Nos episódios anteriores: Nora sofre um acidente vascular e encontra-se no hospital após a cirurgia. Os filhos precisam enfrentar o medo de perder a mãe. Em coma, Nora tem importantes decisões a tomar.

 

01. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA

[¯ – Sina Nossa, O Teatro Mágico]

Sara estaciona o carro em frente a casa de Nora e foi para o outro lado ajudar sua mãe, que recebera alta naquela manhã, a descer do carro. Júnior e Carlos esperavam pela chegada das duas próximos às porta. Diva estava de repouso, no sofá, ainda se recuperando.

 

Sara: Carlos pega as malas no carro – disse ela jogando as chaves para ele – Júnior, o quarto do térreo já está arrumado?

 

Nora: Quarto do térreo? Eu vou ficar no meu quarto.

 

Sara: Mamãe, é só nas primeiras semanas, você deve evitar subir e descer escadas.

 

Nora: Se eu não estivesse bem, os médicos não me dariam alta.

 

Sara: Deixe de agir como criança mamãe. Em duas semanas você pode voltar para seu quarto.

 

Júnior: Mamãe… – ele envolve Nora em um abraço – Bem-vinda de volta.

 

Nora: Origada filho, estava com saudades da minha casa, da minha cama – ela fala olhando para Sara – Mas isso eu ainda vou ter que esperar mais um pouco.

 

Diva: Sabia que você voltaria logo, filha. – ela diz, esticando a mão para segurar a da filha e dando um apertão – Mas na próxima vez que tiver algum problema, não vá demorar para procurar um médico.

 

Sara: Não se preocupe, vó, vou me responsabilizar pessoalmente pelos cuidados médicos da mamãe de agora em diante.

 

Nora: Vocês agem como se eu fosse uma criança. – ela olha para o lado e vê Carlos juntando suas coisas – E você, não vai ficar nem um pouco?

 

Carlos: Eu preciso ir, mas volto mais tarde.

 

Nora: Venha cá e me dê um abraço antes de ir.

 

Carlos vai até a mãe e a abraça com cuidado, dando um beijo de leve no rosto e sai o mais rápido possível dali. Nora olha desconfiada para ele, mas logo volta sua atenção para Sara, indo em direção à cozinha, ela queria ir atrás, mas Júnior a impediu.

 

Júnior: Quer alguma coisa mãe? Água? Chá, Café? Você pode beber café?

 

Nora: Para e respira um pouco. Sim eu posso beber café, duas xícaras por dia, faz até bem ao coração, mas não quero nada além de saber o que sua irmã está fazendo.

 

Diva: Ela provavelmente está olhando o que está faltando e deixando uma lista sobre o que Júnior deve fazer.

 

Nora: O quê?

 

Diva: É, enquanto você estava no hospital e eu já tinha recebido alta, Sara vinha todo dia garantir que Júnior estava tomando conta de mim e da casa.

Júnior: Não foi bem assim, vó. Eu não saberia fazer muita coisa, ela ajudou bastante.

 

Nora: Mas eu estou de volta em casa.

 

Júnior: A senhora vai descansar e eu cuido de tudo. Por isso vamos logo sentando – ele olha para Diva – as duas. O controle da televisão está aí no sofá. Preferem um livro, jornal?

 

Diva: Está vendo só? Agora nos tratam feito crianças.

 

Júnior: São muito especiais e importantes, por isso cuidamos. Eu vou ver com a Sara as recomendações que o médico passou para não me enganar.

 

Júnior foi até a cozinha conversar com Sara e deixou as duas sentadas no sofá, olhando indignadas para ele.

 

02. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DE ROBERTO E CAROL – SALA

 

Roberto entra na sala para se despedir de Carol e a encontra rodeada de revistas de noiva, papéis e folhetos de salões de festa. Ela falava ao telefone e olhava alguma coisa no computador a sua frente. Ele aproveitou que ela olhou em sua direção e fez sinal que queria falar com ela.

 

Carol: Olha, preciso fazer uma coisa, mas te ligo daqui a pouco de volta para continuarmos. – ela desliga o telefone e olha para Roberto sorrindo – Já está saindo?

 

Roberto: Sim, mas vi você cercada de tantas revistas e papéis e resolvi perguntar se precisa de ajuda.

 

Carol: São só decisões e resoluções sobre o casamento, eu posso fazer isso sozinha.

 

Roberto: Sua mãe não ia ter alta do hospital hoje?

 

Carol: Sim, a Sara ia levá-la para casa. – ela responde voltando a atenção para os papéis espalhados. – Você tem alguma preferência de data ou lugar?

Roberto: Não, nisso eu sou como todo homem, me avisa o lugar e o horário e eu apareço com as alianças. – ele brinca, mas ainda preocupado com a atitude dela.

 

Carol: Ótimo. Eu aviso sim. Acha que a Larissa gostaria de ajudar? Acho que vou perguntar para ela.

 

Roberto: Sim, ela vai gostar. Eu pensei que você iria ou buscar sua mãe ou ir vê-la. Os Andrades não estão sempre juntos?

 

Carol: Depois eu vou vê-la, não se preocupe. O Júnior está em casa o tempo todo e, se precisar, ele me liga.

 

Roberto foi até Carol e deu um beijo carinhoso no rosto e saiu, deixando Carol ocupada com os preparativos do casamento, mas ainda assim preocupado com a atitude estranha de sua noiva.

 

03. INTERNA – DIA – JUIZADO DA INFÂNCIA E DA JUVENTUDE DO RIO DE JANEIRO

 

Vitória e Tomás escutam o juíz deferir em favor deles a guarda permanente de Caio e reavaliar o caso em seis meses para deferir a adoção do garoto. Eles sairam e se despediram da advogada que cuidava do caso.

 

Tomás: Então, alguém quer comemorar?

 

Vitória: Você não precisa voltar para a livraria?

 

Tomás: Eu deixei minha agenda vazia na parte da manhã. Podemos levar os papéis até a escola e depois ir almoçar.

 

Caio: Eu vou mudar de escola? – ele pergunta preocupado.

 

Vitória: Não. A não ser que você queira.

 

O menino balança a cabeça negativamente, aliviado com a resposta que recebeu. Tomás se agachou para ficar da altura do garoto e conversar com ele.

Tomás: Caio, você sabe que pode falar o que for com a gente, não sabe? – ao ver ele concordando com a cabeça continuou – Seu pai deixou um documento pedindo que eu e a Vitória cuidássemos de você e o juíz hoje assinou o papel dizendo que nós somos responsáveis por você.

 

Vitória: E em seis meses se o juíz achar que nós três ficamos bem nesse tempo, você passa a ser nosso filho pra sempre.

 

Caio: Mas e o meu pai? Ele não vai mais ser meu pai?

 

Tomás: Seu pai vai sempre ser seu pai, mas você vai ter a chance de ter outro pai. E outra mãe. – ele fala e sorri para Vitória.

Caio: A gente pode ir almoçar? Minha barriga tá doendo de fome.

 

Os dois riram e seguiram até o carro e foram almoçar.

 

04. INTERNA – DIA – AGÊNCIA VERUS – DIA

[¯ – Falling Is Like This, Ani DiFranco]

 

Rebeca estava conferindo se as fotos estavam todas no portifólio que seria apresentado naquela tarde para o cliente e decidirem quais as fotos seriam utilizadas na campanha. Ela estava tão concentrada que não percebeu a presença de Murilo.

 

Murilo: Planeta Terra para Rebeca! – ele brincou, falando com uma voz meio robótica.

 

Rebeca: Murilo, oi! Não te vi chegando.

 

Murilo: Eu percebi. O que está fazendo é muito importante?

 

Rebeca: Um pouco, por quê?

Murilo: Meu assistente não veio e preciso de alguém para me ajudar com o ensaio fotográfico da revista de moda. O que acha?

 

Rebeca: É claro, mas preciso avisar que…

 

Murilo: Já falei que você viria comigo.

Rebeca: Convencido, não?

Murilo: Não, só que sei quando minha oferta é boa.

Rebeca: E agora arrogante. – ela fala em tom de brincadeira e sorrindo.

