Nos episódios anteriores: Gabriel e Larissa foram seqüestrados por causa da atividade política de Roberto e isso abalou os Andrades. Rebeca decidiu se dedicar a fotografia. Carlos e Diego estão se conhecendo e tentando entender o que querem. Júnior saiu em turnê com a banda. Carol começou a escrever sobre a ditadura, utilizando como base suas descobertas na procura por Paulo. Depois do envolvimento com o aluno, Sara conhece um professor bonito e interessante.

01. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA – SALA

Sara chega com um saco de quitutes para comer com os filhos. Os gêmeos a recepcionam na porta.

Sara: Ê! Que beleza não ter mais aula, né?

Eduardo: Sim. Mas a tia Hilda falou que ano que vem vai ser muito mais difícil.

Sara: Então é melhor vocês aproveitarem essas férias. Escuta, cadê seu irmão? – Ela pergunta levemente preocupada, vendo que Gabriel não estava ali.

Rafaela: Tá no banho, mãe. Já faz um milhão de horas.

Sara: Um milhão de horas? Poxa… Ele deve estar bem sujo. E vocês ficaram fazendo o que nesse tempo?

Rafaela: A gente tava fazendo resoluções de ano novo.

Sara: O quê? – Ela pergunta surpresa.

Eduardo: Uhum. O Bob Esponja tava fazendo as dele. Daí eu não sabia muito bem o que era resoluções, daí eu perguntei pro Gabs e ele explicou que é quando você pensa ou anota o que você quer que aconteça no ano novo.

Rafaela: Daí a gente tava fazendo a nossa.

Sara: Resoluções de ano novo… Quanto tempo eu não faço isso! E o que tem na de vocês? Posso ver?

Eduardo: Não pode, só em 2010! Se não, não realiza!

Sara: Tá bom, tá bom… Eu vou tomar um banho rapidinho também então pra gente comer todo mundo junto, tá? – Eles concordam e ela vai para seu quarto, refletindo sobre suas próprias resoluções de ano novo. Quando passa pelo banheiro das crianças e lembra de Gabriel, decide sua número 1: Esquecer e fazer com que Gabriel esqueça de tudo que ele tinha sofrido.

02. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA – BANHEIRO DAS CRIANÇAS

Gabriel estava no box, sentindo a água sobre o rosto. Ele já tinha acabado o banho e agora tinha diminuído a temperatura da água, para sentir aquela sensação gostosa de água fria sobre o corpo. Ele não conseguia parar de reviver as imagens do seqüestro e sua mente funcionava mais rápido do que ele podia acompanhar. Apoiou a cabeça no azulejo do banheiro e ficou refletindo por mais um tempo com a água sobre os cabelos. O rosto de Larissa aparecia na sua mente. Depois o desespero de seus pais. As máscaras dos bandidos. Ele bateu com a cabeça levemente no azulejo e automaticamente desligou a água. Forçou um sorriso e pegou sua toalha.

03. INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA ADVOCACIA – ESCRITÓRIO DE CARLOS

Já  era fim de expediente e Carlos e Gustavo trabalhavam em alguns papéis. Mônica bate na porta.

Mônica: Carlos? – Ela espera um sinal positivo do chefe e entra. – Com licença. É a dona Guilhermina. Ela queria falar com você. Disse que te espera na sala dela.

Carlos: Gente, o que será? – Ele olha desconfiado para os dois colegas de trabalho.

Mônica: Olha, não sei não. Mas pela voz dela parecia bom.

Gustavo: Boa sorte! Olha nos olhos, sempre nos olhos.

Ele escuta os dois e faz um meneio de cabeça. Depois sai do escritório para ir encontrar a chefe.

04. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE REBECA – COZINHA

Rebeca estava “cozinhando” uma lasanha de microondas e falando ao telefone.

Rebeca: Mas e aí? O que ela disse?

Carlos: Que queria me parabenizar, principalmente pelo caso da Lumni – que venhamos e convenhamos, você merece crédito também – e que eu era um ótimo advogado.

Rebeca: Nossa, Carlos, que bom!

Carlos: Calma, calma. Você não ouviu da missa a metade, querida. Seu ex-chefe aqui tá bombando. – Ele faz uma pausa. – Ela disse que tem olhos e ouvidos por todo o canto na empresa e que sabe da minha postura quando aquele crápula do Gilson falou aquelas coisas de você. Afinal, é óbvio que quando eu te contratei, meus superiores já sabiam que você era minha irmã.

Rebeca: Ainda bem que você falou o nome dele errado… Cruz credo, só me relaciono com os piores.

Carlos: Tá no gene do senhor Guilherme, sem ofensas a sua mãe.

Rebeca: Ignoradas.

Carlos: Ótimo. Então, como eu ia dizendo… Ela disse que haverá uma promoção em breve porque o Siqueira saiu do cargo porque conseguiu virar sócio. Ou seja, mais dinheiro, mais status, mais oportunidades… Daqui a pouco eu viro dono daquilo ali.

Rebeca: Isso é excelente! Temos que comemorar, Carlos!

Carlos: Calma! A vaga não é minha ainda. Tá entre mim e a Olga Loyola, lembra? Aquela do cabelo ninho-de-pássaro?

Rebeca: Sei! A das blusas de seda com temas japoneses? Cafooooooona!

Carlos: Essa mesma!

Rebeca: E quando você vai saber a resposta?

Carlos: Ela não deu previsão e eu nem pedi, né? Não sou louco… De qualquer jeito, só queria que você fosse a primeira a saber. Faz toda a diferença contar pra alguém que sabe como funcionam as coisas lá dentro. Mas e você? Como tá indo a fotografia? Feliz de ter me abandonado?

Rebeca: Imagina! Você sabe que não foi por isso… Ah, tá indo tudo bem. Conseguindo uns bicos aqui, outros ali. Não ganho muito, mas dá pra ir levando junto com a ajuda da minha mãe e etc… Não muito menos do que eu recebia aí. A diferença é que aqui não é estágio, né? Tô trabalhando pra valer… Mas compensa, fazer algo que gosta.

Carlos: Fico feliz de saber. Qual o próximo trabalho marcado?

Rebeca: Na véspera do ano novo, vou fotografar um ensaio para simbolizar a paz, a esperança, coisas desse tipo. É tudo que sei. Imagino que seja uma modelo vestindo cada cor que representa, né? Essas superstições… De qualquer jeito, serei só a assistente.

Carlos: Você tem que começar de algum lugar.

Rebeca: Tá certo! Carlos, a conversa tá ótima, mas minha lasanha tá esfriando faz alguns minutos já. Melhor eu ir comê-la. Beijo.

Carlos: Beijo. – E os dois desligam.

05. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Nora estava tentando ligar para Júnior, sem sucesso, enquanto Diva assistia à televisão na sala. No intervalo do programa do Faustão, Nora volta para o sofá.

Nora: Ele não me atende. Também, deve estar se preparando para um show.

Diva: Nora! Eu ganhei!

Nora: Ganhou o quê, mãe?

Diva: Lembra que eu peguei todos aqueles códigos de barra?

Nora: Lembro. Toda sistemática e metódica. Concorria para que, mesmo?

Diva: Uma viagem de ano novo com um acompanhante e tudo pago! Ia ser dia 27, no intervalo do programa do Faustão, e foi, Nora! Ganhei! Agora só tenho que escolher se quero ir para Natal, Fortaleza ou Florianópolis! – Ela sorria, animada.

Nora: Ó dúvida cruel, quase um dilema existencialista! E quem vai ser seu acompanhante?

Diva: Pensei em você. Você quer acompanhar essa senhora para viver altas aventuras no nordeste? Sou quase uma narradora da sessão da tarde.

Nora: Lógico que sim! Ia fazer o quê? Ir para a casa de Petrópolis? Acho que não… – Ela comenta irônica.

Diva: Nora, vai ser ótimo! Vamos pegar um sol sem essa loucura de Rio de Janeiro. Eu só queria que todos pudessem ir… – Ela comenta meio lacônica. – Mas tudo bem, né? Cavalo dado não se olha os dentes. Além do que, duvido que esses meus netos jovens quisessem acompanhar essa idosa aqui numa viagem.

Nora: Até parece, né mãe? Eles gostam muito de você. – Ela fica reflexiva. – E então, se decidiu por Nordeste?

Diva: É, acho Fortaleza melhor que Natal, né? Vou ficar fazendo o que naquelas dunas? Fortaleza é mais tranqüilo…

Nora: Então será Fortaleza! Vamos ligar para lá e resolver isso agora. – As duas ligam para o número que Diva anotou durante o comercial e resolvem os detalhes da viagem.

06. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO/SARA – QUARTO DE LARISSA/GABRIEL

[♫ Use Somebody – Kings of Leon]

Larissa estava em sua cama, tendo um sono conturbado. Ela se mexia na cama, irrequieta. Então acorda, nervosa, e se senta. Permanece assim por um tempo, controlando a respiração para se acalmar. Ela levanta e pega seu celular na escrivaninha para evitar ir até a sala pegar o telefone e encontrar seu pai e Carol. Ela disca um número.

Gabriel: Lissa? Você tá bem?

Larissa: Eu acordei de um sonho ruim. Só queria ouvir sua voz. – Um pensamento passa por sua cabeça. – Eu te acordei?

Gabriel: Imagina. Eu estava assistindo TV. – Ele mente para parecer forte. Na realidade, estava tendo problemas para dormir como nos últimos dias. – Mas me conta, o que você sonhou?

Larissa: Prefiro não ter que relembrar. Na verdade, o objetivo é que eu esqueça para poder dormir de novo. Você não é muito bom nisso, né? – Ela diz com um risinho tímido, ao que ele corresponde.

Gabriel: Ok, falemos de amenidades então. Como foi seu dia hoje?

Carol passava pelo corredor e vê a luz do quarto de Larissa acesa, então resolve bater.

Carol: Larissa? Posso entrar?

Larissa: Gabs, espera um pouquinho. – Ela aumenta o tom de voz. – Pode!

Carol: Está tudo bem? – Ela pergunta se sentando na cadeira da escrivaninha da enteada. – Eu tô interrompendo alguma coisa?

Larissa: Não, está tudo bem. Eu estava só falando com o Gabs.

Carol: A essa hora?

Larissa: Eu não conseguia dormir. Nem ele. – Ela se apressa em dizer.

Carol: Qualquer coisa, você sabe que pode me procurar, né? Ao seu pai também. – Larissa faz que sim com a cabeça, sentindo-se bem com o apoio da madrasta. – Você quer uma xícara de chá? Eu ia pegar pra mim, aproveito e faço pra nós duas.

