Sinopse: O vislumbre da idéia de não ter mais Nora por perto desorienta a todos.

Nos episódios anteriores: Sara começa a namorar um professor. Júnior decide retornar à faculdade. Tomás e Vitória descobrem que Lucas está gravemente doente e tem um filho. Roberto anuncia sua candidatura ao governo do Rio. O relacionamento de Davi e Nora deixa Vera com ciúmes. Saulo termina com Vera. Rebeca fica sentida com a mãe pelo término com Saulo. Sara e Fernando têm uma recaída. Carol recebe uma nova e interessante proposta de trabalho de um amigo. A festa de noivado de Carol em Resende reúne Andrades e Pelegrinis. Carlos mente para Diego sobre a festa. Clima de romance surge entre Júnior e Pâmela. Lucas falece. Davi recebe uma proposta de trabalho em Portugal. Nora e Davi terminam, amigavelmente. Nora procura Vera para conversar sobre Saulo. Rebeca pede desculpas a mãe. Nora desmaia.

 

01. EXTERNA – DIA – RUAS DO RIO DE JANEIRO

 

Paramédicos colocavam Nora numa maca e depois a maca dentro da ambulância. Vera os seguia agitada, sem fazer realmente nada, enquanto Rebeca segurava a bolsa de Nora numa das mãos e o telefone dela na outra.

 

Vera: Rebeca! – grita Vera, pedindo para Rebeca ser mais rápida.

 

Rebeca: Eu tô tentando! Eles não estão atendendo! – grita de volta. Rebeca estava chorando e suas mãos tremiam.

 

Vera: O que aconteceu com ela? Vocês sabem dizer?

 

Quando o paramédico vira-se para responder, um som agudo e contínuo começou do monitor cardíaco.

 

Paramédico 1: Fibrilação!

 

Um dos paramédicos pula na ambulância e começa, juntamente com o outro, os processos de reanimação. Vera e Rebeca sobem na ambulância e o outro paramédico soca a parede.

 

Paramédico 2: Vai, vai, vai!

 

Os paramédicos carregam o desfibrilador. Rebeca segurava o telefone de Nora em seu colo com as duas mãos, chorando. Vera segurava o banco onde sentava, sem ousar se mexer. Nenhuma das duas olhavam para Nora. Primeiro choque. As duas fecham os olhos. Segundo choque.

 

 

02. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

 

Nora abre os olhos e pisca algumas vezes, para acostumar os olhos à claridade. Ela estava sentada numa das poltronas de sua sala. De repente, ela se dá conta de que a campainha estava tocando. Ela olha para o chão, tentando esquecer aquele barulho. Passos na sala.

 

Guilherme: Não vai atender, Nora? Acho que é para você.

 

Nora ergue lentamente o rosto, reconhecendo a voz. Ela ouve o barulho da porta abrindo e a voz de Guilherme cumprimentando as visitas.

 

Guilherme: Ela está na sala – ouviu Nora. Ela fecha os olhos com força.

 

Nora vira-se, à medida que os sons iam aumentando. Em seguida entram dois homens na sala, junto com Guilherme.

 

Paulo: Nora?

 

Carlos: Onde está a minha Norinha?

 

O olhar de Nora brilha de alegria e seus lábios esboçam um sorriso sutil ao rever os membros de sua família que ela não via há tanto tempo.

 

 

03. INTERNA – DIA – HOSPITAL – SALA DE ESPERA / RECEPÇÃO

 

Rebeca estava sentada numa das cadeiras desconfortáveis dispostas em semicírculo na sala de espera do hospital. Seus olhos estavam inchados. A bolsa de Nora continuava firme em seu colo. Vera caminha em sua direção segurando duas sacolas de papel. Já eram quase meio-dia. Ela entrega uma à filha. Rebeca abre e retira da sacola um sanduíche e uma caixinha de suco.

 

Vera: Foi tudo o que achei à venda aqui.

 

Rebeca: Eles não atenderam ao telefone, mãe. E agora?

 

Vera: Vai ficar tudo bem, Beca. Vai ficar tudo bem.

 

Rebeca: Eu deixei várias mensagens. E eles não ligam de volta.

 

Vera retira a bolsa de Nora do colo de Rebeca e o celular dela de sua mão. Ela guarda o celular na bolsa.

 

Vera: Calma, Rebeca – diz, ajeitando o cabelo da filha. – Eles virão, você vai ver. É só esperar – e suspira. – É só esperar. Agora, coma seu lanche.

 

Rebeca morde um pedaço de seu sanduíche. Ela e Vera começam a tirar os canudos das caixinhas de suco. De repente, elas ouvem algum tipo de confusão não muito longe dali. Elas olham para a recepção do hospital, próxima dali, e vêem Sara, Tomás, Carlos e Júnior.

 

Sara: Nora Novaes Andrade, me ligaram e disseram que ela estava aqui!

 

Recepcionista: Vou verificar, senhora.

 

Sara: Você já disse isso.

 

Carlos: Procura também o contato do seu supervisor, faz favor.

 

Júnior: Carlos, calma. Você também, Sara. Desculpe – diz para a secretária.

 

Tomás: Porque você está pedindo desculpas? A incompetência não é sua! – diz para Júnior.

 

A secretária olha torto para os quatro. Júnior resolve sair de perto.

 

Júnior: Então resolvam vocês, já que do seu jeito está dando super certo – e sai.

 

Ao se virar, Júnior vê Rebeca e Vera correndo em sua direção.

 

Júnior: Graças a deus!

 

Tomás e Sara se viram e vêem Júnior correndo em direção às duas.

 

Rebeca: Por que vocês não atenderam ao telefone?! – diz, com raiva.

 

Os Andrades se assustam com a atitude de Rebeca.

 

Vera: Rebeca… – diz, colocando a mão no ombro da filha.

 

Tomás: Onde está mamãe?

 

Sara: Como ela está?

 

Vera: Não sabemos. Ela está em cirurgia faz…

 

Carlos: Cirurgia?!

 

Carlos estava em choque.

 

Tomás: Mas como assim cirurgia?!

 

Sara: Quem assinou a permissão?

 

Vera: Eu assinei.

 

Tomás: Como é que é?

 

Rebeca entra na frente da mãe.

 

Rebeca: Porque vocês não atenderam! Vocês não atenderam! Eu liguei e liguei e liguei e nenhum de vocês se deu ao trabalho de atender! Minha mãe fez o que tinha que ser feito!

 

Júnior: O que tinha que ser feito? – pergunta, sem entender.

 

Vera suspira.

 

Sara: Ela estava com você quando aconteceu?

 

Vera: Estava.

 

Carlos: Mas cirurgia? Por que cirurgia?

 

Vera: Aparentemente, a parada cardíaca tinha uma causa mais séria. Assim que foi admitida, nos pediram exames…

 

Rebeca: Tomografia.

 

Vera: Nora não tinha acordado ainda. Os exames mostraram que o coração dela, a membrana do coração dela estava diferente, estava enrijecida.

 

Tomás: Então isso não é de agora?

 

Carlos: É hereditário? – Todos olham para Carlos. – Papai teve problemas no coração. Mamãe agora. É hereditário?

 

Sara: Carlos!

 

Carlos: É uma pergunta justa!

 

Todos se viram para Vera de novo.

 

Vera: A rigidez chama-se pericardite. E estava em estado avançado. A cirurgia era urgente ou eu teria esperado, eu… – Vera se cala.

 

Carlos: É perigosa?

 

Vera faz que sim com a cabeça. Rebeca se afasta e volta para a sala de espera. Sara olha para o teto. Tomás passa a mão pelos cabelos. Carlos estava boquiaberto, com os braços frouxos afastados do tronco. O olhar de Júnior ia de irmão em irmão, como se esperasse alguma coisa deles. Sara saca o celular.

 

Sara: Uma coisa de cada vez, Sara. Uma coisa de cada vez. – Ela pensa por um momento. – As crianças! Vou avisar Fernando – e começa a discar.

 

Tomás: Vou avisar Vitória – e começa a ligar também.

 

Júnior: O que a gente faz? – pergunta a Carlos.

 

Carlos: Não sei – ainda atônito.

 

Vera: Sua mãe vai precisar de roupas. Pijamas. Uma malinha para uns dois dias deve resolver, por enquanto. Xampu, sabonete, escova de dentes, essas coisas. O hospital só permite que um dos familiares permaneça fora do horário de visitas. Quem for ficar precisará de uma malinha também.

 

Sara e Tomás retornam.

 

Sara: Precisamos nos organizar.

 

Tomás: E cadê Carol que não chega?

