ovo, não é mesmo?

Ingrid: E como!

Carlos: Aquela era a sua filha?

Ingrid: Sim, a Micaela. Aquele lá é meu mais velho, Fábio. E com eles – suspira – é o meu ex-marido.

Ingrid apontava enquanto falava. Ao longe, Carlos viu a menina voltando para junto do irmão e do pai, que Carlos reconheceu como sendo Diego. Diego viu Carlos também e começou a falar alguma coisa com os filhos e se afastou deles, vindo em direção a ex-mulher, Carlos e Pâmela.

Pâmela: Nós temos que ir agora, não é, Carlos? – e Pâmela começou a puxá-lo para longe dali.

Ingrid: Tchau. Foi bom falar com vocês.

Diego pára de andar ao ver Carlos indo embora.

Pâmela: Não olha pra ele. Fica calmo.

Carlos não conseguia falar. Pâmela continuou a guiá-lo para longe dali o mais rápido possível.

26. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE CARLOS – SALA

Carlos e Pâmela chegam em casa.

Carlos: Ele tem uma família!

Pâmela: Ele não é mais casado, Carlos. Vocês não estão fazendo nada de errado.

Carlos: Ele tem uma família! Esposa, filhos e tudo!

Pâmela: Ex-esposa. E vai ver ele ia te contar… em breve… Tenta ver pelo lado dele…

Carlos: Lado dele? Eu tenho que ver o meu lado, o meu!

O telefone de Carlos começa a tocar. Ele e Pâmela disparam para ver quem alcança o telefone primeiro. Pâmela vence.

Carlos: Me dá o telefone, Pâmela.

Pâmela: Nada disso. Você não vai falar com ele desse jeito.

Carlos: Me dá o telefone!

Pâmela: Não! Levo ele pra minha casa. Jogo na privada! Pela janela, se for preciso. Mas você não vai falar com ele nesse estado.

Carlos se rende.

Carlos: Tudo bem. Foi ele mesmo quem ligou?

Pâmela: Foi.

Carlos se senta no sofá e passa as mãos pelo rosto.

Pâmela: Esfria a cabeça, ok? Não faça nada do qual vai se arrepender depois. Posso deixar o celular aqui?

Carlos: Pode – diz, entre um suspiro.

27. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE VERA – SALA

Vera estava trabalhando, revisando uns contratos, quando começam a bater violentamente em sua porta.

Rebeca: Mãe?!

Vera: Rebeca! – ela corre até a porta e ao abrir, a filha entra. – Aconteceu alguma coisa? – pergunta preocupada.

Rebeca: Aconteceu sim. Um almoço! Entre nós duas ontem! Pena que eu não fiquei sabendo.

Vera fica sem reação.

Rebeca: Por que você mentiu para tio Saulo?

Vera: Rebeca…

Rebeca: Por quê?!

Vera: Não é o que você está pensando…

Rebeca: Você não faz idéia o que eu estou pensando.

Vera: Filha, eu…

Rebeca: Eu menti para ele por você. Mas não farei de novo. E espero que você também não.

Vera: Rebeca, espera! – e Vera segura no braço da filha.

Rebeca: Me solta, mãe.

Vera não solta.

Vera: Vamos conversar…

Rebeca: Me solta! Não tenho mais nada para falar com você!

Vera solta o braço da filha e Rebeca vai embora batendo a porta.

28. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – SALA

Sara estava sentada entre Rafaela e Eduardo, ajudando os dois com uma maquete para a escola. Eles tinham uma apresentação sobre a visita ao zoológico que fizeram com a escola, na semana anterior.

Eduardo: E o leão fica nessa ponta. – ele fala colocando o brinquedinho de plástico perto da árvore que eles fizeram com garrafas pet.

Rafaela: A gente devia ter comprado árvores de brinquedo, igual os animais.

Gabriel: Não, assim é melhor. Além de usar a criatividade, nós estamos reciclando materiais e ajudando a natureza. – ele falou enquanto ajudava os irmãos.

Rafaela: Sério?

Sara: Sim, o Gabs tem razão.

Gabriel: As garrafas pet demoram mais de cem anos para decompor. Sabe quanto é isso?

Eduardo: É o tanto que a bisa Diva tem.