Larissa: Obrigada. – Carol sai e fecha a porta atrás de si. Ela volta à ligação com Gabs. – Pronto. Era a Carol.

Gabriel: Brigou com você por estar no telefone?

Larissa: Não. Ela está super legal comigo. Sem parecer pena, sabe? Como algumas pessoas…

Gabriel: Isso realmente incomoda. Mas então, você ia me contar como foi seu dia…

07. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO – COZINHA

Carol chega à cozinha e vê Roberto sentado à mesa bebendo um pouco de água.

Carol: É aqui que você está, então. Achei que era você com quem a Larissa estava falando.

Roberto: É o Gabriel. Eu fiquei ouvindo um pouco atrás da porta.

Carol: É, pelo jeito ninguém consegue dormir nessa casa. – Ela vai pegando nos armários os instrumentos e ingredientes do chá que faria.

Roberto: É bom esse envolvimento dos dois. Sabe… Eu não sei lidar com isso. O que falar pra ela? – Ele apoiava a cabeça numa das mãos. Não parecia triste, só preocupado. – Não sei o que dizer, como apoiá-la sem soar pedante. Ela é tão frágil. Abalada por uma coisa assim… – Ele comprimia um lábio contra o outro, talvez por stress, talvez para evitar o choro.

Carol: Ela não é tão frágil assim. Já suportou muita coisa. E está conseguindo levar, aos 13 anos. Lógico que é difícil, mas ela vai superar. E nós também. – Ela tira a chaleira do fogo e coloca a água dentro dos dois copos com saches de chá. – O tempo não só cura, ele também reconcilia.

Roberto: Vitor Hugo? – Ela faz que sim. Ele se levanta e a abraça por trás e lhe dá um beijo tenro. – Você está certa.

Carol: Agora aproveita e leva o chá para sua filha. Ah, o telefone também, ou você vai ter uma surpresa quando a conta do celular dela chegar.

08. INTERNA – DIA – VARA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE

Tomás e Vitória estavam aguardando a sua senha para serem atendidos e entrar com o processo de adoção. Vitória estava transparecendo seu nervosismo insistindo em manter suas mãos ocupadas, com o celular, batucando alguma coisa, ou qualquer outra coisa que ela conseguisse imaginar.

Tomás: Acalma, amor. Vai dar tudo certo.

Vitória: Eu sei… – Ela hesita um pouco. – É, eu sei. Eu sei. Só tenho um pouco de medo. Meu acidente já foi há um ano e dois meses, tenho medo de não dar certo… de novo. – Tomás coloca sua mão sobre a da esposa.

Tomás: Vitória, você tem certeza que quer fazer isso? A decepção é sempre uma possibilidade. – Ele tinha uma feição austera, mas era visível que se preocupava com os sentimentos da mulher.

Vitória: Sem dúvida. – Sua voz era firme. – Você também, certo? – Ele fez que sim com cumplicidade e a beijou na boca. Ela sorri. – Estou pronta para o que der e vier. – Eles se beijam novamente quando o celular de Tomás toca. Ele atende.

Tomás: Oi, mãe.

Nora: Olá, filho. Você está ocupado? Te liguei na Andanças, mas disseram que você tinha tirado a manhã de folga. Está tudo bem com você, com a Vitória? – Ela diz tudo sem dar chance dele responder.

Tomás: Estou bem, mãe. Vitória também. – Vitória sussurra algo. – Ela mandou um beijo. E eu não estou ocupado, não. Pode falar.

Nora: Ué, onde está então?

Tomás: Mãe… – Ele vacila por um instante. – São 10 horas da manhã, eu estou com Vitória e não fui trabalhar. Onde acha que eu estou?

Nora: Tomás! Totalmente inapropriado esse comentário com a sua mãe! – Ela muda de assunto. – Preciso que você esteja aqui na hora do almoço, tudo bem?

Tomás: Na hora do almoço? Hmm, não sei. – Ele responde já arquitetando uma desculpa. – Por quê?

Nora: Quero apreciar a companhia do meu filho mais velho, não posso?

Tomás: Mãe…

Nora: Tá bom! Eu quero conversar com você e seus irmãos. E a sua avó vai almoçar com as amigas do clube.

Tomás: O que isso tem a ver com a vovó?

Nora: Perguntas demais. Vai saber quando chegar aqui. Traga a Vitória, se puder, por favor. E agora não quero mais interromper vocês dois. Tchau, filho.

Tomás: Certo. Um beijo. – Ele desliga.

Vitória: Por que você mentiu sobre onde estamos?

Tomás: Não quero que eles fiquem sabendo disso ainda. Você conhece minha família.

Vitória: Como você quiser…

Funcionária: 125!

Vitória: É o nosso. – Ela diz sorrindo. Tomás se levanta e acompanha a cadeira da esposa até o guichê.

09. INTERNA – DIA – QUATRO ESTAÇÕES – ESCRITÓRIO

Vera e Saulo estavam tendo uma reunião sobre os rumos da empresa. Ele está sentado à mesa e ela em pé.

Vera: Outro negócio negado, Saulo. Dá pra acreditar nisso? – Ela dá um tapa na mesa, aliviando sua raiva e frustração e depois se senta.

Saulo: Você sabe minha opinião.

Vera: Sei. E admito que até cheguei a considerá-la. Mas não vou desistir por enquanto.

Saulo: Você não precisa. A gente pode começar com periódicos e depois passar para publicações maiores, os seus tão desejados livros.

Vera: Tenho medo da Quatro Estações ficar estigmatizada com somente esse nicho.

Saulo: É tudo uma questão de planejamento.

Vera: Eu vou tentar do meu jeito. Se não der certo, nós damos uma chance aos periódicos, pode ser?

Saulo: Como você quiser…

10. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

Tomás, Vitória, Carlos, Carol, Sara e Nora estavam sentados em sofás e poltronas espalhadas. Todos direcionavam o olhar para a matriarca da família.

Carlos: Mãe, o que é essa convenção?

Carol: É verdade, mãe. Eu tenho que voltar pra redação. Quero adiantar tudo lá para dar uma turbinada naquele meu projeto da ditadura nesse fim de ano.

Nora: Certo, certo. Vou falar, mas peço uma coisa antes. Por favor, me escutem antes de virem com sete pedras na mão cada um. – Todos permanecem em silêncio, curiosos. – A avó de vocês participou de uma promoção dessas de enviar rótulos com uma pergunta respondida…

Carlos: E ganhou o quê? Uma xícara de plástico?

Nora: Duas viagens para Fortaleza com passagem e hospedagem pagas para esse Reveillon.

Sara: Toma!

Nora: Pois é… Então, vamos eu e ela.

Tomás: Legal, mãe. Mas você chamou a gente por quê…

Nora: Porque a sua vó me confidenciou que adoraria se vocês fossem conosco. Ela adoraria ver a família inteira passar o Réveillon junta.

Carlos: Sabia que ia ser algo assim…

Carol: Ela te pediu isso? Sem condições, mãe! Nós estamos muito em cima. A gente trabalha… Além do que, uma viagem de ônibus daqui até Fortaleza dura dias. Eu iria chegar para a virada.

Sara: Sem falar no preço de comprar uma passagem em cima da hora para dois adultos e duas crianças.

Nora: Ah! Me venham com desculpas melhores! Carolina, você já pegou avião para Brasília e Sara, se você não pode dedicar nada do seu dinheiro para se divertir, tudo bem, eu pago a passagem das crianças! – Todos eles ficam sem atitude, surpresos com a atitude da mãe.

Tomás: Mãe, vai com calma.

Carol mordia o lábio inferior, meio com raiva, meio magoada. Sara se apoiou para trás na cadeira e cruzou as pernas, esperando a próxima atitude. Carlos e Tomás estavam curvados para frente com os cotovelos apoiados nos joelhos.

Nora: Desculpa, desculpa. Não quis dizer aquilo. Carol, eu sei que é difícil para você. E Sara, não quis te ofender, mas eu posso ajudar de verdade. E vocês três também, me escutem antes de inventarem desculpas. – Ela faz uma pausa para respirar. – A avó de vocês já fez tanto por vocês e pensem que a gente não sabe quanto tempo mais ela vai estar aqui para podermos viajar com ela. É horrível falar assim e eu não gosto nem de pensar, mas seria tão bom pra ela. Faria tão bem. E ela não me pediu nada, só mencionou como seria bom se todos fossem.

Todos se entreolham, pensando como proceder. Vitória é a primeira a se manifestar. Ela segura o braço de Tomás.

Vitória: Nós vamos sim, dona Nora. Eu tenho uns dias de folga no banco para tirar e o Tomás é o presidente da Andanças, se ele não puder tirar uns dias de folga, quem pode, né? – Ela diz simpática.

Nora: Brigado, Vitória, querida.

Tomás: Vi, e aquele assunto? Não pode interferir? – Ele pergunta, claramente mencionando o processo de adoção.

Vitória: Aquilo vai demorar ainda para o próximo estágio. Não vejo problema.

Carlos: Nossa… Que misteriosos! Não vou nem perguntar o que é, porque eu sei que não vão dizer. Olha, eu também estou com umas pendências. Estou concorrendo para ser promovido, e se eu for seria bom estar aqui, né? – Ele faz uma pausa para refletir o que fazer. – Mas uma pausa não faz mal a ninguém. Ainda mais para um homem solteiro como eu em uma cidade de praia como Fortaleza. Se Deus quiser, haverá vários homens solteiros por lá também.

Com a confirmação de Carlos, todos se viram para Carol e Sara, que estavam lado a lado.

Carol: Eu preciso falar com o Roberto antes. Ver se ele está disponível, a Larissa… Mas acho que vamos sim. – Todos olham para Sara.

Sara: Ah é, eu vou ser a única que não vai. Até parece, gente. Lógico que nós vamos, afinal o Carlos me lembrou de um ótimo motivo para ir a Fortaleza. – Ela diz sorrindo.

Nora: Será ótimo, vocês vão ver. Seria perfeito se o Júnior pudesse ir também. Mas eu não falo com ele desde que ele ligou no Natal. Nenhum de vocês soube dele? – Todos fazem que não. – Nem a Rebeca, Carlos?

Carlos: Não que ela tenha me dito, e ela diria.

Nora: Bom, não há motivo para ficar preocupada, não é mesmo? É a atitude típica do Júnior, agir como se não tivesse família. Espero que ele esteja gostando… – Ela fica reflexiva por um bom tempo. – Enfim, a dona Diva chegará em breve, acho melhor desfazermos nossa reunião secreta. Muito obrigada, viu? Eu prometo que vou fazer dessa viagem a melhor de todas para vocês. E não somente um passeio com uma sexagenária e uma octogenária.

