Nos episódios anteriores: Roberto é escolhido para ser candidato ao governo do Rio de Janeiro nas próximas eleições. Sara e Carol se desentendem e discutem a respeito do casamento e da doença da mãe. Sara e Marcelo terminam. Sara e Fernando estão cada vez mais próximos e atraídos um pelo outro novamente. Eduardo e Rafaela são hostis com Caio, enquanto isso, Tomás e Vitória tentam incluir o menino na família. Júnior decide prestar vestibular. Vera e Saulo continuam brigados. Carlos não é bem aceito pelos filhos de Diego.

 

01. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO – QUARTO

 

Carol esperava acordada a volta do noivo de sua despedida de solteiro. Quando ouve a porta do apartamento se abrir, ela se mexe inquieta na cama. Logo Roberto entra no quarto, pula na cama, abraça Carol e lhe tasca um beijo.

 

Carol: Urg, uísque… Teacher’s? – diz, esquivando-se.

 

Roberto: Não, o bom e velho Johnie Walker.

 

Carol: Então a noite foi boa? – pergunta desaminada.

 

Roberto: Seus irmãos – Roberto dá uma gargalhada – Carlos fez uma cena dando um fora numa garota. Júnior se interessou por uma menina e ela estava com uma amiga, daí… – Ele interrompe ao perceber que Carol estava quase chorando – Que foi, Carol?

Carol: Sara… – responde sem muitas forças.

Roberto: O que aconteceu? Vocês brigaram de novo?

Carol fica um tempo em silêncio. Roberto a encoraja, alisando seu ombro.

Carol: Foi. E acabei falando umas besteiras, praticamente falei que não fazia questão que ela fosse ao nosso casamento.

Roberto: Carol…

Carol: Eu sei. Mas ela também…

Roberto: Liga para ela, pede desculpa.

Carol: Mas, Roberto, ela não entende que… – Roberto a cala com um beijo demorado.

Roberto: Falta poucos dias para o casamento. Você não vai querer estar brigada com ela, não é? Ela é sua irmã, além de madrinha.

E antes que Carol pudesse protestar, ele a enlaça com os braços, posicionando-se por cima dela e começa a beijá-la com determinação.

 

 

02. INTERNA – DIA – E.E. PROFESSOR JOAQUIM RIBEIRO – SALA

[♫ Seven Nation Army – The White Stripes]

 

Júnior olha mais uma vez para o relógio no pulso esquerdo. Quase quinze minutos de atraso para o início da prova. Esfrega as mãos uma na outra para amenizar a ansiedade para o início da prova.

 

Examinador 1: Boa tarde. Vou distribuir o caderno de provas, mas não o desvirem até minha ordem. Leiam as regras na primeira folha. Confiram o número de questões do caderno com a folha de resposta que já receberam.

 

Depois de alguns minutos o outro examinador deu a permissão para as provas serem viradas e os estudantes iniciarem suas provas. Júnior seguiu todas as instruções antes de começar.

 

03. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS – QUARTO

 

Carlos se espreguiçava na cama enquanto seu celular tocava. Ele estende o braço para pegá-lo, no criado-mudo, e atende. Era Diego.

Carlos: Bom dia, bom dia! […] Não, não me acordou não. Estava só enrolando na cama. Pena que você não estava aqui… […] Um favor? Claro! […] Hã… tá. […] Tchau.

 

Carlos fecha o telefone, atônito.

 

04. INTERNA – DIA – E.E. PROFESSOR JOAQUIM RIBEIRO – SALA

[♫ Seven Nation Army – The White Stripes]

 

Júnior estava chegando à metade da prova quando escutou um barulho leve de batida e levantou a cabeça para olhar ao seu redor. Uma garota batia o lápis contra a mesa fazendo um movimento rápido e repetitivo. Abaixou novamente a cabeça para ler o enunciado da questão quando outro vestibulando esbarrou em seu braço enquanto passava para entregar a prova.

 

Estudante: Foi mal, cara. – o garoto se lamentou.

 

Júnior respirou fundo e mais uma vez voltou sua atenção para a prova a sua frente.

 

 

05. EXTERNA – DIA – ESCOLA – ENTRADA

 

Carlos estaciona e destranca as portas traseiras do carro. Os filhos de Diego, Fábio e Micaela, já caminhavam emburrados para o carro.

Carlos: Olá – diz, fingindo animação – Como foi a feira de ciência? Ainda a chamam assim? – os irmãos se entreolham – Num domingo é meio cruel, hein?

 

Fábio e Micaela não respondem, Carlos não se abala, e faz sinal para eles entrarem no carro.

Fábio: Nós não vamos pra casa, vamos?

Carlos: Não. Seu pai não teve como deixar…

Fábio: Ótimo! – diz, cheio de sarcasmo.

Micaela: Pra onde vamos então?! Não pra “sua” casa, né?

 

Carlos respira fundo e segue dirigindo.

Carlos: Que tal irmos almoçar primeiro? Depois a gente…

Micaela: Não, obrigada. Perdi. O. Apetite – diz, com cara de nojo.

 

Fábio começa a rir. Carlos dá uma freada brusca e vira-se para os filhos de Diego.

Carlos: Vocês não me conhecem bem o suficiente, então vamos lá. Saibam que eu não tenho medo algum de descer ao nível de pirralhos como vocês. Jogo de igual pra igual. Sempre.

Fábio: E a gente conta tudo pro nosso pai depois.

Carlos: Tenho mais medo de barata do que de você.

Fábio: Então você deve ter muito medo de barata – e ri.

Carlos: Com medo ou não, a gente esmaga a barata. E ela fica ali, esmagada.

 

Fábio tenta responder, mas não consegue pensar em nada.

Carlos: Agora, podemos ir? – Os irmãos não respondem. – Que tal uma musiquinha?

 

Carlos liga o rádio e começa a tocar “Love will tear us apart”, do Joy Division.

Micaela: Odeio essa música.

Carlos: Sério?

 

Carlos não muda a estação.

 

 

06. INTERNA – DIA – E.E. PROFESSOR JOAQUIM RIBEIRO – PORTÃO

Júnior saía da escola com o caderno de provas na mão. Assim que chegou à rua e foi ligar o celular, sentiu duas mãos o segurando pelo braço olhou para o lado e deparou-se com Pâmela sorrindo para ele.

 

Júnior: O que está fazendo aqui? – perguntou surpreso.

 

Pâmela: Só vim dar um apoio moral. Ainda me lembro como é horrível prestar vestibular.

 

Júnior: Horrível? É um inferno. Mesas muito pequenas e apertadas, gente batendo o lápis na mesa, outros desajeitados esbarrando no seu braço, sala muito quente…

 

Pâmela: Depois que seu cunhado for eleito, você deveria pedir uma reunião com o secretário de educação dele e repassar essas reclamações.

 

Júnior sorriu com vontade e pegou Pâmela pela mão.

 

Júnior: Vamos embora daqui logo. A maratona de provas só tá começando e eu quero descansar o resto do dia.

 

 

07. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE CARLOS – SALA

 

Carlos entra em seu apartamento e deixa a porta aberta. Por ela entram, displicentes, Fábio e Micaela.

Carlos: Sintam-se à vontade. Podem assistir televisão, se quiserem.

Fábio: Só deve ter canal gay. Ver TV pra quê?

Carlos: Pior que nem tem. Mas se quiser assistir…

 

Fábio olha com raiva para Carlos, que não estava olhando. Fábio se joga no sofá. Micaela andava pela sala, perto da estante, vendo a coleção de DVDs de Carlos. Carlos estava sentado à mesa, observando os dois.

Micaela: Eu amo esse filme! – e retira-o da prateleira.

 

Carlos olha imediatamente para ela e ela fica sem saber o que fazer com o DVD em mãos.

Carlos: Pode assistir.

Micaela: Desculpa, eu devia ter pedido…

Carlos: Tudo bem.

 

Fábio revira os olhos.

Fábio: Onde é o banheiro? Preciso vomitar.

Carlos: Última porta.

 

Fábio se levanta e vai ao banheiro. Micaela começa a ver o filme.

Carlos: Quer pipoca e refrigerante pra acompanhar.

Micaela: Não. Tô bem. Brigada – diz, sem graça.

08. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

 

Vera, que visitava Nora, encontrava-se no sofá com ela e Diva. As três bebericavam seus respectivos chás, enquanto viam televisão. Diva fazia força para “gostar” da convidada.

 

Diva: Eu não tenho paciência pra este programa! – diz, pousando a xícara violentamente na mesa.

Nora: É só mudar de canal, mamãe – e olha para Vera com cara de enfado.

 

Diva pega o controle remoto e começa a mudar de canal.

 

Nora: Não sei se sabe, mamãe, mas Vera aqui já trabalhou na televisão!

 

Vera sorri, animada.

 

Diva: Não me diga!

 

Vera: Verdade… Fiquei no ramo por uns cinco anos. Não agüentei.

 

Diva: Fez bem em ter desistido. Não que você seja uma desistidora…

 

Nora franze o rosto em dúvida.

 

Diva: …mas televisão não é lugar para moças direitas. Devem ser todas umas prostitutas! Não que você seja uma por ter trabalhado…

 

Nora revira os olhos e começa a fazer sinais para Vera de que Diva não falava coisa com coisa.

 

Vera: Eu compreendo perfeitamente, dona Diva – e aponta para a televisão. Diva ainda buscava um canal. – Veja só, era exatamente isso o que eu fazia! – Passava o Domingão do Faustão e a câmera mirava as dançarinas. – Claro, esse é o equivalente contemporâneo. Eu sinceramente não consigo entender como em pleno século XXI ainda temos paquitas na TV.

 

Diva: Céus! Eu nunca tinha parado pra pensar nisso! Você está coberta de razão.

 

Vera: E todos vivem criticando a Xuxa, coitada. Mas ela foi a única que conseguiu efetivamente se desencilhar dessas idéias ultrapassadas.

 

Diva: E não é que você tem razão! – diz, impressionada.

 

Vera: Claro que eu me refiro aos programas infantis dela. Aquele programa de sábado é…

 

Vera e Diva: …uma atrocidade!

 

Nora olhava estupefata a cena que acontecia, quando a campainha tocou.

 

Nora: Eu atendo!

 

 

09. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – ENTRADA

 

Nora corre até a porta e a abre.

 

Nora: Ai, minha santa mãe!

 

Era Saulo.

 

Saulo: Uau, que recepção! Vejo que já está nos seus 100%.

 

Nora: Shhh! – diz, afobada. – Vera está aqui!

 

Saulo hesita. Nora começa a empurrá-lo para fora.

 

Diva: Quem é, Nora? – grita.

 

Nora: Hã… Vizinho! Alguém quer saber onde seu Hugo mora. Vou levá-lo. É aqui pertinho – e fecha a porta.

 

Diva: Não demore! – grita.