 

Sara: Tentei de novo ligar pra ela há pouco. Ela não atende.

 

 

04. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE ROBERTO – SALA

 

Carol estava sentada no canto do sofá, atônita. Ela ouvia os recados em sua caixa postal, sem sequer terminá-los, pois já imaginava o conteúdo deles por causa do primeiro.

 

Rebeca: Por favor, vem logo…

 

Carol pula o recado.

 

Carlos: Mamãe está no hospital! Estou…

 

De novo.

 

Tomás: Vou lá agora! Sabe de alguma…

 

De novo.

 

Sara: Carol, cadê você?!

 

De novo.

 

Júnior: Nós já estamos aqui e Sara está meio…

 

Ela desliga o telefone e o segura contra o peito. Roberto entra na sala.

 

Roberto: Carol?

 

Carol se levanta, segurando o telefone na mesma posição, e encara Roberto que, ao ver a expressão da noiva, alarma-se.

 

Roberto: Que foi, Carol?

 

Carol: Minha mãe teve um ataque cardíaco e está internada – ela diz como se não acreditasse nas próprias palavras.

 

Roberto: Meu bem… – diz angustiado e envolve-a em um abraço de consolo. – Em que hospital ela tá? Eu vou com você.

 

Carol se desfaz no abraço.

 

Carol: Não – diz, enfática.

 

Roberto fica sem entender.

 

Carol: Não vou agora. Eu vou mais tarde. Tenho que resolver umas coisas agora. Trabalhar… Obrigada.

 

Roberto: Mas ela já está bem? Fora de perigo? – tentava entender.

 

Carol: Não sei. Os outros já estão lá, qualquer coisa eles me ligam.

 

Roberto a encara, perplexo. Carol estava visivelmente apreensiva.

 

Roberto: Tem certeza?

 

Carol: Hum… Você vai se atrasar. Eu… vou…

 

Carol retira-se da sala. Ainda com o telefone em mãos, ela busca pelo número de Maurício e liga. Cai na secretária eletrônica. Ela respira fundo.

 

Carol: Oi, Maurício. Tudo bem? É a Carol. Estou ligando por causa da proposta, lembra-se? Eu agradeço muitíssimo, fico honrada, no entanto, realmente, é inviável para mim no momento…

 

Carol desliga e olha para o telefone. Acabara de receber mais uma mensagem de voz. Ela, então, desliga o telefone.

 

 

05. INTERNA – DIA – HOSPITAL – SALA DE ESPERA

 

Sara, Tomás, Carlos e Júnior continuam a conversar com Vera e Rebeca.

 

Sara: Por que Carol não atende?!

 

Júnior: Sara, ela vai ler as mensagens. Todos nós deixamos. Assim que ela puder, ela aparece por aqui. Vera falou algo sobre o horário de visitas e uma mala pra mamãe, outra pra quem for ficar.

 

Sara: Isso. Alguém vai ter que ficar aqui até a cirurgia terminar.

 

Carlos: Eu não consigo lidar com isso agora. Não dá. – Carlos se levanta. – Desculpa – e sai andando rápido.

 

Tomás: Carlos! – e corre atrás do irmão. – Carlos.

 

Carlos: Eu não posso ficar, não posso. Não estou pensando direito e… E… vovó não sabe.

 

Tomás: Nem tio Saulo. – Os dois ficam em silêncio por uns segundos. – Você conta pra ela?

 

Carlos suspira. Os lábios dele tremem. Ele vai embora. Tomás se junta aos outros.

 

Sara: Ele foi embora?!

 

Tomás: Ele não está bem, Sara.

 

Sara: Ninguém está bem, Tomás! Ninguém!

 

Tomás: E ele foi avisar vovó. Ela não sabe ainda.

 

Júnior e Vera falam ao mesmo tempo:

 

Júnior: Tio Saulo.

 

Vera: Saulo.

 

Sara fecha os olhos, afasta-se e começa a murmurar sozinha “Uma coisa de cada vez” sem parar. Vera vai até ela.

 

Vera: Sara. Você já ligou pra Fernando, então seus filhos já têm com quem ficar. Ligue para seu trabalho, explique a situação.

 

Júnior, Tomás e Rebeca se aproximam. Sara se acalma.

 

Sara: Isso. Precisaremos de um esquema de rodízio. Quem ficará com ela hoje à noite, amanhã…

 

Júnior: Eu posso ficar hoje à noite. Assim vocês têm como resolver as pendências do trabalho.

 

Sara: Ótimo. Carlos está indo em casa, então vou ligar pra ele e ele pode cuidar da mala de mamãe.

 

Vera: Eu acho que já fiz minha parte.

 

Os Andrades a encaram. Vera espera, mas eles não dizem nada.

 

Vera: Vamos, Rebeca?

 

Rebeca se levanta.

 

Rebeca: Aham.

 

Vera: Eu poderia avisar ao Saulo? Se vocês não se importarem, é claro.

 

Tomás: Claro que não.

 

Vera: Obrigada.

 

Sara: Você não precisa agradecer. Você não precisa mesmo. Quero dizer, nós é que…

 

Vera: Não, não – diz, envergonhada. – Mas por favor, me avisem qualquer coisa. Pode ser por Rebeca.

 

Júnior: Avisaremos, claro.

 

Vera: Está bem então.

 

Vera vira-se com a filha e vai embora. Rebeca acena timidamente e segue a mãe.

 

 

06. INTERNA – DIA – HOSPITAL – SALA DE ESPERA / CORREDORES / QUARTO DE NORA

 

Duas horas se passaram, mais ou menos. Sara e Júnior estavam sentados na sala de espera. Ela continuava com os nervos a flor da pele enquanto ele jogava no celular.

 

Sara: Tomás foi fazer o quê mesmo?

 

Júnior: Disse que tinha umas pendências pra resolver. Acho que tem a ver com aquele Lúcio…

 

Sara: Lucas?

 

Júnior: Isso!

 

Sara: Céus, é verdade. Vitória tinha ficado toda alterada. Mas veja só: Tomás com um problema desses nas mãos ainda dá as caras.

 

Júnior: Sara, pára! Daqui a pouco, você é que vai ser internada.

 

Sara desvia o olhar de Júnior, emburrada. O celular dela apita. Ela olha. Era Marcelo. Ela deixa tocar. Júnior percebe.

 

Sara: Que foi? Vai me dar sermão de novo?

 

Júnior: É Marcelo, né? É o que, a quinta vez que ele te liga?

 

Sara: Não sei… Eu… parei de contar.

 

Um médico caminha na direção deles.

 

Sara: Aquele médico! Aquele com certeza é o nosso.

 

Júnior: Você disse isso das outras vezes também.

 

O médico continua caminhando na direção deles, mas no último momento ele desvia e se dirige a uma outra família. Ao receber as notícias do médico, a família começa a chorar, desesperada. Sara olha assustada para essa família. De repente, uma voz desconhecida lhes dirige a palavra.

 

Médico: Com licença. Vocês são os familiares de Nora Andrade?

 

Sara e Júnior se levantam com pressa.

 

Sara: Sim.

 

Médico: Andem comigo, sim?

 

Sara e Júnior seguem o médico pelos corredores.

 

Médico: Não sei se vocês sabem, mas a cirurgia pela qual Nora passou é bastante arriscada, no entanto, nós conseguimos remover o pericárdio inflamado.

 

Sara: E como ela está?

 

Médico: Infelizmente, não muito bem. Entendam, esse tipo de operação envolve muitos riscos.

 

Os três param de andar.

 

Médico: Devido às complicações, precisamos parar seu coração.

 

Júnior: Parar o coração? Como assim?

 

Médico: É o que nós chamamos de C.E.C., ou Circulação Extracorpórea. Há uma máquina oxigenando e bombeando o sangue da sua mãe no momento. É um procedimento comum em operações como essa, mas que possui uma recuperação lenta e delicada. Não podemos informar exatamente quando ela vai acordar.

 

Sara e Júnior não souberam responder. O médico aponta com a cabeça para a porta ao lado deles. Júnior e Sara espiam pelo vidro e vêem a mãe dormindo.

 

Sara: Podemos?

 

O médico faz que sim com a cabeça e Júnior e Sara entram.

 

 

07. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

 

Nora continuava a mirar seu pai e seu irmão. Mas o sutil sorriso que estampava seu semblante já desaparecera. Lia-se no rosto de Nora a dúvida e o receio, a dor e o medo deste reencontro não planejado.

 

Paulo e seu pai resolveram não fazer cerimônias.

 

Paulo: Vamos, papai. Sente-se. Sei que Nora está feliz em nos ver.