Eles se despedem e saem.

11. INTERNA – NOITE – HOTEL – QUARTO DE JÚNIOR E BIANCA

[♫ Hurt You So Bad – Crazy Town]

Júnior estava se vestindo e esperando Bianca sair do banheiro para os dois saírem. Ele vê o livro que ganhou de Nora antes de viajar e percebe como sente falta da mãe e também dos irmãos. Quando pega o livro, percebe uma quantidade ínfima de pó branco em cima. Ele fica desconfiado. Pega o celular para liga pra casa quando Bianca sai do banheiro.

Bianca: Juuuu! Vamos logo! – Ela o pega pelo braço e arrasta pra fora do quarto. – A galera já tá saindo pra ir pros Lençóis. Vamos! Vamos!

Júnior: Tá, tá… Deixa só eu pegar uma camiseta. – Ele volta, pega uma camiseta sem manga, calça um par de chinelos e sai atrás dela.

Bianca: Isso mesmo, tá lindo. Agora vamos! – Ela desce, puxando ele pela mão.

12. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES/APARTAMENTO DE SAULO

Saulo estava em casa, assistindo à televisão sozinho quando o telefone toca.

Nora: Alô, Saulo?

Saulo: Oi, Nora. Como você está?

Nora: Estou bem e você?

Saulo: Tudo ótimo. Como está lá no orfanato?

Nora: Tudo fluindo naturalmente e na editora? Muito sucesso?

Saulo: É… Quase isso. – Ele responde com um risinho meio irônico. – Mas diga, faz tempo que eu não falo com você.

Nora: A gente se viu no Natal, Saulo.

Saulo: Eu sei, mas falar de verdade. Saber de você.

Nora: Então, sem muitas novidades. Só uma que é a razão porque eu te liguei. A mamãe ganhou uma viagem para Fortaleza com tudo pago.

Saulo: Ah, ela me disse! Com acompanhante, né? Que legal.

Nora: Sim, e ela me chamou. Mas daí ela comentou que seria ótimo se a família estivesse reunida lá.

Saulo: E a viagem é que dia?

Nora: Depois de amanhã.

Saulo: Sem condições. A Quatro Estações tá numa situação complicada, além de ficar chato com a Vera. E mesmo que você diga que eu possa levá-la, eu não vou querer. Vai criar um clima chato com a mamãe.

Nora: Faz um esforço. Todos, tirando o Júnior, vão. Ela vai ficar chateada se só você não for.

Saulo: Eu queria, mesmo. Mas não dá.

Nora: Você que sabe, eu não vou insistir. Mas pensa, tá?

Saulo: Pensarei – Eles se despedem e desligam. Saulo se sentindo um pouco culpado.

13. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA/RUAS DO RIO DE JANEIRO

Sara e Gabriel pegavam as malas e levavam para o hall do elevador, enquanto Rafaela e Eduardo faziam alguma coisa na mesa de centro da sala.

Sara: Vamos, Rafa e Dudu! A tia Rebeca tá esperando! Ela já vai dar carona pra gente, não quero fazê-la esperar.

Gabriel: O que vocês estão fazendo? – Ele pergunta passando a mão pela cabeça da irmã quando ela levanta e pega sua bolsa.

Rafaela: As resoluções de Ano Novo que eu te falei, Gabs.

Eduardo: É, tem que pensar em um monte de coisa e você disse que tem que ser coisa que a gente sabe que vai conseguir cumprir.

Sara: Então peguem os papéis que o elevador já chegou.

Os quatro põem as malas no elevador e descem. Chegando ao carro, os gêmeos abrem as portas de trás e vão entrando. Eles se inclinam em direção ao banco do motorista e dão um beijo no rosto de Rebeca.

Rafaela e Eduardo: Oi, tia Rebeca!

Rebeca: Oi, como vocês estão? Animados para viajar de avião? – Os dois respondem animadamente, enquanto Gabriel e Sara colocam as malas no porta-malas.

Sara: Oi Rebeca. Desculpa a demora, viu? – Ela cumprimenta entrando no banco da carona.

Gabriel: Oi. – Ele diz se sentando ao lado dos irmãos.

Rebeca: Imagina, atrasou nada. Ainda tem tempo até o vôo. Tudo certo com vocês? Gabs?…

Gabriel: Tudo certo, sim. Brigado.

Sara: Obrigadíssimo pela carona, viu Rebeca?

Rebeca: Que é isso! Assim que o Carlos me disse que vocês iam viajar e que o tal do Diego iria levá-lo, logo pensei em você.

Sara: Ah sim… Táxi até o aeroporto é muito caro e ônibus com duas crianças e um monte de mala… sem comentários. E como eu não namoro o deputado e não tenho um motorista ao meu dispor… – Rebeca ri.

Eduardo: Tia! Tia! Vamos logo! Eu quero ver o avião!

Rebeca: Seu pedido é uma ordem. – Ela diz em tom jocoso e pisa no acelerador.

14. INTERNA – DIA – AEROPORTO

[♫  No Ceará é assim – Fagner]

Nora, Diva e Saulo esperavam no saguão. Saulo havia dado carona para as duas. O combinado era que os irmãos se encontrariam nas lojas do aeroporto para irem de lá até a área do check-in e surpreender a avó.

Diva: Nora, o que estamos esperando?

Nora: Nada, mamãe. Você vai ver.

Carlos entra seguido por Tomás levando Vitória, Carol e Roberto, Larissa de mãos dadas com Gabriel e Sara com cada um dos gêmeos em uma mão.

Diva: O que é isso que está acontecendo aqui? Vieram todos se despedir? Eu e sua mãe estamos indo para Fortaleza ficar menos que uma semana e não pro Paraíso pra todo sempre.

Carlos: Por que tanta certeza que vai pro Paraíso? – Ele sussurra para Tomás, que lhe faz uma cara feia.

Nora: Não, mamãe, a senhora não reparou nas malas? Eles vão viajar conosco.

Diva: É sério isso? Todos? Até você, Saulo? – Ela se vira para o filho caçula.

Saulo: Eu não, mamãe. Não consegui me livrar dos deveres aqui, mas vim desejar boa viagem. – Ele sorri, meio culpado.

Diva: De qualquer jeito, isso é ótimo! Muito obrigada, meus netos! Espero que a mãe de vocês não tenha feito mais uma daquelas chantagens emocionais que ela faz tão bem.

Tomás: O que é isso, vovó! Todos nós precisamos de umas férias. Como vocês iam para Fortaleza, foi só uma conveniência. – Ele diz pacificador.

Nora: Imagina que eu faria algo assim!

Carol: É… Imagina. – Ela responde irônica.

Sara: Mas se a gente demorar um pouquinho mais, não vamos para lugar nenhum. – Ela diz empurrando o carrinho de bagagens para o check-in enquanto Eduardo e Rafaela iam com Carlos.

Diva: Sara está certa. Vamos, vamos. – Nora e seus filhos e agregados se direcionam para a fila, enquanto a mais velha fica para trás. – Tchau, Saulo. É uma pena que você não possa ir. Eu te ligo para dar um feliz ano novo. – Ela o beija no rosto e vai com o resto do grupo. Saulo sai andando com as mãos no bolso em direção ao estacionamento.

15. INTERNA – DIA – ESTÚDIO DE FOTOGRAFIA

Rebeca chega ao endereço que havia recebido para trabalhar como assistente de fotografia e entra no estúdio. Lá encontra um cenário montado com vários elementos brancos e prateados, alguns ramos de árvore verdes e outros objetos. Logo, avista o seu contato, a produtora Elena.

Rebeca: Oi Elena. Sou eu, a Rebeca. Tá lembrada?

Elena: Oi, Rebeca. Claro. Vem cá, vou te apresentar ao fotógrafo Benício Rettore. – Ela anda em direção a um dos homens no set e Rebeca a acompanha. – Benício, essa é a sua assistente, Rebeca Santos. Rebeca, esse é o Benício.

Rebeca: É um prazer.

Benício: O prazer é todo meu, moça. Bom, eu suponho que você esteja a par da temática desse ensaio e de seu propósito?

Rebeca: Sim, é pra ilustrar um catálogo de alguma coisa, certo? Com o que se espera do ano novo? Aquelas coisas de paz, saúde, esperança, dinheiro…

Benício: Isso mesmo. É de relógios masculinos. Eu preciso que você, primeiramente, me ajuda a dirigir os maquiadores. Como o ensaio é nu, é muito importante que a maquiagem disfarce problemas de pele, possíveis tatuagens, etc. Além de fazer a luz trabalhar melhor, né?

Rebeca: O quê? O ensaio é nu?

Benício: Sim, você não sabia? – Ela faz que não, chocada. – Tem algum problema com isso?

Rebeca: Problema? Não, imagina. – Ela se acostuma com a idéia e vai falar com os maquiadores.

16. EXTERNA – DIA – RUAS DO RIO DE JANEIRO

Saulo estava dirigindo até a Quatro Estações e pensando que não havia sido um bom irmão ou filho nos últimos tempos. Não conseguia dizer direito porque, a não ser por Vera – que ele já considerava uma página virada, mas não estava confortável. Ele pega o celular e disca o número de Vera.

Vera: Oi, Saulo.

Saulo: Vera, tem algum problema se eu chegar mais tarde hoje?

Vera: Não, está tudo tranqüilo, mas por quê? Algum problema? Posso ajudar?

Saulo: Não, não. Não é nada sério. Coisa minha. A noite eu te conto. Um beijo.

Vera: Ok. Beijo! – E desliga.

Saulo vira na próxima rua e segue em direção a casa de sua irmã.

17. EXTERNA – DIA – AVIÃO

[♫ No Ceará é Assim – Fagner]

O vôo já  estava na metade. Gabriel e Larissa ouviam música, um ao lado do outro. Na outra poltrona, estava Carlos, que tentava ler um livro, em vão. Na mesma fileira, estavam Sara e os gêmeos. Carol e Roberto estavam atrás de Sara e as crianças. Tomás estava na frente do avião, por causa de Vitória. Diva havia feito uso de seu acento preferencial também e ela e Nora faziam companhia ao primogênito e sua mulher. Uma aeromoça se aproxima de Sara.

Aeromoça: Senhora, os seus filhos já podem ir visitar a cabine do piloto.

Eduardo: Eeeeba!

Rafaela: Que legal! A gente vai poder de verdade. Achei que era mentira da Ana quando ela disse que viu o piloto quando ela viajou de avião. – A aeromoça sorri simpática.

