Nos episódios anteriores: Nora e Carol estão sem se falar. Sara se envolve com um de seus alunos. Carlos recebe o telefone de um cara no teatro, mas não deu muita bola. A Barbosa & Lima está cada vez mais empenhada no caso Lumni. Nora conhece Emerson, seu editor. Tomás anda sendo insistentemente perseguido e paquerado por Lavínia. Rebeca apresentou seu novo namorado, Giovanni, à família. A Quatro Estações foi inaugurado.

01. INTERNA – NOITE – FACULDADE BULEVARES – SALA DE AULA

Sara: É, isso… nos vemos na próxima aula – Sara finaliza, dispensando a turma, que levanta ansiosa das cadeiras, já se passava das 22 horas, todos queriam ir para casa.

Arthur foi o único a permanecer, fazendo hora enquanto todos deixavam o recinto. Sara também se prolongava na arrumação de suas coisas. Logo, só restavam os dois ali. Arthur aproxima-se.

Arthur: Olá! – diz maroto, já querendo beijá-la no pescoço.

Sara: Não, Arthur! – ele a olha sem entender.

Arthur: Você quer ir a outro lugar?

Sara suspira.

Sara: Senta aí, precisamos conversar.

Arthur senta-se, estranhando o fato de ela estar tão na defensiva.

02. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO TOMÁS – QUARTO

Assim que o alarme do rádio relógio toca, Vitória desliga o aparelho e o silêncio volta ao quarto. Ela já estava acordada há algumas horas. Vira na cama e começa a dar beijos leves no ombro de Tomás, tentando acordá-lo.

Vitória: Hora de acordar, meu bem. – fala carinhosa.

Tomás: Já? Ainda é cedo. – resmunga enterrando a cabeça no travesseiro.

Ela passa os braços pela cintura do marido e começa a seduzi-lo com beijos no pescoço e atrás da orelha. Tomás sente-se culpado pelos pensamentos e sonhos com outra mulher e logo se solta dos braços de Vitória e se levanta.

Vitória: Tomás, o que foi?

Tomás: Nada, eu só estou cheio de trabalho para fazer hoje na livraria.

Vitória: Até agora pouco você estava fazendo hora na cama.

Tomás: E me lembrei de tudo que preciso fazer hoje. Você vai precisar do banheiro agora?

Vitória: Não, hoje eu tenho a manhã de folga.

Ela observa Tomás entrar no banheiro fechar a porta e depois deixa o corpo cair na cama.

03. INTERNA – DIA – QUATRO ESTAÇÕES

Saulo e Vera estavam em seu escritório, cada qual em sua mesa, fingindo fazerem algo, até Saulo resolver tocar no ponto que os preocupavam.

Saulo: As coisas andam calmas demais por aqui.

Vera: Aparentemente não existem tantos escritores querendo publicar livros.

Saulo: É normal, estamos apenas começando. Por isso, devíamos focar mais no editorial de revistas.

Vera: É… Só temos a da Papier-Andanças

Saulo: Veja, a Liga Comunicação, uma agência de assessoria de um conhecido meu, está procurando uma nova editora para publicar as revistas das empresas que assessoram. A que eles estão cobra preços exorbitantes por um trabalho fulo. Acredito que se chegarmos com uma proposta viável, conseguimos. Eles cuidam de duas revistas de Arquitetura, uma de uma indústria de Alimentos e mais três de cidades do interior, sabe, fazendo a linha coluna social. Já é bastante coisa.

Vera: Pode ser interessante.

Saulo: E rentável, que é o que mais precisamos agora, até pra investir em projetos futuros.

Vera: Na literatura.

Saulo: Exato. E, bem, também precisamos, agora de imediato, sustentar o caixa da Quatro Estações. Vamos viabilizar isso?

Vera: Certo… mas como?

Saulo: Vem cá que eu te explico, e você me ajuda a elaborar o projeto.

04. INTERNA – DIA – ANDANÇAS / BARBOSA & LIMA

Sara: Terminei com o aluno – ela diz assim que o irmão atende ao telefone.

Carlos: Prossiga. – Carlos estava na sua sala, acompanhado de Rebeca e de Gustavo, uma das recentes contratações do escritório. Todos voltados para o caso Lumni.

Sara: Tive que fazer isso… As pessoas já estavam comentando pela faculdade. Se isso chegasse até a direção, nem sei…

Carlos: É difícil mesmo conter o fluxo de informação.

Sara: Hum, entendi, tem mais gente na sala.

Carlos: Sim, e fica difícil argumentar nessa perspectiva.

Sara: Então, vamos almoçar juntos hoje? Tenho outra coisa pra te falar.

Carlos: Sim, reunião marcada. Até logo! – Carlos desliga o telefone. – Um possível novo cliente – ele explica aos dois que o encaravam.

Gustavo: Que bom! Fale-nos sobre.

Carlos: Ah, a empolgação dos novatos… É só um caso à toa, vara da família. Desinteressante, mas existem pessoas que não podemos ignorar.

Gustavo: Então, deve ser um peixe grande!

Carlos: Peixe grande é o que temos nas nossas mãos! – diz erguendo uma pasta de arquivos – Creio que a Rebeca já te passou as principais informações. – fala para Gustavo que confirma com a cabeça – E devo alertar que seu contrato de experiência pode virar um contrato de prazo indeterminado se você nos ajudar a pescá-lo!

Gustavo: Dê-me o anzol!

Carlos: É esse o espírito! – Carlos encara os dois – Como sabem, o julgamento de Marta Espíndola é essa semana.

Então, Carlos prossegue a reunião com seus subalternos.

05. INTERNA – DIA – ÁGORA RJ – REDAÇÃO

Carol escutava calada enquanto Horácio distribuía as matérias que cada um faria, Karina fica com a onda de assaltos a edifícios. Rafael fica com a matéria sobre o combate a dengue, aproveitando o alto índice de chuvas que a meteorologia previa para o final do ano e todas as outras reportagens importantes foram sendo entregues.

Horácio: Carol, você fica com as pequenas notas.

Carol concorda com a cabeça, resignada com sua situação. Ela tentou se adaptar à nova editoria, mas eles pareciam sempre mantê-la com os trabalhos desinteressantes. Esperou a reunião terminar e foi conversar com seu editor.

Carol: Horário, eu posso falar com você?

Horácio: Claro, algum problema?

Carol: Eu gostaria de receber matérias mais estimulantes para fazer. Eu escrevia para a editoria de política do jornal, sou capaz de escrever matérias mais importantes.