 

Os dois se sentam. Nora os segue com os olhos e depois, como se acordasse de um devaneio, os encara com surpresa, como se os estivesse vendo pela primeira vez.

 

Carlos: Viu, Paulo? Como vai você, Norinha?

 

Nora: Eu não tenho certeza…

 

Paulo: Nós também não. Estranho, mas você se acostuma. Terá de se acostumar.

 

Nora: Como assim?

 

Paulo: Ué? Você está aqui, não?

 

Guilherme, que estava recostado na parede, um pouco distante, se mexe, desconfortável.  Carlos pronuncia-se.

 

Carlos: Paulo, não apresse as coisas…

 

Paulo: Você disse que tínhamos pressa.

 

Carlos faz um gesto com as mãos, como para que Paulo relaxasse.

 

Carlos: Não gostaria de se juntar a nós, Guilherme?

 

Guilherme: Acho melhor não.

 

Nora: É. É melhor assim.

 

Carlos: Nora! Guilherme, sinta-se à vontade em se juntar a nós.

 

Nora: Mas, pai…

 

Carlos: Não, Nora. Nós não viemos aqui para isso.

 

Nora: Mas…

 

Paulo: Nós poderíamos conversar sobre Davi ou Emerson, mas isso não faria diferença. Não vê, Nora?

 

Nora: O quê?

 

Paulo: Nada mais faz diferença. Por sua causa. É por isso que você está aqui. É por isso que você está aqui.

 

Nora: Minha causa?

 

Carlos consente.

 

Carlos: Sim, Nora. Você sabia de tudo, de tudo. E mesmo assim, não fez nada.

 

Nora ouvia com as mãos sobre o colo.

 

Paulo: Você parou de lutar.

 

Nora: Eu queria viver, não lutar.

 

Carlos: Essa é uma escolha impossível, minha filha. Sinto ser eu a dizer-te isto.

 

Paulo: Lutar ou não lutar, essas são as escolhas. Você conhece as conseqüências da primeira. E está conhecendo as da segunda.

 

Nora: As conseqüências são e sempre serão as mesmas. Em ambos os casos. – Ela respira. – Quero viver, não lutar. Basta de luta.

 

Carlos: Você tem razão. As conseqüências serão sempre as mesmas. Mas não se preocupe com as conseqüências, mas com as escolhas que te levam a elas.

 

Um silêncio desconfortável domina o lugar após as palavras de Carlos.

 

Carlos: Pense bastante – diz, levantando-se.

 

Paulo: E quando achar que já pensou bastante, pense mais um pouco – seguindo o pai.

 

Nora: Como saberei se tenho certeza?

 

Os dois se viram.

 

Carlos: Não há certeza, lembra-se? Cuide-se, Guilherme.

 

Carlos sai.

 

Paulo: Ah, papai não falou, mas ele ficou contente com a homenagem.

 

Guilherme sorri.

 

Paulo: Adeus, Nora.

 

Paulo vai embora. Guilherme olha para Nora, que evita o olhar.

 

Guilherme: Acho que essa foi pra mim. Lembro-me até hoje de quando eu disse que seu pai estaria se revirando de nojo por ter o mesmo nome que Carlos. É um dos meus maiores arrependimentos.

 

Nora: Ter ouvido isso de você e não ter feito nada foi um dos meus.

 

Guilherme: Mas você pensou, Nora. Você pensou e eu sei que você pensou. E isso, apenas isso, já é o suficiente – Nora não se manifesta e ele continua. – Sua integridade é o que sempre me chamou a atenção em você.

 

Nora: Eu achei que você também a possuísse.

 

Guilherme ri.

 

Guilherme: Eu reconheço a dor que lhe causei. Mas acho que você precisa reconhecer a dor que você causará.

 

Nora: A quem?

 

 

08. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

 

Carlos está sentando com Diva no sofá, ela o abraçava, soluçando. As mãos dela mal tinham forças para mantê-la naquela posição. Era Carlos quem a segurava e a mantinha próxima de si.

 

 

09. INTERNA – DIA – QUATRO ESTAÇÕES – ESCRITÓRIO DE SAULO

 

Vera se aproxima, mas Saulo recua. Ela tenta alcançá-lo com a mão, enquanto lhe dá a terrível notícia. Ao ouvi-la, ele se desequilibra por um momento, e apóia-se na mesa. Vera, emocionada e sem saber o que fazer, retira-se rapidamente.

 

 

10. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

 

Guilherme: Você sabe a quem.

 

Nora: A escolha não é deles… Eles vão entender… Eles precisam… Eu… eu… Não quero mais lutar.

 

 

11. INTERNA – DIA – ESCRITÓRIO DE ADVOGADOS – RECEPÇÃO

 

A porta do elevador se abre e Tomás se apressa para sair. Ele estava atrasado para a leitura do testamento de Lucas. Ele dirige-se a passos corridos para a recepcionista, tirando um papel do bolso.

 

Tomás: Por favor, o escritório de…

 

Naquele momento, Vitória aparece, acompanhada de Isabel e Caio. Tomás vai até ela.

 

Tomás: Vitória, desculpa, mas…

 

Vitória: Tudo bem.

 

Tomás: A leitura já terminou?

 

Vitória: Já.

 

Isabel: Vocês provavelmente têm muito a conversar. Vamos esperá-los lá em baixo, Caio?

 

Tomás não tinha notado Caio, logo ali, ao lado de Isabel. Seus olhos estavam bastante inchados.

 

Tomás: Caio! – tenta parecer alegre. – Como vai? – ele se abaixa e fica na altura do menino, que não esboça qualquer tipo de reação.

 

Isabel: Vou levá-lo lá para baixo. Estaremos esperando por vocês.

 

Tomás: Por que não descemos juntos? Resta ainda algo a se fazer?

 

Vitória: Tomás, nós precisamos conversar.

 

Isabel leva Caio para longe, ao mesmo tempo em que Vitória guia sua cadeira para um local mais reservado. Tomás a acompanha.

 

Vitória: Lucas nos deixou como responsáveis legais de Caio.

 

Tomás surpreende-se.

 

Tomás: Mas Isabel…

 

Vitória: Eu sei. No testamento, ele nos deixou como guardiões e numa carta endereçada a mim…

 

Tomás: Carta?

 

Vitória: Sim, endereçada a mim e a você, ele pede para que nós entrássemos com um pedido de adoção.

 

Tomás perde a fala.

 

Vitória: Eu pedi que Isabel cuidasse de Caio por enquanto. Até resolvermos tudo.

 

Tomás: E… E você… Quer ir em frente? Você quer…

 

Vitória: Quero. Você quer?

 

Tomás hesita.

 

 

12. INTERNA – DIA – AGÊNCIA VERUS – SALA ESCURA

 

Rebeca: Eu preciso me distrair. Eu preciso… – repetia Rebeca.

 

A primeira coisa que ela fez ao sair do hospital foi correr para o trabalho. Para a sala escura, especificamente. Era em meio a todas aquelas banheiras de revelação que Rebeca buscava acalmar-se. Ela revelava uma fotografia quando Murilo aparece.

 

Murilo: Bu!

 

Rebeca não grita, mas perde o controle das mãos, estragando a foto por inteiro. Ela respira e recomeça o trabalho. Murilo se arrepende da brincadeira.

 

Murilo: Desculpa, não fiz por mal…

 

Rebeca não responde.

 

Murilo: Está tudo bem? Você estava repetindo…

 

Rebeca: Que preciso me distrair.

 

Murilo: E é a sala escura que você escolhe?

 

Rebeca o repreende com olhar.

 

Murilo: Senti o frio daqui. Anda, vem comigo.

 

Rebeca: Pra onde?

 

Murilo: Confia em mim? – Rebeca gagueja. – Quem cala consente. Vem! – e a puxa pelo braço.

 

 

13. EXTERNA – DIA – AGÊNCIA VERUS – TERRAÇO

 

A porta do terraço se abre e dela saem Murilo, puxando Rebeca, que estava de olhos fechados.

 

Rebeca: Posso abrir?

 

Murilo continuava guiando-a.

 

Murilo: Ainda não… Ainda não… Pronto. Agora pode.

 

E Rebeca abre os olhos, maravilhada com a imagem da praia de Ipanema ao pôr-do-sol.

 

Murilo: É assim que eu me distraio – e tira uma foto dela. – Eu não gosto de Polaroids, mas… – e lhe entrega a foto.

 

Rebeca: Obrigada – e senta-se. – Senta aqui – diz, olhando para ele.

 

Ele obedece.

 

Rebeca: Então é assim que você se distrai?