 

Nora: Mas que papelão, hein, seu Saulo – diz, batendo no braço dele.

 

Saulo: Nem vem! Você tomou a decisão de não me deixar entrar sozinha.

 

Nora pensa um pouco.

 

Nora: Nem tinha percebido. É verdade. Mas você deveria ter insistido.

 

Os dois começam a caminhar.

 

Saulo: O que Vera está fazendo aqui?

 

Nora: Não vou responder.

 

Saulo: Que bicho te mordeu hoje?!

 

Nora: Você deveria ter insistido!

 

Saulo: Tá! Vamos voltar, então!

 

Nora: Voltar? Tem certeza?

 

Saulo pára de andar.

 

Nora: Tudo bem, tudo bem… Anda, vamos.

 

E os dois continuam a andar.

 

Nora: Ela e mamãe estão se dando bem, surpreendetemente.

 

Saulo: Vera é uma pessoa facilmente gostável.

 

Nora: Sei disso, nunca disse o contrário.

 

Saulo a encara.

 

Nora: Tá. Talvez eu tenha dito.

 

Saulo: Talvez?!

 

Nora: Mas o que importa – diz, mais alto que Saulo – é que isso são águas passadas. Ela me ajudou, pelo amor de deus!

 

Saulo: Como está se sentindo?

 

Nora: Cansada de ouvir todos me perguntando isso!

 

Saulo: Ah, é daí que vem o mau humor todo.

 

Nora: Que mau humor?

 

Saulo: Já parou pra pensar que você “talvez” faça a mesma coisa com seus filhos?

 

Nora: Pior que já… Nunca parei pra pensar no quão… rrrrr!

 

Saulo: Okay, okay, mudemos de assunto…

 

Os dois caminhavam perto de uma cerca viva. De repente, Nora empurra Saulo, que cai atrás da cerca.

 

Saulo: Está maluca! Sou velho! Poderia ter quebrado meu cóccix! – diz, se levantando.

 

Nora: Não se mova!

 

Vera: Já estou indo, Nora!

 

Diva levava Vera até o carro.

 

Nora: Tudo bem! Estou levando uma pessoa aqui no vizinho. Ele já entrou – diz, olhando em volta.

 

Mas Vera já havia entrado no carro. Nora acena. Vera parte.

 

Diva: Entre logo, Nora. Está frio! Esse estranho que ache o vizinho sozinho. Ou que peça ajudar de outro vizinho.

 

Nora suspira aliviada.

 

Saulo: Qual é o seu problema?

 

10. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE CARLOS – SALA

 

Fábio e Micaela comiam pizza e bebiam refrigerante, vendo outro dos filmes de Carlos juntos. Carlos revisava uns processos e trabalhava em seu notebook quando seu celular tocou.

 

Fábio: É papai?

 

Carlos: É, sim. Querem falar com ele?

 

Os irmãos vão até Carlos. Carlos atende e coloca no viva-voz.

 

Carlos: Viva-voz! – previne Diego.

 

Diego: Oi, Carlos! Oi, crianças!

 

Fábio: Quando você vem buscar a gente?

 

Ingrid: Neste exato momento, crianças.

 

Carlos: Ingrid?

 

Ingrid: Desculpem a demora. Tudo bem, Carlos?

 

Carlos: Tudo.

 

Diego: E vocês se comportaram? Fábio? Micaela?

 

Fábio: Eu vou nessa esperar vocês no saguão.

 

Fábio sai e bate a porta.

 

Diego: Que foi isso?

 

Micaela: Fábio saiu e bateu a porta.

 

Diego: O quê?!

 

Carlos: Tudo bem…

 

Diego: Tudo bem uma ova! – grita.

 

Carlos: Está tudo bem, sim. Ele foi obrigado a passar um dia inteiro com uma pessoa que ele não gosta. Sério, está tudo bem.

 

Micaela olha de relance para Carlos e depois volta a olhar para o telefone na mesa.

 

Ingrid: Nós já estamos chegando. Tchau, Micaela. Tchau, Carlos – e eles não desligam a tempo e Carlos e Micaela ainda escutam – Deixa que eu falo com ele… – e o tom de chamada preenche a sala.

 

Micaela olha para a televisão.

 

Carlos: Se quiser levar o filme…

 

Micaela: Hã?

 

Carlos: O filme. Você não vai conseguir terminar de ver. Se quiser levar…

 

Micaela pensa um pouco antes de responder.

 

Micaela: Não, não precisa. Valeu.

 

Carlos: Okay.

 

Micaela vai até o DVD e começa a guardar as coisas. Carlos a olha. Seu olhar permanece.

11. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO TOMÁS – SALA

 

Tomás ouviu a campainha e foi atender a porta. Com a escola em férias e ele e Vitória trabalhando, Eliane se ofereceu para cuidar de Caio e os dois aceitaram achando que quantos mais laços familiares criassem com suas famílias melhor seria.

 

Tomás: Dona Eliane, bom dia.

 

Eliane: Bom dia Tomás. – Ela cumprimentou o genro e entrou no apartamento. – E minha filha?

 

Tomás: Ela precisou sair mais cedo, mas como ela foi transferida para a agência aqui perto, ela vem almoçar em casa.

 

Eliane: Que ótimo! E meu neto?

Tomás: No quarto brincando. Vamos até lá que vou me despedir dele e sair para o trabalho.

 

Os dois seguem para o quarto e na mesinha no canto do quarto ele brincava com os legos, construindo alguma nova coisa.

 

Tomás: Ei Caio, a vó Eliane chegou, venha cumprimentá-la.

 

O menino se levantou sorridente e abraçou a senhora.

 

Caio: Eliane venha ver o que estou montando. – disse puxando a mão da senhora.

 

Tomás: Bom, eu vou indo. – fala e dá um beijo na testa do menino – Os números de telefone meu e da Vitória estão presos na porta da geladeira.

 

Eliana: Pode ir tranqüilo que eu e Caio ficaremos bem.

 

Tomás deu uma última olhada para os dois e foi embora. Caio parecia se dar melhor com a mãe de Vitória do que com sua mãe, mas sabendo como sua família era, talvez Caio precisasse de um pouco mais de tempo para se acostumar.

 

12. INTERNA – DIA – COMITÊ ROBERTO PELEGRINI

As pessoas andavam apressadas, geralmente com um telefone no ouvido e papéis na mão. O restante se mantinha concentrados atrás de um computador ou discutindo com alguém. Os ânimos não estavam alterados à toa no Comitê Roberto Pelegrini: Uma nova cara para o Rio. O dia 06 de julho estava chegando, ou seja, o dia do início da campanha eleitoral.

Lílian também estava por lá, fazendo gravações para o seu documentário. Roberto passa por lá e a cumprimenta, em seguida se aproxima de um grupo.

Roberto: Rubens, você pode me mandar depois o relatório financeiro para eu dar uma olhada? – Roberto se dirigiu ao mais jovem do grupo, mas quem se adianta é Jeferson Fonseca, o Diretor Financeiro do partido.

Jeferson: As contas estão comigo. Tudo acertado, só preciso revisar algumas contribuições e rever os fluxos de repasse. A campanha da TV vai sair mais cara que imaginávamos… E você tem que discutir com o Ernesto como vão ficar as viagens para o interior, ele ainda não me passou o cronograma previsto para este mês.

Roberto: Claro, claro… Ernesto! – Roberto cruza a sala, chamando por seu assessor, mas é interrompido por uma mensagem em seu celular.

Ele pega o aparelho e lê a mensagem de Carol: “Não esquece de confirmar se as credenciais da impressa estão ok. Bjos”. Roberto também precisava ver isso, tomou uma nota mental. Os preparativos para seu casamento se misturavam com o de sua campanha e ele não gostava disso.

13. INTERNA – DIA – JAVA CAFÉ

 

Carlos estava sentado numa das mesas brincando com o cardápio quando Diego chega.

 

Carlos: Você conseguiu chegar! Já pedi pra você, se não se importa.

 

Diego: Não me importo – diz, um pouco irritado. Carlos percebe.

 

Carlos: Da próxima vez, a gente pode comer mais perto do hospital. Fica mais fácil pra você – tentando anima-lo.

 

Diego: Aqui está bom – diz, ainda irritado.

 

Carlos: Alguma coisa errada? Problemas no hospital?

 

O garçom traz o pedido de Carlos e Diego.

 

Carlos: Obrigado.

 

Diego: Em casa.

 

Carlos: Não se preocupa com Fábio e Micaela… – diz, entre sugadas de sua bebida com um canudo.

 

Diego: Eu conversei com ele, tá? Quero que saiba que eu não concordo com a forma que ele te trata.

 

Carlos: Que eu saiba ou que ele saiba?

 

Diego: Você. E ele. Não sei…

 

Carlos: É brincadeira! – diz, rindo.

 

Diego: Eu quero que ele saiba que não deve te tratar assim porque você é meu namorado e quero que você saiba que eu me importo com você o suficiente pra…

 

Carlos: Eu sei que você se importa. E eu me importo com você o suficiente pra não querer que você brigue com seu filho por minha causa. Não é assim que ele vai te aceitar ou me aceitar. E eu corro o risco de parecer absurdamente com minha mãe dizendo isso! – Carlos ri. Diego sorri.

 

Diego: Desculpa. Ingrid e eu forçamos mesmo a barra em pedindo que você tomasse conta deles.

 

Carlos: Bem, se vocês precisarem… e não tiverem mais nenhuma opção! – Os dois riem. – Absolutamente nenhuma! Podem me chamar.

 

Os dois ficam em silêncio. Diego começa a comer.

 

Diego: Já comprei meu terno pro casamento.

 

Carlos: Ah! E nem me chamou…

 

Diego: Eu aproveitei que estava com Ingrid. E eu precisava espairecer…

 

Carlos: Foi ontem isso? – desconfia.

 

Diego: É. Ela me chamou pra conversar. Disse que era importante, mas não disse o que era.

 

Carlos: E sobre o que era?

 

Diego hesita e limpa a testa.

 

Carlos: Tudo bem, a gente não precisa falar disso.

 

Diego: Não, não é isso. É que ela me deixou furioso, ontem.

 

Carlos: Por quê?

 

Diego respira fundo.

 

Diego: Ela me chamou pra conhecer o namorado dela.

 

Carlos: Aaah – diz, aliviado.

 

Diego: Por que “aaah”?

 

Carlos: Nada, eu só… eu tinha achado estranho você e Ingrid juntos e você não tinha dito nada sobre isso aí eu disse “aaah” porque você explicou que era porque você foi conhecer o namorado dela – diz, rapidamente.

 

Diego: Você ficou com ciúmes de Ingrid? – ri.

 

Carlos: Não, não fiquei! – diz, com vergonha.

 

Diego: Ficou!

 

Carlos: Claro que não! Você tem namorado, ela tem namorado, não tem motivo pra ter ciúme.