 

Rebeca entrega o trabalho que estava realizando para um estagiário, antes de sair conversando e rindo ao lado de Murilo.

 

 

05. INTERNA – DIA – BARBOSA & LIMA – ESCRITÓRIO DE CARLOS

 

Carlos almoçava em seu escritporio com Pâmela e Mônica. Os três conversavam sobre os outros colegas de trabalho, assuntos cotidianos e relacionamentos.

 

Mônica: Então Carlos, como está o médico bonitão?

 

Carlos: Já disse para não chamá-lo assim, o nome dele é Diego. Doutor Diego para você. – ele fala olhando para sua secretéria e depois para Pâmela e apontando o dedo para ela – Para você também.

Pâmela: Ai Carlos, credo.

 

Carlos: Credo nada, você agora está de rolo com meu irmão caçula, é bom se comportar bem.

 

Mônica: O quê? Como não sabia disso?

 

Pâmela: Não é nada, o Carlos que está exagerando.

Carlos: É? Vou comentar isso com o Júnior.

 

Pâmela: Não vai nada! Te proíbo, ou olha que tenho alguns segredinhos para contar para o doutor Diego.

 

Os três deram risadas.

 

Mônica: Carlos, o que você está sabendo desse novo caso que a firma vai defender?

 

Carlos: Não sei muito, mas para a Guilhermina está diretamente nele, deve ser um cliente bastante exclusivo.

 

Pâmela: Ouvi conversas de que o bônus pode chegar a casa das centenas de milhares.

 

Eles continuavam confabulando sobre o novo cliente e as fofocas rolavam no escritório.

 

 

06. INTERNA – DIA – CORREDORES DA UFRJ/ESTÚDIO DE GRAVAÇÃO – TELEFONE

 

Sara equilibrava uns livros em um dos braços, no ombro a bolsa e a mão junto ao ouvido, segurando o telefone. Vez ou outra respondendo com um aceno da cabeça o cumprimento de um aluno.

 

Sara: Você pode mesmo pegar as crianças na escola? Sei que é de última hora, mas atrasaram a reunião de departamento em uma hora, o que vai me deixar presa aqui até um pouco mais tarde.

Fernando: Não se preocupe, Sara, eu pego as crianças e levo para sua casa.

 

Sara: Obrigada mesmo Ferdi, fico te devendo.

 

Fernando: Pode parar com isso, eles são meus filhos também e a responsabilidade é tão minha quanto tua. Mudando de assunto, como está sua mãe?

 

Sara: Sabe como ela é, quer fazer tudo, acha que pode fazer tudo, mas com o Júnior em casa estudando, vai ser mais tranquilo controlá-la.

 

Fernando: Se ela está assim, já está bem. Pelo menos para a gravidade que ela esteve durante a cirurgia e logo depois.

 

Sara: Não quero nem pensar se tivesse acontecido algo mais grave.

 

Ela escutou uma conversa e a risada no fundo.

 

Fernando: Eu preciso desligar agora, mas não se esqueça, o que precisar, é só me telefonar, para o que for.

Sara: Obrigada mesmo, Ferdi.

 

Ela encerra a ligação sorrindo. Fernando sempre soube como tranqulizá-la nos momentos de crise. Ela joga o aparelho na bolsa e se surpreende quando encontra Marcelo próximo à porta da sala onde daria aula.

Sara: O que está fazendo aqui? – perguntou enquanto desviou do beijo que ele se inclinou para dar nela.

 

Marcelo: Eu sabia que você daria aula aqui e resolvi te esperar para te ver, parece que não tem mais tempo para mim.

 

Sara: Minha mãe acabou de passar por uma cirurgia cardíaca, eu fiquei responsável por cuidar de tudo, além dos meus filhos e minhas aulas. Eu não tenho tempo nem para mim, Marcelo.

Marcelo: Poderia me ligar e pedir ajuda. Quantas vezes eu liguei para saber como estava?

 

Sara: Você não tem muita intimidade com a família e ainda tem as crianças…

 

Marcelo: Claro, claro…

 

Sara: Eu preciso entrar para dar minha aula.

 

Marcelo se inclina mais uma vez para beijá-la, e dessa vez ela aceita, mas não deixa que dure mais que uns segundos. Ela dá uma sorriso amarelo e entra na classe, deixando-o do lado de fora.

 

 

07. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS/CASA DOS ANDRADES – TELEFONE

 

Tomás aproveita os cinco minutos entre uma reunião e outra para ligar para a casa de Nora e saber notícias e contar a novidade sobre Caio.

 

Nora: Alô?

 

Tomás: Mamãe? Como vai?

 

Nora: Filho, oi! Estou bem, mas entediada. Não faço nada que não seja ler ou assistir televisão.

 

Tomás: Vai com calma dona Nora. Passou um susto muito grande em todos nós. Quando nosso medo diminuir e o médico liberar, você volta a ter sua vida normal.

 

Nora: Eu sei, pode deixar que vou me cuidar.

 

Tomás: Isso mesmo, afinal a senhora acabou de ganhar um novo neto e precisa ficar bem para ele ter a chance de conhecer e aproveitar da vó Nora.

 

Nora: A audiência foi hoje?

 

Tomás: Sim. Hoje de manhã. O juiz nos concedeu a guarda permanente e em seis meses ele vai reavaliar o caso e conceder a adoção.

 

Nora: Parabéns, meu filho. Você e a Vitória serão ótimos pais para o Caio e tragam ele logo para me ver em casa.

 

Tomás: Pode deixar. Acho que só durante o final de semana, não queremos mudar a rotina que ele está começando a se acostumar.

 

Nora: Eu ia ligar para você. Precisamos conversar. – ela muda o tom de voz e fala mais séria.

 

Tomás: Algum problema, mamãe?

 

Nora: Não é nada grave, mas uma decisão que tomei enquanto estava no hospital.

 

Tomás: Eu vou sair um pouco mais tarde da livraria, mas passo aí hoje mesmo se quiser.

 

Nora: Não precisa de pressa, quando vier me ver e trazer o Caio, a gente conversa.

 

Os dois conversam mais um pouco e se despedem.

 

 

08. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

 

Júnior levantava da cadeira pela décima vez num espaço de duas horas para ver como estava Nora e Diva e saber se precisavam de alguma coisa ou para dar o remédio no horário certo. Naquelas duas horas, não tinha conseguido ler mais que cinco folhas do livro de História.

 

Júnior: Mamãe, está na hora do remédio. – falava enquanto entregava para ela o comprimido e o copo de suco.

 

Nora: Não esqueci como olhar a hora, meu problema foi no coração e não na cabeça.

 

Júnior: Mas parece que afetou o humor, não é mesmo?

 

Nora: Não estou mal humorada.

 

Diva: Minha Nossa Senhora! Imagina como vai ser quando estiver mal humorada.

Júnior: O que as duas acham de dar uma caminhada na rua de braços dados comigo?

 

Diva: Nora pode fazer isso?

 

Júnior: Sim, vó. Não pode andar desacompanhada nas primeiras semanas, ou até mesmo muito. 500 metros e só.

 

Nora: Já é alguma coisa. – ela fala já se levantando e indo em direção à porta.

 

Júnior olha para os livros abertos no escritório e os deixa de lado para ir dar uma pequena caminhada com sua mãe e sua avó.

 

 

09. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA – SALA

[¯ – Littlest Things, Lily Allen]

 

Sara chega em casa e encontra as luzes da sala acesa, mas o apartamento todo em silêncio. As mochilas encostadas na parede, cadernos e livros em cima da mesa. Ela segue até a cozinha e na porta da geladeira, o papel com o recado escrito com a letra de Fernando avisando que saíram, mas voltariam logo. Ela então decide aproveitar a ausência deles para tomar um banho e relaxar antes deles voltarem e ela passar um tempo com os filhos.

 

 

10. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO TOMÁS – SALA

 

Tomás chegou um pouco mais tarde em casa e encontrou Vitória assistindo o jornal e Caio deitado no chão brincando com um de seus brinquedos.

 

Tomás: Boa noite!