Horácio: Esse é o problema. Você esqueceu que não está mais em Política, mas em Cidades. O caderno mais popular do jornal. Precisa se adaptar à nova função. – ele vai saindo quando se lembra de mais um detalhe – O Aroldo faltou, hoje você fica responsável pelos obituários de hoje, não tem problema, não é?

Carol: Imagina. – ela responde e vai resmungando até sua mesa.

06. INTERNA – DIA – RESTAURANTE

Sara: Você sabe, eu nem estava apaixonada por ele, nem nada, era só…

Carlos: Tesão.

Sara: Atração.

Carlos: Um eufemismo apenas.

Sara: Enfim, ele parece que aceitou bem pra idade e pelos…

Carlos: Hormônios.

Sara: Aff, Carlos… – diz rindo.

Carlos: E você? Aceitou bem também?

Sara: Sim, é melhor assim…

Carlos: Bom, mas você precisa movimentar mais sua vida amorosa… – Sara abre a boca para falar algo, mas Carlos adianta-se – Eu sei, eu sei, eu não sou o mais indicado pra aconselhar isso, mas…

Sara: Então, era sobre isso que eu queria falar.

Carlos: O quê? Já tá pegando outro? Por apenas ”atração” também? – diz, fazendo sinal de aspas com as mãos.

Sara: Não, eu vou entrar com o pedido de separação.

Carlos: Nossa, isso é total anti-tesão. Digo, atração. – Sara olha com desdém para o irmão. – Desculpa… mas vai mesmo entrar com a separação?

Sara: Não me diga que está surpreso.

Carlos: Um pouco, acho que todos nós torcíamos para que você e o Nando se acertassem.

Sara: Mas nós já estamos separados, é só oficializar.

Carlos: Oficializar torna as coisas mais reais.

Sara: Eu sei, não pense que está sendo fácil para mim isso, ele é o cara que eu pensei que ia passar o resto da minha junto – engole seco e respira fundo – E na minha mente, acho que só oficializando a separação, eu vou realmente conseguir ir em frente. Preciso terminar para começar, entende?

Carlos: Entendo.

Sara: Então?

Carlos: Então, o quê?

Sara: Como devo proceder… Você é o advogado aqui.

Carlos: Família não é da minha alçada.

Sara: Carlos, sou sua irmã, só preciso que você me ajude.

Carlos: Ok, ok… eu posso ver isso. Afinal não vai ser uma separação litigiosa, né?

Sara: Claro que não!

Carlos: Precisava perguntar…

Sara: E tem outra coisa.

Carlos: Aí, eu devia começar a cobrar honorários.

Sara: Calma, não tem nada a ver com advocacia, é sobre nossa família.

Carlos: Pior ainda.

Sara: Mamãe e Carol, precisamos fazer algo.

Carlos: Conciliação é advocacia.

Sara: Você entendeu…

Carlos: O que somos agora? Juizado das pequenas causas?

Sara: Eu só pensei da gente forçar uma aproximação das duas.

Carlos: Peraí, estou tendo um flashback do aniversário do Júnior – Carlos fica contemplativo por uns instantes, como se visualiza-se algo  – É, não foi bem sucedido… Não lembra?

Sara: Depende do ponto de vista.

Carlos: O meu e eu não tenho miopia…

Sara: Carlos, coopera. E eu só tenho um grau e meio de miopia, vejo muito bem de perto.

Carlos: Tá bom, tá bom… mas quero me envolver o menos possível… E isso não vai resultar em mais uma evento adradiano, né?

Sara: Claaaaro que não, imagina… – fala irônica.

Carlos: Nós somos um clichê. Precisamos inovar.

Sara: Enquanto eu escrever esse enredo, não. Desculpa, mas prefiro o caminho mais fácil.

Carlos: Não sei o que você vê de fácil nisso…

Sara: E, meu irmão, só mais uma coisa.

Carlos: Não, tenho medo! – nega veementemente.

Sara pega um papel na bolsa.

Sara: Aqui… – passa para o irmão.

Carlos: Não, me recuso a lidar com mais um pepino seu.

Sara: Eu só quero sua opinião… É um edital para a seleção de professor substituto da Federal.

Carlos pega o papel.

Carlos: Mais aulas? Você dará conta?

Sara: Talvez…

Carlos: Sabe o que isso significa, né?

Sara: Talvez…

Carlos: Você quer fazer isso. – afirma, devolvendo o papel.

Sara: Como assim?

Carlos: Você não pede minha opinião sobre algo que pretende ou não fazer. Você apenas faz e me comunica depois… com detalhes.

Sara olha para o irmão, pensativa e puxa o papel de sua mão.

07. INTERNA – DIA – EDITORA ATUAL – SALA DE REUNIÕES

Nora estava em mais uma reunião com os outros autores com quem dividiria espaço no livro. Emerson tinha chamado todos para acertarem alguns detalhes antes do livro ir para impressão.

Emerson: Os textos já estão todos escolhidos e estão em fase de correção antes da publicação.

Francisco: A data para lançamento permanece a mesma?

Emerson: Se tudo seguir como planejado, sim. Mais algum assunto a ser discutido por parte de vocês? – recebendo uma resposta negativa por parte de todos, ele continua – Como tinha dito para vocês, no livro teremos um perfil de cada um. Esse perfil deve ser escrito por alguém que conhece vocês, família, amigos, patrão, fica a escolha de vocês.

Nora: Para quando precisa disso?

Emerson: Até o final da semana que vem.

Emerson encerra a reunião e os autores conversam um pouco, e um a um vão deixando a sala de reuniões, ficando somente ele e Nora.

Nora: Você me deixou em uma grande enrascada.

Emerson: Como assim?

Nora: Ora, eu tenho cinco filhos, além do meu irmão e minha mãe.

Emerson: Eu pensei que você e sua mãe tinham um relacionamento difícil.

Nora: E temos, mas agora terei de escolher alguém que não seja ela o que vai complicar.

Emerson: Faça um concurso, quem escrever melhor, você escolhe.

Nora: Não, ou vou transformar minha casa em um campo de batalhas. – ela brinca e dá risada – eu darei um jeito.

Emerson: Já que te causei tanta confusão, que tal se te levasse para almoçar para me desculpar?

Nora: Claro, vamos?

Como um cavalheiro, ele dá o braço para ela segurar e dessa forma eles saem do prédio conversando amigavelmente.

08. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO TOMÁS – SALA

Vitória tenta ler um livro, mas não consegue. Precisava desabafar e pedir conselho a alguém sobre sua situação com Tomás. Sentia que o marido estava cada vez mais distante dela. Ela larga o livro de lado e pega o telefone e liga para Sara, que atende depois do terceiro toque.

Sara: Oi, Vitória, tudo bem?

Vitória: É, vai indo.

Sara: Se ligou atrás do Tomás, ele foi conhecer as instalações de um possível distribuidor.

Vitória: Não, eu liguei para falar com você.

Sara: Foi? Então diga.

Vitória: Antes precisa me prometer que isso vai ficar entre nós duas, ninguém deve saber.

Sara: Tá me deixando preocupada. Algum problema com você, ou com meu irmão?

Vitória: O problema é entre nós dois.

Sara: Ah… continue.

Vitória: O Tomás está distante, nosso casamento não é mais como antes, sabe? Ele não me beija mais como antes, e quando eu tento iniciar alguma coisa, ele foge.

Sara: Depois do seu acidente, vocês dois…

Vitória: Sim. Não era igual, porque eu fiquei limitada a poucas posições, mas ele não se importava. Mas agora eu não sei o que pensar, se ele enjoou de mim, ou se tem outra.

Sara: Deve ser só uma fase, não acho que precisa se preocupar. De qualquer forma, se quiser eu te passo o telefone do psicólogo que eu e Ferdi fomos para tentar salvar nosso casamento. Infelizmente para nós, já era tarde demais.

Vitória: Você acha que ele aceitaria ir?

Sara: Você precisa conversar com ele e convencê-lo.

Vitória anota o telefone e despede da cunhada. Fica olhando para o número no papel, mas ainda acha que talvez fosse uma atitude precipitada demais, talvez devesse ouvir outro conselho. Ela então liga para Carol que também atende logo.

Carol: Vitória, oi, que bom que ligou, esse trabalho está um tédio.

Vitória: Tão ruim assim?

Carol: Nem imagina, mas não vou te perturbar com meus problemas. O que foi?

Vitória: Eu preciso de um conselho, de mulher pra mulher, mas isso deve ficar entre nós duas, promete?

Carol: Claro, o que foi?

Vitória: O meu casamento está com problemas.

Carol: Que tipo de problemas?

Vitória: Na cama. Acho que o Tomás não me deseja mais, ou enjoou de mim… não sei o que faço. Falei com a Sara e ela disse que talvez terapia de casal fosse bom.

Carol: De jeito nenhum. Tomás falando com um psicólogo, não daria certo, você precisa seduzi-lo.

Vitória: Eu já tentei…

Carol: Precisa se agressiva, Vitória. Precisa agir como amante e não como esposa. Deixa eu te dar umas dicas.

As duas conversam por mais alguns minutos, e Vitória escuta atentamente as idéias de Carol e já planejando como iria agir.

09. INTERNA – DIA – ÁGORA RJ – REDAÇÃO

Carol termina a pesquisa que estava fazendo. Ela teve a idéia depois de ver a campanha que a Secretaria de Direitos Humanos estava lançando para tentar encontrar outros desaparecidos políticos da época da ditadura. Ela imprime as informações e segue com elas para a sala de Horácio.

Carol: Horácio, eu tenho uma ótima idéia para uma reportagem para nosso caderno. – ela diz entregando os papéis.

Ela espera ansiosa enquanto ele lê as informações e as idéias que ela teve. Ele termina de ler e olha para ela.

Horácio: Carol lembra-se o que eu falei com você mais cedo? Sobre se adaptar à editoria que está trabalhando?

Carol: Sim.

Horácio: Então, essa reportagem é para o caderno de política, e não para o caderno de cidade.

Carol: Mas o enfoque não é político, é sobre como a vida da cidade foi afetada, como as famílias foram afetadas.

Horácio: É uma reportagem antiga, e não tem nenhuma ligação com o presente. A vida da cidade não é mais afetada pelo que aconteceu nos anos sessenta e setenta.

Carol: Você não está me dando uma chance de provar que sou boa nisso.

Horácio: Você não é mais estagiária para ter chances, deveria saber o que fazer.

Carol: Talvez eu deva procurar outra editoria.

Horácio: Você é talentosa, é uma grande repórter, mas talvez deva voltar para a política.

Carol pega os papéis que ele devolve para ela e volta para sua mesa. Se seu editor não queria publicar aquela reportagem, ela encontraria outra forma, mas não iria desistir. Ela aproveita e pensa no que tinha falado com Horácio, sobre mudar de editoria, talvez devesse procurar vaga em outro lugar no jornal.

10. INTERNA – NOITE – LIVRARIA ANDANÇAS CENTRAL – SALA DE REUNIÕES

Tomás, Carlos e Júnior estavam sentados em volta da mesa de reuniões. Sara estava em pé de frente para eles.

Júnior: Isso está parecendo uma intervenção, e como a única pessoa que falta é a Carol, ela é a vítima da vez.

Sara: Nós estamos aqui para decidir o que fazer com essa briga entre mamãe e Carol. Essa situação já foi longe demais.

Júnior: Sabia… essa família nunca muda. Fizeram a mesma coisa no meu aniversário, quando tio Saulo começou a namorar a Vera, quando descobriram a traição do papai.

Carlos: Quando você e Tomás estavam brigados…

Tomás: Não precisa lembrar disso, já é passado.

Júnior: E nem adiantou nada, fizemos as pazes sem vocês.

Sara: Vocês três, prestem atenção. – ela espera ter a atenção dos três e explica sua idéia – Pensei que podia marcar uma reunião aqui na livraria.

Tomás: Aqui? Não, de jeito nenhum. Elas vão começar a discutir…

Sara: É um lugar neutro. Podemos falar que elas precisam assinar um papéis para a livraria, como herdeiras.

Carlos: E trancamos as duas em um escritório?

Sara: Não tinha pensado nisso, boa idéia Carlos. – ela sorri para o irmão.

Júnior: Claro, e no dia seguinte todos os jornais saem estampados na capa: “Mãe e filha encontradas mortas em tradicional livraria do Rio. Elas se mataram depois que sua família não conseguiu ficar afastada e resolveu se meter nos problemas entre as duas.”

Carlos: Veja pelo lado bom, assim a Andanças vira ponto turístico da cidade, as vendas aumentam e só temos que dividir os lucros entre quatro.

Sara: Cinco, a Rebeca tem uma parte nisso também.

Tomás: Estou surpreso que não a chamaram para a reunião.

Júnior: Eu já estou atrasado para o ensaio da banda, já terminou?

Sara: Amanhã, à noite, depois do horário de expediente.