 

Diego: É, mas você não sabia!

 

Carlos: Não sabia de quê? – e percebe a besteira que fez.

 

Diego: Que Ingrid estava namorando.

 

Carlos: É, eu não sabia.

 

Diego: Mas você acabou de dizer que… Você… você sabia… pelas sessões de terapia…

 

Carlos admite.

 

Carlos: Desculpa.

 

Diego: E você não me disse nada? – ele parecia triste.

 

Carlos: Ingrid pediu que eu não contasse.

 

Diego: E você e Ingrid agora trocam segredinhos!

 

Carlos: Diego, por que isso está te incomodando tanto?

 

Diego: Eu fui chamado lá, quase uma emboscada, pra conhecer aquele babaca…

 

Carlos: Que foi exatamente a mesma coisa que você fez quando queria que ela me conhecesse.

 

Diego perde a fala.

 

Carlos: Ela foi sua esposa, eu entendo que você ainda sinta alguma coisa.

 

Diego: Não pedi sua condescendência.

 

Carlos se levanta.

 

Carlos: E você acabou de pedir pra comer sozinho. E pagar a conta.

 

Carlos sai da cafeteria.

 

14. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO TOMÁS – COZINHA

 

Vitória, Eliane e Caio almoçavam enquanto o garoto contava entre garfadas o que ele e sua avó tinham feito durante aquela manhã.

 

Caio: Então estavam ensinando a fazer ori… ori… uns bichinhos de papel.

 

Vitória: Origami. – ela repetiu para ele sorrindo.

Caio: Isso! Então a vó Eliane me deu umas folhas coloridas e a gente vai terminar depois do almoço.

 

O interfone tocou e Eliane se levantou para atender e dizendo que o porteiro liberasse quem estava na portaria, subir.

 

Eliane: É a Nora. – disse para Vitória e virou para Caio – Olha Caio hoje está com as duas avós em casa.

 

Caio balançou a cabeça e continuou comendo. Vitória e sua mãe trocaram olhares, mas não comentaram nada. Eliane abriu a porta e ela e Nora se cumprimentaram.

 

Nora: Eliane quanto tempo. Não sabia que estava aqui.

 

Eliane: Vitória e Tomás comentaram que não sabiam como fazer quando Caio estivesse de férias e eu me ofereci para cuidar do meu neto nessas semanas.

 

Nora: Nosso neto. – Nora corrigiu sorrindo. – Não sabia que estavam com esse dilema, poderiam ter falado comigo.

 

Vitória: Você está ocupada com o casamento da Carol, não quisemos impor, mas o Caio também está sempre com você.

 

Nora: Sim, sim. Claro! – ela olhou ao redor pelo garoto. – E onde está ele?

 

Vitória: Na cozinha, terminando de almoçar. Venha, almoce conosco.

Nora: Olha, não vou recusar não. – ela seguiu as duas até a cozinha depois de deixar a bolsa e as sacolas no sofá.

 

Nora deu um beijo no rosto do garoto e sentou-se para comer. Caio que até então conversava animado, ficou mais quieto, somente respondendo as perguntas. Depois de terminarem de almoçar, Nora resolveu contar sua idéia.

 

Nora: Eu tive uma ótima idéia e queria falar com você Vitória. Que tal o Caio levar as alianças no casamento da Carol?

Vitória: Eu não sei, Nora, ele ainda está se adaptando à família.

 

Nora: Que isso, deixa de ser boba. Ele vai ficar lindo e a Carol ficaria tão feliz. – ela virou para o garoto e falou com ele – O que acha Caio?

 

Caio: Eu não sei. – ele respondeu tímido, olhando para Vitória para saber o que dizia.

 

Eliane: Acho que ele ainda está se acostumando com vocês todos e deve estar tímido.

 

Nora: Mas veja só – ela foi até a sacola e puxou o pequeno terno – O terno dele está pronto, ele vai ficar tão lindo. Imagina! Caio, Dudu e Rafa entrando na igreja no casamento do futuro governador se der tudo certo.

 

Eliane: Está claro que ele não quer fazer isso. Você não devia forçar o menino a fazer algo contra a vontade.

 

Nora: Mas ele é criança. Vai acabar se arrependendo quando ver os primos entrando na igreja e fazendo parte do casamento.

 

Caio olhava desesperado para Vitória, como que pedindo para ela não aceitar. Vitória estava confusa, não queria aceitar ou rejeitar a oferta de Nora.

Vitória: Vou conversar com Tomás e te dou a resposta Nora.

 

Nora não parece muito contente, mas aceita a resposta de Vitória. Ela ia ligar para Tomás assim que saísse da casa deles.

 

Nora: Bom, vou deixar o terno dele de qualquer forma.

 

Ela se abaixou para despedir do garoto e depois despediu de Vitória e sua mãe. Assim que Nora saiu do apartamento, Eliane comentou que Nora era muito insistente e que a filha não deveria aceitar tanta intromissão em sua vida.

 

 

15. INTERNA – DIA – QUATRO ESTAÇÕES – ESCRITÓRIO DE SAULO

 

Rebeca entrou no escritório carregando uma bandeja de papel com copos de café e uma sacola de papel.

 

Rebeca: Você não vai até o almoço, então o almoço vai até você! – diz, enquanto o abraçava.

 

Saulo: Obrigado – e abre a sacola. – Pão de canela?!

 

Rebeca: Nosso favorito! – ri e se senta, abrindo a sua própria sacola.

 

Saulo volta a sua mesa, mancando.

 

Rebeca: Você está… mancando?

 

Saulo: É a idade… – ri e bebe do seu café. – E então? Tirando muitas fotografias?

 

Rebeca: Aham. Eu até trouxe umas que revelei pra você ver. Eu já mostrei pra mamãe, mas mesmo se eu mostrasse uma foto embaçada e tremida ela diria que está linda…

 

Saulo: Não é pra tanto, Beca. Sua mãe se esforçou bastante pra aceitar o caminho que você decidiu seguir.

 

Rebeca: Sei disso, sei disso. Tava exagerando. E ela continua se esforçando. Por isso disse que ela diria qualquer coisa positiva sobre as fotos. Mas você…

 

Saulo olhava para uma fotografia.

 

Saulo: Essa ficou ótima!

 

Saulo abre a gaveta e retira de lá uma caixa.

 

Saulo: Estava guardado pro seu aniversário mas o momento pede. Trouxe da viagem!

 

Rebeca coloca sua comida e o café de lado e corre até Saulo.

 

Rebeca: Brigada! – diz, enquanto abre a caixa. Era um porta-retrato de prata, todo desenhado. – Gente! Nunca vi um tão lindo!

 

Ela pega a foto que Saulo gostou e coloca dentro do porta-retrato.

 

Saulo: Agora está completo.

 

Rebeca olha para ele e percebe a tristeza escondida em seu olhar. Saulo desvia o olhar e volta a cuidar de seus papéis.

 

Rebeca: E então? Algum periódico em fase de finalização?

 

Saulo: Vários, na verdade. Aliás, nós temos um aqui… Um dos mais interessantes, você vai ver. Eles mudam a capa a cada volume. E eles não escolheram a capa do volume atual.

 

Rebeca: Eu poderia tirar uma foto que se encaixasse no perfil da revista acadêmica! Eu posso?!

 

Saulo: Foi isso que pensei. Olhe – e chama Rebeca para perto de seu computador. – É um periódico de psicologia. Vou te mostrar as capas anteriores.

 

Saulo começa a mostrar.

 

Rebeca: São todas fotografias de pessoas… Nossa, essa ficou…

 

Os dois olhavam para uma pessoa que segurava um guarda-chuva amarelo no meio de uma multidão de guarda-chuvas pretos.

 

Rebeca: Eu topo!

 

 

16. INTERNA – DIA – PRÉDIO DE CARLOS – CORREDOR

 

Diego batia na porta de Carlos.

 

Diego: Carlos, por favor…

 

Uma das portas no corredor abrem. Era Pâmela.

 

Pâmela: Ele não quer papo contigo, não entendeu?

 

Diego vai até ela.

 

Diego: É… Pâmela, não é?

 

Pâmela: E você é o grosso que fez um fuzuê no restaurante.

 

Diego: Você poderia deixar um recado com ele? Ele não está atendendo as minhas ligações e ele, aparentemente, não está em casa.

 

Pâmela: Me diz o recado que eu decido se ele ficará sabendo ou não…

 

Ouve-se um barulho atrás da porta. Pâmela olha para trás e Diego se aproxima.

 

Carlos: Pâmela, isso é ridículo!

 

Pâmela: Mas, Carlos…

 

Carlos: Tudo bem, eu assumo daqui.

 

Pâmela: Mas… – Carlos a encara. – Você quem sabe. Qualquer coisa, é só me chamar – e olha feio para Diego enquanto fecha a porta.

 

Carlos: Desculpa por isso… Ela é super protetora.

 

Diego: Você parece procurar figuras maternais em mulheres – ri.

 

Carlos: É só isso que eu preciso delas, não? E você? Precisa delas pra quê?

 

Diego não responde.

 

Carlos: Entendeu a pergunta? Agora que eu penso nela, ela pareceu bem esquisita, mas dentro do contexto…

 

Diego: Eu entendi – e sorri. – E eu preciso delas tanto quanto você precisa – ri. Carlos ri de volta.

 

Carlos: Então por que aquela reação toda exagerada?

 

Diego: Eu fiquei confuso. Não com meus sentimentos! Entenda. Eu… Hã… Eu achei que Ingrid estivesse num lugar e saber que ela estava namorando me fez perceber que ela está em outro. É como se, finalmente, estivéssemos completamente separados. E isso me deixou um pouco atordoado.

 

Carlos: Por que você não disse nada?

 

Diego: Eu mesmo não entendia o que estava acontecendo…

 

Carlos: É que nem quando você lê um livro e não o entende muito bem ou acha que entendeu e meses depois você pensa no que leu e de repente o livro faz sentido.

 

Diego: Então, eu espero não ter passado dos limites e eu queria muito que você me desculpasse.

 

Carlos vai até Diego e o beija. Os dois ouvem um soco na porta.

 

Pâmela: Olha a pegação no corredor!

 

Diego e Carlos riem.

17. INTERNA – DIA – COMITÊ ROBERTO PELEGRINI

Roberto estava reunido com Ernesto Paiva, seu assessor direto e chefe de campanha.

Ernesto: Posso tentar mais uma vez? Não tem como mesmo adiar a data do casamento?

Roberto: Não tem como mudar esse slogan? – rebate.

Ernesto: “Uma nova cara para Rio” é ideal. Faz referência a sua imagem – Ernesto limpa a garganta antes de completar –, já que você é bem apessoado – fala com um sorriso sarcástico, e Roberto faz uma careta – Ao mesmo tempo em que sugere uma mudança que você almeja implantar.