Aeromoça: Pode sim, mas não por muito tempo, tá? E não pode tocar em nada.

Sara: Ah, pode deixar que eu vou ficar de olho para que não mexam em nada mesmo. – Ela diz ameaçadora.

Aeromoça: Vamos lá? – Os quatro saem.

Roberto: Que legal. Quando eu era pequeno não tinha dessas coisas.

Larissa: Pai, quando você era pequeno não tinha nem avião. – Todos riem, menos Carol que força um sorrisinho.

Roberto: Rá-rá. Muito engraçado. – Ele se vira para a namorada e pergunta mais baixo. – Tudo bem?

Carol: Tudo, é só o fato de eu estar em um avião. Fortaleza é muito mais longe que Brasília e enfrentar o medo uma vez não supera o trauma.

Roberto: Vai dar tudo certo. Você vai ver, não vai acontecer nada. – Ela faz que sim com a cabeça e se aninha nos ombros dele.

Carlos: Gabs, aproveita que eles foram lá pra frente e me passa aquele jogo da tua irmã?

Gabriel: Que jogo? O Nintendo DS?

Carlos: Isso mesmo. Que seja. Não sei o nome, mas não consigo ler isso. – Ele aponta pro livro que trouxe. – E ela me mostrou outro dia. Tem uns jogos divertidos.

Gabriel: Ok, boa sorte. – Ele se inclina para pegar o jogo da irmã e passa para o tio.

Carlos: Mas me digam, pombinhos apaixonados, como vocês estão? – Carol percebe o rumo da conversa e tenta dar um tapa na cabeça dele.

Larissa: Ai!

Carol: Desculpa, Larissa. Não era pra pegar em você. – Ela lança um olhar maléfico para Carlos, que finge que não vê. Roberto também fica apreensivo, mas não diz nada.

Gabriel: Estamos bem, tio. Nenhuma briga.

Carlos: Cinismo também já vem no gene Andrade ou você aprendeu depois? Eu tô falando como vocês estão… você sabe, superando o acontecido. – Os dois ficam calados. Desligam seus tocadores de MP3 e tiram os fones dos ouvidos. – Olha, vou jogar a real: estamos todos preocupados com vocês, não é só a Sara, o Nando, a Carol e o Roberto não. Mas a gente não falou nada até agora, porque… não sabemos como.

Larissa: Eu sei, Carlos. Brigada.

Gabriel: A gente tá bem, tio. – Ele responde cabisbaixo. Carlos fica com cara de desconfiado. Carol e Roberto escutam atentamente a conversa no banco de trás. – Sério.

Um silêncio se instaura por alguns segundos. Carlos fica refletindo. Depois, quebra o gelo.

Carlos: Certo. Agora, me diz. Onde liga esse negócio? – E ele entrega o DS para o sobrinho.

18. INTERNA – DIA – CASA DE SHOWS

[♫ Hurt You So Bad – Crazy Town]

Júnior tinha sido o último a sair da praia naquele dia, e conseqüentemente foi o último a se arrumar antes de ir para o show, porém ainda estava no horário. Quando chega ao camarim, vê Mike e o resto da banda, com exceção de Yuri chapados, conversando e bebendo. Não falavam coisa com coisa.

Júnior: Mike, vem cá. Você viu a Bianca?

Mike: Oi Juuuu! Camarada!

Júnior: Tá, Mike. Mas e a Bianca, viu?

Mike: Pô, vi não! Acho que ela foi lá com o Yuri buscar umas paradas.

Júnior: Que paradas? Onde?

Mike: Umas paradas aí. Lá na porta. – Júnior sai sem agradecer, quando abre a porta do camarim, vê Bianca e Yuri entrando. Ela ria altíssimo, ele tinha na mão um saquinho transparente, com pó branco.

Yuri: Aê! Chegou a festa, moçada! – Os outros comemoram, Bianca ri mais umas vez.

Júnior: Que palhaçada é essa? – Ele se vira para Bianca e segura seu braço, o sorriso dela some. – Você também cheirou, Bianca?

Bianca: Ai, que que é, Júnior? É meu pai agora? Porra, que saco! Todo dia a mesma coisa. Ai, suquinho pra cá, ai, refri pra lá. Não quero essas merdas de bebida! Vou beber álcool siiim! Vou fumar siim! Vou cheirar. A boca é minha, o nariz é meu. Se eu quiser queimar grama e fumar, o problema é meu! Não vou ficar nessa vidinha mais ou menos que você tanto defende! – Ela solta uma risada estridente. – Você não tem idéia do que você tá perdendo!

Júnior: Tenho sim, Bianca. Tenho sim. Tô perdendo uma vida de insegurança, instabilidade, loucura, ansiedade, decepção. – Ele vê o baterista separar uma trilha de cocaína em cima da mesa e engole em seco, sentindo um misto de desejo, nojo, raiva e tristeza.

Bianca: Decepção? Tem medo de decepcionar quem? Teus irmãos fofoqueiros ou tua mãe corna? – O primeiro impulso de Júnior é bater nela, talvez por isso ele tenha segurado seu braço tão forte a ponto de deixar marca. Depois, respira e desiste. Ela fica com um olhar assustado no rosto.

Yuri: Sai, daqui, sai Júnior. A gente te respeita quando tu não quer ir com a gente nos programas, puxar um com a gente. Agora respeita quando a gente quer, né? Isso aqui é baseado em respeito e eu não vou tolerar se isso sair desse esquema, tá ligado? Ainda mais se tu desrespeitar minha irmã. – Ele diz se aproximando de Júnior, mas sem avançar.

Júnior sai andando e bate a porta atrás de si. Um pouco longe, consegue ouvir risadas. Ele sai da casa de shows e, na rua, pega seu celular e disca o número da mãe, andando de um lado para o outro, controlando o choro que a raiva trouxe.

19. INTERNA – DIA – ESTÚDIO DE FOTOGRAFIA

Três dos sete ensaios já haviam sido satisfatoriamente fotografados. O primeiro, da paz, rendeu fotos com o modelo em posição de meditação ou contemplando um horizonte imaginário. Já o de saúde se resumiu a um modelo viril fazendo poses de Mister Universo, enquanto o do dinheiro teve um homem bebendo champanhe invisível em uma taça e fingindo fumar um charuto com um semblante arrogante. Todos eles nus. Havia uma preocupação em esconder as partes íntimas para a câmera, é lógico, mas no estúdio, era impossível perder um detalhe sequer. Rebeca já estava ficando com vergonha alheia, quando a produtora anunciou o novo tema.

Elena: Muito obrigada, viu Rafael. – Ela diz, dirigindo-se ao modelo do dinheiro. – Agora vai ser a vez da paixão. – Um modelo usando somente um relógio se aproxima. – Augusto Reis, certo?

Augusto: Certíssimo.

Elena: Por aqui, por favor. – Ela aponta o cenário. Augusto cumprimenta Benício com um aperto de mão e quando vê Rebeca, faz menção de beijá-la no rosto. Ela estende a mão.

Rebeca: Melhor assim. – Ela diz enquanto aperta a mão dele.

Augusto: Você que sabe, senhorita. Eu acho impessoal demais. Talvez possamos tentar de novo, quando eu estiver… vestido. – Ele propõe sedutor.

Rebeca: Talvez… – Ela sorri seca, desacreditando naquela situação. – Agora vamos fotografar para dar tempo de acabar tudo hoje?

Os dois se posicionam nos seus devidos lugares e Benício começa a fotografar. Rebeca fica parada, evitando se comprometer. Augusto começa a fazer poses estranhas. Pega um tecido que estava no cenário e cobre suas partes com ela, abre as pernas e morde o lábio inferior. Rebeca segura uma risada, mas acaba fazendo barulho. Augusto aproveita essa interrupção, olha para Rebeca e dá uma piscadela, ainda mordendo o lábio, depois lambe os lábios. Rebeca não consegue se controlar e cai numa gargalhada alta.

Rebeca: Ai, desculpa. – Ela diz entre risinhos, enquanto se recompõe. – Desculpa mesmo, não consegui me controlar.

Benício: Por quê? Aconteceu alguma coisa? O que há de tão engraçado?

Rebeca: Nada. Sabe quando vem do nada? Pois é…

Benício: Pois bem, preciso que você assuma a câmera por um tempinho. Eu preciso fazer uma pausa, e o ensaio não pode parar. Temos prazo. – Rebeca concorda, meio que por impulso. Depois percebe a gravidade da situação.

Augusto fica de pé e finge dar um tapa no ar na altura de seu quadril, como se estivesse dançando funk. Rebeca se ofende.

Rebeca: Querido, assim não vai rolar. Pode fazer umas poses melhores?

Ele morde o dedo indicador esquerdo e com a mão direita ele aponta para Rebeca e faz sinal para que ela se aproxime. Ela decide ignorar.

Augusto: Poxa, como eu posso mostrar paixão sem uma mulher para canalizar esse sentimento?

Rebeca: Não sei. Se vira. Você que é o modelo aqui. Eu só estou tentando arranjar alguma foto boa, mas tá difícil.

Augusto: Difícil é você. Cruz credo. Mina complicada… – Ele a encara, de cima pra baixo, por causa da altura.

Rebeca: Olha aqui! – Ela aponta o dedo para ele quando Benício entra na sala.

Benício: Ótimo! Ótimo! Adorei essa pose. Pura paixão no ar. Esse ar esnobe no rosto, desafiador. Excelente. Rebeca, meus parabéns.

Rebeca: Mas, mas eu…

Benício: Nem pense em se justificar. Meus parabéns.

Augusto: Você me deve uma. – Ele sussurra.

Rebeca: Nem morta. – Ela sussurra para ele de volta e vai ao lado do fotógrafo, só querendo que aquele ensaio acabasse.

20. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – QUARTO DE DIVA/SALA

Saulo estava no quarto de Diva, remexendo em algumas caixas. Ao seu lado, uma pilha de fotos, todas elas estrelando a matriarca dos Novaes. Sua intenção era fazer um presente para a mãe como um pedido de desculpas.

Depois de algum tempo mexendo nessas coisas, ouviu o telefone tocar. Desceu rapidamente e atendeu.

Júnior: Alô? Mãe. Tenho que falar com a senhora. – Ele parecia aflito.

Saulo: Júnior? É o Saulo. Aconteceu alguma coisa?

Júnior: Não, tio. Tudo certo. Passa para a minha mãe, por favor?

Saulo: A sua mãe não está. Você não ficou sabendo? Ela, sua avó e seus irmãos viajaram.

Júnior: Ah é? Pra onde? – Ele demora um pouco para responder, obviamente porque ficou surpreso.