Sara e Gabriel começam a rir com a comparação que Eduardo fez e as duas crianças não entendem o motivo das risadas.

Sara: Não, a bisa tem menos que isso.

Rafaela: Nossa então é muuuuuito tempo.

Sara: Sim, é muito tempo. – ela dá uma risada, mas complementa – mas não vão falar isso com a bisa, tá?

Gabriel: Sabe o que a gente devia fazer? – e ele olha para os irmãos incluindo os dois em sua idéia – Podemos começar a separar o lixo em casa por materiais. Assim ajudamos ainda mais.

Rafaela: Sim! Eu quero ajudar a natureza.

Eduardo: Eu também!

Sara: Tudo bem. Eu vou providenciar as lixeiras para separar o lixo. – ela olha para Gabriel e sorri – Fico feliz que você está disposto a passar um tempo comigo e seus irmãos. Senti sua falta.

Gabriel: Nem é pra tanto, mãe. – ele fala envergonhado.

Sara olha a interação dos filhos. Os três se divertindo enquanto faziam o trabalho da escola e pensou no que Fernando falou, sobre eles não se importarem tanto com a idéia dela ter um namorado e resolveu que era o melhor momento para contar a eles.

Sara: Crianças. Quero conversar sobre um assunto com vocês. É importante. – ela espera até ter a atenção dos três filhos. – Vocês sabem que eu e o pai de vocês não estamos mais juntos. Lembram que o papai teve uma namorada, um tempo atrás?

Rafaela: Ele tá namorando de novo?

Sara: Uhm, eu não sei. – ela fica insegura em terminar a conversa, mas resolve acabar logo com aquele segredo. – Mas eu conheci uma pessoa bem legal, ele é professor onde dou aula, e nós estamos namorando.

Os gêmeos ficam quietos. Gabriel olha para a mãe e comenta.

Gabriel: Sabia. Quer dizer, eu desconfiava.

Sara: E o que você acha?

Gabriel: Seria melhor eu responder isso depois de conhecê-lo.

Sara: E vocês crianças? Têm alguma coisa para falar?

Eduardo: A gente pode terminar o trabalho da escola? Eu quero ver meu desenho.

Sara consente e os quatro voltam à atenção para a maquete. Ela sempre olhando para os três, tentando descobrir o que eles pensavam.

29. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS – SALA

[♪ – Somos quem podemos ser, Engenheiros do Hawaii]

Tomás chega em casa depois de onze horas da noite. As luzes apagadas e silêncio absoluto. A cabeça latejava de dor. Ele vai até a porta do quarto e vê Vitória quieta na cama, parecia dormir e ele resolve não incomodar. Volta para a sala, não sem antes espiar o quarto do bebê, que parecia zombar de sua incompetência para ser pai. Ele deita no sofá e joga o braço por cima dos olhos.

No quarto, Vitória, que esperava a chegada do marido, percebeu quando ele entrou em casa, mas resolveu deitar no sofá, ao invés do lado dela. Ela sabia que a negação ao pedido de adoção tinha mexido com ele, mas queria que ele conversasse com ela e não interiorizasse toda a frustração.

30. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE TOMÁS – SALA

Tomás acorda com o sol batendo em seu rosto. Ele abre os olhos e olha para o relógio no pulso e percebe que era quase dez horas da manhã. Levanta-se de supetão e para quando sente a dor na lombar e a cervical, causada pela noite dormindo no sofá. Chamou por Vitória, mas não recebeu nenhuma resposta. Ela já tinha saído. Ele então foi para o chuveiro tomar um banho rápido antes de ir trabalhar.

31. INTERNA – DIA – HOSPITAL

Vitória estava ao lado da cama de Lucas. Ele parecia na mesma, tirando as manchas roxas que tomavam conta de seu rosto e braço, que ela podia ver, causados pelo impacto do acidente. Ela fica triste por ele estar naquela situação.

Enfermeira: Com licença. Eu só preciso aplicar um remédio no soro e checar os sinais vitais.

Vitória: Tudo bem. Precisa que eu me afaste?

Enfermeira: Não. – ela olha para a mulher e fala – Sabe, alguns estudos dizem que os pacientes em coma, podem ouvir o que falamos com eles.

Vitória fica em silêncio, pensando no que a enfermeira tinha dito para ela e resolve que falar com Lucas seria bom para ele e também para ela.