Roberto: Mudança política, não estética.

Ernesto: Veja bem, não sou eu que te acho bonitão. São as mulheres – tira sarro – E o casamento? Ser na primeira semana de campanha, vai atrasar nosso protocolo.

Roberto: A Carol já está fazendo um monte de concessões devido a minha campanha, não posso obrigá-la a escolher outra data para o casamento. E eu sei que o casamento será bom para chamar atenção para campanha.

Ernesto: Depois não reclame que estamos explorando sua imagem. A imprensa marrom vai cair em cima.

Roberto dá de ombros, derrotado.

Ernesto: O problema é a lua-de-mel, não tem como encurtá-la?

Roberto: Menos de dois dias?

Ernesto: São três dias off se contarmos com o do casamento. Não quero que pareça que você não está dando a devida atenção à eleição e ao povo do Rio de Janeiro.

Roberto: São três dias, sendo um com AMPLA cobertura da imprensa. – Roberto olha para Ernesto como se o acusasse de algo – Quarta-feira já estarei fazendo comícios, passeatas, tudo que for preciso.

É a vez de Ernesto Paiva dar de ombros.

18. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS – ESCRITÓRIO

 

Tomás atendeu seu telefone ao ver que era sua mãe.

 

Nora: Filho, oi. Estou atrapalhando?

Tomás: Se for rápido, não.

 

Nora: Acabei de almoçar com Vitória, Caio e a Dona Eliane.

Tomás: Você foi até minha casa? Por quê?

 

Nora: Vocês deviam ter me falado que precisavam de alguém para olhar o Caio. Eu poderia fazer isso e ele não precisaria ficar enfurnado em um apartamento já que teria espaço no quintal para brincar à vontade.

 

Tomás: Você está se recuperando de uma cirurgia caraça e ajudando a Carol com o casamento. Já está fazendo o suficiente. E não queríamos que ele saísse da rotina dele em casa. Ainda tem pouco tempo que está morando com a gente e é melhor manter uma rotina.

 

Nora: Tudo bem, eu aceito isso, mas eu queria pedir que você convencesse Vitória a deixar o Caio a carregar as alianças no casamento da sua irmã. Eu já até levei o terno dele.

Tomás: Mamãe, eu não sei…

 

Nora: Ele também faz parte da nossa família, Tomás.

 

Tomás: Eu sei, mamãe. – ele respirou fundo e fechou os olhos. A última coisa que precisava era uma avó com ciúmes. – Eu converso com a Vitória, mas agora preciso voltar ao trabalho.

 

Nora: Tudo bem. Tchau filho.

 

Assim que desligou, telefone do escritório tocou e como sua secretária estava em horário de almoço, ele atendeu.

Tomás: Livraria Andanças.

 

Vitória: A gente precisa conversar hoje à noite.

 

Tomás: É sobre o Caio participar do casamento da Carol?

Vitória: Sua mãe te ligou.

 

Tomás: Acabei de sair do telefone com ela. – ele respirou fundo – Avó com ciúmes?

 

Vitória: Avós para ser mais exata.

 

Tomás: Eu vou te buscar no trabalho hoje e conversamos antes de ir para casa.

 

Vitória: Ótimo.

 

19. INTERNA – DIA – ÁGORA/UFRJ

Carol afasta-se da sua mesa e caminha até ao banheiro com o celular em punhos. Lá, alterna seu olhar entre o espelho e o visor do celular. Até tomar coragem e discar o número da irmã.

Sara caminhava pelos corredores da universidade quando sentiu seu celular vibrar no bolso da calça. Passou os livros que segurava com as duas mãos para a mão esquerda e pegou seu celular no bolso com a outra mão. Um fio de angustia passou por seus olhos quando viu que era Carol, mesmo assim, respirou fundo e atendeu, disposta a ter a maior paciência do mundo.

Sara: Alô.

Carol: Oi Sara, está podendo falar?

Sara: Sim.

Carol: Er… É sobre a outra noite, estava muito nervosa e não aguentei quando você fez pouco caso do meu casamento e… é isso – Carol se conteve ao perceber que estava prestes a iniciar uma nova discussão.

Sara: Eu não fiz pouco caso do seu casamento, Carol. Entenda, eu só estava cheia de preocupações e acabei esquecendo nosso compromisso. Desculpa, eu sou humana.

Carol: Sei disso… – elas ficam um tempo em silêncio – Então, estamos bem?

Sara: Espero que sim.

Carol: Você gostou do terno do Gabs? Ficou um charme, né? – muda de assunto.

Sara: É, ficou parecendo um homem.

Carol: Ele é um homem, aceite o fato.

Sara: Ele só tem 15 anos.

Carol: Ele JÁ tem 15 anos.

Sara: Isso é um choque de realidade, eu já tenho um filho de 15 anos e minha irmã mais nova vai casar. – brinca, já um pouco relaxada.

20. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE REBECA – SALA

 

Rebeca e Júnior estavam sentados em frente ao notebook de Rebeca. Rebeca passava as fotos que tinha tirado recentemente, clicando violentamente nas setas do teclado.

 

Rebeca: Não! – e passa para a seguinte. – Não! – seguinte. – Não! Arr! Está tudo uma bosta!

 

Júnior: Eu não acho…

 

Rebeca olha para Júnior, descrente.

 

Rebeca: Você diz isso porque não viu as fotos das revistas. Cada uma era mais linda que a outra. Tinha uma com uma sombrinha amarela no meio de um montão de sombrinhas pretas. Tinha uma que era um lugar todo branco com uma sombra escura, no formato de uma pessoa. E só por causa da sombra que você percebia que eram duas paredes se encontrando, e não uma só – e junta a ponta dos dedos, afastando as palmas das mãos, para exemplificar.

 

Rebeca volta a passar as fotos.

 

Júnior: Vai ver essas fotos estavam relacionadas com os temas dos artigos. Ou com o tema de um dos artigos.

Rebeca: Eu tentei! O tema que une os artigos é “o homem e o amor” – diz, afetada. – Ou pelo menos foi o que me pareceu, pela intro que tio Saulo me deixou ler.

Ela pára numa das fotos. Era uma em que ela, Saulo e Vera estavam juntos, sorrindo.

Rebeca: Eu acho que eu tive uma idéia.

21. INTERNA – DIA – E.E. PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS – SALA

[♫ Seven Nation Army – The White Stripes]

Alguns dias depois, Júnior estava no seu segundo vestibular dos três que tinha se inscrito para fazer. O calor fora do normal que fazia no Rio de Janeiro. O sol batia na janela da sala, deixando o ar abafado. O velho ventilador rodava devagar fazendo um barulho alto. Júnior abaixou para pegar sua garrafa de água e deu um gole para se refrescar, mas se forçou a engolir a água morna. Olhou mais uma vez para a questão de física a sua frente e voltou a se concentrar na prova.

 

 

22. EXTERNA – DIA – UNIVERSIDADE – ENTRADA

 

Júnior caminhava na direção de Saulo, que estava encostado sem eu carro.

 

Júnior: Valeu por me buscar, tio. Liguei pros outros mas estão todos ocupados. Sara com mamãe, Carol com o casamento… Carlos contou uma lorota das brabas dizendo que está de babá.

 

Saulo: E ele achou que essa ia colar?

 

Júnior: Vai entender.

 

Saulo: Como foi na prova?

 

Júnior suspira.

 

Júnior: Sinceramente? Não faço a mínima idéia. Perdi a prática completamente. Acabei a prova rápido demais. O primeiro da minha sala. Fiquei horas esperando pra poder sair com o caderno – e mostra o caderno em mãos.

 

Saulo: Agora é só ficar de olho no resultado. Você quer ir pra onde? Casa da sua mãe?

 

Júnior: Na verdade…

 

 

23. INTERNA – DIA – SORVETERIA

 

Rebeca estava sentada a mesa, uma das mesas multicoloridas da sorveteria. Seu celular vibra. Era uma mensagem de Júnior.

 

“Saulo a caminho. Bjs.”

 

Rebeca guarda rapidamente o celular na bolsa e retira de dentro um potinho com poeira dentro. Ela o abre e respira com força o conteúdo. Seu nariz começa a coçar e a ficar vermelho. Seus olhos começam a lacrimejar. Vera senta-se a mesa, carregando duas taças de sorvete.

 

Vera: Duas taças de pistache!

 

Rebeca: Nosso favorito… – diz, e começa a fingir que está chorando.

 

Vera: Rebeca, o que houve?

 

Rebeca: É que… – funga – tio Saulo pediu que eu tirasse uma fotografia que se encaixasse no perfil de uma das revistas da Estações. É uma ótima oportunidade, sabe?

 

Rebeca se lembra de fungar de novo. E funga.

 

Vera: Você teria uma foto publicada! Em capa! Claro que é uma ótima oportunidade! Mas por que está chorando?

 

Rebeca: Porque eu não consigoooo! As outras capas são lindas. Eu vi. Tio Saulo mostrou. E eu não consegui tirar nenhuma foto decente…

 

O sininho da sorveteria tocou e duas pessoas entraram.

 

Rebeca: Júnior? Tio Saulo? Que coincidência!

 

Vera: Muita – e olha para Rebeca.

 

Saulo vai até Rebeca.

 

Saulo: Por que está chorando, Beca?

 

Júnior: Hum! De pistache! Adoro! – e começa a tomar da taça de Rebeca.

 

Vera: Como foi na prova, Júnior?

 

Rebeca: Eu não consigo tirar uma foto boa pra sua capa!

 

Júnior: Ela teve um colapso ontem por causa disso – diz, de boca cheia. – Fui mais ou menos, Vera.

 

Rebeca olha de Saulo para sua mãe, boquiaberta.

 

Rebeca: Vocês dois!

 

Vera: Não, Rebeca…

 

Rebeca: Vocês dois podiam posar pra mim! Genial!

 

Saulo: Rebeca, não sei se é uma boa idéia.

 

Rebeca: Vocês nem ouviram a idéia ainda! Eu achei genial! Vamos, por favor! Digam que sim, vai! Que sim!

 

Júnior: Tô me sentindo num episódio de chaves. Cadê meu sanduíche de presunto?

 

Saulo e Vera se entreolham e hesitam.

 

Rebeca: Por favor! É melhor vocês que pedir a estranhos na rua.

 

Júnior: Estranhos na rua não é uma má idéia…

 

Rebeca: Claro que é, vão achar que sou maluca! – e olha para a mãe e Saulo. – Ótimo! Vou bancar a maluca, então!

 

Ela pega a sua câmera e sai da loja.

 

Júnior: Tsk, tsk – olhando para Vera e Saulo, que estavam em pé.

 

Vera e Saulo: Hã… Rebeca!!!