Saulo: Fortaleza. Foram passar o Réveillon lá. Achei que você sabia…

Júnior: Não, a gente não tem conseguido se falar nos últimos dias. – Ele pensa um pouco. – Mas ela não levou o celular? Não atende.

Saulo: Eles devem estar no vôo ainda. Saíram não faz tanto tempo assim. Liga mais tarde.

Júnior: Certo. Obrigado, tio. – Ele ia desligar, quando se lembra. – Mas se tá todo mundo viajando, o que você está fazendo aí?

Saulo: Uma surpresa pra sua vó. Só isso posso dizer. Um abraço.

Júnior: Outro. – Eles se despedem, Júnior insatisfeito. Saulo volta ao trabalho.

21. INTERNA – TARDE – HOTEL EM FORTALEZA – QUARTO DE TOMÁS E VITÓRIA

Tomás e Vitória estavam no quarto. Vitória separava as roupas, pegando-as de cima da mala aberta sobre a cama. Tomás as guardava.

Tomás: Ei, no que você está pensando? – Ele passa a mão, pela nuca e pelos ombros dela.

Vitória: No nosso filhinho. Ou filhinha, né? – Tomás faz uma cara condescendente. – Eu sei, eu sei. Não deveríamos criar expectativas e essas coisas demoram anos. Mas eu não consigo me controlar tanto assim.

Tomás: É, eu também estou ansioso. – Ele toma um momento para refletir e decide conversar com Vitória, mas é interrompido pela porta abrindo.

Sara andava pelos corredores do hotel berrando o nome dos filhos mais novos, que haviam saído correndo pela porta do quarto para ir desbravar o hotel. Quando passa por uma das portas, ela se abre, revelando Tomás com Eduardo na mão.

Tomás: Acho que a senhora perdeu isso aqui. – Ele diz sorrindo.

Sara: Brigada, Tomás. A Rafa também tá aí? – Uma mão aparece na porta, acenando. – Pode vir, Rafa.

Vitória: Tá tudo bem. Eles não fizeram nada. Só disseram que tavam fugindo do banho. – Ela ri.

Sara: Pois é, mas eles têm que ir de um jeito ou outro. – Ela sorri simpática.

Vitória: Por que você não deixa o Tomás ir dar um jeito nisso lá no seu quarto e vem aqui conversar comigo? – Tanto Sara quanto Tomás ficam surpresos, mas acatam rapidamente. Ele pega a chave da mão da irmã e acompanha os gêmeos falantes. Sara entra e se senta na cama.

Sara: Ué, que houve, Vitória? Está tudo certo?

Vitória: Comigo está. Com você é que não, né, Sara? Você está muito nervosa.

Sara: Estou? Imagina… É impressão sua. São só esses dois que não param quietos. Devia ter encomendado com um botão de desligar.

Vitória: Como está o Gabs?

Sara: Ah, mal. Ele sempre foi meio quieto, mas ultimamente não tem dito uma palavra e tem comido mal pra caramba! Tô ficando preocupada. Já passaram algumas semanas, né? Quase um mês! E ele ainda não melhorou.

Vitória: Foi uma situação pesada, deixa marcas. – Sara concorda, mas fica em silêncio. – Faz assim, porque você não deixa os gêmeos sob responsabilidade minha e do Tomás nessa viagem?

Sara: Imagina, Vitória! Eles dão um super trabalho. Não vou cansar vocês.

Vitória: Cansar nada! Tomás vive enfurnado naquela livraria, com problemas, problemas, problemas, é bom ter um pouco de contato com o mundo infantil pra equilibrar. E eu? Bom, só eu sei como minha vida é parada, por mais irônico que isso soe. – Ela dá uma risadinha, simpática, como se permitindo que Sara risse também e não tivesse pena. Vitória pensava que aquela experiência com os gêmeos seria um bom treinamento para ela e Tomás para depois de adotar. Afinal, não podiam ser tão criteriosos com a idade da criança. – Faz assim, você dorme com eles e dá café. No resto do dia, eles são nossos.

Sara: Tem certeza que Tomás concordará com isso?

Vitória: Ah, absoluta.

Sara: Bom, qualquer coisa, nós estamos só a alguns quartos de distância, também. Gritem para qualquer coisa e eu apareço num pulo. E o trato é totalmente reversível, me chamem se quiserem que eu fique com eles.

Vitória: Relaxa. Pega o Carlos pelo braço e vai caçar homem na praia. Não desperdice Fortaleza! – Sara ri.

Sara: Brigado, Vitória. Agora deixa eu ir lá que o Tomás deve estar perdidasso com os dois. – Ela sai do quarto e fecha a porta. Vitória sorri, contente com a possibilidade de cuidar de uma, ou melhor duas, crianças por um tempo e volta a arrumar as roupas.

22. EXTERNA – TARDE – PRAIA

Carol e Roberto estavam sentados um pouco afastados do mar, admirando o por do sol e mantendo um olho em Gabriel e Larissa, que andavam um pouco mais a frente.

Roberto: Bonito, né?

Carol: Muito. Acho que era disso que a gente precisava, sabe? E por “a gente”, eu quero dizer os dois também. Fugir um pouco do cotidiano.

Roberto: É, sorte sua que a Câmara entra de férias no fim do ano.

Carol: Sempre achei político folgado. – Ele ri e a beija – Sabe, fiquei preocupada hoje quando Carlos mencionou o seqüestro.

Roberto: Eu também. Seu irmão não tem muita noção de limites, vamos combinar. Mas foi bom. Alguém precisa falar disso com eles… – Ele abaixa a cabeça e fita os próprios pés por um tempo. Carol passa o braço pelos ombros dele e ele levanta a cabeça. – Vamos lá chamá-los para comer alguma coisa? Tô faminto.

23. INTERNA – TARDE – HOTEL EM FORTALEZA – QUARTO DE NORA E DIVA

Nora e Diva arrumavam suas roupas no armário do quarto que dividiriam.

Nora: Bonito o hotel, né mamãe?

Diva: Sim. As camas podiam ser um pouco maiores, né? Além do que o chuveiro é daqueles de regular morno, quente ou desligado. E você sabe que eu odeio duchas assim, né? Mas o hotel é lindo sim. – Ela responde sem tirar os olhos das roupas.

Nora pega o seu celular para conferir quando coloca a bolsa pendurada numa cadeira.

Nora: Oito ligações perdidas do Júnior, acredita? Deve ser importante, vou ligar para ele. – Ela comenta, já chamando o número. Depois de um tempo, desliga, sem dizer uma palavra.

Diva: E aí?

Nora: Desligado. – Ela responde preocupada.

Diva: Ele deve estar num show, Nora. Ou se preparando. Tente amanhã.

Nora: É, você está certa. – Ela diz, tentando esquecer o assunto e voltando para as roupas, mas ainda preocupada.

24. INTERNA – NOITE – HOTÉIS EM SÃO LUIZ

Bianca chega no quarto que dividia com Júnior e não o encontra lá. Sequer um recado escrito em algum canto. Ele não havia aparecido no show, mas antes de sair do local, falara com o baixista de uma das outras bandas participantes da turnê para que o substituísse, pois estava passando mal. Como estava acabada, Bianca simplesmente deita na cama e dorme, sem se preocupar com o namorado.

No quarto que alugara pela noite, Júnior dormia. Ele acordava de tempos em tempos, incomodado com alguma coisa, mas logo dormia de novo. Estava cansado.

25. EXTERNA – DIA – PRAIA

[♫  No Ceará é Assim – Fagner]

Carlos, Sara, Carol, Roberto, Nora e Diva estavam tomando sol. Tomás, Vitória, Eduardo e Rafaela estavam na piscina do hotel e Gabriel e Larissa estavam no mar.

Carlos: Nada, Mônica, tem certeza? – Ele falava no celular, deitado em uma cadeira de plástico sob o sol, gesticulando com uma lata de cerveja na mão.

Mônica: Absoluta. Eles não decidiram ainda. Assim que eu tiver uma notícia, te ligo.

Carlos: Ligue mesmo. Mesmo se for em plena virada.

Mônica: Pode deixar. Tchau, vou lá que o Gustavo tá todo atrapalhado. – Eles desligam.

Sara: Nada ainda?

Carlos: Não. Maldita perua que tá concorrendo comigo! Ela bem que podia arranjar um marido rico na Suíça e desistir dessa vaga. – Ele para por um tempo, se senta reto na cadeira e tira os óculos escuros. – Se bem que isso podia acontecer comigo também. Nem me importava.

Carol: Você é um aproveitador, Carlos.

Carlos: Fácil pra você dizer, né? Namorando o político.

Carol: Político lindo, bem sucedido, inteligente e que fica uma graça de sunga. – Sara faz pose de que vai vomitar.

Roberto: E que está aqui ouvindo tudo, que fique bem claro. E não é legal você falar da minha sunga na frente da sua mãe.

Sara: Poderia ser pior…

Carlos: É, ela poderia falar sobre o que está dentro da sua sunga. – Carlos, Sara e Roberto riem. Carol fica em choque primeiro, e depois cai na risada também.

Nora: Carlos! – Ela repreende, depois se vira para o genro. – Roberto, não se preocupe com a sunga. Já vi coisa pior. Afinal, sou mãe do Carlos, não sou? – Todos menos Carlos e Diva riem.

Carlos: Rá rá. Muito engraçada. – Ele corta o raciocínio. – Escuta, Roberto, tá afim de ir jogar um frescobol? Ouvi dizer que é o esporte de praia que mais emagrece.

Roberto: Isso é uma indireta?

Carol: Ah, legal. A gente pode jogar de dupla. Mulheres contra homens. Eu e Sara contra vocês dois, que tal? A não ser que você queira ir, mamãe.

Nora: Não. Vou fazer companhia para sua avó que pegou no sono. É melhor ela não ficar tempo demais no sol. Daqui a pouco, entro com ela.

Carlos: Então, Carol, eu queria uma partida só com o Roberto. Depois a gente joga de dupla. De qualquer jeito tenho que falar com vocês três. Mas antes, a partida, topa?

Roberto: Opa! – Ele diz se levantando da cadeira e pegando a sacola com as raquetes e a bola. Ele e Carlos saem para ir um pouco distante jogar.

Carol: O que raios foi isso? Vocês sabem de alguma coisa? – Sara e Nora fazem que não. E as três ficam curiosas.

26. EXTERNA – DIA – PRAIA

[♫  No Ceará é Assim – Fagner]

Carlos e Roberto já estavam jogando fazia um tempo. O placar variava, ora um ganhava, ora outro. Alguns golpes eram muito bem pensados e as únicas palavras que eles trocavam era para se sacanear quando um deles perdia. Depois de um tempo, Roberto puxou assunto.