Júnior: Ok, então até amanhã. – ele despede já se levantando.

Carlos vai embora logo depois, só ficando Sara e Tomás. Ele segue para seu escritório, mas Sara o interrompe.

Sara: Ei, Tomás.

Tomás: O que?

Sara: Pode ir embora mais cedo. As crianças estão com o Ferdi hoje, eu posso fechar tudo por aqui.

Tomás: Eu não me importo.

Sara: É só um favor por ficar com a maior parte do trabalho.

Tomás não retruca, vai até sua sala juntar suas coisas, mas ao sair da livraria e pegar o carro, ele desiste de ir para casa. Estava com a cabeça cheia e decidiu dar um volta antes para colocar os pensamentos em ordem.

11. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO TOMÁS – QUARTO

Vitória dá uma última olhada no espelho para ter certeza que sua aparência estava como queria. Então vai até a cozinha para pegar o espumante na geladeira e levar para o quarto. Com tudo o que queria, ela começa a apagar as luzes do resto da casa.

Coloca a bebida em cima da cômoda e manobra a cadeira acendendo as velas que tinha distribuído mais cedo pelo quarto. Já estava tudo pronto, como ela queria. Tinha dando um pouco de trabalho arrumar tudo como ela queria, por mais que o apartamento estava adaptado às necessidades dela, ainda não tinha destreza suficiente para manejar a cadeira com muita agilidade. Ao ver como tinha ficado o quarto, sorriu, certa que tinha valido cada minuto. Agora ela só tinha que esperar Tomás chegar em casa.

12. EXTERNA – NOITE – SHOPPING CENTER – PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO

Júnior e Bianca estavam escolhendo onde comer quando ela chamou sua atenção.

Bianca: Aquele não é o namorado da sua irmã?

Júnior: Qual delas?

Bianca: A Rebeca. Olha, é ele sim. Vamos até lá!

Júnior: Acho melhor não. Vamos interromper alguma coisa.

Bianca: Eles estão num shopping, não vai interromper nada importante.

Ela o puxa pelo braço, passando por outras mesas, mas antes de chegar até a mesa dele, escutam as risadas das outras pessoas com quem dividia o espaço.

Giovanni: Ela só descobriu a poucos meses que a mãe tinha um caso com um homem casado e que tinha vários irmãos.

Giselle: Que horror.

Giovanni: Não contei a melhor parte, ela é irmã do Carlos.

Giselle: Ah, agora tá explicado como ela conseguiu o estágio.

Júnior queria ir até a mesa tirar satisfação com Giovanni, mas Bianca o puxou e foram para outro lado.

Júnior: Por que me puxou?

Bianca: Porque você ia lá se fazer de idiota e atrapalhar o resto do nosso dia.

Júnior: Ele estava falando mal dela, da minha família.

Bianca: Ela já pode se cuidar sozinha. Além do mais, você tem a mim para se preocupar. Já é suficiente te dividir com a banda. – ela olha para ele fingindo aborrecimento.

Júnior: Eu preciso pensar o que fazer. Eu vou para casa.

Bianca: Júnior, você veio comigo.

Júnior: Pode deixar que eu dou um jeito.

Ele vira as costas para ela e já começa a pensar no que fazer com aquela informação. Ele e Rebeca não tinham voltado a ser tão unidos como antes, mas talvez devesse avisá-la sobre o que estava acontecendo.

13. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO TOMÁS – SALA

Tomás entra no apartamento praticamente no escuro, exceto pela luz fraca dos dois abajures acesos. O resto da casa estava em completo silêncio. Ele deixa suas coisas em cima do sofá e vai até o quarto e se surpreende com a cena que encontrou. Algumas velas ainda estavam acesas, outras apagadas. Em cima do criado mudo, um balde com o gelo já derretido e uma garrafa de espumante. No chão, pétalas de rosas espalhadas e outras sobre a cama.

Mas o que mais chamou sua atenção foi ver Vitória, recostada nos travesseiros, adormecida, usando uma lingerie preta e sexy. Ela estava linda e ele se recriminou por ter demorado tanto para voltar para casa, enquanto pensava nas investidas que vinha recebendo de outra mulher. Ele tirou a roupa e de cueca deitou na cama, tomando Vitória em seus braços, que despertou.

Vitória: Tomás? – ela fala sonolenta – Você demorou…

Tomás: Shhh, volte a dormir.

Vitória: Eu tinha preparado tudo para nós dois, mas você não chegava, eu acabei dormindo.

Tomás: Eu sinto muito ter chegado tarde. Mas você está linda, tudo está lindo.

Ela se vira nos braços dele e olha em seus olhos.

Vitória: Você está entediado comigo, com nosso casamento.

Tomás: Vi…

Vitória: Eu sei que está. Eu só não sei o que fazer. Você precisa conversar comigo.

Tomás puxou Vitória para seus braços e a beijou apaixonado. Ela enroscou os braços no pescoço dele, intensificando o beijo. As mãos se acariciavam, como antes e ela sorria satisfeita que seu plano havia dado certo. O que ela não sabia era que enquanto Tomás a tocava, os pensamentos estavam longe, em certa morena que depois de tantas investidas, estava conseguindo seu intento, que era provocá-lo até que finalmente conseguisse seduzi-lo.

14. INTERNA – DIA – TRIBUNAL

Carlos sai do tribunal com uma expressão de conquista no rosto e nem espera sair do recinto para ligar e comunicar a todos da Barbosa & Lima o resultado.

Mônica: Barbosa & Lima, Mônica, boa tarde.

Carlos: Caso Lumni urgente. Me passe direto para Guilhermina.

Mônica: Ela não está. O julgamento já terminou?

Nesse instante, Rebeca e Gustavo escutam as palavras mágicas e correm para mesa de Mônica.

Carlos: Sim.

Mônica: Foi rápido.

Carlos: Porque você não estava presente e em frente a um juiz e a um arrogante advogado de defesa.

Mônica: Ocorreu tudo como esperávamos?

Carlos: Não tudo, mas sim – os dois sorriem.

Carlos continuava andando pelos corredores do Fórum quando avista alguns repórteres, certamente ansiosos para falar com ele.

Mônica: Gustavo e Rebeca estão me olhando aflitos aqui. Viva voz?

Carlos: Não, em meia hora estarei aí – diz, desligando o celular e já sendo abordados pelos jornalistas.

15. INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA

Carlos: Marta Espíndola foi considerada culpada por Estelionato e Fraudes e abusos na administração de sociedade por ações… Quatro anos. – informa aos seus dois ouvintes atentos e ansiosos.