 

Vitória: Oi meu amor. Estava demorando tanto que jantamos antes de você, mas a mesa ainda está posta.

 

Tomás: Fizeram bem. As reuniões duraram mais do que imaginei. Vou tomar um banho antes de comer alguma coisa.

 

Ele deu um beijo leve nos lábios de Vitória e afanou a cabeça de Caio, atrapalhando o cabelo dele. Enquanto seguia para seu quarto, viu a porta do quarto do bebê fechada e voltou e foi até Vitória perguntar sobre aquilo.

 

Vitória: Eu que fechei. Não achei que seria bom para ele ver o quarto vazio o tempo todo. – ela explicou com a voz mais baixa.

Tomás: Mas não conversamos que ele precisa ficar em outro quarto e não no nosso? E com ele ocupando, não fica mais vazio.

 

Vitória: Não no quarto do Tiago. Ele não é substituto para nosso filho, Tomás.

Tomás: Vamos conversar sobre isso mais tarde. – ele disse levantando-se e não querendo prolongar o assunto com o garoto tão perto escutando.

 

 

11. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DA SARA – SALA

[¯ – Littlest Things, Lily Allen]

 

Sara saiu do banheiro com uma toalha secando o cabelo e escutou as vozes e risadas dos filhos. Entrando na sala, percebeu as sacolas e as crianças juntado o material escolar para colocar a mesa. Fernando foi o primeiro a perceber a presença dela.

 

Fernando: Sara, oi. Que bom que já chegou. Sai com eles para comprar o jantar e algumas coisas que vi que estavam faltando.

 

Sara: Deus! Esqueci completamente que tinha que passar no supermercado antes de vir para casa.

 

Fernando: Problema resolvido. – ele disse sorrindo.

 

Sara: Me diga quanto te devo.

 

Fernando: Eu não vou me ofender só porque sei que essa não foi sua intenção. Venha, vamos jantar.

 

Sara: Mas você não tem que fazer compras para a casa.

 

Fernando: Assunto encerrado, Sara. Vamos, venha, as crianças estão esperando.

 

A mesa já estava posta e os gêmeos sentados enquanto Gabriel terminava de colocar a comida na mesa. Sara deu um beijo carinhoso no topo da cabeça dos menores e um beijo na testa do mais velho e todos sentaram-se a mesa. Ela olhou em volta e pensou que aquele momento era como antes, quando ela e Fernando ainda estavam casados.

 

 

12. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

 

A televisão estava ligada e o jornal passando notícias do dia. Diva horrorisada com tanta violência e Nora comentando sobre as políticas públicas de segurança.

 

Júnior: Não sei por que ficam vendo essas notícias durante a noite.

 

Diva: Ora, sua mãe insiste. Eu preferia ver uma novela qualquer a isso.

 

Nora: A novela começa depois do jornal, mãe. Assim eu fico contente e a senhora também. – e mais baixo ela continuou – Não que vá ver alguma coisa já que dorme a novela inteira.

 

Diva: Falou alguma coisa?

Nora: Não, nada.

 

Júnior deu risada da atitude da mãe. Lembrou-se que Carol fazia a mesma coisa com Nora.

 

Júnior: Deve ser uma coisa entre mães e filhas.

 

Nora: Você não devia estar estudando?

 

Júnior: Já vou voltar, só vim ver se estavam bem.

 

Diva: Tão bem como há 15 minuto. E não pense que estou surda, Nora, eu só fecho os olhos para descansar a vista.

 

A campainha toca e Júnior vai ver quem era aquela hora e deixa as duas discutindo. Ele abre a porta para Carlos, que vai logo sentar entre as duas senhoras, enquanto ele sorri ao ver Pâmela parada na varanda.

 

Júnior: Então o Carlos agora está fazendo serviço de cupido?

 

Pâmela: Na verdade, ele foi chantageado a vir e me trazer.

 

Os dois deram risada e se abraçaram.

 

Pâmela: Então, como está sua mãe? O Carlos não fala muito.

 

Júnior: Está bem, só incomodada por não poder fazer tudo o que fazia antes.

 

Pâmela: E você? Como está segurando essa barra?

 

Júnior: Muito bem. – ele viu ela arqueando a sobrancelha duvidando da resposta – Está bem, estou um pouco preocupado, mas é só isso.

Pâmela: Você e Carlos são mais parecidos do que acham. Ficam querendo aparentar um coisa, sentindo outra, mas eu já conheço esse truque e comigo não funciona.

 

Júnior ficou calado e segurou a mão dela contente com a presença dela ali, não sabia que precisava conversar com alguém até então.

 

Júnior: Acho que ainda estou um pouco assustado e com medo de tudo que aconteceu.

 

Pâmela: É normal se sentir assim. Como vão os estudos?

 

Júnior: Sei lá – ele responde balançando os ombros – Acredita que não li mais que dois capítulos do livro de história estudando o dia todo?

 

Os dois ficaram conversando mais alguns minutos enquanto Carlos respondia monossilábico às perguntas da mãe e da avó sobre seu comportamento estranho.

 

 

13. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO CARLOS/APARTAMENTO DE ROBERTO E CAROL – TELEFONE

 

Carlos acordou assustado com seu telefone tocanodo. Ainda não tinha dado 7 horas da manhã e já começou a se preocupar achando que Nora pudesse ter tido uma recaída.

 

Carlos: Alô?

 

Carol: Bom dia!

 

Carlos: Carol? Você viu que horas são? Está louca?

 

Carol: Nossa que mau humor. Estou ligando para convidar para almoçar e depois ir me ajudar com algumas coisas do casamento.

 

Carlos: O quê?

 

Carol: Isso mesmo que ouviu. Te espero no seu restaurante favorito. Uma da tarde está bom?

Carlos: Eu nem disse se posso ir.

 

Carol: Eu vou escolher meu vestido de noiva.

 

Carlos esfregou o rosto para espantar o resto do sono e tentar entender melhor aquela conversa. Carol, almoço, vestido de noiva. Quando aquelas três palavras fizeram sentido em sua cabeça, ele sorriu.

 

Carlos: Marcado, mas com uma condição.

 

Carol: Qual?

 

Carlos: Você vai ouvir meus conselhos dessa vez.

 

Carol: Só ouvir? Tudo bem. Tchau.

 

Ele ouviu o clique do tefone e deitou sobre os travesseiros e sorriu pensando como Carol sempre fazia ele se divertir e se sentir melhor, talver um dia com ela era tudo que precisava.

 

 

14. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

 

Nora aproveitou que Júnior se distraiu indo abrir a porta e foi até a cozinha. Estava cansada de ficar sentada e resolveu ir até o quintal dar uma volta. Como estava caminhando mais devagar devido à respiração mais curta, Júnior e Sara chegaram até a cozinha antes que pudesse sair.

 

Júnior: Mamãe? Está querendo fugir é?

 

Nora: Como adivinhou? – perguntou sarcástica.

 

Sara: O guarda da prisão está muito froxo – ela entrou na brincadeira sem deixar de chamar a atenção do irmão.

 

Júnior: O guarda estava ajudando a diretora do presídio a carregar as compras. Mamãe, sabe que pode andar um pouquinho, só me chamar que te faço companhia. – virou-se para Sara e complementou – Você devia ter uma chave para entrar aqui e assim não tirava minha atenção.

 

Diva: Por Deus, não. Se ela já manda aqui nessa casa sem a chave, imagina com uma.

 

Nora: Concordo.

 

Sara: Que bom, hoje é dia de todos implicarem com a Sara. Se a Carol não estivesse tão ocupada – fez sinal de aspas com os dedos ao dizer a última parte – eu não precisaria parecer a dona da casa.

 

Nora: Sua irmã deve estar sim ocupada. O Roberto se candidatando e a campanha política começando.

 

Diva: Pena que meu título já foi cancelado, ou votaria no Roberto.

 

A conversa continua por mais um minutos na cozinha até que Sara vai embora.