Roberto: Mas então, Carlos. Por que você quis jogar comigo? Ou vamos ficar nessa de cunhados atléticos competindo por diversão? – Ele perguntou enquanto continuava jogando.

Carlos: Não, você tá certo, não foi pelo lado esportivo só. Eu preciso que você me escute. – Ele responde jogando a bola para o outro lado.

Roberto: Sou todo ouvidos. – Ele rebate.

Carlos: Eu queria me desculpar pela minha atitude durante o seqüestro…

Roberto: Carlos, isso já ficou para trás. Não precisa pedir desculpas. Se você não tivesse falado com a polícia, talvez eu não estivesse com a minha filha hoje. – Ele dá um efeito com a raquete e a bola cai na areia, do lado de Carlos. – Rá!

Carlos: É, mas talvez eles tivessem reagido diferente sobre isso e feito pior. Além do que, não respeitei os seus sentimentos, os de Sara… Juro que se isso acontecer de novo, não farei nada parecido. – Ele percebe o que acabara de dizer, enquanto pegava a bola no chão. – Bom, é lógico que nada assim vai acontecer de novo, e eu nem quero… Você me entendeu. – Roberto ri da falta de tato do outro e rebate a bola de Carlos.

Roberto: Entendi, Carlos. Não se preocupe. Nenhum ressentimento. Agora, eu estou curioso para saber o que você quer falar comigo, com Carol e com Sara. É sobre Larissa e Gabriel?

Carlos: É sim, mas eu prefiro não adiantar nada enquanto não estiver com elas. – Desta vez é ele quem faz o ponto e comemora levando as mãos pro alto. Os dois, transbordando suor. – Quanto tá?

Roberto: Empatou. Quer ir pro Match Point? – Ele pergunta desafiador.

Carlos: Só se for agora! – E eles voltam a jogar.

27. EXTERNA – DIA – HOTEL DE FORTALEZA – PISCINA

Eduardo e Rafaela brincavam no raso da piscina, enquanto Tomás, apoiado na margem, conversava com Vitória, que tinha sua cadeira de rodas perto dele.

Vitória: E aí? Se divertindo?

Tomás: Muito. O Dudu não para nunca e a Rafa é um doce, né? Mas sapeca que só ela.

Vitória: Gostou da minha idéia, então, de ficarmos com eles por um tempo?

Tomás: É meio precipitada, né Vitória? Eu não me incomodo, claro, amo esses dois, mas eles são nossos sobrinhos, não nossos filhos. E o que estamos fazendo não é sermos pais, e sim, babás.

Vitória: É lógico que não é a mesma coisa, mas dá um gostinho. Eu estou tão empolgada com essa adoção e para você, parece uma coisa desimportante. Como se acontecesse ou não, não importa.

Tomás: Não é isso, lógico que importa.

Vitória: O que é, então?

Quando Tomás estava pensando sobre a pergunta da esposa, tentando entender melhor o que sentia, antes de formular a resposta, ele é surpreendido por Eduardo, que chega por trás de Vitória e salta na piscina, ao lado dela, fazendo espirrar água, e Rafaela que chega por trás e o agarra pelo pescoço.

Tomás: Oh meu Deus! Ataque alienígena! – Os dois riem e Tomás brinca um pouco com eles na água.

Rafaela: Tia!

Vitória: Fala, meu amor.

Rafaela: O que você mais deseja nesse ano novo?

Vitória: Eu?… – Ela pensa um pouco. Seu impulso automático era dizer que queria que tudo desse certo com o processo de adoção, mas isso era sigiloso para os Andrades. Ela olha para Tomás, que a observa de volta, apreensivo. – Que tudo corra conforme meus planos.

Eduardo: E você, tio?

Tomás: Quero muita clareza nos meus raciocínios. – Vitória o olha desconfiada.

Rafaela: Vocês, adultos, pedem coisas complicadas demais.

Vitória: Ah é? Por quê? Qual é a coisa que vocês mais desejam nesse ano?

Os dois se olham antes de responder.

Eduardo: A gente não pode dizer.

Rafaela: É, se não, não realiza.

Tomás: Ah! Vocês fizeram a gente dizer e agora?

Rafaela: Não, tio! Só se você faz uma lista, porque daí você tem que conferir no outro ano para ver se realizou ou não.

Tomás: Ah, então tudo bem.

Eduardo: Tô com sede…

Rafaela: Eu também…

Tomás: Amor, você pede bebida pra gente, por favor?

Vitória: Claro, já volto. – Ela diz sorrindo e sai, um pouco desconfiada, mas convencida de que não havia nada demais com Tomás. Era só impressão sua.

28. EXTERNA – DIA – PRAIA

Nora e Diva voltavam para o hotel. Ambas de maiô e óculos escuros. Diva usava um chapéu de palha com um lenço amarrado.

Diva: Eu não quero ficar na piscina coberta, Nora!

Nora: Mas mãe! Está um sol muito forte! A senhora não pode ficar tanto tempo assim. Mesmo com protetor, você sua e ele sai. Além de insolação. Por falar em insolação, vamos tomar um suco, você tem que se manter hidratada…

Diva: Nora, pára. – Ela interrompe a filha. – Se eu quisesse uma babá, eu teria contratado uma. O que há com você? Eu chamei minha filha para passar a viagem comigo e não ficar cuidando de mim. Não sou uma inválida, você sabe muito bem…

Nora: Eu sei, mamãe, desculpa. Eu acho que só preciso ocupar a cabeça, como todo esse stress com Gabriel e Larissa e também o Júnior, que quando resolve aparecer é para deixar oito chamadas não atendidas… Além do que, as coisas não ocorreram como eu planejei. Era para Saulo vir com a gente e a senhora ter a família inteira aqui.

Diva: Não fique se martirizando por isso, Nora! Eu estou super contente, minha filha está aqui, quatro dos meus netos, meus bisnetos… Está tudo excelente.

Nora: Com o Júnior em casa, eu posso ficar com ele, cuidar das tarefas dele… E eu sei que ele saiu de casa faz um tempo para ir morar com Rebeca e com Saulo, mas sei lá… Pelo menos ele estava por perto, né?

Diva: Você já ligou para ele hoje?

Nora: Liguei, três vezes. Celular desligado ou fora da área.

Diva: Você precisa focar mais na sua vida, Nora. Ao invés da vida dos outros. E escute bem: ninguém está dizendo para deixar de se importar ou de ter interesse, mas seja um pouco mais egoísta. Queira as coisas para você também. – Elas ficam em silêncio por um tempinho. Nora refletindo sobre as palavras da mãe. – Vamos para a hidroginástica?

29. EXTERNA – DIA – PRAIA

[♫  No Ceará é Assim – Fagner]

Carlos e Roberto voltam para onde estavam Carol e Sara. Elas os vêem ao longe.

Carol: Uaaau! Que gatos esses dois. Têm companhia?

Carlos: Olha, se eu fosse bem sem graça, dizia que a minha companhia era ele.

Sara: Vou confessar que a gente considerou a possibilidade de você ter chamado Roberto para jogar, só para mostrar suas habilidades e conquistar algum carinha.

Carol: Mas daí percebemos o quão estúpido isso seria, já que poderia parecer que você era comprometido. – Ela vira para Roberto. – Não que você pareça gay, amor, mas sabe como é… Nunca se sabe. O próprio Carlos, a gente fica na dúvida, quer dizer, a gente não, né? Mas quem não conhece.

Roberto: Isso quer dizer que você está na dúvida? – Ele ri.

Carlos: Já disse que eu não dou pinta. E a intenção não era arranjar cara nenhum. Eu tenho cara do quê? De michê, prostituto? Nem todas as minhas intenções são pensando em homem. Eu e Roberto fomos ter uma conversa, de homem pra homem.

Sara: Mas com intenção ou não, vocês arrancaram uns suspiros, viu? Várias meninas passaram, pararam e olharam. Alguns meninos também.

Roberto: É meu charme irresistível.

Carlos: O seu? Com certeza foi o meu. Se pararam para te ver, foi só porque te viram na TV, com certeza. O deputado é você, mas o mestre do frescobol sou eu.

Roberto: No desempate.

Carlos: Que seja. Ainda assim, levo para casa o troféu. – Ele pega uma lata de cerveja e segura no alto com as duas mãos como se fosse um verdadeiro troféu.

Sara: Ai, Carlos, como você é bobo. – Ele põe a latinha de lado e deita na cadeira reclinável. – Dá pra dizer agora o que você queria falar com a gente?

Carlos se senta novamente. Os três prestando atenção nele.

Carlos: Então. Vocês sabem que eu também fiquei muito preocupado com meus sobrinhos e percebi que os dois estão bem reclusos, correto? – Os três fazem que sim. – Pois é… Eles não vão falar como eles se sentem de verdade. Bom, eu duvido que eles sequer toquem no assunto espontaneamente. Só entre si, eu suponho, já que os dois estiveram lá e sabem como foi.

Carol: Ok, e isso quer dizer que…

Carlos: Calma, eu vou chegar lá. Isso quer dizer que eu tenho uma proposta para vocês e quero que escutem bem antes de reclamar. Que tal se os dois freqüentassem um terapeuta? – Nenhum dos três diz nada, mas reagem com o corpo. Sara se acomoda na cadeira, não gostando muito da idéia. Roberto inclina o corpo mais para frente, querendo saber mais e Carol se mantém parada, esperando o resto para julgar. – Todo esse tempo indo conversar com uma psicóloga me ajudou bastante a resolver algumas coisas dentro de mim e olha que eu não fui seqüestrado.

Carlos: Eu era bem cético no começo, mas o negócio realmente funciona. E Sara nem adianta mencionar a sua experiência ruim com aquele psicólogo de casais. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. – Os três permanecem em silêncio. – Por que vocês não tentam? Conversem com eles, procurem um terapeuta bom, Roberto deve ter vários lugares confiáveis para conseguir recomendações, e levem os dois. Veja se é melhor que eles façam consultas individuais, ou em dupla… Não sei.

Carol: Não é uma idéia ruim.

Sara: Precisamos falar com eles antes, ver o que eles acham. E eu, sem dúvida, tenho que consultar o Ferdi…

Roberto: Excelente, Carlos. Eles realmente precisam de alguém com quem eles possam desabafar e que vá entendê-los e não simplesmente aninhá-los. Talvez nós possamos fazer também. Para saber como lidar com isso tudo. Muito obrigado pela consideração. – Eles se cumprimentam com um aperto de mão e, para a surpresa de Carlos, Roberto o puxa para um abraço rápido depois.