 

 

24. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO TOMÁS – SALA

 

Talvez a idéia de juntar Nora e Eliane não tivesse sido muito boa, mas eles queriam conversar com as duas ao mesmo tempo.

Tomás: Ei, ei… Vocês duas podem parar de falar um pouco? – vendo as duas em silêncio ele continuou – Eu e Vitoria estamos felizes por vocês duas quererem ajudar.

 

Nora: Só queremos que o Caio se adapte logo à nova família dele.

Eliane: Às duas famílias.

 

Tomás: Nós sabemos e agradecemos, mas vocês são as avós, essa responsabilidade é minha e da Vitória. Assim como decidir como iremos criá-lo.

Ele viu as duas quietas meio que inconformadas, mas não discutindo na decisão de seus filhos.

 

Tomás: Como essa semana Dona Eliane ficou com o Caio, semana que vem é a senhora, mamãe, mas será da mesma forma, você virá ficar com ele aqui em casa.

 

Nora: Tudo bem, filho, e como esse final de semana o Caio fica com nossa família por causa do casamento da Carol, o próximo final de semana ele passa com a família da Vitoria.

Tomás: Sobre o casamento, nós deixamos a decisão para o Caio e ele não quer entrar com as alianças.

 

Nora: Mas ele é muito novinho para decidir isso, Tomás…

 

Tomás: Essa é a decisão dele mamãe, se ele não quer, eu e Vitória não iremos forçá-lo. Já liguei para a Carol e expliquei tudo, ela entendeu.

 

Nora: Tudo bem, se é assim que vocês querem fazer, eu não vou me meter.

 

Tomás: Mas ele pediu para dizer que vai usar o terno que a senhora trouxe para ele.

 

Nora sorriu satisfeita que pelo menos o terno ele usaria.

 

Eliane: E onde está o Caio enquanto a gente conversa?

 

Tomás: Vitória foi até a pracinha com ele enquanto eu tinha essa conversa com vocês. Logo eles estão chegando.

 

Os três continuaram conversando e quando Vitoria chegou, Caio logo foi até os três mostrar a lagarta que tinha recolhido para ‘criar’.

 

25. EXTERNA – DIA – ARPOADOR

 

Saulo e Vera estavam próximos numa das extremidades da pedra, enquanto Rebeca e Júnior estavam numa outra.

 

Rebeca: Eu quero que eles fiquem desfocados, entende? Com a luz batendo… De forma que ninguém os reconheça. Duas sombras unidas antes do pôr-do-sol.

 

Júnior: Esse filme é ótimo.

 

Rebeca: Super.

 

Júnior: Tô achando os diálogos muito Ethan Hawke e Julie Delpy.

 

Rebeca: Também tô!

 

Vera e Saulo estavam agitados na outra ponta.

 

Vera: O que a gente faz, Beca? – grita.

 

Rebeca: Tio, abraça ela! – grita de volta. – Eu queria que vocês tipo… dançassem.

 

Saulo: Ela quer que a gente dance – diz, para Vera.

 

Vera: Eu ouvi – diz, para Saulo.

 

Uma clima estranho se instaura. Saulo resolve tomar as rédeas da situação e pega os braços de Vera e os coloca sobre seus ombros e coloca as suas mãos na cintura dela.

 

Júnior: Ui!

 

Rebeca: Isso, agora dancem!

 

E os dois começam a dançar, lentamente. A princípio, os dois evitavam se olhar, mas não resistiram.

 

Júnior: Acha que está funcionando?

 

Rebeca: Não sei. Mas eu tenho a minha foto – e começa a clicar.

 

Vera: Eu não acho que ela estava chorando de verdade…

 

Saulo: Eu “sei” que ela não estava chorando de verdade.

 

Vera: A gente… A gente pode continuar… Dançando?

 

Os dois continuam dançando.

 

26. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE FERNANDO – SALA

 

Fernando entrega um DVD de game para Sara.

 

Sara: Obrigada, Ferdi. Aparentemente Dudu não pode viver uma semana sem este jogo.

 

Fernando: Tive que brigar para ele sair do videogame ontem. Sério, o controle parecia uma extensão do seu próprio corpo.

 

Sara ri e encara Fernando por uns instantes.

 

Sara: Fizemos essa separação funcionar, hein?

Fernando: Como assim?

Sara: Convivemos bem. Mesmo separados, conseguimos nos unir por causa dos meninos. Formamos um bom time para criar nossos filhos. Estivemos juntos nos momentos mais difíceis… – faz uma pausa – O sequestro do Gabs…

Fernando: Nem me lembre… Somos uma família antes de tudo.

Sara: Eu sei, mas não deixamos a separação acabar com isso. Semana retrasada mesmo, no colégio dos meninos, eu vi os pais do João Paulo fazerem um escândalo porque um não queriam que o outro fosse à festa junina da escola do filho. Ridículo, não?

Fernando: Totalmente. Nunca chegaríamos a esse ponto, nem nos nossos piores momentos. Sempre formos um ótimo time… – ele encara Sara com um olhar afetuoso – em tudo.

Sara se desconcentra um pouco. Fernando percebe e sorri.

Fernando: Então, preparada para o casamento do ano?

Sara suspira.

Sara: Nem me fale.

Fernando: Por quê?

Sara: Eu e a Carol estamos meio assim. – faz um gesto com a mão, dando a entender que estão balançadas – E eu vou ter que encarar toda a minha família e a do Roberto, leia-se Renata, sozinha. – brinca – E, veja bem, é o casamento da minha irmã mais nova. Tá, tem a Rebeca, mas você entende o que quero dizer. E a Rebeca também deve ir com alguém. E o Júnior. Até o Carlos!

Fernando: Como assim sozinha? E o seu namorado? – pergunta com claro desdém.

Sara: Terminamos.

Fernando abre um largo sorriso.

Sara: Para, Ferdi, é sério – ela diz, mas também não consegue não rir um pouco, devido a cara de regozijo de Fernando.

Fernando: Desculpa, mas não tinha como eu receber uma melhor notícia hoje.

Sara: Ahan, tá bom.

Fernando: Sério – ele diz e encara Sara, tomando coragem para continuar – Eu morria de ciúmes daquele sujeito.

Sara só sorri, debochada, sem dar muito crédito àquela declaração.

Fernando: Verdade! Eu só me controlava bem. Vai dizer que você também não tinha ciúmes de mim? – provoca.

Sara: Hum, com qual namorada? – brinca.

Fernando: Nem foram tantas assim – fala envergonhado.

Sara: É, era estranho te ver com outra, não vou negar. Ainda mais sendo mais novas e mais bonitas do que eu – diz, claramente querendo provocá-lo.

Fernando: Mais novas, ok, mas mais bonitas – olha Sara da cabeça aos pés, desconcertando-a outra vez –, impossível.

Sara: Sei… – fala descrente.

Fernando: Você anda muito desconfiada.

Sara: Tenho meus motivos.

Fernando entende a indireta e se faz de rendido.

Fernando: Se o problema é ir sozinha ao casamento, posso ir com você.

Sara: Até parece – ri.

Fernando: Que que tem? Vou me comportar, prometo – ri, olhando sedutor para Sara – Vou tentar pelo menos.

Sara: Ferdi, você anda impossível! – ri da atitude do ex, mas claramente está gostando daquele jogo.

Fernando: Sério, Sara. Te faço companhia, sirvo de escudo para os Andrades e Pelegrinis, e ainda posso ir ao casamento do ano e ver meus filhos em traje de gala.

Sara avalia aquilo por alguns segundos.

Sara: Tá bom. Até porque cuidar dos gêmeos, sozinha e de salto alto, não é tarefa fácil.

Fernando: Sem problemas, pode contar comigo!

27. INTERNA – NOITE – EDIFÍCIO RESIDENCIAL – CORREDOR

[♫ Anormal – Pato Fu]

Júnior toca a campainha pela segunda vez. Conhecer o porteiro do prédio tinha suas vantagens. Quando a porta abriu, ele sorri para Pâmela.

 

Pâmela: Junior, que surpresa! – Ela o abraçou e abriu espaço para ele entrar.

 

Júnior: Eu vim só perguntar uma coisa, não vou demorar. Amanhã ainda tenho prova.

 

Pâmela: Claro! O que foi? Alguma dúvida de última hora?

 

Júnior: Não, nada a ver com estudo ou vestibular. Vim perguntar se quer ir ao casamento da Carol comigo.

 

Pâmela: Claro! – ela sorriu.

 

Júnior: Excelente. Vai ser divertido e já conhece toda a família, o que é outro ponto positivo.

 

Pâmela: Quer dizer, eu não vou querer sair correndo quando tiver alguma confusão?

 

Júnior: Isso também, mas vamos torcer para não acontecer nada fora do planejado, ou Carol é capaz de ter um ataque histérico.

 

Pâmela: Não fala assim, Ju. Ela deve estar muito estressada organizando esse casamento.

 

Os dois conversam por mais algum tempo e depois Júnior se despede dizendo que se encontrariam ainda antes do casamento para combinar tudo.

28. INTERNA – DIA – E.E. TAVARES SOUZA ALMEIDA – SALA

[♫ Seven Nation Army – The White Stripes]

 

E o dia do casamento chega e Júnior está em mais um vestibular. Ele olha para o relógio pela quinta vez em menos de 20 minutos. Ele tentava se concentrar na prova, mas a cabeça estava a mil pensando no casamento da irmã e o medo de se atrasar. Vindo do fundo da sala ele escuta o barulho do pacote de batata se abrindo, ou o cheiro forte de mexerica. Queria gritar para aquelas pessoas que estavam fazendo um vestibular e não um piquenique no parque.

28. EXTERNA – DIA – IATE CLUBE

O casamento de Roberto e Carol aconteceria num grande espaço ao ar livre de um Iate Clube, com vista para os principais pontos turísticos da cidade. Várias mesas contornavam o recinto e o ponto principal, o altar, era formado por um lindo e delicado gazebo, dando o toque especial na decoração, onde a cor branca predominava, adornada por flores de diferentes cores claras.

O casamento estava marcado para as 16h, mas sem hora para terminar. A cerimônia em si, aconteceria por volta das 18h, aproveitando os últimos raios solares e o começo do crepúsculo.

Na mesa de Sara, os gêmeos estavam inquietos, doidos para irem brincar, mas Sara queria mantê-los limpos pelo menos até a hora da cerimônia.

Eduardo: Manhê, quando a senhora vai nos deixar brincar?

Sara: Daqui a pouco, Dudu, se acalme.

Eduardo: Quero agora!

Sara finge que não ouviu, e lança um olhar pra Fernando ajudá-lo.

Fernando: Para, rapaz, logo você brinca.

Eduardo fecha a cara.

Naquele instante, Tomás, Vitória e Caio se aproximam da mesa dos Andrades-Vianas. Eles cumprimentam Sara e Fernando.

Tomás: Podemos nos juntar a vocês?