 

Murilo: Aham. Quer saber o que mais eu faço pra me distrair?

 

Rebeca: Como é que é?

 

Murilo: Não, não, não, não! Não foi isso o que eu quis dizer!

 

Rebeca: Tudo bem, tudo bem. Veja como eu me distraio.

 

E ela fechou os olhos. Mas os abriu em seguida.

 

Rebeca: Vamos, feche também – ele os fecha. – Agora me dê a sua mão.

 

Os dois ficam de mãos dadas.

 

Murilo: Me avise quando começar…

 

Rebeca: Pode deixar que aviso.

 

E ela olha para a Polaroid no chão, revelada. E sorri.

 

 

14. INTERNA – DIA – HOSPITAL – CORREDOR

 

Sara estava com Júnior ao lado da maca da mãe quando seu celular tocou.

 

Sara: Marcelo outra vez. – Junior olha feio para ela. – Eu ia atender… – diz e retira-se.

 

Sara: Oi, Marcelo – diz num tom forçado de paciência.

 

Marcelo: Oi Sara, como vai?

 

Sara: Indo.

 

Marcelo: Por que não me ligou?

 

Sara: Eu disse que ligaria quando as coisas estivessem mais tranqüilas por aqui.

 

Marcelo: Ok, desculpa – se faz de ofendido. – Só queria falar com você.

 

Sara: Desculpa, só não é uma boa hora.

 

Marcelo: Pelo jeito, não teve nenhuma boa hora no seu dia – fala num tom mais complacente, mas um pouco irônico – Quer que eu passe na sua casa mais tarde?

 

Sara: Não, não precisa, estou cansada. E ainda tem os meninos…

 

Ao longe, Sara observa Carlos chegando com Saulo e Diva.

 

Marcelo: Tudo bem. Você sabe como me achar.

Sara: Obrigada, Marcelo. Tenho que ir, depois nos falamos. Beijos.

 

Saulo e Diva cumprimentam Sara.

 

Saulo: Como ela está?

 

Sara: Aparentemente os médicos precisaram colocá-la em um procedimento de circulação extracorpórea.

 

Carlos: O quê?

 

Saulo: E como foi a operação?

 

Sara: O médico disse que ocorreu conforme o planejado. Mas… Não sei…

 

Diva: Esse é seu medo falando! Não quero ninguém com medo perto de minha filha, enchendo-a de energias negativas! Leve-me para dentro, Saulo.

 

Saulo olha complacente para Sara, que estava tão cansada que nem se deu ao trabalho de replicar o comentário da avó.

 

Sara: Não vai entrar? – pergunta ao irmão.

 

Carlos: Não. Eu não consigo. Você e Júnior estão precisando de alguma coisa? Eu trouxe roupas e lanche de casa.

 

Sara: Você não consegue, mas pelo menos está tentando…

 

Carlos: Sara…

 

 

15. INTERNA – DIA – HOSPITAL – QUARTO DE NORA

Saulo e Diva caminham até o leito de Nora. Diva estava visivelmente emocionada e acaba perdendo o controle. Júnior corre para ajudá-la. Diva senta-se na cama, próxima a filha e tira-lhe a franja da testa.

 

Diva: Ela é muito velha para usar o cabelo desse jeito. Sempre lhe disse isso, mas ela não me escuta… Ela não me escuta… – diz, com a voz embargada, cheia de soluços.

 

Saulo tinha caminhado para o outro lado do leito e acariciava uma das mãos da irmã, em silêncio.

 

Diva: Eu não sei se consigo, Saulo… Eu não sei…

 

Saulo olha para a mãe.

 

Saulo: Nem eu, mamãe. Tentaremos, sim?

 

Diva volta a arrumar o cabelo da filha.

 

Diva: Está melhor, não acha? Parece-me digna, agora.

 

Saulo se apronta para dizer alguma coisa, mas muda de idéia. Júnior continua sentado numa cadeira, um pouco distante.

 

 

16. INTERNA – DIA – HOSPITAL – CORREDOR

Carlos e Sara continuam a conversar.

 

Carlos: Cada um lida com as coisas a sua maneira, Sara.

 

Sara: E ela não está lidando com nada! Esse é o meu ponto!

 

Carlos: Eu não discuto mais isso. Você está irredutível, Sara!

 

Sara: É o meu jeito de lidar com as coisas – ironiza.

 

Carlos suspira impaciente e vira-se para não encarar a irmã. É aí que ele vê sua irmã, Carol, chegando, guiando-se pelas placas. Roberto estava com ela. Carlos passa as mãos pelo rosto, pressentindo problemas. Carol e Roberto os alcançam.

 

Carol: Carlos, Sara!

 

Carlos e Carol se abraçam. Enquanto Carlos e Roberto apertavam as mãos, Carol foi cumprimentar Sara, que a olhava com raiva.

 

Sara: Onde você estava? – diz, ignorando a tentativa de abraço de Carol.

 

Carol: Eu não tive como aparecer antes, desculpa – diz, evasiva.

 

Sara: É claro que você não pode chegar antes. Cheia de compromissos importantes, mais importantes que…

 

Carlos: Sara!

 

Carol: Não, não! Deixa ela falar, Carlos! Vá em frente, Sara!

 

Carlos: Isso não vai ajudar ninguém!

 

Carol: Eu sabia, eu sabia que Sara estaria agindo exatamente dessa forma! Exatamente dessa forma!

 

Sara: Oh, então você também deve ter previsto na sua bola de cristal que nós precisávamos de você!

 

Carol: Pra quê? Pra ser julgada por você? Em toda a sua superioridade…

 

Roberto olhava atônito a briga das duas.

 

Sara: Isso não tem nada a ver comigo! Tem a ver com mamãe! E o seu descaso…

 

Carol: Descaso! – Carol começa a tremer e sua voz começa a mostrar vestígios de um choro reprimido.

 

Roberto resolve interferir.

 

Roberto: Sara, a culpa foi minha…

 

Carlos: Não se atreva – diz para Roberto. – Elas precisam disso.

 

Roberto fica sem fala.

 

Carol: Eu sabia que eu não devia ter vindo – Carol começa a chorar.

 

Sara: Esse é o seu problema! Como pode passar pela sua cabeça uma filha não visitar a mãe no hospital?!

 

Carol: Ter uma irmã como você ajuda muito!

 

Sara: Para de dizer que isso é culpa minha! Se mamãe tivesse morrido na mesa de cirurgia você nem teria se despedido dela!

 

A porta se abre do quarto de Nora se abre e uma Diva enfurecida, seguida por um Saulo também enfurecido se juntam aos quatro.

 

Diva: Você ignorou tudo o que eu lhe disse mais cedo, Sara? Pare de contaminar minha filha com esse veneno!

 

Sara: Desculpa, vó, mas eu acho… – replica, irritada.

 

Diva: Você não acha nada. Nada. Nora é minha filha antes de ser mãe de vocês. Agora, se não for ajudar, fique longe deste lugar.

 

Diva volta ao quarto irritada.

 

Saulo: Sara, vá para casa. Descanse. Você está precisando.

 

Sara: Mas, tio…

 

Saulo: Sara, vá para casa.

 

O lábio inferior de Sara treme, contendo o desespero. Ela começa a se afastar lentamente para depois se virar e sair correndo.

 

Carlos: Sara! – Carlos corre atrás da irmã.

 

Carol: Carlos! – grita para o irmão, sem saber o porquê. Ela ainda estava chorando.

 

Saulo: Quer entrar, Carol?

 

Carol: Eu… não… – diz, entre soluços.

 

Carol não agüenta continuar. Ela corre para o lado oposto ao da irmã. Roberto a segue. Saulo fecha a porta.

 

 

17. EXTERNA – DIA – ESTACIONAMENTO DO HOSPITAL

 

Sara andava a passos largos na direção de seu carro. Ela o alcança quase ao mesmo tempo em que Carlos a alcança.

 

Carlos: Sara!

 

Sara: Não quero falar sobre isso.

 

Carlos: Mas, Sara…

 

Ela o ignora e entra no carro. Ele bate no vidro, mas Sara não o abaixa.

 

Carlos: Sara, você está fora de controle. Não dirige assim. Eu te levo para casa.

 

Sara não responde e ameaça sair com o carro. Carlos se assusta e se afasta. Sara sai com o carro e Carlos a vê guiando para fora do estacionamento.

18. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE TOMÁS

Tomás chega em casa da Andanças exausto. Sua mente funcionava sem parar, pensando na mãe, em Caio, no trabalho… Ele deixa a pasta de couro em cima da mesa da sala e caminha em direção ao quarto, desfazendo o nó da gravata. Ele vê Vitória e o vizinho deles saindo do quarto de casal.