Sara: Roberto está certo. Pode ajudar mesmo. – Ela põe a mão em cima da de Carlos. – Brigada pela dica.

Gabriel e Larissa chegam do mar, molhados e o assunto se encerra.

Carol: E aí? Como tá a água?

30. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE VERA

Rebeca, Saulo e Vera almoçavam.

Rebeca: Não, você precisa ver a cara daquele cafajeste. Juro, era a coisa mais engraçada que eu já vi ao vivo. Não consegui conter a gargalhada.

Vera: Você tem que se informar melhor dos trabalhos que pega, filha. Imagina, esse foi nu, o próximo pode ser uma coisa pior, ilegal talvez. Muito cuidado.

Saulo: Sua mãe está certa. Mas e as fotos? Ficaram boas?

Rebeca: O resultado final ficou bom sim. Tá na internet já, quando a gente acabar eu vou lá e mostro pra vocês. – Ela dá mais uma garfada. –Eu fico aqui falando e falando de mim e não dou chance para vocês, né? E a editora, como está?

Vera: Tudo parado, mas a gente supera. A única coisa que movimentou aquilo lá foi o sumiço repentino de Saulo durante a tarde. Onde você estava?

Saulo: Na casa da minha irmã. – Ele continua a comer como se aquela resposta fosse suficiente. Depois de um tempo, Vera percebe que ele não vai continuar a resposta.

Vera: Fazendo o que lá se ela está viajando? Aliás, todos estão viajando. Estamos numa cidade livre de Andrades. – Ele diz rindo com a própria piadinha idiota. – Desculpa, passou pela minha cabeça, tive que falar alto. Mas então, fazendo o que lá?

Saulo: Resolvi dar um presente diferenciado para minha mãe

Rebeca: É aniversário dela?

Saulo: Não, foi em Novembro. Só deu vontade de dar um presente.

Vera: Ok, sem mais perguntas sobre isso então.

Saulo: E o nosso combinado? Como foi sua última tentativa de publicar livros?

Vera: Ainda não foi. Eu te aviso.

Os três acabam de comer e Rebeca os leva até seu quarto para mostrar as fotos do seu último ensaio. O telefone toca e Vera corre até  a sala para atendê-lo.

Filipe: Vera, é o Filipe, tudo certo?

Vera: Certinho e com você?

Filipe: Também. Escuta… Eu consegui aquele número que você me pediu.

Vera: Ah, ótimo. Me passa. – Ela pega um papel e caneta e anota o número, embaixo ela escreve: Davi e sublinha três vezes.

Quando ela desliga o telefone, fita o papel com o número por um tempo, depois olha em direção ao quarto da filha, dobra o papel, o guarda no bolso e volta para conferir as fotos.

31. INTERNA – NOITE – HOTEL EM FORTALEZA – QUARTO DE SARA

Sara estava enrolada em uma toalha, para começar a se arrumar para a festa de Réveillon. Os gêmeos já estavam todos vestidinhos e com Diva e Nora, que foram as primeiras a ficar prontas. Gabriel estava no quarto com ela, terminando de se arrumar.

Gabriel: Mãe! Cadê meu perfume?

Sara: Onde você deixou, Gabs. Eu não mexi. Já olhou na sua mala?

Gabriel: Já!

Sara: Vê na dos seus irmãos. – O menino se senta na cama e se debruça na mala do irmão.

Gabriel: Achei! – Ele passa um pouco nos pulsos e no pescoço. – Que tal? – Ele chega perto dela para que ela pudesse sentir.

Sara: Tá muito cheiroso. Larissa vai adorar. – Ele sorri. – Você tá saindo agora? – Ele faz que sim. – Fecha a porta pra mim? Vou me trocar. Brigada.

Antes mesmo do filho sair, Sara já começa a procurar na sua mala uma roupa boa para usar aquela noite. No meio da confusão, ela escuta o celular tocar. Se levanta num pulo e começa a procurar o aparelho. O acha na pia do banheiro e atende sem ver o visor.

Sara: Alô?

Marcelo: Feliz Ano Novo!

Sara: Marcelo? – Ela fica completamente em choque. Anda para o quarto de volta e se senta na cama.

Marcelo: Sim, Marcelo Fróes ao seu dispor.

Sara: Nossa! Não esperava que você ligasse! Não sei nem o que dizer.

Marcelo: Vou te dar uma dica. É comum, na nossa civilização, quando alguém deseja um feliz Ano Novo, a pessoa desejar o mesmo de volta. – Ele brinca.

Sara: Que cabeça a minha! Feliz Ano Novo, é claro! Que seu ano seja repleto de saúde, paz, felicidade, amor… – Ela engole em seco depois de dizer o último e se arrepende momentaneamente.

Marcelo: Tudo isso aí mesmo! E principalmente de aulas na faculdade, certo, minha professora vizinha? – Ela sorri e concorda. – Liguei mais cedo para não correr o risco da ligação não chegar, sabe como fica a telefonia na virada, né? Está onde? Copacabana?

Sara: Um pouquinho mais longe. Fortaleza.

Marcelo: Fortaleza? Uau. Ano Novo em grande estilo.

Sara: Pois é…

Marcelo: Bom, eu não quero atrapalhar os preparativos da festa e nem fazer você pagar roaming. Logo, vou indo. Mas nos falamos assim que você voltar, certo?

Sara: Garantido. Beijo!

Marcelo: Um beijo pra você também. – E ele segura um pouco a ligação antes de desligar.

32. INTERNA – NOITE – HOTEL EM FORTALEZA – PISCINA

Carlos estava sozinho na área da piscina. Já estava pronto fazia alguns minutos e não estava com muita vontade de esperar o começo da festa com sua mãe, sua avó e seus sobrinhos. Tinha sua cabeça em muitas coisas: em Gabriel e Larissa, na oportunidade de crescer no emprego que não saía resultado, em como estaria Júnior, na sua relação de “somente amizade” com Diego, que ele ainda considerava estranha. Ele sente o seu celular tocar, olha e vê o número: Mônica Cel.

Carlos: É impressão minha ou você vai me dar uma notícia maravilhosa para eu começar o ano bem?

Mônica: Considere-se a próxima mãe Dinah! Você foi promovido, Carlos! – Ele fecha os olhos, morde o lábio inferior, e faz um punho com a mão esquerda, depois soca o ar, como comemoração.

Carlos: Rá! Consegui! Obrigado por ligar, Mônica, você é a melhor. Me conte, e a perua da Olga?

Mônica: Ela passou dessa para melhor hoje de manhã, sofreu um acidente de carro quando tentava desviar de umas vacas na estrada pro sítio onde iria passar o Réveillon. – Carlos fica chocado. Por essa, ele não esperava. – Então, é lógico, que a vaga foi pra você!

Carlos: Credo, me sinto até mal de comemorar agora.

Mônica: Carlos, pensa assim. Antes ela do que você.

Carlos: Está certa! Isso mesmo! Não é minha culpa se a vaca morreu fugindo das peruas… Ou o contrário. Que ela esteja feliz no céu agora, porque eu to muito feliz aqui na terra! – Ele solta um grito curto de felicidade. – Eu vou desligar agora, Mônica. Tenho que contar para as pessoas! Obrigado por ligar.

Eles desligam e Carlos, talvez por impulso por já estar com o celular na mão, talvez pelos pensamentos em sua cabeça, disca um número no celular.

Diego: Pronto?

Carlos: Diego? É o Carlos. Feliz Ano Novo!

Diego: Carlos! Que surpresa! Feliz Ano Novo pra você também! Como está?

Carlos: Maravilhoso! Acabei de descobrir que fui promovido! Acredita? Lógico que não é ainda um super cargo de chefia, mas um passo de cada vez, certo?

Diego: Sem dúvidas! Meus parabéns! Você merece, de coração. É um ótimo cara, um excelente profissional… – Ele pára por um instante, algumas vozes atrás dele desaparecem. – Além de muito bonito. – Carlos sorri.

Carlos: Pára com isso! Você nunca me viu trabalhando, como pode sabe que sou excelente? Já o ótimo cara e muito bonito eu aceito. – Os dois riem e quando param, percebem o silêncio. – Você também é uma pessoa muito…

Diego: Carlos, eu tô de plantão agora, você me desculpa, eu sair da conversa assim. Mas os acidentes de bebida já começaram. Feliz Ano Novo! Um abraço. – Eles desliga antes que Carlos pudesse responder. Depois de uma rápida confusão por causa do fim súbito da conversa, Carlos se descobre com um sorriso no rosto.

33. EXTERNA – NOITE – BAR EM SÃO LUIZ/ PRAIA EM FORTALEZA

Júnior não havia voltado ao hotel em que estava hospedado com a banda desde o acontecido na noite passada. Com esta noite, eles não teriam show, não se preocupou em explicar sua ausência a ninguém. Estava em um bar, usando o telefone.

Júnior: Mãe! Mãe! Você tá me ouvindo?

Nora: Júnior! Ai que saudades, meu filho! – Júnior podia ouvir a voz dos irmãos e da avó mandando beijos. Nora os fazia calar a boca para escutar melhor.

Júnior: Eu também estou, mãe. Muitas.

Nora: Vi suas ligações, tentei te ligar ontem e hoje, mas não consegui. Está tudo bem?

Júnior: Eu sei, acabou a bateria do meu celular e eu não voltei no hotel para pegar o carregador.

Nora: Não voltou para o hotel por quê? Aconteceu alguma coisa?

Júnior: Nada que valha a pena estragar sua noite, mãe. Eu só queria ouvir sua voz… – Os dois tinham os olhos lacrimejados.

Nora: Guilherme Andrade Júnior! Pode ir me contando.

Júnior: Mãe, confia em mim. Eu te conto em uma outra situação. Eu só preciso que você me diga que tudo vai ficar bem, por favor.

Nora hesita por um momento. Em qualquer situação, fosse com qualquer filho, Nora falaria que tudo iria ficar bem, mas sempre com receio de que talvez não ficasse, ainda mais quando não sabia sobre o que se tratava. Dessa vez, porém, ela realmente sente uma confiança e orgulho do filho e responde com uma voz firme.

Nora: Vai ficar tudo bem, filho. Eu sei que você vai conseguir superar, seja o que for. Mas por favor – Ela frisa as duas últimas palavras. – Se for algo referente a falta de dinheiro, querer desistir, estar tentado a usar drogas, ou algo do tipo, por favor me diga agora que eu vou correndo te buscar. – Júnior ri, emocionado. Nora já não conseguia evitar, lágrimas corriam por sua face.