Rebeca: A defesa vai recorrer?

Carlos: Certamente que sim.

Gustavo: É claro que vão… – fala ao mesmo tempo que Carlos.

Rebeca: Resta saber se o recurso terá cabimento.

Carlos: Isso… aprenda com ela, Gustavo.

Rebeca: Obrigada! – ela diz,  sentindo-se.

Carlos: E é claro que eles darão um cabimento… Lembrem-se: peixe grande.

Gustavo pisca para Rebeca.

Rebeca: Mas, foi um avanço. Você está de parabéns, Carlos.

Gustavo: Certamente que sim… Queria ter visto o julgamento.

Rebeca: A Guilhermina já sabe?

Carlos: Claro. E como deve imaginar, ela ainda não está completamente satisfeita. Queria que a Espíndola pegasse mais umas três acusações, mais um ano de prisão e pelo menos mais o triplo da multa…

Rebeca: Nossa… – assusta-se.

Carlos: Enfim, agora precisamos pensar com a cabeça da defesa, o que eles vão alegar agora. Preciso que vocês revisem todo o processo, passando para mim o que julgarem mais interessante, entendem o que eu quero dizer?

Rebeca faz que sim com a cabeça.

Gustavo: Eu também?

Carlos: Claro. Você bem sabe que a função principal de um advogado iniciante é apenas acumular honorários rentáveis. Esse é um processo de verdade. Você tem sorte de estar nele como meu ajudante. – Gustavo engole seco – Desculpa, mas entenda, há ainda muito que aprender, coisas que não estão nos livros que você só aprende na prática e observando profissionais mais experientes.

Gustavo: Eu sei, entendo.

Carlos: Preciso saber se deixei algo importante passar. Preciso dos olhos de vocês.

Rebeca: Certo.

Gustavo: Ok – diz e já ia se retirando da sala, acompanhado de Rebeca.

Carlos: Mas você não foi colocado nesse caso à toa, Gustavo. – os dois param – Tem muita gente aqui que confia e aposta na sua capacidade, inclusive eu.

Rebeca: Nossa… esse é mesmo o Carlos Andrade? – brinca, e Carlos a fuzila com o olhar.

Gustavo: Obrigado, Carlos – diz grato – Farei de tudo para não decepcioná-los.

16. INTERNA – DIA – QUATRO ESTAÇÕES

Vera entra no escritório com uma caixa na mão.

Vera: Chegaram!

Saulo: O quê?

Vera: Livros! – fala empolgada – Ou pelo menos livros em potencial.

Saulo: Assim esperamos… Espero que algum desses originais de hoje sejam os bestsellers de amanhã!

Vera: Olha, está animado!

Saulo: Sim, tudo indica que vamos fechar contrato com a Liga! Nosso primeiro grande contrato editorial!

Vera solta a caixa na mesa e corre para abraçar Saulo.

17. INTERNA – DIA – CONSULTÓRIO

[¯- You Can’t Always Get What You Want, Rolling Stones]

Carlos estava no final de mais uma sessão de terapia.

Ruth: Se você não se entregar, não pode esperar que outro também faça isso.

Carlos: O problema é se eu me entregar e o outro não… – fala, engolindo seco.

Ruth: Você não corre riscos na sua vida profissional em busca de atingir seu máximo, superar dificuldades, encarar desafios? Na vida pessoal, também temos que arriscar, dentro de um limite de sensatez, claro.

Carlos: Sei…

Ruth: Carlos, às vezes, dentro de um relacionamento, nos damos um papel ou aceitamos os que nos dão, você realmente está confortável no papel que vem desempenhando?

Carlos: Não… – diz num suspiro.

Ruth: Dizer “eu te amo”, fazer uma ligação inesperada, apoiar e dar um voto de confiança a alguém… Pode ser difícil, mas pior é carregar o fardo de um arrependimento.

Carlos: Arrependimento é a pior coisa do mundo.

Ruth: O que é pior arrepender por ter feito algo ou por não ter feito algo?

Carlos: Ter feito algo que você poderia ter feito de uma maneira diferente.

Ruth: É uma perspectiva. E, nossa, terminou o seu horário e você ficou até o final… Sinto que realmente estamos fazendo progressos.

Carlos: É uma perspectiva… Até a próxima – fala, levantando-se.

Ao sair do consultório, ainda no corredor, Carlos saca seu celular e tira de dentro de sua pasta um papel com o telefone de Diego, o cara do teatro de algumas semanas atrás. Nervoso, porém decido, ele disca o número. O telefone chama inúmeras vezes sem ninguém atender. Carlos segue andando. Ao chegar ao seu carro, ele tenta mais uma vez e nada. Chateado ele dá um leve murro na direção.

18. INTERNA – NOITE – LIVRARIA ANDANÇAS – SALA DE REUNIÕES

Nora seguia até a sala de reuniões. Não gostava muito de ir até a livraria pelas muitas lembranças que tinha do lugar. Quando Sara avisou sobre a reunião ficou relutante em ir, tinha passado o poder de decisão dela para Carlos, que era advogado e saberia tomar as decisões certas. Mas por fim, depois de muita insistência de Sara e muita vontade de rever Carol, ela acabou cedendo.

Coincidência ou não, assim que entrou na sala de reuniões, encontrou Carol, que estava sentada na cadeira que tinha sido de Guilherme. Ela rodava na cadeira como fazia quando ainda era adolescente e vinha passar um tempo com Guilherme. Sorri e percebe a cara de surpresa da filha quando percebe que não estava mais sozinha.

Carol: Mamãe! – ela fala surpresa, parando a cadeira e se levantando.

Nora: Carolina, como vai?

Carol: Bem, nada demais.

Nora: Onde estão seus irmãos?

Carol: Sara e Tomás estão em uma ligação muito importante. Carlos e Júnior ainda não chegaram.

Nora começa a rir e senta em uma das cadeiras. Ela já desconfiava, mas naquele momento teve certeza que aquela reunião era só um pretexto para juntar as duas.

Carol: O que foi? – ela pergunta confusa.

Nora: Carlos e Júnior não virão. E a tal ligação importante, não deve ser nada demais.

Carol: O que está falando, mamãe?

Nora: Isso foi uma armação dos seus irmãos para nos juntar.

Carol: Não acredito! – ela fala e começa a dar risada.

Nora: Eles têm a sutileza de um elefante.

As duas riem juntas por um momento, como não faziam há algum tempo. Quando os risos começam a diminuir, elas se olham constrangidas.