 

Vitória: Olha, Firmino, muito obrigada, viu? Você foi muito gentil em fazer esse favor para nós.

Firmino: Imagina, Vitória. Montar essa cama não foi nada. Espero que o menino fique bem acomodado. Qual o nome dele mesmo?

Vitória: Caio. – Ela sorri simpática. Os dois percebem Tomás no fim do corredor. Firmino anda até ele.

 

Firmino: Opa Tomás! Tudo tranqüilo? – Ele dá um tapa no ombro de Tomás, que retribui.

 

Tomás: E aí, Firmino? Quanto tempo, hein? Tava montando uma cama para o Caio?

Vitória: É, você deve estar todo cansado com tudo que está acontecendo, então eu pedi pro Firmino me dar uma mãozinha.

Tomás: Muito obrigado, viu, Firmino?

Firmino: Não há de quê. Vou deixar vocês sozinhos. Até mais ver.

Tomás: Até mais! – Eles se despedem. Tomás abre a porta para o vizinho, que sai e Tomás se volta para Vitória. – Uma cama no nosso quarto? Por que não usamos a cama do Tiago?

Vitória: Por que o Tiago é o Tiago. O Caio é o Caio. Não me sinto confortável colocando ele lá.

Tomás: Vitória, aquele quarto está inutilizado.

Vitória: Não era para estar! – Ela diz ressentida, virando-se.

 

Tomás: Mas aconteceu, Vitória. Foi horrível, mas aconteceu e agora nós estamos responsáveis por outra criança, que merece um quarto só dela. Além do que, nós também merecemos um quarto só nosso.

Vitória: A cama já está instalada no nosso quarto. Se você não a quiser onde está, sinta-se livre para tirá-la de lá. – Ela empurra sua cadeira para o lado do sofá, ligando a TV e encerrando o assunto.

 

 

19. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE VERA – SALA

Vera estava sentada no sofá, com a TV ligada, mas ela não conseguia focar em nada que passava. Ela ouve a campainha tocar. Vai até a porta e atende.

 

Vera: Rebeca! Que bom que você veio. – Ela cumprimenta a filha com um beijo. Rebeca retribui.

 

Rebeca: Oi, mãe. – Ela diz se sentando no sofá. – A gente não terminou aquela conversa…

 

Vera: Eu estou desocupada. – Ela diz sorrindo, já sabendo sobre o que se trata.

Rebeca: Eu não deveria ter te tratado como tratei, você sabe… – Antes que ela pudesse terminar, Vera a interrompe.

 

Vera: Eu já aceitei suas desculpas. Antes sequer de você pedi-las. Saulo entrou de férias na editora. E foi antes de saber sobre a Nora. Ele nunca vai me perdoar. – Ela olha para a cozinha triste, afastando o choro antes que ele viesse. – Você quer comer alguma coisa? Eu não estou me sentindo muito disposta, ia pedir uma pizza, um sanduíche…

Rebeca: Ah não. Eu estou bem, obrigada. Pensei em passar no hospital, para ver Nora e fazer companhia ao Júnior. Jantar com ele na lanchonete do hospital, não sei. – Ela comenta, levantando-se e passando o braço por volta dos ombros da mãe.

Vera: Hmm… Ótimo. – Ela comenta pensativa. – Será que ela já acordou da cirurgia?

Rebeca: Não sei.

Vera: Se estiver, diga a ela que mandei lembranças, que passo lá amanhã. Se ela quiser, claro.

Rebeca: Ela ficará muito grata por tudo que você fez.

Vera: Ela faria o mesmo por mim. Ou mais.

Rebeca: Mãe, você tem que parar de se culpar pelos erros dos outros. Foi o Guilherme que a enganou durante todo esse tempo.

Vera: Não. – Ela responde calmamente – Eu o mantive enganando ela. O erro foi meu. Eu só cometo erros. Um atrás do outro. Estraguei tudo com o Saulo, com você… Não tenho ninguém realmente pra me virar. Em quem me apoiar, a quem eu apoiar… – Ela olha para Rebeca, triste.

Rebeca: Não é verdade. – Ela se aproxima da mãe e a abraça. – A quantidade de coisas que você fez que me deixaram decepcionada é imensa, mas você é minha mãe. Eu sempre estarei aqui para você. É sério. Assim como eu sei que você estará aqui para mim também. – Elas continuam abraçadas. – Espera essa situação com a Nora passar e vai falar com o Saulo. Pede desculpas. Ele ainda gosta de você. Se você ainda gosta dele, vai atrás. Não deixa isso acabar assim.

Vera levanta o rosto e olha para a filha.

 

Vera: Obrigada. – Rebeca sorri para ela. E as duas ficam mais um tempo juntas.

 

 

20. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA

 

Sara chega ao apartamento, exausta. Ao abrir a porta, dá de cara com Fernando sentado no sofá, lendo um livro. Sara sorri.

Sara: Não acredito, Ferdi. Já ia ligar para tua casa… Você não tem idéia de como o dia foi cansativo.

Fernando: Imagino. Só imaginei que você ia querer tê-los por perto hoje, então, os trouxe pra cá. E eles também queriam te ver.

Sara: Estão muito preocupados?

Fernando: Eu aliviei os fatos, mas eles são espertos. E, claro, queriam ver a avó, mas achei melhor deixar para amanhã. Mas não se preocupa, eu levo eles. E posso levá-los e buscá-los na escola, cuidar do almoço e tudo mais…

Sara: Nem sei como te agradecer.

Fernando: Eles são meus filhos também, não é nada demais.

Sara: É sim muita coisa, Ferdi.– ela, sorri emocionada.

 

Fernando faz um maneio com a mão, indicando que ela não precisava agradecer.

Fernando: Bom, vou indo. Você pode, melhor, deve me ligar se precisar de algo, ok? – Sara concorda com a cabeça – Ah, tem suco de acerola na geladeira e eu preparei também um risoto.

Sara: Pelo visto, não vou precisar de mais nada. – sorri – Obrigada mesmo, Ferdi.

Fernando sorri de volta, vai até ela e ajeita seu cabelo, colando uma mecha para trás da orelha. Sara fica um pouco sem jeito.

Fernando: Não é nada demais, Sara. E você nem sabe se o risoto está bom – os dois riem – Precisando, estou aqui.

 

Em seguida, os dois se despedem, e ele sai.

21. INTERNA – DIA – HOSPITAL – QUARTO DE NORA

Júnior tinha um livro de química aberto a sua frente. Ele havia aberto o livro há três horas e até então não havia trocado uma página sequer. Seus pensamentos variavam entre a mãe deitada inerte, respirando com aparelhos na cama ao lado e a TV ligada no National Geographic que conseguida distrair seus pensamentos momentaneamente. Ele se levantou e foi em direção a uma bancada, onde se encontrava uma garrafa de água e vários copos de plástico. Ele pega um e se serve. Ao beber um gole, vê seu celular e nota cinco ligações não atendidas.

 

Ele se lembra de ter deixado o celular no vibracall quando tomou banho. Júnior confere o ligador incessante, com medo que fosse Carol ou Sara. Assim que ele lê o nome de Pámela, a mesma liga.

 

Pâmela: Júnior! Finalmente! Te liguei mil vezes hoje!

Júnior: Oi Pámela! Desculpa. É que eu deixei meu celular no vibra…

Pâmela: Não precisa pedir desculpa, Ju. O Carlos me disse sobre sua mãe. Espero que fique tudo bem.

Júnior: Obrigado. Vai ficar sim.

Pâmela: As primeiras vezes, eu liguei porque você tinha me dado bolo no almoço, mas depois…

Júnior: Putz, é verdade! O almoço! Desculpa, foi uma correria tão grande que…

Pâmela: Júnior, já falei. Você não tem que me pedir desculpa. Sua mãe está doente. Eu entendo. Aliás, quando o Carlos me avisou. Liguei mais um monte de vezes. – Ela respira do outro lado. – Não quero fazer pressão, nem nada, mas quero que você saiba que você pode me ligar quando quiser, quando precisar…

Júnior: Obrigado, Pâmela.

Pámela: Eu conheço esse obrigado. É que nem o do seu irmão. Não é da boca pra fora, Júnior. É sério. Me liga em absolutamente qualquer situação. O Carlos não consegue se segurar. Mesmo que ele tente, todo mundo consegue ver que ele está com um problema. Você não. Faça o favor de me ligar. – Júnior sorri do outro lado da linha e sua resposta sai com outro tom.

 

Júnior: Ligarei assim que tiver notícias.