Sara: Creio que esses lugares sejam seus – fala, apontando para o nome deles no papel de reservado das cadeiras ao seu lado – Essa é a mesa dos irmãos mais velhos, perto do playground. A do Carlos, Junior e Rebeca é perto do bar.

Tomás: Que sutil! – ri, e em seguida acomoda Vitória e depois senta-se.

Caio senta-se em silêncio, meio intimidado.

Tomás: Mas você está ótima.. para uma irmã mais velha.

Vitória bate de leve no ombro de Tomás.

Vitória: Não liga, Sara, você tá um arraso com esse vestido.

Tomás: Mas foi o que eu disse. Tá linda, sério. – redime-se.

Sara: Obrigada. Vocês também estão ótimos, também adorei o seu vestido, Vi. E o Caio tá uma gracinha de terno.

Vitória sorri, orgulhosa.

Vitória: Quer ir brincar, Caio? – o menino balança a cabeça positivamente – Dudu e Rafa podem ir com você?

Eduardo: Eu não posso.

Sara: Se você prometer que não vai suar e se sujar demais, eu deixo.

Eduardo: Eu não quero.

Fernando: Não? Nesse instante você estava implorando para ir.

Eduardo não diz nada, só permanece com a cara emburrada.

Sara: Então vai lá com o Caio, filha – Sara diz para Rafaela, que se nega, balançando a cabeça. – O que deu em vocês dois, hein?

Caio: Eu vou sozinho – o menino se adianta.

Fernando: Vocês não vão mesmo com o primo de vocês? Depois não venham pedir para ir.

Eduardo: Ele não é nosso primo.

Sara: Eduardo! – altera a voz – O Caio é primo de vocês SIM. – diz, com um pouco de vergonha – Desculpa, pessoal – pede a Tomás, Vitória e Caio.

Fernando: Eduardo, peça desculpas.

Eduardo: Não!

Sara: Como é?! – fala alterada para Eduardo – Com licença – pede aos demais da mesa, e puxa o menino pelo braço.

Vitória: Não precisa, Sara.

Fernando: Precisa sim, Vitória, nos desculpe, com licença. – ele diz, e também se levanta, seguindo Sara e Eduardo, e levando Rafaela consigo.

Um pouco afastados da mesa, Sara começa um discurso.

Sara: Eduardo, você não pode agir assim com o Caio, que coisa feia, meu filho.

Rafaela: Mas ele não é mesmo nosso primo de verdade, mãe.

Sara: Quem disse isso?

Rafaela: Ele não é filho do tio Tomás.

Fernando: Claro que é. Ele pode não ter nascido da barriga da tia Vitória, mas é tão primo de vocês quanto os filhos das minhas irmãs, por exemplo. A Clarinha, o Pipe, a Deise, a Denise, o Caio, todos são seus primos…

Sara: Exatamente. Caio é meu sobrinho, neto da vó Nora e primo de vocês.  Vocês não podem agir assim com ele, estão o machucando, magoando o tio Tomás, a tia Vitoria. E a mim e ao seu pai também. O Caio acabou de perder um pai, pensem como está sendo difícil para ele. Felizmente, ele ganhou um novo pai, uma nova mãe e uma nova família, que somos nós.

Fernando: Não seria chato se fossem vocês no lugar dele e alguém falasse que não fazem parte da família? E tratassem vocês mal?

Os gêmeos concordam com a cabeça.

Sara: Sei que é algo novo, e veio de repente, mas vocês têm que ajudá-lo a entrar na família. Podemos contar com vocês? – mais uma vez, eles concordam – Então, vamos voltar lá e pedir desculpa a eles.

29. EXTERNA – DIA – E. E. TAVARES SOUZA ALMEIDA – ENTRADA

[♫ Anormal – Pato Fu]

 

Júnior sai apressado e vê o carro estacionado quase que em frente à escola. Ele não perde tempo e entra logo no carro e dá um beijo leve nos lábios Pâmela.

 

Pâmela: Cuidado! Não vale estragar minha maquiagem antes da festa.

 

Júnior: Você está me dando permissão para estragá-la depois da festa?

 

Pâmela: Se você quiser. – ela responde sorrindo e colocando o carro em movimento.

 

Júnior: Permissão concedida anotada. – ele sorri – Obrigado por vir me buscar.

 

Pâmela: Que isso, você vai voltar dirigindo mesmo. Aqui tem uma garrafa de água caso tenha sede e uma barra de cereal. A camisa e a gravata estão aí atrás no carro, melhor ir se vestindo para pelo menos chegar pronto.

 

Júnior pega a garrafa de água e dá um gole antes de pular para o banco de trás e se trocar.

 

30. EXTERNA – DIA – IATE CLUBE

A família Pelegrini também já estava na festa. Renata estava sentada na mesa com o marido e os três filhos. Fazia companhia aos avós, Enrico e Genoveva, que com seus 90 e poucos anos não se arriscavam a muitas estripulias.

Antonio, pai de Roberto, conversava com o filho. Marta, mãe de Roberto, também estava o paparicando, dizendo repetidas vezes o quanto bonito ele estava. Marta avista Nora e vai falar com ela.

Marta: Oi Nora.

Nora: Oi Marta, como vai? – cumprimentam-se.

Marta: Bem, bem. E você?

Nora: Ótima. Esse casamento está divino, não?

Marta: Sim, apesar da comida meio insossa.

Nora lança um olhar reprovador para ela. Marta apenas ri.

Marta: Ainda não vi minha Lílian. Você sabe onde ela está?

Nora: A vi perto do jardim, mas… – Nora avalia um pouco antes de continuar – Ela veio com a Luísa.

Marta: Que bom, quero conhecê-la.

Nora estranha aquela declaração.

Marta: Depois que tivemos aquela conversa, me aproximei mais da minha filha. Ainda não me acostumei completamente com sua escolha, mas hoje a entendo melhor.

Nora: Que bom, Marta, que bom.

Marta: Preciso te agradecer por isso, Nora.

Nora: Imagina. Eu que agradeço você ter criado um filho maravilhoso que está prestes a se tornar um marido maravilhoso para minha filha.

Marta: Ele é mesmo maravilhoso, não? – ela diz, abrindo um enorme sorriso enquanto observa Roberto de longe.

Nora parece esperar por algo, até que Marta se toca.

Marta: Carol o merece. Também é uma ótima pessoa.

Nora: Maravilhosa, eu diria.

Letícia, umas das irmãs de Roberto, aproxima-se do pai e do irmão.

Letícia: Que festa linda, Beto – diz ao irmão.

Roberto: Tudo mérito da Carol.

Antonio: Carol tem muitos méritos.

Letícia: Se deu bem, maninho.

Roberto ri.

Roberto: Sim.

Letícia: Sério, estou feliz por você. – lança-lhe um sorriso terno, que Roberto retribui – É bom ver esse sorriso de volta ao seu rosto.

Antonio: Verdade, meu filho. É muito bom vê-lo feliz novamente.

Roberto: Obrigado. – diz, emocionado – Sou um homem de sorte por ter encontrado a Carol.

Letícia: E um brega sentimental, como sempre – brinca.

Antonio: Falando em homens de sorte, onde está meu genro preferido? – pergunta se referindo a Samuel, marido de Letícia.

Letícia: Deve estar se escondendo de algum Pelegrini.

Os três riem.

31. EXTERNA – DIA – IATE CLUBE

 

Carlos, Sara, Rebeca e Tomás olhavam para ver se viam Júnior chegar. Eles não queriam ligar para Carol e a mandarem enrolar até que o irmão chegasse. Eles ouviram uma freada brusca e a porta do carro se abrindo de repente e Júnior saindo correndo carregando o paletó.

 

Carlos: Venha aqui deixe ajeitar essa gravata.

 

Júnior: A Carol ainda não chegou, não é?

 

Tomás: Tá chegando agora. – ele responde apontando o carro.

 

Carlos: Fica quieto! – diz segurando-o pela gravata, enquanto Sara e Rebeca cuidava de ajeitar o cabelo e o restante da roupa de Júnior.

 

Júnior: Ei! Ei! Quer me enforcar?

 

Carlos: Deixa de frescura e me deixa terminar, ou quer ouvir o sermão da noiva?

 

Pâmela: Não liga para o que o Carlos diz. Você está ótimo. – ela fala enquanto alcança ele  – Vou indo, nos encontramos depois.

 

Pâmela dá um beijo no rosto dele e segue. Tomás que não sabia daquele desenrolar olha surpresa enquanto Carlos finge desaprovação. As moças do cerimonial já pediam que todos entrassem na fila para começarem.

Os cinco ainda avistam Carol, cercada de pessoas ao seu redor, e acenam e sorriem de longe, Carol retribui, já emocionada.

 

32. EXTERNA – DIA – IATE CLUBE

[♫ You Angel You – Bob Dylan]

“You Angel You”, de Bob Dylan anunciou o início do cerimonial. Todos se aproximaram do gazebo enquanto os padrinhos foram entrando aos pares: Renata e Julio, Sara e Carlos, Letícia e Samuel, Tomás e Vitória, Lílian e Renan (filho mais velho de Renata), Rebeca e Júnior, e Larissa e Gabriel. Os padrinhos sentaram-se na primeira fileira. Logo depois, Roberto aparece acompanhado dos pais, um de cada lado, até o altar. Lá ele recebe cumprimentos dos dois que seguem para seus lugares, deixando o filho a espera da noiva. Em seguida, é a vez de Rafaela e Eduardo entrarem juntos, carregando as alianças. Ao chegar ao altar, eles se posicionam em seus lugares e a marcha nupcial começa a tocar.

O sol já estava se pondo, mas ainda brilhava o suficiente para iluminar a entrada de Carol, acompanhada de Nora. A emoção soltava aos olhos de todos, mas em especial de Roberto e Carol. Ele já deixava algumas lágrimas rolarem por cima de seu enorme sorriso ao observar a entrada de sua noiva. Ela também sorria com os olhos cheios de lágrimas, lutando para não deixá-las cair e acabar borrando a maquiagem. A luta se intensificava toda vez que focalizava um rosto significativo: seus irmãos, seus amigos, sua avó, seu tio, seus sogros, suas cunhadas, seus sobrinhos, sua enteada, seu futuro marido.

Ao chegar ao altar, Nora beija o alto da cabeça da filha e com um gesto a entrega a Roberto, que a beija no mesmo local e enlaça seu braço no dela. Ela olha nos olhos dele e com a mão livre do buquê enxuga algumas ralas lágrimas de Roberto. Naquele instante o juiz de paz começa seu discurso.

Durante o discurso, era fácil observar casais apaixonados trocarem olhares, buscarem por suas almas gêmeas, todos em volta daquele clima romântico. Lílian e Luísa, Carlos e Diego, Larissa e Gabriel, Tomás e Vitória, Vera e Saulo, Pâmela e Júnior, e até Sara e Fernando trocaram um rápido e desconcertante olhar. Nora, por sua vez, mantinha os olhos fixos em Carol e já chorava de emoção pela filha.