Carol: Bom, se não existe nenhuma reunião, acho que vou embora.

Nora: Não vá ainda. – ela fala segurando no braço da filha – Vamos conversar um pouco.

Carol: Mamãe…

Nora: Eu começo. Sinto muito ter falado todas aquelas coisas com você. Talvez eu tenha falado em um momento impróprio, ou não soube como me expressar. Eu me preocupo com você, Carol. Não quero ver você deixar de ser quem é porque alguém pediu.

Carol: Eu não estou…

Nora: Espera, deixa eu terminar. E prometo que escuto tudo o que tiver para me falar. – Quando vê que Carol aceita suas condições e senta-se para escutá-la, faz a mesma coisa. – Eu sei como é se apaixonar e abrir mão de seus sonhos por alguém. Eu fiz isso pelo seu pai e por vocês.

Carol: Você se arrepende?

Nora: Arrepender? Não, já passei da fase do arrependimento, até porque eu olho para você e seus irmãos, e provavelmente não faria diferente. Mas quando penso em como foi realmente meu casamento, com seu pai primeiro me convencendo que era melhor largar meu emprego e cuidar da família e da casa, e depois procurando em outra mulher o que não enxergava mais em mim, percebo que eu também tenho um pouco de culpa pelo que aconteceu, afinal eu não era mais a mesma mulher que ele tinha conhecido. – ela toma o fôlego e termina o que queria falar – O que quero dizer é que você não precisa deixar de ser quem você é para se adequar à vida do Roberto. Eu vi você abrindo mão de muitas coisas por ele, e fiquei com medo de que você se decepcionasse daqui alguns anos. Não quero que você passe pelo que eu passei.

Carol olha surpresa para a mãe. Elas nunca tinham tido uma conversa tão significativa como aquela.

Carol: Mãe, me desculpa. Eu não tinha idéia que se sentia assim. Talvez eu devesse ter conversado com você, contado o que estava acontecendo e não só reportando minhas decisões. Eu não abri mão de nada porque o Roberto me pediu. Eu decidi fazer isso. Eu quis voltar para o Rio, para ficar perto dele, mas principalmente para ficar perto de você e dos meus irmãos. Estava cansada de ficar fora da dinâmica dessa família. Como o Roberto é deputado estadual, aqui no Rio e eu estou em um relacionamento com ele, poderiam suspeitar de conflito de interesses, então eu aceitei mudar de editoria.

Nora: Oh filha…

Carol: Eu não vou me arrepender, mamãe. Você, meus irmãos, valem a pena. E eu nunca senti por alguém o que sinto pelo Roberto. Ele é ótimo, me escuta, me entende, você deveria dar uma chance a ele. Não quero ver minha vida com ele dividida da minha vida com nossa família.

Sem falar nada, Nora se levanta e puxa Carol para seus braços, que aconchega a cabeça em seu ombro. Ela sabia o que era ter a família dividida, viveu aquilo seu casamento inteiro com os problemas entre sua mãe e Guilherme, e prometeu se esforçar para não fazer que Carol passasse pela mesma situação.

Carol: Estamos bem de novo?

Nora: Claro.

Carol: Então você precisa vir comigo conhecer minha nova casa. Tecnicamente é do Roberto, mas sinto como se fosse minha também. A Larissa está na casa dos avós e o Roberto foi para uma reunião do partido em Brasília.

Nora: Tudo bem, eu vou, mas não pense que é porque ele não está lá. Depois faço questão de ir quando ele estiver.

Carol: Tudo bem, marco alguma coisa na semana que vem. Vamos?

Nora: Sim, mas antes, acho que devemos pregar uma peça nos seus irmãos.

Nora conta para Carol seu plano e minutos depois Carol sai da sala de reuniões falando alto,como se discutisse com Nora.

Carol: A senhora é impossível, mamãe. Eu vou embora.

Nora: Volta aqui, deixe de ser mal criada, menina!

Carol: A senhora quem me criou, de quem é a culpa?

Sara sai no corredor e Tomás fica na porta vendo Nora e Carol indo embora, as duas ainda brigadas.

Tomás: Eu falei para não se meter.

Sara: Não acredito que deu errado. – ela fala já pegando o celular e ligando para Carlos – O plano deu errado.

Na rua, as duas davam risadas, divertindo-se, imaginando a cara dos quatro que armaram para elas.

19. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA REBECA – SALA

Rebeca digitava com agilidade o resto de um trabalho para a faculdade quando a campainha toca. Levanta e abre a porta, surpresa em encontrar Júnior do outro lado.

Rebeca: Júnior? O que tá fazendo aqui?

Júnior: Eu preciso falar com você. Posso entrar?

Rebeca: Claro, entra. – ela chega para o lado, dando passagem para ele – Você está muito sério, o que foi?

Júnior: Eu sei que não devia me meter, mas você é minha irmã, afinal de contas, então vou fazer o que faria se fosse Sara ou Carol.

Rebeca: Você está enrolando, fala logo.

Júnior: Você precisa terminar tudo com seu namorado.

Rebeca: O que? Você tá louco?

Júnior: Hoje eu o escutei falando de você com outras pessoas.

Rebeca: Ele é meu namorado, normal que fale de mim.

Júnior: Não como falou, dizendo coisas horríveis suas, da nossa família.

Rebeca: Por isso você está chocado. Júnior, vocês são assustadores mesmo. – ela solta uma risadinha lembrando que ainda sentia um pouco de medo deles.

Júnior: Ela duvida até da sua capacidade como advogada, achando que você só conseguiu o estágio por causa do Carlos. Por que não percebe que ele é um mau caráter?

Rebeca: Agora você foi longe demais. Eu conheço o Giovanni e ele não iria falar isso.

Júnior: Conhece? Por quanto tempo? Alguns meses? – ele pergunta se exaltando.

Rebeca: Sim, são poucos meses, mas mais tempo que te conhecia quando confiei em você e ficamos amigos.

Júnior: É diferente.

Rebeca: Não! Não é diferente. Só que você nunca gostou do Giovanni e agora fica inventando histórias para me separar dele. Eu não preciso que banque o irmão preocupado agora. Você foi embora, não foi? Pode deixar que eu sei me cuidar.

Júnior: Ótimo, vai ser assim a partir de agora? Muito bem, mas depois não diga que eu não te avisei.

Rebeca: Não direi, fique tranqüilo. – ela fala nervosa, o rosto se tingindo de rosa.