Pámela: Agora está melhor. Boa noite, Ju.

Júnior: Boa noite. – Ele faz menção de desligar. – Ei, Pámela. Obrigado por ligar.

Pámela: De nada. – Os dois desligam, sorrindo.

 

Júnior mal desliga e escuta batidas na porta. Ele abre, esperando que fosse uma enfermeira. Vê Rebeca.

 

Rebeca: Oi Júnior. – Ela o cumprimenta com um beijo no rosto. Ela olha para Nora. – Como ela está?

Júnior: Dormindo ainda. Os médicos disseram que a cirurgia correu normalmente, mas como é uma operação de muito risco, tiveram que parar o coração dela. – Rebeca percebe os fios bombeando sangue. Júnior então comenta cabisbaixo. – É, tem um aparelho circulando sangue pelo corpo. Eles não têm como prever quando ela vai acordar.

Rebeca: Tenho certeza que não vai demorar muito. Quando você menos perceber, ela vai estar zanzando pela casa e se intrometendo na vida de todo mundo. – Ela sorri, tentando passar conforto. Júnior sorri de volta.

 

Júnior: Tenho certeza que sim. – Ele senta-se no pequeno sofá que tinha no quarto, guardando seu livro e caderno para abrir espaço para Rebeca, que também se senta.

 

Rebeca: Química Orgânica? Está conseguindo estudar no meio desse caos?

Júnior: Nada! Tô há cinco horas na mesma página! Se isso se prolongar, acho que vou ter que desistir do vestibular. – Ele comenta triste.

Rebeca: De maneira nenhuma! Agora que você sabe o que quer, não pode desistir!

Júnior: E quem mais vai poder ficar aqui tempo integral, Rebeca? Você trabalha, Sara, Carol, Carlos e Tomás também. Tio Saulo, sua mãe… Só eu e a minha vó somos desocupados. E ela não está em condições de ficar num hospital o dia inteiro.

Rebeca: Não vai haver necessidade. Sua mãe vai sair dessa rapidinho. Já disse.

Júnior: Você disse, mas não sabe. Você espera, eu também espero. Mas as coisas nem sempre acontecem como a gente espera. O ideal é esperar o melhor, estando preparado para o pior. – Os dois sentem a profundidade do discurso de Júnior e ficam em silêncio, sem saber exatamente o que dizer. Depois de um tempo sem dizer nada, Júnior muda de assunto. – E então? Vamos comer? Sara me disse que tem uns sanduíches naturais deliciosos na lanchonete do hospital. Vamos lá?

22. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO/ APARTAMENTO DE SARA

Sara tentava dormir, deitada em sua cama sozinha. Encontrar Fernando mexeu com ela de um jeito que ela não esperava. Provavelmente por estar nervosa com a situação com a mãe, a briga com Carol e o desentendimento com Marcelo, o que mais ela queria era conforto, segurança. E quando viu seus filhos com o pai, logo relacionou a sua antiga configuração familiar, à mais recente recaída com Fernando e isso só somou ao seu estado de espírito conturbado.

 

Carol estava deitada em sua cama, abraçada a Roberto. Sua mente indo e voltando entre a mãe no hospital, a oportunidade de trabalho perdida e a briga com Sara, ainda fresca na memória. Por que custava tanto para ela entender seu lado? Nem todo mundo conseguia ser mulher-maravilha como Sara: lidar com a doença da mãe, problemas do trabalho e a fome na África sozinha.

 

Sara se levantou e foi até o banheiro. Jogou água no rosto e se olhou no espelho durante um tempo.

 

Carol virou para o outro lado, se cobriu até a cabeça e ficou um tempo olhando para o escuro.

 

As duas acabaram por pegar no sono.

23. INTERNA – NOITE – BARBOSA & LIMA

 

Diego se aproxima da mesa de Carlos, que estava com a cabeça abaixada. Ele chama por Carlos, que não responde. Ele vai, então, mais para perto de Carlos, passando a mão em suas costas.

 

Diego: Carlos?

 

Carlos levanta um pouco o rosto, piscando os olhos. Ele se dá conta que ainda está no escritório e olha para os lados.

 

Carlos: Já está de noite? – pergunta, surpreso. Ele se levanta e começa a arrumar suas coisas.

 

Diego: Já.

 

Carlos: Que inferno! Por que Mônica e Pâmela não me acordaram?!

 

Diego retira um post-it da mesa que dizia: “Tentamos te acordar. M. P.”. Carlos suspira e volta a arrumar suas coisas. Mas ele parecia perdido. Ele pára por um momento e esfrega as mãos umas nas outras, pensativo.

 

Diego: Carlos, deixa…

 

Carlos: Eu não sei o que fazer… Eu, simplesmente, não sei.

 

Diego: Sua mãe vai ficar bem.

 

Carlos: Você não sabe disso. Você é médico. Não sabe disso.

 

Diego: Tem razão, desculpa. Eu só estava tentando ajudar.

 

Carlos: E eu estava descontando em você… – Carlos se senta. Diego também senta-se ao seu lado. – É que ela é o centro de tudo, sabe? Se alguma coisa acontecer, eu… eu… E aqueles médicos nunca sabem de nada! Eles pararam o coração dela. É pra fazer isso, né?

 

Diego: Eu não sei. Eu… não li o caso da sua mãe.

 

Carlos: Por quê?!

 

Diego: Eu achei melhor não me envolver, como médico.

 

Carlos: Como assim? – diz, rispidamente.

 

Diego: Eu prefiro estar aqui, te apoiando, como seu namorado.

 

Carlos fica desconcertado. Ele quase começou uma discussão sem motivos e percebe que não estava raciocinando direito.

 

Carlos: Obrigado.

 

Os dois se beijam, levemente no início e mais intensamente depois. Após o beijo, Carlos mantém Diego próximo a si, segurando-o pelo pescoço, testa a testa.

 

 

24. INTERNA – NOITE – HOSPITAL – QUARTO DE NORA

 

Diego aparece no corredor do hospital, olhando para os lados. Depois, ele retrocede um pouco em seu caminho e faz sinal para alguém o acompanhar. Carlos aparece andando rápido, seguido por Diego, que aponta para uma porta. Ele a abre e Carlos entra. Ele entra logo depois.

 

Carlos: Júnior não está aqui?! – diz, um pouco alto demais.

 

Diego: Psiu! Fala baixo! – sussurra.

 

Carlos: Meu irmão! Ele deveria estar aqui e não está! Onde ele se meteu? – sussurra também.

 

Diego: Ele pode estar lanchando, esticando as pernas, ou…

 

Diego pára de falar e percebe que Carlos encarava a mãe, atônito.

 

Carlos: Parece que ela está só dormindo.

 

Diego: Ela está só dormindo.

 

Carlos continuou olhando a mãe.

 

Carlos: E agora? O que eu faço?

 

Diego: Hã?

 

Carlos: Por que eu vim aqui?

 

Diego: Você não queria ver sua mãe?

 

Carlos: Vir aqui foi um erro.

 

Diego: Fala com ela.

 

Carlos: Eu não vou falar com ela! Isso tudo é muito esquisito.

 

Diego pega uma cadeira e a coloca do lado do leito de Nora.

 

Diego: Senta. Eu volto em cinco minutos. Depois nós vamos embora.

 

Diego sai e Carlos se senta. Ele pensa por um momento.

 

Carlos: Oi, mãe – e sacode a cabeça. – Nossa, como isso é estúpido.

 

Ele pensa por mais um momento e, devagar, coloca sua mão no braço de sua mãe. E espera durante um tempo, sem dizer nada.

 

Diego abre a porta.

 

Diego: E então?

 

Carlos levanta-se, sobressaltado.

 

Carlos: Vamos, vamos.

 

Diego sai. Ele coloca a cadeira no lugar e dirige-se a porta. Olha mais uma vez para a mãe e sai.

25. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

Nora chega à sala e encontra Guilherme, sentado em uma poltrona, com as pernas cruzadas, lendo um livro. Ela se senta no sofá, ao seu lado.

 

Nora: Vamos conversar?

Guilherme: Claro. O que foi? – Ele diz abaixando o livro e o guardando na mesa de centro.

 

Nora: Por que você me traiu, Guilherme? – Ela pergunta olhando seriamente para ele, que a encara de volta com a mesma intensidade.

 

Guilherme: Eu não te traí porque eu quis te trair. Eu te traí porque eu também quis ficar com a Vera. Quis tudo ao mesmo tempo. Eu te traí porque eu sou egoísta.

Nora e Guilherme continuam se encarando em silêncio por alguns minutos. Ela faz que sim com a cabeça, como se entendesse a resposta.