Vitória: Eu sinto muito que você esteja assim. Acorda logo porque você tem muita coisa que fazer ainda. – ela se cala uns instantes, emocionada com a situação que seu amigo se encontrava. – Eu e o Tomás queremos adotar um bebê, ou queríamos, não sei. Nós fizemos todas as entrevistas, mas eles negaram nosso pedido. Acharam que eu não teria condições de cuidar de uma criança estando na cadeira de rodas e que o Tomás trabalha demais. Queria tanto que ele pudesse ser pai, ele seria um ótimo pai, tenho certeza – ela sorri pensando no marido – e sei que ele me ama, mas tenho medo que daqui uns anos ele se ressinta por ter ficado comigo e sem os filhos. Depois da negativa, ele fica cada vez menos em casa. Sempre na livraria, se afundando em trabalho.

Ela respira fundo, triste com o que acontecia. Mais uma vez, Tomás se distanciava emocionalmente dela, e tinha medo que um dia, eles estivessem tão distantes, que não conseguiriam se aproximar novamente.

Vitória: Mas que péssima amiga eu sou. Você aí, precisando ouvir coisas boas, para se animar, e eu lamentando meus problemas. Acho que vou ler um pouco do jornal para você, mas só as notícias boas. – ela abre o jornal e começa a sorrir – Olha, seu time venceu ontem, por quatro a um.

32. INTERNA – DIA – ANDANÇAS

[♪ – Somos quem podemos ser, Engenheiros do Hawaii]

Tomás entra apressado na livraria. Percebe os olhares disfarçados dos funcionários, mas resolve não dar muita importância. Ele mal cumprimenta sua secretária e entra em sua sala, encontrando Sara sentada em sua cadeira.

Tomás: Ora, a que devo a honra dessa visita. Talvez esteja querendo seu lugar novamente, ou melhor, o meu lugar. – ele diz indicando descontentamento com ela em sua cadeira.

Sara: Não, estou muito bem onde estou. Tenho tempo para meus filhos, finalmente. – ela fala se levantando.

Tomás: Que bom para você.

Sara: O que há com você? Pra que essa atitude? Achei que já tinha se conformado com a minha saída da livraria.

Tomás: Se você veio se gabar, pode sair. Não tenho tempo ou paciência para isso.

Sara: Não, na verdade eu vim, porque o Antônio me ligou e disse que talvez você estivesse com problemas.

Tomás: Ficou preocupada agora? Depois de largar tudo na minha mão? Dispenso. Eu dou conta.

Sara: Você despediu o Antônio. O funcionário mais antigo da livraria e fiel ao nosso pai e nossa família. O que está pensando?

Tomás: Ele que se demitiu, sem pensar duas vezes.

Sara: Claro, depois de como você o tratou. O que está pensando?

Tomás: Por que não volta para seus alunos e seus filhos? Pelo menos um dos dois pode fazer isso, não é?

Sara: Você precisa se acalmar e controlar suas atitudes. Eu sei que a negativa ao pedido de adoção mexeu com você, mas não pode deixar isso controlar todas as outras áreas da sua vida.

Tomás: Muito fácil falar quando você tem tudo o que quer, não é mesmo? Tem a carreira que queria e a família que sempre quis. Enquanto eu não sou capaz nem de cuidar dos negócios da família e muito menos de ter minha própria família.

Sara: Tomás…

Tomás: Se você veio aqui interceder pelo Antônio, diga para ele que o lugar ainda é dele, se quiser voltar. Mas não venha querer me ajudar agora, já é tarde demais. Se puder me dar licença.

Sara: Eu vou agora, mas essa conversa não acabou. E você pare de lamentar o que não tem e comece a ver o tanto que tem.

33. INTERNA – DIA – ÁGORA RJ

Carol olha para a tela do computador. Tinha acabado de enviar a reportagem sobre o aumento de público nos filmes nacionais. Mais uma vez, depois que um filme nacional estourava nas bilheterias, aquele tipo de matéria sempre era feito. Ela ergueu a cabeça e viu o corre-corre na editoria de política que ficava logo em frente à editoria de cultura.