Júnior sai pisando duro e batendo a porta atrás de si. Bianca tinha razão, ele não devia se meter onde não era chamado. Se Rebeca preferia acreditar naquele idiota do que nele, problema dela, ele pensou.

20. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO ROBERTO – SALA

Carol já tinha feito um tour da casa com Nora, que estava impressionada com o bom gosto de Roberto e percebendo como Carol estava feliz com a vida que tinha escolhido. Elas podiam ter idéias muito diferentes, mas elas eram sim complemento uma da outra, e nada melhor que seu oposto para te conhecer melhor que qualquer um.

Nora: Filha, eu queria te pedir uma coisa.

Carol: Pode dizer mãe.

Nora: Na verdade é um convite. Meu editor pediu que cada um dos escritores pedisse a alguma pessoa que nos conhecesse, escrevesse um pequeno perfil que vai fazer parte do livro. Eu gostaria que você escrevesse o meu perfil.

Carol: Eu? Verdade? Claro que escrevo. – ela fala abraçando a mãe – Pode ter certeza que vai ser o melhor perfil.

As duas sentam no sofá e continuam conversando, como não faziam há algum tempo.

21. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA

[¯- Na Linha do Horizonte, Sérgio Britto]

Sara limpava a cozinha quando o telefone tocou.

Sara: Alô.

Fernando: Então, quando você ia me contar que entrou com o pedido de separação?

Sara: Já estava na hora, Ferdi.

Fernando: Fico surpreso como isso ser tão fácil para você – ele diz sentido.

Sara: Não é, acredite. – respira fundo – Mas já faz um ano e…

Fernando: Eu sei, está certa. – engole seco – Amanhã cedo eu passo aí para buscar os meninos… Tchau. – finaliza a ligação, deixando Sara sem reação.

Ainda na sala, ela visualiza um porta-retrato com uma foto da família: Ela, Fernando, Gabriel, Rafaela e Eduardo em um restaurante há alguns anos. Lágrimas começam a escorrer devagar no seu rosto.

Gabriel: Mãe, o tio Júnior me convidou pelo twitter para eu ir ver o ensaio da banda dele, posso, né?

Sara se recompõe rapidamente.

Sara: Fátima faltou, vou precisar que você me ajude com a faxina.

Gabriel: Mas eu tenho um monte de dever de casa e marquei de sair com a Larissa hoje e…

Sara: Vá arrumar seu quarto e depois lavar a louça se não eu ligo para o Roberto agora, contando que os dois ainda não estão obedecendo às novas regras.

Gabriel: Mas nós estamos!

Sara: Estou ligando… – diz discando um número no telefone que ainda estava na sua mão.

Gabriel: Isso é chantagem.

Sara: Tempos difíceis…

Gabriel se retira contrariado.

Carol: Alô? Alô? – Carol já falava desesperada do outro lado da linha.

Sara percebe e rapidamente coloca o telefone no ouvido.

Sara: Alô! Nossa essa discagem rápida realmente funciona…

Carol: Sara? O que foi?

Sara: Desculpa, estava ligando para aí só para ameaçar o Gabs. Disse que se ele não fosse arrumar o quarto, ia fazer com que o Roberto proibisse a Larissa de sair com ele hoje.

Carol: Que crueldade, Sara! Logo agora que o Roberto tá até aceitando melhor o namoro.

Sara: Eu tenho direito, a Fátima faltou hoje.

Carol: Ih…

Sara: Pois é, além disso, o Fer…

Carol: Um minuto.– Sara podia ouvir que alguém chamava por Carol – Já vou, amor! – Carol responde – Sara, tenho que ir, Roberto está me chamando, ele está tentando me ensinar a cozinhar… Boa sorte com a faxina.

Sara: Obrigada, vá lá… Para seu homem dos sonhos, pois eu acabo de perder o meu – lamenta baixo.

Sara vai até o quarto dos filhos menores. Lá, Rafaela fazia tarefa de casa, e Eduardo ainda dormia.

Sara: Dudu, já passou da hora, acorde! – diz balançando o filho.

Eduardo dá um gemido, vira-se e volta a dormir. Sara suspira.

Sara: Odeio quando a Fátima falta. – desabafa num resmungo.

Rafaela: Mãe, você e o papai vão morrer?

Sara: Como assim, filha?

Rafaela: Morrer, morrer. – responde já um pouco desesperada.

Sara: Um dia, sim, mas não agora, não durante muitos anos se Deus quiser. – Rafaela parece chorosa, triste – Mas por que você tá perguntando isso, meu bem? – aproxima-se da filha e percebe que a criança resolvia exercícios de ciências.

Rafaela: Aqui diz que as pessoas nascem, crescem, reproduzem, envelhecem e morrem.

Sara: Tá certo, todo mundo morre um dia, Rafa.

Rafaela: Mas, mãe, a senhora e o papai já nasceram, cresceram, reproduziram, estão velhos – Sara a olha meio indignada – e agora só falta morrerem… – ela já estava prestes a chorar.

Sara não consegue não rir e abraça a filha.

Sara: Own, meu amor! – fala ainda abraçada a filha – As coisas não são tão assim ao pé da letra, não é porque já passamos por essas fases que vamos morrer… E você realmente acha que eu estou velha? – fala, soltando a filha de repente.

Rafaela: Não tanto, mas e a vovó? E a Bisa? – pergunta apreensiva.

Sara: A vovó está aí escrevendo livros, dando jantares, levando acompanhante aos eventos… A bisa vive em cruzeiros, festas beneficentes… Elas ainda têm muito o que viver – Sara se surpreende com sua própria fala.

Rafaela: Então vocês não vão morrer?

Sara: Você ainda vai ter que me aturar por um bom tempo, filha. – beija o alto da cabeça de Rafaela.

Rafaela: Que bom, mãe – sorri aliviada.

Sara: EDUARDO! – Ela grita, e Eduardo acorda assustado – Vamos me ajudar a arrumar essa bagunça que é o quarto de vocês?!

Eduardo se levanta preguiçoso e desgostoso. E os três começam a ajeitar o quarto quando Gabriel grita mais uma vez pela mãe.

Gabriel: Mãe, vem cá!

Sara: Que foi agora, Gabriel?!

Gabriel: É importante!

Sara vai até o quarto do filho.

Sara: Olha, se for besteira, o senhor também vai agora ajudar os seus irmãos arrumarem o quarto… – vai falando enquanto anda em direção ao quarto – E por que você está no computador e não arrumando sua cama, por exemplo?! – diz irritada ao entrar no quarto.