 

Guilherme: Não precisa fingir que entende, Nora. Você sempre foi muito solidária, altruísta. Eu não espero que você entenda o egoísmo. Eu sinto muito ter te magoado do jeito que magoei, mas não vou fingir nada. Então, não precisa fingir que me entende. Você só está querendo ser complacente. – Nora dá um sorriso leve e balança a cabeça para os lados.

Nora: Eu não disse que te entendia. Pelo contrário, eu estou começando a me entender. – Ela faz uma pausa, em que ri consigo mesma. – Pelo jeito, todos podem se dar ao luxo de serem egoístas de vez em quando.

Nora se levanta e vai para dentro da casa, deixando Guilherme sozinho.

 

 

26. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE TOMÁS

Tomás, Vitória e Caio assistiam à TV em silêncio. O casal havia pegado Caio e suas coisas na casa de Isabel naquela manhã e Caio ainda estava muito silencioso.

 

Vitória: Caio, tem certeza que você não está com fome? Eu te preparo um Nescau e um sanduíche agora mesmo, que tal? – Ela pergunta com um sorriso simpático.

 

Caio: Não, tia Vitória, muito obrigado. Já tomei café-da-manhã na casa da tia Isabel.

Vitória: Tá legal esse desenho? – Ele continua a perguntar, impaciente.

 

Caio: Uhum. – Ele diz, atento à TV.

 

Tomás: Vitória, pega leve. – Ele sussurra para a esposa.

 

Vitória: Eu só quero que ele se sinta confortável, em casa.

Tomás: Eu sei, amor. Nós já arrumamos tudo para ele, oferecemos tudo o que temos, agora o melhor que podemos fazer para que ele se sinta bem é deixá-lo um pouco sozinho. Não é fácil perder um pai, deve ser ainda pior nessa idade dele. – Vitória faz que sim com a cabeça. – Escuta, Vi, queria perguntar uma coisa.

Vitória: O que foi?

Tomás: Júnior pediu para que eu o cobrisse um pouco hoje lá no hospital. Pensei que talvez fosse bom você e Caio virem junto. Sabe, para ele já se familiarizar com a minha mãe e Júnior e caso algum dos meus irmãos apareça por lá também.

Vitória: Por esse lado, é uma ótima idéia. Mas não sei se é bom que ele volte a esse ambiente hospitalar. Traz lembranças muito ruins. – Ela parece refletir por um momento. – Vamos sim. Caso ele pareça chateado, eu e ele pegamos um taxi e vamos embora, ok?

Tomás: Por mim, tudo certo. – Ele se inclina e dá um beijo na esposa, depois fala alto. – Sabe do que que eu estou com vontade? Rocambole de doce de leite! Alguém mais?

Vitória: Eu! Eu! – Ela responde, percebendo a intenção de Tomás. – Você não quer, Caio?

Caio: Não, muito obrigado. – Ele responde tímido, incerto.

 

Vitória: Melhor, sobra mais pra gente! Aquele rocambole cheio de recheio, delicioso. Com aquele açucarzinho em cima. Hmmm. – Ela faz vontade.

 

Tomás: Estou indo na padaria. Última chamada! – Silêncio. – Caio?

Caio: Não gosto muito de rocambole. Brigado, Tomás. Mas eu estou com sede. Posso pegar um copo de água?

 

Tomás: Água? Você não quer uma fanta uva, hein? Mais gostoso.

Caio: Pode ser. – Ele sorri simpático, mas sem vontade.

 

Tomás: Então esperem só um instantinho que eu já volto! – Ele diz fechando a porta e olhando em dúvida para Vitória, que responde com um olhar triste.

 

27. EXTERNA – DIA – HOSPITAL – ESTACIONAMENTO

Diego caminha pelo estacionamento do hospital em que trabalha, ainda de jaleco, para pegar seu carro e ir almoçar em algum lugar ali perto. Ele aperta o botão no seu chaveiro que destranca a porta de seu carro automaticamente, mas quando faz menção de abrir a porta, ele escuta uma buzina e se virá para olhar. A duas vagas de distância do seu carro, vê Carlos acenando para ele da janela. Diego se aproxima.

 

Carlos: Boa tarde. – Ele esboça um sorriso.

 

Diego: O que você está fazendo aqui? – Ele pergunta sem parecer bravo, só curioso.

 

Carlos: Queria conversar. – Ele sorri. – Entra no carro?

Diego assente e entra no banco do motorista. Os dois trocam um beijo rápido e Diego fita Carlos esperando o assunto da conversa.

 

Carlos: Eu queria te contar uma coisa que eu fiz. Mas é uma bobagem. – Ele ri forçadamente. – Não sei nem porque fiz na verdade. Você poderia pensar: Ah, por que ele está me contando? Nem sei bem, mas acho que sinto que é importante que você saiba…

Diego: Carlos, você está muito nervoso. – Ele ri, complacente. – Relaxa. Pode me contar. O que foi que você fez de tão horrível?

Carlos: No fim de semana, eu não viajei por trabalho.

Diego: Mas você me disse que tinha um compromisso. – Carlos fica em silêncio. – O que foi, então? Você tem outro? – Ele pergunta sem se levar muito a sério, mas com medo da resposta.

 

Carlos: O quê? Não! – Ele diz veementemente. – Eu fui para Resende com a minha família. Foi o noivado de Carol na chácara da família de Roberto.

Diego: E por que você não me contou?

Carlos: Eu falei que era besta. – Ele dá um sorriso amarelo. – Não é nenhum motivo de preocupação.

Diego: De fato é besta! O que você achou que eu ia fazer? Me autoconvidar? Ficar chateado porque você não me queria lá? Pelo amor de Deus, Carlos.

Carlos: Desculpa ter mentido para você, não deveria ter feito isso. – Ele disse cabisbaixo, distraindo-se com as próprias mãos.

 

Diego: Sim, a próxima vez faça o favor de me contar. Mas não tem tanta importância assim. – Diego estava um pouco decepcionado, mas optou por não prolongar o assunto. – Que tal nós aproveitarmos que você está aqui e irmos almoçar juntos? Alguma sugestão?

 

 

28. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE ROBERTO – BANHEIRO

Carol tinha molhado o rosto na pia do banheiro e agora tirava o cabelo do rosto para poder secá-lo. Roberto surge à porta.

 

Roberto: Está tudo bem? Quer conversar?

Carol: Não quero. – Ela pega a toalha no portatoalha preso a parede e enxuga seu rosto. Pega um elástico em uma das gavetas e começa a fazer um rabo-de-cavalo. – Eu vou sair. Júnior me ligou para que eu fosse com ele à casa da mamãe pegar algumas coisas que minha vó precisa lá na casa do tio Saulo.

Roberto: Sara vai estar lá?

Carol: Ele disse que ela estaria trabalhando.

Roberto: Melhor assim, não?

Carol: Por enquanto, sim. Nós duas dissemos umas verdades que eu acho que nenhuma das duas estava pronta para escutar.

Roberto: Sem dúvida. Você e sua irmã são mulheres muito fortes. A força das duas, de vez em quando, pode bater de frente.

Carol: E isso causar um choque imenso.

Roberto: Pois é.

Carol: Eu vou indo, então. – Roberto a para, segurando em sua mão.

Roberto: É complicado tudo isso acontecendo simultaneamente. Qualquer coisa, me liga. – Eles se beijam e ela sai.

29. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES

Júnior e Carol chegaram juntos à casa de Nora.

 

Carol: Vamos fazer isso rápido, ok? A gente sobe, pega as coisas da vó Diva e vai lá para a casa do tio Saulo.

Júnior: Parece que você está com medo, Carol.

Carol: Ah, você também, não! – Ela reclama, adiantando-se.

 

Júnior: Não é isso. Eu estava pensando, nós dois fomos os filhos que mais moramos aqui, você já pensou nisso? Bom, eu mais, é verdade. Mas nós dois fomos os únicos que moramos aqui depois de adultos. Isso significa muito. – Carol olha para ele, interessada.

Carol: É verdade. Nunca parei para ver por esse ângulo. – Os dois ficam em silêncio, enquanto subiam as escadas. – É engraçado como isso aqui fica vazio sem ela, não é?

Júnior: Completamente. A nossa família é muito unida, todos são como cola, mas no fim das contas, essa casa consegue agüentar a minha ausência, a sua, da vó Diva, ou de qualquer um, até do papai. Mas não dela.

Carol: Você entende agora o porquê do meu medo? – Ela pergunta com os olhos cheios de água e a voz afetada pelo choro que ela controlava. Júnior passa o braço pelos ombros e os dois sobem juntos as escadas.