 

 

15. INTERNA – DIA – QUATRO ESTAÇÕES – ESCRITÓRIO DE VERA

[¯ – Hardest of Hearts, Florence and The Machines]

 

Vera larga o documento que lia, tira os óculos do rosto e esfrega os olhos. Já estava concentrada naquilo há quase duas horas. Levantou o rosto e olhou para o escritório escuro em frente ao seu. Saulo pediu uns dias de folga para cuidar de sua família, mas ela sabia bem que ele estava fora do Rio de Janeiro. Ela sentia falta de Saulo, da companhia, das conversas durante o expediente, as brincadeiras. Sentia-se sozinha e era somente sua culpa. Ela deixou os pensamentos de lado quando um funcionário bateu à porta para falar com ela.

 

 

16. INTERNA – DIA – RESTAURANTE

 

Carol já estava sentada em uma mesa e bebericando um suco quando Carlos apareceu. Ela acenou e ele seguiu até a mesa.

 

Carlos: Quase não conseguia sair do escritório. Aquilo lá está uma loucura com o caso novo que chegou.

 

Carol: Nada de conversa sobre trabalho. O resto do dia você só vai se preocupar em me ajudar a escolher meu vestido de noiva.

 

Carlos: Nunca me senti tão gay como hoje. Sabe que está usando do esteriótipo para me convidar para isso?

 

Carol: E eu errei? Era você ou a Sara, como ela está ocupada demais, só me restou você.

 

Carlos: Nossa, muito obrigado.

 

Carol: Não foi nada. Vamos escolher logo, estou com muita fome.

 

Os dois escolheram os pratos e fizeram o pedido ao garçom. Enquanto esperavam, Carol contava sobre os muitos salões e buffets que tinha selecionado e dizia que casar era uma tarefa muito complicada. Carlos olhava estranhando tudo aquilo. Carol nunca tinha feito o estilo de noiva dedicada e obsessiva, mas decidiu não comentar nada. Assim que a comida foi servida, eles provaram e o assunto mudou para culinária e logo depois para Nora.

 

Carlos: Sabe que eu sinto falta da comida da mamãe? Parece brincadeira. Eu chegava lá e logo ela já vinha querendo me fazer comer e agora é estranho chegar em casa e vê-la sentada sem poder fazer nada.

 

Carol: Como ela está? De verdade?

 

Carlos: Você olhando pela cara ela está como antes. Você já foi vê-la depois que ela saiu do hospital?

 

Carol: Não. Eu não consegui.

 

Carlos: Ocupada demais com o casamento?

 

Carol: Só me ocupo com o casamento para ter um desculpa na verdade. Não consigo ver a mãe assim, sem poder fazer nada, vendo TV ou lendo o dia inteiro.

 

Carlos: Eu sei como é, tenho até medo de conversar com ela e ela sentir mal novamente.

 

Os dois continuaram conversando. Era a primeira vez que Carol conversava com alguém sobre como sentia-se com a doença da mãe, sentia-se um pouco mais aliviada ao perceber que Carlos, de uma certa forma, também não sabia como agir.

 

 

17. INTERNA – DIA – LIVRARIA ANDANÇAS/APARTAMENTO DA SARA – TELEFONE

 

Tomás estava cercado por documentos, ordens de pagamento e pedidos que precisavam ser lidos e assinados. Ainda não conseguia conciliar os horários para a família e para o trabalho, e precisava ainda ir ver a mãe depois que ela teve alta do hospital. Resolveu procurar Sara para pedir um pouco de ajuda, nem que fosse por umas poucas horas.

 

Sara: Alô? – ela atendeu depois de três toques.

 

Tomás: Sara. Estou atrapalhando?

 

Sara: Não, hoje não dou aula, estou em casa corrigindo uns trabalhos dos meus alunos. O que foi?

Tomás: Eu sei que anda muito ocupada cuidando da mamãe, seus filhos e o trabalho, mas será que você consegue dispor de umas horinhas para mim?

 

Sara: Algum problema com a Vitória ou o Caio?

 

Tomás: Nenhum, além de não conseguir me organizar entre trabalho e casa. Eu preciso de alguém que entenda o funcionamento da livraria para me ajudar com uns documentos.

 

Sara: É de extrema urgência?

 

Tomás: Um pouco, mas nada que não possa esperar uns dois dias.

 

Sara: Olha, hoje é impossível eu ir, preciso mesmo terminar a correção dos trabalhos e o Ferdi não pode buscar as crianças hoje. – ela fala enquanto olha sua agenda – Amanhã eu dou aula no período da manhã, e à tarde eu ia procurar um fisioterapeuta para a mamãe, mas vou ligar para a Carol e ela pode fazer isso e eu vou até a livraria.

 

Tomás: Você vai me salvar. Nem sei como agradecer, Sara.

 

Sara: Que isso, logo retorno confirmando.

 

 

18. INTERNA – DIA – ATELIER CRISTINA SOUTO – SALÃO DE PROVAS

 

Carol tinha escolhido vários modelos para provar e Carlos dava sua opinião em cada um que ela provava. Ainda estava vestindo um outro modelo quando seu telefone toca.

 

Carlos: Carol, é a Sara ligando. Vou atender. – ele pega o aparelho e coloca junto ao ouvido – Oi Sara!

Sara: Carlos? O que está fazendo com o telefone da Carol?

 

Carlos: Nada, ela me chamou para vir com ela escolher o vestido de noiva… – ele então viu Carol balançando as mãos freneticamente para ele não falar nada.

 

Sara: Carlos? Carlos? Ainda está aí?

 

Enquanto Sara chamava por ele, Carlos pedia desculpas a Carol por não ter visto ela acenando antes e entrega o telefone.

 

Carol: Oi Sara, sou eu. O que foi?

 

Sara: O que está acontecendo com você, Carol? Mal aparecia no hospital para ver a mamãe, ainda não foi vê-la.

 

Carol: Eu preciso planejar meu casamento, o que você quer? – ela pergunta impaciente.

 

Sara: Eu preciso que você procure um fisioterapeuta para a mamãe, de preferência um que esteja acostumado a trabalhar com pacientes com problemas cardíacos.

Carol: Para quando você quer isso?

Sara: Amanhã. Eu ia fazer isso, mas o Tomás precisa da minha ajuda na livraria.

 

Carol: Sara, me desculpe, mas eu já tenho meu dia amanhã cheio de visitas a buffets e a salões de festa para o casamento.

 

Sara: Se esse casamento está consumindo todo o tempo que você tem para sua família, talvez você devesse adiar a data, ou fazer algo mais simples. Não é como se você sempre quisesse um casamento de rainha.

 

Carol: Por que está fazendo isso Sara? Querendo me fazer sentir-me mal por querer ter um casamento bonito?

 

Sara: A mamãe não está bem para uma festa como essa.

 

Carol: Eu não vou me casar semana que vem, Sara, e a mamãe está fora de perigo. Talvez você devesse relaxar um pouco.

 

Sara: E talvez você devesse se preocupar mais com sua família.

 

As duas desligaram o telefone ao mesmo tempo, sem se despedirem. Carol sentou-se chateada no banco e Carlos querendo amenizar a situação tentou alegar a irmã.

 

Carlos: Se eu tiver direito a um veto, uso ele nesse vestido.

 

Carol: Qual o problema com ele? – ela olha para o vestido e para o irmão.

 

Carlos: Parece mais que você vai virar freira do que casar. Anda, entre lá e vista o próximo modelo.

 

Eles se abraçam e ela segue para o provador enquanto Carlos senta e passa a mãos nos cabelos, sabendo que receberia uma ligação não muito amistosa de Sara.

 

 

19. INTERNA – DIA – ESTÚDIO DE FOTOS

[¯ – Falling Is Like This, Ani DiFranco]

 

As modelos estavam trocando de roupa e retocando a maquiagem enquanto Rebeca rearranjava o cenário e depois colocava as lentes que Murilo tinha escolhido e trocava os cartões de memória.

 

Murilo: Então, o que está achando?

 

Rebeca: Está ficando muito bom, mas você já sabe disso.

 

Murilo: Segura isso. – ele entregou uma máquina para ela.

 

Rebeca: O que precisa que eu faça?

Murilo: Você decide.

 

Rebeca: O quê?