Ano eleitoral era seu ano predileto desde que tinha se formado. Principalmente eleições presidenciais. Ela gostava de entrevistar os candidatos, conseguir alguma informação nova, ou alguma exclusiva. Aquilo sim era motivador e inspirador, saber que o que escrevia, faria diferença na vida de pelo menos uma pessoa.

34. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS – SALA

Carlos estava saindo de casa. Ao fechar a porta, seu telefone toca. Era Diego. Ele não atende.

35. INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – ENTRADA

Carlos chega ao trabalho e encontra Diego sentado na escadaria do prédio, esperando por ele. Ao vê-lo, Carlos dá a volta. Diego vai atrás dele.

Diego: Carlos, por favor!

Carlos: Eu não quero conversar agora.

Diego: Por favor, deixa eu explicar.

Carlos: Já disse que não!

Diego: Carlos…

Carlos: Não! Não quero ouvir desculpas ou explicações. Vai embora e pára de fazer cena em frente ao meu trabalho.

Carlos se afasta de Diego.

Diego: Quem está fazendo cena é você.

Carlos pára de andar e volta até Diego.

Carlos: Eu estou fazendo cena? Então por que perder seu tempo comigo? Por que você não volta pra tua mulher e para o seu armário? Lá não tem cena nenhuma.

Diego fica sem palavras. Carlos sai.

36. INTERNA – DIA – QUATRO ESTAÇÕES – SALA DE VERA

Vera conversava com Davi sobre como queria que ele tratasse a campanha de divulgação da livraria. Eles conversavam tranqüilos, quando percebe Saulo chegando com Nora e indo em direção à sua sala. Ela levanta, querendo evitar o encontro dos dois, mas não conseguiu e Saulo já entrava com Nora em sua sala.

Saulo: E essa é a sala da Vera, como pode perceber. – ele olha além da sócia e reconhece Davi. – Você? Como se conhecem?

Vera: O Davi? Ele é um velho amigo, mas ele está aqui a negócios. Ele concordou em fazer a campanha para divulgação da editora.

Davi olha para Saulo e depois para Nora, que já sorria para ele.

Davi: Ora, que coincidência. Parece que o acaso continua conspirando para nos encontrarmos.

Nora: Parece que sim.

Vera: Vocês se conhecem? Como?

Davi: Posso dizer que Nora caiu aos meus pés, literalmente.

Nora: Não propositalmente. Esse calor me causou um mal estar no outro dia e Davi foi gentil o suficiente para acompanhar a mim e minha mãe até em casa.

Davi: Carregar seria mais apropriado. – ele sorriu vendo a cara dela.

Vera: Ora, que cavalheiro.

Nora: Eu que o diga – ela fala sorrindo para Davi, encantada com o charme dele e não percebendo o tom sarcástico de Vera.

Saulo percebeu a atitude da namorada e sócia, mas para não fazer nenhuma cena, resolveu guardar aquela informação para quando estivessem só os dois.

37. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA – SALA

Sara olha mais uma vez a aparência no espelho da sala, conferindo a aparência. Os filhos estavam sentados no sofá, assistindo à televisão. O porteiro já tinha avisado da chegada de Marcelo, e quando a campainha tocou, ela foi logo atender.

Marcelo: Nossa, como está linda. – ele fala já se aproximando dos lábios dela, mas Sara recua, fazendo sinal mostrando os filhos que olhavam para eles.

Os dois entram e Sara apresenta os filhos.

Sara: Marcelo, estes são Gabriel, meu filho mais velho. E os gêmeos Eduardo e Rafaela.

Marcelo aperta a mão esticada de Gabriel e depois se agacha na frente dos mais novos e brinca com eles. Os dois olham para o namorado da mãe e depois o caçula pergunta:

Eduardo: Nós já podemos comer? Estou morrendo de fome.

Marcelo se levanta e os cinco saem para jantar. Sara já tinha dito que era melhor algo casual, então ele decidiu por pizza. Gabriel olhava desconfiado para Marcelo todo o tempo.

38. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO

Carol entra em casa e percebe a televisão ligada na sala e Larissa dormindo no sofá. Ela desliga a televisão e segue para o escritório. Ela deixa as coisas em cima de sua mesa e deixa o corpo cair na cadeira. Esfrega os olhos, cansada, e quando abre, percebe a moldura na parede à sua frente. Levanta e vai ver de perto. Era a capa da Múltipla, sobre sua reportagem sobre os desaparecidos políticos.