 

 

30. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SAULO

Saulo abre a porta de seu apartamento carregando sacolas de supermercado. Ele segue para a cozinha, falando alto para a mãe poder ouvi-lo.

 

Saulo: Mãe! Comprei as coisas para o almoço e pensei em irmos ver a Nora logo em seguida. A senhora já está arrumada?

Como não escuta resposta, Saulo deixa as compras na mesa da cozinha e vai ao quarto que a mãe ocupava, uma vez que Nora estava doente. Ele bate na porta e não recebe resposta.

 

Saulo: Mãe, já está na hora da senhora acordar, vamos… – Ele abre a porta e não vê ninguém no quarto. Começa a se preocupar.

 

Saulo procura em seu quarto, no banheiro e na sala e não encontra a mãe, ou qualquer bilhete. Quando já estava quase saindo para perguntar ao porteiro se ele havia a visto sair, ele resolve ir procurar na área de serviço.

 

Saulo: Mãe! – Diva estava desmaiada no chão frio da área de serviço com um cesto de roupas ao lado.

 

 

31. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES

Nora estava deitada em seu quarto, tirando um cochilo. Ela ouve batidas na porta. Quando se vira, vê Guilherme, Paulo e seu pai entrando no quarto e se posicionando ao lado da cama.

 

Nora: O que aconteceu? – Ela pergunta preocupada.

 

Carlos: Nós temos que ir, minha filha querida. – Ele senta-se na cama e beija a testa de Nora.

 

Paulo: Fique bem, minha irmã. – Ele repete o gesto do pai.

 

Nora: Mas… Vocês estão indo para onde? E eu? Como que eu sei para onde tenho que ir? Vocês não me deixar aqui sozinha. – Ela fica em pé, encarando os três. Paulo e Carlos já à porta.

 

Guilherme: Agora é por sua conta, Nora. – Ele diz em tom de despedida e sai com os outros dois.

 

Nora: Não! Não! Voltem aqui! – Ela corre até a porta e olha para os lados, mas não vê ninguém.

 

Nora corre até a sala, depois à cozinha. Ela vasculha todos os ambientes da casa. O desespero crescendo em si. Ela tenta abrir a porta da rua, mas ela está trancada. Todas as janelas fechadas. Nora pega uma das cadeiras da mesa de jantar e joga na janela, sem surtir nenhum resultado.

 

Nora: Guilherme! Volta aqui! – Ela vai até a cozinha e, pelo caminho, derruba tudo que estava em cima das mesas. Na cozinha, ela joga pratos e copos no chão. – Não vai fazer nada? Estou destruindo sua casa! – Ela começa a chorar incessantemente. Segura uma das bordas da mesa de madeira e a vira no chão. Então, dá um berro agudo e altíssimo. – Aparece Guilherme!

Nora se senta no chão e começa a chorar, soluçando. Não sabia para onde ir, o que fazer, se não esperar naquela casa para sempre. Ela permanece sentada no chão, com o olhar fixo em um ponto qualquer da parede e chorando até as lágrimas secarem durante algumas horas. Ela, então ouve a campainha.

 

Nora se levanta rapidamente e corre até a porta de entrada, ansiosa por encontrar Guilherme, seu pai ou mesmo Paulo do outro lado. Mas o que ela vê é totalmente inesperado.

 

Nora: Mãe? – Nora parecia tão confusa quanto Diva, olhando perdida, sem saber onde estava.

 

 

32. INTERNA – DIA – HOSPITAL – QUARTO DE NORA

Nora abre os olhos devagar, sua cabeça doía. Sua audição se adequava lentamente. Ela ouve barulho de conversa ao fundo. Ela vira a cabeça para procurar a origem do som e encontra Tomás e Vitória conversando de costas para ela. Um menino de uns oito anos, então, cruza seu caminho.

 

Nora: Oi, quem é você? – Ela pergunta confusa. Ainda assimilando o que estava acontecendo.

 

Caio: Eu sou o Caio. – Ele responde com a feição assustada.

 

Nora: Muito prazer, Caio. Eu sou a Nora. – Ela sorri com esforço, com a voz baixa.

 

Há uma batida na porta e uma enfermeira entra.

 

Enfermeira: Com licença, o senhor é Tomás Andrade? – Tomás faz que sim com a cabeça. – Venha comigo, por favor. Sua avó foi internada.

Continua…

2 Respostas to “Ela Disse Adeus”

  1. Gustavo Says:

    Salve galera.

    Até que enfim o nosso querido seriado voltou, pena que seja para a última temporada.

    Enfim, é melhor sair por cima do que deixar a peteca cair…

    Será que vc´s não podia ter maneirado com a doença da Nora???

    Eu sei que a situação é delicada, mas será que o povo não poderia ter sido um pouco mais educado com a Vera??? Poxa, eu senti que eles a maltratam. Tá, tudo bem que ela foi amante do pai, só que ela salvou a mãe deles né… Só na hora dela ir embora é que agradeceram e um tanto quanto forçado, pelo menos foi o que senti.

    O que deu na Sara?? Ela tá completamente descontrolada… Cruzes… Será que ela não pode respeitar o modo de como cada um lida com as situações? Ainda mais quando essa situação envolve um ente querido??

    Gostei da reação de D. Diva ao espantar a Sara de perto de Nora. Uma atitude interessante para uma pessoa católica. Senti um toque da doutrina espírita ali.

    Achei muito interessante a narrativa paralela, principalmente a conversa entre Guilherme e Nora. Certas coisas ali ditas servem para uma boa reflexão.

    Será que Nora vai desistir mesmo de lutar?? Sei não, mas isso não combina com ela, ou será que ela vai seguir as palavras de Guilherme e ser egoísta e pensar apenas e somente nela?? Vamos aguardar…

    Vamos aos demais agora.

    Vitória e Tomás: era mais que previsível que Caio ficasse com eles, mas será que darão conta?

    Carlos e Diego: vc´s sabem muito bem que eu nunca torci pelos dois. Mas dessa vez eu vi um pouco mais de atitude por parte do Diego, ou seja, parece que ele realmente gosta do Carlos e que está disposto a encarar um relacionamento sério. Porém, será que o Carlos está?

    Só mais uma coisa, vc´s estão querendo acabar com a família inteira??? Precisavam ter internado D. Diva tb???? Afffff…….

    Bem, agora so resta esperar pelo próximo episódio.

    Inté!!!!

    P.S.: Adorei os minieps, principalmente o do Alvinho. Já trabalhei com uma criatura muito parecida com ele e só digo uma coisa, é dose ter que aguentar uma pessoa assim.

  2. Natie Says:

    Oi gente! =D

    Demorou, mas a 3ª temp chegou neh? rs… Que bom! Então, último 1º episódio neh? Que triste… :/ Mas vamos lá…

    Adorei o trabalho que vcs fizeram! Sério mesmo… Qdo li que algumas cenas não seriam por aqui fiquei com um pouco de medo do que poderia acontecer, mas foi arquitetaram tudo muito bem… Os encontros de Nora, Guilherme e a família dela foram geniais e finalmente ela pode questionar o marido da traição neh?

    Não é fácil ver que a Nora está no hospital! Ela é uma das personagens centrais e senti falta dela, vamos dizer, no nosso mundo… rs… E esse caso mostrou que talvez vcs possam estar assistindo muita série médica… hehe…

    Acho que foi o Carlos que falou que cada um reage de uma maneira e eu concordo plenamente… Gostei de ver as formas diferentes como cada um reagiu… A da Carol me surpreendeu um pouco…

    Ah que fofa foi aquela cena da Sara e do Fernando! =D Alias, qdo eles voltam, hien? Vou ficar cobrando isso! hehe…

    Senti um certo avanço no relacionamento do Diego e do Carlos… (estou certa ou errada?) Acho que agora vai…

    Gente e o que foi o Tomás levando o menino pro hospital pra conhecer a avó? Desculpem, mas achei essa cena um pouco estranha… Primeiro pq assim como a Vitória falou, ele acabou de passar por uma experiência que trouxe, claro, lembranças ruins pra ele e segundo pq acho que ninguém deve conhecer a avó pela 1ª vez cheia de tubos levando sangue pro corpo todo!

    Ah, espero realmente que a Vera se reconcilie com o Saulo… Ter socorrido a Nora deu um toque mais humano a ela… rs…

    E qdo cheguei ao final que acho que realmente entendi o título… E se for o que estou pensando, ficarei triste, mas por outro lado aliviada por não ser a Nora a pessoa que disse adeus…

    Até o próximo epi, pessoal!
    Bjss…

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