 

Murilo: Vai, quero ver como você vai fazer as fotos com a lente que quiser, comandar as modelos como achar melhor.

 

Rebeca: Mas…

 

Murilo: Você é muito talentosa e tem visão para fotografia. Vai lá e faz o que quiser, quem sabe eles não gostam de alguma de suas fotos?

 

Rebeca levantou-se apressada e feliz, antes de decidir como faria suas fotos, ela abraçou e deu um beijo no rosto de Murilo.

 

Rebeca: Obrigada.

 

20. INTERNA – DIA – UFRJ – CENTRO DE PESQUISAS ECONÔMICAS E MARKETING

 

Sara entrou na sala onde a Empresa Júnior funcionava e encontrou Marcelo, que conversava com uma aluna. A princípio parecia algo normal e ela não deu importância, mas a garota logo começou a se insinuar para ele, que não a afastou e ainda instigou. Para não fazer muita cena, ela largou seu material em cima da mesa para fazer barulho. Não demorou muito a garota foi embora.

Marcelo: Não sabia que viria hoje.

 

Sara: Eu percebi. – ela fala irônica.

Marcelo: O que quer dizer?

 

Sara: Ora Marcelo, não se faça de bobo. Eu vi como aquela garota estava se jogando sobre você.

Marcelo: E?

 

Sara: Eu sabia de sua fama antes da gente começar a namorar, mas achei que pelo menos teria coragem de terminar tudo se queria ir atrás de outra.

Marcelo: Eu não quero terminar, parece que quem está procurando uma desculpa para terminar é você, Sara. Estou tentando ficar ao seu lado, mas você está sempre me afastando.

 

Sara: Os problemas de saúde da minha mãe, mais meus filhos…

Marcelo: Eu deveria ser a pessoa que você usaria para te ajudar e te confortar, mas não é isso que acontece.

Sara: É muito complicado.

Marcelo: Pois eu acho que é bem simples, você precisa decidir o que quer e logo. Não é um ultimato, você tem que resolver logo. Não é justo comigo ou com você ficar na espera.

 

Ele deu um beijo amistoso no rosto de Sara e deixou a sala e ela ficou a princípio surpresa com o rumo da conversa, mas depois começou a pensar tentando decidir o que fazer.

 

 

21. INTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – SALA

 

Nora surpreendeu-se quando Davi chegou para visitá-la. Ela recebeu sorrindo o arranjo de orquídeas que ele levou para ela.

 

Davi: Como está Nora?

 

Nora: Bem melhor. Ainda sinto que não tenho a mesma força de antes, mas estou recuperando. Acho que é lento assim mesmo.

 

Davi: Imagino como deve sentir-se já que é muito agitada e independente.

 

Nora: Sinto como prisioneira dentro da minha casa, mas não posso reclamar, não é mesmo?

 

Davi: Não, de jeito nenhum.

Nora: Pensei que já tivesse ido para Portugal.

Davi: Eu adiei minha viagem. Estava em São Paulo resolvendo uns problemas de utima hora e quando liguei para me despedir me disseram que você estava no hospital. Resolvi ver como você estava.

 

Nora: Não foi dessa vez ainda que ficaram livres de mim. – ela brinca.

 

Davi: Não fale assim, Nora.

Nora: Tudo bem, mas você agora pode ir tranquilo, estou bem.

 

Davi: Estava pensando em não ir mais.

 

Nora: Por quê?

 

Davi: Poderia ficar, te ajudar a se recuperar, fazer companhia. Sabe que gosto de você Nora.

 

Nora: Não. Você não vai só fazer um trabalho, vai também ficar junto da sua filha. Se eu não tivesse tido nada disso, você teria ficado? – ela esperou a resposta dele que não veio – Percebe o que eu quero dizer?

 

Davi: Sim.

 

Nora: Você vai para Portugal. A tecnologia hoje é tão avançada, podemos nos comunicar por e-mail e por telefone.

 

Davi: E quando eu voltar…

 

Nora: Quando você voltar, veremos como tudo vai estar.

 

Eles ainda conversaram por mais um tempo, até que ele precisou ir embora, não sem antes se despedirem com um forte abraço.

 

 

22. INTERNA – NOITE – ESTÚDIO DE FOTOS

[¯ – Falling Is Like This, Ani DiFranco]

 

A sessão de fotos para o editoria tinha terminado e Murilo estava ainda mais impressionado com Rebeca e as boas idéias que tinha. Os dias trabalhando juntos também aproximaram bastante os dois.

 

Murilo: Eu quero você na reunião de segunda para apresentar essas fotos. Eles precisam conhecer o talento que você tem.

Rebeca: Eu não vou recusar a oportunidade. – ela sorriu e abaixou para pegar a bolsa que estava no chão.

 

Murilo: Vai fazer alguma coisa hoje?

 

Rebeca: Nada especial.

Murilo: Às onze eu passo para te pegar?

Rebeca: Para ir onde?

Murilo: Na inauguração de uma boate. – ele sorriu – Não vale dizer que não.

Rebeca: Tudo bem. – ela sorriu enquanto mexia no celular e saiu andando.

 

Não demorou muito o celular de Murilo apitou e ele viu a mensagem que Rebeca tinha enviado com seu endereço.

 

 

23. INTERNA – NOITE – LIVRARIA ANDANÇAS – ESCRITÓRIO

 

Tomás e Sara estavam concentrados nos documentos. A pilha já tinha diminuído consideravelmente desde que ela tinha chegado e logo teriam terminado tudo.

 

Tomás: Não sei como agradecer, Sara.

 

Sara: Que isso. Eu senti saudades disso, de trabalhar junto com você.

Tomás: Não acredito no que estou ouvindo! – ele zombou.

 

Sara: A gente discutia um pouco, mas sempre ttrabalhamos bem juntos e você devia saber disso. Demorei a deixar a livraria por sua causa, porque não queria pensar em como seria não trabalhar ao seu lado. – ela sorriu para ele.

 

Tomás: Eu sinto sua falta também, principalmente dos momentos de tranqulidade, tomar um café e jogar conversa fora, falar dos outros irmãos.

 

Sara: Como você, Vitória e Caio estão se adaptando à vida em família?

 

Tomás: Devagar, mas não é tão complicado assim. Não mais do que imaginei. Acho que devido a tudo que passou, Caio é um garoto mais introvertido.

 

Sara: Dê tempo ao tempo. Em alguns meses ele vai deixar você e Vitória de cabelos em pé.

 

Os dois riram juntos e entre conversa e trabalho em menos de uma hora conseguiram acabar com as pilhas de papéis que se acumularam na mesa de Tomás.

 

 

24. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – SALA/ESCRITÓRIO

[¯ – Sina Nossa, O Teatro Mágico]

Nora esperava na porta enquanto Tomás entrava com Vitoria e Caio. O menino vinha na frente, um pouco tímido, carregando flores e ela sorriu carinhosa.

 

Caio: São para você, para ficar boa logo.

 

Nora: Muito obrigada, são lindas.

 

Caio: Gostou? Eu que escolhi.

 

Nora: Então são ainda mais bonitas, vou colocar em um vaso bem bonito e colocar no meu quarto.

 

O menino assentiu e entrou em casa. Logo depois Nora cumprimentou Vitória e depois seu filho. Os três entraram, Júnior já estava distraindo o garoto enquanto os três adultos entravam em casa. Nora puxou o filho até o escritório para conversarem.

 

Tomás: Então, o que de tão importante precisava conversar?

 

Nora: Eu quero fazer um testamento.

 

Tomás: Tudo bem, mas o advogado da família é o Carlos. – ele responde surpreso com o pedido da mãe.

 

Nora: Se eu falar isso com o Carlos, ele já vai voltar comigo para o hospital, não conhece seu irmão?

 

Tomás: Tem razão. – ele deu risada – Acho melhor usar o mesmo advogado que cuidou da papelada depois da morte do papai, o que acha?

 

Nora: Sim, sim. Ele fez um ótimo trabalho, considerando a bagunça que Guilherme deixou para trás.