É chegada a hora das juras, de assinar os papéis, de trocar alianças e, por fim, do “Eu vos declaro marido e mulher”. Após isso, Roberto aproxima-se de Carol e a beija, sob palmas dos convidados. Ao final do beijo, Roberto abraça Carol, e diz no seu ouvido:

Roberto: Obrigado por casar comigo. Te amo.

Carol encara Roberto e sorri.

Carol: Eu também te amo.

E os dois seguem de mãos dadas, caminhando pelo corredor de arroz, jogado pelos convidados e ao som de “All Because of You”, do U2.

 

33. EXTERNA – NOITE – IATE CLUBE

[♫ Sara – Bob Dylan]

A noite já havia chegado, e agora o lugar era iluminado por luzes artificiais, em sua maioria pequenas e douradas. Algumas pessoas dançavam num espaço destinado a pista de dança. Outras observavam a paisagem enquanto bebiam um drinque e outras permaneciam nas suas mesas, comendo e conversando.

Sara e Fernando estavam sozinhos na mesa, observando, de longe, os filhos mais novos brincarem com outras crianças, enquanto Caio brincava mais afastado do grupo.

Sara: Pelo visto toda aquela bronca não fez muito efeito.

Fernando: Fez. Eles agora devem entender melhor, mas também não podemos forçar uma aproximação assim. Vamos deixá-los conviver, uma hora essa birra passa.

Sara: Tomara. Não quero filhos bullings.

Fernando: Eles não são. Só devem está com ciúmes… Criamos bem nossos filhos. Olha aquele dali – aponta para Gabriel mais adiante, de terno e interagindo com as pessoas mais velhas.

Sara admira o primogênito.

Sara: Tá lindo, né?

Fernando: Puxou a mãe – galanteia.

Sara: Até parece, ele é sua cara.

Fernando: Vou aceitar o elogio – sorri, Sara só balança a cabeça, divertindo-se com aquilo – Você já parou para pensar que, agora, Carol é tipo sogra do Gabs?

Sara: Verdade – ri – Mas, por favor, não case nosso filho de 15 anos antes do tempo. Daqui a pouco serei avó – fala, batendo três vezes na madeira.

Fernando: Uma avó gata. – ele pisca para ela que sorri com desdém.

Sara: Nem brinca, Ferdi.

Começa a tocar “Forever Young”, de Bob Dylan.

Fernando: Esse casamento tá muito Dylan.

Sara: Só foram duas músicas. Mas, é, parece que a trilha foi feita por você. Dylan, U2, Chico, Clash, Stones…

Fernando: Nada, se tivesse sido feito por mim, já tinha tocado “Sara”. – pisca para ela.

Sara: Não sei por que você ainda gosta tanto dessa música.

Fernando: Ué, você também gostava.

Sara: É, mas Sara e Bob não terminaram bem.

Fernando: Depende. Eles sempre quiseram ficar juntos.

Sara: Mas não ficaram.

Fernando: Mas se deram chances. E, bem, acho que foram bem felizes tentando.

Sara: Provavelmente… É, você tem razão. É uma bela história de amor.  John e Yoko queriam mudar o mundo. Bob e Sara eram mais pretensiosos: queriam dar certo juntos – brinca, e Fernando ri.

Fernando: Você sabia que ele compôs “Sara” quando eles estavam em crise? Daí ele tocou para ela e eles votaram? – Sara balança a cabeça afirmativamente – Aliás, vou lá até a banda me oferecer para tocar – faz que vai se levantar, e Sara o interrompe.

Sara: Você não é louco!

Fernando: Tá bom, não vou, mas em troca, você vai ter que dançar comigo – Sara levanta as sobrancelhas em dúvida – Vamos lá, por favor – pede, estendo sua mão na direção de Sara.

Sara: Ok, só um pouco – diz e entrega a mão a Fernando, que a conduz até o centro do salão.

Os dois começam a dançar, meio tímidos e distantes um do outro. Fernando puxa assunto para quebrar a tensão.

Fernando: Eu estou com um pouco de pena do Gabs tendo que lidar com a família da Larissa.

Sara ri.

Sara: É, eu também.

Fernando: Mas ela também tem que lidar com os Andrades, né. Sei bem como é.

Sara: Verdade, empate. Aliás, não é estranho que até agora ninguém ter estranhado sua presença aqui?

Fernando: Por que estranhariam? – se faz de desentendido.

Sara: Você sabe. Não somos mais casados.

Fernando: Sei, você vive me lembrando disso. – ele lança um olhar triste para Sara – Mas eu fui convidado.

Sara: Por mim.

Fernando: Não, Carol e Roberto me mandaram um convite.

Sara: E você não me disse nada, sacana! – fala, dando um tapa no ombro dele.

Fernando: Porque eu queria vir com você.

Sara fica avaliando aquela declaração de Fernando, mas não diz nada. Fernando a traz para mais perto de si, e aproxima sua boca perto do ouvido de Sara antes de voltar a falar.

Fernando: E eu posso ser a centésima pessoa a dizer que você está linda? – fala, quase em sussurro.

34. EXTERNA – NOITE – IATE CLUBE

 

Naquela altura da festa, os Andrades já tinham juntado suas mesas e conversavam animados. Piadas e provocações entre os irmãos não paravam quando Carlos resolveu provocar a avó e o irmão caçula.

 

Carlos: Vó Diva, a senhora finalmente conseguiu o que queria.

 

Diva: O que Carlos?

 

Carlos: Que um neto seu namorasse a Pâmela. Olha aí! Só que não era o neto que a senhora tinha escolhido.

 

Pâmela sente o rosto corar, enquanto alguns riem. Júnior balança a cabeça negativamente, mas dando risada.

 

Diva: Eu não sei onde estava com a cabeça. É tão óbvio agora que ela fica muito melhor ao lado do Júnior do que o seu, fica um casal mais bonito.

 

Todos dão risada à custa de Carlos. Ele teve que admitir que caiu em sua própria armadilha. Pâmela pediu licença e saiu de perto deles todos, ainda envergonhada. Júnior percebe e vai atrás dela.

 

Júnior: Ei, o que foi?

 

Pâmela: Não foi nada. Eu só me esqueci que toda sua família sabe da minha história com o Carlos.

 

Júnior: E daí?

 

Pâmela: Não sei, só queria que não soubessem. Sinto-me envergonhada por toda essa história.

Júnior: Não fique. Nós Andrades somos assim, sempre encontramos motivo para fazer piada com a cara um do outro. É melhor se acostumar.

Pâmela: Devo mesmo me acostumar?

Júnior sorri para ela e a puxa pela mão e vão para a pista de dança enquanto Tomás e Carlos se cutucam e sorriem enquanto olham Júnior e Pâmela juntos.

 

Tomás: Quem diria que ela iria conseguir fazer mesmo parte da família.

 

Diva: Acho ótimo. Prova que é uma moça persistente.

 

35. EXTERNA – NOITE – IATE CLUBE

Carol estava passando de mesa em mesa para agradecer a presença de todos e fiscalizar se estavam sendo bem servidos. Quando percebe que Rebeca está tirando algumas fotos mais adiante, Carol aproxima-se dela.

Carol: E aí, conseguindo boas fotos?

Rebeca: Ótimas! Esse lugar é incrível. Você não se importa, né?

Carol faz que não com a cabeça.

Carol: Só não te contratei porque queria que você curtisse a festa. Mas pelo visto não consegui te afastar da câmera.

Rebeca: É mais forte do que eu – brinca, puxando a câmera contra o peito, abraçando-a – E eu gosto, é um prazer, não uma obrigação.

Carol: Não fale isso para futuros clientes, eles não vão querer te pagar pra você se divertir – brinca, Rebeca ri – Posso vê-las?

Rebeca passa a câmera para Carol, que vai visualizando foto por foto.

Carol: Estão lindas. Você vai ter que me passá-las.

Rebeca: Claro, te gravo um cd. E obrigada. Não são assim profissionais, mas é sempre bom ter outros ângulos da festa, né?

Carol continua passando as fotos até as do casório acabarem e ela passar a ver outras fotos aleatórias na câmera de Rebeca.

Carol: Nossa, essa está ótima! Onde foi?

Rebeca: Ah, foi no Arpoador – fala meio sem jeito por a Carol está vendo suas fotos.

Carol: Nem parece, ótimo ângulo. Você pode me mandar algumas dessas fotos também? Essa, essa, essa… – vai apontando – Ah, me manda todas, ou as que você achar melhor.

Rebeca: Tá certo, mas por quê?

Carol: Ah, eu também gosto de fotografias. Manda junto com as do casamento, se não for te dar trabalho.

Rebeca: Trabalho nenhum, imagina. Mas não vão faltar fotos nesse casamento, tem os fotógrafos oficiais, a imprensa…

Carol: Mas as suas são melhores. Falando em fotos, vem cá – diz, e sai puxando Rebeca pelo braço e abrindo caminho entre os convidados.

36. EXTERNA – NOITE – IATE CLUBE

Carol e Rebeca começaram a juntar os membros das duas famílias.

Com todos os Andrades e Pelegrinis apostos e o casal Carol e Roberto no meio, Rebeca dá o sinal positivo para o fotografo, e ele tira a foto histórica. Logo alguns fotógrafos da imprensa se aproximam e pedem mais poses da família e dos noivos.

Em seguida, segue-se mais cumprimentos ao casal. Quando Nora se aproxima da filha, puxa-a, afastando-se da multidão. Num lugar mais reservado, Nora começa.

Nora: Filha – já diz emocionada.

Carol: Sim, mãe.

Nora: Estou tão feliz por você.

Carol: Obrigada.

Nora: Sempre soube que um dia você encontraria alguém que te merecesse. Roberto é perfeito para você. Ele é seu equilíbrio. Já que você sempre foi meio desiquilibrada – brinca.

Carol: Valeu, mãe.

Nora: Estou orgulhosa de você. Do que já conquistou, da família que está construindo. Tenho certeza que será uma ótima esposa, uma ótima mãe e um grande exemplo para Larissa. Não importa tudo que você já passou, tudo que você já sofreu e perdeu… Quer dizer, importa, são aprendizados, nos fortalece, e nos guiam para o caminho certo. E tudo acontece no tempo certo. Sempre te disse isso. E desejo profundamente que seu caminho ao lado de Roberto te faça feliz.

Carol: Ah, mãe… – Carol se emociona com as palavras e abraça Nora.

 

37. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE SARA – GARAGEM

c Sara – Bob Dylan]

Sara estaciona o carro, e ela, Fernando, Gabriel, Eduardo e Rafaela saem do automóvel com caras de fim de festa.