No móvel logo abaixo da moldura, ela encontra a edição da revista e um livro de recortes. Dentro ela encontra todas as reportagens e matérias que escreveu desde o dia que eles se conheceram. Ela sorri e emociona-se com o carinho e dedicação que ele teve ao preparar tudo aquilo para ela.

39. EXTERNA – NOITE – PRÉDIO DE SARA – PORTÃO

Assim que estacionou o carro, Gabriel, Eduardo e Rafaela foram saindo do carro de Marcelo e indo em direção à portaria. Sara fica nervosa com a reação dos filhos e chama os três de volta.

Sara: Gabriel, Eduardo e Rafaela. Voltem aqui um instante.

Os três se viram e vão até a mãe.

Sara: Essa não foi a educação que eu e seu pai demos a vocês.  O Marcelo nos levou para jantar fora e agora vocês vão se despedir e agradecer antes de entrar.

Gabriel é quem puxa o coro de obrigado e boa noite antes de irem para casa.

Sara: Eu não sei o que deu neles hoje à noite. Me desculpa.

Marcelo: Tudo bem. São crianças. Acho que eles não gostaram muito de mim, mas quem sabe com o tempo eu não consigo conquistá-los, não é mesmo?

Sara: Nem sei o que falar, mas vou conversar com eles.

Marcelo: Sara, não adianta forçar. Essas coisas levam tempo, se você quiser esperar.

Sara: Acho que precipitamos esse encontro. Talvez…

Marcelo: Não. Nós fizemos o certo. Não queria mentir para seus filhos, queria? Nós estamos namorando e eu vou fazer parte da sua vida e, conseqüentemente, da vida deles. Eles só estão lidando com algo novo.

Sara: Tem razão. – ela fala se inclinando na direção dele para um beijo – Acho melhor eu entrar e conversar com eles.

Marcelo: Tudo bem. A gente se fala e marcamos algo para o final de semana.

Ele espera ela entrar e entra no prédio e então volta para o carro e segue para casa.

40. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – QUARTO DE GABRIEL

Quando entra em casa, Sara encontra Rafaela e Eduardo escovando os dentes, já de pijama. Ela enche dois copos de plástico com água e leva para os filhos beberem antes de deitar. Depois de despedir dos dois, ela vai até o quarto do filho mais velho, que estava deitado na cama, com os fones de ouvido. Ela bateu no batente da porta e entrou. Gabriel tirou os fones do ouvido e sentou-se na cama.

Sara: Podemos conversar?

Gabriel: Claro.

Sara: O que foi que aconteceu? Achei que a noite seria divertida, mas seus irmãos e você pareciam incomodados.

Gabriel: Eu não sei mãe. Foi estranho, só isso.

Sara: Estranho como?

Gabriel: Ele, o Marcelo, é meio estranho. Ele parece conhecer tudo da vida da gente.

Sara: Eu e ele estamos namorando, Gabs. Nós conversamos. Você sabe como é isso, ou você e Larissa não conversam?

Gabriel: Eu sei…

Sara: Achei que você entendesse e estivesse pronto para conhecê-lo.

Gabriel: Eu também achei que estava, quer dizer, estou… acho.

Sara: Talvez seja melhor dar um passo atrás, quem sabe daqui um tempo você não se acostume mais com a idéia. – ela dá um beijo no rosto do filho – eu vou deitar. Boa noite e não demore a deitar.

Ela vai andando em direção à porta sob o olhar atento do filho.

Gabriel: Mãe…

Sara: Oi – ela fala virando para o filho.

Gabriel: Você está feliz? Quero dizer, feliz namorando ele?

Sara: Sim, muito feliz.

Gabriel assente e sorri para a mãe.

Gabriel: Boa noite. – ele fala e deita-se novamente. Os fones de ouvido voltando para o lugar onde estavam antes e o olhar voltado para o teto.

41. INTERNA – NOITE – HOSPITAL

Diego caminha pelo pronto-socorro, até uma das camas, coberta com um biombo. Ao abrir, ele encontra Carlos segurando o pulso. Diego suspira.

Diego: O que aconteceu?

Carlos levanta o pulso.

Carlos: Dei um soco na parede. Por sua causa.

Diego: Ganhei meu dia.