Gabriel: Vovó atualizou o blog dela, acho que você vai gostar de ler… – diz, dando lugar a mãe.

Sara senta-se e começa a ler o novo texto da mãe.

Mãe e filha brigam. Essa é uma das constantes da vida. Uma rixa silenciosa com arrombos ensurdecedores. Sei bem que mães e filhas vivem numa linha tênue entre o amor e o ódio e que, não se iludam, isso não se limita apenas à fase da adolescência.

Tenho duas filhas, já adultas e independentes e, volta e meia, ainda entramos em conflitos pelos mesmos motivos de sempre. A mais velha, minha primeira dádiva, sempre foi de simples manutenção. Talvez por isso tenha me acomodado e sempre esperasse mais dela do que dos outros. Confesso que por vezes fui injusta, brigava com ela sem motivo, descontava nela as falhas dos outros. E deve ser por isso que até hoje ela se sente responsável por cada um deles. Deve achar que ainda vou culpá-la se algum dos irmãos se meter em confusão. Bom, ela diz que a culpo, mas na minha visão dos fatos, eu recorro a ela para me apoiar e dar forças, invertendo injustamente os papéis de mãe e filha. Sei que forcei isso, e, em minha defesa, não tenho nada a declarar, confesso que fiz dela meu braço esquerdo. E por vezes, ela foi os meus dois braços e duas pernas.

Sendo sincera, ela só pecou por viver em um silêncio que me perturbava. Por não compartilhar comigo seus principais anseios e receios. Compartilhava comigo quase tudo, mas o pouco que faltava era o que fazia a diferença, eu sabia, só não sabia como ajudá-la. Devo ter forçado a barra algumas vezes tentando apóia-la como ela sempre me apoiou. Não sei se consegui êxito. Também não sei se deixei suficientemente claro que me orgulho da mãe e da mulher que ela se tornou.

Sara já estava chorando.

A segunda já nasceu para me desafiar quando se atreveu a sair com a cara do pai. Apenas a do pai. E não foi só a aparência. Aprendeu a falar e já estava repetindo o que o pai dizia. Eram os dois contra mim. Pior, ela sempre achou que eu estava contra ela. O que ela não sabe é que mesmo quando ela “vencia”, parte de mim ficava feliz. Afinal de contas, ela estava feliz, e esse é o objetivo de toda mãe.

Talvez não a entendesse como devia, era um quebra-cabeça difícil. Quando achava que faltava apenas uma peça, descobria que estava montando a figura errada. Fácil era me ver irritada com suas provocações. Pelo menos eu julgava como provocação ela ir de encontro aos meus conselhos. Faltou enxergar que talvez o oposto também fosse válido e ela não era tão frágil como eu imaginava. Então ela tentava me provar de todas as formas que ela podia viver sem mim. Mas como eu ficava nisso? Eu sou menos eu sem ela. Perdi minha companheira e só me restou admirar, de longe, seus passos solos, sendo sua fã número 1! E também, admito, a mais preocupada e exigente, ou, na visão dela, irritante e injusta.

Sei que para sempre vamos bater de frente porque somos diferentemente iguais. Sei também que aprendi muito com ela. Hoje vejo que tudo pode ter dois lados sem que sejam necessariamente um certo e o outro errado. Que na verdade, podem até ser complementares. Como eu e ela.

Continua…

Trilha Sonora

– You Can’t Always Get What You Want, Rolling Stones

– Na Linha do Horizonte, Sérgio Britto

3 Respostas to “Pares Ímpares”

  1. Natie Says:

    Tenho que confessar q demorei um pouco pra escrever esse comentário pq fiquei fortemente impactada pelo texto da Nora… Que LINDOOOO!!! Ameeeii!!

    Bom, que otimooo a Nora e a Carol terem feito as pazes… Como o proprio texto da Nora diz, elas são complementares e não dá pra ver elas brigadas… Legal ela ter ido lá na casa do Roberto pra conhecer e é claro que um perfil de Nora Andrade só poderia ser escrito pela Carol! 😀

    Sara vai mesmo se divorciar?? :/ Tive uma pontinha de esperança qdo o Fernando contou no epi passado q tinha terminado com a namorada e a Sara terminou a ‘relação’ com o aluno…

    Adorei saber q a terapia esta funcionando pro Carlos… Torço por ele! Que seja com o Diego ou com o Sérgio…

    Ai ai… Essa historia do Tomás não tah indo mtu bem… Ele não tira essa Lavinia da cabeça neeh?

    Que filho da p… esse Giovanni!!! E fato q a Rebeca não ia acreditar no Junior…

    E Carol estará em busca de um novo emprego??

    Aaaah, e tomara q a editora do Saulo e da Vera dê certo…

    É isso pessoal… Beijooos!

  2. Gustavo Says:

    Salve galera!!!

    Emocionante o texto de D. Nora!!! É impressionante como certas situações, que vc acha que apenas acontece com vc tb acontece com outras pessoas. Principalmente se vc for o filho mais velho… Mas enfim, é a vida seguindo seu curso.

    Ri muito com a armação de D. Nora e da Carol. Como eu queria ter visto as caras da Sara e o Tomás… Só quero ver qual será a reação dos quatro quando descobrirem que foram pegos numa brincadeira.

    Coitada da Vitória. Ela não merece passar pelo o que está passando. Espero que o Tomás caia na real logo e perceba a m**** que está fazendo…

    Só mais uma coisa, não sabia que a Rebeca era puxa-saco do Carlos. Abusada!!! (risos) O pior é que já tive estagiários parecidos com ela, ou seja, quase que como querendo ensinar ao padre rezar missa. XDDDDD

    Para finalizar, que bom que a terapia está começando a surtir efeitos para o Carlos. E mais, gostaria que ele voltasse para o Sérgio… Achei meio que nada haver esse Diego…

    Enfim, que venha os próximos episódios.

    Abraços a todos!!!

  3. Lenon Fernandes Says:

    A reconciliação de Nora e Carol foi a melhor de todas. O texto de Nora então foi perfeito…

    Gostando de ver Nora cada vez mais próxima do Emerson.

    Carol ainda infeliz com o trabalho. Quando ela vai perceber que, ou aceita aquilo, ou arruma outro?

    Carlos está tentando mudar e eu fico feliz por isso. Adorei ele ganhando o caso.

    Rebeca foi burra demais em não acreditar no Junior. Eu sabia que aquele garoto não era flor que se cheire.

    Fiquei com pena da Sara, ela é minha preferida e só sofre, a não ser no outro que pegou o aluno… kkkkkkkk

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