Sara: Subam, que eu vou já. Quero conversar com o pai de vocês antes – ordena aos filhos.

Gabriel, Eduardo e Rafaela se despedem, preguiçosamente, do pai e seguem para o elevador.

Fernando e Sara ficam calados se encarando.

Fernando: Obrigado pela carona – quebra o silêncio.

Sara: De nada. Se quiser, te deixo em casa.

Fernando: Adoraria, mas posso pedir um táxi. Você parece cansada e já te explorei o bastante hoje.

Sara: Tá certo…

Fernando: O que você quer conversar comigo?

Sara o encara, antes de despejar.

Sara: O que você tá fazendo? – Fernando faz cara de que não está entendendo do que ela está falando – Nos últimos tempos parece que você… – Sara faz uma pausa, procurando as palavras certas – Parece que você está dando em cima de mim.

Fernando pensa por uns instantes.

Fernando: Eu estou dando em cima de você.

Sara: Por quê?

Fernando: Isso não é óbvio? – ri nervoso.

Sara: Não estou brincando, Ferdi. Já passamos por muita coisa, esses jogos são perigosos.

Fernando: Não posso evitar – fala, aproximando-se dela, erguendo a mão para acariciar seu rosto.

Sara: Claro que pode – desvia de Fernando – Não devemos fazer isso.

Fernando: Por quê?

Sara: Por quê?! Por favor, né, Fernando, estamos separados.

Fernando: Para de ficar repetindo isso.

Sara: É a verdade.

Fernando: Só se quisermos. – ele se aproxima mais uma vez e beija o pescoço de Sara.

Sara: Estou falando sério, não estou brincando – interrompe o movimento de Fernando.

Fernando: Nem eu, Sara. Você quer falar sério? Eu vou falar sério – respira fundo antes de continuar – Eu amo você. Nunca deixei de amar.

Sara: Você não pode… – Fernando a cala com um beijo que se prolonga por algum tempo.

Fernando: Não é só isso. Eu sei que você também ainda sente algo por mim, e estou disposto a tentar de novo. Nós somos um ótimo time, lembre-se.

Sara: Ferdi…

Fernando: Eu estou falando sério, Sara, estou sendo sincero, me expondo aqui… Seja também.

Sara fecha os olhos devagar. Ao abrir, visualiza Fernando. Seu Fernando, vulnerável e franco na sua frente.

Sara: Eu estou confusa acima de tudo. Mas claro que ainda sinto algo por você… Algo forte. – Fernando sorri, numa mistura de alívio e felicidade.

Fernando: É o suficiente para mim… Nossa, pareço um adolescente apaixonado.

Sara sorri.

Sara: Você ainda é o mesmo, mas não é mais o mesmo – Fernando fica sem entender – Parece que mudou para melhor.

Fernando: Você também. Se é que isso é possível.

Sara: Bobo.

Ela aproxima-se de Fernando, colocando os braços envolta do pescoço dele. Fernando, em resposta, a abraça pela cintura, de forma que seus corpos grudam um no outro e seus rostos ficam o mais próximo possível sem se tocarem. Ficam com os olhos fixos um no outro por um tempo, depois se beijam.

Fernando: Estava com saudades disso.

Sara alisa a nuca de Fernando, descendo as mãos para o seu peito, em seguida, encosta a cabeça nele, deixando suas mãos percorrerem as costas e a barriga de Fernando por baixo de sua camisa, fazendo movimentos lentos. Fernando apóia sua cabeça na de Sara e também deixa suas mãos vagarem por cima do vestido de Sara. Ela desencosta a cabeça do peito de Fernando e insinua que vai desabotoar a calça dele. Fernando segura as mãos dela.

Fernando: Não faz isso. Não aqui.

Sara: Você acha mesmo que eu faria isso na minha garagem? – solta uma gargalhada, colocando, com as mãos, seus cabelos para trás.

Fernando: Não, só está querendo me deixar louco – diz e a beija com vontade. – Agora eu aceito aquela carona – fala quase sem ar no final do beijo.

Sara afasta-se, pega seu celular e disca um número.

Sara: Alô, filho, tudo bem por aí? (…) Certo, cuida dos seus irmãos, coloca eles para tomar um banho, que vou deixar o pai de vocês em casa… e posso demorar. – Acrescenta olhando para Fernando que lhe sorri.

38. INTERNA – NOITE – HOTEL

Roberto adentra a luxuosa suíte com Carol em seus braços. Coloca-a na cama e fica por cima dela.

Roberto: Enfim, sós.

Roberto beija de leve os lábios de Carol, depois passa para o pescoço. Quando tenta, inutilmente, tirar o vestido dela, Carol se movimenta, querendo ajudá-lo na tarefa, mas acaba acertando seu cabelo, duro de laquê, no rosto do marido.

Roberto: Aí! – ele sente o golpe.

Carol: Desculpa, amor – diz acariciando o rosto de Roberto e em seguida passando a mão no cabelo dele – Nossa, quanto gel colocaram no seu cabelo?

Roberto: No meu? E o seu? E esse vestido que mais parece um cinto de castidade gigante? Ele é lindo, mas tá dificultando meu lado.

Carol ri.

Carol: Você ainda está cheio de arroz – diz, tirando alguns vestígios da roupa e do corpo de Roberto – Acho que precisamos de um banho.

O rosto de Roberto se ilumina.

Roberto: Ótima idéia! – diz, já puxando Carol pelo braço e a levando ao banheiro.

Chegando lá, ele liga a torneira para encher a banheira. Carol começa a tirar seu vestido, Roberto a ajuda, enquanto também tira sua própria roupa. Logo, os dois estavam completamente despidos, e trocam olhares cheios de desejo. Roberto beija e abraça Carol com uma das mãos, e com a outra, ele abre o box e liga o chuveiro.

Roberto: A banheira fica para a segunda rodada da noite – afirma sedutor e, em seguida, conduz Carol para debaixo do chuveiro, intensificando as carícias.

39. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE SARA / APARTAMENTO DE FERNANDO / CASA DA NORA / BARBOSA & LIMA / APARTAMENTO DE TOMÁS / HOTEL

Sara terminava de pôr o café da manhã para os filhos quando seu celular tocou. Vendo que era Fernando, ela se afasta, saindo da cozinha para falar à vontade.

Sara: Oi.

Fernando: Oi, bom dia! Dormiu bem?

Sara: Muito bem. E você?

Fernando: Bem, mas podia ser melhor se você estivesse ao meu lado.

Sara: E abandonar nossos filhos?

Fernando: Ótima desculpa. Eles já acordaram? Desconfiaram de algo?

Sara: Já acordaram, mas não desconfiam de nada.

Fernando: Sinto como se estivesse tendo um caso com a mãe dos meus filhos.

Sara: Você está tendo um caso com a mãe dos seus filhos.

Os dois riem.

Gabriel: Mãe, vem ver isso aqui no computador. Agora. – o menino grita de dentro do quarto.

Sara: Já vou, Gabs – responde – Ferdi, vou lá, devem ser as fotos do casamento que já saíram na internet.

No escritório da Barbosa & Lima, Carlos acabava de chegar e já visualizava Mônica apontando para tela do computador e chamando por ele.

Mônica: Saiu uma foto sua. Olha – aponta quando Carlos chega à mesa dela, mas o que mais chama a atenção de Carlos é a manchete no topo da página.

Carlos: O que significa isso?

Durante o café-da-manhã, Tomás lia o jornal com surpresa.

Tomás: Vi, olha isso. – fala tenso para a esposa.

Nora e Diva foram até a banca de jornal e compraram todos os jornais do dia. Esperavam ver as fotos do casamento quando, ansiosas, abriram um dos jornais e se deparam com a mesma manchete que Tomás lia. Os sorrisos dos lábios das duas sumiram. O box da matéria trazia sim fotos do casamento, com o título “Candidato se casa em bela cerimônia ao ar livre”, mas a manchete principal era: “Descobertos indícios de desvio de verba e tráfico de influência na campanha de Roberto Pelegrini”.

Algum tempo depois, em sua suíte, Carol despertava preguiçosamente. Roberto estava ao seu lado, observando-a.

Roberto: Bom dia, Carol Pelegrini.

Carol: Bom dia, Roberto Andrade.

Roberto ergue um pouco seu tronco para beijá-la. Carol faz uma breve careta ao final do beijo.

Carol: Hálito matinal. Estamos casados, agora tenho que me acostumar com isso – brinca.

Roberto, preocupado, tenta sentir o próprio hálito, soprando nas suas mãos fechadas em volta na sua boca.

Carol: Estou brincando. Não está tão ruim assim – diz, tirando as mãos do marido de seu rosto e as beijando. Roberto aproveita e acaricia o rosto de Carol.

Roberto: De qualquer forma, deixa eu ir escovar os dentes – anuncia, levantando-se da cama.

Roberto vai até o banheiro, lava o rosto e começa a escovar os dentes.

Carol: Já disse que sou a mulher mais feliz do mundo? – fala da cama, num tom mais alto para que Roberto possa ouvi-la.

Roberto vai até a porta do banheiro e sorri, ainda com a boca cheia de espuma. Depois termina de escovar os dentes e vai direto para cama, pulando em cima de Carol que solta um grito. Roberto começa a beijá-la, empolgado.

Roberto: E você me faz o homem mais feliz do mundo – diz, e vai girando na cama até alcançar seu celular que estava na cabeceira, Carol o detém com a mão.

Carol: Não, senhor, nada de celular por esses dois dias, lembra?

Roberto: Que esposa mandona eu fui arranjar.

Carol: Vai dizer que você não gosta? – diz, posicionando-se em cima de Roberto e tirando o celular da mão dele.

Roberto: Gosto não, AMO.

Continua…

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Uma resposta to “Na Alegria e Na Tristeza”

  1. Natie Says:

    Ah, finalmente o casamento… =D Adorei a riqueza de detalhes que vcs deram da cerimônia, só fiquei aqui imaginando as cenas dos Andrades e Pelegrinis juntos…

    Sara e Fernando!!!!!! Aeeeee! rs… Torcendo pra que dê realmente certo dessa vez!

    Junior no vestibular me trouxe alguns momentos do passado não tão agradaveis… rs… É horrivel fazer mil provas e com tanta gente competindo com vc…

    Gostei da ideia da Rebeca de fazer o Saulo e a Vera se encontrarem… Alguém tem que tomar uma atitude né? E deu vontade de ver as fotos que ele tava tirando do casamento…

    haha… Adorei a Nora e a Elaine com ciumes do neto! Quero ver mais cenas delas brigando, se possivel… rs… E por falar no Caio, espero que os primos não fiquem implicando com ele, coitado…

    AMEI a atitude do Carlos com os filhos do Diego! rs… Bem a cara dele!

    E escândalo no jornal! Algo me diz que Ernesto vai surtar…

    Até o próximo!

    Bjss…

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