Ambos estavam sérios.

Diego: Vou apertar e você me diz se e onde dói, certo?

Diego começa a apertar o braço de Carlos. Quando ele chega na área machucada, Carlos geme de dor. Diego pega o prontuário e anota algumas coisas.

Diego: Você não quebrou o pulso. Mas vou pedir uma chapa mesmo assim. Numa escala de 1 a 10, onde ficaria a dor?

Carlos: Uns sete? Seis, seis.

Diego: Vou receitar um analgésico para a dor e…

Carlos: Seis também é o quanto eu me arrependi de ter te falado aquelas coisas… Acho que até mais um pouco. Nove. Talvez, dez.

O médico fecha o biombo.

Diego: Carlos, eu sei que você tem todo o direito de ficar chateado comigo.

Carlos: Não, não tenho. Ou talvez tenha…

Diego: Tem.

Carlos: Mas eu tinha que ter entendido. Toda a sua dificuldade no começo… Quer dizer, eu já passei por isso. E nem tinha uma família a tira-colo.

Diego: Você a conhecia? Ingrid?

Carlos: Das sessões de terapia.

Diego: Você faz terapia?

Carlos: É recente.

Diego: Ingrid não lidou muito bem com tudo o que aconteceu. Mas Carlos, eu planejava te contar… Só não sabia como.

Carlos: Mas agora eu quero saber de tudo. De tudo.

Diego: Tudo bem.

42. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SAULO – SALA

Saulo chega em casa e se depara com Júnior e Rebeca sentados na sala de jantar, o sobrinho debruçado sobre um, dos muitos livros espalhados na mesa. Dividindo o espaço com copos e pratos sujos, provavelmente com algo que comeram.

Saulo: Nossa, como os dois estão ocupados.

Júnior levanta a cabeça, não tendo percebido a entrada do tio.

Saulo: O que é tudo isso?

Os dois jovens se entreolham e Júnior decide contar ao tio sobre sua idéia de voltar à faculdade.

Júnior: Mas a Rebeca é a única que sabe. Não quero ser motivo de mais uma decepção para eles.

Saulo: Você não é nenhuma decepção, mas eu entendo. Seu segredo está a salvo comigo.

Rebeca começa a guardar suas coisas para ir embora.

Saulo: Onde pensa que vai?

Rebeca: Já está na hora de ir embora, tenho algumas coisas para fazer em casa. – ela fala sem olhar para Saulo, sentindo-se culpada.

Saulo: Ei, o que foi? Está estranha. Algum problema?

Ela sacode a cabeça, negando.

Saulo: Você e sua mãe brigaram, é isso?

Rebeca: Não foi nada de mais. Só um desentendimento.

Saulo: Tente ter mais paciência com sua mãe. Sei que ela pode ser difícil, mas ela está preocupada com os problemas da editora.

Rebeca olha para Saulo e vê o quanto ele confia em sua mãe. Ela se sente mal com a situação, mas não deixa transparecer.

Rebeca: Tudo bem. Agora eu vou indo mesmo. – ela vai dar um abraço em Saulo.

Saulo: Não, não. Você vai ficar aqui e comer. Como eu não vou aproveitar a companhia de dois jovens na minha casa.

Júnior: Isso, fica. Tio Saulo faz a melhor macarronada de todas. – ele sorri e depois acrescenta – não contem isso para dona Nora, ou ela me mata.

Rebeca e Saulo dão risada e os três seguem para a cozinha.

43. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE VERA – SALA

Vera e Davi bebem licor, sentados na sala depois do jantar. Ele tinha assinado o contrato para fazer a campanha para a Quatro Estações e Vera sorria, feliz com sua idéia ter dado certo.

Davi: Você e o Saulo… Quão sério é isso?

Vera: Como assim?

Davi: Eu te conheço, Vera, por que você está com ele? É por causa da editora?

Vera: Quem é você para falar assim?

Davi: O cara que te conhece e sabe do seu passado.

Vera: O Saulo é uma antiga paixão e o maior erro que eu cometi.

Davi: Como assim?

Vera: Eu namorava o Saulo, foi assim que eu conheci o Guilherme.

Davi: Ah, agora sim. – ele sorri e termina a bebida em sua mão. – E por que você mentiu para ele sobre mim?