 

Tomás: Entrarei em contato com ele na segunda-feira de manhã e peço para ele vir até aqui.

 

Nora: Lembre ele de não comentar nada com o Carlos, por enquanto, não por agora.

 

Tomás: Pode deixar. Quer eu eu venha também?

 

Nora: Sim, é bom você estar perto para ajudar com os documentos que precisar.

 

Tomás concordou com a cabeça e se encostou na poltrona. Ele queria conversar com a mãe, pedir conselhos, mas não queria sobrecarregá-la com seus problemas.

 

Nora: O que foi?

 

Tomás: O quê? Nada.

 

Nora: Você está com cara de que quer me contar alguma coisa.

 

Tomás: Não é nada.

 

Nora: Eu não sou de vidro, Tomás, e estou bem. Você e seus irmãos precisam parar de me tratar como se fosse quebrar a qualquer momento.

 

Tomás: Você não sabe o susto que nos deu. – ele viu as feições da mãe e decidiu conversar – A Vitória e eu temos uma diferença de opinião sobre o Caio.

 

Nora: Todos os pais passam por isso. O que vocês estão discordando?

 

Tomás: Ela não quer que o Caio fique no quarto que seria do bebê. Ela acha que talvez o Caio pense que está substituindo o Tiago, mas acho que talvez ela que se sinta como estivesse substituindo ele. Acontece que ele está dormindo numa cama no nosso quarto e não sei o que fazer.

 

Nora: Vocês precisam conversar, os dois. Deixar claro o que sentem do Caio ir ou não para o quarto. Ele nunca vai substituir o bebê que vocês perderam, mas ficar um quarto fechado e sem uso é bobagem. Sentimentos são guardados na memória e no coração. E também deveriam conversar com o garoto e ver o que ele pensa, mas ele não pode ficar dormindo com vocês.

 

Tomás: Obrigada mãe. Precisava mesmo do seu conselho.

 

Nora: Você e Vitória vão ser ótimos pais, tenho certeza. E se precisarem, podem sempre vir conversar comigo.

 

Tomás se levantou e abraçou a mãe, mais forte que o normal, beijou o rosto dela e ambos sorriram.

 

 

25. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA SARA – SALA

Sara abriu a porta para Carlos e virou as costas. Ela ainda estava chateda com ele.

 

Carlos: Vim trazendo uma oferta de paz. – ele esticou o braço com uma folha de papel na mão.

 

Sara: Tem que ser muito boa. – ela disse, pegando o papel e examinando o que estava escrito. – O que é isso?

 

Carlos: Você não queria um fisioterapeuta para a mamãe? Essa lista tem os melhores para o que ela precisa.

 

Sara ficou quieta olhando a lista e um sorriso brincou em seus lábios e não passou desapercebido pelo irmão.

 

Carlos: Então? Oferta de paz aceita?

 

Sara: Sim.

 

Os dois sentaram no sofá, e Sara continuou falando.

 

Sara: Então, o que veio fazer aqui?

 

Carlos: Trazer a lista.

 

Sara: Poderia ter enviado por e-mail.

Carlos: Sabia que tinha ficado chateada com a Carol, mas não imaginei que comigo também, pelo menos não tanto assim.

 

Sara: Você não devia encorajá-la a se manter focada só no casamento dela e esquecer os problemas ao redor dela.

 

Carlos: Você quer dizer a mamãe.

 

Sara: Sim. Ela nem foi vê-la ainda depois que recebeu alta.

 

Carlos: Ela só está assustada com isso tudo, Sara. Dê um tempo que ela vai superar.

 

 

26. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DE ROBERTO E CAROL – ESCRITÓRIO

[¯ – The Sun Will Rise, Brendan James]

Roberto tinha levado Larissa para a casa de Fernando, que levaria os filhos ao cinema e prometeu deixá-la em casa na volta, o que deu a chance de Roberto conversar com Carol.

 

Roberto: Ei… – ele falou enquanto sentou de frente para ela. – Eu preciso conversar com você, Carol.

 

Carol: Parece sério. – ela comentou enquanto largou o notebook de lado.

 

Roberto: É um pouco sim. Estou preocupado com você.

 

Carol: Comigo? Estou bem, só muito ocupada.

 

Roberto: Ocupada até demais. Você não foi ver sua mãe ainda desde que ela teve alta.

 

Carol: Mas eu liguei…

 

Roberto: E conversou com o Júnior e não com ela. O que está acontecendo?

 

Carol: Nada.

 

Roberto: Carol, eu te conheço, você não é assim.

 

Ela ficou quieta e abaixou a cabeça envergonhada.

 

Roberto: Eu não estou criticando, só quero entender.

 

Carol: Não consigo vê-la desse jeito. Minha mãe é a pessoa mais forte que eu conheço, ela criou cinco filhos, perdeu um irmão durante a ditadura, descobriu que meu pai tinha uma vida dupla depois de morrer, enfrentou os problemas do Júnior com as drogas…

Roberto: Você puxou isso dela, ser forte e determinada.

 

Carol: Nós brigamos muito, sempre discutindo, discordando de alguma coisa. Mas depois que voltei para o Rio e fui morar com ela, percebi que não somos tão diferentes assim.

 

Roberto viu quando uma lágrima rolou pelo rosto dela e enxugou com o polegar.

 

Carol: Eu tenho medo de perdê-la e entrar naquela casa sem ela, ou com ela ainda debilitada. Eu não consigo.

 

Roberto: Amanhã eu e você vamos até lá.

Carol: Eu…

 

Roberto: Ela não está melhor? Não é o que o Júnior falou? E o Carlos?

 

Carol: Sim.

Roberto: E talvez ela pode até te dar umas dicas com o casamento. Aposto que ela iria gostar.

 

Carol se aninhou nos braços de Roberto. Ela ainda não tinha certeza de ir visitar a mãe, mas se Roberto achava tão importante, talvez ele estivesse certo.

 

 

27. EXTERNA – NOITE – CASA DOS ANDRADES – QUINTAL

[¯ – Lullaby, Dixie Chicks]

 

Depois de passarem o dia junto em família, Tomás foi atrás de Caio para irem embora. O garoto estava sentado nos degraus que davam para os fundos da casa.

 

Tomás: Caio, nós já vamos para casa.

 

Caio: Já vou.

 

Ele esperou, mas o garoto não se moveu, então foi para junto dele.

 

Tomás: O que foi? Aconteceu alguma coisa?

 

Caio: Não. – ele negou com a cabeça enquanto respondia e então olhou para Tomás – Posso fazer uma pergunta?

 

Tomás: Claro, o que é?

Caio: Onde que está o bebê?

 

Tomás: Qual bebê?

 

Caio: O do quarto. Onde ele está?

 

Tomás não estava preparado para aquela pergunta, mas também não foi completamente inesperada, resolveu que o melhor era ser honesto com o garoto que ele aprendia a gostar cada dia mais como filho.

 

Tomás: O bebê se chamava Tiago, mas ele nunca chegou a ir para casa. Quando a Vitória ainda estava com ele na barriga, ela sofreu um acidente.

 

Caio: Por isso que ela não consegue andar?

 

Tomás: Sim. Ela ficou muito machucada e o Tiago também. Ele não tinha muita força pois era muito novinho então acabou morrendo.

 

Caio: Igual o meu pai.

Tomás: Sim, mas o seu pai foi quem ajudou a encontrar e prender o homem que causou o acidente.

 

Caio: Igual um super herói dos desenhos?

 

Tomás: Sim, igualzinho.

 

Caio: Vocês sentem saudade dele, não é? Do bebê.

 

Tomás: Sim, uns dias mais, outros menos, mas ele está feliz onde for com outros pais que estão cuidando dele. Igual eu e a Vitória estamos cuidando de você. Posso fazer uma pergunta agora?

 

Caio: Pode.

 

Tomás: Por quê você perguntou do bebê? Você quer ficar no quarto?

 

Caio: Não sei, acho que não. – respondeu e balançou os ombros – A Vitória pode ficar triste me vendo no quarto.

 

Tomás não sabia o que falar, então ficou quieto. Sem falar mais nada, os dois levantaram para ir embora para casa.