Júnior: Pode deixar, não é nenhuma das alternativas anteriores, mãe. Eu preciso desligar, porque estou usando o telefone de favor. Eu te amo muito. Manda um beijo para todos e diz que eu estou morrendo de saudades. Feliz Ano Novo!

Nora: Feliz Ano Novo, filho! Boa sorte. Te amo. – Ele desliga. Nora guarda o celular no bolso. Por um lado feliz de ter conseguido falar com o filho, por outro com mais saudade ainda. Diva a abraça. E quando ela se solta do abraço, um pouco mais recomposta, todos os Andrades começam a fazer perguntas sobre Júnior.

34. EXTERNA – NOITE – PRAIA

Os Andrades estão reunidos na praia, junto com vários outros locais e turistas, todos esperando pelos fogos. Faltavam apenas 20 minutos para a meia-noite. Carol sente seu celular vibrando. Ela atende.

Frank: Carolzita, meu amor!

Carol: Frank! Que surpresa boa!

Frank: Que os deuses te abençoem nesse novo ano que nasce!

Carol: Muito obrigada. Que eles te abençoem também. – Ela repete, meio na dúvida com as expressões de Frank. – Muito sucesso, saúde, paz…

Frank: E todas essas coisas que todo mundo deseja no ano novo.

Carol: Sim, mas que são sinceras, você sabe.

Frank: Sei e as desejo igualmente para você. Carolzita, eu li o artigo que você me mandou sobre a ditadura. Gostei muito, viu? Aquilo ali é material para um Pullitzer!

Carol: Gostou mesmo? Que bom! Teve bastante tempo de pesquisa.

Frank: Está excelentíssimo. Quando o ano novo passar, e sua ressaca, quero conversar com você. Tenho umas idéias soltas, topa?

Carol: Conversar com você sempre é bom, Frank, mesmo que seja sobre o tempo.

Frank: Fechado, então. Beijocas.

Carol: Beijos! – Ela desliga alegre.

Roberto: O Frank? O que ele queria?

Carol: Dizer que leu meu artigo sobre a ditadura e que amou! Tem algumas idéias, mas não me revelou.

Sara: Misterioso… Gente, pera aí. – Agora é a vez de Sara ter seu celular tocando. Ela atende.

Tomás: Nossa, que família mais requisitada. Pra mim, ninguém liga. – Ele finge estar magoado. Os outros riem.

Sara: Alô. Ferdi! Feliz Ano Novo!

Fernando: Feliz Ano Novo, Sara! Como você está?

Sara: Estou bem. Quem diria que essa viagem realmente fosse fazer bem?

Fernando: Bom, com um cenário desses, é difícil ficar mal, né? – Ela concorda. – E o Gabs, como tá?

Sara: Tá ok, naquela de sempre. Viu, depois quero discutir com você uma coisa relacionada a isso.

Fernando: Tá certo. Quero falar com ele, com o Dudu e a Rafa depois. Mas antes, queria te contar uma coisa. Você vai ficar orgulhosa, tenho certeza.

Sara: Nossa, que suspense… Conta logo!

Fernando: Consegui um emprego como produtor musical numa gravadora. Não é uma Som Livre, mas já é alguma coisa!

Sara: Parabéns, Fernando! Você não sabe como eu fico feliz em saber. Que máximo! Um emprego bom aliado com o que você gosta.

Fernando: Sim, sim! Tô realmente empolgado! Não vejo a hora de contar pro Gabs, ele vai pirar! – Ele realmente soava empolgado.

Sara: Ele tá aqui do meu lado. Vou passar para ele. Beijo, Ferdi, boa virada! – Ela se vira para o filho. – É seu pai, Gabs.

O menino atende e conversa com o pai um pouco. Enquanto o assunto é o novo emprego do pai, ou a viagem, a conversa flui normal. Mas quando Fernando pergunta como ele está, Gabriel se torna monossilábico. Depois, Fernando ainda fala rapidinho com Eduardo e Rafaela. Logo depois que eles desligam, a multidão começa a contar.

Todos: Dez!

Tomás e Vitória dão as mãos e se olham, ansiosos pelo show de fogos, que com certeza era mais humilde que o de Copacabana, mas que era novo e por isso já valia.

Todos: Nove! Oito!

Carol e Roberto se abraçam pela cintura. Ela põe a cabeça no ombro dele. Larissa e Gabriel fazem a mesma coisa, ao lado dos mais velhos.

Todos: Sete! Seis!

Carlos pega Eduardo no colo, enquanto Sara pega Rafaela, para que eles também possam ver o espetáculo.

Todos: Cinco! Quatro!

Nora fecha o olhos, sentindo a brisa do mar e depois abre, sabendo que Júnior estava passando um bom réveillon. Ela passa o braço pelos ombros da mãe, que sorri para ela.

Todos: Três! Dois!

Eduardo e Rafaela fecham os olhos bem apertados como a tia Hilda tinha ensinado e começam a mentalizar todas as suas resoluções de ano novo. Quando terminam, eles abrem os olhos.

Todos: Um! – A multidão grita e se abraça. Não é diferente com os Andrades. Todos eles se abraçam, se beijam e desejam um bom ano, principalmente um ano de superação para Larissa e Gabriel.

Os adultos segurando uma taça de espumante e os menores com refrigerante brindam à chegada de 2010.

35. INTERNA – DIA – HOTEL EM FORTALEZA – RECEPÇÃO

No dia seguinte de manhã, o hotel estava praticamente desértico. Pelo jeito a maioria dos hóspedes havia bebido um pouco além da conta e ido dormir só  com o nascer do sol. Diva está a caminho da piscina, quando passa pela recepção.

Atendente: Senhora Diva Novaes? – O rapaz vai até ela com um embrulho nas mãos.

Diva: Sou eu mesma.

Atendente: Isso é para a senhora. – Diva pega o embrulho e se senta para abrir.

Quando o faz, encontra um livro encapado com uma foto dela mesma, muito mais moça, grávida de Saulo. Ao abrir, vê páginas e páginas de várias fases de sua vida, desde a gravidez de Saulo, o baile de debutantes de Nora e a entrada de Paulo na faculdade até o casamento de Tomás e o batizado dos gêmeos. Escrito à mão, estavam comentários de como a vida de Diva havia sido grande e apesar das dificuldades, muito boa. Com gente que a ama. Na última página, o trecho que tirou seu fôlego.

Com toda essa gente que te ama tanto e está  lá para você todo dia, acabo ficando perdido e sem saber como demonstrar. Que o seu bom dia ao acordar faz falta, e as suas críticas a Vera, e o seu beijo de boa noite. Eu te amo muito, mãe.

Beijos,

Saulo.

36. INTERNA – DIA – HOTEL EM FORTALEZA – QUARTO DE SARA

Sara acorda bem devagar, com muita preguiça. Quando se levanta para ir ao banheiro, vê que seus filhos ainda estão dormindo. Passando pela mala de Eduardo, ela vê uma folha solta. Pega e lê.

Resolussções de Ano Novo de Dudu e Rafa.

10. Que o tio Carlos consiga um namorado e pare de reclamar.

09. Que a mamãe compre um Nintendo Wii

08. Que o tio Júnior vire um rockstar e fique super famoso

07. Que o tio Roberto vire presidente do mundo.

06. Que a mamãe deixe eu usar maquiagem para ir para a escola. E eu sem cueca.

05. Que a mamãe compre um cachorro.

04. Que a tia Vitória volte a andar.

03. Que todo mundo seja muito feliz.

02. Que a mamãe e o papai fiquem juntos de novo.

01. Que o Gabs melhore do que ele tem e volte ao normal.

Continua…

Músicas do episódio

Use Somebody, Kings of Leon

Hurt You So Bad, Crazy Town

No Ceará é Assim, Fagner

3 Respostas to “Resoluções de Ano-Novo”

  1. Julia Says:

    Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahn *.*

    Que coisa mais fooooooofaaaaaa *.*

    Como são fofiiinhooos esses gemeosss!!! Gamei.
    Concordo com todos os itens da lista!! Principalmente o nº2 😀

    Mais q ep mais feliz neh.. eles tavam precisando.. Logico que sempre tem problemas.. Mais eu tenho certeza q o Gabs e a Larissa vão conseguir ficar de boa 😀

    Amei!!

    ;*

  2. Natie Says:

    Aaaaaaah meu Deus… Acho que vou chorar… hehe… Não tem nada mais lindo q a inocencia das crianças! Essa lista foi a melhor coisa do episodio!

    Nossa qdo li a parte do Carlos propondo terapia ao Gabriel e a Larissa eu quase levantei e bati palmas pra ele… Com ctz eles precisam conversar com alguem! Sequestro eh traumatico pra qualquer pessoa, ainda mais pra 2 adolescentes…

    E essa viagem pra Fortaleza hien? Td de bom e fiquei com uma invejinha deles… hehe… E adorei como td começou! Quem diria hien? Promoção no Faustão… rsrs… E eu queria ver essa cena do Roberto e Carlos jogando frescobol…

    Super feliz do Carlos ter conseguido a promoção, do Tomas e Vitoria estarem levando a historia da adoção a serio e do Fernando ter conseguido um caminho concreto na musica!

    Adorei o presente do Saulo pra Diva!! E ligação suspeita pra Vera (ou só eu q achei suspeita??)

    Aaaaah o modelo e a Rebeca! haha… Ri mtu imaginando a cena! E realmente, ela tem q se informar antes de ir fotografar qualquer coisa… hehe…

    E tragam o Junior de volta! To com pena dele lá sozinho…

    Agora to em dia com os epis… 😀
    Bjuss!!

  3. Gustavo Says:

    Salve galera.

    Tava sumida hein Natie. Seja bem vinda!!!

    Vamos ao episódio agora.

    Essas “resolussções” para o ano novo foram de matar!!! Acho que até a mais insensível das pessoas ficaria emocionada com ela…

    Adorei o presente do Saulo pra D. Diva. Muito sensível da parte dele. Será que ela o mostrará pra alguém??? Tomará.

    Estou com vontade de dar umas porradas no Carlos pra vê se ele acorda… É claro que esse Diego está fazendo hora com a cara dele. De plantão?! Sei… Mas devo tirar o chapéu pra ele numa coisa. Acertou em cheio sobre a terapia. Com certeza ajudará as crianças.

    E Natie, concordo com vc. Quem será esse Davi?! Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

    Finalizando, estou gostando da atitude do Junior. Espero que ele pule logo fora dessa banda…

    Bem, isso é tudo pessoal!!!

    Bjs e abraços!

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