Vera: Sobre o quê?

Davi: Um velho amigo? – ele caçoa – Ora Vera, desde quando eu sou um velho amigo?

Vera: Eu não quero que meu passado o magoe novamente. Por isso, por favor, não fale nada.

Davi: Se você assim o quer, assim será – diz, bebendo um longo gole de licor.

44. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – ENTRADA

[♪ – Something, The Beatles]

Nora podava umas plantas no quintal quando tocaram a campainha. Para não sujar a casa de terra, ela deu a volta pela lateral e surpreendeu quando viu Davi parado na porta.

Davi: Espero não ter chegado em uma má hora.

Nora: De forma alguma. Eu estava podando as plantas no quintal. – ela falou enquanto abriu a porta da sala para apertar o interruptor que abria o portão da casa. – Mas o que o trás aqui?

Davi: Lembra que falei que a conhecia de algum lugar? – ele a viu balando a cabeça afirmativamente – Foi daqui.

Ele falou e ergueu o livro que Nora publicou com outros autores.

Nora: O livro que eu participei.

Davi: Sabia que a lembrança era de algo bom.

Nora: Se você acha, fico feliz. – ela sorri e acrescenta – Vamos entrar e eu preparo um café ou um suco e podemos conversar sem esse calor.

Davi: Ótimo.

Os dois entram na casa, Nora na frente, não escondendo o sorriso que teimava em aparecer desde que conheceu Davi.

Continua…

Trilha sonora

Little Romance, Ingrid Michaelson

Somos quem podemos ser, Engenheiros do Hawaii

Something, The Beatles

4 Respostas to “Não É Você, Sou Eu”

  1. Natie Says:

    Oi gentee!!

    Nossa, q epi bombastico hien?? hehe…

    Finalmente Davi deu as caras!! E como a vida é engraçada né? O ex da Vera se interessando pela Nora!! Só achei estranho a Vera ter escondido o almoço do Saulo… Não é passado? Ainda fez a filha mentir pra ela neh?

    E q historia essa do Diego!! O cara é ex da terapeuta do Carlos? haha… Só rindo mesmo!

    Não gosto dos rumos do Tomás… E concordo com a Sara! As vzes a gente se foca mtu no q não tem e esquece o q tem! E ele acabou nem sabendo do Lucas né? Gosto dele, então espero q esse comportamento não traga mais consequencias para o casamento dele e da Vitoria…

    Achei legal a Sara ter abrido o jogo pros filhos e ter apresentado o Marcelo a eles… O q tbm me deixa um pouco triste pq mostra q o relacionamento deles é sério neh? Ai ai, eu ainda tenho esperanças de Sara e Fernando… heheh…

    Torcendo pelo Junior e pela carreira, qualquer que seja…

    Bjus!!

    1. osandrades Says:

      Natie!

      Só pra evitar confusão, o Diego é ex da mulher da sala de espera e não da terapeuta.

      Sobre Sara… Continue acompanhando…

      Até a próxima!

      Filipe

  2. Gustavo Says:

    Salve galera!!!

    Só digo uma coisa:

  3. Gustavo Says:

    Salve galera!!!

    Só digo uma coisa: EU SABIA!!!

    Voltando à programação normal…

    Estou começando a ficar preocupado com a saúde da Nora! Ela tem que procurar logo um médico, pois esses maus estares estão ficando cada vez mais frequentes…

    Tenso esse acidente do Lucas, se é que foi acidente mesmo. Coitada da Vitória, e agora? Aguardemos cenas dos próximos capítulos…

    Sobre Carlos e Diego, o que tenho a dizer??? Eu tinha certeza que ele estava escondendo uma família, mas pra mim ele ainda era casado e não separado. Menos mal… Mas tinha que ser com a Ingrid?? Até parece que tem dedo do “Maneco” nessa história.

    Gostei da atitude da Pamela, ela se mostrou uma senhora amiga e não deixou o Carlos fazer besteiras, coisa que certamente ele faria…

    E mais, se o Diego ficou do jeito que ficou, ele deve estar mesmo gostando do Carlos e se não contou antes deve ter tido seus motivos… Enfim, somente o tempo dirá até onde essa relação irá. E pelo visto o Sérgio virou passado mesmo…

    É isso galera, até o próximo.

    [ ]´s.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s