 

 

28. INTERNA – NOITE – CADA DOS ANDRADES – SALA

[¯ – Sina Nossa, O Teatro Mágico]

 

A casa estava quieta depois do dia movimentado. Se não bastasse Júnior rodeando Nora o dia inteiro, aquele dia ela teve ainda Tomás, Vitória e Sara.

 

Nora: Ainda bem que foram todos embora.

Diva: Pensei que gostasse da sua casa cheia com seus filhos.

 

Nora: Não para me vigiarem. Viu como eles ficaram o dia todo? ‘Não sai daí, eu pego para você’, ‘Está se sentindo bem?’, ‘Esta na hora do remédio.’. Me tratam feito criança.

 

Diva: É isso que acontece quando envelhecemos e começamos a ter problemas de saúde.

 

Nora: O que quer dizer com isso?

 

Diva: Você e Saulo fizeram o mesmo comigo.

 

Nora: Não foi assim.

 

Diva: Não? Eu sai da minha casa, passei a morar com o Saulo e agora com você.

 

Nora percebeu que sua mãe tinha razão em comparar. Ela agora sentia o que tinha feito por anos.

 

Nora: Por que nunca falou nada?

Diva: E adiantaria alguma coisa? Vocês dois são teimosos, e seus filhos puxaram isso de você, principalmente a Sara.

 

Nora: Se vale de alguma coisa, desculpa por ter assumido o controle da sua vida sem considerar o que queria.

 

Diva: Você só fez por que no fim eu acabei deixando.

 

 

29. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO TOMÁS – COZINHA

[¯ – The Sun Will Rise, Brendan James]

 

Caio já estava dormindo tranquilo em sua cama e Tomás e Vitória foram conversar na cozinha para não correr o risco de acordar o garoto.

 

Tomás: Preciso te contar da conversa que tive com o Caio lá na casa da minha mãe.

 

Vitória escuta enquanto o marido repete toda a conversa. Ela escuta quieta, sem saber o que falar. Depois Tomás conta o conselho que Nora deu a ele.

Vitória: O que você acha?

 

Tomás: Sei que a morte do nosso filho foi terrível e não vamos esquecer nunca, mas talvez minha mãe tenha razão.

Vitória: Tenho medo de que venhamos a substituir um pelo outro.

 

Tomás: Você sabe que isso não é possível. E ele merece ter um lugar nessa casa se quisermos que ele se sinta parte da família. O Tiago faz parte da nossa história, mas o Caio agora é nossa realidade.

 

Vitória: Tudo bem. – ela concordou depois de um tempo – Como vamos fazer isso, então? Arrumar o quarto, quero dizer.

Tomás: Tenho um plano.

 

Ele então começa a contar a idéia que teve para a esposa, que acaba gostando.

 

 

30. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DA VERA/APARTAMENTO DA REBECA – TELEFONE

[¯ – Hardest of Hearts, Florence and The Machines]

 

Vera pega o telefone e disca para Rebeca. Domingo, elas poderiam passar um tempo juntas.

 

Rebeca: Alô?

 

Vera: Beca, filha? Como vai?

 

Rebeca: Mãe! Tudo bem e você?

Vera: Tudo certo. Liguei para saber o que vai fazer hoje.

 

Rebeca: Vou visitar a Nora. Ela teve alta, você soube?

Vera: Sim. Mandei umas flores para ela.

Rebeca: Depois vou sair com o Murilo, ele vai me dar umas dicas de fotografia.

 

Vera: Murilo?

 

Rebeca: Ele é fotógrafo lá da agência.

 

Vera: Divirta-se então, e mande meus cumprimentos para a Nora.

 

Rebeca: Você precisa de alguma coisa, mãe? Eu posso cancelar meus planos com o Murilo.

Vera: Não de jeito nenhum. Você já tem planos, a gente pode combinar algo durante a semana.

 

Rebeca: Tem certeza?

 

Vera: Sim, pode ir. Estou bem.

 

Rebeca encerrou a ligação preocupada com sua mãe. Do outro lado, Vera sentia-se mais sozinha que antes. Pegou o telefone e começou a discar o número de Saulo, mas no meio desistiu e largou o aparelho de lado.

 

31. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – COZINHA

 

Nora, Diva e Júnior terminavam de tomar o café da manhã quando Carol e Roberto chegaram de surpresa.

 

Carol: Mamãe, como está bem! – ela surpreendeu-se.

 

Nora: Enfim alguém que reconhece. Não estou ainda completamente bem, preciso de um tempo para ficara como antes.

 

Roberto: Como antes não, melhor. Nada mais de sustos. – ele brincou.

 

Diva: E como vai a campanha?

 

Roberto: Ainda estamos na fase de organização das diretrizes da campanha. Nem adianta começar agora, o país só volta a funcionar direito depois do final da Copa do Mundo agora.

 

Diva: Pena que não voto mais, você já teria o meu.

 

Roberto: Obrigado, dona Diva. – ele agradeceu sorrindo.

 

Enquanto os quatro conversavam, Júnior atendeu ao telefone que tocava insistentemente.

 

Carol: Mamãe, se não atrapalhar sua recuperação, será que gostaria de me ajudar com os preparativos do casamento? A senhora também, vó Diva.

 

Nora: Claro! Vai ser ótimo! – ela aceitou entusiasmada.

 

Júnior que voltou para a cozinha com o telefone na mão e viu a cara de felicidade da mãe, coisa que há muito não via.

 

Júnior: Não sei o que vocês fizeram, mas ela não sorria assim desde que chegou em casa.

 

Roberto: Isso é coisa de mulher. Sua irmã só pediu a ajuda da Nora com o casamento.

 

Diva: Quem era?

Júnior: Ah, era o Tomás. Ele queria saber se eu não queria ir até a casa dele para ajudar a arrumar o quarto do Caio.

Nora: Pode ir. Vai se divertir.

 

Júnior: Não sei…

 

Carol: Pode ir, Ju. Eu fico aqui com a mamãe, assim ela já vai me ajudando desde já.

 

Nora: Isso! Aproveita e leva o Roberto junto. Ele não vai gostar de ficar ouvindo mulheres falando sobre tecidos e arranjos de flores.

 

Roberto: A senhora salvou minha pele. Para quem diz que sogras são um tormento, a minha é ótima.

Júnior: Puxa saco. – ele falou de lado dando risada.

 

Os dois homens saíram conversando depois que Júnior passou a lista que Sara tinha feito sobre os horários dos remédios.

 

 

32. INTERNA – DIA – APARTAMENTO DO TOMÁS – SALA

 

Tomás, Carlos, Júnior e Roberto se espalhavam no sofá. Os três mais velhos tinham uma lata de cerveja na mão, enquanto Júnior segurava um refrigerante. Na televisão um jogo qualquer de duas seleções.

Tomás: Esses jogos estão muito ruins. Nível técnico abaixo do normal.

 

Carlos: E nós ainda vamos conseguir perder.

 

Júnior: Já veio o agourento. Vira essa boca para lá.

 

Roberto: Carlos tem razão. Não vamos muito longe com o técnico que temos.

Tomás: Futebol a parte, obrigado pela ajuda. – falou e levantou-se – Vou pedir uma pizza e estourar pipoca para o resto do jogo.

 

Carlos: Eu vou junto para pegar outra cerveja. Alguém quer mais uma?

 

Os dois declinaram. Na cozinha, depois de ligar e pedir a pizza, Tomás e Carlos conversavam enquanto esperavam pela pipoca.

 

Carlos: Então, como está todo o processo de adoção? O que a advogada falou?

 

Tomás: Tudo deve correr bem e em seis meses o Caio será adotado por nós.

 

Carlos: Mas e a mãe?

 

Tomás: Ela largou o filho com o pai, não deve nem se lembrar dele.

Carlos: Se ela aparecer querendo o filho de volta o juiz pode deferir em favor dela. Quando deixou o Caio com o Lucas, ela assinou algum documento abrindo mão da guarda dele?

 

Tomás: Não.

 

Carlos: Então ela tem sim o direito de querer o filho de volta. Ela só consentiu que Lucas o criasse.

 

Tomás: E o que eu devo fazer? Procurar por essa mulher?

 

Carlos: Pelo menos procurar informações. Se ela não aparecer em seis meses o menino é de vocês.

Tomás: Não sei. Acho melhor não.

 

Carlos: Só me preocupo de vocês se apegarem ao menino e depois tirarem ele de vocês.

 

Tomás: Para começar, é Caio. Ele é seu sobrinho, Carlos, ou vai ser, em seis meses. É melhor aprender o nome dele. Segundo, se ela aparecer, não vai levar ele assim fácil. Quanto a me acostumar, já é tarde, não consigo imaginar ele não estando aqui.

 

Carlos: Bom, então só resta torcer para dar tudo certo.

 

Os dois voltam juntos para a sala onde o jogo estava prestes a recomeçar.

 

 

33. INTERNA – DIA – CASA DOS ANDRADES – QUINTAL

 

Como a tarde estava agradavelmente quente para uma tarde de inverno, Nora, Diva e Carol sentaram do lado de fora. Algumas horas depois Rebeca chegou trazendo flores, doces e revistas. Todos os favoritos de Nora.

 

Rebeca: Mamãe mandou desejar melhoras.

 

Nora: Por que ela não veio com você? Preciso agradecê-la pessoalmente. Se não fosse por ela e por você nem sei o que teria acontecido.

 

Rebeca: Que isso Nora, não fizemos nada demais.

 

Diva: Não, a Nora está certa. Você e sua mãe merecem o agradecimento de toda a família.

 

Carol: Vamos mudar de assunto, vocês duas estão deixando a garota envergonhada.

Nora: Então você nos ajuda com as decisões para o casamento da Carol.

 

As quatro passaram a tarde entre muita conversa e risadas até que Rebeca precisou ir. Quase nenhuma decisão tomada.

 

 

34. INTERNA – NOITE – APARTAMENTO DO TOMÁS

[¯ – Lullaby, Dixie Chicks]

 

Vitória e Caio chegaram no princípio da noite. Ela o tinha levado a casa de seus pais como parte do plano para Tomás arrumar o quarto dele.

 

Caio: Olha o que eu ganhei! – o menino mostrou os jogos que carregava na mão.

 

Tomás: Bem legal, mas por que você não guarda isso enquanto lanchamos?

 

O menino caminhou até o canto na sala onde seus brinquedos ficavam acumulados e não encontrou. Virou-se para os dois adultos com a dúvida no rosto.

 

Vitória: Por que não guarda no seu quarto?

 

Caio: Eu tenho um quarto?

 

Tomás: Sim. Olha ali seu nome na porta. – disse enquanto apontava para a porta.

 

Caio arregalou os olhos quando o quarto que sempre ficava de portas fechadas estava com seu nome escrito com letras entre carrinhos e bolas de futebol.

 

Tomás: Vamos, abra a porta e veja o que acha.

 

Caiou abriu a porta e o quarto parecia outro. O berço já não estava ali, no lugar, sua cama, com o lençol de seu super-herói favorito. Nas prateleiras muitos carrinhos, bonecos e legos. No canto uma mesa com cadeiras para ele brincar de desenhar e colorir, também estudar.

 

Caio: Isso tudo é meu?

 

Tomás: Sim. Queremos que você se sinta em casa e feliz com a gente.

 

Caio largou os jogos no chão e sentou-se na cama. Na mesinha de cabeceira, um abajur e dois porta retratos. Um era dele com Lucas na piscina o outro era do dia que ele, Tomás e Vitória foram ao zoológico.

 

Vitória: Então, o que achou?

 

O menino levantou-se da cama e foi para junto dos dois. Primeiro abraçou as pernas de Tomás e depois se jogou nos braços de Vitória. O casal se olhou sorrindo e realmente feliz depois de muito tempo.

 

 

35. INTERNA – MANHÃ – CASA DOS ANDRADES – ESCRITÓRIO

[¯ – The Sun Will Rise, Brendan James]

 

O dia amanhecia quando Nora levantou-se e viu a luz que vinha do escritório. Caminhou silenciosamente até lá e olhou Júnior debruçado sobre os livros, dormindo profundamente. Foi até ele e correu os dedos pelo cabelo.

Nora: Júnior, filho, acorda. Você vai ficar todo dolorido por dormir nessa posição.

Júnior: Mãe? Quantas horas são? – ele perguntou ainda atordoado pelo sono.

 

Nora: Quase seis horas da manhã e você dormiu enquanto estudava.

 

Júnior esfregava os olhos quando sentiu as mãos de sua mãe o puxando até as poltronas para conversar.

 

Nora: Você precisa começar a se concentrar mais nos estudos, filho.

 

Júnior: Eu sei mãe, mas…

 

Nora: Mas você está preocupado comigo. Acha que eu não percebi?

 

Júnior: Você cuidou de mim por tantos anos. Cuida até hoje. Eu vou fazer isso por você agora. Eu já adiei a faculdade por tantos anos, seis meses ou um ano não faz muita diferença.

 

Nora: Não. Você não vai fazer isso. Vai continuar a estudar, vai se concentrar e vai entrar na faculdade.

 

Júnior: Você ainda precisa de cuidados, mamãe.

 

Nora: Eu estou ciente disso, mas não precisa me tratar feito um bebê.

Júnior: Tive tanto medo de perdê-la, mamãe. Te causei tanto sofrimento e não podia imaginar você indo sem antes ter orgulho de mim.

 

Nora: Já tenho orgulho de você, Júnior. Sim, você cometeu erros, como qualquer jovem comete, mas teve força para superá-los. – ela parou e pensou um pouco antes de continuar – Vamos combinar o seguinte, vou me cuidar e fazer tudo que os médicos exigiram e você vai se concentrar nos estudos.

 

Júnior: Mas se precisar de qualquer coisa que não deve fazer…

Nora: Eu peço tua ajuda ou de um dos seus irmãos.

 

Os dois sacudiram as mãos aceitando o acordo e depois Júnior envolveu a mãe num abraço forte. Ambos ficaram imóveis saboreando o momento. Nora lembrou-se do sonho que teve quando ainda estava sedada e talvez seu pai, seu irmãos e Guilherme tivessem razão, ela ainda era necessária para aquela família.

 

 

CONTINUA…

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3 Respostas to “Sina Nossa”

  1. Gustavo Says:

    Salve galera!!!

    Cá estamos para mais um episódio.

    Vc’s vão me perdoar, mas ele foi meio morno…

    Como assim a Nora e D. Diva já estão em casa, principalmente essa última, sem ao menos dizer o que de fato aconteceu??

    Mas pelo menos o episódio teve duas passagens boas.

    A conversa da Carol com o Roberto sobre Nora e a arrumação do quarto do Caio. Elas me levaram às lágrimas.

    No mais, tudo dentro dos conformes.

    Que venha o terceiro, quarto, quinto…

    Abraços.

  2. Natie Says:

    Olá gente!

    Bom, fiquei bem surpresa em ver a Diva e a Nora tão bem, principalmente a Diva pq achei q ela ia nos deixar… Enfim, gostei de vcs não terem matado ela… rs…

    Aeee, finalmente a Carol resolveu encarar os fatos e ir visitar a mãe, né? Já tava preocupada com ela tbm, apesar de entendê-la… E foi legal a cena dela com Carlos escolhendo o vestido…

    Carlos sempre hilário, né? rs… Adorei ele no escritório mandando a Monica e a Pâmela chamarem o Diego de ‘Doutor Diego’! haha… Demais…

    A mãe do Caio é viva? Não lembrava disso… Sinto que problemas surgirão… E logo agora que Tomás e Vitória estão tão entusiasmados com ele! Aliás, gostei da cena que os irmãos e Roberto se reuniram para montar o quarto… =D

    Aaah, fiquei com pena da Vera…

    Até o próximo! Bjs…

    PS: Já tá na hora da Sara largar esse Marcelo!

  3. Julia Says:

    Um único comentário:

    Quero Sara e Ferdi juntoosss =D

    Mais um ótimo ep. Parabéns!

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